Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Bet · Bameh Madlikin
רְבִיעִית דָּם

A continuação da exposição sobre as três transgressões das mulheres no parto; os provérbios sobre o julgamento em tempos de perigo; a pergunta sobre quando os homens são examinados; e as baraitot sobre confissão, advogados espirituais e os gatilhos de morte na mulher

Shabbat 32a — a continuação direta da Guemará sobre a Mishná das três transgressões, aberta ao final de 31b

O daf abre completando a exposição do sábio galileu diante de Rav Chisda, iniciada ao final de 31b: assim como D-us chamou Israel de "primícias" e advertiu sobre a halá, e assim como a alma humana é chamada de "vela", D-us advertiu sobre a vela de Shabat — e adverte que, se essas três não forem cumpridas, tomará de volta a alma que confiou. A Guemará então pergunta por que precisamente no momento do parto essas transgressões são cobradas, respondendo com uma série de provérbios populares atribuídos a Rava, Abaye, Rav Chisda, Mar Ukva e Rav Papa, todos ilustrando a mesma ideia: em momentos de fraqueza ou perigo, os pecados anteriormente latentes são trazidos à cobrança. A discussão se estende à pergunta paralela sobre os homens: quando eles são examinados no juízo celestial? Reish Lakish responde que é ao atravessar uma ponte ou qualquer lugar de perigo semelhante, ilustrado pelos hábitos de Rav e Shmuel ao atravessar rios em balsas com ou sem gentios, e pela prática de Rabi Yanai de inspecionar a embarcação antes de embarcar — o que leva ao seu próprio ensinamento de que ninguém deve depender de milagres, pois estes descontam dos próprios méritos, e à prática de Rabi Zeira de evitar caminhar entre palmeiras em dia de vento forte. Seguem-se os ensinamentos de Rav Yitzchak bar Rav Yehuda e Mar Ukva sobre não desejar adoecer, pois a doença obriga a pessoa a provar seu próprio mérito, e o ensinamento da escola de Rabi Yishmael sobre aquele "destinado a cair desde os seis dias da criação". Uma baraita ensina que o moribundo deve confessar seus pecados, como todos os condenados à morte, e que a pessoa deve sempre se considerar como entregue a um soldado, a um carrasco ou a um tribunal — sendo salva apenas se tiver "grandes advogados", isto é, o arrependimento e as boas ações, mesmo que estes representem apenas uma parcela mínima de seu mérito perante o restante de sua culpa. O daf então retorna à Mishná das três transgressões femininas com uma série de baraitot: a opinião de Rabi Elazar de que as mulheres morrem "jovens" e não apenas "no parto"; a opinião de Rabi Acha, que atribui a causa a lavar as fraldas dos filhos no Shabat; e a opinião anônima de que a causa é chamar a Arca Sagrada de mero "arna" (baú). Rabi Yishmael ben Elazar ensina, num paralelo, que os ignorantes (amei ha'aretz) morrem por dois motivos semelhantes de desrespeito à linguagem sagrada. Rabi Yosei ensina que três "gatilhos" ou "aceleradores" de morte foram criados na mulher — nidá, halá e a vela de Shabat —, formulação que a Guemará harmoniza com as duas versões anteriores (Rabi Elazar e os sábios). O daf se encerra com a abertura de um novo ensinamento de Raban Shimon ben Gamliel sobre as leis de hekdesh, terumot e maasrot, cuja frase — "elas são a própria essência da Torá" — é interrompida exatamente no limite do daf, com sua continuação e explicação reservadas para 32b.

A conclusão da exposição do sábio galileu: reishit, nidá e a vela como a alma · נְשָׁמָה שֶׁנָּתַתִּי בָּכֶם קְרוּיָה נֵר

01D-us chamou Israel de "primícias" e advertiu sobre a halá; a alma é chamada de "vela" e D-us advertiu sobre a vela de Shabat; se não cumprirem, tomará de volta a alma
O sábio galileu (continuação, diante de Rav Chisda)
״רֵאשִׁית״ קָרָאתִי אֶתְכֶם — עַל עִסְקֵי רֵאשִׁית הִזְהַרְתִּי אֶתְכֶם. נְשָׁמָה שֶׁנָּתַתִּי בָּכֶם קְרוּיָה ״נֵר״ — עַל עִסְקֵי נֵר הִזְהַרְתִּי אֶתְכֶם. אִם אַתֶּם מְקַיְּימִים אוֹתָם — מוּטָב, וְאִם לָאו — הֲרֵינִי נוֹטֵל נִשְׁמַתְכֶם.

"Primícias" Eu vos chamei (referindo-se a Israel) — sobre assuntos de primícias Eu vos adverti (quanto à halá). A alma que Eu vos dei é chamada "vela" — sobre assuntos de vela Eu vos adverti (quanto à vela de Shabat). Se vós as cumprirdes — bom; e se não — eis que tomarei vossa alma.

Nota

O daf 32a abre completando, em sua primeira linha, a exposição do sábio galileu iniciada ao final de 31b, que já havia estabelecido a primeira ligação: o sangue da circuncisão como fundamento da advertência sobre a nidá. Agora a exposição estende a mesma lógica às outras duas transgressões. Quanto à halá: D-us chamou o povo de Israel de "reishit" (primícias, primeiro fruto) — como em Jeremias 2:3, "Israel é santidade ao Eterno, as primícias de sua produção" — e, por essa mesma razão, advertiu especificamente sobre "assuntos de primícias", isto é, o mandamento de separar a halá, a porção da massa que é literalmente chamada de "reshit arisotechem" (a primícia de vossas massas) em Números 15:20. Quanto à vela de Shabat: a alma humana, que D-us implantou em cada pessoa, é chamada de "ner" (vela, lâmpada) — como em Provérbios 20:27, "a alma do homem é a vela do Eterno" — e, por essa razão, D-us advertiu especificamente sobre "assuntos de vela", isto é, o mandamento de acender a vela de Shabat. A exposição termina com uma advertência solene: se as pessoas cumprirem essas obrigações ligadas a reishit, ao sangue e à vela, está bem; mas se não as cumprirem, D-us tomará de volta a própria alma que confiou — pois a negligência nesses mandamentos simbólicos ataca precisamente os elementos (o sangue da vida, a primícia, a vela da alma) que D-us usou como sinais de Sua própria dádiva.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "primícias" e "assuntos de primícias"
ראשית קראתי אתכם - ראשית תבואתה (ירמיהו ב):

"'Primícias' Eu vos chamei" — (conforme o versículo) "primícia de sua produção" (Jeremias 2:3).

