O daf abre com a continuação direta da Mishná que fechou 19b: assim como no Templo se pode acender a fogueira do Bet HaMokêd perto do anoitecer, "nas regiões" (fora do Templo) é permitido pôr lenha ao fogo perto do anoitecer contanto que o fogo já tenha pegado na maior parte da fogueira ainda de dia; Rabi Yehuda é mais brando quanto às brasas, bastando qualquer quantidade. A Guemará então retorna à primeira Mishná do capítulo, sobre não começar a assar perto do anoitecer, e define a medida mínima de cozimento exigida como "comida de Ben Drosai" — um cozimento parcial, cerca de um terço do processo — citando também o ensinamento de que esse mesmo patamar isenta o alimento da proibição de bishulei akum (comida cozida por gentio) e permite deixá-lo sobre um fogão não removido nem coberto de cinzas. Segue-se a dúvida sobre qual é "a face inferior" do bolo mencionada por Rabi Eliezer — a que toca o forno, ou a que fica voltada para o fogo — resolvida a partir de uma baraita paralela. A Guemará então explica por que se permite descer o sacrifício pascal ao forno mesmo perto do anoitecer (os membros do grupo são diligentes), contrastando o caso com o cabrito assado inteiro (que precisa ser aberto, permitindo entrada de ar frio que atrapalha o cozimento) — daí a maior tolerância. Passa-se à fonte bíblica da permissão de acender e manter a fogueira do Bet HaMokêd: o verso "não acendereis fogo em todas as vossas habitações" (Shemot 35:3) é lido como excluindo o Templo, mas Rav Chisda objeta que isso permitiria acender também em Shabat propriamente dito, restringindo o verso a permitir apenas queimar os membros e as gorduras dos sacrifícios, e não a fogueira do Bet HaMokêd — cuja permissão de acender perto do anoitecer decorre, então, apenas da diligência dos sacerdotes. O daf fecha com uma sequência de disputas técnicas sobre o que conta como "maioria" de uma fogueira: Rav exige a maioria de cada lenha individualmente, e Shmuel basta que a chama suba por si mesma sem precisar de reforço — apoiado por uma baraita de Rav Chiya; para a lenha isolada, Rav exige a maioria de sua espessura ou de sua circunferência, e Rav Papa exige ambas, correspondendo a uma disputa tannaítica entre Rabi Chiya e Rabi Yehuda ben Beteira, com prova do verso de Yeshayahu sobre a vara que arde pelas duas pontas; e, por fim, a explicação do termo "ach" (brasa) no verso de Yeshayahu, e a disputa de Rav Huna sobre feixes de canas e caroços de tâmara amontoados em cestos precisarem ou não de maioria acesa, com a réplica de Rav Chisda invertendo a lógica proposta.
E nas (demais) regiões (fora do Templo, é permitido acender uma fogueira perto do anoitecer) contanto que o fogo já tenha pegado na maior parte dela (ainda de dia). Rabi Yehuda diz: quanto às brasas (sem chama, basta) qualquer quantidade.
Esta é a continuação direta da Mishná citada ao final de 19b, que tratava da fogueira do Bet HaMokêd, no Templo. Agora se acrescenta a regra para qualquer outra fogueira, em qualquer outro lugar: fora do contexto especial do Templo (onde a diligência dos sacerdotes dispensa maiores cuidados), é necessário que o fogo já tenha se propagado pela maior parte da lenha da fogueira ainda de dia, para que se possa deixá-la continuar ardendo, e mesmo acrescentar lenha, depois de escurecer — do contrário, haveria receio de que a pessoa venha a atiçar as brasas em Shabat, pois o fogo ainda fraco poderia se apagar. Rabi Yehuda distingue o caso de uma fogueira feita de brasas já formadas (sem lenha crua que precise pegar fogo): como brasas não se apagam sozinhas com facilidade, basta que qualquer quantidade delas esteja acesa ainda de dia.
"E nas regiões" — é preciso acender sua fogueira ainda de dia, de modo que o fogo pegue na maior parte dela.
