Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Bet · Bameh Madlikin
גּוּפֵי תּוֹרָה

A conclusão do ensinamento sobre hekdesh, terumot e maasrot como a essência da Torá; a baraita sobre o pecado dos votos e a morte da esposa e dos filhos; as disputas sobre mezuzá, negligência da Torá e tzitzit; e os ensinamentos sobre ódio gratuito, halá e o roubo do pobre

Shabbat 32b — a continuação direta do ensinamento de Raban Shimon ben Gamliel, interrompido no limite de 32a

O daf abre completando a frase de Raban Shimon ben Gamliel, iniciada ao final de 32a: as leis de hekdesh, terumot e maasrot são "a própria essência da Torá" precisamente porque foram confiadas aos amei ha'aretz — a Torá acreditou em qualquer pessoa quanto a essas leis, sem exigir supervisão formal de um tribunal. A partir daí, a Guemará encadeia uma série de baraitot sobre o pecado dos votos (nedarim) e suas consequências fatais: Rabi Natan ensina que, por esse pecado, morre a esposa do homem; Rabi Yehuda HaNassi ensina que, por esse mesmo pecado, morrem os filhos pequenos, interpretando o versículo sobre não deixar a boca levar a carne a pecar. Segue-se uma baraita anônima que atribui a mesma consequência ora ao pecado dos votos (segundo Rabi Elazar bar Rabi Shimon), ora à negligência do estudo da Torá (segundo Rabi Yehuda HaNassi) — com a observação de que o próprio Rabi Yehuda HaNassi, ouvindo o ensinamento de seu mestre Rabi Elazar bar Rabi Shimon, passou a concordar com a posição dos votos. A Guemará então relata a disputa entre Rabi Chiya bar Abba e Rabi Yosei sobre se a mesma consequência (morte dos filhos pequenos) se deve à negligência da mezuzá ou da Torá, com a diferença prática recaindo sobre o alcance da leitura do versículo "para que se multipliquem vossos dias e os dias de vossos filhos". Uma disputa paralela entre Rabi Meir e Rabi Yehuda atribui a mesma consequência ora à negligência da mezuzá, ora à negligência do tzitzit, cada um ancorando sua posição em versículos distintos. Reish Lakish ensina, em contrapartida, que todo aquele que é cuidadoso com o preceito do tzitzit merece ser servido por dois mil e oitocentos servos no futuro, segundo a profecia de Zacarias. O daf prossegue com uma baraita de Rabi Nechemia sobre o ódio gratuito, que causa grande discórdia na casa do homem, aborto na esposa e morte dos filhos pequenos; com o ensinamento de Rabi Elazar bar Rabi Yehuda sobre a negligência da halá, que retira a bênção dos celeiros e traz maldição aos mercados; com o ensinamento sobre a negligência de terumot e maasrot, que retém o orvalho e a chuva dos céus, causa carestia e frustra o sustento humano; e conclui, no seu último segmento, com o ensinamento sobre o pecado do roubo, que faz crescer a praga do gafanhoto e traz fome, ilustrado pelo comentário de Rava sobre as mulheres de Machoza — encerrando o daf no meio da exposição, cuja continuação segue em 33a.

A conclusão: hekdesh, terumot e maasrot confiados aos amei ha'aretz · וְנִמְסְרוּ לְעַמֵּי הָאָרֶץ

01A conclusão da frase de Raban Shimon ben Gamliel: essas leis são a essência da Torá porque foram confiadas à palavra de qualquer pessoa, sem exigência de testemunho formal
Raban Shimon ben Gamliel (conclusão, diante da Guemará)
וְנִמְסְרוּ לְעַמֵּי הָאָרֶץ.

E foram confiadas aos amei ha'aretz (os incultos, os não versados em Torá — isto é, confia-se em sua palavra quanto a essas leis, sem exigir prova formal).

Nota

O daf 32b abre completando, em sua primeira palavra, a frase de Raban Shimon ben Gamliel iniciada ao final de 32a: as leis de hekdesh, terumot e maasrot são "a própria essência da Torá" porque — ao contrário de outras áreas do direito, em que a Torá exige a nomeação formal de guardiões ou testemunhas perante um tribunal — essas leis específicas foram confiadas diretamente à palavra de qualquer pessoa, incluindo os amei ha'aretz, os que não são versados no estudo da Torá e não são, em geral, suspeitos de rigor na observância. Rashi explica que essa confiança da Torá nesses indivíduos é o que permite, por exemplo, que os "chaverim" (companheiros, os que observam rigorosamente as leis de pureza e dízimo) comam do pão de um am ha'aretz, apoiando-se na palavra deste de que já retirou dele a halá, a terumá e o maasêr; e da mesma forma, a consagração (hekdesh) declarada por qualquer pessoa, mesmo um am ha'aretz, tem efeito válido — o que exige cautela redobrada quanto a objetos móveis, pois seu dono pode tê-los consagrado e depois se arrependido informalmente. Rashi observa que, embora os Sábios tenham posteriormente instituído a categoria do "demai" (produto duvidoso, sobre o qual não se confia inteiramente na palavra do am ha'aretz), isso não anula o princípio de que a própria Torá, em sua origem, confiou nele integralmente. Rashi acrescenta que seus próprios mestres explicavam de outro modo: que "leis de hekdesh" se refere especificamente ao vinho destinado às libações do Templo, conforme se explica no tratado Chagigá (27b), onde se ensina que os amei ha'aretz são considerados confiáveis quanto a esse vinho — embora Rashi conteste essa leitura, notando que, se a confiabilidade fosse apenas de origem rabínica, não faria sentido a baraita mencionar também terumot e maasrot, que os Sábios não lhes confiaram inteiramente.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "foram confiadas aos amei ha'aretz" e "a essência da Torá"
ונמסרו לעמי הארץ - שלא מסרו לב"ד למנות שומרין לדבר והאמינה תורה את כל אדם עליהן והן הן גופי תורה שחברים אוכלין פתן וסומכין שניטל ממנו חלה ותרומה ומעשרות והקדש נמי מסור לכל אדם להקדיש וחל הקדש ע"פ כל אדם והן גופי תורה שהיינו צריכים לחוש במטלטלין שמא הקדישו וחזר בו ואע"ג דתקון רבנן דמאי מ"מ תורה האמינתו ורבותי מפרשים הלכות הקדש כגון יין לנסכים כדמפרש בחומר בקדש (חגיגה דף כז:) שעמי הארץ נאמנים עליו וקשיא לי אי מדרבנן קאמר דחשיב מאי דהימנוהו רבנן לא הוה ליה למיתני תרומות ומעשרות דרבנן לא הימנוהו:

"E foram confiadas aos amei ha'aretz" — pois não as confiaram ao tribunal para nomear guardiões para o assunto, e a Torá acreditou em qualquer pessoa quanto a elas; e elas são "a essência da Torá", pois os companheiros (chaverim) comem seu pão (do am ha'aretz) e se apoiam (em sua palavra) de que foi retirada dele a halá, a terumá e o maasêr; e a consagração (hekdesh) também é confiada a qualquer pessoa para consagrar, e a consagração tem efeito pela palavra de qualquer pessoa; e são "a essência da Torá", pois precisaríamos ter cautela quanto aos objetos móveis, para que não os tenham consagrado e depois se arrependido; e ainda que os Sábios tenham instituído (a categoria de) "demai" (produto duvidoso), de todo modo a Torá o confiou (originalmente). E meus mestres explicam "leis de hekdesh" como referindo-se, por exemplo, ao vinho para as libações, conforme se explica em "Chomer BaKodesh" (Chagigá 27b), que os amei ha'aretz são confiáveis quanto a isso; e é-me difícil (essa explicação): se fosse dizer que é (confiabilidade) apenas de origem rabínica, não seria correto considerá-la (como "essência da Torá"); (além disso,) não deveria então (a baraita) ensinar (também) "terumot e maasrot", pois os Sábios não os confiaram (inteiramente) a eles.

O pecado dos votos: a morte da esposa e dos filhos pequenos · בַּעֲוֹן נְדָרִים מֵתָה אִשָּׁה שֶׁל אָדָם

02Rabi Natan: pelo pecado dos votos morre a esposa do homem; Rabi Yehuda HaNassi: pelo mesmo pecado morrem os filhos pequenos, pois "obra das mãos" do homem são seus filhos
Baraita; Rabi Natan; Rabi Yehuda HaNassi
תַּנְיָא רַבִּי נָתָן אוֹמֵר: בַּעֲוֹן נְדָרִים מֵתָה אִשָּׁה שֶׁל אָדָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִם אֵין לְךָ לְשַׁלֵּם לָמָּה יִקַּח מִשְׁכָּבְךָ מִתַּחְתֶּיךָ״. רַבִּי אוֹמֵר: בַּעֲוֹן נְדָרִים בָּנִים מֵתִים כְּשֶׁהֵן קְטַנִּים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַל תִּתֵּן אֶת פִּיךָ לַחֲטִיא אֶת בְּשָׂרֶךָ וְאַל תֹּאמַר לִפְנֵי הַמַּלְאָךְ כִּי שְׁגָגָה הִיא לָמָּה יִקְצוֹף הָאֱלֹהִים עַל קוֹלֶךָ וְחִבֵּל אֶת מַעֲשֵׂה יָדֶיךָ״. אֵיזֶה הֵן מַעֲשֵׂה יָדָיו שֶׁל אָדָם? הֱוֵי אוֹמֵר בָּנָיו וּבְנוֹתָיו שֶׁל אָדָם.

Foi ensinado: Rabi Natan diz: pelo pecado dos votos (não cumpridos) morre a esposa do homem, como está dito: "se não tens com que pagar, por que tomaria ele teu leito de debaixo de ti" (Provérbios 22:27). Rabi (Yehuda HaNassi) diz: pelo pecado dos votos morrem os filhos (do homem) quando ainda são pequenos, como está dito: "não deixes tua boca fazer pecar tua carne, e não digas diante do mensageiro que foi engano; por que se iraria D-us por causa de tua voz, e destruiria a obra de tuas mãos" (Eclesiastes 5:5). Quais são "a obra das mãos" do homem? Deve-se dizer: são os filhos e as filhas do homem.

Nota

A Guemará encadeia, a partir da menção geral a hekdesh, terumot e maasrot, uma sequência de baraitot que tratam de um tema relacionado por associação: as consequências fatais de descumprir votos (nedarim), que também envolvem uma promessa formal não cumprida. Rabi Natan ensina que, pelo pecado de não pagar os votos que se fez, morre a esposa do homem, apoiando-se num versículo de Provérbios que adverte contra fazer promessas sem condições de cumpri-las — lido aqui como referindo-se ao "leito" do homem, isto é, sua esposa, que lhe é tomada como punição. Rabi Yehuda HaNassi ensina uma consequência distinta, mas relacionada, do mesmo pecado: não a morte da esposa, mas a morte dos filhos pequenos, apoiando-se num versículo de Eclesiastes que adverte contra permitir que a "boca" leve à transgressão através de votos não cumpridos, e que menciona a ira de D-us "sobre tua voz" destruindo "a obra de tuas mãos". A Guemará então explica essa última expressão: "a obra das mãos" do homem, no contexto de uma advertência sobre a boca e a voz, deve ser entendida como referindo-se aos filhos e filhas do homem — seus descendentes sendo, num sentido real, o produto e a continuação de sua própria existência.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "se não tens com que pagar" e "não deixes tua boca"
אם אין לך לשלם - עולות והקדשות שתדור:

"Se não tens com que pagar" — (referindo-se a) ofertas de subida e consagrações que fizeres por voto.