עסקי ראשית - ראשית עריסותיכם (במדבר טו):

"Assuntos de primícias" — (conforme o versículo) "a primícia de vossas massas" (Números 15:20).

הריני נוטל נשמתכם - ותאבד רביעית דמכם ויכבה נרכם ויבטל שם ראשיתכם ונשים נצטוו על כך כדאמרינן בבראשית רבה היא איבדה חלתו של עולם שעל ידה נטרד אדה"ר שנתרם כחלה וכבתה נרו של עולם ושפכה דמו ועוד שצרכי הבית תלוין בה:

"Eis que tomarei vossa alma" — e se perderá vosso quarto (de log) de sangue, e se apagará vossa vela, e se anulará o nome de vossa primícia; e as mulheres foram especialmente ordenadas sobre isso, conforme dizemos em Bereshit Rabá: ela (Eva) perdeu a "halá" do mundo, pois por causa dela Adão, o primeiro homem, foi expulso — que havia sido separado (do pó da terra) como uma halá; e apagou a vela do mundo; e derramou seu sangue; e, além disso, as necessidades da casa dependem dela.

Por que precisamente no momento do parto: provérbios sobre o julgamento em tempos de perigo · נְפַל תּוֹרָא, חַדֵּד לְסַכִּינָא

02A Guemará pergunta por que a cobrança se dá especificamente no parto; respondem Rava, Abaye, Rav Chisda, Mar Ukva e Rav Papa, cada um com um provérbio popular sobre momentos de vulnerabilidade
Rava; Abaye; Rav Chisda; Mar Ukva; Rav Papa
וּמַאי שְׁנָא בִּשְׁעַת לֵידָתָן? אָמַר רָבָא: נְפַל תּוֹרָא — חַדֵּד לְסַכִּינָא. אַבָּיֵי אָמַר: תַּפִּישׁ תֵּירוּס אַמְּתָא, בְּחַד מַחְטְרָא לֶיהֱוֵי. רַב חִסְדָּא אָמַר: שִׁבְקֵיהּ לְרַוְיָא, דְּמִנַּפְשֵׁיהּ נָפֵיל. מָר עוּקְבָא אָמַר: רָעֲיָא חֲגִרָא וְעִיזֵּי רָהֲטָן, אַבָּב חוּטְרָא מִילֵּי, וְאַבֵּי דָרֵי חוּשְׁבָּנָא. רַב פָּפָּא אָמַר: אַבָּב חַנְוָאתָא נְפִישִׁי אַחֵי וּמְרַחֲמֵי, אַבָּב בִּזְיוֹנֵי — לָא אַחֵי וְלָא מְרַחֲמֵי.

E (se assim), por que é diferente (especificamente) no momento de seu parto? Disse Rava: caiu o boi — afiam a faca (para abatê-lo, aproveitando que já está caído). Disse Abaye: quando a insolência da serva se multiplica, com um só golpe (de bastão ela é castigada por tudo). Disse Rav Chisda: deixa o bêbado, que por si mesmo cai. Disse Mar Ukva: o pastor é coxo e as cabras correm (soltas, sem que ele as alcance) — junto à porta do curral são ditas as palavras (de repreensão), e junto aos rebanhos (reunidos) se faz a conta. Disse Rav Papa: junto à porta das lojas (em tempo de prosperidade) abundam irmãos e amigos; junto à porta da desgraça — não há irmãos nem amigos.

Nota

Tendo estabelecido por que precisamente estas três transgressões (nidá, halá e a vela) são associadas à mulher, a Guemará levanta uma segunda pergunta: por que a cobrança por elas ocorre especificamente no momento do parto, e não em qualquer outro momento da vida? A resposta vem através de uma série de cinco provérbios populares, cada um transmitindo, com uma imagem do cotidiano, a mesma ideia central: momentos de fraqueza, vulnerabilidade ou infortúnio são também momentos em que dívidas antigas — que até então permaneciam latentes ou toleradas — são subitamente cobradas em conjunto. Rava compara isso a um boi que já caiu ao chão, prestes a ser abatido: já que de qualquer forma será morto, aproveita-se a ocasião para afiar a faca, sem preocupação adicional. Abaye fala da serva insolente cujas faltas se acumulam: quando finalmente é castigada, um único golpe basta para "acertar as contas" de todas as transgressões acumuladas. Rav Chisda compara a mulher parturiente ao bêbado que cai sozinho — não é preciso empurrá-lo, pois sua própria condição já o derruba; do mesmo modo, se D-us não vier em auxílio da parturiente, sua própria condição de risco já basta para lhe ser fatal. Mar Ukva descreve um pastor coxo que não consegue alcançar as cabras enquanto elas correm livres pelo campo — mas, assim que chegam à porta do curral e são reunidas, ali sim ele profere sua repreensão e ajusta as contas de suas travessuras; do mesmo modo, os pecados da mulher ficam "em suspenso" enquanto ela está saudável, mas são cobrados quando ela chega ao "curral" do momento de perigo. Rav Papa, por fim, contrasta a porta das lojas — onde a prosperidade atrai muitos amigos e parentes — com a porta da desgraça, onde ninguém mais aparece; do mesmo modo, no momento de perigo da parturiente, seus méritos protetores (seus "amigos" espirituais) já não bastam para protegê-la automaticamente.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre os cinco provérbios
נפל תורא לארץ שהוא עומד לשחיטה הכל אומרים חדדו לסכינא עד שלא יקום ויהא טורח להשליכו כך הואיל ואיתרע מזלה מזומנת פורענותה לבא:

"Caiu o boi" ao chão, que está destinado ao abate — todos dizem: afiem a faca antes que ele se levante e seja trabalhoso derrubá-lo (de novo); assim também, já que sua sorte (da parturiente) se deteriorou, está pronta sua punição para vir.

תפיש תירוס אמתא - תרבה פשעים השפחה וכולן תלקה בחבטה אחת: תפיש - תרבה: תירוס - פשע והתרסה:

"Multiplica a insolência a serva" — multiplica (suas) transgressões a serva, e por todas será castigada com um só golpe. "Tapish" — multiplica. "Teirus" — transgressão e insolência.

