O daf completa, em sua primeira linha, a frase de Rabá bar Rav Huna que fora interrompida ao final de 31a — "toda pessoa que tem Torá em si, mas não tem [temor do Eterno]..." — com uma parábola: o temor do Eterno assemelha-se a um tesoureiro a quem foram confiadas as chaves internas de um cofre, mas não as chaves externas; sem a chave externa, ele não consegue sequer entrar para usar as chaves internas. Rabi Yanai lamenta, na mesma linha, aquele que tem pátio mas não tem porta para protegê-lo, e Rav Yehuda ensina que o mundo só foi criado para que se temesse a D-us. Segue-se um episódio narrativo breve: Rabi Simon e Rabi Elazar, sentados juntos, veem Rabi Yaakov bar Acha passar, e um sugere que se levantem por ele por ser "homem que teme o pecado", enquanto o outro sugere que se levantem por ser "homem versado em Torá" — e a Guemará conclui, por uma tradição paralela de Rabi Yochanan em nome de Rabi Elazar sobre o valor supremo do temor do Eterno, que foi Rabi Elazar quem defendeu a primeira posição. Rav Ula expõe o versículo "não sejas malvado em excesso" com a parábola de quem, tendo já exalado o odor do alho, insiste em comer mais alho; e Rava bar Rav Ula, seguido por Rabá, expõe dois versículos de Salmos sobre o coração endurecido e a falta de temor dos ímpios diante da própria mortalidade. A Guemará então retorna à Mishná de 30b sobre poupar a vela, o óleo ou o pavio no Shabat, retomando a disputa entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon sobre se destruir com a intenção de reconstruir no mesmo lugar constitui trabalho proibido — com a opinião de Rabi Yosei explicada por Ula e, alternativamente, por Rabi Yochanan, e uma trocas de argumentos entre Rabá e um interlocutor sobre a analogia com o Tabernáculo no deserto. O daf fecha com a abertura de uma nova Mishná: por três transgressões as mulheres morrem no momento do parto — por não serem cuidadosas quanto à nidá, à halá e ao acender da vela de Shabat — e o início de sua Guemará, que explica a razão da nidá (a mulher "estragou" nas câmaras de seu ventre, e por isso é ali que é castigada) e, através da exposição de um sábio galileu diante de Rav Chisda, estende essa lógica de "medida por medida" às outras duas transgressões, ligando-as ao sangue da circuncisão que D-us colocou nos filhos de Israel.
(É como) temor do Eterno — assemelha-se a um tesoureiro a quem entregaram as chaves internas, mas as chaves externas não lhe entregaram; por onde entrará? Proclama Rabi Yanai: ai daquele que não tem pátio, e (ainda assim) faz uma porta para o pátio! Disse Rav Yehuda: não criou o Santo, bendito seja, o Seu mundo senão para que (as pessoas) O temessem, como está dito: "e D-us fez para que O temessem" (Eclesiastes 3:14).
O daf 31b abre completando a frase de Rabá bar Rav Huna que havia sido interrompida exatamente no corte entre 31a e 31b: "toda pessoa que tem Torá em si, mas não tem temor do Eterno, assemelha-se a um tesoureiro a quem entregaram as chaves internas (do cofre), mas as chaves externas (da própria casa do tesouro) não lhe entregaram — por onde entrará?" A imagem é precisa: de nada adianta possuir a chave que abre o cofre interno se não se possui a chave da porta externa que dá acesso ao prédio inteiro; do mesmo modo, todo o conhecimento de Torá acumulado por uma pessoa permanece inacessível e inútil sem o temor do Eterno, que é a "chave externa" sem a qual não se pode sequer chegar ao ponto de empregar o conhecimento interior. Rabi Yanai reforça a mesma ideia com uma imagem complementar: lamentável é aquele que constrói uma porta elaborada para proteger um pátio que nem sequer possui — ou seja, é fútil investir esforço em proteger algo (o conhecimento de Torá) sem primeiro possuir o fundamento (o temor do Eterno) que lhe dá sentido e função. Rav Yehuda conclui esta primeira unidade com uma afirmação ainda mais ampla: todo o propósito da criação do mundo por D-us foi para que as criaturas O temessem, apoiando-se num versículo de Eclesiastes que, lido nesse sentido, revela que o temor do Eterno não é apenas um valor entre outros, mas a própria finalidade última da existência.
