Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Bet · Bameh Madlikin
מִי כָּאן הִלֵּל

O episódio completo do apostador que tenta irritar Hilel; os três convertidos de Shamai e Hilel; e a exposição de Reish Lakish e Rava sobre as seis ordens da Mishná

Shabbat 31a — a continuação e o desfecho da baraita sobre a humildade de Hilel, com os episódios clássicos dos convertidos e o encerramento agádico da sugia

O daf dá continuidade direta à baraita iniciada ao final de 30b: um dos dois apostadores vai até a casa de Hilel na véspera de Shabat, interrompendo-o três vezes enquanto ele se lava a cabeça, com perguntas cada vez mais provocativas e sem relevância real — por que as cabeças dos babilônios são redondas, por que os olhos dos tarmodianos são estreitos, por que os pés dos africanos são largos — e Hilel, sem nunca perder a paciência, sai a cada vez, envolve-se no manto e responde com seriedade completa, como se cada pergunta fosse genuinamente importante. Por fim, o próprio apostador confessa que perdeu quatrocentos zuz por causa dele, e Hilel responde que vale a pena perder essa soma, mas que ele, Hilel, não perderá a paciência. A seguir, a Guemará traz uma baraita com três episódios famosos de não judeus que se apresentam primeiro a Shamai e depois a Hilel para se converter sob condições provocativas: um que aceita apenas a Torá Escrita e não a Oral, expulso por Shamai e aceito por Hilel, que o converte e depois lhe ensina o alfabeto invertido no dia seguinte para lhe mostrar a necessidade de confiar na tradição oral; um que pede para aprender toda a Torá enquanto fica em pé sobre uma perna só, expulso por Shamai e respondido por Hilel com a máxima "o que te é odioso, não faças ao teu próximo — esta é toda a Torá, o resto é comentário, vai e aprende"; e um que, ao ouvir sobre as vestes do Sumo Sacerdote, quer se converter sob a condição de ser nomeado Sumo Sacerdote, também expulso por Shamai, mas aceito por Hilel, que o ensina a lógica das "regras da realeza" a partir do estudo, levando-o a perceber sozinho, ao ler "o estranho que se aproximar morrerá", que nem sequer um judeu comum pode assumir esse cargo sem qualificação — e o convertido conclui, por um raciocínio a fortiori, que jamais teria condição para o posto. Os três convertidos, tempos depois, encontram-se e concluem juntos que a impaciência de Shamai quase os expulsou do mundo, enquanto a humildade de Hilel os aproximou sob as asas da Shechiná. O daf fecha com duas exposições agádicas finais e não diretamente ligadas à narrativa anterior: Reish Lakish interpreta o versículo de Isaías 33:6 como uma referência às seis ordens da Mishná, culminando na frase "o temor do Eterno é seu tesouro"; e Rava ensina que, no julgamento final, a pessoa é questionada sobre honestidade nos negócios, fixação de horários para o estudo da Torá, dedicação à procriação, expectativa pela salvação, argumentação sabia em Torá e compreensão intuitiva — mas que, mesmo cumprindo tudo isso, só é aprovada se also tiver o temor do Eterno como seu tesouro central, ilustrado pela parábola do mensageiro que trouxe trigo sem misturar um pouco de sal conservante.

O apostador que tenta irritar Hilel · מִי כָּאן הִלֵּל

01O apostador interrompe Hilel enquanto se lava a cabeça e pergunta por que as cabeças dos babilônios são redondas; Hilel responde com seriedade completa
Baraita
אוֹתוֹ הַיּוֹם עֶרֶב שַׁבָּת הָיָה, וְהִלֵּל חָפַף אֶת רֹאשׁוֹ. הָלַךְ וְעָבַר עַל פֶּתַח בֵּיתוֹ, אָמַר: מִי כָּאן הִלֵּל, מִי כָּאן הִלֵּל? נִתְעַטֵּף וְיָצָא לִקְרָאתוֹ. אָמַר לוֹ: בְּנִי, מָה אַתָּה מְבַקֵּשׁ? אָמַר לוֹ: שְׁאֵלָה יֵשׁ לִי לִשְׁאוֹל. אָמַר לוֹ: שְׁאַל בְּנִי. שְׁאַל: מִפְּנֵי מָה רָאשֵׁיהֶן שֶׁל בַּבְלִיִּים סְגַלְגַּלּוֹת? אָמַר לוֹ: בְּנִי, שְׁאֵלָה גְּדוֹלָה שָׁאַלְתָּ. מִפְּנֵי שֶׁאֵין לָהֶם חַיּוֹת פִּקְּחוֹת.

Naquele dia era véspera de Shabat, e Hilel lavava a cabeça. (O apostador) foi e passou pela porta de sua casa, (e) disse: há aqui algum Hilel, há aqui algum Hilel? (Hilel) envolveu-se (no manto) e saiu ao seu encontro. Disse-lhe: meu filho, o que buscas? Disse-lhe: uma pergunta tenho para perguntar. Disse-lhe: pergunta, meu filho. Perguntou: por que as cabeças dos babilônios são redondas? Disse-lhe: meu filho, uma grande pergunta perguntaste. (É) porque não têm parteiras hábeis.

Nota

A narrativa retoma exatamente onde a baraita de 30b parou, no momento em que um dos dois apostadores declara sua intenção de tentar irritar Hilel. O texto especifica o cenário: era véspera de Shabat, ocasião de grande atarefamento doméstico e preparação, e Hilel estava justamente ocupado lavando a cabeça — um momento de vulnerabilidade e interrupção pouco conveniente. O apostador, de forma deliberadamente desrespeitosa, chama por Hilel do lado de fora repetindo seu nome sem título, "há aqui algum Hilel?", uma formulação que Rashi identifica como linguagem de desprezo dirigida contra o próprio Nassi (líder) de Israel. Ainda assim, Hilel não apenas atende ao chamado, como se veste formalmente (envolvendo-se no manto, sinal de respeito e dignidade) antes de sair ao encontro do provocador, dirigindo-se a ele com absoluta cordialidade, chamando-o de "meu filho". A pergunta em si — por que as cabeças dos babilônios (isto é, dos judeus que vivem na Babilônia) são arredondadas — é trivial e sem qualquer relevância halachica ou espiritual, uma tentativa clara de desperdiçar o tempo do sábio com futilidade. Hilel, contudo, trata a pergunta como se fosse genuinamente profunda ("uma grande pergunta perguntaste"), e oferece uma resposta séria: a formato da cabeça se deve à falta de parteiras qualificadas na Babilônia, capazes de moldar adequadamente o crânio dos recém-nascidos.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a aposta e a primeira pergunta
שהמרו - נתערבו כמו שממרין את היונים דסנהדרין (דף כו:):

"Que apostaram" — fizeram uma aposta, como (a expressão) "apostam pombos", em Sanhedrin (26b).

