Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Guimel · Mishná 7 de 10

Proibida para sempre por uma hora

הוֹאִיל וְנֶאֶסְרָה עָלָיו שָׁעָה אֶחָת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná fecha o bloco das mishnayot de "estranha" com dois casos que testam o princípio de que uma proibição, ainda que momentânea, pode fixar-se para sempre; e conclui com a regra geral já citada de que todos os que morrem ou se divorciam libertam suas rivais.

Três irmãos, dois deles casados com duas irmãs, e um casado com uma estranha. Morreu um dos maridos das irmãs, e o casado com a estranha fez yibum com sua esposa, e morreu a esposa do segundo, e depois morreu o casado com a estranha — eis que esta é proibida a ele para sempre, pois foi proibida a ele por uma hora. Três irmãos, dois deles casados com duas irmãs, e um casado com uma estranha: um dos maridos das irmãs divorciou sua esposa, e morreu o casado com a estranha, e o que divorciou a desposou, e morreu — é isso que disseram: e todos os que morreram ou se divorciaram, suas rivais são permitidas.No primeiro caso, o irmão casado com a estranha faz yibum completo com a viúva da primeira irmã; nesse mesmo instante, a esposa do segundo irmão — irmã dessa viúva — já se torna proibida a ele, ainda que apenas potencialmente, como rival de uma relação de ervah. Quando essa segunda esposa morre pouco depois, e só então morre também o casado com a estranha, poder-se-ia pensar que, tendo desaparecido a irmã que causava a proibição, a estranha ficaria livre para o terceiro irmão. Mas a mishná ensina o princípio oposto: como ela já esteve proibida a ele "por uma hora" — mesmo que momentaneamente, enquanto a irmã ainda vivia —, essa proibição se fixa e permanece para sempre, mesmo depois que sua causa desaparece. No segundo caso, a ordem é diferente: um dos maridos das irmãs divorcia sua própria esposa antes que qualquer proibição chegasse a se formar; só depois morre o casado com a estranha, e é o próprio homem que já havia se divorciado quem, agora livre da esposa que causaria a proibição, desposa a estranha, e então morre. Como nunca houve, nesse caso, um momento em que a estranha estivesse de fato proibida, o divórcio prévio evita a fixação da proibição. A mishná fecha citando a fórmula geral já conhecida: todos os que morreram ou se divorciaram antes que a proibição se fixasse liberam suas rivais.

שְׁלֹשָׁה אַחִים, שְׁנַיִם מֵהֶן נְשׂוּאִים שְׁתֵּי אֲחָיוֹת, וְאֶחָד נָשׂוּי נָכְרִית, מֵת אֶחָד מִבַּעֲלֵי אֲחָיוֹת, וְכָנַס נָשׂוּי נָכְרִית אֶת אִשְׁתּוֹ, וּמֵתָה אִשְׁתּוֹ שֶׁל שֵׁנִי, וְאַחַר כָּךְ מֵת נָשׂוּי נָכְרִית, הֲרֵי זוֹ אֲסוּרָה עָלָיו עוֹלָמִית, הוֹאִיל וְנֶאֶסְרָה עָלָיו שָׁעָה אֶחָת. שְׁלֹשָׁה אַחִים, שְׁנַיִם מֵהֶן נְשׂוּאִין שְׁתֵּי אֲחָיוֹת, וְאֶחָד נָשׂוּי נָכְרִית, גֵּרֵשׁ אֶחָד מִבַּעֲלֵי אֲחָיוֹת אֶת אִשְׁתּוֹ, וּמֵת נָשׂוּי נָכְרִית, וּכְנָסָהּ הַמְּגָרֵשׁ, וָמֵת, זוֹ הִיא שֶׁאָמְרוּ, וְכֻלָּן שֶׁמֵּתוּ אוֹ נִתְגָּרְשׁוּ, צָרוֹתֵיהֶן מֻתָּרוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 18:18
וְאִשָּׁה אֶל אֲחֹתָהּ לֹא תִקָּח לִצְרֹר לְגַלּוֹת עֶרְוָתָהּ עָלֶיהָ בְּחַיֶּיהָ
E não tomarás uma mulher junto com sua irmã, para rivalizá-la, descobrindo sua nudez, além dela, enquanto ela viver.

