Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
אֲתוֹ אִינְהוּ גְּזוּר

Três camadas de decreto sobre a terra dos povos, e o início da razão para a impureza dos utensílios de vidro

Shabbat 15b — a resolução final da objeção cronológica: não foi um único decreto, mas três camadas sucessivas sobre a terra dos povos gentios — o decreto original de Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan (para queimar a teruma que a tocasse), o decreto dos "sábios de oitenta anos" (para apenas suspendê-la em dúvida), e o decreto de Usha, muitos anos depois da destruição, que voltou a determinar a queima; a baraita dos seis casos de dúvida que se queima a teruma, incluindo a posição de Rabi Yossi e dos sábios sobre o domínio público e o privado; e o início da pergunta sobre por que os sábios decretaram impureza para os utensílios de vidro — por serem feitos de areia, equiparados aos utensílios de barro — com a primeira dificuldade, resolvida pelo caso de um utensílio de vidro furado e consertado com chumbo.

O daf continua diretamente a discussão cronológica de 15a. A Guemará explica que não houve um único decreto sobre a terra dos povos gentios, mas uma sucessão de três camadas: primeiro, Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan decretaram que o gosh (torrão de terra dos povos) tornava a teruma passível de ser queimada, e que a mera entrada da teruma no espaço aéreo sobre essa terra bastava para suspendê-la em dúvida, sem consequência prática além disso; depois, os "sábios de oitenta anos" inverteram a relação, fazendo o gosh suspender e o espaço aéreo queimar; até que, muito depois da destruição do Templo, os sábios reunidos em Usha estabeleceram a halachá final, entre os seis casos clássicos de dúvida em que se queima a teruma. O daf cita essa baraita dos seis casos por completo — o campo perdido com uma sepultura, a terra dos povos, as roupas do am haaretz, utensílios achados, saliva e urina —, com a posição adicional de Rabi Yossi e a distinção dos sábios entre domínio público e privado. Por fim, a Guemará passa a uma nova pergunta: por que os sábios decretaram impureza sobre utensílios de vidro? A resposta de Reish Lakish — por serem originalmente feitos de areia, e por isso equiparados aos utensílios de barro — gera de imediato uma dificuldade a partir de uma Mishná sobre o que causa obstrução (chatzitzah) em objetos durante a imersão no mikvê, resolvida pelo caso de um utensílio de vidro furado que foi consertado com chumbo derretido, seguindo a opinião de Rabi Meir de que tudo depende do material que sustenta o objeto.

Não um decreto, mas três: a resolução da cronologia · אֲתוֹ אִינְהוּ גְּזוּר אַגּוּשָּׁא

01O primeiro decreto: o torrão para queimar, o espaço aéreo sem consequência
Guemará
אֶלָּא: אֲתוֹ אִינְהוּ גְּזוּר אַגּוּשָּׁא לִשְׂרוֹף וְאַאֲוִירָא וְלֹא כְלוּם, וַאֲתוֹ רַבָּנַן דִּשְׁמֹנִים שָׁנָה גְּזוּר אַאֲוִירָא לִתְלוֹת.

Mas sim: vieram eles (Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan) e decretaram sobre o torrão (de terra dos povos, que toca a teruma) para queimá-la, e sobre (a teruma que meramente entra no) espaço aéreo (sobre essa terra), e não (disso resulta) nada (nenhuma consequência prática); e vieram os sábios de oitenta anos (antes da destruição) e decretaram sobre o espaço aéreo para suspendê-la (em dúvida).

Nota

A Guemará resolve a contradição cronológica de 15a não harmonizando as datas, mas reconhecendo que houve, na verdade, duas camadas sucessivas e distintas de decreto. Na primeira camada, a original, de Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan: o contato direto da teruma com um torrão físico de terra proveniente do território dos povos gentios (presumivelmente contaminada por sepulturas não identificadas) já bastava para tornar essa teruma passível de ser queimada, como se fosse impura com certeza; mas a mera entrada da teruma no espaço aéreo sobre essa terra, sem contato físico com o torrão, não gerava nenhuma consequência — nem para queimar, nem sequer para suspender em dúvida. Depois, na segunda camada, dos "sábios de oitenta anos", o decreto foi estendido: agora também o espaço aéreo sobre a terra dos povos passou a ter uma consequência — não a queima direta, mas a suspensão da teruma em dúvida (isto é, nem se come nem se queima, mas se deixa de lado).

