Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Guimel · Kirah
מְחִיצָה

A conclusão da colmeia, resolvida por Rav Ashi com os meses de transição; a mensagem de Rav Sheshet — Rav Huna já explicara: faz-se uma partição para o morto por causa do vivo; e a disputa sobre mover o morto exposto ao sol, de leito em leito ou com um pão por cima

Shabbat 43b — continua, sem Mishná própria, a Guemará aberta em 43a sobre a colmeia de abelhas; termina em texto interrompido, continuado em 44a

O daf abre retomando, no meio da frase, a pergunta de Rav Ukva de Meishan a Rav Ashi com que terminara 43a: a permissão de cobrir a colmeia com uma esteira se ajusta bem aos dias de verão, quando há mel — mas, na época das chuvas, quando não há mel, o que se pode dizer? A Guemará responde que a permissão, mesmo então, se refere apenas aos dois favos que se deixam de propósito para que as abelhas se alimentem deles durante o inverno; e, como esses favos foram destinados desde a véspera para consumo, não são muktzeh. Uma nova dificuldade surge da cláusula "contanto que não pretenda capturá-las", que pareceria supérflua se a permissão já dependesse de destinação — resolvida ao entender que ela ensina algo além: mesmo quando o mel foi destinado, a permissão de cobrir a colmeia exige que não se pretenda, com isso, prender as próprias abelhas, tratando-as como uma armadilha, e não apenas protegendo o mel da chuva ou do sol. Rav Ashi propõe, por fim, uma solução mais simples: a baraita nunca falou em "dias de verão" e "dias de chuva" tomados em sua plenitude, mas em proteção "no sol, por causa do sol, e na chuva, por causa da chuva" — uma referência aos meses de transição de Nissan e de Tishrei, quando há tanto sol quanto frio, tanto chuva quanto mel, dissolvendo por completo a dificuldade original. A Guemará muda então de assunto: Rav Sheshet manda transmitir a Rabi Yitzchak — cujo princípio, ensinado no fim de 43a, restringia ainda mais o movimento de recipientes por causa de itens muktzeh — que Rav Huna já havia explicado, na Babilônia, um ensinamento correspondente: faz-se uma partição para proteger um morto exposto ao sol, mas essa partição se justifica por causa do vivo que a constrói para se abrigar, e não por causa do morto em si. Uma baraita de Rav Shmuel bar Yehudá, também ensinada por Sheila Mari, descreve como essa partição surge quase sem querer: duas pessoas se sentam ao lado do morto; sentindo calor do chão, trazem camas para se sentar; sentindo calor do sol, estendem sobre si uma esteira; e, quando se retiram, levantando cada qual sua cama, a partição já erguida entre o morto e o sol permanece de pé por si mesma. O daf então retorna à pergunta de como, de fato, mover o próprio morto exposto ao sol para a sombra: Rav Yehudá, em nome de Shmuel, ensina que se vira o morto de leito em leito; Rav Chanina bar Shelemia, em nome de Rav, ensina que se coloca sobre ele um pão ou uma criança e se move o leito com ele. Onde há um pão ou uma criança disponível, todos concordam que é permitido — a divergência real está em quando não há: um Sábio entende que mover algo indiretamente, apoiado sobre outra coisa, ainda se considera "mover"; o outro entende que não. A Guemará tenta identificar essa disputa com uma controvérsia de tanaítas sobre salvar um morto de um incêndio — um ensina que não se salva, Rabi Yehudá ben Lakish ensina que se salva — mas rejeita a identificação: para todos, mover indiretamente conta como mover; a permissão de Rabi Yehudá ben Lakish tem outra razão, ligada à aflição de quem teme por seu morto. O daf termina em texto interrompido, no meio dessa razão, continuada em 44a.

A conclusão da colmeia: por que a permissão vale mesmo na época das chuvas · בִּימוֹת הַגְּשָׁמִים דְּלֵיכָּא דְּבַשׁ

01Retomando 43a: "há mel" — mas, na época das chuvas, quando não há mel, o que se pode dizer? Resolvido pelos dois favos deixados para as abelhas
Guemará
דְּאִיכָּא דְּבַשׁ. בִּימוֹת הַגְּשָׁמִים דְּלֵיכָּא דְּבַשׁ, מַאי אִיכָּא לְמֵימַר? לֹא נִצְרְכָא אֶלָּא לְאוֹתָן שְׁתֵּי חַלּוֹת. וְהָא מוּקְצוֹת נִינְהוּ! — דְּחַשֵּׁיב עֲלַיְיהוּ. הָא לָא חַשֵּׁיב עֲלַיְיהוּ מַאי — אָסוּר?

