O daf abre completando a Mishná que ficara cortada no fim de 42a: depois de proibir pôr temperos dentro do ilfás e da caçarola ainda fervendo, ela acrescenta que "mas pode-se pôr no prato ou na tigela" — pois esses são recipientes secundários, que já não cozem o que neles se coloca. Rabi Yehudá é mais generoso ainda: permite pôr tempero em tudo, exceto no que contém vinagre ou salmoura, que continuam a cozer mesmo em recipiente secundário. A Guemará então pergunta se Rabi Yehudá se refere à primeira cláusula da Mishná — sendo mais permissivo que o tana kama, ao ponto de permitir tempero mesmo dentro do próprio ilfás fervente — ou à última, sendo mais restritivo quanto ao prato e à tigela. Uma baraita resolve: Rabi Yehudá se refere à primeira cláusula, permitindo tempero em todo ilfás e toda caçarola fervente, com a única exceção do que contém vinagre ou salmoura. A partir daí, Rav Yosef considera se o sal se equipara a um tempero comum — que coze em recipiente primário mas não em secundário —, e Abaye o corrige com o ensino de Rabi Chiyya, de que o sal é mais persistente; a Guemará relata essa troca em duas versões diferentes, que resultam em conclusões opostas quanto ao recipiente primário. O daf então muda de assunto com uma nova Mishná: não se coloca um recipiente debaixo da lâmpada para recolher o óleo que goteja, pois esse recipiente se tornaria indevidamente designado para um fim proibido; mas, se colocado ainda de dia, é permitido deixá-lo ali, embora não se possa aproveitar do óleo recolhido, por não estar entre o que foi preparado de véspera. Rav Chisda estende o princípio a uma galinha: não se pode colocar um recipiente debaixo dela para recolher o ovo que venha a pôr, mas pode-se virar um recipiete sobre ela, para que o ovo não se quebra caso caia. Rabah explica a razão de Rav Chisda através da distinção entre um salvamento comum, que os sábios permitiram, e um salvamento incomum, que não permitiram — pois a galinha costuma pôr seu ovo no monturo, não em lugar inclinado onde haveria risco de quebrar. Abaye desafia essa distinção com a baraita do barril de tevel que se quebra no telhado, e depois com o caso do recipiente debaixo da lâmpada para recolher faíscas — ambos resolvidos mostrando que, nesses casos, o risco também é comum. O daf termina em texto fechado, com essa última resposta, e a mesma linha de objeções sobre "salvamento comum e incomum" prossegue em 43a.
(Continuação de 42a:) Mas pode-se pôr (o tempero) no prato ou na tigela. Rabi Yehudá diz: em tudo se pode pôr, exceto no que contém vinagre ou salmoura.
O daf abre completando a Mishná interrompida no limite físico de 42a. O tana kama havia proibido pôr temperos dentro do ilfás ou da caçarola ainda fervendo — recipientes primários, que continuam cozendo o que neles se coloca. Agora ele esclarece a outra metade da regra: pode-se pôr tempero no prato (ke'ará), de onde se come, ou na tigela grande de servir (tamchui) — segundo Rashi, uma espécie de vasilha grande, para onde se despeja todo o conteúdo do ilfás, e de onde depois se distribui para os pratos individuais —, pois esses são recipientes secundários (kli sheni), que já não têm o poder de cozer. Rabi Yehudá amplia ainda mais a permissão: pode-se pôr tempero em qualquer coisa, mesmo dentro de um recipiente primário, com a única exceção do que contém vinagre ou salmoura — líquidos que, por sua acidez ou concentração, continuam a "cozer" o tempero mesmo em recipiente secundário.
"Mas pode-se pôr no prato" — pois um recipiente secundário não coze.
"Tigela (tamchui)" — uma espécie de vasilha grande, para onde se despeja todo o ilfás, e de lá se distribui para os pratos (individuais).
"Rabi Yehudá diz: em tudo etc." — a Guemará explica a que ele se refere: ao recipiente primário ou ao recipiente secundário.
"Exceto no que contém vinagre ou salmoura" — pois estes cozem o tempero quando estão quentes.
"Salmoura (tzir)" — o líquido que goteja dos peixes quando são prensados.
Perguntaram: Rabi Yehudá se refere à primeira cláusula — e para ser mais permissivo — ou talvez se refere à última cláusula — e para ser mais restritivo?