"Temor do Eterno assemelha-se" — às portas externas, pelas quais se costuma entrar (para chegar) às internas; assim, se (a pessoa) teme ao Eterno, torna-se cuidadosa em guardar e cumprir (a Torá); e se não, não se importa com sua Torá.
"Por onde entrará" — por qual porta entrará para abrir (as portas) internas?
Rabi Simon e Rabi Elazar estavam sentados. Passou e foi Rabi Yaakov bar Acha. Disse-lhe um (deles) a seu companheiro: levantemo-nos diante dele, pois é homem que teme o pecado. Disse-lhe o outro: levantemo-nos diante dele, pois é homem versado em Torá. Disse-lhe: eu te digo que é homem que teme o pecado, e tu me dizes que é (homem) versado em Torá?!
A Guemará traz um pequeno episódio narrativo que ilustra, na prática, a primazia do temor do pecado sobre o mero conhecimento de Torá. Dois sábios, Rabi Simon e Rabi Elazar, estão sentados juntos quando veem Rabi Yaakov bar Acha passar por perto. Um deles propõe que se levantem em seu respeito — gesto de honra reservado a figuras de mérito reconhecido — justificando isso por Rabi Yaakov bar Acha ser um "homem que teme o pecado". O outro concorda com o gesto, mas oferece uma justificativa diferente: que se levantem por ele ser um "homem versado em Torá" (bar oryan). O primeiro, então, reage com uma certa indignação retórica: "eu te disse que é homem que teme o pecado, e tu me respondes que é homem versado em Torá?!" — como se a resposta do companheiro tivesse, de alguma forma, diminuído ou desviado o elogio original, substituindo o critério mais elevado (o temor do pecado) por um critério secundário (o conhecimento textual), quando na verdade o primeiro deveria ser reconhecido como preeminente.
"Eu te digo" — isto é, tu diminuíste em seu louvor.
Conclui-se que foi Rabi Elazar quem disse que é homem que teme o pecado (que merece maior honra). Pois disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Elazar: não tem o Santo, bendito seja, em Seu mundo senão o temor do Eterno somente, como está dito: "e agora, Israel, o que o Eterno teu D-us pede de ti, senão que temas (etc.)" (Deuteronômio 10:12), e está escrito: "e disse ao homem: eis que o temor do Eterno é sabedoria (etc.)" (Jó 28:28) — pois em língua grega chamam a "um" (numeral) de "hen". Conclui-se (assim).
A Guemará resolve a atribuição do episódio anterior através de um raciocínio textual engenhoso: como se sabe qual dos dois sábios, Rabi Simon ou Rabi Elazar, foi quem defendeu a primazia do "temor do pecado"? A resposta vem de um ensinamento independente e bem conhecido, transmitido por Rabi Yochanan em nome de Rabi Elazar, segundo o qual "não tem o Santo, bendito seja, em Seu mundo senão o temor do Eterno somente" — uma afirmação que eleva o temor divino à condição de valor absolutamente central e único aos olhos de D-us, mais ainda do que qualquer outro mérito, incluindo o conhecimento de Torá. Esse ensinamento se apoia em dois versículos: um de Deuteronômio, onde Moshé pergunta retoricamente o que D-us pede de Israel senão o temor; e outro de Jó, "eis que o temor do Eterno é sabedoria", interpretado de forma engenhosa através de um jogo linguístico multilíngue — a palavra hebraica "hen" (eis) é lida como equivalente ao numeral grego para "um", de modo que o versículo passa a significar que "o temor do Eterno é uma coisa só" com a sabedoria, ou é a única coisa que importa. Como esse ensinamento sobre a supremacia do temor do pecado é atribuído precisamente a Rabi Elazar, a Guemará conclui que foi ele, no episódio anterior, quem defendeu essa posição diante de Rabi Simon.
"Eis que o temor do Eterno" — única (coisa) é o temor no mundo.