"Rabi Yehuda diz" — se a fogueira era de brasas, não é preciso que o fogo pegue nelas senão em qualquer quantidade, e ela continua ardendo, pois não é seu costume ir se apagando, e não é preciso atiçá-las.
Guemará. E quanto (tempo é necessário)? Disse Rabi Elazar, disse Rav: (o suficiente) para que se assem ainda de dia como comida de Ben Drosai. Também foi dito: disse Rav Assi, disse Rabi Yochanan: qualquer (alimento cozido) ao ponto de comida de Ben Drosai não tem nele (o problema) de bishulei akum (comida cozida por um gentio, que os sábios proibiram). Foi ensinado (numa baraita): Chananya diz: qualquer (alimento cozido) ao ponto de comida de Ben Drosai é permitido deixá-lo sobre um fogão, ainda que não esteja (com as brasas) removidas nem cobertas (de cinza).
A Guemará retorna agora à primeira Mishná do capítulo (citada ao final de 19b), que exige que carne, cebola e ovo tenham "tempo de assarem-se ainda de dia" antes do anoitecer, e pergunta: qual é exatamente essa medida mínima? A resposta, transmitida por Rabi Elazar em nome de Rav, define o padrão como o ponto de cozimento atribuído a "Ben Drosai" — segundo Rashi, um bandido que cozinhava sua comida apenas a um terço do processo, por precisar comer às pressas. Esse mesmo patamar mínimo de cozimento aparece como critério decisivo em dois outros contextos halachicos citados aqui por associação: primeiro, um alimento já cozido por um judeu até o ponto de Ben Drosai deixa de estar sujeito à proibição de bishulei akum, mesmo que um gentio complete o cozimento depois; segundo, segundo a baraita de Chananya, um alimento já nesse ponto de cozimento pode ser deixado sobre um fogão em Shabat mesmo sem as precauções normalmente exigidas (remover as brasas vivas ou cobri-las de cinza), pois não há mais receio de que a pessoa venha a atiçá-las — o processo já atingiu um estágio em que "está bem o suficiente" para ser comido.
Guemará. "Ben Drosai" — era um bandido, e cozinhava sua comida a um terço (do processo).
"Também foi dito" — que a comida (no ponto) de Ben Drosai já se considera um cozimento (completo, para certos efeitos).
"Qualquer (alimento)" — cozido pela mão de um judeu ao ponto de comida de Ben Drosai, depois, em terminar de cozinhá-lo (um gentio), não há (o problema) de bishulei akum.
"Removidas" — (as brasas) retiradas com uma pá (que a chamam de), em língua estrangeira, vodilhe.
"Cobertas" — espalha-se cinza por cima, para dissipar seu calor, de modo que não aumente o calor em Shabat; e este cozido, que está no ponto de comida de Ben Drosai, não nos preocupamos se continua a cozinhar em Shabat.
"Não se põe o pão (no forno), etc." (retomando a Mishná): Foi perguntado (pelos sábios): "a (face) inferior" (mencionada por Rabi Eliezer) é aquela que fica junto ao forno (colada à sua parede), ou talvez "a inferior" seja aquela que fica junto ao fogo (voltada para baixo, para as brasas)? Venha e ouça (a resposta, de uma baraita paralela): Rabi Eliezer diz: (basta) que sua face colada ao forno creste (ainda de dia).
A Guemará volta à Mishná do bolo colocado sobre as brasas, na qual Rabi Eliezer é mais brando que o tanna anônimo, exigindo apenas que "a face inferior" tenha crestado ainda de dia. Surge uma dúvida quanto ao sentido exato dessa expressão: no caso do pão colocado no forno (cujas paredes internas recebem os pães colados ao redor), há duas faces possíveis chamadas "inferior" — a face voltada para a parede do forno (lateral, mas tecnicamente "abaixo" no sentido de já em contato com a superfície quente), e a face voltada para o interior do forno, para o lado do fogo e das brasas no fundo. A Guemará resolve a dúvida citando uma formulação paralela e mais explícita da mesma opinião de Rabi Eliezer, que especifica claramente: a face que se cresta primeiro, e cuja formação de crosta basta, é a face colada à parede do forno.