…pois há mel. Na época das chuvas, quando não há mel, o que se pode dizer? Não se precisou dela senão por causa daqueles dois favos. Mas não são eles muktzeh? Porque ele os destinou (desde a véspera, para consumo). Mas, se não os destinou, o que há — é proibido?

Nota

O daf abre exatamente onde 43a foi interrompido: Rav Ukva de Meishan observara que a resposta anterior — "trata-se de um caso em que já há mel" — se ajusta bem aos dias de verão, mas questiona o que dizer da época das chuvas, quando normalmente não há mel na colmeia. A Guemará responde que, mesmo no inverno, sempre restam na colmeia dois favos, que os apicultores deixam de propósito para que as abelhas se alimentem deles durante todo o período de chuvas — como se aprende alhures sobre a venda de uma colmeia. Como esses favos foram destinados desde a véspera de Shabat para consumo humano, deixam de ser muktzeh, e a permissão de cobrir a colmeia se sustenta também no inverno. Uma nova pergunta fica em aberto: e se ninguém os destinou?

02Por que a baraita precisou dizer "contanto que não pretenda capturá-las", se a permissão já dependia da destinação?
Guemará
אִי הָכִי, הָא דְתָנֵי: ״וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִתְכַּוֵּין לָצוּד״ — לִפְלוֹג וְלִתְנֵי בְּדִידַהּ: בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים — כְּשֶׁחִישֵּׁב עֲלֵיהֶן, אֲבָל לֹא חִישֵּׁב עֲלֵיהֶן — אָסוּר! הָא קָמַשְׁמַע לַן: אַף עַל פִּי שֶׁחִישֵּׁב עֲלֵיהֶן, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִתְכַּוֵּין לָצוּד.

Se assim é, quanto ao que se ensinou: "contanto que não pretenda capturá-las" — que se fizesse a distinção e se ensinasse nisso mesmo: em que caso se disse isso? Quando as destinou; mas, se não as destinou, é proibido! (Resposta:) isto vem nos ensinar: mesmo quando as destinou, (a permissão vale) contanto que não pretenda capturá-las.

Nota

Se a permissão de cobrir a colmeia dependesse apenas de haver mel destinado, a cláusula final da baraita — "contanto que não pretenda capturá-las" — pareceria desnecessária: bastaria dizer que, sem destinação, é proibido. A Guemará responde que essa cláusula ensina algo a mais, que não decorre da destinação sozinha: mesmo quando o mel foi devidamente destinado para consumo, ainda assim a permissão de estender a esteira exige que a pessoa não tenha, com isso, a intenção de capturar as próprias abelhas — pois, do contrário, o gesto de cobri-las deixaria de ser proteção contra sol e chuva e passaria a ser um ato de captura disfarçado.

03De quem é esta baraita? Não de Rabi Shimon, que não tem muktzeh; é de Rabi Yehudá — e "não pretender capturá-las" significa deixar espaço livre
Guemará
מַנִּי? אִי רַבִּי שִׁמְעוֹן — לֵית לֵיהּ מוּקְצֶה. אִי רַבִּי יְהוּדָה — כִּי לֹא מִתְכַּוֵּין מַאי הָוֵי? הָא דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין — אָסוּר! לְעוֹלָם רַבִּי יְהוּדָה. מַאי ״וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִתְכַּוֵּין לָצוּד״ — שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂנָּה כִּמְצוּדָה, דְּלִישְׁבּוֹק לְהוּ רַוְוחָא כִּי הֵיכִי דְּלָא לִיתַּצְדוּ מִמֵּילָא.

De quem é esta (baraita)? Se de Rabi Shimon — ele não tem (o conceito de) muktzeh. Se de Rabi Yehudá — quando não há intenção, o que importa? Pois, para ele, uma coisa não pretendida é proibida! Na verdade, é de Rabi Yehudá. O que significa "contanto que não pretenda capturá-las" — que não a transforme numa armadilha, isto é, que deixe um espaço livre, de modo que (as abelhas) não sejam capturadas por si mesmas.

Nota

A Guemará investiga a autoria da baraita, já que a exigência de "destinação" só faz sentido para quem aceita o conceito de muktzeh — o que exclui Rabi Shimon. Mas, se é de Rabi Yehudá, surge uma dificuldade: para ele, mesmo um efeito colateral não pretendido (davar she-eino mitkaven) é proibido quando previsível — então por que a cláusula falaria em "intenção" de capturar, como se a falta de intenção bastasse para permitir? A resposta refina o sentido da cláusula: ela não trata de intenção subjetiva, mas de como a esteira é estendida fisicamente — deve-se deixar um espaço livre nas bordas, de modo que as abelhas não fiquem seladas dentro de uma estrutura fechada e não sejam capturadas automaticamente pelo próprio gesto de cobrir, ainda que ninguém pretenda isso.