מי כאן הלל - כלום כאן הלל ולשון גנאי לנשיא ישראל:

"Há aqui algum Hilel" — (no sentido de) "acaso há aqui Hilel?" — e é uma linguagem de desprezo dirigida ao Nassi (líder) de Israel.

מפני מה ראשן של בבליים סגלגלות - בילונ"ה בלעז שאינו עגול לישנא אחרינא ראשן של בבליים סגלגל עגול:

"Por que as cabeças dos babilônios são redondas" — (termo que designa) "bilonha" em língua estrangeira (francês antigo), que não é (perfeitamente) redondo; outra explicação: "as cabeças dos babilônios são seguelguel" (significa) redondas.

02Segunda pergunta, sobre os olhos estreitos dos tarmodianos, respondida com a mesma seriedade
Baraita
הָלַךְ וְהִמְתִּין שָׁעָה אַחַת, חָזַר וְאָמַר: מִי כָּאן הִלֵּל, מִי כָּאן הִלֵּל? נִתְעַטֵּף וְיָצָא לִקְרָאתוֹ. אָמַר לוֹ: בְּנִי, מָה אַתָּה מְבַקֵּשׁ? אָמַר לוֹ: שְׁאֵלָה יֵשׁ לִי לִשְׁאוֹל. אָמַר לוֹ: שְׁאַל בְּנִי. שְׁאַל: מִפְּנֵי מָה עֵינֵיהֶן שֶׁל תַּרְמוֹדִיִּין תְּרוּטוֹת? אָמַר לוֹ: בְּנִי, שְׁאֵלָה גְּדוֹלָה שָׁאַלְתָּ. מִפְּנֵי שֶׁדָּרִין בֵּין הַחוֹלוֹת.

(O apostador) foi e esperou uma hora; voltou e disse: há aqui algum Hilel, há aqui algum Hilel? (Hilel) envolveu-se e saiu ao seu encontro. Disse-lhe: meu filho, o que buscas? Disse-lhe: uma pergunta tenho para perguntar. Disse-lhe: pergunta, meu filho. Perguntou: por que os olhos dos tarmodianos são estreitos? Disse-lhe: meu filho, uma grande pergunta perguntaste. (É) porque moram entre as areias.

Nota

O padrão se repete: o apostador espera uma hora e retorna com a mesma fórmula desrespeitosa de chamado, e Hilel, sem qualquer sinal de irritação ou impaciência pela repetição, novamente se veste com dignidade e sai a seu encontro, tratando-o com a mesma cordialidade paternal de antes. A segunda pergunta — por que os olhos dos habitantes de Tarmod (uma região desértica) são estreitos ou tortos — é igualmente trivial. Hilel responde, mais uma vez com gravidade, explicando que a condição climática e geográfica — viver entre as areias do deserto, expostos ao vento constante que sopra areia nos olhos — levou essa população a desenvolver, ao longo de gerações, olhos naturalmente mais estreitos como proteção. Rashi observa duas explicações possíveis para o termo "terutot": olhos suaves ou moles (afetados pela areia), ou, alternativamente, olhos arredondados, adaptados à necessidade de manter a fenda ocular mais curta para que a areia não penetre tão facilmente quanto entraria numa fenda mais longa.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre os olhos dos tarmodianos e os pés dos africanos
תרוטות - רכות:

"Estreitos" (terutot) — moles, suaves.

שדרים בין החולות - והרוח נושבת ונכנס בתוך עיניהם ובמקום אחר מפרש תרוטות לשון עגולות בית מושב שלהן ואף כאן אני אומר כן ומפני שדרים בין החולות שינה אותם המקום שלא יהא סדק של עיניהם ארוך כשלנו ויכנס בו החול וכן רגליהם של אפרקיים רחבות שלא יטבעו בבצעי המים ורבותינו מפרשים שדרים בין בצעי המים והולכין יחפין ומתפשטין רגליהן לפי שהמנעל דוחק הרגל ומעמידו על דפוס שלו:

"Pois moram entre as areias" — e o vento sopra e entra em seus olhos; e em outro lugar (Rashi) explica "terutot" como (uma expressão) de redondeza, (referindo-se) à cavidade de sua fenda ocular, e também aqui digo assim: e por morarem entre as areias, o Lugar (D-us) os modificou para que a fenda de seus olhos não fosse longa como a nossa, para que a areia não entrasse nela; e do mesmo modo os pés dos africanos são largos, para que não afundem nos lamaçais das águas; e nossos mestres explicam (de outra forma): que moram entre lamaçais de água e andam descalços, e seus pés se alargam, pois o calçado comprime o pé e o mantém em seu molde (natural, menor).

03Terceira pergunta, sobre os pés largos dos africanos, também respondida com seriedade
Baraita
הָלַךְ וְהִמְתִּין שָׁעָה אַחַת, חָזַר וְאָמַר: מִי כָּאן הִלֵּל, מִי כָּאן הִלֵּל? נִתְעַטֵּף וְיָצָא לִקְרָאתוֹ, אָמַר לוֹ: בְּנִי, מָה אַתָּה מְבַקֵּשׁ? אָמַר לוֹ: שְׁאֵלָה יֵשׁ לִי לִשְׁאוֹל. אָמַר לוֹ: שְׁאַל בְּנִי. שְׁאַל: מִפְּנֵי מָה רַגְלֵיהֶם שֶׁל אַפְרִקִיִּים רְחָבוֹת? אָמַר לוֹ: בְּנִי שְׁאֵלָה גְּדוֹלָה שָׁאַלְתָּ — מִפְּנֵי שֶׁדָּרִין בֵּין בִּצְעֵי הַמַּיִם.

(O apostador) foi e esperou uma hora; voltou e disse: há aqui algum Hilel, há aqui algum Hilel? (Hilel) envolveu-se e saiu ao seu encontro. Disse-lhe: meu filho, o que buscas? Disse-lhe: uma pergunta tenho para perguntar. Disse-lhe: pergunta, meu filho. Perguntou: por que os pés dos africanos são largos? Disse-lhe: meu filho, uma grande pergunta perguntaste — (é) porque moram entre lamaçais de água.