A Guemará abre com uma dúvida sobre o alcance exato da opinião de Rabi Yehudá. Se ele se refere à primeira cláusula da Mishná — a que proíbe pôr temperos dentro do próprio ilfás ou caçarola fervente —, então sua posição é mais permissiva que a do tana kama: ele discorda e permite pôr tempero mesmo ali, com a única exceção do vinagre e da salmoura. Mas, se ele se refere à última cláusula — a que já permite pôr tempero no prato e na tigela —, então sua posição é mais restritiva: ele viria apenas para excetuar o vinagre e a salmoura mesmo nesses recipientes secundários, que o tana kama teria permitido sem exceção.
Venha e ouça, pois foi ensinado: Rabi Yehudá diz: em todo ilfás se pode pôr, em toda caçarola fervente se pode pôr, exceto no que contém vinagre e salmoura.
A baraita resolve a dúvida de forma explícita: ela reformula a opinião de Rabi Yehudá mencionando diretamente "todo ilfás" e "toda caçarola fervente" — os próprios recipientes primários da primeira cláusula da Mishná. Isso confirma que Rabi Yehudá se refere à primeira cláusula, e que sua posição é a mais permissiva: ele discorda do tana kama e permite pôr tempero mesmo dentro do recipiente ainda fervente, desde que não contenha vinagre ou salmoura.
Pensou Rav Yosef em dizer: o sal é como um tempero (comum) — pois em recipiente primário coze, e em recipiente secundário não coze. Disse-lhe Abaye: ensinou Rabi Chiyya: o sal não é como um tempero, pois também em recipiente secundário coze! E isso discorda de Rav Nachman, que disse: o sal precisa de cozimento como a carne de boi (isto é, demora muito para cozer).
Rav Yosef propõe que o sal se comporte como um tempero comum: coze quando colocado em recipiente primário, ainda fervente, mas não em recipiente secundário. Abaye o corrige com o ensino de Rabi Chiyya, segundo o qual o sal é diferente — mais persistente que um tempero comum, a ponto de continuar cozendo mesmo num recipiente secundário. A Guemará observa que esse ensino de Rabi Chiyya contradiz uma afirmação de Rav Nachman, para quem o sal precisa de um cozimento demorado, comparável ao da carne de boi — o que sugeriria exatamente o oposto, que o sal é mais lento para cozer, não mais rápido.
E há os que dizem (a mesma troca de outro modo): pensou Rav Yosef em dizer: o sal é como um tempero (comum) — pois em recipiente primário coze, e em recipiente secundário não coze. Disse-lhe Abaye: ensinou Rabi Chiyya: o sal não é como um tempero, pois nem mesmo em recipiente primário coze — e é isso que disse Rav Nachman: o sal precisa de cozimento como a carne de boi.
Nesta versão alternativa, transmitida por outros, a premissa de Rav Yosef é a mesma, mas a correção de Abaye vai na direção oposta: o sal, longe de ser mais rápido para cozer que um tempero comum, é ainda mais lento — não coze nem mesmo em recipiente primário. Nesta versão, o ensino de Rabi Chiyya se harmoniza perfeitamente com a afirmação de Rav Nachman de que o sal precisa de um cozimento demorado como o da carne de boi, sem a contradição que a primeira versão apresentava.
Não se coloca um recipiente debaixo da lâmpada para recolher nele o óleo (que goteja). E se o colocaram ainda de dia, é permitido (deixá-lo ali); mas não se aproveita dele (do óleo recolhido), pois não está entre o que foi preparado (de véspera para tal fim).
A Guemará muda de assunto com uma nova Mishná, voltando ao tema de mover e designar recipientes em Shabat. Colocar um recipiente vazio debaixo de uma lâmpada acesa, para recolher o óleo que goteja dela, é proibido, porque o óleo que ainda vai pingar é muktzeh — algo que, no início de Shabat, não estava destinado a nenhum uso permitido — e um recipiente só pode ser deslocado para receber algo que já é em si permitido de mover; além disso, segundo Rashi, há aqui o problema de "anular um recipiente de seu lugar" (mevatel kli me-heichano): uma vez que o óleo caia nele, o recipiente ficaria preso naquele lugar, como se estivesse fixado, o que se assemelha a uma melachá. Mas, se o recipiente já havia sido colocado ali ainda de dia — antes de Shabat começar —, é permitido deixá-lo, pois o ato de colocá-lo não ocorreu em Shabat; ainda assim, não se pode usar o óleo recolhido, pois ele não foi preparado de véspera para esse fim.
Mishná: "não se coloca" — em Shabat.