02A objeção de Ilfa: as mãos são o único caso cujo decreto começou pela queima
Guemará; Ilfa
לְמֵימְרָא דַּחֲדָא גְּזֵירְתָא הֲוָה לִשְׂרֵיפָה? וְהָאָמַר אִילְפָא: יָדַיִם תְּחִלַּת גְּזֵירָתָן לִשְׂרֵיפָה! יָדַיִם הוּא דִּתְחִלַּת גְּזֵירָתָן לִשְׂרֵיפָה, הָא מִידֵּי אַחֲרִינָא — לָא.

Isso viria a dizer que (a terra dos povos teve) um único decreto, que era para a queima (desde o início)? Mas não disse Ilfa: (o decreto sobre) as mãos (impuras) é o único cujo início do decreto já foi para a queima (sem passar antes por uma fase de mera suspensão)? (Resposta:) quanto às mãos, sim, o início de seu decreto já foi para a queima; mas quanto a qualquer outra coisa (incluindo a terra dos povos) — não (começou já pela queima).

Nota

A formulação do parágrafo anterior — de que o primeiro decreto de Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan já determinava a queima da teruma que tocasse o torrão — gera uma objeção a partir de um princípio conhecido, transmitido por Ilfa: entre todos os decretos rabínicos sobre impurezas, o único cujo primeiro estágio já foi de gravidade máxima (queimar a teruma, e não apenas suspendê-la em dúvida) foi o decreto sobre a impureza das mãos não lavadas; todos os demais decretos, inclusive presumivelmente o da terra dos povos, deveriam ter começado de modo mais brando, apenas suspendendo a teruma, e só depois evoluído para a queima. A Guemará responde restringindo a afirmação de Ilfa: ele quis dizer apenas que, entre os casos em que houve uma progressão de leve para severo, o das mãos é o único que já nasceu severo; isso não impede que o decreto da terra dos povos também tenha, excepcionalmente, começado já com a consequência da queima (no caso específico do contato direto com o torrão), distinto do caso do espaço aéreo, que de fato começou sem nenhuma consequência.

03A segunda camada: o torrão passa a suspender, o espaço aéreo passa a queimar
Guemará
אֶלָּא: אֲתוֹ אִינְהוּ גְּזוּר אַגּוּשָּׁא לִתְלוֹת וְאַאֲוִירָא וְלֹא כְלוּם, וַאֲתוֹ רַבָּנַן דִּשְׁמֹנִים שָׁנָה גְּזוּר אַגּוּשָּׁא לִשְׂרוֹף וְאַאֲוִירָא לִתְלוֹת.

Mas sim (a Guemará reformula a ordem): vieram eles (Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan) e decretaram sobre o torrão para suspendê-la (em dúvida), e sobre o espaço aéreo, nada (nenhuma consequência); e vieram os sábios de oitenta anos e decretaram sobre o torrão para queimá-la, e sobre o espaço aéreo para suspendê-la (em dúvida).

Nota

Diante da objeção de Ilfa, a Guemará inverte a ordem de severidade das duas camadas: o decreto original de Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan foi, na verdade, o mais brando — o contato com o torrão apenas suspendia a teruma em dúvida, e o espaço aéreo não tinha consequência nenhuma. Foi somente depois, com os "sábios de oitenta anos", que o decreto se agravou progressivamente: o contato com o torrão passou a determinar a queima da teruma, e o próprio espaço aéreo — que antes não tinha efeito algum — passou a suspender a teruma em dúvida. Assim, a progressão de leve para severo, exigida pelo princípio de Ilfa, é preservada.

A terceira camada: o decreto de Usha, e os seis casos de dúvida · אֵלּוּ שִׁשָּׁה סְפֵיקוֹת בְּאוּשָׁא הִתְקִינוּ

04Ainda assim, decretaram em Usha — a baraita dos seis casos de dúvida
Guemará; Mishná
וְאַכַּתִּי, בְּאוּשָׁא גְּזוּר! דִּתְנַן: עַל שִׁשָּׁה סְפֵקוֹת שׂוֹרְפִין אֶת הַתְּרוּמָה: עַל סְפֵק בֵּית הַפְּרָס, וְעַל סְפֵק עָפָר הַבָּא מֵאֶרֶץ הָעַמִּים, וְעַל סְפֵק בִּגְדֵי עַם הָאָרֶץ, וְעַל סְפֵק כֵּלִים הַנִּמְצָאִין, וְעַל סְפֵק הָרוּקִּין, וְעַל סְפֵק מֵי רַגְלֵי אָדָם שֶׁכְּנֶגֶד מֵי רַגְלֵי בְּהֵמָה — עַל וַדַּאי מַגָּעָן וְעַל סְפֵק טוּמְאָתָן שׂוֹרְפִין אֶת הַתְּרוּמָה.