"A que fica junto ao forno" — pois os pães ficam colados às paredes do forno ao redor; por isso surge a dúvida: qual (face) se chama "inferior" — aquela face que fica junto às paredes do forno, ou a face voltada para baixo, para o interior do forno, para o lado do fogo?
"Colados ao forno" — e é (a opinião) mais rigorosa, pois as faces voltadas para o fogo se crestam mais depressa (logo, exigir que a face colada ao forno, mais lenta, já tenha crestado, é a exigência maior).
"Desce-se o sacrifício pascal (ao forno perto do anoitecer)": qual é a razão? Por que os membros do grupo são diligentes. (Objeção:) Isso quer dizer que, se não fosse assim (por essa diligência), não seria permitido? Mas não disse o Mestre: um cabrito (assado inteiro), seja aberto (pelo ventre), seja não aberto — está bem (permitido assá-lo perto do anoitecer, mesmo sem essa diligência especial)! (Resposta:) Ali (o cabrito comum) é cortado (aberto no ventre antes de ser levado ao fogo); aqui (o sacrifício pascal) não é cortado (permanece fechado e inteiro).
A Guemará examina por que a Mishná justificou a permissão de descer o sacrifício pascal ao forno perto do anoitecer especificamente pela diligência dos membros do grupo que participam da refeição pascal — implicando, aparentemente, que sem essa diligência especial a prática seria proibida. A objeção nota uma contradição com um ensinamento anterior (citado na sugya do capítulo, sobre o cabrito de Pêssach), segundo o qual assar um cabrito inteiro é permitido perto do anoitecer independentemente de estar aberto ou fechado. A resolução distingue os dois casos pela forma de preparo: o cabrito comum mencionado nesse ensinamento já foi cortado e aberto antes de ir ao fogo, o que permite a entrada de ar frio pelo corte, o que de fato atrapalharia o cozimento e faria a pessoa temer não terminar a tempo — daí a permissão ampla, sem depender de diligência. O sacrifício pascal, por sua vez, é assado inteiro, sem corte, e por isso cozinha de modo mais parelho e previsível — mas, ainda assim, por ser um animal inteiro e maior, requer a diligência especial dos membros do grupo, que se lembram uns aos outros de não atiçarem o fogo, para que se possa permitir descê-lo tão perto do anoitecer.
"Ali é cortado" — e, se (a pessoa) abre a boca do forno (para verificar), entra nele vento, e isso o prejudica (atrasa seu cozimento).
"Aqui não é cortado" — pois está escrito: "(assado no fogo), sua cabeça com suas pernas e suas entranhas" (Shemot 12:9, isto é, inteiro); e, se (a pessoa) o abre (o forno para verificar), o vento não o prejudica (tanto, por estar o animal fechado); por isso, se não fosse pela diligência (dos membros do grupo), seria proibido.
"E acende-se o fogo (na fogueira do Bet HaMokêd), etc.": de onde vêm estas palavras? Disse Rav Huna: (do verso) "não acendereis fogo em todas as vossas habitações" (Shemot 35:3) — em todas as vossas habitações não acenderás, mas acendes na fogueira do Bet HaMokêd (que não é uma "habitação" comum, mas parte do Templo). Objetou Rav Chisda: se assim (fosse, e o verso excluísse o Templo por completo), (seria permitido acender ali) mesmo em pleno Shabat também (o que não é o caso — a fogueira só pode ser mantida, não acesa de novo em Shabat)! Mas disse Rav Chisda (a explicação correta): o verso, quando veio, veio apenas para permitir (a queima em Shabat de) membros (dos sacrifícios) e gorduras (sobre o altar, e não para permitir a fogueira do Bet HaMokêd); e (a permissão de acender essa fogueira perto do anoitecer deve-se, então, apenas ao fato de que) os sacerdotes são diligentes.
