O daf abre respondendo à pergunta com que fechou 14a: qual dos dois decretos relacionados às mãos foi promulgado primeiro — o decreto geral sobre as mãos, ou o decreto específico sobre as mãos que tocaram um rolo sagrado desnudo? A Guemará conclui que o decreto sobre o toque no rolo veio primeiro, e só depois os sábios estenderam a impureza a todas as mãos, indistintamente. Em seguida, a Guemará observa que a lista dos dezoito decretos não inclui o tevul yom (aquele que já imergiu mas ainda aguarda o pôr do sol para completar sua purificação), e explica que essa omissão se deve ao fato de que a impureza do tevul yom para com a teruma já está prescrita na própria Torá, não sendo, portanto, um decreto rabínico. A Guemará então percorre o motivo dos decretos sobre alimentos tornados impuros por líquidos, e sobre utensílios tornados impuros por líquidos, mostrando como cada um desses casos deriva, por analogia ou por temor de confusão, de um caso já impuro por lei da própria Torá. Por fim, o daf passa a uma extensa investigação sobre quem exatamente decretou a impureza geral sobre as mãos: uma baraita atribui esse decreto a Shamai e Hilel, mas a Guemará compara essa atribuição com a lista de decretos de Yossi ben Yoezer, Yossi ben Yochanan e Shimon ben Shatach, e discute os "três lugares" em que Hilel e Shamai divergiram, chegando à distinção entre um primeiro decreto (para "suspender" a teruma) e um decreto posterior de seus próprios discípulos (para queimá-la), conforme o dito de Ilfa. O daf fecha mencionando que ainda antes de Hilel e Shamai, o próprio Rei Salomão já havia promulgado decretos — ao instituir o eiruv e a lavagem das mãos — e que uma voz celestial (bat kol) reagiu a esse ato, citando versículos de Provérbios; o relato é interrompido no ponto exato em que prossegue em Shabbat 15a, mostrando que Salomão decretara originalmente apenas para os itens consagrados, e que os sábios posteriores estenderam seu decreto também à teruma.
Uma vez que este (decreto geral sobre as mãos) tivesse sido promulgado primeiro, para que precisaria eu (ainda) deste (decreto específico sobre as mãos que tocaram o rolo)? Mas sim: aquele (o decreto específico do rolo) foi promulgado primeiro, e depois (os sábios) decretaram sobre todas as mãos (indistintamente).
A Guemará resolve a pergunta aberta ao final de 14a, sobre a ordem cronológica entre o decreto geral de impureza das mãos e o decreto específico das mãos que tocaram um rolo sagrado desnudo. O argumento é de economia lógica: se o decreto geral já existisse desde o início — tornando toda mão impura por padrão, capaz de invalidar a teruma —, não haveria necessidade alguma de um decreto adicional e específico apenas para as mãos que tocaram o rolo, pois esse caso já estaria coberto pela regra geral. Como a baraita menciona o decreto do rolo como algo à parte, digno de menção própria, conclui-se que ele veio primeiro, isoladamente, e que só depois disso os sábios ampliaram o decreto para abranger todas as mãos, sem exceção, tornando o caso do rolo apenas um subconjunto — agora redundante, mas historicamente anterior — da regra mais ampla.
"Para que precisaria eu ainda deste" — pois este (caso do rolo) já sairia (incluído) na regra geral das mãos.
Mas sim: "este foi promulgado primeiro" — pois sobre as mãos, por padrão, ainda não haviam decretado, próximo (no tempo), que seu toque invalidasse a teruma.
"E o tevul yom" (quem já imergiu, mas ainda aguarda o pôr do sol) — (mas) o tevul yom é (impureza) da própria Torá, pois se escreve: "e se põe o sol, e fica puro" (Levítico 22:7, implicando que antes do pôr do sol ainda não está totalmente puro)! (Conclui-se, portanto:) Apague-se daqui o tevul yom (da lista dos dezoito decretos rabínicos).
A Guemará examina outro item que por vezes aparece associado à lista dos dezoito decretos: o caso do tevul yom, ou seja, alguém que já completou a imersão ritual mas ainda precisa aguardar o pôr do sol para estar totalmente puro para efeitos de consumir teruma. A Guemará objeta que esse caso não pode ser contado como um decreto rabínico, pois a própria Torá já estabelece que essa pessoa permanece de algum modo impura em relação à teruma até o pôr do sol, como indica o versículo "e se põe o sol, e fica puro" — a expressão "fica puro" só faz sentido se, antes do pôr do sol, a pessoa ainda não estivesse plenamente pura, mesmo já tendo imergido. Sendo, portanto, uma impureza bíblica e não uma inovação dos sábios, a Guemará conclui que o tevul yom deve ser removido da lista dos dezoito decretos especificamente rabínicos.