משכבך - אשתך:

"Teu leito" — tua esposa.

אל תתן את פיך - בנדר לחטיא את בשרך לחייב את בניך:

"Não deixes tua boca" — por meio de um voto — "fazer pecar tua carne", (isto é,) tornar culpados teus filhos.

לפני המלאך - גזבר של הקדש:

"Diante do mensageiro" — o tesoureiro (encarregado) das consagrações.

כי שגגה - בשוגג קפצתי לנדור ולא אשלם:

"Que foi engano" — (dizendo) "por descuido apressei-me a fazer o voto", e (por isso) não pagarei.

על קולך - בשביל קול נדריך:

"Sobre tua voz" — por causa da voz de teus votos.

03Baraita: Rabi Elazar bar Rabi Shimon atribui a morte dos filhos ao pecado dos votos; Rabi Yehuda HaNassi, à negligência da Torá; ao ouvir seu mestre, Rabi Yehuda HaNassi adota a posição dos votos
Baraita; Rabi Elazar bar Rabi Shimon; Rabi Yehuda HaNassi; Rav Nachman bar Yitzchak
תָּנוּ רַבָּנַן: בַּעֲוֹן נְדָרִים בָּנִים מֵתִים, דִּבְרֵי רַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן. רַבִּי יְהוּדָה הַנָּשִׂיא אוֹמֵר: בַּעֲוֹן בִּיטּוּל תּוֹרָה. בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר בַּעֲוֹן נְדָרִים — כְּדַאֲמַרַן, אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר בַּעֲוֹן בִּיטּוּל תּוֹרָה מַאי קְרָאָה? דִּכְתִיב: ״לַשָּׁוְא הִכֵּיתִי אֶת בְּנֵיכֶם מוּסָר לֹא לָקָחוּ״. רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק אָמַר: לְמַאן דְּאָמַר בַּעֲוֹן נְדָרִים נָמֵי מֵהָכָא: ״לַשָּׁוְא הִכֵּיתִי אֶת בְּנֵיכֶם״ — עַל עִסְקֵי שָׁוְא. מִכְּדֵי רַבִּי יְהוּדָה הַנָּשִׂיא הַיְינוּ רַבִּי, וְרַבִּי בַּעֲוֹן נְדָרִים קָאָמַר?! בָּתַר דְּשַׁמְעַהּ מֵרַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Ensinaram os Sábios: pelo pecado dos votos morrem os filhos — palavras de Rabi Elazar, filho de Rabi Shimon. Rabi Yehuda HaNassi diz: (é) pelo pecado da negligência da Torá. Está bem, segundo quem diz "pelo pecado dos votos" — (entende-se) como dissemos; mas segundo quem diz "pelo pecado da negligência da Torá", qual é o versículo? Pois está escrito: "em vão feri vossos filhos, disciplina não receberam" (Jeremias 2:30). Disse Rav Nachman bar Yitzchak: segundo quem diz "pelo pecado dos votos", também (se deduz) daqui: "em vão feri vossos filhos" — por causa de assuntos de "vão" (isto é, votos vãos, não cumpridos). Ora, Rabi Yehuda HaNassi é o mesmo que "Rabi" (mencionado antes), e (ali) "Rabi" disse (que é) pelo pecado dos votos?! (Isso ocorreu) depois que ele o ouviu de Rabi Elazar, filho de Rabi Shimon.

Nota

A Guemará traz uma segunda baraita, aparentemente redundante com o ensinamento anterior de Rabi Yehuda HaNassi (identificado simplesmente como "Rabi" nas fontes tanaíticas), mas que na verdade documenta uma disputa e uma evolução de opinião. Nesta versão, a causa da morte dos filhos pequenos é atribuída, de um lado, a Rabi Elazar bar Rabi Shimon, que a liga ao pecado dos votos (como no ensinamento anterior de Rabi Natan); e, de outro, a Rabi Yehuda HaNassi, que aqui a atribui não aos votos, mas à negligência do estudo da Torá (bitul Torá). A Guemará busca a base bíblica para essa segunda posição: um versículo de Jeremias que lamenta ter D-us "ferido em vão" os filhos, "disciplina não receberam" — lido como referindo-se à disciplina do estudo da Torá que não foi absorvida. Rav Nachman bar Yitzchak, no entanto, propõe que esse mesmo versículo também pode sustentar a primeira posição, dos votos: a expressão "em vão" (lashav) seria lida como referindo-se especificamente a "assuntos de vão" — isto é, votos feitos em vão, sem cumprimento. A Guemará então levanta uma dificuldade: se "Rabi Yehuda HaNassi" nesta segunda baraita é a mesma pessoa que "Rabi" na baraita anterior, há uma contradição, pois ali ele havia atribuído a causa aos votos, e aqui à negligência da Torá. A resposta harmoniza a aparente contradição cronologicamente: Rabi Yehuda HaNassi originalmente sustentava a posição da negligência da Torá (como registrado nesta segunda baraita), mas depois de ouvir o ensinamento de seu próprio mestre, Rabi Elazar bar Rabi Shimon, que defendia a posição dos votos, ele próprio passou a adotar essa mesma posição — o que está refletido na primeira baraita, cronologicamente posterior.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "em vão feri vossos filhos" e a mudança de opinião de Rabi
לשוא הכיתי - בתמיה וכי בחנם הכיתים אינו אלא בשביל המוסר דהיינו תורה לא לקחו לא למדו לשון לקח:

"Em vão feri" — em tom de espanto: acaso foi à toa que os feri? Não é senão por causa da disciplina — isto é, a Torá — "não receberam", não a aprenderam; (a raiz de) "lakachu" (receberam) é da (mesma) expressão de "lekach" (recepção, aprendizado).