A Guemará busca a fonte bíblica da permissão de acender e alimentar a fogueira do Bet HaMokêd. Rav Huna propõe que o próprio verso que proíbe acender fogo em Shabat — "não acendereis fogo em todas as vossas habitações" — implicitamente exclui o Templo dessa proibição, pois o Templo não é uma "habitação" no sentido comum, e por isso ali se poderia acender fogo mesmo em pleno Shabat. Rav Chisda objeta que essa leitura vai longe demais: se o verso realmente excluísse todo o recinto do Templo da proibição de acender fogo, seria permitido também acender ali fogo novo durante o próprio Shabat — o que contradiz o consenso de que apenas se pode manter e alimentar (mas não iniciar) a fogueira, e mesmo assim só perto do anoitecer, antes de Shabat propriamente começar. Por isso Rav Chisda propõe uma leitura mais restrita: o verso exclui do Templo apenas a proibição de queimar, sobre o altar, os membros e as gorduras dos sacrifícios que ainda restam ao entardecer — uma permissão específica ligada ao serviço sacrificial, e não uma isenção geral de todo fogo no Templo. Segue-se que a permissão de acender a fogueira do Bet HaMokêd perto do anoitecer não deriva desse verso, mas apenas da mesma razão prática invocada para o sacrifício pascal: a diligência dos sacerdotes, que não deixarão o fogo se apagar nem precisarão atiçá-lo já em Shabat.
"Membros e gorduras é que veio a permitir" — (o verso veio) para permitir queimá-los a noite toda; mas a fogueira do Bet HaMokêd, que não é uma necessidade do Alto (do serviço divino), mas sim uma necessidade dos sacerdotes (para se aquecerem), não foi (assim) permitida; e, quanto a (fazê-la) perto do anoitecer, a razão de não terem decretado (contra isso) é que os sacerdotes são diligentes, pois todos eram homens versados na Torá e temerosos, e se lembravam uns aos outros, e não vinham a atiçá-la depois de escurecer.
"E nas regiões, contanto que (o fogo) pegue (na maioria), etc.": o que é "a maioria delas"? Disse Rav: a maioria de cada uma (lenha) individualmente. E Shmuel disse: (basta) o suficiente para que (as pessoas) não digam: "traga lenha, e a coloquemos debaixo delas (para reacender)". Ensinou Rav Chiya, para apoiar Shmuel: (a medida é) o suficiente para que a chama suba por si mesma, e não que a chama suba por meio de outra coisa (isto é, sem precisar de ajuda externa para continuar ardendo).
A Guemará precisa a medida de "a maioria" exigida pela própria Mishná para a fogueira comum, fora do Templo. Rav interpreta de modo estrito e literal: é necessário que o fogo já tenha se propagado pela maior parte de cada pedaço de lenha individualmente, dentro da fogueira. Shmuel adota um padrão funcional, mais brando: basta que o fogo esteja suficientemente estabelecido para que ninguém sinta necessidade de buscar mais lenha e colocá-la sob a fogueira para reacendê-la — ou seja, o critério não é uma fração física de cada lenha, mas a autossuficiência da chama. Uma baraita transmitida por Rav Chiya formula esse mesmo padrão de modo mais preciso, apoiando Shmuel: a chama deve já estar subindo por conta própria, sustentando-se sozinha, e não depender de um agente externo (como um sopro ou reforço de lenha nova) para continuar a arder.
"Cada uma individualmente" — cada lenha e cada lenha (precisa ter o fogo em sua maioria); e não digas que basta que (o fogo) tenha pegado na maioria do número de lenhas (sem que cada uma, em si, esteja na maioria).
"E Shmuel disse" — o suficiente para que não seja preciso dizer: "traga lenhas finas, e as coloquemos debaixo destas, para acendê-las".
"Ensinou Rabi Chiya" — no capítulo "Com que se acende", a respeito da Menorá, sobre "para acender a lâmpada perpetuamente" (que exige) que a chama suba por si mesma; eis que, num caso assim, considera-se (válido o ato de) acender, em nome de Rabi Yehudá HaLevi. E é difícil para mim: primeiro, que ali é Rami bar Chama quem a ensina; e segundo, que não é uma baraita (independente), mas sim que ele a disse explicitamente a respeito de outra mishná; e os demais nossos mestres a ensinam a respeito da fogueira; e eu a encontrei em Torat Kohanim a respeito da Menorá.
