Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Vav · Mishná 2 de 6

Quem tem relação com uma das relações proibidas torna-a desqualificada

פָּסַל, וְלֹא חָלַק בֵּין בִּיאָה לְבִיאָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A segunda mishná do perek estende o princípio da primeira — a irrelevância da intenção e a equivalência entre relação parcial e completa — para além do yibum: agora, ao efeito de desqualificar para a kehuná qualquer mulher com quem se tenha relação proibida.

E do mesmo modo, quem tem relação com uma das relações incestuosas proibidas na Torá, ou com mulheres desqualificadas — como viúva para o Sumo Sacerdote, ou divorciada e chalutzá para um kohen comum, ou mamzeret e netiná para um israelita, ou filha de israelita para um mamzer ou um natin —, desqualifica-a; e não distinguiu entre um tipo de relação e outro.Assim como na mishná anterior a relação com a cunhada adquire por completo independentemente da intenção de quem a realiza, aqui a mishná ensina que o mesmo vale para o efeito oposto: desqualificar. Quem tem relação — por engano ou de propósito, sob coação ou por vontade — com qualquer uma das relações proibidas listadas na Torá, torna essa mulher uma zoná, desqualificada para casar-se com um kohen. E o mesmo se aplica às uniões que, embora não sejam incestuosas propriamente ditas, são proibidas por outros motivos — como a viúva para o Sumo Sacerdote, a divorciada ou a que fez chalitzá para um kohen comum, a filha de mamzer ou de natin com um israelita, ou a filha de israelita com um mamzer ou um natin: em todos esses casos, a relação — completa ou apenas iniciada — já produz a desqualificação por completo, sem distinção alguma.

וְכֵן הַבָּא עַל אַחַת מִכָּל הָעֲרָיוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה, אוֹ פְסוּלוֹת, כְּגוֹן אַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל, גְּרוּשָׁה וַחֲלוּצָה לְכֹהֵן הֶדְיוֹט, מַמְזֶרֶת וּנְתִינָה לְיִשְׂרָאֵל, בַּת יִשְׂרָאֵל לְמַמְזֵר וּלְנָתִין, פָּסַל. וְלֹא חָלַק בֵּין בִּיאָה לְבִיאָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 21:7,14
אִשָּׁה זֹנָה וַחֲלָלָה לֹא יִקָּחוּ... אַלְמָנָה, וּגְרוּשָׁה, וַחֲלָלָה זֹנָה, אֶת אֵלֶּה לֹא יִקָּח, כִּי אִם בְּתוּלָה מֵעַמָּיו יִקַּח אִשָּׁה
Mulher prostituta ou profanada não tomarão... viúva, divorciada, ou profanada, prostituta — a estas não tomará; senão virgem dentre o seu povo tomará por mulher.

A Torá proíbe ao kohen casar-se com uma mulher que se tornou zoná, e ao Sumo Sacerdote proíbe até mesmo a viúva. A Guemará ensina que a relação proibida — com qualquer uma das relações incestuosas listadas em Vayikrá 18 e 20, ou com um mamzer, um natin, ou outra união desqualificante — já torna a mulher uma zoná nos termos deste verso, tornando-a proibida à kehuná dali em diante, independentemente de ter havido intenção, consciência ou consentimento no ato.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, em seu comentário, explica por que mesmo a relação sob coação desqualifica para a kehuná, embora não desqualifique a mulher para seu próprio marido israelita.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 6:2
כָּל הַבָּא עַל אַחַת מִכָּל הָעֲרָיוֹת הָאֲמוּרוֹת בַּתּוֹרָה, בֵּין בְּאֹנֶס בֵּין בְּרָצוֹן, בֵּין בְּשׁוֹגֵג בֵּין בְּמֵזִיד, פְּסָלָהּ מִן הַכְּהֻנָּה, לְפִי שֶׁעֲשָׂאָהּ זוֹנָה, אַף עַל פִּי שֶׁהִיא מֻתֶּרֶת לְבַעְלָהּ אִם הָיְתָה אֲנוּסָה וְהִיא אֵשֶׁת יִשְׂרָאֵל, לְפִי שֶׁהָעִקָּר אֶצְלֵנוּ אֹנֶס בְּיִשְׂרָאֵל מִשְׁרָא שָׁרֵי.

