Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Guimel · Kirah
שְׁמַע מִינַּהּ

A prova de Mar filho de Ravina sobre o peixe salgado e a cavala, a objeção da vasilha na cova contra Rabi Yossei, a resolução de Rav Nachman e a distinção de Rabá e Rav Yossef entre sol e fogo, a baraita do telhado quente e a reconciliação do episódio de Tiberíades

Shabbat 39a — continuação da prova de Mar filho de Ravina interrompida no fim de 38b

O daf abre completando a prova de Mar, filho de Ravina, interrompida no limite de 38b: a Mishná sobre alimentos que já vieram em água quente antes do Shabat, que podem ser novamente demolhados em água quente no próprio Shabat — exceto o peixe salgado velho e a cavala do mar, cuja demolha é a conclusão final de seu preparo, o que prova que fazer rolar o ovo até cozinhar é considerado um verdadeiro ato de cozinhar, sujeito a sacrifício expiatório. A Guemará então retorna à Mishná sobre embrulhar o ovo em panos, e questiona-a a partir de outra Mishná que permite guardar um guisado num poço para preservá-lo, resfriar água boa colocando-a entre água ruim, e aquecer água fria ao sol — sugerindo que essa Mishná seguiria apenas Rabi Yossei, não os sábios. Rav Nachman resolve a aparente contradição distinguindo três categorias: aquecer diretamente ao sol é permitido por consenso; aquecer por derivados do fogo é proibido por consenso; a disputa entre os sábios e Rabi Yossei existe apenas quanto a derivados do próprio calor solar, como um pano que foi aquecido ao sol e depois usado para envolver o ovo. A Guemará então questiona por que Rabi Yossei não permite igualmente enterrar o ovo em areia quente, e traz duas explicações — de Rabá, por decreto contra esconder em brasas, e de Rav Yossef, porque a areia é removida de seu lugar — com a diferença prática entre elas surgindo no caso de terra solta. Uma baraita de Rabban Shimon ben Gamliel, permitindo fazer rolar o ovo sobre um telhado quente mas não sobre cal quente, é então usada para testar as duas explicações, seguida do episódio dos habitantes de Tiberíades, agora usado como prova adicional. A Guemará resolve a aparente contradição entre esse episódio e a explicação de Rav Yossef mostrando que o caso de Tiberíades se refere, na verdade, à primeira cláusula da Mishná (embrulhar em panos), e não à segunda (enterrar em areia) — e que ali se trata, segundo Rabi Yossei, de um derivado do fogo, pois as águas quentes de Tiberíades passam junto à entrada do Guehinom. O daf fecha com a abertura interrompida de um novo ensinamento de Rav Chisda, cuja continuação segue no início de 39b.

A conclusão da prova de Mar filho de Ravina: o peixe salgado e a cavala · חוּץ מִן הַמָּלִיחַ יָשָׁן

01A Mishná sobre a demolha em água quente, exceto o peixe salgado velho e a cavala do mar, cuja demolha é a conclusão de seu preparo
Mar, filho de Ravina (continuação)
כֹּל שֶׁבָּא בְּחַמִּין מִלִּפְנֵי הַשַּׁבָּת — שׁוֹרִין אוֹתוֹ בְּחַמִּין בְּשַׁבָּת, וְכֹל שֶׁלֹּא בָּא בְּחַמִּין מִלִּפְנֵי הַשַּׁבָּת — מְדִיחִין אוֹתוֹ בְּחַמִּין בַּשַּׁבָּת. חוּץ מִן הַמָּלִיחַ יָשָׁן וְקוֹלְיָיס הָאִיסְפָּנִין, שֶׁהַדָּחָתָן זוֹ הִיא גְּמַר מְלַאכְתָּן. שְׁמַע מִינַּהּ.

(Continuando a frase de Mar, filho de Ravina, interrompida no fim de 38b:) Tudo o que já veio (em contato) com água quente antes do Shabat — demolha-se novamente em água quente no Shabat; e tudo o que não veio (em contato) com água quente antes do Shabat — enxágua-se com água quente no Shabat. Exceto o peixe salgado velho e a cavala do mar, pois sua enxaguadela é a própria conclusão final de seu preparo. (Sendo essa enxaguadela, portanto, equiparada a um ato de cozinhar quando feita em Shabat.) Ouve-se disso (a prova buscada: que um ato aparentemente leve, quando é a etapa final e decisiva do preparo do alimento, equipara-se a cozinhar por completo — assim também fazer rolar o ovo até que ele cozinhe é considerado um verdadeiro ato de cozinhar, sujeito a sacrifício expiatório).