על עסקי שוא - ששקרו בנדריהם דדמי לשבועה:

"Por causa de assuntos de vão" — pois mentiram em seus votos, o que se assemelha a (um juramento em vão).

והא בעון נדרים אמר בברייתא קמייתא ומשני ההיא קמייתא בתר הך איתמר דמעיקרא אמר בעון ביטול תורה ובתר דשמע מר' אלעזר דשמע מר' שמעון אבוה דהוה רביה דרבי בעון נדרים אמר איהו נמי הכי:

"Ora, (não) foi 'pelo pecado dos votos' que ele disse na primeira baraita?" — e se responde: aquela primeira baraita foi ensinada depois desta; pois, no início, ele (Rabi Yehuda HaNassi) disse "pelo pecado da negligência da Torá", e depois que ouviu (o ensinamento) de Rabi Elazar, filho de Rabi Shimon — que (por sua vez, o) ouviu de (seu pai) Rabi Shimon, que era mestre de Rabi (Yehuda HaNassi)(o ensinamento de) "pelo pecado dos votos", disse ele também assim.

Mezuzá e a negligência da Torá · פְּלִיגִי בַּהּ רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא וְרַבִּי יוֹסֵי

04Rabi Chiya bar Abba e Rabi Yosei divergem: um atribui a morte dos filhos ao pecado da mezuzá, o outro à negligência da Torá; a diferença está no alcance da leitura do versículo
Rabi Chiya bar Abba; Rabi Yosei
פְּלִיגִי בַּהּ רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא וְרַבִּי יוֹסֵי, חַד אָמַר בַּעֲוֹן מְזוּזָה. וְחַד אָמַר בַּעֲוֹן בִּיטּוּל תּוֹרָה. לְמַאן דְּאָמַר בַּעֲוֹן מְזוּזָה, מִקְרָא נִדְרָשׁ לְפָנָיו וְלֹא לִפְנֵי פָנָיו. וּלְמַאן דְּאָמַר בַּעֲוֹן בִּיטּוּל תּוֹרָה, מִקְרָא נִדְרָשׁ לְפָנָיו וְלִפְנֵי פָנָיו.

Divergem quanto a isso Rabi Chiya bar Abba e Rabi Yosei: um diz: (é) pelo pecado da mezuzá. E um diz: (é) pelo pecado da negligência da Torá. Segundo quem diz "pelo pecado da mezuzá", o versículo é interpretado (referindo-se) ao que está diante dele, e não ao que está diante do que está diante dele. E segundo quem diz "pelo pecado da negligência da Torá", o versículo é interpretado (referindo-se) ao que está diante dele e também ao que está diante do que está diante dele.

Nota

A Guemará traz mais uma disputa sobre a causa da morte prematura dos filhos, agora entre Rabi Chiya bar Abba e Rabi Yosei: um atribui essa consequência ao pecado de negligenciar o preceito da mezuzá, e o outro à negligência do estudo da Torá em geral. A Guemará explica que essa disputa se reflete no alcance interpretativo dado ao versículo relevante (Deuteronômio 11:20–21), que fala de escrever os mandamentos "nas mezuzot de tua casa e em teus portões, para que se multipliquem vossos dias e os dias de vossos filhos". Segundo quem sustenta que a causa é a mezuzá, o versículo — que menciona explicitamente a mezuzá logo antes de mencionar "os dias de vossos filhos" — é lido de forma restrita, aplicando a promessa de vida longa apenas ao mandamento imediatamente anterior (a mezuzá), e não a um mandamento anterior a esse (o ensino da Torá aos filhos, mencionado ainda mais cedo na passagem). Segundo quem sustenta que a causa é a negligência da Torá, o mesmo versículo é lido de forma mais ampla, estendendo a promessa tanto ao mandamento imediatamente anterior (mezuzá) quanto ao mandamento anterior a esse (o ensino da Torá) — de modo que a "multiplicação dos dias dos filhos" depende de ambos os preceitos, e sua negligência, de qualquer um deles, pode causar a consequência fatal.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "o que está diante dele" e o alcance do versículo
מקרא נדרש - למען ירבו ימיכם וימי בניכם נדרש לפניו קאי אקרא דלקמיה דמשתעי במזוזה ולא לפני פניו ולמדתם אותם את בניכם:

"O versículo é interpretado" — (o versículo) "para que se multipliquem vossos dias e os dias de vossos filhos" é interpretado (referindo-se) ao que está diante dele — (isto é,) refere-se ao versículo que o precede (imediatamente), que trata da mezuzá — e não ao que está diante do que está diante dele — (isto é,) "e as ensinareis a vossos filhos" (referente ao estudo da Torá, ainda mais anterior).

ולפני פניו - ואף בעון בטול תורה קאמר:

"E ao que está diante do que está diante dele" — (segundo esta opinião, o versículo) também se refere ao pecado da negligência da Torá.