Expôs Rav Ula: o que (significa) o que está escrito: "não sejas malvado em excesso (etc.)" (Eclesiastes 7:17) — (seria que) em excesso não se deve ser malvado, mas (que) um pouco pode-se ser malvado?! Antes (o sentido é): aquele que comeu alho e seu odor exala, voltará a comer outro alho, para que seu odor (continue a) exalar?!
Rav Ula levanta uma dificuldade textual clássica sobre o versículo de Eclesiastes "não sejas malvado em excesso": lido literalmente, o versículo pareceria proibir apenas a maldade excessiva, sugerindo implicitamente que uma quantidade pequena ou moderada de maldade seria tolerável — uma leitura teologicamente inaceitável, já que nenhuma transgressão, por menor que seja, deveria ser permitida. Rav Ula resolve a dificuldade com uma parábola simples e vívida: alguém que já comeu alho, e cujo hálito já exala o odor característico e desagradável do alho, ganharia algo ao comer mais um dente de alho? O odor já está presente; comer mais alho não o torna "mais exalado" de forma proporcional ou relevante — o dano ao hálito já foi feito. Da mesma forma, o versículo não está autorizando um pouco de maldade como aceitável; está antes observando, de forma quase irônica, que uma vez que a pessoa já transgrediu e manchou seu caráter com o pecado, insistir em pecar mais não muda substancialmente sua condição — a mensagem verdadeira é que não se deve pecar em absoluto, e o "excesso" mencionado no versículo é uma forma retórica de destacar a futilidade e o absurdo de continuar acumulando transgressões, e não uma permissão para pecar moderadamente.
"Aquele que comeu alho e seu odor exala (etc.)" — é a resolução (da dificuldade); isto é, assim diz o versículo: se já foste malvado um pouco, não acrescentes à tua maldade, pois aquele que já comeu alho e seu odor já exala para seus companheiros, acaso voltará a comer mais outro (alho), para que (o odor) exale por mais tempo ainda?
Expôs Rava bar Rav Ula: o que (significa) o que está escrito: "pois não há amarras para sua morte, e seu vigor é forte" (Salmos 73:4) — disse o Santo, bendito seja: não basta aos ímpios que não fiquem apreensivos nem tristes desde o dia (que sabem estar próximo) da morte, senão que seu coração é forte para eles como um vestíbulo (largo e aberto, sem receio). E isto é o que disse Rabá: o que (significa) o que está escrito: "este é seu caminho, insensatez para eles" (Salmos 49:14) — sabem os ímpios que seu caminho leva à morte, e (ainda assim) têm gordura sobre seus rins (isto é, o coração insensível, coberto de gordura). Acaso dirás que é esquecimento (da própria mortalidade) que os acomete? Ensina o versículo: "e depois deles, com sua boca, aprovam (o mesmo caminho, para sempre), Selá".
Dois sábios expõem, em sequência, versículos de Salmos que descrevem, com imagens físicas vívidas, a insensibilidade moral e existencial dos ímpios diante de sua própria mortalidade. Rava bar Rav Ula lê o versículo "pois não há amarras (dores) para sua morte, e seu vigor é forte" não como um elogio à boa saúde física dos ímpios, mas como uma acusação: o problema não é apenas que eles não sintam apreensão ou tristeza diante da morte iminente — algo já grave em si —, mas que seu coração permanece "forte como um vestíbulo", isto é, tão aberto, largo e destravado quanto a entrada ampla de uma casa, sem qualquer barreira de temor ou reflexão que os faça parar e reconsiderar seu caminho. Rabá complementa com uma segunda exposição, sobre o versículo de Salmos 49: "este é seu caminho, insensatez para eles" — os ímpios sabem perfeitamente que seu caminho de vida os conduz à morte (um reconhecimento intelectual claro), mas ainda assim têm "gordura sobre seus rins", uma imagem que Rashi liga à raiz da palavra "kessel" (insensatez, mas também relacionada a "kesalim", rins ou lombo), sugerindo um coração literalmente envolto e obstruído por camada de gordura, incapaz de processar emocionalmente aquilo que sabem racionalmente. A Guemará antecipa e rejeita uma possível defesa: talvez os ímpios simplesmente esqueçam, momento a momento, seu destino final, e por isso não se preocupem? Não — o final do versículo, "e depois deles, com sua boca, aprovam", mostra que, geração após geração, eles conscientemente afirmam e escolhem repetir o mesmo caminho, sem qualquer alegação de esquecimento involuntário.