Nota

O daf abre completando a citação de Mar, filho de Ravina, cortada exatamente no limite físico do daf anterior: ele traz uma Mishná sobre alimentos secos ou salgados, distinguindo os que já haviam sido colocados em água quente antes do início do Shabat — que podem ser demolhados novamente em água quente durante o próprio Shabat, sem que isso conte como cozinhar, pois seu preparo já estava concluído — dos que nunca tocaram água quente, que só podem ser enxaguados (não demolhados) em Shabat. A exceção crucial é o peixe salgado velho e um tipo específico de cavala do mar (kolias haispanin), cuja simples enxaguadela em água quente é, na verdade, a etapa final e decisiva de seu preparo culinário — de modo que fazer isso em Shabat seria um verdadeiro ato de cozinhar, proibido e sujeito a sacrifício expiatório. Mar, filho de Ravina, conclui "ouve-se disso" (shema minah): essa Mishná prova que uma ação aparentemente simples, quando constitui a etapa final que torna o alimento pronto para consumo, equipara-se a cozinhar por completo — confirmando, por analogia, a posição de Rav Yossef de que fazer o ovo rolar ao lado do bule até que ele cozinha também é um ato de cozinhar pleno, sujeito a chatat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kol sheba bechamin", "medichin", "chutz middag maliach yashan" e "shehadachatan"
גמ' כל שבא בחמין - כל מלוח שבא בחמין מע"ש חוזרין ושורין אותו בחמין בשבת ואין בו משום תיקון שהרי נתקן כבר:

Guemará: "Tudo o que já veio em água quente" — todo (peixe) salgado que já veio em contato com água quente antes do Shabat, volta-se a demolhá-lo em água quente no Shabat, e não há nisso (a proibição de) aperfeiçoar, pois já foi aperfeiçoado antes.

מדיחין - שאין זה גמר מלאכתו אבל לא שורין:

"Enxágua-se" — (apenas enxaguar, e não demolhar), pois (a enxaguadela) não é a conclusão de seu preparo; mas não se demolha.

חוץ מדג מלוח ישן או קולייס האיספנין - דג שקורין טונינ"א (טוּנה):

"Exceto o peixe salgado velho ou a cavala do mar" — um peixe chamado tuninna (atum).

שהדחתו זהו גמר מלאכתו - מדקרי ליה גמר מלאכתו ש"מ זהו בישולו וחייב:

"Cuja enxaguadela é a conclusão de seu preparo" — de chamá-la (a Mishná) "conclusão de seu preparo", ouve-se disso que isso é (equiparado a) seu cozimento, e (quem o faz em Shabat) é responsável.

A objeção da vasilha na cova contra Rabi Yossei · וְהָא דִּתְנַן נוֹתְנִין תַּבְשִׁיל

02A objeção a partir da Mishná do guisado na cova, da água boa entre água ruim, e da água fria ao sol
Guemará (anônima)
וְלֹא יַפְקִיעֶנָּה בְּסוּדָרִין: וְהָא דִּתְנַן נוֹתְנִין תַּבְשִׁיל לְתוֹךְ הַבּוֹר בִּשְׁבִיל שֶׁיְּהֵא שָׁמוּר, וְאֶת הַמַּיִם הַיָּפִים בָּרָעִים בִּשְׁבִיל שֶׁיִּצָּנְנוּ, וְאֶת הַצּוֹנֵן בַּחַמָּה בִּשְׁבִיל שֶׁיֵּחַמּוּ — לֵימָא רַבִּי יוֹסֵי הִיא וְלָא רַבָּנַן?