Mas ainda assim (há uma dificuldade): em Usha (também) decretaram (algo sobre este mesmo assunto, muito tempo depois)! Pois se ensinou (numa Mishná): por seis (tipos de) dúvida se queima a teruma: pela dúvida do beit haperas (campo onde se perdeu uma sepultura), e pela dúvida da terra vinda da terra dos povos, e pela dúvida das roupas do am haaretz (o homem do povo, suspeito de negligência com a pureza), e pela dúvida de utensílios achados (sem dono conhecido), e pela dúvida das salivas (encontradas no chão), e pela dúvida da urina de homem que está ao lado da urina de animal — quanto ao contato certo (delas com a teruma), mas à dúvida sobre sua impureza, queima-se a teruma.

Nota

A Guemará levanta uma terceira dificuldade cronológica: mesmo tendo já explicado as duas camadas anteriores (a de Yossi ben Yoezer/Yossi ben Yochanan e a dos "sábios de oitenta anos"), sabe-se que uma decisão adicional sobre este mesmo tema foi tomada em Usha — a cidade da Galileia onde o Sinédrio se reuniu depois da revolta de Bar Kochba, portanto muitas décadas depois da destruição do Templo. A Guemará cita a fonte dessa decisão: uma Mishná que lista seis categorias de dúvida em que, apesar de ser apenas uma dúvida quanto à impureza (e não uma certeza), ainda assim se queima a teruma que teve contato certo com o objeto duvidoso. Entre esses seis casos está exatamente a dúvida sobre a terra vinda do território dos povos gentios — o mesmo tema debatido até aqui —, ao lado de outros cinco: o campo com sepultura perdida, as roupas do am haaretz, utensílios achados, salivas encontradas, e urina humana ao lado de urina animal.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ainda assim" e cada um dos seis casos de dúvida
ואכתי - אגושא לשרוף באושא גזור:

"Ainda assim" — sobre o torrão, para queimar, (também) em Usha decretaram.

על ספק בית הפרס - כלומר על ספקו של בית הפרס כגון תרומה שנכנסת לבית הפרס דהוא שדה שאבד בה קבר היינו ספק דלא ידעינן אם האהילה על הקבר אם לאו:

"Pela dúvida do beit haperas" — isto é, pela dúvida do beit haperas, como a teruma que entra no beit haperas, que é um campo no qual se perdeu (a localização exata de) uma sepultura; esta é a dúvida, pois não sabemos se (a teruma) fez sombra (toldo) sobre a sepultura ou não.

ועל ספיקו של עפר ארץ העמים - דכל עפר ארץ העמים מספקא לן בקבר של מת:

"E pela dúvida da terra dos povos" — pois toda terra dos povos nos é duvidosa quanto a (conter) a sepultura de um morto.

ועל ספיקו של בגדי עם הארץ - דכולהו מספקא לן שמא ישבה עליהם אשתו נדה כדתנן (חגיגה דף יח:) בגדי ע"ה מדרס לפרושים:

"E pela dúvida das roupas do am haaretz" — pois todas elas nos são duvidosas, receando que sobre elas se tenha sentado sua esposa em estado de nidá, conforme se ensinou (Chaguigá 18b): as roupas do am haaretz são (consideradas impuras por) midrás para os perushim (os que se dedicam à pureza).

ועל ספק כלים הנמצאים - דלא ידעינן אם טמאים הן:

"E pela dúvida de utensílios achados" — pois não sabemos se são impuros.

ספק רוקין - כל רוקין מספקא לן דדילמא דזב נינהו:

"Dúvida das salivas" — toda saliva nos é duvidosa, receando que seja de um zav (homem com fluxo impuro).

ועל ספק מי רגלי אדם - הך ספק לא דמי להנך דלעיל אלא אפי' מספקא לן אם מי רגלי אדם הן אם מי רגלי בהמה הן דאיכא תרי ספיקי לקולא דאם תמצי לומר דאדם שמא טהור:

"E pela dúvida da urina de homem" — esta dúvida não se assemelha às anteriores, mas sim: mesmo que nos seja duvidoso se é urina de homem ou urina de animal — havendo aqui duas dúvidas para o lado leniente, pois, ainda que se diga que é de homem, talvez (esse homem) seja puro.