(Quanto a) uma lenha isolada (e não uma fogueira de várias), Rav disse: (é necessário) a maioria de sua espessura; e há quem diga (que Rav disse): a maioria de sua circunferência. Disse Rav Papa: portanto, precisamos da maioria de sua espessura, e precisamos da maioria de sua circunferência (isto é, ambas as versões devem ser exigidas juntas, para satisfazer as duas opiniões). (Isso é) como (uma disputa entre) tanaítas: Rabi Chiya disse: o suficiente para que a madeira se estrague do (ponto de vista do) trabalho do artesão (isto é, que já não sirva mais para nada além de queimar); Rabi Yehuda ben Beteira diz: o suficiente para que o fogo pegue de dois lados. E, embora não haja prova (cabal) para o assunto, há uma alusão ao assunto: "suas duas pontas o fogo consumiu, e seu (interior) miolo se chamuscou — serviria ele para (algum) trabalho?" (Yechezkel 15:4).
A Guemará passa ao caso de uma única lenha ou tora, isolada (não parte de uma fogueira composta por múltiplas peças), perguntando qual é a medida de "pegar fogo na maioria" nesse caso específico. Há uma dupla tradição sobre a opinião de Rav: segundo uma versão, ele exige que o fogo tenha penetrado na maior parte da espessura da lenha (de fora para dentro); segundo outra versão, ele exige que o fogo tenha se espalhado pela maior parte de sua circunferência (ao redor, ao longo do comprimento). Rav Papa resolve a dúvida quanto à versão correta afirmando que, na prática, ambas as condições devem ser satisfeitas: tanto a maioria da espessura quanto a maioria da circunferência. A Guemará observa que essa mesma dualidade de critérios corresponde a uma disputa entre tanaítas: Rabi Chiya adota um critério qualitativo (a lenha deve estar tão queimada que um artesão já não a aproveitaria para trabalho), enquanto Rabi Yehuda ben Beteira adota um critério estrutural (o fogo deve ter pegado em dois lados opostos da lenha, o que corresponderia à "maioria da circunferência"). Como apoio (não uma prova estrita, mas uma alusão textual), cita-se o verso de Yechezkel sobre a videira, cuja madeira, mesmo sendo naturalmente inútil para artesanato, só se considera verdadeiramente "acabada" quando o fogo consumiu ambas as pontas e o miolo se chamuscou — sugerindo que dois lados extremos precisam ser atingidos.
"Lenha isolada" — algo como o nosso tronco.
"A maioria de sua espessura" — que o fogo penetre dentro de sua espessura até a maior parte dela.
"A maioria de sua circunferência" — por fora.
"Como tanaítas" — (a disputa entre) a maioria de sua espessura ou a maioria de sua circunferência.
"Que se estrague" — (corresponde a) a maioria de sua espessura.
"Dois de seus lados" — (corresponde a) a maioria de sua circunferência.
"Alusão ao assunto" — que, depois (disso), continua a arder por si.
"Suas duas pontas o fogo consumiu" — é sabido que seu miolo se chamuscou, e sua umidade se foi, e ficou seco.
"Se chamuscou" — cessou sua umidade, e (ficou) seco; como "minha garganta se secou (nichar)" (Tehilim 69:4), e assim "minha pele se requeimou (charah) pelo calor" (Iyov 30:30).
"E o ach diante dele, ardendo" (Yeshayahu 30:14, citado em passagem correlata). O que é "ach"? Disse Rav: achvoná (um tipo de brasa ou lenha). E Shmuel disse: lenhas que se acenderam por meio de achvoná (isto é, o próprio processo de acender com esse material). Certo (homem) que lhes disse: quem quer achvoná? — descobriu-se (tratar-se de) galhos de salgueiro.