Rambam explica que quem tem relação com qualquer uma das relações proibidas da Torá — sob coação ou por vontade, por engano ou de propósito — desqualifica-a para a kehuná, pois a relação proibida a transforma em zoná nos termos da lei. Isso vale mesmo quando ela estava sob coação e é esposa de um israelita comum: quanto ao seu próprio casamento, a regra é que a coação não proíbe uma mulher de Israel a seu marido, e ela permanece permitida a ele; mas quanto à kehuná, a mera ocorrência da relação proibida já basta para desqualificá-la, sem que a coação a livre dessa consequência específica.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura distingue as duas categorias de mulheres mencionadas na mishná — as relações incestuosas propriamente ditas e as uniões apenas desqualificantes —; Rashi, na Guemará, localiza a fonte da desqualificação das uniões com quem é proibido por preceito negativo.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 6:2
כְּמוֹ כֵן בַּת יִשְׂרָאֵל לְמַמְזֵר וְלֹא נָתִין נַעֲשֵׂית זוֹנָה. וְכֵן אַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל, גְּרוּשָׁה וַחֲלוּצָה לְכֹהֵן הֶדְיוֹט, נַעֲשֵׂית חֲלָלָה, אֲפִלּוּ בְּאֹנֶס אוֹ בִּשְׁגָגָה.

Rambam completa a explicação distinguindo dois efeitos diferentes que a mishná reúne sob a mesma regra: a relação com um mamzer ou um natin torna a bat-israel uma zoná, desqualificada para a kehuná; já a relação da viúva com o Sumo Sacerdote, ou da divorciada e da chalutzá com um kohen comum, produz um efeito ainda mais grave — torna a mulher uma chalalá, profanada, o que afeta não apenas ela, mas também os filhos que viria a ter de um kohen. E ambos os efeitos ocorrem mesmo quando a relação foi sob coação ou por engano, sem qualquer intenção da mulher.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 6:2
מַמְזֶרֶת וּנְתִינָה לְיִשְׂרָאֵל. לָאו אַפְּסוּלָה לִכְהֻנָּה קָאֵי, דְּהָא פְּסוּלָה וְקַיְמָא, אֶלָּא לְעִנְיַן הַעֲרָאָה נָקַט לֵיהּ, לְמִלְקֵי עֲלָהּ בְּהַעֲרָאָה כִּגְמַר בִּיאָה.

Bartenura observa que, quando a mishná menciona "mamzeret e netiná para um israelita", não está ensinando que essa relação as desqualifica para a kehuná — pois elas já nascem desqualificadas, sendo mamzeret ou netiná por definição. O ponto que a mishná vem ensinar aqui é outro: que também nesse caso a relação parcial, a ha'ará, já basta para que o israelita receba as chicotadas prescritas pela Torá, exatamente como se tivesse completado a relação por inteiro — reforçando, mais uma vez, que a Torá não distingue entre os graus da relação para nenhum efeito, seja de aquisição, seja de proibição.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 55b
בִּיאָה בִּיאָה — מֵחַיָּיבֵי לָאוִין, דִּכְתִיב בְּהוּ ״לֹא יָבֹא מַמְזֵר״.

Rashi explica a técnica de derivação usada pela Guemará para estender a regra da mishná às uniões proibidas por um preceito negativo — como a de mamzer ou natin com bat-israel — a partir da palavra "relação", que se repete tanto em relação aos preceitos negativos gerais quanto ao verso "não entrará o mamzer na congregação do Eterno". Essa comparação verbal ensina que a força da relação proibida para desqualificar não se restringe às relações incestuosas propriamente ditas, mas se estende também às uniões vedadas por um simples "não farás" da Torá — confirmando o alcance amplo que a mishná dá à palavra "uma das relações proibidas da Torá, ou desqualificadas".