"E se põe o sol, e fica puro" — e antes disso, não (está puro); e estabelecemos este versículo, em Yevamot, no capítulo "HaArel" (Yevamot 74b), como referente à teruma. E até mesmo quanto ao mero toque encontramos ali um versículo: "todo utensílio com que se faça trabalho, na água..." (Números 31:23) — e isto é toque, e se exige o pôr do sol; logo, (o tevul yom) invalida pelo toque, pois, se não invalidasse, por que chamá-lo agora de "e fica puro"? Conclui-se daí que, antes (do pôr do sol), não era ele puro por completo — e este (caso, do utensílio mencionado no versículo,) não é apto para comida (mas serve de prova para o princípio); porém não o tornamos (fonte de) impureza plena, pois não é chamado de impuro (apenas de "não totalmente puro").
"Apague-se daqui" — remova-se daqui (o tevul yom da lista dos decretos rabínicos).
"E os alimentos que se tornaram impuros por líquidos" — por líquidos de quê (estamos falando)? Se disseres: por líquidos vindos por causa de um réptil (sheretz) — estes são (impureza) da própria Torá, pois se escreve: "e toda bebida que se beba (nele, se tornará impura)" (Levítico 11:34). Mas sim (fala-se): por líquidos vindos por causa das mãos, e (este é) um decreto por causa dos líquidos vindos por causa de um réptil (para que não os distingam).
A Guemará passa a examinar outros dois itens da lista: alimentos e utensílios tornados impuros por líquidos. Primeiro esclarece de que tipo de líquido se trata. Se fossem líquidos que se tornaram impuros por terem tocado um réptil morto (sheretz, uma das fontes primárias de impureza segundo a Torá), não haveria necessidade de decreto algum, pois a própria Torá já determina, no versículo sobre alimentos e recipientes que entram em contato com um réptil morto, que qualquer líquido bebido nesse contexto se torna impuro — trata-se de impureza bíblica direta. Por isso, a Guemará conclui que o caso em questão deve ser outro: líquidos que se tornaram impuros não pela Torá diretamente, mas por decreto rabínico anterior — isto é, líquidos tocados por mãos não lavadas (já impuras por decreto). O decreto de que alimentos tocados por esses líquidos também se tornem impuros existe para que as pessoas não venham a distinguir, sem razão aparente, entre líquidos impuros por decreto das mãos e líquidos impuros diretamente por um réptil, tratando um caso com menos rigor que o outro.
"Por causa de um réptil" — que se tornaram impuros por (contato com) um réptil.
"É (impureza) da própria Torá" — que os líquidos (se tornam) primeiro grau, e o alimento (que os toca torna-se) segundo grau, e invalida a teruma, tornando-a (se tocada) terceiro grau.
"Por causa das mãos" — antes da lavagem, pois os sábios decretaram (impureza) sobre as mãos; e assim também quanto a todos os demais invalidadores de teruma mencionados (na lista), que tornam impuros os líquidos (que tocam), fazendo-os (tornarem-se, como) primeiro grau.
"É decreto por causa dos líquidos vindos por causa de um réptil" — pois encontramos a respeito destes que são primeiro grau pela própria Torá (e por isso se equipararam os dois casos, para que não distinguissem entre eles).
"E os utensílios que se tornaram impuros por líquidos" — utensílios que se tornaram impuros por líquidos de quê (estamos falando)? Se disseres: por líquidos do zav (homem com fluxo, cuja impureza é fonte primária) — estes são (impureza) da própria Torá! Pois se escreve: "e se o zav cuspir sobre o puro..." (Levítico 15:8) — (donde se aprende:) o que está na mão do puro, Eu (a Torá) tornei impuro para ti. Mas sim (fala-se): por líquidos vindos por causa de um réptil, e (este é) um decreto por causa dos líquidos do zav (para que não os distingam).
Paralelamente ao item anterior, a Guemará examina o caso de utensílios (não alimentos) tornados impuros por líquidos. Se fossem líquidos provenientes do zav — cuja impureza é uma fonte primária plena segundo a Torá —, não haveria necessidade de decreto, pois a Torá já ensina, a partir do versículo sobre o zav que cospe sobre uma pessoa pura, que qualquer objeto que essa pessoa segure na mão nesse momento se torna impuro por lei bíblica direta, sem necessidade de decreto adicional. Assim, o caso do decreto rabínico deve ser outro: utensílios tornados impuros por líquidos que, por sua vez, se tornaram impuros apenas por terem tocado um réptil morto (que por si só não transmite impureza a utensílios de modo pleno segundo a estrutura bíblica). O decreto existe, mais uma vez, para evitar que as pessoas distingam sem motivo entre esse caso e o caso bíblico do zav, tratando um com mais leveza que o outro.