(Voltando à Mishná anterior:) "E não deve embrulhá-lo em panos" — mas eis que se ensinou (numa outra Mishná): coloca-se um guisado dentro de uma cova (fria) para que fique preservado, e a água boa (fresca) entre águas ruins (mais frias) para que se resfrie, e a água fria ao sol para que se aqueça — diremos que (essa Mishná) é (apenas) segundo Rabi Yossei, e não segundo os sábios? (Pois ela permite aquecer água fria ao sol sem qualquer restrição, algo que pareceria contradizer a proibição da primeira Mishná contra embrulhar o ovo.)

Nota

Encerrada a prova de Mar, filho de Ravina, a Guemará retoma a primeira cláusula da Mishná do início do capítulo anterior: a proibição de embrulhar o ovo em panos quentes para que cozinhe. Contra essa proibição, a Guemará traz outra Mishná, aparentemente contraditória, que permite sem qualquer ressalva colocar um guisado dentro de uma cova fria para preservá-lo, colocar água fresca entre águas mais frias para resfriá-la, e colocar água fria ao sol para aquecê-la. Se essa última permissão — aquecer água fria ao sol — é irrestrita, a Guemará pergunta se essa Mishná representaria apenas a posição minoritária de Rabi Yossei (que permite embrulhar o ovo), e não a posição dos sábios (que proíbem), o que seria uma conclusão estranha, já que a Mishná citada não menciona nenhuma disputa.

03A resolução de Rav Nachman: sol é permitido por consenso, derivado do fogo é proibido por consenso, a disputa é apenas sobre derivado do sol
Rav Nachman
אָמַר רַב נַחְמָן: בְּחַמָּה — דְּכוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דִּשְׁרֵי. בְּתוֹלְדוֹת הָאוּר — כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דַּאֲסִיר. כִּי פְּלִיגִי בְּתוֹלְדוֹת הַחַמָּה: מָר סָבַר גָּזְרִינַן תּוֹלְדוֹת הַחַמָּה אַטּוּ תּוֹלְדוֹת הָאוּר, וּמָר סָבַר לָא גָּזְרִינַן.

Disse Rav Nachman: (aquecer) ao sol (diretamente) — todos concordam que é permitido. (Aquecer por) derivados do fogo — todos concordam que é proibido. Quando discordam é (apenas quanto a aquecer por) derivados do sol (como um pano previamente aquecido ao sol e depois usado para envolver o alimento): um mestre (os sábios) entende que decretamos (proibição sobre) derivados do sol por causa dos derivados do fogo (temendo que se confundam), e um mestre (Rabi Yossei) entende que não decretamos.

Nota

Rav Nachman resolve a aparente contradição distinguindo três categorias distintas de calor. Aquecer um alimento diretamente ao sol é permitido por consenso unânime — inclusive pelos sábios que proíbem embrulhar o ovo em panos —, pois não há nenhum risco de confusão com o fogo propriamente dito. Aquecer por um derivado direto do fogo (como um pano aquecido junto a uma chama) é proibido por consenso unânime — inclusive por Rabi Yossei, que permite embrulhar o ovo apenas quando o pano foi aquecido pelo sol. A disputa real entre os sábios e Rabi Yossei restringe-se, portanto, a um caso intermediário: um derivado do calor solar, como um pano que foi aquecido ao sol e depois utilizado para envolver o alimento — os sábios temem que essa prática seja confundida com o uso de derivados do fogo, e por isso a proíbem por decreto preventivo; Rabi Yossei não teme essa confusão, e por isso a permite.

A distinção entre sol e derivado do fogo na areia · וְלִיפְלוֹג נָמֵי רַבִּי יוֹסֵי בְּהָא

04Por que Rabi Yossei não discorda também quanto a enterrar na areia: as explicações de Rabá e Rav Yossef
Guemará (anônima); Rabá; Rav Yossef
וְלֹא יַטְמִינֶנָּה בְּחוֹל: וְלִיפְלוֹג נָמֵי רַבִּי יוֹסֵי בְּהָא! רַבָּה אָמַר: גְּזֵרָה שֶׁמָּא יַטְמִין בְּרֶמֶץ. רַב יוֹסֵף אָמַר: מִפְּנֵי שֶׁמֵּזִיז עָפָר מִמְּקוֹמוֹ. מַאי בֵּינַיְיהוּ? אִיכָּא בֵּינַיְיהוּ עָפָר תִּיחוּחַ.