Nota

A terceira repetição segue exatamente o mesmo padrão triplo das anteriores — outra hora de espera, o mesmo chamado desrespeitoso, a mesma vestimenta formal e a mesma saída cordial de Hilel. A terceira pergunta, sobre por que os pés dos habitantes do norte da África são largos, recebe a mesma explicação ambiental: a necessidade adaptativa de uma população que vive entre pântanos e lamaçais de água, onde pés mais largos oferecem melhor estabilidade e evitam afundar no lodo. A estrutura tríplice e cuidadosamente repetitiva do episódio — três interrupções, três esperas de uma hora, três perguntas triviais, três respostas igualmente sérias e pacientes — serve para enfatizar retoricamente a extraordinária constância do temperamento de Hilel: não há sinal algum de fadiga, irritação crescente ou impaciência, mesmo diante da óbvia futilidade e da repetição provocativa das perguntas.

04O apostador confessa que perdeu quatrocentos zuz por causa de Hilel; Hilel responde que vale a pena perdê-los, mas que ele não perderá a paciência
Baraita
אָמַר לוֹ: שְׁאֵלוֹת הַרְבֵּה יֵשׁ לִי לִשְׁאוֹל, וּמִתְיָרֵא אֲנִי שֶׁמָּא תִּכְעוֹס. נִתְעַטֵּף וְיָשַׁב לְפָנָיו. אָמַר לוֹ: כׇּל שְׁאֵלוֹת שֶׁיֵּשׁ לָךְ לִשְׁאוֹל שְׁאַל. אָמַר לוֹ אַתָּה הוּא הִלֵּל שֶׁקּוֹרִין אוֹתְךָ ״נְשִׂיא יִשְׂרָאֵל״? אָמַר לוֹ: הֵן. אָמַר לוֹ: אִם אַתָּה הוּא, לֹא יִרְבּוּ כְּמוֹתְךָ בְּיִשְׂרָאֵל. אָמַר לוֹ: בְּנִי, מִפְּנֵי מָה? אָמַר לוֹ מִפְּנֵי שֶׁאִבַּדְתִּי עַל יָדְךָ אַרְבַּע מֵאוֹת זוּז. אָמַר לוֹ: הֱוֵי זָהִיר בְּרוּחֲךָ כְּדַי הוּא הִלֵּל שֶׁתְּאַבֵּד עַל יָדוֹ אַרְבַּע מֵאוֹת זוּז וְאַרְבַּע מֵאוֹת זוּז, וְהִלֵּל לֹא יַקְפִּיד.

Disse-lhe: muitas perguntas tenho para perguntar, e temo que talvez te irrites. (Hilel) envolveu-se (novamente) e sentou-se diante dele. Disse-lhe: todas as perguntas que tens para perguntar, pergunta. Disse-lhe: és tu Hilel, a quem chamam "Nassi de Israel"? Disse-lhe: sim. Disse-lhe: se és tu, que não se multipliquem como tu em Israel! Disse-lhe: meu filho, por quê? Disse-lhe: porque perdi por tua causa quatrocentos zuz. Disse-lhe: sê cuidadoso com teu espírito (isto é, controla-te); vale a pena que (alguém) perca por causa de Hilel quatrocentos zuz e (mais) quatrocentos zuz, e Hilel não perderá a paciência.

Nota

O episódio chega ao seu clímax e desfecho. Desta vez, o apostador, em vez de repetir o padrão de sair e voltar, anuncia diretamente que tem muitas perguntas, acrescentando — com evidente ironia, já que essa é justamente sua intenção — que teme irritar Hilel. Hilel, mais uma vez, veste-se formalmente e, desta vez, senta-se diante dele, sinalizando disposição para uma conversa mais longa, convidando-o a perguntar tudo o que desejar. É nesse momento que o apostador revela sua verdadeira identidade e intenção: pergunta diretamente se ele é de fato o famoso Nassi de Israel, e, ao receber confirmação, solta uma maldição disfarçada de elogio invertido — "que não se multipliquem como tu em Israel" —, uma expressão de frustração e desprezo. Quando Hilel, sem se abalar, pergunta calmamente o motivo, o homem finalmente confessa: perdeu a aposta de quatrocentos zuz precisamente porque não conseguiu, apesar de todo o esforço, irritar Hilel. A resposta final de Hilel é a moral culminante de todo o episódio: ele não repreende o homem por sua trapaça ou grosseria, mas antes o admoesta gentilmente a "ter cuidado com seu próprio espírito" — isto é, a controlar sua própria tendência à impaciência e à provocação —, afirmando que vale totalmente a pena que alguém perca somas repetidas de quatrocentos zuz tentando irritar Hilel, pois, de qualquer forma, Hilel jamais perderá a paciência. A frase encapsula perfeitamente a lição comportamental que a baraita buscava ilustrar desde seu início.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a conclusão do episódio
כדי הוא הלל - ראוי לכך:

"Vale a pena (que se perca) por causa de Hilel" — (isto é, ele) é digno disso.

Os três convertidos de Shamai e Hilel · מַעֲשֶׂה בְּגוֹי

05O primeiro convertido: aceita apenas a Torá Escrita; expulso por Shamai, aceito por Hilel, que lhe ensina o alfabeto invertido para mostrar a necessidade da tradição oral
Baraita
תָּנוּ רַבָּנַן: מַעֲשֶׂה בְּגוֹי אֶחָד שֶׁבָּא לִפְנֵי שַׁמַּאי. אָמַר לוֹ: כַּמָּה תּוֹרוֹת יֵשׁ לָכֶם? אָמַר לוֹ: שְׁתַּיִם, תּוֹרָה שֶׁבִּכְתָב וְתוֹרָה שֶׁבְּעַל פֶּה. אָמַר לוֹ: שֶׁבִּכְתָב אֲנִי מַאֲמִינְךָ, וְשֶׁבְּעַל פֶּה — אֵינִי מַאֲמִינְךָ. גַּיְּירֵנִי עַל מְנָת שֶׁתְּלַמְּדֵנִי תּוֹרָה שֶׁבִּכְתָב. גָּעַר בּוֹ וְהוֹצִיאוֹ בִּנְזִיפָה. בָּא לִפְנֵי הִלֵּל, גַּיְירֵיהּ. יוֹמָא קַמָּא אֲמַר לֵיהּ: א״ב ג״ד. לִמְחַר אֲפֵיךְ לֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: וְהָא אֶתְמוֹל לָא אֲמַרְתְּ לִי הָכִי! אֲמַר לֵיהּ: לָאו עֲלַי דִּידִי קָא סָמְכַתְּ? דְּעַל פֶּה נָמֵי סְמוֹךְ עֲלַי.