04Rav Ashi: a baraita nunca falou em "verão e inverno" plenos, mas nos meses de transição — Nissan e Tishrei — quando há sol, frio, chuva e mel ao mesmo tempo
Rav Ashi
רַב אָשֵׁי אָמַר: מִי קָתָנֵי ״בִּימוֹת הַחַמָּה וּבִימוֹת הַגְּשָׁמִים״? ״בַּחַמָּה מִפְּנֵי הַחַמָּה וּבַגְּשָׁמִים מִפְּנֵי הַגְּשָׁמִים״ קָתָנֵי, בְּיוֹמֵי נִיסָן וּבְיוֹמֵי תִּשְׁרֵי, דְּאִיכָּא חַמָּה וְאִיכָּא צִינָּה וְאִיכָּא גְּשָׁמִים וְאִיכָּא דְּבַשׁ.

Rav Ashi disse: acaso se ensinou "nos dias de verão e nos dias de chuva"? Ensinou-se "no sol, por causa do sol, e na chuva, por causa da chuva" — (referindo-se) aos dias de Nissan e aos dias de Tishrei, quando há sol e há frio, e há chuva e há mel.

Nota

Rav Ashi propõe uma solução independente, mais simples, que dispensa toda a discussão anterior sobre os dois favos deixados para as abelhas. Ele observa que a linguagem exata da baraita nunca opôs "dias de verão" a "dias de chuva" como estações inteiras, mas falou em proteger "no sol, por causa do sol, e na chuva, por causa da chuva" — uma descrição que se aplica precisamente aos meses de transição, Nissan (primavera) e Tishrei (outono), quando, no mesmo período, há tanto dias de sol forte quanto de chuva, e o mel ainda está presente na colmeia. Assim, a dificuldade sobre a época das chuvas plena — quando de fato não há mel — nunca chega a se colocar, pois a baraita jamais tratou desse período.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "de-ika devash", "shtei chalot", "muktzot ninhu" e "de-chashiv alaiyhu"
דאיכא דבש - דבר הניטל:

"Há mel" — algo que pode ser movido.

שתי חלות - כל הכוורת עושין אותה הדבורים חלות חלות של צפיחית דבש ושעוה וכשרודים אותן מניחין בה שתים שיתפרנסו מהן הדבורים כל ימות הגשמים כדתנן בהמוכר את הספינה (ב"ב פ.) הלוקח חלות כוורתו של חבירו מניח שתי חלות דסתמא לא מכרן:

"Dois favos" — toda a colmeia, as abelhas a fazem em favos e mais favos, de massa de mel e cera; e, quando se colhem, deixam-se dois deles, para que as abelhas se sustentem deles durante toda a época das chuvas — como se ensina em "O que vende o navio" (Bava Batra 80a): quem compra os favos da colmeia do outro deixa dois favos, pois, sem especificação, não os vendeu.

מוקצות נינהו - לדבורים הדר הוה ליה דבר שאינו ניטל ואפ"ה מטלטלין מחצלת להצלתן:

"São muktzeh" — para as abelhas, e por isso voltam a ser algo que não pode ser movido; e, ainda assim, move-se a esteira para salvá-las.

דחשיב עלייהו - מאתמול לאכילה:

"Porque ele os destinou" — desde a véspera, para consumo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "she-lo ya'asenah kimtzudá"
שלא יעשנו כמצודה - שלא יכסנה כולה אלא דנשבוק רווחא שיוכלו לצאת כי היכי דלא ליתצדו בהאי כיסוי ממילא ואע"ג דלא מיכוין למיצד אסור:

"Que não a transforme numa armadilha" — que não a cubra por inteiro, mas que deixe um espaço livre, para que (as abelhas) possam sair, de modo que não sejam capturadas por esse próprio ato de cobrir; e, ainda que não se pretenda capturá-las, é proibido (cobrir por inteiro).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "Rav Ashi amar"
רב אשי אמר - לעולם דאיכא דבש טובא ודקשיא לך ימות הגשמים מי קתני בה ימות הגשמים:

"Rav Ashi disse" — na verdade, trata-se de um caso em que há bastante mel; e, quanto à dificuldade sobre a época das chuvas, acaso se ensinou nela "época das chuvas"?