"E não se deve enterrá-lo em areia" — (mas se a disputa de Rabi Yossei é apenas quanto a derivados do sol), que Rabi Yossei discorde também aqui (e permita enterrar em areia aquecida pelo sol, já que a areia também seria apenas um derivado do sol)! Disse Rabá: (a proibição, aceita mesmo por Rabi Yossei, deve-se a um) decreto, para que não venha a esconder (o ovo) em brasas (que são fogo direto, e as duas práticas se pareceriam). Disse Rav Yossef: (a razão é outra) — porque (ao enterrar o ovo) se remove a terra de seu lugar (o que se assemelha a cavar, ação proibida em si). Qual é a diferença prática entre eles (as duas explicações)? Há entre eles (uma diferença no caso de) terra solta (já removida previamente).

Nota

A Guemará levanta uma dificuldade contra a resolução de Rav Nachman: se a disputa entre os sábios e Rabi Yossei se restringe a derivados do calor solar, por que Rabi Yossei não permite igualmente enterrar o ovo em areia aquecida pelo sol — já que essa areia também seria apenas um derivado do sol, categoria em que ele é permissivo? Duas explicações são oferecidas, ambas concordando que mesmo Rabi Yossei proíbe enterrar na areia, mas por razões diferentes. Rabá explica que se trata de um decreto preventivo: teme-se que, ao se permitir enterrar o ovo na areia quente, a pessoa venha a confundir essa prática com esconder o alimento em brasas quentes — que são fogo direto, e cujo uso seria claramente proibido. Rav Yossef oferece uma razão totalmente distinta, independente da questão do calor: o próprio ato de enterrar o ovo na areia envolve remover terra de seu lugar original, uma ação que se assemelha a cavar, e que seria proibida por si mesma, independentemente da fonte de calor. A Guemará identifica a diferença prática entre essas duas explicações: no caso de terra já solta (não fixada no chão), a explicação de Rav Yossef não se aplicaria (pois não há problema em mover terra já solta), mas o decreto de Rabá permaneceria válido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shema yatmin beremetz", "shema yaziz afar" e "afar tichuach"
שמא יטמין ברמץ - דמאן דחזי סבר מכדי האי לבשולי והאי לבשולי ותרוייהו דרך הטמנה מה לי רמץ מה לי חול ומשום הכי מודה ר' יוסי:

"Para que não venha a esconder em brasas" — pois quem visse (a prática) pensaria: assim como este (enterrar em areia) é para cozinhar, e aquele (esconder em brasas) também é para cozinhar, e ambos são um modo de esconder — que diferença faz brasa, que diferença faz areia? E por isso Rabi Yossei concorda (nesta proibição).

שמא יזיז עפר - שמא לא יהא שם חול עקור לכל הצורך ואתי לאזוזי עפר הדבוק והוי חופר גומא:

"Para que não remova terra (de seu lugar)" — para que não aconteça de não haver ali areia solta o suficiente para a necessidade, e venha a remover terra (ainda) aderida (ao solo), o que seria (equiparado a) cavar uma cova.

עפר תיחוח - כלומר תיחוח בעומק דליכא למיחש למזיז:

"Terra solta" — isto é, solta em profundidade, de modo que não há de que se preocupar quanto a remover (terra aderida).

05A baraita de Rabban Shimon ben Gamliel sobre o telhado quente e a cal quente, testando as duas explicações
Rabban Shimon ben Gamliel (baraita)
מֵיתִיבִי, רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: מְגַלְגְּלִין בֵּיצָה עַל גַּבֵּי גַּג רוֹתֵחַ, וְאֵין מְגַלְגְּלִין בֵּיצָה עַל גַּבֵּי סִיד רוֹתֵחַ. בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר גְּזֵרָה שֶׁמָּא יַטְמִין בְּרֶמֶץ — לֵיכָּא לְמִיגְזַר. אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר מִפְּנֵי שֶׁמֵּזִיז עָפָר מִמְּקוֹמוֹ, לִיגְזַר? — סְתָם גַּג לֵית בֵּיהּ עָפָר.