Ensinaram os sábios (numa baraita): aconteceu (o seguinte caso) com um não judeu que veio diante de Shamai. Disse-lhe: quantas Torot tendes vós? Disse-lhe: duas, a Torá Escrita e a Torá Oral. Disse-lhe: a Escrita, eu te acredito; mas a Oral, não te acredito. Converte-me, sob a condição de que me ensines (apenas) a Torá Escrita. (Shamai) repreendeu-o e expulsou-o com censura. (O homem) veio diante de Hilel; (Hilel) o converteu. No primeiro dia, disse-lhe: alef, bet, guimel, dalet. No dia seguinte, (Hilel) inverteu para ele (as letras). Disse-lhe (o convertido): mas ontem não me disseste assim! Disse-lhe: não confiaste em mim (quanto às letras)? Confia em mim também (quanto à Torá) Oral.

Nota

A Guemará abre uma nova série de três episódios famosos, todos seguindo a mesma estrutura: um não judeu se apresenta primeiro a Shamai, propondo uma condição provocativa ou irrealista para sua conversão; Shamai, fiel ao seu temperamento rigoroso e impaciente já estabelecido, rejeita-o com repreensão e o expulsa; o mesmo homem então procura Hilel, que o aceita e converte, encontrando uma forma engenhosa de ensiná-lo a lição necessária a partir de dentro da própria experiência da conversão. No primeiro episódio, o não judeu propõe aceitar apenas a Torá Escrita, rejeitando de antemão a autoridade da tradição oral (a Mishná e sua interpretação rabínica) — uma posição que, se aceita, minaria toda a estrutura do judaísmo rabínico. Hilel o aceita mesmo assim, apostando em sua própria sabedoria pedagógica: no primeiro dia de estudo, ensina-lhe o alfabeto hebraico na ordem correta; no dia seguinte, inverte deliberadamente a ordem das letras, chamando o alef de tav e assim por diante. Quando o aluno, confuso, protesta que Hilel havia lhe ensinado de forma diferente no dia anterior, Hilel aproveita o momento exato para revelar a lição: mesmo o alfabeto, a coisa mais básica e aparentemente "escrita" e objetiva possível, depende inteiramente da transmissão oral confiável de um mestre para ser corretamente compreendido — não há como aprender sequer a ler sem confiar em uma tradição transmitida verbalmente. Se o aluno já confiou nele para o alfabeto, deveria, pelo mesmo princípio, confiar nele também quanto à interpretação oral da Torá.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a expulsão e a conversão do primeiro convertido
הוציאו בנזיפה - דתניא הבא לקבל דברי חברות חוץ מדבר אחד וכן גר הבא להתגייר וקבל עליו דברי תורה חוץ מדבר אחד אין מקבלין אותו במסכת בכורות (דף ל:):

"Expulsou-o com censura" — pois foi ensinado (numa baraita): aquele que vem para aceitar as palavras (dos) companheiros (chaverim, isto é, tornar-se membro observante em confiabilidade), exceto por uma (única) coisa, e do mesmo modo o convertido que vem para se converter e aceita sobre si as palavras de Torá, exceto por uma (única) coisa — não o aceitam, (conforme) em Bechorot (30b).

גייריה - וסמך על חכמתו שסופו שירגילנו לקבל עליו דלא דמיא הא לחוץ מדבר אחד שלא היה כופר בתורה שבעל פה אלא שלא היה מאמין שהיא מפי הגבורה והלל הובטח שאחר שילמדנו יסמוך עליו:

"(Hilel) o converteu" — e confiou em sua própria sabedoria, de que ao final o habituaria a aceitá-la sobre si, pois este caso não se assemelha ao (caso de rejeitar) "exceto por uma coisa", já que (o homem) não negava a Torá Oral (por completo), mas apenas não acreditava que ela viesse da Boca do Poderoso (D-us, isto é, tinha dúvida quanto à origem, não rejeição categórica); e Hilel confiava que, depois de ensiná-lo, (o homem) confiaria nele.

אפיך ליה - כגון תשר"ק:

"(Hilel) inverteu para ele" — (ensinando as letras na ordem invertida), como (dizer) tav, shin, resh, kof.

לאו עלי קא סמכת - מנין אתה יודע שזו אלף וזו בית אלא שלמדתיך וסמכת עלי דעל פה נמי סמוך על דברי:

"Não confiaste em mim" — de onde sabes tu que esta (letra) é alef e esta é bet, senão porque eu te ensinei e confiaste em mim? Também quanto (à Torá que se transmite) oralmente, confia em minhas palavras.

06O segundo convertido: quer aprender toda a Torá numa perna só; expulso por Shamai, respondido por Hilel com "o que te é odioso, não faças ao teu próximo"
Baraita
שׁוּב מַעֲשֶׂה בְּגוֹי אֶחָד שֶׁבָּא לִפְנֵי שַׁמַּאי. אָמַר לוֹ: גַּיְּירֵנִי עַל מְנָת שֶׁתְּלַמְּדֵנִי כׇּל הַתּוֹרָה כּוּלָּהּ כְּשֶׁאֲנִי עוֹמֵד עַל רֶגֶל אַחַת! דְּחָפוֹ בְּאַמַּת הַבִּנְיָן שֶׁבְּיָדוֹ. בָּא לִפְנֵי הִלֵּל, גַּיְירֵיהּ. אָמַר לוֹ: דַּעֲלָךְ סְנֵי לְחַבְרָךְ לָא תַּעֲבֵיד — זוֹ הִיא כׇּל הַתּוֹרָה כּוּלָּהּ, וְאִידַּךְ פֵּירוּשָׁהּ הוּא, זִיל גְּמוֹר.

Novamente aconteceu (um caso) com um não judeu que veio diante de Shamai. Disse-lhe: converte-me, sob a condição de que me ensines toda a Torá inteira enquanto estou de pé sobre uma perna só! (Shamai) empurrou-o com a vara de medir que tinha na mão. (O homem) veio diante de Hilel; (Hilel) o converteu. Disse-lhe: o que te é odioso, ao teu próximo não faças — esta é toda a Torá inteira, e o restante é (seu) comentário; vai e aprende.