מחטרא - בטדו"ר בלע"ז כלומר אשה עומדת ליסורי לידה על עונשה של חוה ומצרפין לה עונשין הרבה לאותו מלקות:

"Machtera" — "batedor" (golpe), em língua estrangeira; isto é, a mulher está destinada às dores do parto por causa da punição de Eva, e juntam-se a ela muitas outras punições nesse mesmo castigo.

שבקיה לרויא - לשיכור אינך צריך להפילו שהוא יפול מאליו כך האשה עומדת לילד משנתעברה והיא צריכה לבקש להקב"ה לפתוח רחמה והוא נמנע והיא מתה מאליה כל הני משל הדיוט נינהו:

"Deixa o bêbado" — ao bêbado não precisas derrubar, pois ele cai por si mesmo; assim também a mulher está destinada a dar à luz desde que engravidou, e ela precisa pedir ao Santo, bendito seja, que abra seu ventre, e (se) Ele se abstém, ela morre por si mesma. Todos estes são ditados populares.

רעיא חגרא ועיזי רהיטין - קלים לרוץ ואינו יכול להגיען ולהלקותן על סרחונן:

"O pastor é coxo e as cabras correm" — (são) ligeiras para correr, e ele não consegue alcançá-las para castigá-las por sua rebeldia.

אבב חוטרא מילי - כשהיא באה לפני גדרות צאן שם הוא מדבר עמה להלקותה על פשעה ואבי דרי לבית הדיר של צאן באין לחשבון. גדרות צאן מתרגמינן חוטרין דען (במדבר ל״ב:ט״ז) כלומר האשה כשהיא בבריאות פעמים שזכיותיה תולין ואין כח במקטרג להזכיר עונה אבל משהגיעה לפתח הסכנה וצריכה לנסים שם מזכירין עונותיה ומעשיה אם ראויה היא לנס אם לאו:

"Junto à porta do curral, as palavras" — quando ela (a cabra) chega diante dos currais do rebanho, ali ele fala com ela para castigá-la por sua transgressão; "e junto aos rebanhos, a conta" — chegam ao curral das ovelhas para ajustar contas. "Gidrot tzon" (currais de ovelhas) traduzimos como "chutrin de'an" (Números 32:16). Isto é: a mulher, enquanto está com saúde, às vezes seus méritos ficam (a seu favor,) pendentes, e o acusador não tem poder para mencionar sua culpa; mas quando chega à porta do perigo e precisa de milagres, ali se mencionam suas culpas e seus atos, (para se avaliar) se é digna do milagre ou não.

אבב חנואתא נפישי אחי ומרחמי - לפתח החנות שמחלקים בו מזונות ויש שם עושר הרבה אחים והרבה אוהבים יש הכל נעשים אוהבים: מרחמי - אוהבים: אבב בזיוני - במקום שיש הפסד ועוני לא אחי ולא מרחמי כך בשעת הסכנה הורע מזלה וחשיבותה וחדלו פרקליטין שלה:

"Junto à porta das lojas, abundam irmãos e amigos" — junto à porta da loja onde se distribui sustento e há riqueza, muitos irmãos e muitos amigos há; todos se tornam amigos. "Merachamei" — amigos. "Junto à porta da desgraça" — no lugar onde há perda e pobreza, não há irmãos nem amigos; assim também, no momento do perigo, deteriora-se sua sorte e sua importância, e cessam seus advogados.

Quando os homens são examinados: a ponte, o rio e o vento · בְּשָׁעָה שֶׁעוֹבְרִים עַל הַגֶּשֶׁר

03Reish Lakish responde que os homens são examinados ao atravessar uma ponte ou lugar semelhante; os hábitos opostos de Rav e Shmuel ao atravessar rios com gentios na balsa
Reish Lakish; Rav; Shmuel
וְגַבְרֵי הֵיכָא מִיבַּדְקִי? אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: בְּשָׁעָה שֶׁעוֹבְרִים עַל הַגֶּשֶׁר. גֶּשֶׁר וְתוּ לָא? אֵימָא: כְּעֵין גֶּשֶׁר. רַב לָא עָבַר בְּמַבָּרָא דְּיָתֵיב בֵּיהּ גּוֹי, אָמַר: דִילְמָא מִיפְּקִיד לֵיהּ דִּינָא עֲלֵיהּ וּמִתְּפִיסְנָא בַּהֲדֵיהּ. שְׁמוּאֵל לָא עָבַר אֶלָּא בְּמַבָּרָא דְּאִית בֵּיהּ גּוֹי, אָמַר: שִׂטְנָא בִּתְרֵי אוּמֵּי לָא שָׁלֵיט.

E os homens, onde são examinados (no julgamento celestial)? Disse Reish Lakish: no momento em que atravessam uma ponte. (Apenas) ponte, e mais nada? Diz-se antes: algo semelhante a uma ponte. Rav não atravessava numa balsa em que estivesse sentado um gentio; dizia: talvez seja lançado sobre ele (o gentio) um julgamento, e eu seja apanhado junto com ele. Shmuel não atravessava senão numa balsa em que houvesse um gentio; dizia: o acusador não tem domínio sobre duas nações (ao mesmo tempo).

Nota

Tendo explicado por que as mulheres são examinadas especificamente no momento do parto, a Guemará faz a pergunta paralela sobre os homens: em que momento eles ficam vulneráveis ao exame do juízo celestial por seus pecados? Reish Lakish responde: ao atravessar uma ponte — um momento de perigo físico real, em que uma queda pode ser fatal. A Guemará refina essa resposta: não se trata literalmente apenas de pontes, mas de qualquer situação "semelhante a uma ponte", isto é, qualquer circunstância de perigo comparável. A partir daí, a Guemará relata dois costumes opostos de dois grandes sábios quanto à travessia de rios em balsas na companhia de gentios. Rav evitava atravessar numa balsa em que estivesse um gentio, temendo que, se um julgamento divino fosse decretado contra aquele gentio (por seus próprios pecados), Rav pudesse ser "apanhado" no mesmo infortúnio, por estar fisicamente próximo no momento do julgamento — retomando a ideia de que situações de perigo compartilhado expõem também os justos a riscos ligados aos pecados alheios. Shmuel, ao contrário, preferia atravessar apenas em balsas que tivessem um gentio a bordo, raciocinando de forma oposta: o "acusador" (Satã, ou a força acusadora celestial) não tem autoridade para agir simultaneamente contra duas nações diferentes — de modo que a presença do gentio, sujeito a seu próprio sistema de julgamento nacional, na verdade protegeria indiretamente o próprio Shmuel, judeu, ao "dividir a atenção" do acusador entre dois sistemas de julgamento distintos.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre o exame dos homens e a travessia do rio
וגברי היאך מיבדקי - מעשים שלהם להזכיר עונם וזכותם: כעין גשר - כל מקום סכנה כגון קיר נטוי ויוצא לדרך: דילמא מיפקיד - נכרי דינא על חטאיו ומתפיסנא בהדיה: מברא - ספינה שעוברין בה את הנהר:

"E os homens, como são examinados" — (no sentido de) seus atos serem lembrados, sua culpa e seu mérito. "Algo semelhante a uma ponte" — todo lugar de perigo, como um muro inclinado (prestes a cair), e (também) ao sair para uma viagem. "Talvez seja lançado" — sobre o gentio um julgamento por seus pecados, "e eu seja apanhado" junto com ele. "Mabara" — o barco em que se atravessa o rio.

04Rabi Yanai inspecionava a balsa antes de atravessar, seguindo seu próprio ensinamento contra depender de milagres; Rabi Chanin traz o versículo de Yaakov; Rabi Zeira evitava caminhar entre palmeiras em dia de vento
Rabi Yanai; Rabi Chanin; Rabi Zeira
רַבִּי יַנַּאי בָּדֵיק וְעָבַר. רַבִּי יַנַּאי לְטַעְמֵיהּ, דְּאָמַר: לְעוֹלָם אַל יַעֲמוֹד אָדָם בְּמָקוֹם סַכָּנָה לוֹמַר שֶׁעוֹשִׂין לוֹ נֵס, שֶׁמָּא אֵין עוֹשִׂין לוֹ נֵס. וְאִם עוֹשִׂין לוֹ נֵס — מְנַכִּין לוֹ מִזְּכֻיוֹתָיו. אָמַר רַבִּי חָנִין: מַאי קְרָאָה? — ״קָטֹנְתִּי מִכֹּל הַחֲסָדִים וּמִכׇּל הָאֱמֶת״. רַבִּי זֵירָא בְּיוֹמָא דְשׁוּתָא לָא נָפֵיק לְבֵינֵי דִּיקְלֵי.

Rabi Yanai inspecionava (a balsa) e (então) atravessava. Rabi Yanai (agia) segundo seu próprio critério, pois dizia: nunca deve a pessoa permanecer em lugar de perigo, dizendo que farão para ela um milagre, pois talvez não façam para ela um milagre; e (mesmo) se fizerem para ela um milagre, descontam-lhe de seus méritos. Disse Rabi Chanin: qual é o versículo (que sustenta isso)? — "diminuí-me de todas as bondades e de toda a verdade" (Gênesis 32:11). Rabi Zeira, em dia de vento sul, não saía para entre as palmeiras.

Nota

A Guemará acrescenta o costume de Rabi Yanai, que, diferentemente de Rav e Shmuel (cujos costumes dependiam da presença ou ausência de gentios), simplesmente inspecionava cuidadosamente a balsa antes de atravessar — verificando que estivesse em condições seguras, sem furos ou defeitos — e só então a atravessava. A Guemará explica que esse comportamento reflete um princípio mais amplo do próprio Rabi Yanai: a pessoa nunca deve se colocar deliberadamente em uma situação de perigo, confiando que D-us realizará um milagre para salvá-la, por duas razões: primeiro, porque não há garantia de que o milagre de fato ocorrerá; segundo, e mais sutil, porque mesmo que o milagre ocorra, o próprio ato de precisar de um milagre é "descontado" dos méritos acumulados da pessoa — um milagre não é gratuito espiritualmente, mas consome uma reserva de mérito que poderia ser usada para outros fins. Rabi Chanin ancora esse princípio num versículo: quando o patriarca Yaakov, prestes a encontrar seu irmão Esaú, reza a D-us, ele diz "diminuí-me de todas as bondades" — interpretado como reconhecimento de que os múltiplos atos de bondade e salvação que D-us já lhe concedera haviam, de fato, "diminuído" ou consumido parte de seus méritos acumulados. A seção fecha com o costume paralelo de Rabi Zeira, que evitava caminhar entre palmeiras em dias de forte vento sul — vento conhecido por derrubar árvores e muros —, por prudência semelhante diante do perigo evitável.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a inspeção da balsa e o vento sul
בדיק - הספינה שלא יהא בה נקב: מנכין - פוחתין: קטנתי מכל החסדים - הוקטנו ונתמעטו זכיותי בשביל החסדים אשר עשית וגו': יומא דשותא - שמנשבת בו הרוח דרומית חזקה המפלת חומות ועוקרת אילנות: לביני דקלי - שלא יפיל הרוח דקל עליו:

"Inspecionava" — a embarcação, para que não houvesse nela furo. "Descontam" — diminuem. "Diminuí-me de todas as bondades" — diminuíram-se e reduziram-se meus méritos por causa das bondades que fizeste (etc.). "Dia de vento sul" — em que sopra o vento sul forte, que derruba muros e arranca árvores. "Entre as palmeiras" — para que o vento não derrube uma palmeira sobre ele.

Não desejar a prova da doença; o destinado a cair desde a criação · לְעוֹלָם יְבַקֵּשׁ אָדָם רַחֲמִים שֶׁלֹּא יֶחֱלֶה

05Rav Yitzchak bar Rav Yehuda ensina que a pessoa deve orar para não adoecer, pois a doença exige prova de mérito; Mar Ukva traz o versículo do parapeito; a escola de Rabi Yishmael explica "o que cai" como destinado desde a criação
Rav Yitzchak bar Rav Yehuda; Mar Ukva; a escola de Rabi Yishmael
אָמַר רַב יִצְחָק בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוּדָה: לְעוֹלָם יְבַקֵּשׁ אָדָם רַחֲמִים שֶׁלֹּא יֶחֱלֶה, שֶׁאִם יֶחֱלֶה אוֹמְרִים לוֹ: הָבֵא זְכוּת וְהִפָּטֵר. אָמַר מָר עוּקְבָא: מַאי קְרָאָה? — ״כִּי יִפּוֹל הַנּוֹפֵל מִמֶּנּוּ״ — מִמֶּנּוּ לְהָבִיא רְאָיָה. תָּנָא דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: ״כִּי יִפּוֹל הַנּוֹפֵל מִמֶּנּוּ״ — רָאוּי זֶה לִיפּוֹל מִשֵּׁשֶׁת יְמֵי בְרֵאשִׁית, שֶׁהֲרֵי לֹא נָפַל, וְהַכָּתוּב קְרָאוֹ ״נוֹפֵל״. אֶלָּא, שֶׁמְגַלְגְּלִין זְכוּת עַל יְדֵי זַכַּאי וְחוֹבָה עַל יְדֵי חַיָּיב.