Objetaram (a partir de uma baraita): Rabban Shimon ben Gamliel diz: faz-se rolar o ovo sobre um telhado quente (aquecido pelo sol), mas não se faz rolar o ovo sobre cal quente (aquecida pelo fogo). Está bem, segundo quem diz (que a razão é) o decreto para que não venha a esconder em brasas — não há motivo para decretar (contra o telhado, pois rolar sobre ele não se parece com esconder em brasas). Mas segundo quem diz (que a razão é) porque se remove terra de seu lugar, deveria decretar-se (também contra o telhado, já que ali também poderia haver terra)! (Resposta:) um telhado comum não tem terra (sobre ele, então a explicação de Rav Yossef não se aplica a esse caso, e a dificuldade se resolve).

Nota

A Guemará traz uma baraita de Rabban Shimon ben Gamliel para testar as duas explicações anteriores: ele permite fazer o ovo rolar sobre um telhado aquecido pelo sol, mas proíbe fazê-lo sobre cal quente (aquecida pelo fogo, um derivado direto do calor do fogo). Essa baraita se encaixa perfeitamente com a explicação de Rabá: como rolar o ovo sobre um telhado não envolve nenhuma semelhança com esconder em brasas, não há motivo para o decreto preventivo se aplicar, e a prática é permitida. Mas a baraita parece desafiar a explicação de Rav Yossef: se a proibição de enterrar na areia se deve a remover terra de seu lugar, por que não se decretaria da mesma forma contra rolar o ovo sobre o telhado, com receio de que ali também houvesse terra a ser movida? A Guemará responde que um telhado comum simplesmente não costuma ter terra sobre sua superfície, de modo que essa preocupação não se aplicaria a ele — resolvendo a dificuldade também para a posição de Rav Yossef.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "gag roteach", "ein megalgelin besid roteach" e "elá"
גג רותח - שרתחו חמה:

"Telhado quente" — que ficou quente pelo sol.

ואין מגלגלין בסיד רותח - דהוא תולדות האור:

"E não se faz rolar sobre cal quente" — pois é um derivado do fogo.

ליכא למיגזר - בגג רותח דהא לא מטמין ליה:

"Não há motivo para decretar" — sobre o telhado quente, pois (rolando o ovo sobre ele) não se está escondendo-o.

אלא - לשמא יזיז עפר ויכסנו בו ליגזר:

"Mas" — (deveria) decretar-se por temor de que venha a remover terra e cobri-lo com ela.

A reconciliação do episódio de Tiberíades · תָּא שְׁמַע: מַעֲשֶׂה שֶׁעָשׂוּ אַנְשֵׁי טְבֶרְיָא

06A objeção a partir do episódio de Tiberíades contra a explicação de Rav Yossef
Guemará (anônima)
תָּא שְׁמַע: מַעֲשֶׂה שֶׁעָשׂוּ אַנְשֵׁי טְבֶרְיָא וְהֵבִיאוּ סִילוֹן שֶׁל צוֹנֵן לְתוֹךְ אַמָּה שֶׁל חַמִּין וְכוּ׳. בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר גְּזֵרָה שֶׁמָּא יַטְמִין בְּרֶמֶץ — הַיְינוּ דְּדָמְיָא לְהַטְמָנָה. אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר מִפְּנֵי שֶׁמֵּזִיז עָפָר מִמְּקוֹמוֹ — מַאי אִיכָּא לְמֵימַר?

Venha e ouça: houve um caso em que os habitantes de Tiberíades fizeram e trouxeram um cano de água fria para dentro do canal de água quente, etc. (E os sábios proibiram essa água tanto para banho quanto para bebida, quando o aquecimento se deu em Shabat.) Está bem, segundo quem diz (que a razão da proibição de enterrar na areia é) o decreto para que não venha a esconder em brasas — isso é (compreensível, pois o caso de Tiberíades) assemelha-se a esconder (a água aquecendo-se continuamente, como algo escondido em calor). Mas segundo quem diz (que a razão é) porque se remove terra de seu lugar — o que há para dizer (nesse caso, em que não há terra alguma envolvida)?