"Líquido do zav" — o que sai dele: sua saliva, seu fluxo, e sua urina.
"E se o zav cuspir..." — "e lavará suas vestes" (continuação do versículo); logo, é fonte primária de impureza, para tornar impuros pessoa e vestes, isto é, utensílios; e os demais líquidos que saem dele aprendemos, por analogia, da saliva: assim como a saliva se acumula primeiro e depois sai, também tudo que se forma e sai (de modo semelhante), como sua urina (tem o mesmo status).
Mas sim (fala-se): "vindos por causa de um réptil" — pois estes não são fonte primária de impureza, e o utensílio só recebe impureza (plena) de uma fonte primária (e por isso decretaram que também esses líquidos tornassem impuros os utensílios, para equiparar ao caso do zav).
"E as mãos" — foram os discípulos de Shamai e Hilel que decretaram (essa impureza)? (Não; foram) Shamai e Hilel (eles mesmos) que decretaram! Pois se ensinou (numa baraita): Yossi ben Yoezer, homem de Tzeredá, e Yossi ben Yochanan, homem de Jerusalém, decretaram impureza sobre a terra dos povos (gentios) e sobre utensílios de vidro. Shimon ben Shatach instituiu a ketubá para a mulher, e decretou impureza sobre utensílios de metal. Shamai e Hilel decretaram impureza sobre as mãos!
A Guemará volta ao decreto geral sobre as mãos e questiona quem exatamente o promulgou. Alguém poderia supor que esse decreto — sendo relativamente tardio na sequência histórica de decretos rabínicos — teria sido obra dos discípulos de Shamai e Hilel, e não desses dois grandes sábios em pessoa. A Guemará rejeita essa suposição, trazendo uma baraita que lista uma sucessão de importantes decretos rabínicos ao longo de gerações: Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan (uma das primeiras zugot, duplas de sábios) decretaram impureza sobre a terra dos povos gentios e sobre utensílios de vidro; Shimon ben Shatach, além de instituir a ketubá (o contrato matrimonial que garante à mulher seus direitos financeiros), decretou impureza sobre utensílios de metal; e, por fim, a própria baraita atribui explicitamente a Shamai e Hilel — não a seus discípulos — o decreto de impureza sobre as mãos. Essa lista mostra uma progressão histórica de sábios sucessivamente ampliando o alcance das leis de pureza.
"Sobre a terra dos povos" — e por causa da possibilidade de (haver ali) sepulturas deles, pois o gentio torna impuro pelo toque, pelo carregamento e por cobertura (estar sob o mesmo teto), segundo os sábios; e mesmo segundo Rabi Shimon, que diz que (gentios) não tornam impuro por cobertura, ainda assim tornam impuro pelo toque, pelo carregamento, e pela decomposição (dos ossos).
"E sobre utensílios de vidro" — pois (sobre eles) não se escreve impureza na própria Torá.
"Instituiu a ketubá" — que (o marido) escreva que todos os seus bens ficam responsáveis pela ketubá; pois (antes) costumava-se destinar a ela uma soma específica, e quando se irritava com ela, dizia-lhe: "toma tua ketubá e sai."
"E decretou impureza sobre utensílios de metal" — adiante se explica (o motivo).
E se disseres (que a baraita quer dizer): "Shamai e seu grupo (de discípulos), e Hilel e seu grupo" (e não os dois sábios sozinhos) — mas não disse Rav Yehudá em nome de Shmuel: dezoito coisas decretaram, e em dezoito discordaram (referindo-se aos discípulos coletivamente)? Ao passo que Hilel e Shamai (eles mesmos, pessoalmente) não discordaram senão em três lugares, pois disse Rav Huna: em três lugares discordaram, e não mais (do que isso). (Isso pareceria contradizer a atribuição do decreto das mãos a Hilel e Shamai em pessoa, já que ele não está entre os "três lugares". Poderia então dizer-se:) vieram eles (Hilel e Shamai) e decretaram (apenas) para "suspender" (a teruma, sem queimá-la nem comê-la), e vieram seus discípulos e decretaram para "queimar" (a teruma tocada por mãos impuras — sendo este último o decreto mais severo, atribuído aos discípulos). Mas não disse Ilfa: (o decreto sobre) as mãos, desde o início de seu decreto, já era para queima (e não haveria, portanto, dois estágios)? Mas sim: vieram eles (Hilel e Shamai) e decretaram, e (o restante do povo) não aceitou (o decreto) deles; e vieram seus discípulos e decretaram, e aceitaram (o decreto) deles.