Disse Rav Yitzchak, filho de Rav Yehuda: sempre deve a pessoa pedir misericórdia para não adoecer, pois se adoecer, dizem-lhe: traze mérito e liberta-te (da doença). Disse Mar Ukva: qual é o versículo? — "quando cair o que cai dele" (Deuteronômio 22:8) — "dele", (isto é, dele mesmo é exigido) trazer prova. Ensinou a escola de Rabi Yishmael: "quando cair o que cai dele" — este (homem) já estava destinado a cair desde os seis dias da criação, pois ainda não havia caído, e o versículo já o chama de "o que cai". Antes, (o sentido é) que se faz rodar o mérito por meio do meritório, e a culpa por meio do culpado.

Nota

Na mesma linha de raciocínio sobre evitar situações que forcem a prova do próprio mérito, Rav Yitzchak bar Rav Yehuda ensina que a pessoa deve sempre orar para não adoecer — não apenas pelo sofrimento físico da doença em si, mas porque a doença coloca a pessoa numa posição espiritualmente arriscada: uma vez doente, ela é, por assim dizer, convocada perante o tribunal celestial e instada a "trazer mérito" suficiente para justificar sua cura, um processo que ela pode não superar com sucesso. Mar Ukva ancora esse princípio num versículo sobre a obrigação de construir um parapeito no telhado, para que "não caia o que cai" de lá — lido com ênfase na palavra "dele" (mimenu), interpretada como indicando que a prova de inocência deve vir "dele mesmo", da própria pessoa que cai. A escola de Rabi Yishmael propõe uma leitura ainda mais radical do mesmo versículo: por que o texto chama a pessoa de "o que cai" antes mesmo de ela ter caído? A resposta é que esse indivíduo já estava predestinado, desde os seis dias originais da criação do mundo, a sofrer essa queda — um exemplo do princípio determinista de que os grandes eventos da vida de cada pessoa (para o bem ou para o mal) já estão de algum modo inscritos na estrutura da criação. No entanto, a Guemará qualifica imediatamente essa ideia: isso não significa que a queda ocorra arbitrariamente ou sem relação com o mérito moral — antes, o mecanismo pelo qual o destino se concretiza é que "se faz rodar" o mérito através de pessoas meritórias (elas se tornam veículos de bênção para os outros) e a culpa através de pessoas culpadas (o dono da casa sem parapeito, sendo negligente, torna-se o instrumento pelo qual a queda predestinada de outra pessoa efetivamente ocorre).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "dele" e "destinado a cair"
ממנו להביא ראיה - מאחר שהוא נופל צריך למצוא ממנו וממעשיו ראיה לזכות: מששת ימי בראשית - דכתיב קורא הדורות מראש (ישעיהו מא) שנגלו לפניו הדורות ומעשיהם וקנס פורענותם: שהרי - כשניתנה תורה עדיין לא נפל זה והכתוב קראו נופל: על ידי חייב - בע"ה זה שלא קיים מצות מעקה:

"Dele, trazer prova" — uma vez que ele cai, é necessário encontrar dele mesmo e de seus atos prova de mérito. "Desde os seis dias da criação" — pois está escrito "que chama as gerações desde o princípio" (Isaías 41:4), (indicando) que se revelaram diante d'Ele as gerações e seus atos, e Ele decretou sua punição. "Pois ainda" — quando a Torá foi dada, ainda não havia caído este (homem), e o versículo já o chama de "o que cai". "Por meio do culpado" — este dono de casa que não cumpriu o mandamento do parapeito.

Confissão diante da morte e os advogados espirituais · הִתְוַדֵּה, שֶׁכֵּן כׇּל הַמּוּמָתִין מִתְוַדִּין

06A baraita: o moribundo deve confessar; a pessoa deve considerar-se sempre como entregue a um soldado, um cepo ou um tribunal de julgamento capital
Baraita (os Sábios)
תָּנוּ רַבָּנַן: מִי שֶׁחָלָה וְנָטָה לָמוּת, אוֹמְרִים לוֹ: הִתְוַדֵּה, שֶׁכֵּן כׇּל הַמּוּמָתִין מִתְוַדִּין. אָדָם יוֹצֵא לַשּׁוּק, יְהִי דּוֹמֶה בְּעֵינָיו כְּמִי שֶׁנִּמְסַר לְסַרְדְּיוֹט. חָשׁ בְּרֹאשׁוֹ — יְהִי דּוֹמֶה בְּעֵינָיו כְּמִי שֶׁנְּתָנוּהוּ בְּקוֹלָר. עָלָה לַמִּטָּה וְנָפַל — יְהִי דּוֹמֶה בְּעֵינָיו כְּמִי שֶׁהֶעְלוּהוּ לַגַּרְדּוֹם לִידּוֹן, שֶׁכָּל הָעוֹלֶה לַגַּרְדּוֹם לִידּוֹן אִם יֵשׁ לוֹ פְּרַקְלִיטִין גְּדוֹלִים — נִיצּוֹל, וְאִם לָאו — אֵינוֹ נִיצּוֹל.

Ensinaram os Sábios: aquele que adoeceu e se inclina para a morte, dizem-lhe: confessa, pois assim todos os que são condenados à morte confessam. (Quando) a pessoa sai ao mercado, seja semelhante a seus olhos como quem foi entregue a um soldado. (Se) sentiu (dor) em sua cabeça — seja semelhante a seus olhos como quem foi colocado num cepo. (Se) subiu ao leito e caiu (doente) — seja semelhante a seus olhos como quem foi levado ao cadafalso para ser julgado, pois todo aquele que sobe ao cadafalso para ser julgado, se tem grandes advogados, é salvo; e se não, não é salvo.