Nota

O segundo episódio é talvez o mais célebre dos três, e um dos textos mais citados de todo o Talmud. O não judeu propõe uma condição aparentemente absurda e certamente desrespeitosa: que lhe seja ensinada a totalidade da Torá enquanto ele permanece equilibrado sobre uma única perna — uma exigência de brevidade extrema, quase cômica, para algo tão vasto quanto a Torá. Shamai, sem paciência para tal impertinência, reage com violência física simbólica, empurrando o homem com a vara de medir que tinha em mãos (usada em sua profissão de construtor, segundo Rashi). Hilel, por sua vez, aceita o desafio literalmente e encontra uma resposta genial: resume o princípio ético fundamental de toda a Torá numa única frase memorável — "o que te é odioso, não faças ao teu próximo" —, uma formulação negativa da "regra de ouro", que ecoa o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo (Levítico 19:18). Hilel completa a resposta com uma ressalva essencial: essa máxima central é apenas o núcleo condensado; todo o restante do corpo imenso de mandamentos, leis e ensinamentos da Torá constitui, em essência, comentário e elaboração detalhada desse princípio fundamental — e, para verdadeiramente compreendê-la em sua totalidade, é preciso "ir e aprender" (estudar continuamente), pois um resumo de uma frase, por mais profundo que seja, não substitui o estudo aprofundado e contínuo da Torá em sua integridade.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a vara de medir e a máxima de Hilel
אמת הבנין - מקל שהוא אמת אורך ומודדים בו אורך הבנין שהיו קוצצין עם האומנין כך וכך אמות בכך וכך דמים:

"A vara de medir" — um bastão que (tem) a medida de um amá (côvado) de comprimento, e com ele medem o comprimento da construção, pois (os proprietários) combinavam com os artesãos (o pagamento por) tantos e tantos côvados por tal e tal preço.

דעלך סני לחברך לא תעביד - ריעך וריע אביך אל תעזוב (משלי כז) זה הקב"ה אל תעבור על דבריו שהרי עליך שנאוי שיעבור חבירך על דבריך ל"א חבירך ממש כגון גזלה גנבה ניאוף ורוב המצות:

"O que te é odioso, ao teu próximo não faças" — (conforme o versículo) "a teu amigo e ao amigo de teu pai não abandones" (Provérbios 27:10) — este (amigo) é o Santo, bendito seja; não transgridas Suas palavras, pois te é odioso que teu próximo transgrida tuas palavras. Outra explicação: (referindo-se) ao próximo literalmente, como (nos casos de) roubo, furto, adultério, e a maioria dos mandamentos.

אידך - שאר דברי תורה:

"E o restante" — as demais palavras de Torá.

פירושה - דהא מילתא הוא לדעת איזה דבר שנאוי זיל גמור ותדע:

(seu) comentário" — pois esta questão é (a de) saber qual coisa é odiosa; vai, aprende, e saberás.

07O terceiro convertido: ouve sobre as vestes do Sumo Sacerdote e quer se converter sob a condição de ser nomeado; expulso por Shamai, aceito por Hilel
Baraita
שׁוּב מַעֲשֶׂה בְּגוֹי אֶחָד שֶׁהָיָה עוֹבֵר אֲחוֹרֵי בֵּית הַמִּדְרָשׁ, וְשָׁמַע קוֹל סוֹפֵר שֶׁהָיָה אוֹמֵר: ״וְאֵלֶּה הַבְּגָדִים אֲשֶׁר יַעֲשׂוּ חוֹשֶׁן וְאֵפוֹד״. אָמַר: הַלָּלוּ לְמִי? אָמְרוּ לוֹ: לְכֹהֵן גָּדוֹל. אָמַר אוֹתוֹ גּוֹי בְּעַצְמוֹ: אֵלֵךְ וְאֶתְגַּיֵּיר בִּשְׁבִיל שֶׁיְּשִׂימוּנִי כֹּהֵן גָּדוֹל. בָּא לִפְנֵי שַׁמַּאי, אָמַר לוֹ: גַּיְּירֵנִי עַל מְנָת שֶׁתְּשִׂימֵנִי כֹּהֵן גָּדוֹל. דְּחָפוֹ בְּאַמַּת הַבִּנְיָן שֶׁבְּיָדוֹ. בָּא לִפְנֵי הִלֵּל, גַּיְירֵיהּ.

Novamente aconteceu (um caso) com um não judeu que passava atrás da casa de estudo, e ouviu a voz de um mestre (de crianças) que dizia: "e estas são as vestimentas que farão: peitoral e éfod" (Êxodo 28:4). Disse: essas (vestimentas são) para quem? Disseram-lhe: para o Sumo Sacerdote. Disse aquele não judeu consigo mesmo: irei e me converterei, para que me façam Sumo Sacerdote. Veio diante de Shamai, disse-lhe: converte-me, sob a condição de que me faças Sumo Sacerdote. (Shamai) empurrou-o com a vara de medir que tinha na mão. (O homem) veio diante de Hilel; (Hilel) o converteu.

Nota

O terceiro episódio começa de forma distinta dos dois anteriores: em vez de uma condição já formada de antemão, a motivação do não judeu surge por acaso, ao passar atrás de uma casa de estudo (ou escola infantil, segundo Rashi, que identifica o "mestre" como um professor de crianças) e ouvir a leitura de um versículo do Êxodo sobre as vestimentas sagradas do Sumo Sacerdote — o peitoral, o éfod e demais peças suntuosas descritas com detalhe no livro de Êxodo. Impressionado pelo prestígio e pela magnificência dessas vestimentas, e ao descobrir que são reservadas exclusivamente ao Sumo Sacerdote, o homem concebe a ideia (ingênua e presunçosa) de se converter ao judaísmo especificamente para alcançar esse cargo de honra máxima. Apresenta essa condição a Shamai, que, mais uma vez fiel ao seu padrão, reage com a mesma vara de medir, expulsando-o fisicamente pela absurdidade e presunção do pedido — um não judeu recém-chegado exigindo o cargo religioso mais elevado e sagrado de todo o povo. Hilel, contudo, mais uma vez aceita a conversão, confiando que encontraria, através do próprio processo de ensino, uma forma de o homem compreender por si mesmo a impossibilidade — e a inadequação — de seu pedido original.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre o mestre de crianças
סופר - מלמד תינוקות:

"Mestre" (sofer) — professor de crianças.