A mensagem de Rav Sheshet: uma partição para o morto, por causa do vivo · עוֹשִׂין מְחִיצָה לְמֵת בִּשְׁבִיל חַי

05Rav Sheshet manda dizer a Rabi Yitzchak: Rav Huna já explicara seu ensinamento — faz-se partição para o morto por causa do vivo, não por causa do morto
Rav Sheshet; Rav Huna
אֲמַר לְהוּ רַב שֵׁשֶׁת: פּוּקוּ וֶאֱמַרוּ לֵיהּ לְרַבִּי יִצְחָק: כְּבָר תַּרְגְּמַהּ רַב הוּנָא לִשְׁמַעְתָּיךְ בְּבָבֶל. דְּאָמַר רַב הוּנָא: עוֹשִׂין מְחִיצָה לְמֵת בִּשְׁבִיל חַי, וְאֵין עוֹשִׂין מְחִיצָה לְמֵת בִּשְׁבִיל מֵת.

Disse-lhes Rav Sheshet: saí e digam a Rabi Yitzchak: já Rav Huna explicou seu ensinamento na Babilônia. Pois disse Rav Huna: faz-se uma partição para o morto por causa do vivo, mas não se faz uma partição para o morto por causa do morto.

Nota

A Guemará passa a um novo tema, ligado ao princípio mais restritivo de Rabi Yitzchak, ensinado no fim de 43a: um recipiente só se move em Shabat por causa de algo que, em si, pode ser movido — daí se poderia supor que jamais seria permitido erguer qualquer estrutura para proteger um cadáver, que é muktzeh. Rav Sheshet manda avisar a Rabi Yitzchak que Rav Huna já havia resolvido essa questão na Babilônia: é permitido construir uma partição — no caso, para dar sombra a um morto exposto ao sol — desde que a razão seja proteger os vivos que ali se abrigam, e não o morto em si; erguer uma estrutura diretamente por causa do morto, como tal, continuaria proibido.

06Como se faz essa partição: duas pessoas sentadas ao lado do morto, trazendo camas e depois uma esteira, até que a partição se forma por si mesma
Rav Shmuel bar Yehudá; Sheila Mari
מַאי הִיא? — דְּאָמַר רַב שְׁמוּאֵל בַּר יְהוּדָה, וְכֵן תָּנָא שֵׁילָא מָרִי: מֵת הַמּוּטָּל בַּחַמָּה, בָּאִים שְׁנֵי בְּנֵי אָדָם וְיוֹשְׁבִין בְּצִדּוֹ. חַם לָהֶם מִלְּמַטָּה, זֶה מֵבִיא מִטָּה וְיוֹשֵׁב עָלֶיהָ וְזֶה מֵבִיא מִטָּה וְיוֹשֵׁב עָלֶיהָ. חַם לָהֶם מִלְּמַעְלָה, מְבִיאִים מַחְצֶלֶת וּפוֹרְסִין עֲלֵיהֶן. זֶה זוֹקֵף מִטָּתוֹ וְנִשְׁמָט וְהוֹלֵךְ לוֹ, וְזֶה זוֹקֵף מִטָּתוֹ וְנִשְׁמָט וְהוֹלֵךְ לוֹ, וְנִמְצֵאת מְחִיצָה עֲשׂוּיָה מֵאֵלֶיהָ.

O que é isto? Pois disse Rav Shmuel bar Yehudá, e assim ensinou Sheila Mari: se há um morto exposto ao sol, vêm duas pessoas e se sentam ao seu lado. Se sentem calor por baixo, um traz uma cama e senta-se sobre ela, e o outro traz uma cama e senta-se sobre ela. Se sentem calor por cima, trazem uma esteira e a estendem sobre eles. (Depois), um levanta sua cama e se retira, e o outro levanta sua cama e se retira, e a partição se encontra feita por si mesma.

Nota

Esta baraita descreve, na prática, como se constrói uma partição "por causa do vivo" sem jamais construí-la diretamente por causa do morto. Duas pessoas se sentam para acompanhar o morto; sentindo o calor do chão aquecido pelo sol, cada uma traz sua própria cama para se sentar — um gesto plenamente permitido, pois a cama é movida por causa de quem se senta nela. Sentindo depois o calor do sol sobre si, estendem uma esteira para se proteger, ainda segurando-a, e não sobre o morto diretamente. Quando, enfim, decidem se retirar, cada um levanta sua cama e sai — e o que resta de pé, a esteira apoiada sobre o espaço que as camas ocupavam, forma uma partição que agora, incidentalmente, também dá sombra ao morto, sem que ninguém a tenha erguido por causa dele.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "li-shma'atach", "met ha-mutal ba-chamá", "yoshvin be-tzido", "cham lahem le-matá", "u-forsin" e "zeh zokef mitató"
לשמעתיך - דאין כלי ניטל אלא לדבר הניטל:

"Seu ensinamento" — de que um recipiente só se move para algo que, em si, pode ser movido.