Nota

A Guemará traz uma baraita que estabelece a prática de instar o moribundo a confessar seus pecados antes de morrer, seguindo o modelo dos condenados à morte pelo tribunal terreno, que tradicionalmente confessam antes da execução — um ato que, mesmo diante de uma morte por causas naturais, serve como expiação. A baraita então expande esse princípio de vigilância espiritual constante para situações cotidianas de crescente gravidade, numa escala ascendente: ao simplesmente sair para o mercado — onde disputas e brigas são comuns —, a pessoa já deveria se considerar tão vulnerável quanto alguém entregue sob custódia de um soldado, prestes a ser conduzido perante um juiz. Se sentir uma simples dor de cabeça — um mal-estar menor —, deveria considerar-se como alguém já fisicamente contido num cepo ou gargalheira, um nível de vulnerabilidade maior. E se adoecer a ponto de ter que se deitar — o estágio mais grave desta escala —, deveria considerar-se como alguém já conduzido ao cadafalso para julgamento capital, o momento de maior risco espiritual. Nesse último estágio, o resultado depende inteiramente da qualidade dos "advogados" disponíveis: se a pessoa tiver "grandes advogados" para defendê-la, é salva; caso contrário, não é salva — preparando o terreno para a próxima seção, que identificará precisamente quem são esses advogados espirituais.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a confissão e a escala de vulnerabilidade
אומרים - העומדין שם: שכן דרך כל המומתים מתודין - כדתנן בסנהדרין שכל המתודה יש לו חלק כו' שכן מצינו בעכן שאמר לו יהושע כו' בפ' נגמר הדין (סנהדרין דף מד:): לשוק - מצויים שם מריבות ובעלי דינים נכרים וישראלים: דומה כמו שנמסר לסרדיוט - להוליכו לפני השופט: חש בראשו - חששא בעלמא מיחוש קל: נתנוהו בקולר - הוי טפי משנמסר לסרדיוט וגרוע מעולה לגרדום שאין דנין שם אלא להריגה ועל סרחון חמור וצריך פרקליטין גדולים: עלה למטה - שחלה הרבה שצריך לעלות וליפול למשכב:

"Dizem-lhe" — os que ali estão presentes. "Pois assim é o costume de todos os condenados à morte, que confessam" — conforme se ensina em Sanhedrin, que todo aquele que confessa tem uma porção (no mundo vindouro, etc.), como encontramos quanto a Achan, a quem Yehoshua disse (para confessar, etc.), no capítulo "Nigmar HaDin" (Sanhedrin 44b). "Ao mercado" — ali se encontram brigas e litigantes, gentios e judeus. "Semelhante a quem foi entregue a um soldado" — para conduzi-lo diante do juiz. "Sentiu (dor) em sua cabeça" — um mal-estar simples, uma dor leve. "Colocado num cepo" — é (situação) mais grave que ser entregue a um soldado, e menos grave que subir ao cadafalso, pois ali (no cadafalso) não se julga senão para execução, e por transgressão grave, sendo necessários grandes advogados. "Subiu ao leito" — que adoeceu muito, a ponto de precisar subir e cair de cama.

07Os advogados são o arrependimento e as boas ações; mesmo que apenas uma pequena fração aponte em seu favor, a pessoa é salva — segundo Rabi Eliezer, filho de Rabi Yosei HaGelili, mesmo uma parte mínima dentro do próprio anjo acusador
Guemará; Rabi Eliezer, filho de Rabi Yosei HaGelili
וְאֵלּוּ הֵן פְּרַקְלִיטִין שֶׁל אָדָם: תְּשׁוּבָה וּמַעֲשִׂים טוֹבִים. וַאֲפִילּוּ תְּשַׁע מֵאוֹת וְתִשְׁעִים וְתִשְׁעָה מְלַמְּדִים עָלָיו חוֹבָה וְאֶחָד מְלַמֵּד עָלָיו זְכוּת — נִיצּוֹל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִם יֵשׁ עָלָיו מַלְאָךְ מֵלִיץ אֶחָד מִנִּי אָלֶף לְהַגִּיד לְאָדָם יׇשְׁרוֹ. וַיְחֻנֶּנּוּ וַיֹּאמֶר פְּדָעֵהוּ מֵרֶדֶת שָׁחַת וְגוֹ׳״. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בְּנוֹ שֶׁל רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי אוֹמֵר: אֲפִילּוּ תְּשַׁע מֵאוֹת וְתִשְׁעִים וְתִשְׁעָה בְּאוֹתוֹ מַלְאָךְ לְחוֹבָה וְאֶחָד לִזְכוּת — נִיצּוֹל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מֵלִיץ אֶחָד מִנִּי אָלֶף״.

E estes são os advogados do homem: arrependimento e boas ações. E mesmo que novecentos e noventa e nove (anjos) apontem sobre ele culpa, e um (só) aponte sobre ele mérito, é salvo, como está dito: "se há sobre ele um anjo intercessor, um entre mil, para declarar do homem sua retidão; e Ele lhe é gracioso, e diz: livra-o de descer à cova (etc.)" (Jó 33:23–24). Rabi Eliezer, filho de Rabi Yosei HaGelili, diz: mesmo que novecentos e noventa e nove, dentro daquele mesmo anjo, (apontem) para culpa, e um (só, dentro dele), para mérito, é salvo, como está dito: "intercessor, um entre mil".