Nota

A Guemará traz o episódio já conhecido dos habitantes de Tiberíades — que trouxeram água fria para dentro do canal de água quente das fontes termais, e cuja água resultante foi proibida pelos sábios quando o aquecimento ocorreu em Shabat — como uma nova objeção contra a explicação de Rav Yossef. Segundo a explicação de Rabá (decreto contra esconder em brasas), o caso de Tiberíades se encaixa perfeitamente: a água fria aquecendo-se continuamente dentro do canal assemelha-se ao ato de esconder algo em uma fonte de calor, e por isso os sábios proibiram. Mas segundo a explicação de Rav Yossef (remover terra de seu lugar), não há absolutamente nenhuma terra envolvida no episódio de Tiberíades — é apenas água fluindo por um cano dentro de um canal de água quente —, então essa explicação não parece dar conta de justificar por que a prática foi proibida.

07A resolução: o episódio de Tiberíades refere-se à primeira cláusula (panos), sendo um derivado do fogo por passar junto ao Guehinom
Guemará (anônima)
מִי סָבְרַתְּ מַעֲשֶׂה טְבֶרְיָא אַסֵּיפָא קָאֵי? אַרֵישָׁא קָאֵי: לֹא יַפְקִיעֶנָּה בְּסוּדָרִין וְרַבִּי יוֹסֵי מַתִּיר, וְהָכִי קָאָמְרִי לֵיהּ רַבָּנַן לְרַבִּי יוֹסֵי: הָא מַעֲשֶׂה דְּאַנְשֵׁי טְבֶרְיָא דְּתוֹלְדוֹת חַמָּה הוּא, וְאָסְרִי לְהוּ רַבָּנַן! אֲמַר לְהוּ: הַהוּא תּוֹלְדוֹת אוּר הוּא, דְּחָלְפִי אַפִּיתְחָא דְגֵיהִנָּם.

Acaso pensas que o episódio de Tiberíades refere-se à última cláusula (a proibição de enterrar na areia)? (Não!) Refere-se à primeira cláusula: "não deve embrulhá-lo em panos, e Rabi Yossei permite" — e assim disseram os sábios a Rabi Yossei: eis que o episódio dos habitantes de Tiberíades é (um caso de aquecimento por) derivado do sol, e os sábios (mesmo assim) proibiram-no (o que contradiz tua posição de que derivados do sol são sempre permitidos)! Disse-lhes (Rabi Yossei): aquilo (a água de Tiberíades) é (na verdade um) derivado do fogo, pois (as águas quentes de Tiberíades) passam junto à entrada do Guehinom (e por isso se aquecem por fogo, não pelo sol).

Nota

A Guemará resolve a dificuldade mostrando que a premissa da objeção estava equivocada: o episódio de Tiberíades não se refere à última cláusula da Mishná (enterrar o ovo em areia), mas sim à primeira cláusula, sobre embrulhar o ovo em panos quentes — onde Rabi Yossei é o único que permite, contra os sábios. A Guemará reconstrói o diálogo implícito: os sábios teriam apontado a Rabi Yossei que o episódio de Tiberíades, um caso de aquecimento aparentemente solar (a água aquecida pelas fontes termais naturais), foi proibido mesmo assim — o que pareceria contradizer a posição geral de Rabi Yossei, de que derivados do calor solar são permitidos. Rabi Yossei responde que o caso de Tiberíades não é, na verdade, um derivado do sol, mas um autêntico derivado do fogo: segundo a tradição, as águas termais de Tiberíades se aquecem porque fluem junto à entrada do Guehinom (o inferno, fonte de fogo), e não por ação solar — por isso ele próprio concorda em proibi-las, sem que isso contradiga sua posição geral sobre derivados do sol.

A abertura interrompida de Rav Chisda

08Um novo ensinamento de Rav Chisda, cortado no limite do daf
Rav Chisda
אָמַר רַב חִסְדָּא:

Disse Rav Chisda: (o texto é interrompido exatamente aqui, no limite físico do daf; a continuação do ensinamento segue no início de 39b).

Nota

O daf fecha exatamente como o anterior havia fechado: no meio de uma frase. Rav Chisda introduz um novo ensinamento, mas o texto é cortado no limite físico do daf antes que seu conteúdo seja revelado. A continuação integral segue no início de 39b, onde a Guemará também retoma o episódio dos habitantes de Tiberíades a partir de outro ângulo — a opinião de Ula de que a halachá segue os habitantes de Tiberíades, e a réplica de Rav Nachman de que eles próprios já haviam destruído seus canos.