Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Vav · Mishná 3 de 6

Viúva ao Sumo Sacerdote e divorciada ao kohen comum: do erusin ou do nissuin

מִן הָאֵרוּסִין לֹא יֹאכְלוּ בַתְּרוּמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A terceira mishná desloca o foco: já não trata da relação, mas do simples desposório — o erusin — entre um kohen e uma mulher que lhe é proibida, e do direito dela de comer da teruma da casa paterna enquanto isso.

A viúva desposada por um Sumo Sacerdote, ou a divorciada e a chalutzá desposadas por um kohen comum, ainda no estágio do erusin, não comem da teruma. Rabi Eliezer e Rabi Shimon consideram-nas aptas. Se enviuvaram ou se divorciaram — dos respectivos maridos —, ficam desqualificadas se isso ocorreu depois do nissuin; ficam aptas se ainda no erusin.Uma filha de kohen tem, por direito de nascença, permissão para comer da teruma da casa de seu pai. A mishná ensina que, no momento em que ela é desposada por um homem proibido para ela — como o Sumo Sacerdote desposando uma viúva, ou um kohen comum desposando uma divorciada ou uma chalutzá —, mesmo que ainda não tenha havido nissuin nem relação alguma, ela já perde esse direito: o simples erusin com um homem proibido já a afasta da teruma paterna, pois ela agora está "reservada" para uma relação proibida, e essa reserva já basta para excluí-la. Rabi Eliezer e Rabi Shimon discordam, considerando-a apta a comer até que a relação proibida realmente ocorra. E a mishná acrescenta: se, depois de desposada, o marido morre ou a divorcia, o resultado depende do estágio em que isso ocorreu — se já havia nissuin, e portanto relação, ela ficou definitivamente desqualificada mesmo depois da separação; mas se ainda estava apenas no erusin, sem relação alguma, ela volta a ser apta, pois nunca chegou a se realizar a união proibida.

אַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל, גְּרוּשָׁה וַחֲלוּצָה לְכֹהֵן הֶדְיוֹט, מִן הָאֵרוּסִין לֹא יֹאכְלוּ בַתְּרוּמָה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַכְשִׁירִין. נִתְאַרְמְלוּ אוֹ נִתְגָּרְשׁוּ, מִן הַנִּשּׂוּאִין פְּסוּלוֹת, מִן הָאֵרוּסִין כְּשֵׁרוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 22:12-13
וּבַת כֹּהֵן כִּי תִהְיֶה לְאִישׁ זָר, הִוא בִּתְרוּמַת הַקֳּדָשִׁים לֹא תֹאכֵל. וּבַת כֹּהֵן כִּי תִהְיֶה אַלְמָנָה וּגְרוּשָׁה, וְזֶרַע אֵין לָהּ, וְשָׁבָה אֶל בֵּית אָבִיהָ כִּנְעוּרֶיהָ, מִלֶּחֶם אָבִיהָ תֹּאכֵל
E a filha de kohen que se tornar de um homem estranho, ela da teruma das coisas sagradas não comerá. E a filha de kohen que enviuvar ou se divorciar, sem descendência, e voltar à casa de seu pai como em sua juventude, do pão de seu pai comerá.