שכנגד מי רגלי בהמה - רבותא אשמעינן דלא תימא מדהני דבהמה הני נמי דבהמה:

"Que está ao lado da urina de animal" — (a Mishná) nos ensina algo notável, para que não digas: já que estas (certamente) são de animal, aquelas também são de animal.

ודאי מגען וספק טומאתן - יודע ודאי שנגע בהן תרומה אבל אינו יודע אם הם טמאים אם לאו כדמפרש בכולהו:

"Contato certo, e dúvida quanto à sua impureza" — sabe-se com certeza que a teruma os tocou, mas não se sabe se são impuros ou não, conforme se explica em todos eles.

05Rabi Yossi, e a distinção dos sábios entre domínio público e privado
Mishná; Rabi Yossi; sábios
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: אַף עַל סְפֵק מַגָּעָן בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד — שׂוֹרְפִין. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד תּוֹלִין, בִּרְשׁוּת הָרַבִּים — טְהוֹרִין.

Rabi Yossi diz: mesmo pela dúvida quanto ao (próprio) contato (se houve ou não contato com a teruma), (desde que) em domínio privado, se queima. E os sábios dizem: em domínio privado, suspende-se (em dúvida); em domínio público, são puras.

Nota

A Mishná acrescenta duas opiniões adicionais sobre um grau ainda maior de dúvida: não apenas a incerteza quanto à impureza do objeto (como nos seis casos citados), mas a própria incerteza sobre se houve contato entre a teruma e o objeto duvidoso. Rabi Yossi sustenta que, mesmo nesse grau duplo de dúvida, se o contato hipotético ocorreu em domínio privado, ainda assim se queima a teruma — aplicando o princípio geral de que dúvidas em domínio privado tendem à estringência. Os sábios discordam e traçam uma distinção mais matizada, seguindo a mesma lógica geral: em domínio privado, a teruma apenas se suspende (nem se come, nem se queima); mas em domínio público, ela é considerada totalmente pura, pois a maioria das pessoas que circulam por ali tende a manter os objetos em estado puro, e a regra geral trata dúvidas em domínio público com leniência.

06Ulá: os seis casos foram instituídos em Usha — reconstituindo as três camadas completas
Guemará; Ulá
וְאָמַר עוּלָּא: אֵלּוּ שִׁשָּׁה סְפֵיקוֹת בְּאוּשָׁא הִתְקִינוּ! אֶלָּא אֲתוֹ אִינְהוּ גְּזוּר אַגּוּשָּׁא לִתְלוֹת וְאַאֲוִירָא וְלֹא כְלוּם, וַאֲתוֹ רַבָּנַן דִּשְׁמֹנִים שָׁנָה גְּזוּר אִידֵּי וְאִידֵּי לִתְלוֹת, וַאֲתוֹ בְּאוּשָׁא גְּזוּר אַגּוּשָּׁא לִשְׂרוֹף, וְאַאֲוִירָא — כִּדְקָאֵי קָאֵי.

E disse Ulá: estas seis dúvidas, em Usha as instituíram! Mas sim (a Guemará reconstitui a cronologia completa em três etapas): vieram eles (Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan) e decretaram sobre o torrão para suspendê-la, e sobre o espaço aéreo, nada; e vieram os sábios de oitenta anos e decretaram sobre isto e sobre aquilo (tanto o torrão quanto o espaço aéreo) para suspendê-la; e vieram (os sábios) em Usha e decretaram sobre o torrão para queimá-la, e o espaço aéreo — como estava, ficou (sem alteração, continuando apenas a suspender).

Nota

Ulá traz a peça final do quebra-cabeça cronológico: a lei de queimar a teruma pelo contato com o torrão da terra dos povos — e não apenas suspendê-la em dúvida — não foi decretada nem por Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan, nem pelos "sábios de oitenta anos", mas apenas muito depois, pelos sábios reunidos em Usha, conforme registrado na baraita dos seis casos de dúvida. Com isso, a Guemará reconstitui a cronologia completa em três etapas nítidas: (1) Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan — o torrão suspende a teruma em dúvida, o espaço aéreo não tem efeito algum; (2) os sábios de oitenta anos — tanto o torrão quanto o espaço aéreo passam a suspender a teruma em dúvida; (3) os sábios de Usha — o torrão passa a determinar a queima da teruma, enquanto o espaço aéreo permanece como estava na segunda etapa, apenas suspendendo-a. Esta reconstituição final harmoniza todas as fontes citadas desde 15a, mostrando que se trata de uma evolução gradual e documentada ao longo de séculos, e não de uma única tradição contraditória.