Nota

A Guemará identifica agora quem são os "grandes advogados" mencionados na baraita anterior, capazes de salvar a pessoa no momento de julgamento mais grave: são o arrependimento (teshuvá) e as boas ações — não figuras externas, mas os próprios méritos morais e espirituais que a pessoa constrói ao longo da vida. A Guemará então enfatiza, de forma notável, quão pequena pode ser a margem necessária para a salvação: mesmo que novecentos e noventa e nove fatores (personificados como vozes ou anjos acusadores) testemunhem contra a pessoa, apontando sua culpa, basta que um único fator aponte em seu favor para que ela seja salva — uma proporção esmagadoramente desfavorável (999 contra 1) que, ainda assim, basta para inclinar o julgamento para a misericórdia. Isso se apoia num versículo de Jó que fala de um "anjo intercessor, um entre mil", interpretado como demonstrando que basta uma única voz favorável entre mil desfavoráveis para que D-us seja gracioso e liberte a pessoa da "cova" (a morte ou a punição). Rabi Eliezer, filho de Rabi Yosei HaGelili, radicaliza ainda mais essa leitura: a proporção mínima necessária não precisa nem ser de um anjo inteiro contra outros — mesmo dentro de um único e mesmo anjo, se novecentos e noventa e nove "partes" de seu testemunho apontam para a culpa, e apenas uma parte mínima, residual, aponta para o mérito, isso já é suficiente para a salvação, extraindo essa leitura ainda mais extrema da mesma expressão "um entre mil".

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre os advogados e o anjo intercessor
ואלו הן פרקליטין - שעושה למטה רצוי לב"ד של מעלה תשובה ומעשים טובים: באותו מלאך - שמליץ עליו זכות והוא אחד מני אלף ואפילו הוא עצמו מעיד עליו חובה ניצול באחת של זכות שנאמר מליץ אחד מני אלף במליצתו של מלאך אין אלא אחת מאלף להגיד ישרו ומשמע נמי שהמלאך המליץ הוי אחד מני אלף דהא מלאך כתיב מכלל דהשאר מגידים עליו חובה אלא מדלא כתיב אם יש עליו מליץ מלאך אחד מני אלף איכא למידרשיה אמלאך ואמליצה:

"E estes são os advogados" — que (a pessoa) faz embaixo (que se tornam) agradáveis ao tribunal celestial: arrependimento e boas ações. "Dentro daquele mesmo anjo" — que intercede por ele em mérito, sendo (essa intercessão) apenas uma (parte) entre mil; e mesmo que ele próprio (o anjo) testemunhe contra ele culpa, é salvo por aquela única (parte) de mérito, como está dito "intercessor, um entre mil" — que na intercessão do anjo não há senão uma (parte) entre mil para declarar sua retidão; e também se depreende que o próprio anjo intercessor é um entre mil, pois está escrito "anjo", donde se conclui que os demais testemunham contra ele culpa; mas, já que não está escrito "se há sobre ele um anjo intercessor" (sem o "um entre mil"), pode-se interpretar tanto quanto ao anjo quanto à intercessão.

Retorno à Mishná: as baraitot sobre as três transgressões e os gatilhos de morte · עַל שָׁלֹשׁ עֲבֵירוֹת נָשִׁים מֵתוֹת יוֹלְדוֹת

08A baraita: Rabi Elazar diz que as mulheres morrem "jovens"; Rabi Acha atribui a causa a lavar as fraldas no Shabat; outros dizem que é chamar a Arca Sagrada de mero "arna"
Baraita; Rabi Elazar; Rabi Acha
תָּנוּ רַבָּנַן: עַל שָׁלֹשׁ עֲבֵירוֹת נָשִׁים מֵתוֹת יוֹלְדוֹת. רַבִּי אֶלְעָזָר אוֹמֵר נָשִׁים מֵתוֹת יְלָדוֹת. רַבִּי אַחָא אוֹמֵר בְּעָוֹן שֶׁמְּכַבְּסוֹת צוֹאַת בְּנֵיהֶם בְּשַׁבָּת. וְיֵשׁ אוֹמְרִים: עַל שֶׁקּוֹרִין לַאֲרוֹן הַקּוֹדֶשׁ ״אֲרָנָא״.

Ensinaram os Sábios: por três transgressões as mulheres (que dão à luz) morrem, (sendo) parturientes. Rabi Elazar diz: as mulheres morrem (sendo) jovens. Rabi Acha diz: pelo pecado de lavarem as fezes de seus filhos no Shabat. E há quem diga: por chamarem à Arca Sagrada de "arna" (baú comum).

Nota

A Guemará retorna ao texto da Mishná com uma sequência de baraitot que enriquecem e, em parte, discordam da formulação original. A primeira baraita apresenta uma variação textual sutil, mas significativa, da própria Mishná: em vez de dizer que as mulheres morrem "no momento do parto" (bishe'at leidatan), ela afirma que as "mulheres parturientes" (yoledot) morrem por essas três transgressões — uma formulação praticamente equivalente à Mishná. Mas Rabi Elazar oferece uma leitura textual diferente: em vez de "yoledot" (parturientes), ele lê "yeladot" (jovens) — sugerindo que a causa dessas três transgressões leva à morte prematura das mulheres em geral, não apenas no momento específico do parto, mas em qualquer momento de sua juventude. Essa diferença entre "yoledot" e "yeladot", quase idêntica na escrita hebraica sem vocalização, gerará mais adiante uma harmonização com outra baraita. Em seguida, dois ensinamentos adicionais, aparentemente não diretamente ligados às três transgressões da Mishná, são acrescentados: Rabi Acha atribui um risco de morte distinto — não listado na Mishná original — ao pecado de lavar as fezes das crianças no Shabat (um ato que, dependendo da forma como é realizado, pode envolver problemas halachicos de lavagem de roupas no dia sagrado); e uma opinião anônima atribui outro risco ao desrespeito verbal de chamar a Arca Sagrada (aron hakodesh) por um termo vulgar e comum, "arna" (uma espécie de baú ou caixa qualquer), em vez de tratá-la com a dignidade de seu nome sagrado.

09Rabi Yishmael ben Elazar: os ignorantes morrem por chamarem a Arca de "arna" e a sinagoga de "casa do povo"; a baraita de Rabi Yosei sobre os três gatilhos de morte na mulher, harmonizada com Rabi Elazar e os sábios
Rabi Yishmael ben Elazar; Rabi Yosei
תַּנְיָא, רַבִּי יִשְׁמָעֵאל בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר: בַּעֲוֹן שְׁנֵי דְבָרִים עַמֵּי הָאֲרָצוֹת מֵתִים — עַל שֶׁקּוֹרִין לַאֲרוֹן הַקּוֹדֶשׁ ״אֲרָנָא״, וְעַל שֶׁקּוֹרִין לְבֵית הַכְּנֶסֶת ״בֵּית עָם״. תַּנְיָא רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שְׁלֹשָׁה בִּדְקֵי מִיתָה נִבְרְאוּ בָּאִשָּׁה, וְאָמְרִי לַהּ: שְׁלֹשָׁה דִּבְקֵי מִיתָה: נִדָּה וְחַלָּה וְהַדְלָקַת הַנֵּר. חֲדָא כְּרַבִּי אֶלְעָזָר וַחֲדָא כְּרַבָּנַן.

