Abrindo o Perek Yud, a mishná enuncia o primeiro dos dois princípios gerais que governam a ordem de sacrifício no Templo quando duas ofertas concorrem para o mesmo momento: a que ocorre com maior regularidade precede a que ocorre com menor. O restante do capítulo aplicará esse princípio, e seu par — o da maior santidade — a toda a hierarquia dos sacrifícios.
Toda oferenda que é mais frequente que sua companheira precede a companheira. — A mishná enuncia o primeiro dos dois princípios de precedência que organizarão todo o Perek Yud: quando duas ofertas concorrem para o mesmo momento de oferecimento, a que ocorre com maior regularidade é sacrificada primeiro, independentemente de outros fatores.
Por isso, as ofertas contínuas precedem as ofertas adicionais. — O tamid, oferecido toda manhã e tarde, todos os dias do ano, precede qualquer musaf, que se acrescenta apenas em dias determinados — Shabat, Rosh Chodesh, festas — por ser, ainda que menos sagrado em alguns casos, muito mais frequente.
Quando Shabat e a Lua Nova coincidem, as ofertas adicionais de Shabat precedem as ofertas adicionais de Rosh Chodesh. — O musaf semanal, repetido cinquenta e duas vezes ao ano, é mais frequente que o musaf mensal, repetido apenas doze vezes — e por isso precede, ainda que as adicionais de Rosh Chodesh envolvam mais animais.
Da mesma forma, as ofertas adicionais de Rosh Chodesh precedem as ofertas adicionais de Rosh HaShaná. — pelo mesmo raciocínio: o musaf mensal é mais frequente que o musaf anual de Rosh HaShaná, ainda que este seja, em certo sentido, mais solene.
Como está dito: “Além da oferenda queimada da manhã, que é para a oferenda queimada contínua, fareis estas.” — A mishná cita a fonte do princípio: o versículo, dito a respeito das adicionais do primeiro dia de Pessach, pressupõe que a oferenda contínua da manhã já foi feita antes que as adicionais sejam trazidas — ensinando que o contínuo precede o adicional, e, por extensão, que o mais frequente sempre precede o menos frequente.
Rambam explica que tadir (frequente) é a tradução aramaica de tamid (contínuo) — “tadirá” — e que todo o conteúdo desta mishná já está claro por si mesmo, tendo sido explicado no início deste Seder Kodashim.
Bartenura traz a fonte bíblica do princípio: está escrito “além da oferenda queimada da manhã, que é para a oferenda queimada contínua”. Já que o versículo diz “além da oferenda queimada da manhã”, isso subentende que ela já foi feita — donde se aprende que as ofertas contínuas precedem as adicionais. Pergunta então por que a Torá precisou acrescentar “que é para a oferenda queimada contínua”, se é óbvio que a oferenda queimada da manhã é a própria oferenda contínua: a resposta é que a Torá quis explicitar que a razão de sua precedência é a frequência, para que se aprenda daí que todas as demais ofertas frequentes também precedem — pois, quanto a ela mesma, não seria necessário esclarecer esse motivo.
Rashi esclarece com um exemplo concreto o que significa “mais frequente”: o Shabat é mais frequente que Rosh Chodesh, pois recorre a cada sete dias, contra uma vez por mês — e assim se aplica a toda a cadeia da mishná, sempre comparando o que se repete com maior regularidade ao que se repete com menor. Sobre o versículo citado, nota que a expressão “além da oferenda queimada da manhã” pressupõe que essa oferenda contínua “já foi feita” antes das adicionais — donde a guemará deriva que as ofertas contínuas precedem as ofertas adicionais.