"Apreensivos e tristes" — (leitura) abreviada (das letras) de "chartzubot" (amarras).
"Como um vestíbulo" — cuja entrada é aberta e larga.
"Este é seu caminho" — antes disso está escrito "seu interior (será) suas casas para sempre" (Salmos 49:12), isto é, o sepultamento, e em seguida está escrito "este é seu caminho, insensatez para eles" — isto é, sabem eles que este é seu caminho (final); mas "kessel para eles" — seus rins estão cobertos por sua gordura, (impedindo) que seus rins (o assento da consciência) voltem a pensar sobre seu (próprio) fim. E acaso dirás que é por esquecimento (que assim procedem)? Ensina o versículo: "e depois deles" — (referindo-se) ao (destino) futuro que há de vir para suas almas, depois de sua perdição, "com sua boca aprovam" — e relatam (o mesmo caminho) sempre, e, ainda assim, não retornam (do pecado).
"Como quem poupa a vela (etc.)" (citando a Mishná de 30b) — segundo a opinião de quem sustenta Rabi Yosei? Se segundo Rabi Yehuda sustenta, mesmo (quanto a) aquelas (outras hipóteses — poupar o óleo ou o recipiente) também deveria responsabilizar! E se segundo Rabi Shimon sustenta, (quanto a poupar) o pavio também deveria isentar! Disse Ula: na verdade, segundo Rabi Yehuda sustenta, e considera Rabi Yosei que destruir com intenção de reconstruir no (mesmo) lugar é (considerado) destruir; (mas) com intenção de reconstruir (em lugar) que não (seja) o (mesmo) lugar — não é (considerado) destruir.
Com esta seção, a Guemará deixa de lado a longa digressão agádica sobre Hilel, os convertidos e o temor do Eterno, e retorna à discussão halachica original que havia sido interrompida ao final de 30b, sobre a Mishná que trata de apagar a vela de Shabat por diferentes motivos (poupar a própria vela, o óleo, ou o recipiente/pavio) e as diferentes responsabilidades atribuídas pelos sábios a cada caso. A Guemará levanta uma dificuldade lógica sobre a posição intermediária de Rabi Yosei na Mishná: se sua opinião segue a linha de Rabi Yehuda (que considera todo apagar da vela como um ato de "consertar um utensílio", portanto proibido mesmo quando não se precisa do próprio ato de apagar), então Rabi Yosei deveria responsabilizar em todos os casos citados, sem exceção; mas se, ao contrário, segue a linha de Rabi Shimon (que isenta quando o trabalho não é "necessário para si mesmo", isto é, quando o objetivo não é o próprio resultado do ato proibido, mas outro fim), então deveria isentar também no caso do pavio. Como a Mishná apresenta uma posição de Rabi Yosei que não se encaixa perfeitamente em nenhuma das duas categorias, Ula propõe uma solução: Rabi Yosei de fato segue a linha geral de Rabi Yehuda, mas com uma distinção adicional própria — ele considera que "destruir com a intenção de reconstruir" só é equiparado a um ato de construção proibida (e, portanto, também sujeito à categoria oposta de "destruir" proibido) quando a reconstrução ocorre exatamente no mesmo lugar da destruição; mas quando a reconstrução é destinada a ocorrer em outro lugar, o ato de destruição original não é considerado uma verdadeira "destruição" no sentido halachico pleno, e por isso é tratado com mais leniência.
"Mesmo (quanto a poupar) o pavio também deveria isentar" — pois quem poupa também o pavio, também (neste caso) não precisa do trabalho (proibido) por si mesmo, pois o trabalho (em questão) é o apagar, e do próprio apagar (o poupador) não precisa, pois se (o pavio) nunca tivesse sido aceso, (o poupador) ficaria satisfeito; se desde o início foi chamuscado (apenas), já que o poupa, quanto mais (o pavio) tem (de material intacto), mais lhe agrada.