Foi ensinado: Rabi Yishmael ben Elazar diz: pelo pecado de duas coisas os "amei ha'aretz" (ignorantes, incultos) morrem — por chamarem à Arca Sagrada de "arna", e por chamarem à sinagoga de "casa do povo". Foi ensinado: Rabi Yosei diz: três gatilhos de morte foram criados na mulher — e há quem diga: três aceleradores de morte: nidá, halá e o acender da vela. Uma (versão corresponde) à opinião de Rabi Elazar, e a outra, à opinião dos Sábios.

Nota

A Guemará estende o segundo ensinamento anônimo sobre o desrespeito à Arca Sagrada, agora atribuído nominalmente a Rabi Yishmael ben Elazar, que o combina com uma segunda falta paralela: além de chamar a Arca de "arna" (termo vulgar), os "amei ha'aretz" — um termo que designa pessoas incultas ou negligentes na observância religiosa, literalmente "povos da terra" — também são responsabilizados por chamarem a sinagoga (beit hakneset, "casa de reunião") pelo termo depreciativo "beit am" ("casa do povo"), um nome que rebaixa o caráter sagrado do local de oração ao nível de um mero espaço comunitário secular. Este ensinamento, embora relacionado ao tema da linguagem desrespeitosa em relação a objetos e locais sagrados, aplica-se aos ignorantes em geral, não especificamente às mulheres. A Guemará então retorna ao fio principal da discussão com uma baraita de Rabi Yosei, que reformula toda a questão numa terceira linguagem: em vez de falar de "transgressões" (avon) pelas quais as mulheres "morrem", Rabi Yosei fala de três "bidkei mitá" (gatilhos, ou pontos de verificação de morte) que foram "criados" na própria estrutura da mulher — sugerindo que a vulnerabilidade da mulher a essas três áreas (nidá, halá, vela de Shabat) é, de certo modo, uma característica estrutural, e não apenas uma consequência acidental de eventuais transgressões. Uma versão alternativa do texto usa "dibkei mitá" (aceleradores, ou pontos de aderência da morte) em vez de "bidkei mitá". A Guemará harmoniza essas duas variações textuais com as duas posições apresentadas anteriormente: a versão "dibkei" (aceleradores, sugerindo uma morte precoce e acelerada) corresponde à opinião de Rabi Elazar, que leu a Mishná como referindo-se a mulheres que morrem "yeladot" (jovens, prematuramente); e a versão "bidkei" (gatilhos ou pontos de verificação, sugerindo um momento específico de exame) corresponde à opinião dos demais Sábios, que mantiveram a leitura original "yoledot" (no momento do parto).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "yoledot", "yeladot" e os termos vulgares
יולדות - בשעת לידתן: שלש עבירות - הנך דמתניתין: ילדות - בחורות ואפילו שלא בשעת לידה: רבי אחא אומר - הילדות מתות על עון שמכבסות: ארנא - כך היו קורין מגדלות שלהם פריט"י ובלשונינו משטי"ר:

"Yoledot" — no momento de seu parto. "Três transgressões" — aquelas (mencionadas) na Mishná. "Yeladot" — jovens, mesmo fora do momento do parto. "Rabi Acha diz" — as jovens morrem pelo pecado de lavarem (as fezes dos filhos no Shabat). "Arna" — assim chamavam (em seu idioma) seus armários (comuns): "pariti" em sua língua, e em nossa língua, "mashtir" (gaveteiro, cômoda).

בית עם - לשון ביזוי שמתקבצין בו הכל: ולארון הקדש ארנא - אין קורין אותו ארון הקדש: בדקי - עונות שבודקין אותן בהן בשעת סכנה כרבנן דאמרי יולדות: דבקי - שמדבקין ומקרבין מיתה לפני זמנה כר' אלעזר דתני ילדות:

"Casa do povo" — expressão de desprezo, pois ali se reúne todo mundo. "E à Arca Sagrada, 'arna'" — não a chamam de Arca Sagrada. "Bidkei" — transgressões pelas quais são examinadas no momento do perigo, conforme os Sábios, que dizem "yoledot". "Divkei" — que aceleram e aproximam a morte antes de seu tempo, conforme Rabi Elazar, que ensina "yeladot".

Abertura do ensinamento de Raban Shimon ben Gamliel · הִלְכוֹת הֶקְדֵּשׁ, תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת

10Raban Shimon ben Gamliel: as leis de hekdesh, terumot e maasrot são a própria essência da Torá — frase interrompida no limite do daf
Raban Shimon ben Gamliel
תַּנְיָא רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: הִלְכוֹת הֶקְדֵּשׁ, תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת — הֵן הֵן גּוּפֵי תּוֹרָה,

Foi ensinado: Raban Shimon ben Gamliel diz: as leis de hekdesh (objetos consagrados), terumot (ofertas sacerdotais) e maasrot (dízimos) — elas são a própria essência da Torá, (e são especialmente severas, pois...)

Nota

O daf 32a se encerra com a abertura de um novo ensinamento, de tema aparentemente distinto das três transgressões femininas discutidas até aqui: Raban Shimon ben Gamliel introduz uma afirmação sobre a centralidade das leis de hekdesh (consagração de bens ao Templo), terumot (as porções sacerdotais separadas da colheita) e maasrot (os dízimos agrícolas), declarando que estas constituem "a própria essência da Torá" (gufei Torá) — uma expressão que sublinha o caráter fundamental e não periférico dessas leis dentro do sistema legal da Torá como um todo. A frase, no entanto, é interrompida exatamente neste ponto pelo limite do daf: o texto disponível em 32a termina aqui, sem que a Guemará explique ainda por que essas leis específicas merecem tal designação de centralidade, nem como esse novo tema se conecta à discussão anterior sobre a vela de Shabat e as transgressões femininas. A continuação dessa frase — incluindo, presumivelmente, a razão pela qual essas leis são tão severamente reforçadas e sua eventual ligação de volta ao tema da vela de Shabat — encontra-se no início do daf 32b.