Mezuzá ou tzitzit; o mérito de quem observa o tzitzit · פְּלִיגִי בַּהּ רַבִּי מֵאִיר וְרַבִּי יְהוּדָה

05Rabi Meir e Rabi Yehuda divergem entre mezuzá e tzitzit como causa; Rav Nachman bar Yitzchak liga também a posição da mezuzá ao versículo sobre o arrombador
Rabi Meir; Rabi Yehuda; Rav Kahana; Sheila Mari; Rav Nachman bar Yitzchak
פְּלִיגִי בַּהּ רַבִּי מֵאִיר וְרַבִּי יְהוּדָה. חַד אָמַר בַּעֲוֹן מְזוּזָה, וְחַד אָמַר בַּעֲוֹן צִיצִית. בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר בַּעֲוֹן מְזוּזָה, דִּכְתִיב: ״וּכְתַבְתָּם עַל מְזוּזוֹת בֵּיתֶךָ״, וּכְתִיב בָּתְרֵיהּ: ״לְמַעַן יִרְבּוּ יְמֵיכֶם וִימֵי בְנֵיכֶם״. אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר בַּעֲוֹן צִיצִית מַאי טַעְמָא? אָמַר רַב כָּהֲנָא, וְאִיתֵּימָא שֵׁילָא מָרִי, דִּכְתִיב: ״גַּם בִּכְנָפַיִךְ נִמְצְאוּ דַּם נַפְשׁוֹת אֶבְיוֹנִים נְקִיִּים״. רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק אָמַר: לְמַאן דְּאָמַר בַּעֲוֹן מְזוּזָה נָמֵי מֵהָכָא, דִּכְתִיב: ״לֹא בַּמַּחְתֶּרֶת מְצָאתִים״ — שֶׁעָשׂוּ פְּתָחִים כְּמַחְתֶּרֶת.

Divergem quanto a isso Rabi Meir e Rabi Yehuda: um diz: (é) pelo pecado da mezuzá; e um diz: (é) pelo pecado do tzitzit. Está bem, segundo quem diz "pelo pecado da mezuzá", pois está escrito: "e as escreverás nas mezuzot de tua casa" (Deuteronômio 6:9), e está escrito depois disso: "para que se multipliquem vossos dias e os dias de vossos filhos" (Deuteronômio 11:21). Mas segundo quem diz "pelo pecado do tzitzit", qual é a razão? Disse Rav Kahana, e há quem diga (que foi) Sheila Mari: pois está escrito: "também em tuas franjas se acharam sangue de almas de pobres inocentes" (Jeremias 2:34). Disse Rav Nachman bar Yitzchak: segundo quem diz "pelo pecado da mezuzá", também (se deduz) daqui: "não os achei arrombando" (Jeremias 2:34) — pois fizeram (suas) entradas (descobertas, expostas) como um arrombamento.

Nota

Segue-se ainda mais uma disputa paralela sobre a mesma consequência — a morte dos filhos pequenos —, agora entre Rabi Meir e Rabi Yehuda, que dividem a causa entre a negligência da mezuzá e a negligência do tzitzit. A base para a posição da mezuzá é direta: o versículo que ordena escrever os mandamentos nas mezuzot é seguido, algumas linhas depois, pela promessa de que "se multipliquem vossos dias e os dias de vossos filhos", associando explicitamente o preceito à vida dos filhos. Para a posição do tzitzit, a Guemará busca uma base textual menos óbvia, citando Rav Kahana (ou, segundo outra tradição, Sheila Mari): um versículo de Jeremias que fala de "sangue de almas de pobres inocentes" encontrado "em tuas franjas" (kenafayich) — lido como referência às franjas do tzitzit, e interpretado como significando que a negligência desse preceito acarreta a perda de "almas inocentes", isto é, de filhos pequenos e sem pecado. Rav Nachman bar Yitzchak acrescenta que a posição da mezuzá também pode se apoiar no mesmo contexto de Jeremias: o versículo seguinte declara "não os achei arrombando" (isto é, D-us não os encontrou culpados de arrombamento), interpretado por analogia inversa como indicando que, ao invés de proteger suas entradas com a mezuzá devida, essas pessoas deixaram suas portas "expostas como um arrombamento" — sem a proteção espiritual da mezuzá.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "em tuas franjas" e "não os achei arrombando"
גם בכנפיך - בשביל כנפיך שבטלת מצותם נמצאו עליך חובת דם נפשות אביונים נקיים בנים קטנים שלא חטאו:

"Também em tuas franjas" — por causa de tuas franjas, cujo preceito negligenciaste, foi encontrada sobre ti a culpa do sangue de almas de pobres inocentes — filhos pequenos que não pecaram.

כמחתרת - שאין לה פצימין הכי אמר קרא לא במחתרת פתחיהן מצאתים שלמים במצותי כי על כל אלה הכיתי דהאי קרא בתר לשוא הכיתי את בניכם כתיב:

"Como um arrombamento" — que (a entrada arrombada) não tem umbrais (fixos e protegidos). Assim diz o versículo: "não os achei arrombando", (isto é,) completos em meus mandamentos (não os encontrei), "pois por todas essas coisas os feri" — pois este versículo está escrito depois de "em vão feri vossos filhos".

