Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Hei · Mishná 3 de 8

As oferendas de pecado da comunidade: quatro aplicações nos quatro chifres

שְׂעִירֵי רָאשֵׁי חֳדָשִׁים וְשֶׁל מוֹעֲדוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A terceira mishná desce um degrau na escala de santidade: trata-se agora das oferendas de pecado — comunitárias e individuais — cujo sangue não entra no Santuário, mas é aplicado nos quatro chifres do altar externo. A mishná descreve com precisão topográfica o percurso do sacerdote sobre a borda do altar para realizar as quatro aplicações.

As oferendas de pecado da comunidade e do indivíduo. Estas são as oferendas de pecado da comunidade: os bodes das luas novas e das festas.A mishná passa agora às oferendas de pecado que não são do tipo “interno” (cujo sangue entra no Santuário) — são as oferendas de pecado ditas “externas”, comuns tanto à comunidade quanto ao indivíduo. Como exemplo das comunitárias, cita os bodes trazidos como oferenda de pecado no início de cada mês (Rosh Chodesh) e nas festas.

Seu abate é no norte, e a recepção de seu sangue em vaso de serviço é no norte, e seu sangue requer quatro aplicações sobre quatro chifres.Como toda oferenda de pecado, também estas exigem abate e recepção do sangue no norte; mas, diferentemente das oferendas de santidade suprema já tratadas, seu sangue não é aspergido no Santuário, e sim aplicado nos quatro chifres salientes do altar externo.

Como? Subia pela rampa e virava para o contorno, e vinha ao chifre sudeste, nordeste, noroeste, sudoeste.A mishná detalha o percurso: o sacerdote subia pela rampa de acesso ao altar e, ao chegar ao topo, virava para a borda estreita (sovev) que contorna o altar, caminhando sempre à sua direita — primeiro ao chifre sudeste (o mais próximo, às suas costas ao subir), depois ao nordeste, ao noroeste e por fim ao sudoeste, completando assim as quatro aplicações em sentido horário.

O restante do sangue, ele derramava sobre a base sul. E são comidas para dentro das cortinas, pelos machos do sacerdócio, em qualquer forma de alimento, por um dia e uma noite, até a meia-noite.Ao contrário das oferendas “internas”, cujo resto de sangue vai à base ocidental (por proximidade à saída do Santuário), aqui o resto vai à base sul, próxima ao ponto de descida da rampa. Sua carne, por sua vez, só pode ser consumida dentro do pátio do Templo, exclusivamente por sacerdotes do sexo masculino, e apenas até a meia-noite seguinte ao abate — embora a Torá permita, em princípio, até o amanhecer.

חַטֹּאות הַצִּבּוּר וְהַיָּחִיד. אֵלּוּ הֵן חַטֹּאות הַצִּבּוּר, שְׂעִירֵי רָאשֵׁי חֳדָשִׁים וְשֶׁל מוֹעֲדוֹת, שְׁחִיטָתָן בַּצָּפוֹן, וְקִבּוּל דָּמָן בִּכְלִי שָׁרֵת בַּצָּפוֹן, וְדָמָן טָעוּן אַרְבַּע מַתָּנוֹת עַל אַרְבַּע קְרָנוֹת. כֵּיצַד. עָלָה בַכֶּבֶשׁ וּפָנָה לַסּוֹבֵב, וּבָא לוֹ לְקֶרֶן דְּרוֹמִית מִזְרָחִית, מִזְרָחִית צְפוֹנִית, צְפוֹנִית מַעֲרָבִית, מַעֲרָבִית דְּרוֹמִית. שְׁיָרֵי הַדָּם הָיָה שׁוֹפֵךְ עַל יְסוֹד דְּרוֹמִי. וְנֶאֱכָלִין לִפְנִים מִן הַקְּלָעִים לְזִכְרֵי כְהֻנָּה בְּכָל מַאֲכָל לְיוֹם וָלַיְלָה עַד חֲצוֹת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 5:3
כְּבָר זָכַרְנוּ בִּתְחִלַּת דְּבָרֵינוּ בְּמַסֶּכְתָּא זוֹ כָּל הַחַטָּאוֹת שֶׁל יָחִיד וְצִבּוּר... וְאָמַר בְּסִפְרֵי זֶה יְסוֹד דְּרוֹמִי שֶׁהוּא הַקָּרוֹב אֵלָיו בְּרִדְתּוֹ מִן הַמִּזְבֵּחַ, לְפִי שֶׁהַכֶּבֶשׁ שֶׁעוֹלִין בּוֹ לַמִּזְבֵּחַ הוּא בִּדְרוֹמוֹ שֶׁל מִזְבֵּחַ... וְהָעִקָּר בְּיָדֵנוּ כָּל פִּנּוֹת שֶׁאַתָּה פּוֹנֶה יִהְיוּ דֶּרֶךְ יָמִין לַמִּזְבֵּחַ.