08Hilel manda o convertido estudar as "regras da realeza"; ao ler "o estranho que se aproximar morrerá", o próprio convertido conclui, por raciocínio a fortiori, que não pode ser Sumo Sacerdote
Baraita
אָמַר לוֹ: כְּלוּם מַעֲמִידִין מֶלֶךְ אֶלָּא מִי שֶׁיּוֹדֵעַ טַכְסִיסֵי מַלְכוּת, לֵךְ לְמוֹד טַכְסִיסֵי מַלְכוּת. הָלַךְ וְקָרָא. כֵּיוָן שֶׁהִגִּיעַ ״וְהַזָּר הַקָּרֵב יוּמָת״, אָמַר לֵיהּ: מִקְרָא זֶה עַל מִי נֶאֱמַר? אָמַר לוֹ: אֲפִילּוּ עַל דָּוִד מֶלֶךְ יִשְׂרָאֵל. נָשָׂא אוֹתוֹ גֵּר קַל וָחוֹמֶר בְּעַצְמוֹ: וּמַה יִּשְׂרָאֵל שֶׁנִּקְרְאוּ בָּנִים לַמָּקוֹם וּמִתּוֹךְ אַהֲבָה שֶׁאֲהָבָם קְרָא לָהֶם: ״בְּנִי בְּכוֹרִי יִשְׂרָאֵל״, כְּתִיב עֲלֵיהֶם ״וְהַזָּר הַקָּרֵב יוּמָת״ — גֵּר הַקַּל שֶׁבָּא בְּמַקְלוֹ וּבְתַרְמִילוֹ, עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה.

Disse-lhe (Hilel): acaso (alguém) se estabelece como rei senão aquele que conhece as regras (protocolos) da realeza? Vai, aprende as regras da realeza. (O homem) foi e leu. Quando chegou (ao versículo): "e o estranho que se aproximar morrerá" (Números 1:51, referindo-se ao serviço do Templo), disse-lhe: este versículo, sobre quem foi dito? Disse-lhe: até mesmo sobre David, rei de Israel. Fez aquele convertido um raciocínio a fortiori consigo mesmo: e se (quanto a) Israel, que são chamados filhos do Lugar (D-us), e por causa do amor com que os amou os chamou: "meu filho, meu primogênito, Israel" (Êxodo 4:22), está escrito sobre eles "e o estranho que se aproximar morrerá" — (quanto a) um convertido, que é (considerado) leve, e que vem com seu bastão e sua bolsa (de viajante, sem qualquer mérito prévio), quanto mais (se aplicaria a proibição a ele)!

Nota

A resposta de Hilel a este terceiro convertido é notavelmente diferente das duas anteriores: em vez de oferecer uma resposta direta e memorável, ele o direciona para um processo pedagógico indireto e autoguiado. Hilel argumenta que, assim como ninguém pode se tornar rei sem primeiro conhecer os protocolos e as regras próprias da realeza, também o cargo sacerdotal supremo exige conhecimento prévio de suas próprias leis — e instrui o homem a ir estudar essas "regras". O convertido obedece e começa a ler os textos relevantes, mas logo se depara com um versículo do livro de Números que estabelece uma proibição severa: qualquer "estranho" (isto é, alguém não qualificado, fora da linhagem sacerdotal designada) que se aproxime indevidamente do serviço sagrado do Templo está sujeito à pena de morte. Intrigado, o homem pergunta a quem esse versículo se aplica, e recebe a resposta surpreendente de que a proibição é tão abrangente que se aplicaria até ao próprio rei David — a maior figura política e espiritual de Israel — caso tentasse assumir funções sacerdotais para as quais não fora designado. É neste momento que o próprio convertido, sem precisar de mais nenhuma instrução direta, constrói sozinho o raciocínio lógico decisivo (um kal vachomer, argumento do menor ao maior): se mesmo o povo de Israel como um todo — amado por D-us como Seus próprios filhos primogênitos — está sujeito a essa restrição severa quanto a quem pode servir como sacerdote, então um convertido recém-chegado, sem status ancestral e sem mérito acumulado ("que vem com seu bastão e sua bolsa", uma imagem vívida de humildade e desamparo), certamente estaria ainda mais excluído de tal cargo. A genialidade pedagógica de Hilel está precisamente em não ter precisado dizer isso diretamente: ao guiar o homem ao texto certo, permitiu que ele mesmo chegasse à conclusão, tornando a lição infinitamente mais persuasiva e duradoura do que uma simples recusa teria sido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre as regras da realeza
טכסיסי - תיקוני צרכי המלך לפי הכבוד:

"Regras (protocolos)" — os arranjos das necessidades do rei, conforme a honra (devida a seu cargo).

09O convertido retorna a Shamai para expor a proibição e depois agradece a Hilel; os três convertidos se reúnem e concluem sobre a impaciência de Shamai e a humildade de Hilel
Baraita
בָּא לִפְנֵי שַׁמַּאי, אָמַר לוֹ: כְּלוּם רָאוּי אֲנִי לִהְיוֹת כֹּהֵן גָּדוֹל? וַהֲלֹא כְּתִיב בַּתּוֹרָה: ״וְהַזָּר הַקָּרֵב יוּמָת״. בָּא לִפְנֵי הִלֵּל, אָמַר לוֹ: עַנְוְותָן הִלֵּל, יָנוּחוּ לְךָ בְּרָכוֹת עַל רֹאשְׁךָ, שֶׁקֵּרַבְתַּנִי תַּחַת כַּנְפֵי הַשְּׁכִינָה. לְיָמִים נִזְדַּוְּוגוּ שְׁלָשְׁתָּן לִמְקוֹם אֶחָד, אָמְרוּ: קַפְּדָנוּתוֹ שֶׁל שַׁמַּאי בִּקְּשָׁה לְטוֹרְדֵנוּ מִן הָעוֹלָם, עִנְוְותָנוּתוֹ שֶׁל הִלֵּל קֵרְבַתְנוּ תַּחַת כַּנְפֵי הַשְּׁכִינָה.

Veio diante de Shamai, disse-lhe: acaso sou eu digno de ser Sumo Sacerdote? E não está escrito na Torá: "e o estranho que se aproximar morrerá"? Veio diante de Hilel, disse-lhe: humilde Hilel, repousem sobre tua cabeça bênçãos, pois me aproximaste sob as asas da Shechiná. Depois de (alguns) dias, reuniram-se os três num mesmo lugar; disseram: a impaciência de Shamai quase nos expulsou do mundo; a humildade de Hilel nos aproximou sob as asas da Shechiná.