06Reish Lakish: todo aquele que é cuidadoso com o tzitzit merece ser servido por dois mil e oitocentos servos, segundo a profecia de Zacarias
Reish Lakish
אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: כׇּל הַזָּהִיר בְּצִיצִית זוֹכֶה וּמְשַׁמְּשִׁין לוֹ שְׁנֵי אֲלָפִים וּשְׁמוֹנֶה מֵאוֹת עֲבָדִים. שֶׁנֶּאֱמַר: ״כֹּה אָמַר ה׳ [צְבָאוֹת] בַּיָּמִים הָהֵמָּה אֲשֶׁר יַחֲזִיקוּ עֲשָׂרָה אֲנָשִׁים מִכֹּל לְשׁוֹנוֹת הַגּוֹיִם [וְהֶחֱזִיקוּ] בִּכְנַף אִישׁ יְהוּדִי לֵאמֹר נֵלְכָה עִמָּכֶם וְגוֹ׳״.

Disse Reish Lakish: todo aquele que é cuidadoso com o preceito do tzitzit merece, e o servirão dois mil e oitocentos servos, como está dito: "assim diz o Eterno (dos exércitos): naqueles dias, em que se agarrarão dez homens de todas as línguas das nações, e se agarrarão à franja de um homem judeu, dizendo: iremos convosco (etc.)" (Zacarias 8:23).

Nota

Depois de estabelecer, na seção anterior, que a negligência do tzitzit pode acarretar a morte dos filhos, a Guemará equilibra o quadro com um ensinamento sobre a recompensa reservada a quem observa esse preceito com cuidado. Reish Lakish ensina que todo aquele que é meticuloso com o tzitzit merecerá, no futuro, ser servido por nada menos que dois mil e oitocentos servos — um número aparentemente arbitrário, mas que Rashi deriva com precisão do versículo citado: a profecia de Zacarias descreve uma era futura em que dez homens de "todas as línguas das nações" se agarrarão à franja de um único judeu, implorando para segui-lo. Como, segundo a tradição, existem setenta línguas ou nações no mundo, e cada uma delas contribuirá com dez homens, isso resulta em setecentos homens (dez multiplicado por setenta) por cada uma das quatro pontas do tzitzit que o judeu usa — e, como há quatro cantos na peça de vestuário, o total chega a dois mil e oitocentos (setecentos multiplicado por quatro).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre o cálculo dos dois mil e oitocentos servos
בכנף איש יהודי - בשכר הכנף יחזיקו בכנף עשרה אנשים מכל לשון הרי שבע מאות לשבעים לשון וארבע כנפות יש לו הרי אלפים ושמנה מאות:

"À franja de um homem judeu" — em mérito da franja se agarrarão à franja dez homens de cada língua; eis (que resultam) setecentos, para as setenta línguas; e quatro franjas (cantos) ele tem (na peça de vestuário) — eis dois mil e oitocentos.

Ódio gratuito, halá, terumot e maasrot: as consequências coletivas · בַּעֲוֹן שִׂנְאַת חִנָּם

07O mnemônico da baraita; Rabi Nechemia: o ódio gratuito causa discórdia, aborto e morte dos filhos pequenos; Rabi Elazar bar Rabi Yehuda: a negligência da halá retira a bênção e traz maldição, mas seu cumprimento traz bênção
Baraita; Rabi Nechemia; Rabi Elazar bar Rabi Yehuda
סִימָן: שְׂנֹא חַלָּה תְּרוּמָה נִגְזֶלֶת דִּינָא שְׁבוּעָה שִׁיפּוּכְתָּא גִּילּוּיָא וְנִבְלוּתָא. תַּנְיָא, רַבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר: בַּעֲוֹן שִׂנְאַת חִנָּם מְרִיבָה רָבָה בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ שֶׁל אָדָם, וְאִשְׁתּוֹ מַפֶּלֶת נְפָלִים, וּבָנָיו וּבְנוֹתָיו שֶׁל אָדָם מֵתִים כְּשֶׁהֵן קְטַנִּים. רַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בַּעֲוֹן חַלָּה אֵין בְּרָכָה בַּמְכוּנָּס, וּמְאֵרָה מִשְׁתַּלַּחַת בַּשְּׁעָרִים, וְזוֹרְעִין זְרָעִים וַאֲחֵרִים אוֹכְלִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַף אֲנִי אֶעֱשֶׂה זֹּאת לָכֶם וְהִפְקַדְתִּי עֲלֵיכֶם בֶּהָלָה אֶת הַשַּׁחֶפֶת וְאֶת הַקַּדַּחַת מְכַלּוֹת עֵינַיִם וּמְדִיבוֹת נָפֶשׁ וּזְרַעְתֶּם לָרִיק זַרְעֲכֶם וַאֲכָלֻהוּ אוֹיְבֵיכֶם״. אַל תִּקְרֵי ״בֶּהָלָה״ אֶלָּא ״בַּחַלָּה״. וְאִם נוֹתְנִין — מִתְבָּרְכִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״[וְ]רֵאשִׁית עֲרִיסוֹתֵיכֶם תִּתְּנוּ לַכֹּהֵן לְהָנִיחַ בְּרָכָה אֶל בֵּיתֶךָ״.

(Mnemônico: ódio, halá, terumá roubada, julgamento, juramento, derramamento, revelação e obscenidade.) Foi ensinado: Rabi Nechemia diz: pelo pecado do ódio gratuito, há grande discórdia dentro da casa do homem, e sua esposa aborta, e os filhos e filhas do homem morrem quando ainda são pequenos. Rabi Elazar, filho de Rabi Yehuda, diz: pelo pecado (de negligenciar) a halá, não há bênção no (produto) reunido, e maldição é enviada aos mercados, e semeiam-se sementes e outros (as) comem, como está dito: "também Eu farei isto a vós, e cominarei sobre vós terror (behalá), a tuberculose e a febre, que consomem os olhos e definham a alma; e semeareis em vão vossa semente, e vossos inimigos a comerão" (Levítico 26:16). Não leias "behalá" (terror), mas sim "bachalá" (por causa da halá). E se (a) dão (cumprindo o preceito), são abençoados, como está dito: "a primícia de vossas massas dareis ao sacerdote, para fazer repousar bênção sobre tua casa" (Ezequiel 44:30).