Por que decretaram impureza sobre utensílios de vidro? · כְּלֵי זְכוּכִית — מַאי טַעְמָא

07Reish Lakish: porque, na origem, são feitos de areia, como o barro
Guemará; Rabi Yochanan em nome de Reish Lakish
כְּלֵי זְכוּכִית — מַאי טַעְמָא גְּזוּר בְּהוּ רַבָּנַן טוּמְאָה? אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: הוֹאִיל וּתְחִלַּת בְּרִיָּיתָן מִן הַחוֹל שַׁוִּינְהוּ רַבָּנַן כִּכְלֵי חֶרֶס.

Utensílios de vidro — qual a razão pela qual os sábios decretaram impureza sobre eles? Disse Rabi Yochanan em nome de Reish Lakish: visto que o início de sua formação é a partir da areia, equipararam-nos os sábios aos utensílios de barro (que também, por decreto da Torá, recebem impureza mesmo sem uma cavidade que receba objetos, ao contrário dos utensílios de metal).

Nota

A Guemará muda de assunto, voltando à segunda metade da baraita original citada em 14b–15a, que atribuía a Yossi ben Yoezer e Yossi ben Yochanan não apenas o decreto sobre a terra dos povos, mas também o decreto de impureza sobre utensílios de vidro — uma categoria que, segundo a lei da Torá, não deveria ser suscetível a impureza alguma (pois a Torá previu impureza apenas para utensílios de barro, metal e alguns outros materiais específicos, mas o vidro não existia como categoria bíblica). A Guemará pergunta qual a razão desse decreto rabínico. Reish Lakish responde que os sábios perceberam uma afinidade fundamental entre o vidro e o barro: ambos têm sua origem na areia (o vidro é fabricado fundindo areia), e por isso os sábios decidiram tratá-los de modo análogo, aplicando ao vidro a mesma regra especial dos utensílios de barro — que recebem impureza através de seu espaço interno (aviro), mesmo sem contato direto, e que se purificam com a simples quebra.

08A dificuldade: se são como o barro, não deveriam ter purificação no mikvê
Guemará; Mishná
אֶלָּא, מֵעַתָּה לֹא תְּהֵא לָהֶן טׇהֳרָה בְּמִקְוֶה. אַלְּמָה תְּנַן: וְאֵלּוּ חוֹצְצִין בְּכֵלִים — הַזֶּפֶת וְהַמּוֹר בִּכְלֵי זְכוּכִית!

Mas então, a partir de agora, não deveria haver para eles purificação no mikvê (assim como os utensílios de barro não têm purificação por imersão, apenas pela quebra). Por que, então, se ensinou (numa Mishná): e estes causam obstrução (à imersão válida, impedindo a purificação) em utensílios — o piche e a mirra em utensílios de vidro (implicando que, removidos esses obstáculos, os utensílios de vidro SE purificam validamente por imersão no mikvê)?

Nota

A Guemará levanta uma dificuldade lógica contra a explicação de Reish Lakish. Se os utensílios de vidro foram de fato equiparados em tudo aos utensílios de barro — que, segundo a lei da Torá, uma vez impuros, jamais se purificam pela imersão em um mikvê, apenas pela quebra completa —, então os utensílios de vidro também não deveriam ter purificação válida por imersão. Mas há uma Mishná explícita que pressupõe o contrário: ela lista materiais que causam "obstrução" (chatzitzah), isto é, que impedem que a água do mikvê alcance toda a superfície do utensílio durante a imersão, invalidando a purificação — e entre esses materiais estão o piche e a mirra grudados em utensílios de vidro. Ora, o próprio conceito de "obstrução que invalida a imersão" pressupõe que, sem esse obstáculo, a imersão seria válida e purificaria o utensílio de vidro — o que contradiz a equiparação total com o barro.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "estes causam obstrução" e "em utensílios de vidro"
ואלו חוצצין - לגבי טבילה: הזפת והמור גרסינן:

"E estes causam obstrução" — quanto à imersão. Lemos: "o piche e a mirra".