Rambam explica que o resto do sangue é derramado na base sul porque se aprende, por analogia, que assim como na saída do Santuário o sacerdote derrama o resto na base mais próxima (a ocidental), também na descida da rampa ele o derrama na base mais próxima — a sul, já que a rampa fica no lado sul do altar. Enuncia ainda o princípio geral, válido em todo o Templo, de que toda viração de esquina deve ser feita sempre à direita, nunca à esquerda — daí o percurso sudeste → nordeste → noroeste → sudoeste.

Bartenura · Zevachim 5:3
עָלָה בַכֶּבֶשׁ וּפָנָה לַסּוֹבֵב. מִפְּנֵי שֶׁדָּמָהּ נִתָּן עַל הַקְּרָנוֹת וּבְאֶצְבַּע, צָרִיךְ לַעֲמוֹד עַל גַּבֵּי סוֹבֵב... וּבָא לוֹ לְקֶרֶן דְּרוֹמִית מִזְרָחִית. שֶׁבָּהּ הוּא פּוֹגֵעַ רִאשׁוֹן, כִּדְקַיְמָא לָן כָּל פִּנּוֹת שֶׁאַתָּה פוֹנֶה לֹא יִהְיוּ אֶלָּא דֶּרֶךְ יָמִין... עַל יְסוֹד דְּרוֹמִי. דְּיָלְפִינַן יְרִידָתוֹ מִן הַכֶּבֶשׁ בַּחַטָּאוֹת הַחִיצוֹנוֹת... מִיְּצִיאָתוֹ מִן הַהֵיכָל. לִפְנִים מִן הַקְּלָעִים. לְפִי שֶׁבַּמִּשְׁכָּן הָיוּ קְלָעִים הֶקֵּף לַחֲצַר אֹהֶל מוֹעֵד. עַד חֲצוֹת. סְיָג עָשׂוּ חֲכָמִים לַתּוֹרָה לְהַרְחִיק אֶת הָאָדָם מִן הָעֲבֵרָה.

Bartenura explica que o sacerdote precisa subir à borda do altar porque as aplicações nos chifres são feitas com o dedo, exigindo proximidade; que o primeiro chifre alcançado é o sudeste porque, subindo pela rampa (situada ao sul) e virando sempre à direita, é o primeiro que se encontra; que o resto do sangue vai à base sul por analogia com a saída do Santuário; que “dentro das cortinas” remete às cortinas que cercavam o pátio do Tabernáculo, equivalentes à muralha do pátio no Templo; e que o limite da meia-noite é uma cerca rabínica para afastar a pessoa da transgressão do limite bíblico, que na verdade se estende até o amanhecer.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 53a (1)
עָלָה בַכֶּבֶשׁ וּפָנָה לַסּוֹבֵב — מִפְּנֵי שֶׁדָּמָהּ נִיתָּן לְמַעְלָה עַל הַקְּרָנוֹת וּבְאֶצְבַּע, צָרִיךְ לַעֲמוֹד עַל גַּבֵּי סוֹבֵב, אֲבָל בְּכָל שְׁאָר הַדָּמִים... עוֹמֵד עַל הָרִצְפָּה אֵצֶל זָוִית הַמִּזְבֵּחַ וְזוֹרֵק מִן הַכְּלִי.

Rashi explica por que, só neste caso, o sacerdote precisa subir à borda estreita do altar: como o sangue é aplicado em altura, nos chifres, e com o dedo (não por aspersão à distância), é necessário ficar em pé junto ao próprio chifre. Nos demais sangues, que são mais baixos, o sacerdote permanece no chão, junto ao canto do altar, e arremessa o sangue diretamente do vaso.

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 53a (2)
לְפָנִים מִן הַקְּלָעִים — לְפִי שֶׁבַּמִּשְׁכָּן הָיוּ קְלָעִים הֶקֵּף לַחֲצַר אֹהֶל מוֹעֵד... לְזִכְרֵי כְהוּנָה — דִּכְתִיב הַכֹּהֵן הַמְחַטֵּא אוֹתָהּ, לְאַפּוֹקֵי נָשִׁים שֶׁאֵינָן רְאוּיוֹת לְחִטּוּי. עַד חֲצוֹת — סְיָג עָשׂוּ חֲכָמִים לַתּוֹרָה לְהַרְחִיק אָדָם מֵעֲבֵרַת כָּרֵת.

Rashi liga “dentro das cortinas” às cortinas que, no Tabernáculo do deserto, cercavam o pátio da Tenda do Encontro; explica que “machos do sacerdócio” exclui as mulheres, pois o versículo fala de “o sacerdote que a purifica” no masculino; e confirma que o limite da meia-noite é uma cerca dos sábios para manter distância segura da transgressão que acarreta caret, embora o texto bíblico permita comer até o amanhecer.