"Um recipiente debaixo da lâmpada" — para recolher nele o óleo que goteja, pois o óleo é muktzeh, e entende-se que um recipiente só pode ser deslocado em Shabat por causa de algo que pode ser deslocado; ou, ainda, entende-se que é proibido anular um recipiente de seu lugar, colocando-o num lugar de onde não poderá mais ser removido, pois isso equivale a fixar-lhe um lugar, como se o colasse com barro, o que se assemelha a uma melachá; e, uma vez que o óleo muktzeh caia neste recipiente, será proibido movê-lo.
"É permitido" — deixá-lo ali.
"Mas não se aproveita" — não se desfruta (do óleo recolhido).
Disse Rav Chisda: ainda que tenham dito que não se coloca um recipiente debaixo da galinha para recolher seu ovo, pode-se, porém, virar sobre ela um recipiente, para que (o ovo) não se quebre. Disse Rabah: qual é a razão de Rav Chisda? Ele entende que a galinha costuma pôr seu ovo no monturo, mas não costuma pôr seu ovo em lugar inclinado. E um salvamento comum permitiram, mas um salvamento incomum não permitiram.
Rav Chisda distingue dois atos aparentemente semelhantes: colocar um recipiente debaixo da galinha para recolher o ovo é proibido — pelo mesmo raciocínio da Mishná sobre o óleo, pois o ovo ainda não posto é muktzeh, e o recipiente ficaria fixado em seu lugar assim que o recebesse. Mas virar um recipiente por cima da galinha, cobrindo-a, para que, se o ovo cair, não se quebre no chão, é permitido, pois esse recipiente não recebe o ovo diretamente nem fica preso a ele. Rabah explica a razão mais profunda: os sábios permitiram apenas medidas para um salvamento comum — e a galinha costuma pôr seu ovo no monturo, um lugar plano e seguro, não num lugar inclinado onde o ovo rolaria e se quebraria; logo, o risco de quebra que a cobertura protege é, segundo essa lógica, incomum, e mesmo assim foi permitido cobri-la, precisamente porque cobrir não implica a mesma fixação do recipiente que recebê-lo diretamente implicaria.
Objetou-lhe Abaye: "um salvamento incomum não permitiram"?! Mas não se ensinou: se lhe quebrou um barril de tevel (produto ainda não dizimado) no topo do telhado, traz-se um recipiente e o coloca debaixo dele? (Resposta:) trata-se de jarros novos, que costumam romper-se.
Abaye desafia a distinção de Rabah com um caso conhecido de uma baraita: um barril de tevel que se rompe no telhado — permitindo-se colocar um recipiente debaixo dele para recolher o líquido que vaza, ainda que tevel seja muktzeh, pois não pode ser consumido sem antes ser dizimado. Se essa permissão vale mesmo sendo um caso de "salvamento incomum" (barris não costumam se romper), isso contradiria a regra de que apenas salvamentos comuns foram permitidos. A resposta limita o caso: trata-se especificamente de jarros novos, que, sendo ainda frágeis e mal cozidos, costumam de fato romper-se — tornando esse salvamento, afinal, comum, e preservando a distinção de Rabah.
Objetou-lhe: coloca-se um recipiente debaixo da lâmpada para recolher faíscas? (Resposta:) faíscas também são comuns.
Uma segunda objeção traz outro caso já conhecido, no qual se permite colocar um recipiente debaixo de uma lâmpada para recolher as faíscas que dela saltam — segundo Rashi, para evitar que incendeiem o que estiver embaixo. Também aqui, à primeira vista, seria um "salvamento incomum", pois faíscas não saltam de toda lâmpada constantemente. A resposta, na mesma linha da anterior, esclarece que as faíscas, de fato, são um risco comum o bastante para justificar a medida preventiva — preservando, mais uma vez, o princípio de Rabah de que apenas salvamentos comuns foram permitidos. O daf termina aqui em texto fechado; a mesma sequência de objeções sobre casos de "salvamento comum e incomum" continua em 43a, com novos exemplos (a tigela virada sobre a lâmpada para não incendiar a trave, a trave quebrada apoiada num banco, e o recipiente debaixo de goteira).
"Ainda que tenham dito que não se coloca um recipiente debaixo da galinha para recolher seu ovo" — quando ela o põe em lugar inclinado, onde poderia rolar e quebrar; e da precisão da Mishná deduzimos isso, por se assemelhar a colocar um recipiente debaixo da lâmpada para recolher o óleo.
"Um salvamento comum permitiram" — mover um recipiente para esse fim, ainda que o ovo seja algo que não pode ser deslocado em Shabat.
"Jarros (gulfei)" — barris.
"Faíscas" — a chama que salta da lâmpada, para que não incendeie o que está debaixo dela, ainda que as faíscas em si não possam ser deslocadas e não sejam comuns.