"Na verdade, segundo Rabi Yehuda sustenta" — pois pela razão de "não precisa (o trabalho) para si mesmo" (Rabi Yehuda) não isenta, já que, mesmo precisando (do resultado) para outra coisa, é (considerado) trabalho com propósito (proibido); e quando apaga por poupar o óleo e a vela, esta é a razão de isentar: considera (Rabi Yosei) que destruir com intenção de reconstruir no mesmo lugar é (considerado) destruir (proibido); (mas) todo (ato) que estraga no Shabat sem (intenção de reconstruir no mesmo lugar) é isento, pois não é trabalho com propósito. E "destruir", conforme ensinado entre as trinta e nove categorias de trabalho, (no sentido) que se responsabiliza, é destruir com intenção de reconstruir, e (a pessoa) não pode construir a menos que destrua primeiro — e então (o ato) não é (mero) estrago. E Rabi Yehuda considera que, se (a reconstrução ocorre) no mesmo lugar, volta a construir, e por isso (o destruir) se responsabiliza pela destruição; e se não (no mesmo lugar), não. E apagar é semelhante a destruir, e igualmente rasgar é semelhante a destruir — por isso se ensina "aquele que rasga com intenção de costurar", e igualmente se ensina "apagar (a escrita) com intenção de escrever (novamente)", pois todos estes são (da categoria de) destruir. Portanto, quanto ao pavio, poupá-lo só serve para (voltar a) acendê-lo; por isso apagar com intenção de acender é (reconstruir) no mesmo lugar. Mas quando poupa a vela, ou o óleo, ou o pavio (no sentido do próprio pavio já consumido) não poupa, e não se importa se o descarta, mesmo que precise do óleo para acender com ele outro pavio depois, dentro desta mesma vela — isto não é destruir com intenção de reconstruir no mesmo lugar, pois o apagar e o acender não se referem nem ao óleo nem à vela, mas (apenas) ao pavio; portanto, destruir e construir só se aplicam ao pavio, e já que não há intenção de voltar a acender este (mesmo) pavio, não há aqui construção no lugar da destruição. E o que se ensina "que ele faz (dele) carvão" — isto é, porque (desde o início) fazem (o pavio) em forma de carvão, e ele permanece pronto para voltar a pegar fogo, e há (assim) construção no lugar da destruição. E nossos mestres explicam (de outro modo quanto) à vela e ao óleo: pode-se dizer que (o poupador) precisa (deles) para outra coisa, e não para acender; mas a mim parece que não precisamos desta explicação forçada, pois se poderia dizer que não há razão para isentá-lo (mesmo assim), já que ele sabe por que os poupa, e uma vela comum só serve para acender nela um pavio.
Disse-lhe Rabá: ora, todas as (trinta e nove categorias de) trabalho aprendemos elas do Tabernáculo, e ali (no Tabernáculo, o desmontar era) destruir com intenção de reconstruir (em lugar) que não (era) o (mesmo) lugar! Disse-lhe: diferente é ali, pois, uma vez que está escrito "segundo a ordem do Eterno acampavam" (Números 9:20), é como destruir com intenção de reconstruir no mesmo lugar que se assemelha.
Rabá desafia diretamente a solução de Ula com uma objeção estruturalmente séria: toda a base das trinta e nove categorias de trabalho proibido no Shabat deriva, segundo o princípio talmúdico fundamental, das atividades realizadas na construção e manutenção do Tabernáculo no deserto (o Mishcan). Ora, o próprio Tabernáculo era regularmente desmontado num acampamento e remontado em outro local completamente diferente, à medida que o povo de Israel viajava pelo deserto — um exemplo claro e paradigmático de "destruir com intenção de reconstruir em lugar que não é o mesmo lugar". Se essa categoria de destruição gerou, mesmo assim, responsabilidade plena (já que dela se deriva toda a categoria proibida de "destruir" no Shabat), como pode Rabi Yosei isentar quando a reconstrução ocorre em lugar diferente? Ula responde com uma distinção teológica sutil: o caso do Tabernáculo é fundamentalmente diferente, pois a Torá especifica que os acampamentos e as viagens do povo ocorriam "segundo a ordem do Eterno" — isto é, por mandamento divino direto, formando parte de um sistema unificado e contínuo de deslocamento predeterminado. Dentro dessa estrutura divinamente ordenada, mesmo a reconstrução em outro local é considerada, halachicamente, como se fosse uma continuação do mesmo "lugar" conceitual — o lugar designado por D-us para aquele momento específico da jornada —, e por isso se equipara a "destruir com intenção de reconstruir no mesmo lugar".