O princípio de que uma proibição momentânea se fixa para sempre não está explícito no texto da Torá; é uma extensão dos Sábios ao raciocínio de que, uma vez que uma mulher se torna "irmã de esposa" para um homem em algum instante, essa condição a marca permanentemente, ainda que a esposa original morra depois. A razão é evitar que se pense que a proibição de "irmã de esposa" é meramente circunstancial, dependente do momento exato; tratando-a como permanente, a Torá protege o princípio de que a proibição de duas irmãs simultâneas é absoluta e definitiva, não uma questão de sorte na ordem dos acontecimentos. O segundo caso da mishná, por contraste, mostra que, quando a proibição nunca chegou a se formar — porque o divórcio ocorreu antes —, não há nada a se fixar.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, em seu comentário, registra que a Guemará não trata explicitamente do status da rival da estranha proibida "por uma hora", e oferece sua própria conclusão honesta sobre o caso, com preferência pela chalitzá.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 3:7
אֲבָל צָרָתָהּ, רְצוֹנִי לוֹמַר נָכְרִית, לֹא מָצִינוּ בָּהּ דִּין בַּגְּמָרָא וְלֹא דָּבָר לְאֶחָד מִן הַגְּאוֹנִים. וְהַדִּין אֶצְלִי בָּהּ שֶׁהִיא חוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבֶּמֶת, לְפִי שֶׁאֲנִי מְסֻפָּק אִם אֲסוּרָה מִשּׁוּם עֶרְוָה וְתִהְיֶה צָרָתָהּ פְּטוּרָה מִן הַחֲלִיצָה וּמִן הַיִּבּוּם, אוֹ אֲסוּרָה עָלָיו מִדְּרַבָּנָן... וְהִיא כְּמוֹ שְׁנִיָּה וְצָרַת שְׁנִיָּה אוֹ חוֹלֶצֶת אוֹ מִתְיַבֶּמֶת, וּלְפִיכָךְ תַּחֲלֹץ לְהַחְמִיר.

Rambam registra, com honestidade incomum, que a Guemará não trata explicitamente do status da rival da mulher proibida "por uma hora" — a esposa que o irmão casado com a estranha teria caso o cenário incluísse ainda outra mulher —, e que nenhum dos Gaonim tratou do assunto antes dele. Diante dessa lacuna, ele oferece sua própria conclusão: como está em dúvida se a proibição "por uma hora" equivale a uma ervah plena (que isentaria totalmente a rival) ou a uma proibição apenas rabínica semelhante às shniyot (que exigiria chalitzá ou permitiria yibum), ele decide pela posição mais rigorosa — chalitzá — como forma de resolver a dúvida com segurança.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que a proibição "por uma hora" se fixa permanentemente; Rashi, na Guemará, detalha as duas ordens de eventos e a diferença decisiva entre elas.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 3:7
שְׁלֹשָׁה אַחִים שְׁנַיִם מֵהֶם נְשׂוּאִין ב׳ אֲחָיוֹת וְאֶחָד נָשׂוּי נָכְרִית מֵת הַנָּשׂוּי נָכְרִית כוּ׳: זֶה מְבֹאָר גַּם כֵּן.

Rambam confirma que o mecanismo básico do primeiro caso — a fixação permanente da proibição "por uma hora" — segue diretamente do princípio já estabelecido de que a proibição de irmã de esposa, uma vez formada, não se desfaz com o desaparecimento posterior de sua causa.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 3:7
שָׁעָה אֶחָת. בִּנְפִילָה רִאשׁוֹנָה כְּשֶׁנָּפְלָה מֵאָחִיו הָרִאשׁוֹן, שֶׁאָז הָיְתָה אִשְׁתּוֹ קַיֶּמֶת וְהָיְתָה זֹאת אֲסוּרָה עָלָיו כְּאֵשֶׁת אָח שֶׁיֵּשׁ לוֹ בָּנִים. וְצָרָתָהּ הַנָּכְרִית לֹא אִתְפָּרֵשׁ דִּינָהּ, וּמִסְתַּבְּרָא דְּחוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבֶּמֶת.

Bartenura localiza precisamente o momento da proibição "por uma hora": durante a primeira queda, quando a viúva das irmãs caiu perante o casado com a estranha e ele ainda tinha sua própria esposa viva, essa mulher estava, naquele instante, proibida a ele como se fosse esposa de um irmão com filhos vivos — proibição de ervah. Bartenura confirma a posição de Rambam de que a estranha, rival dessa mulher, faz chalitzá e não yibum, embora reconheça que o próprio texto da Guemará não trata do ponto de forma explícita.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 30a
מַתְנִי׳ וְכָנְסָהּ הַמְּגָרֵשׁ וָמֵת — מֻתֶּרֶת זוֹ לְהִתְיַבֵּם, שֶׁהֲרֵי עַד שֶׁלֹּא כְנָסָהּ גֵּרֵשׁ אֶת הָרִאשׁוֹנָה שֶׁהִיא עֶרְוָה, וְלֹא הָיְתָה צָרָתָהּ מֵעוֹלָם: וְזֶהוּ שֶׁאָמְרוּ — בְּפֶרֶק רִאשׁוֹן, נִתְגָּרְשׁוּ הָעֲרָיוֹת צָרוֹתֵיהֶן מֻתָּרוֹת.

Rashi explica a segunda parte da mishná: como o irmão que se divorciou de sua esposa já o fez antes de qualquer proibição se formar, a estranha nunca chegou a ser rival de uma ervah — e por isso, quando ele mesmo a desposa depois e morre, ela está livre para o yibum sem restrição alguma. Rashi remete essa conclusão à regra geral já formulada no Perek Alef: quando as próprias mulheres proibidas por ervah se divorciam antes que a proibição se fixasse, suas rivais ficam permitidas.