בכלי זכוכית - שהן חלקין ואין אדם מקפיד על טיט ודבר אחר הנדבק בהן לפי שנופל מאיליו והני הוא דמדבקי טובא וקפיד עלייהו ואין חוצץ אלא דבר המקפיד עליו:

"Em utensílios de vidro" — pois eles são lisos, e ninguém se incomoda com lama ou outra coisa que se gruda neles, já que cai por si mesma; mas estes (piche e mirra) se grudam fortemente, e por isso se incomoda com eles; e nada causa obstrução exceto aquilo com que a pessoa se incomoda.

09A resposta: o caso do vidro furado e consertado com chumbo, segundo Rabi Meir
Guemará; baraita; Rabban Shimon ben Gamliel
הָכָא בְמַאי עָסְקִינַן? — כְּגוֹן שֶׁנִּיקְּבוּ וְהִטִּיף לְתוֹכָן אֲבָר. וְרַבִּי מֵאִיר הִיא, דְּאָמַר הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הַמַּעֲמִיד. דְּתַנְיָא: כְּלֵי זְכוּכִית שֶׁנִּקְּבוּ וְהִטִּיף לְתוֹכָן אֲבָר, אָמַר רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל: רַבִּי מֵאִיר מְטַמֵּא וַחֲכָמִים מְטַהֲרִין.

Com o quê estamos lidando aqui (nesta Mishná sobre a obstrução)? Com um caso em que (os utensílios de vidro) se furaram, e se gotejou dentro deles (chumbo derretido, para consertá-los). E é (a opinião de) Rabi Meir, que disse: tudo segue aquilo que sustenta (o objeto, determinando sua categoria de material). Pois se ensinou (numa baraita): utensílios de vidro que se furaram e se gotejou dentro deles chumbo (para consertá-los) — disse Rabban Shimon ben Gamliel: Rabi Meir declara impuro, e os sábios declaram puro.

Nota

A Guemará resolve a dificuldade reinterpretando a Mishná sobre a obstrução: ela não trata de um utensílio de vidro comum, mas de um caso específico — um utensílio de vidro que se furou (perdendo, assim, sua condição de utensílio íntegro e capaz de receber impureza, pois um utensílio de barro furado se purifica pela própria quebra) e que foi consertado gotejando chumbo derretido dentro do furo. Nesse caso especial, segundo Rabi Meir, o utensílio passa a ser classificado não mais como vidro (equiparado ao barro), mas como um utensílio de metal — porque "tudo segue aquilo que sustenta", isto é, o material que efetivamente mantém a estrutura do objeto (aqui, o chumbo que veda o furo) determina sua categoria legal. Como utensílio de metal, ele volta a ser suscetível de purificação por imersão no mikvê (ao contrário do barro), o que explica por que a Mishná fala em "obstrução" que impede essa imersão — pressupondo precisamente este caso excepcional de vidro reforçado com metal, e não o vidro comum, que continuaria sem purificação por imersão, exatamente como o barro.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "furaram", "gotejou chumbo dentro" e "declara impuro"
כגון שנקבו - וטהרו מתורת כלי חרס דכלי חרס שבירתו מטהרתו:

"(Um caso em) que se furaram" — e se purificaram da categoria de utensílio de barro, pois o utensílio de barro, sua própria quebra o purifica.

והטיף לתוכו אבר - דחשיב ליה ככלי מתכות דכל קבלת טומאתו משום אבר המעמידו הלכך אית ליה טהרה במקוה:

"E gotejou dentro dele chumbo" — pois (agora) o considera como utensílio de metal, já que toda a sua capacidade de receber impureza se deve ao chumbo que o sustenta; por isso, ele tem purificação no mikvê.

מטמא - ולא אמרינן בטיל ליה מתורת כלי כשאר כלי חרס הנשבר דקסבר הלך אחר המעמיד ותורת כלי מתכות עליו:

"Declara impuro" — e não dizemos que (o utensílio) se anulou de sua categoria de utensílio, como os demais utensílios de barro quebrados, pois (Rabi Meir) entende que se segue aquilo que sustenta, e a categoria de utensílio de metal recai sobre ele.

Continua em 16a

A Guemará prossegue de imediato com uma nova objeção — "mas então..." (ella me'atah) — questionando se, uma vez equiparados ao barro, os utensílios de vidro deveriam também poder voltar à sua impureza anterior depois de quebrados e reconstruídos, como ocorre com os utensílios de metal. Essa discussão, e a distinção final entre a impureza (de origem rabínica) dos utensílios de vidro e a impureza antiga (também rabínica) versus a impureza bíblica, é desenvolvida no início de Shabbat 16a.