Nota

O episódio se conclui com um duplo movimento de fechamento. Primeiro, o convertido, agora munido de sua própria compreensão lógica, retorna a Shamai — não para pedir novamente o cargo, mas para articular, com suas próprias palavras e apoiado no próprio versículo da Torá, por que agora reconhece que jamais poderia ser digno do sacerdócio supremo; a ironia é notável, pois é justamente diante de Shamai, que o expulsara fisicamente, que ele demonstra ter absorvido a lição mais profunda. Em seguida, volta a Hilel — desta vez não com uma exigência ou provocação, mas com gratidão sincera e efusiva, abençoando-o por tê-lo "aproximado sob as asas da Shechiná" (a Presença Divina), uma expressão clássica para a aceitação bem-sucedida de um convertido ao povo judeu e à sua fé. A baraita então dá um salto temporal: tempos depois, os três convertidos dos três episódios — o que rejeitava a Torá Oral, o que queria aprender tudo numa perna só, e este que buscava o sacerdócio — encontram-se por acaso num mesmo lugar, e, refletindo juntos sobre suas experiências paralelas, chegam a uma conclusão compartilhada que resume toda a extensa sugia sobre os dois sábios: o temperamento impaciente e rigoroso de Shamai quase os expulsou completamente do mundo (isto é, os teria afastado para sempre do judaísmo, caso não tivessem persistido e procurado Hilel), ao passo que a humildade paciente de Hilel foi o que efetivamente os trouxe para dentro da fé, sob a proteção da Presença Divina. Essa conclusão dos próprios convertidos serve como confirmação vivida e testemunhal do princípio ético abstrato enunciado no início da baraita, em 30b: "sempre deve a pessoa ser humilde como Hilel, e não impaciente como Shamai".

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre os três convertidos reunidos
שלשתן - הגרים הללו:

"Os três" — estes convertidos.

Isaías 33:6 e as seis ordens da Mishná · וְהָיָה אֱמוּנַת עִתֶּיךָ

10Reish Lakish expõe que o versículo de Isaías 33:6 corresponde às seis ordens da Mishná, culminando em "o temor do Eterno é seu tesouro"
Reish Lakish
אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: מַאי דִכְתִיב ״וְהָיָה אֱמוּנַת עִתֶּיךָ חוֹסֶן יְשׁוּעוֹת חׇכְמַת וָדָעַת וְגוֹ׳״. ״אֱמוּנַת״ — זֶה סֵדֶר זְרָעִים. ״עִתֶּיךָ״ — זֶה סֵדֶר מוֹעֵד. ״חוֹסֶן״ — זֶה סֵדֶר נָשִׁים. ״יְשׁוּעוֹת״ — זֶה סֵדֶר נְזִיקִין. ״חׇכְמַת״ — זֶה סֵדֶר קׇדָשִׁים. ״וָדָעַת״ — זֶה סֵדֶר טְהָרוֹת. וַאֲפִילּוּ הָכִי, ״יִרְאַת ה׳ הִיא אוֹצָרוֹ״.

Disse Reish Lakish: o que (significa) o que está escrito: "e será a fidelidade de teus tempos, força de salvações, sabedoria e conhecimento, etc." (Isaías 33:6)? "Fidelidade" — esta é a ordem (Seder) de Zeraim (Sementes, referindo-se à fidelidade nos dízimos agrícolas). "Teus tempos" — esta é a ordem de Moed (Tempos designados, as festividades). "Força" — esta é a ordem de Nashim (Mulheres). "Salvações" — esta é a ordem de Nezikin (Danos). "Sabedoria" — esta é a ordem de Kodashim (Coisas Sagradas). "E conhecimento" — esta é a ordem de Taharot (Purezas). E, ainda assim, (o versículo conclui:) "o temor do Eterno é seu tesouro".

Nota

Encerrando toda essa longa sugia agádica que se estendeu por vários dapim, a Guemará traz uma exposição independente, sem conexão narrativa direta com os episódios anteriores, mas ligada tematicamente pela discussão mais ampla sobre o valor supremo do estudo da Torá. Reish Lakish interpreta um versículo de Isaías — originalmente uma profecia sobre a segurança futura de Jerusalém — como uma referência velada, palavra por palavra, às seis ordens (Sedarim) que compõem toda a estrutura da Mishná: Zeraim (leis agrícolas e bênçãos), Moed (Shabat e festivais), Nashim (leis matrimoniais), Nezikin (leis civis e danos), Kodashim (sacrifícios e o Templo) e Taharot (leis de pureza ritual). Cada palavra do versículo é associada, por afinidade temática ou lexical, a uma das seis ordens: "fidelidade" à confiabilidade exigida nas leis de separação de dízimos agrícolas de Zeraim; "teus tempos" aos tempos designados de Moed; "força" (chosen, também associado a herdeiros) às leis familiares de Nashim; "salvações" às leis de reparação e indenização de Nezikin; "sabedoria" às leis sacrificiais complexas de Kodashim; e "conhecimento" às leis sutis e detalhadas de pureza de Taharot. Mas a Guemará enfatiza, com a conclusão do próprio versículo, que mesmo o domínio completo de toda essa vasta estrutura de conhecimento talmúdico — todas as seis ordens da Mishná — não é suficiente por si só: o verdadeiro "tesouro" central e indispensável de uma pessoa deve ser o temor do Eterno, sem o qual todo o conhecimento acumulado permanece incompleto.

11Rava ensina as perguntas do julgamento final; mesmo cumprindo tudo, só se aprova com o temor do Eterno como tesouro, ilustrado pela parábola do trigo sem sal
Rava; Tana de bei Rabi Yishmael
אָמַר רָבָא: בְּשָׁעָה שֶׁמַּכְנִיסִין אָדָם לְדִין, אוֹמְרִים לוֹ: נָשָׂאתָ וְנָתַתָּ בָּאֱמוּנָה? קָבַעְתָּ עִתִּים לַתּוֹרָה? עָסַקְתָּ בִּפְרִיָּה וּרְבִיָּה? צִפִּיתָ לִישׁוּעָה? פִּלְפַּלְתָּ בְּחׇכְמָה? הֵבַנְתָּ דָּבָר מִתּוֹךְ דָּבָר? וַאֲפִילּוּ הָכִי, אִי יִרְאַת ה׳ הִיא אוֹצָרוֹ — אִין, אִי לָא — לָא. מָשָׁל לְאָדָם שֶׁאָמַר לִשְׁלוּחוֹ: הַעֲלֵה לִי כּוֹר חִיטִּין לָעֲלִיָּיה. הָלַךְ וְהֶעֱלָה לוֹ. אָמַר לוֹ: עֵירַבְתָּ לִי בָּהֶן קַב חוֹמְטוֹן? אָמַר לוֹ: לָאו. אָמַר לוֹ: מוּטָב אִם לֹא הֶעֱלֵיתָה. תָּנָא דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: מְעָרֵב אָדָם קַב חוֹמְטוֹן בְּכוֹר שֶׁל תְּבוּאָה, וְאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ.