A Guemará esclarece, por associação lexical com o tema do fogo e da lenha, o significado da palavra "ach" que aparece no verso de Yeshayahu sobre a quebra do vaso de oleiro, cujos cacos servem apenas "para tirar fogo do ach". Rav identifica "ach" com "achvoná", um termo técnico para um tipo específico de material combustível ou de brasa. Shmuel entende de modo ligeiramente diferente: refere-se não ao material em si, mas às lenhas já acesas por meio desse processo de "achvoná". Um pequeno episódio popular esclarece, por fim, do que efetivamente se trata: quando um homem oferecia publicamente "achvoná" à venda, descobriu-se que o produto eram galhos de salgueiro (usados como gravetos finos e inflamáveis, próprios para acender fogo).
"E o ach" — está escrito a respeito da queima, por Yehoyakim, do rolo (de Yirmeyahu).
"Com achvoná" — todas as lenhas se acendem umas pelas outras; a menor acende a maior.
Disse Rav Huna: canas (soltas, empilhadas para uma fogueira) não precisam de (que o fogo pegue na) maioria; (mas, se a pessoa) as atou (em feixes), precisam de maioria. Caroços (de tâmara, soltos) não precisam de maioria; (mas, se a pessoa) os pôs em cestos (trançados), precisam de maioria. Objetou Rav Chisda: pelo contrário, o oposto é que faz sentido: canas (soltas) se espalham (quando o fogo pega em uma, as outras se afastam e não pegam junto — por isso precisariam de maioria já acesa); atadas, não se espalham (o fogo passa facilmente de uma a outra dentro do feixe apertado, sem precisar de maioria prévia). Caroços (soltos) se espalham; postos em cestos, não se espalham. (A opinião de Rav Chisda) também foi dita (de forma independente, prosseguindo no início de 20b).
O daf fecha com uma última disputa técnica sobre a exigência de "maioria" acesa, aplicada agora a materiais combustíveis leves e numerosos: feixes de canas, e caroços de tâmara usados como lenha. Rav Huna estabelece uma distinção: canas soltas (não atadas), por serem poucas e dispersas ao redor umas das outras, não precisam que o fogo já tenha pegado na maioria delas — pois o fogo passa facilmente de uma a outra; mas, uma vez atadas em feixes compactos, exige-se a maioria acesa, pois um feixe apertado se comporta como uma peça de lenha única e mais espessa. Da mesma forma, caroços soltos não exigem maioria, mas caroços amontoados dentro de cestos (recipientes trançados) exigem. Rav Chisda objeta que a lógica deveria ser exatamente invertida: quando as canas ou os caroços estão soltos e espalhados, o fogo tem dificuldade em se propagar de um para o outro (pois tendem a se afastar ou a não ficar em contato firme), exigindo, portanto, maioria prévia; já quando estão atados ou confinados num cesto, mantêm-se em contato firme uns com os outros, permitindo que o fogo se propague com facilidade — dispensando a exigência de maioria. A Guemará indica que essa mesma opinião de Rav Chisda foi transmitida de modo independente, e a sugya prossegue com essa questão em aberto no início do próximo daf, 20b.
"Não precisam de maioria" — para acender o fogo na maioria delas ainda de véspera de Shabat; basta que se pegue fogo nelas ainda de dia, pois não vão se apagando aos poucos, mas sim vão ardendo continuamente.
"Precisam de maioria" — porque a chama não consegue penetrar entre elas.
"Caroços" — de tâmara; se (a pessoa) fez deles uma fogueira depois de secos, não precisam de maioria.
"Postos em cestos" — utensílios que se fazem de folhas de palmeira, e (a pessoa) pôs o utensílio cheio (deles) na fogueira: precisam de maioria, porque estão amontoados juntos, e a chama não consegue penetrar entre eles.
"Canas se espalham" — para cá e para lá, e uma delas que sobressai não encontrará sua companheira para incendiá-la; por isso, quando não estão atadas, precisam de maioria; mas, atadas, não se espalham, e não precisam de maioria; e o mesmo (vale) para os caroços.