A Torá liga o direito da filha de kohen à teruma diretamente ao seu vínculo matrimonial: uma vez "de um homem estranho", ela perde o direito; uma vez livre desse vínculo e de volta à casa paterna, recupera-o. A disputa da mishná gira em torno de saber se o mero erusin com um homem proibido já conta como estar "de um homem estranho" nos termos desse verso — a posição da mishná —, ou se apenas a relação de fato a retira do direito à teruma, como sustentam Rabi Eliezer e Rabi Shimon.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam fixa a halachá contra Rabi Eliezer e Rabi Shimon: mesmo no erusin, a mulher desposada por um kohen proibido já fica impedida de comer da teruma.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 6:3
אַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל, גְּרוּשָׁה וַחֲלוּצָה לְכֹהֵן הֶדְיוֹט, מִן הָאֵרוּסִין לֹא יֹאכְלוּ בַתְּרוּמָה, לְפִי שֶׁהֵן מְשַׁמְּרוֹת לְבִיאָה פְּסוּלָה, וּלְפִיכָךְ לֹא יֹאכְלוּ. וְאֵין הֲלָכָה לֹא כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְלֹא כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Rambam explica a razão da mishná: essas mulheres, ainda no erusin, já estão "reservadas" para uma relação que será proibida quando o nissuin se completar — e é essa condição de reserva para uma relação futura desqualificante que já as impede de comer da teruma paterna desde o momento do erusin, sem esperar pela relação em si. E Rambam fixa a halachá contra ambos os dissidentes: nem como Rabi Eliezer, nem como Rabi Shimon, que as consideram aptas até a relação efetiva — a halachá segue a opinião anônima da mishná.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a base escriturística da opinião de Rabi Eliezer e Rabi Shimon e o motivo por que a halachá não os segue; Rashi, na Guemará, mostra como a própria mishná serve de prova para o princípio de que a chuppá equivale à relação para desqualificar da teruma.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 6:3
נִתְאַלְמְנוּ אוֹ נִתְגָּרְשׁוּ, אֵלּוּ הַנָּשִׁים הַכֹּהֲנוֹת מִן הַנִּשּׂוּאִין פְּסוּלוֹת לֶאֱכֹל בַּתְּרוּמָה, לְפִי שֶׁנִּתְחַלְּלוּ בַּבְּעִילָה שֶׁנִּבְעֲלוּ. מִן הָאֵרוּסִין כְּשֵׁרוֹת לֶאֱכֹל בַּתְּרוּמָה, לְפִי שֶׁלֹּא נִבְעֲלוּ וְלֹא נִתְחַלְּלוּ.

Rambam esclarece a segunda parte da mishná: se essas mulheres kohanot enviuvaram ou se divorciaram depois de já terem entrado em nissuin com o kohen proibido, ficam definitivamente desqualificadas para comer da teruma, pois a relação que efetivamente ocorreu já as tornou chalalot, profanadas — um status permanente que não se desfaz com o fim do casamento. Mas se a separação ocorreu ainda no estágio do erusin, sem que a relação chegasse a se realizar, elas voltam a ser aptas para a teruma, pois nunca houve relação nem profanação real — apenas a reserva temporária que o erusin implicava.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 6:3
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַכְשִׁירִין. עַד שֶׁתִּבָּעֵל וְתֵעָשֶׂה חֲלָלָה, שֶׁנֶּאֱמַר וְלֹא יְחַלֵּל, שְׁנֵי חִלּוּלִין, אֶחָד לָהּ וְאֶחָד לְזַרְעָהּ. וְלֵית הִלְכָתָא כְּוָתַיְהוּ, אֶלָּא אַף מִן הָאֵרוּסִין לֹא יֹאכְלוּ בַתְּרוּמָה.

Bartenura explica a base de Rabi Eliezer e Rabi Shimon: eles leem o verso "e não profanará sua descendência" como ensinando que há dois tipos de profanação — uma para a própria mulher e outra para sua descendência —, e concluem que apenas a relação efetiva, não o simples erusin, produz a profanação que desqualifica da teruma. Mas a halachá não segue essa leitura: mesmo apenas desposada, ainda no erusin, a mulher já fica impedida de comer da teruma de seu pai, pois a mera reserva para uma relação proibida já basta, segundo a opinião que prevalece.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 57b
יֵשׁ חֻפָּה לִפְסוּלוֹת — כֹּהֵן גָּדוֹל שֶׁהִכְנִיס אַלְמָנָה בַּת כֹּהֵן לְחֻפָּה וְלֹא בָא עָלֶיהָ, וּמֵעִיקָּרָא נַמִּי לֹא קִדְּשָׁהּ, אֲפִלּוּ הָכִי פְּסָלָהּ מִתְּרוּמָה דְּבֵי נַשָּׁא, דְּחֻפָּה כִּכְנִיסַת בְּעִילָה דָּמְיָא.

Rashi explica um ponto adicional discutido a partir desta mishná: mesmo quando não houve erusin algum de início — apenas a chuppá, a entrada da mulher sob o teto do Sumo Sacerdote proibido, sem qualquer relação —, essa chuppá sozinha já a desqualifica da teruma da casa de seu pai, pois a Guemará equipara a chuppá à entrada para a relação: aos olhos da halachá, é como se a relação já tivesse ocorrido para este efeito específico. Esse princípio — "há chuppá para as desqualificadas" — mostra que a mishná não fala apenas do erusin formal, mas de qualquer estágio em que a mulher já esteja "reservada" de fato para o kohen proibido.