Nota

A Guemará introduz um mnemônico que organiza uma série de ensinamentos sobre pecados coletivos e suas consequências — ódio, halá, terumá roubada, julgamento, juramento, derramamento de sangue, revelação de nudez e obscenidade —, dos quais este daf trata apenas dos primeiros itens, com a continuação reservada para o próximo daf. Rabi Nechemia inicia com o ódio gratuito (sinat chinam), ensinando que esse pecado — o ódio sem causa legítima, sem que a pessoa odiada tenha cometido algo que justifique tal sentimento — provoca três consequências crescentes em gravidade: grande discórdia dentro da própria casa do homem que odeia (medida por medida, pois seu ódio gera discórdia doméstica), abortos espontâneos em sua esposa, e a morte de seus filhos e filhas ainda pequenos. Rabi Elazar, filho de Rabi Yehuda, volta então ao tema da halá (já mencionado anteriormente na baraita de Rabi Acha, em 32a), detalhando suas consequências econômicas: a negligência desse preceito impede que haja bênção nos produtos já armazenados, traz maldição aos mercados (fazendo os preços subirem), e leva à situação irônica de que as pessoas semeiam suas sementes, mas são outros que acabam por comer a colheita. A base bíblica vem de um versículo de Levítico que originalmente fala de "behalá" (terror, pavor súbito) como uma das maldições da Tochechá; através de um jogo de palavras homofônico, a Guemará relê "behalá" como "bachalá" ("por causa da halá"), ligando a maldição bíblica original à negligência específica desse preceito. Em contrapartida, o cumprimento do preceito da halá traz bênção, conforme prometido em Ezequiel: dar a primícia da massa ao sacerdote faz "repousar bênção" sobre a casa do doador.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre o ódio gratuito e a maldição da halá
שנאת חנם - שלא ראה בו דבר עבירה שיהא מותר לשנאותו ושונאו:

"Ódio gratuito" — que não viu nele (no odiado) nenhuma transgressão que tornasse permitido odiá-lo, e (mesmo assim) o odeia.

מריבה רבה - מדה כנגד מדה:

"Grande discórdia" — medida por medida.

ובניו קטנים מתים - אהבתו ניטלת ממנו היינו נמי במדה:

"E seus filhos pequenos morrem" — seu amor (por eles) lhe é retirado; isso também é medida por medida.

במכונס - באוצרות יין ושמן ומתוך כך באה מארה בשערים שמוכרים ביוקר:

"No (produto) reunido" — nos armazéns de vinho e azeite; e por causa disso vem maldição aos mercados, que vendem (seus produtos) a preço elevado.

והפקדתי - כמו לא נפקד ממנו איש (במדבר ל״א:מ״ט-נ׳) אמעט את מה שעליכם שכנסתם כבר:

"E cominarei" — como (no versículo) "não faltou de nós ninguém" (Números 31:49); (isto é,) diminuirei o que já reunistes.

בחלה - בעון חלה:

"Bachalá" — pelo pecado (de negligenciar) a halá.

08A negligência de terumot e maasrot retém o orvalho e a chuva, causa carestia e frustra o sustento; seu cumprimento traz bênção sem limites, segundo Malaquias e o ensinamento de Rami bar Chama em nome de Rav
Guemará; Rami bar Chama (em nome de Rav)
בַּעֲוֹן בִּיטּוּל תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת שָׁמַיִם נֶעֱצָרִין מִלְּהוֹרִיד טַל וּמָטָר, וְהַיּוֹקֶר הֹוֶה, וְהַשָּׂכָר אָבֵד, וּבְנֵי אָדָם רָצִין אַחַר פַּרְנָסָתָן וְאֵין מַגִּיעִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צִיָּה גַם חוֹם יִגְזְלוּ מֵימֵי שֶׁלֶג שְׁאוֹל חָטָאוּ״. מַאי מַשְׁמַע? תָּנָא דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: בִּשְׁבִיל דְּבָרִים שֶׁצִּוִּיתִי אֶתְכֶם בִּימוֹת הַחַמָּה וְלֹא עֲשִׂיתֶם, יִגָּזְלוּ מִכֶּם מֵימֵי שֶׁלֶג בִּימוֹת הַגְּשָׁמִים. וְאִם נוֹתְנִין — מִתְבָּרְכִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הָבִיאוּ אֶת כׇּל הַמַּעֲשֵׂר אֶל בֵּית הָאוֹצָר וִיהִי טֶרֶף בְּבֵיתִי וּבְחָנוּנִי נָא בָּזֹאת אָמַר ה׳ צְבָאוֹת אִם לֹא אֶפְתַּח לָכֶם אֵת אֲרוּבּוֹת הַשָּׁמַיִם וַהֲרִיקוֹתִי לָכֶם בְּרָכָה עַד בְּלִי דָי״. מַאי ״עַד בְּלִי דָי״? אָמַר רָמֵי בַּר (רַב) [חָמָא] אָמַר רַב: עַד שֶׁיִּבְלוּ שִׂפְתוֹתֵיכֶם מִלּוֹמַר ״דָּי״.