A Guemará examina uma dificuldade: se o decreto das mãos foi realmente de Shamai e Hilel pessoalmente, isso pareceria contradizer a tradição, transmitida por Rav Yehudá em nome de Shmuel, de que os "dezoito decretos" e as "dezoito discordâncias" pertencem à geração dos discípulos de Shamai e Hilel — pois entre os próprios Hilel e Shamai, segundo Rav Huna, houve discordância em apenas três pontos específicos (não incluindo o decreto das mãos). A primeira tentativa de solução propõe uma distinção em dois estágios: Hilel e Shamai teriam decretado apenas que a teruma tocada por mãos impuras ficasse "suspensa" — nem consumida nem queimada, um estado de dúvida —, e apenas depois seus discípulos teriam decretado a medida mais severa, de efetivamente queimar essa teruma. Essa solução é refutada pelo dito de Ilfa, segundo o qual o decreto das mãos, desde seu início, já determinava a queima da teruma contaminada — não havendo, portanto, espaço para dois estágios distintos de severidade crescente. A Guemará chega então à solução final: não houve dois decretos de conteúdo diferente, mas sim duas tentativas do mesmo decreto — Hilel e Shamai o promulgaram primeiro, mas o povo não o aceitou (talvez por resistência a uma restrição tão abrangente); foram seus discípulos, na geração seguinte, que o promulgaram novamente, e desta vez o povo o aceitou e ele se estabeleceu.
"Shamai e seu grupo, etc." — e eles mesmos estavam, junto com seus discípulos, na discordância dos dezoito assuntos.
"E em dezoito coisas discordaram" — isto é, aqueles dezoito (decretos) que promulgaram foram (promulgados) em meio a discordância, mas se contaram (os votos) e a Casa de Shamai se encontrou majoritária.
"Três lugares" — adiante se explica.
"Para suspender" — a teruma que tocaram (essas mãos, deixando-a em estado de dúvida): não a comem, nem a queimam.
"Para queima" — que (as pessoas) passassem a queimar a teruma por causa delas (as mãos impuras que a tocaram).
E ainda (mais): já o Rei Salomão havia decretado (algo semelhante, antes mesmo de Hilel e Shamai)! Pois disse Rav Yehudá em nome de Shmuel: no momento em que Salomão instituiu os eiruvin (as fusões que permitem carregar objetos no Shabat entre domínios) e a lavagem das mãos, saiu uma bat kol (voz celestial) e disse: "Meu filho, se teu coração for sábio, meu coração também se alegrará" (Provérbios 23:15); "Sê sábio, meu filho, e alegra meu coração, e responderei palavra a quem me insulta" (Provérbios 27:11)! Veio (a resposta continua em Shabbat 15a)...
O daf fecha com uma nova camada histórica, ainda mais antiga que Hilel e Shamai: o próprio Rei Salomão, segundo Rav Yehudá em nome de Shmuel, já havia promulgado decretos rabínicos, ao instituir os eiruvin (as fusões de domínios que possibilitam carregar objetos no Shabat entre áreas que, sem essa instituição, seriam consideradas domínios separados) e a lavagem ritual das mãos. O relato conta que, no momento em que Salomão promulgou essas leis — um ato de extraordinária ousadia legislativa, por parte de um rei humano, de criar novas categorias dentro da lei divina —, uma voz celestial (bat kol) reagiu citando dois versículos do Livro de Provérbios (tradicionalmente atribuído ao próprio Salomão): "Meu filho, se teu coração for sábio, meu coração também se alegrará", e "Sê sábio, meu filho, e alegra meu coração, e responderei palavra a quem me insulta" — versículos que expressam contentamento e orgulho divino diante da sabedoria demonstrada por Salomão ao fortalecer as leis de pureza com essas novas salvaguardas. O relato é interrompido no meio da palavra "veio", e sua continuação — explicando que Salomão decretara originalmente apenas para os itens consagrados (kodashim), e que foram os sábios posteriores que estenderam esse decreto também à teruma — abre imediatamente Shabbat 15a.
"Salomão decretou" — pois se escreve (sobre ele): "e ponderou e pesquisou" (Eclesiastes 12:9) — que fez "asas" (alças protetoras) para a Torá; isto é, uma cerca e um afastamento, como esta cesta que se carrega pelas alças (protetoras), sem tocar diretamente nela.
"Eiruvin" — "asas" (salvaguardas) para (a proibição de) carregar no Shabat, pois é proibido carregar de seu domínio para o domínio de outrem, ainda que ambos sejam domínios privados (sem o eiruv que os une).