Disse Rava: no momento em que trazem a pessoa a julgamento (no Mundo Vindouro), dizem-lhe: negociaste com fidelidade? Fixaste tempos para a Torá? Ocupaste-te em procriação? Aguardaste pela salvação? Argumentaste com sabedoria (em debates de Torá)? Compreendeste uma coisa a partir de outra (por dedução própria)? E, ainda assim, se o temor do Eterno é seu tesouro — sim (é aprovado); se não — não. (Isso se assemelha a) uma parábola de um homem que disse a seu mensageiro: sobe para mim um cor (medida) de trigo ao sótão. (O mensageiro) foi e o levou para ele. Disse-lhe: misturaste nele para mim um kav (medida menor) de chomton (sal conservante)? Disse-lhe: não. Disse-lhe: (então) melhor seria se não o tivesses levado. Ensinou a escola de Rabi Yishmael: a pessoa deve misturar um kav de chomton num cor de grão, e não precisa se preocupar (que isso constitua uma mistura proibida, pois é para preservação).

Nota

O daf se encerra com um segundo ensinamento agádico independente, de Rava, que complementa perfeitamente a conclusão de Reish Lakish, retomando o mesmo tema do "temor do Eterno" como tesouro indispensável. Rava descreve o processo do julgamento final de uma pessoa no Mundo Vindouro através de uma série de seis perguntas fundamentais, cada uma correspondendo a uma área essencial da vida prática e espiritual: honestidade nos negócios comerciais; disciplina em fixar horários regulares e constantes para o estudo da Torá (não deixando-o à mercê do tempo livre ocasional); cumprimento do mandamento de procriar e constituir família; manutenção viva da esperança messiânica e da expectativa pela salvação futura; capacidade de debater e argumentar com sofisticação em questões de Torá; e a capacidade intelectual mais elevada de deduzir novos entendimentos a partir de princípios já conhecidos. Mas Rava enfatiza, ecoando diretamente a conclusão do versículo de Isaías citado por Reish Lakish, que mesmo uma pessoa aprovada em todas essas seis dimensões só é verdadeiramente aprovada no julgamento final se, fundamentalmente, possuir o temor do Eterno como seu valor mais íntimo e central — o "tesouro" que dá sentido e integridade a todas as outras realizações. A ideia é ilustrada por uma parábola simples e vívida: um homem pede a seu mensageiro que suba uma grande quantidade de trigo (um cor, medida generosa) ao sótão para armazenamento, mas depois pergunta se o mensageiro teve o cuidado de misturar ao grão uma pequena quantidade de um sal ou substância mineral conservante (chomton), prática comum para evitar que o trigo apodreça ou seja infestado por larvas durante o armazenamento prolongado. Ao saber que o mensageiro não fez essa mistura essencial, o homem lamenta que todo o trabalho de subir o trigo tenha sido em vão, pois sem esse elemento conservador todo o estoque se estragará de qualquer forma. A escola de Rabi Yishmael acrescenta uma nota prática final, confirmando que essa mistura de sal conservante no grão é permitida e recomendada, sem qualquer preocupação halachica quanto a proibições de mistura. A parábola ensina que o vasto "estoque" de mérito acumulado através do estudo, da prática e da observância — por mais impressionante que seja em quantidade — permanece vulnerável a se deteriorar e perder seu valor duradouro, a menos que seja "conservado" e sustentado pelo temor genuíno do Eterno, o elemento essencial que preserva e dá permanência a tudo o mais.

12Rabá bar Rav Huna inicia um novo ensinamento sobre quem tem Torá mas não tem temor do Eterno — a frase é interrompida no fim do daf e completada logo no início de 31b
Rabá bar Rav Huna
אָמַר רַבָּה בַּר רַב הוּנָא: כׇּל אָדָם שֶׁיֵּשׁ בּוֹ תּוֹרָה וְאֵין בּוֹ

Disse Rabá bar Rav Huna: toda pessoa que tem Torá em si, mas não tem (o texto se interrompe aqui, no exato limite do daf, e sua continuação — "temor do Eterno" — abre imediatamente o daf seguinte, 31b)

Nota

O daf termina no meio de uma frase — um limite de daf que corta literalmente a sentença de Rabá bar Rav Huna, tal como preservado no texto-fonte do Sefaria. Isso não é um erro de tradução nem um corte editorial deste site: é assim que o daf 31a genuinamente termina, e a continuação exata — "…temor do Eterno" — é a primeira palavra de Shabbat 31b, onde a ideia se desenvolve na parábola do tesoureiro.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre as seis perguntas do julgamento e a parábola do trigo
סדר זרעים - שעל אמונת האדם סומך להפריש מעשרותיו כראוי:

"A ordem de Zeraim" — pois (depende) da fidelidade da pessoa (confia-se) para separar seus dízimos como convém.

חוסן - לשון יורשין ועל ידי אשה נולדו יורשין:

"Força" (chosen)(termo relacionado a) herdeiros, e por meio da esposa nascem herdeiros.

סדר נזיקין - מושיען מזהיר לפרוש מהיזק ומהתחייב ממון:

"A ordem de Nezikin" — (pois) salva-os, advertindo-os a se afastar do dano e de se tornarem obrigados (a pagar) dinheiro.

דעת - עדיף מחכמה:

"Conhecimento" — (qualidade) superior à sabedoria.

היא אוצרו - הוא עיקר החשוב בעיניו לאצור ולעשות סגולה לזכרון:

"É seu tesouro" — este é o (elemento) principal, importante a seus olhos, para guardar e fazer (dele) um tesouro de lembrança.

קבעת עתים - לפי שאדם צריך להתעסק בדרך ארץ שאם אין דרך ארץ אין תורה הוצרך לקבוע עתים לתורה דבר קצוב שלא ימשך כל היום לדרך ארץ:

"Fixaste tempos" — pois, como a pessoa precisa se ocupar do (sustento e do trato) mundano, já que sem (sustento) mundano não há Torá, foi necessário fixar tempos (determinados) para a Torá, uma medida fixa, para que (a pessoa) não se estenda o dia inteiro no (trato) mundano.

בפריה ורביה - היינו חוסן:

"Em procriação" — isto é (o correspondente a) "força" (chosen).

צפית לישועה - לדברי הנביאים:

"Aguardaste pela salvação" — (referindo-se) às palavras dos profetas.

הבנת דבר מתוך דבר - היינו דעת:

"Compreendeste uma coisa a partir de outra" — isto é (o correspondente a) "conhecimento".

קב חומטין - ארץ מלחה ומשמרת את הפירות מהתליע:

"Um kav de chomton" — (um tipo de) terra salgada, que preserva os frutos (grãos) de se infestarem com larvas.

ואינו חושש - למוכרה בדמי חטין דלאו אונאה היא שהרי שמירתן בכך:

"E não precisa se preocupar" — em vendê-lo pelo preço do trigo (mesmo misturado), pois não constitui (engano) fraudulento, já que sua preservação depende disso.