"E o Tabernáculo é (caso de) destruir com intenção de reconstruir (em lugar) que não é o (mesmo) lugar" — pois o destruíam neste acampamento e viajavam para outro lugar, e acampavam, e voltavam a erigi-lo.
E Rabi Yochanan disse: na verdade, segundo Rabi Shimon sustenta (Rabi Yosei). E por que é diferente o pavio? Conforme disse Rav Hamnuna, e há quem diga (que foi) Rav Ada bar Ahava: aqui, tratamos de um pavio que precisa ser chamuscado (previamente), pois nisto até Rabi Shimon concorda, já que (assim) está consertando um utensílio. Disse Rava: também se ajusta (a esta explicação), pois se ensina "que ele o transforma em carvão", e não se ensina "porque se transforma em carvão" — (disto) se deduz (a explicação correta).
Rabi Yochanan propõe uma solução alternativa à de Ula, mantendo a posição de Rabi Yosei alinhada com Rabi Shimon (que isenta trabalhos "não necessários para si mesmos") em vez de com Rabi Yehuda. A dificuldade original permanece: se Rabi Yosei segue Rabi Shimon, por que ele não isentaria também o caso de poupar o pavio? Rabi Yochanan, citando uma explicação de Rav Hamnuna (ou, segundo outra versão, de Rav Ada bar Ahava), resolve isso limitando o caso específico da Mishná: o cenário descrito não é de um pavio comum sendo apagado, mas de um pavio que precisa ser "chamuscado" — isto é, queimado parcialmente logo no início de seu uso, para melhor preparar a ponta para pegar fogo com mais facilidade no futuro. Esse chamuscamento inicial não é um mero apagar incidental, mas um verdadeiro "consertar um utensílio" (metaken mana) — transformar o pavio bruto num pavio funcionalmente pronto para uso repetido, semelhante a fabricar carvão a partir de madeira. Como consertar um utensílio é, por definição, um trabalho necessário "para si mesmo" (o próprio resultado do trabalho é desejado), mesmo Rabi Shimon concordaria em responsabilizar por esse ato específico, o que explica por que, neste caso particular do pavio, mesmo seguindo a linha geralmente mais leniente de Rabi Shimon, ainda assim se aplicaria responsabilidade. Rava acrescenta um apoio textual a essa leitura, observando uma nuance precisa na formulação da Mishná: ela diz que a pessoa "o transforma em carvão" (linguagem que sugere uma ação deliberada, intencional, de fabricação), e não que o pavio "se transforma em carvão" (que sugeriria um efeito colateral incidental) — a formulação ativa confirma que se trata de um ato proposital de fabricação de utensílio, corroborando a explicação de Rabi Yochanan.
"Segundo Rabi Shimon" — que isenta por causa de (o princípio de) "não precisam (do trabalho) para si mesmo"; e "como quem poupa o pavio", esta é a razão pela qual se responsabiliza: por exemplo, quando (o pavio) precisa de chamuscamento (e) não foi chamuscado ainda de dia (antes do Shabat), pois este apagar é necessário para si mesmo, para que a chama se prenda facilmente nele quando vier a acendê-lo.
"Que o transforma em carvão" — que se propõe verdadeiramente a fazê-lo agora como espécie de carvão; conclui-se (assim) que trata de um apagar necessário para si mesmo, e não se ensina que (o pavio) "se torna carvão" desde o início por ter sido chamuscado, (pois, se assim fosse), poderíamos dizer que a razão é que é (passível) de construção, havendo construção no lugar da destruição — o que não se aplica ao óleo e à vela, onde não há relação de construção e destruição.