Pelo pecado da negligência das terumot e maasrot, os céus são retidos de fazer descer orvalho e chuva, e a carestia ocorre, e o lucro se perde, e os filhos do homem correm atrás de seu sustento e não o alcançam, como está dito: "a seca e também o calor roubam as águas da neve; a cova pecou" (Jó 24:19). Que indicação há disso? Ensinou a escola de Rabi Yishmael: por causa das coisas que vos ordenei nos dias do calor (do verão, referindo-se aos dízimos da colheita) e não fizestes, ser-vos-ão roubadas as águas de neve nos dias das chuvas. E se (os) dão, são abençoados, como está dito: "trazei todo o dízimo à casa do tesouro, e haja alimento em minha casa, e provai-me nisto agora, disse o Eterno dos exércitos, se não vos abrirei as janelas dos céus, e derramarei sobre vós bênção até que não haja suficiência (bli dai)" (Malaquias 3:10). O que significa "até que não haja suficiência"? Disse Rami bar Chama, em nome de Rav: até que se consumam vossos lábios de dizer "basta" (dai).

Nota

A Guemará avança no mnemônico para o item da terumá — mais especificamente, para a negligência conjunta de terumot e maasrot, as porções sacerdotais e os dízimos agrícolas. Sua consequência é descrita numa escala crescente de calamidade agrícola e econômica: os céus retêm tanto o orvalho quanto a chuva, o que provoca carestia generalizada, faz o lucro comercial desaparecer, e leva as pessoas a correrem atrás de seu sustento sem jamais alcançá-lo — um ciclo de trabalho árduo e frustração. A base bíblica vem de um versículo de Jó que fala de secas e calor "roubando as águas da neve", interpretado pela escola de Rabi Yishmael através de uma leitura sazonal: as "coisas ordenadas nos dias do calor" referem-se aos dízimos que deveriam ser separados da colheita do verão; sua negligência resulta na retenção das "águas de neve" — a umidade e a chuva do inverno — como punição medida por medida. Em contrapartida, o cumprimento fiel desses preceitos traz uma bênção sem limites, prometida no célebre versículo de Malaquias que convida o povo a "testar" a D-us trazendo o dízimo completo: a promessa é que os céus se abrirão para derramar bênção "até que não haja suficiência" (ad beli dai). Rami bar Chama, em nome de Rav, interpreta essa expressão de forma vívida: a bênção será tão abundante que os próprios lábios das pessoas se desgastarão de tanto repetir "basta, chega" (dai), tentando fazer a bênção parar.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a retenção da chuva e "seca e calor"
השמים נעצרים - ומתוך שאין גשמים היוקר הוה:

"Os céus são retidos" — e, por não haver chuvas, a carestia ocorre.

ושכר אבד - שכר ריוח:

"E o lucro se perde" — (refere-se ao) lucro, ao ganho.

ציה גם חום - ציה כמו צווי דברים שצויתי אתכם בשעת החום היינו תרומות ומעשרות:

"Seca e também calor" — "tziá" é como "tzivui" (ordenança): as coisas que vos ordenei no tempo do calor — isto é, (a separação de) terumot e maasrot.

09O pecado do roubo faz crescer a praga do gafanhoto e traz fome, ao ponto de as pessoas comerem a carne de seus próprios filhos; Rava aplica isso às mulheres de Machoza
Guemará; Rava
בַּעֲוֹן גֵּזֶל הַגּוֹבַאי עוֹלֶה, וְהָרָעָב הוֹוֶה, וּבְנֵי אָדָם אוֹכְלִים בְּשַׂר בְּנֵיהֶן וּבְנוֹתֵיהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שִׁמְעוּ הַדָּבָר הַזֶּה פָּרוֹת הַבָּשָׁן אֲשֶׁר בְּהַר שׁוֹמְרוֹן הָעוֹשְׁקוֹת דַּלִּים הָרוֹצְצוֹת אֶבְיוֹנִים״. אָמַר רָבָא: כְּגוֹן הָנֵי נְשֵׁי דְמָחוֹזָא

Pelo pecado do roubo, a praga do govai (gafanhoto) aumenta, e a fome ocorre, e os filhos do homem (chegam a) comer a carne de seus filhos e filhas, como está dito: "ouvi esta palavra, vacas de Basã, que estais no monte de Samaria, que oprimis os pobres, que esmagais os necessitados" (Amós 4:1). Disse Rava: como, por exemplo, estas mulheres de Machoza (que oprimem os necessitados, exigindo luxo de seus maridos)...

Nota

O daf 32b se encerra com o penúltimo item explicado do mnemônico: o pecado do roubo (gezel). A Guemará ensina que esse pecado provoca o aumento da praga do "govai" — uma espécie de gafanhoto devastador, associada a fome e destruição agrícola — e leva a fome tão extrema que, em seu grau mais terrível, as pessoas chegam a comer a carne de seus próprios filhos e filhas, uma imagem retirada das maldições mais severas da Torá em tempos de cerco e desespero absoluto. A base bíblica vem do profeta Amós, que denuncia as "vacas de Basã" — uma figura de linguagem para mulheres ricas e indulgentes de Samaria, gordas e bem alimentadas como o gado da fértil região de Basã — que "oprimem os pobres" e "esmagam os necessitados", ligando o pecado do roubo (aqui entendido como opressão e exploração dos mais fracos) à extração de recursos que deveriam sustentar os necessitados. Rava aplica essa mesma crítica profética a um exemplo de sua própria época e lugar: as mulheres de Machoza, conhecidas por sua vida de conforto e pelas exigências excessivas de luxo que impunham a seus maridos — um paralelo contemporâneo às "vacas de Basã" de Amós. A frase de Rava é interrompida exatamente no limite do daf, com sua continuação — presumivelmente detalhando de que modo essas mulheres se assemelham à opressão denunciada pelo profeta — reservada para o início de 33a.