Por três transgressões as mulheres morrem no momento de seu parto: por não serem cuidadosas quanto à nidá (as leis de pureza menstrual), quanto à halá (a porção separada da massa), e quanto ao acender da vela (de Shabat).
Encerrada a longa digressão sobre a vela de Shabat, os episódios de Hilel e o valor do temor do Eterno, a Guemará chega a uma nova Mishná, que abre um tema distinto, ainda que ligado tematicamente ao acender da vela de Shabat mencionado anteriormente. Esta Mishná lista três mandamentos específicos, tradicionalmente associados de modo especial às mulheres na estrutura da vida doméstica judaica, cuja negligência é apontada como causa espiritual de risco durante o momento do parto — um dos momentos de maior vulnerabilidade física na vida de uma mulher. As três transgressões são: falta de cuidado com as leis de nidá (a separação ritual durante e após o período menstrual); falta de cuidado em separar a halá (uma pequena porção da massa de pão, doada tradicionalmente aos sacerdotes, hoje geralmente queimada, em cumprimento ao mandamento bíblico); e falta de cuidado em acender a vela de Shabat no horário devido, antes do início do dia sagrado. A Mishná não explica ainda a razão dessa associação entre essas três áreas específicas e o risco no momento do parto — essa explicação será o assunto da Guemará que se segue.
(Quanto à) nidá, qual é a razão? Disse Rabi Yitzchak: ela estragou nas câmaras de seu ventre, portanto será castigada nas câmaras de seu ventre. Isto se ajusta bem (quanto à) nidá — mas (quanto à) halá e ao acender da vela, o que há para se dizer? Conforme expôs aquele (sábio) galileu diante de Rav Chisda: disse o Santo, bendito seja: um quarto (de log) de sangue Eu vos dei (referindo-se ao sangue da circuncisão em cada homem) — sobre assuntos de sangue Eu vos adverti.
A Guemará inicia sua exposição sobre a razão de cada uma das três transgressões mencionadas na Mishná, buscando entender por que precisamente estas três áreas — e não outras — foram associadas ao risco espiritual no momento do parto. Para a primeira, a nidá, a explicação de Rabi Yitzchak é direta e segue o princípio de "medida por medida" (midá keneged midá): a mulher que não observa cuidadosamente as leis de pureza menstrual "estraga" (transgride) especificamente nas câmaras internas de seu próprio corpo — o local físico de onde emana o sangue menstrual —, e por isso é precisamente ali, nas mesmas câmaras internas do corpo (o ventre, durante o parto), que ela é castigada, caso tenha sido negligente. Esta explicação funciona perfeitamente para a nidá, dado o paralelo anatômico direto e óbvio. Mas a Guemará então levanta a dificuldade natural: como aplicar esse mesmo princípio de correspondência às outras duas transgressões, halá e a vela de Shabat, que não têm relação anatômica óbvia com o parto? A resposta vem de uma exposição atribuída a um sábio anônimo da Galileia, transmitida diante de Rav Chisda, que estabelece uma ligação engenhosa através do tema do sangue: D-us declara que deu "um quarto de log de sangue" a cada pessoa (uma referência ao sangue derramado no ato do brit milá, a circuncisão, que estabelece a aliança do povo de Israel com D-us desde o oitavo dia de vida), e que, por essa razão, advertiu especificamente sobre "assuntos de sangue" — de modo que a negligência em qualquer mandamento ligado, direta ou simbolicamente, ao tema do sangue e da aliança acaba sendo punida através do mesmo elemento, o sangue, inclusive no momento do parto. Esta linha de raciocínio, que a Guemará continuará a desenvolver no daf seguinte, prepara o terreno para explicar especificamente por que a halá e a vela de Shabat também se encaixam nessa mesma lógica.
(Sobre a) Mishná, "no momento de seu parto" — na Guemará se explica por que é diferente (especificamente) o momento do parto.
(Sobre a) Guemará, assim lemos: "quanto à nidá, qual é a razão".
"Nas câmaras de seu ventre" — a fonte de seu sangue.
"Estragou" — rebelou-se.
"Um quarto (de log) de sangue" — a vida da pessoa depende dele.