מת המוטל בחמה - ויש לחוש שמא ימהר להסריח:

"Um morto exposto ao sol" — pois há que temer que apodreça depressa.

ויושבין בצדו - ע"ג הקרקע כדי שיצטערו מחום הקרקע ויצטרכו להביא מטות לישב עליהן והמטות יהיו למחיצה כדמסיים ואזיל:

"E se sentam ao seu lado" — sobre o chão, para que sofram com o calor do solo e precisem trazer camas para se sentar sobre elas; e as camas servirão de partição, como conclui adiante.

חם להם למטה - מן הקרקע שרתחו חמה:

"Sentem calor por baixo" — do chão, que o sol aqueceu.

ופורסין - על ראשן לצל:

"E estendem" — sobre suas cabeças, para sombra.

זה זוקף מטתו - שתהא המחצלת מונחת עליה וכן זה נמצאת מחיצה עשויה מאליה ולכשירצו נשמטין והולכין להם ודוקא נקט חם להם מלמטה ברישא שיביאו המטות לישיבה ברישא והדר מחצלת לפרוש עליהן לצל ואוחזין אותה בידיהן עד לאחר שעה שיזקפום וישמטום דהוה ליה כי ההוא דאמרינן (עירובין דף קא.) האי מדורתא מלמעלה למטה שרי אבל לאתויי מעיקרא מטות לצורך האהל לא דהוה ליה מלמטה למעלה כדרך בנין וקי"ל אין עושין אהל עראי בתחילה בשבת:

"Um levanta sua cama" — para que a esteira fique apoiada sobre ela; e assim o outro; e assim a partição se encontra feita por si mesma, e, quando quiserem, se retiram e vão embora. E foi ensinado, especificamente, "sentem calor por baixo" em primeiro lugar, para que tragam as camas para se sentar primeiro, e só depois a esteira para estender sobre eles à sombra — segurando-a com as mãos, até a hora em que as levantam e se retiram. Pois isso é como aquilo que se diz (Eruvin 101a): erguer essa estrutura de cima para baixo é permitido, mas trazer de início as camas para servir de tenda não é, pois seria de baixo para cima, à maneira de uma construção — e estabelecemos que não se faz uma tenda provisória, de início, em Shabat.

O morto exposto ao sol: mover de leito em leito, ou com um pão por cima · מֵת הַמּוּטָּל בַּחַמָּה

07Rav Yehudá em nome de Shmuel: vira-o de leito em leito; Rav Chanina bar Shelemia em nome de Rav: coloca-se um pão ou uma criança sobre ele — a disputa real é sobre mover indiretamente sem eles
Rav Yehudá; Rav Chanina bar Shelemia
אִיתְּמַר, מֵת הַמּוּטָּל בַּחַמָּה. רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: הוֹפְכוֹ מִמִּטָּה לְמִטָּה. רַב חֲנִינָא בַּר שֶׁלֶמְיָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב אָמַר: מַנִּיחַ עָלָיו כִּכָּר אוֹ תִּינוֹק וּמְטַלְטְלוֹ. הֵיכָא דְּאִיכָּא כִּכָּר אוֹ תִּינוֹק כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דִּשְׁרֵי. כִּי פְּלִיגִי דְּלֵית לֵיהּ: מָר סָבַר טִלְטוּל מִן הַצַּד שְׁמֵיהּ טִלְטוּל, וּמָר סָבַר לָא שְׁמֵיהּ טִלְטוּל.

Foi dito: um morto exposto ao sol. Rav Yehudá disse em nome de Shmuel: vira-o de leito em leito. Rav Chanina bar Shelemia disse em nome de Rav: coloca-se sobre ele um pão ou uma criança, e move-se (o leito com ele). Onde há um pão ou uma criança, todos concordam que é permitido. Divergem apenas onde não há: um (Sábio) entende que mover indiretamente (tiltul min ha-tzad) se chama mover, e o outro entende que não se chama mover.

Nota

A Guemará retorna diretamente ao problema de mover o corpo em si, para levá-lo à sombra da partição já descrita. Duas opiniões são trazidas: virá-lo de um leito para outro — deslocando-o sem propriamente "carregá-lo", pois ele rola de uma superfície à seguinte — ou colocar sobre ele algo permitido, como um pão ou uma criança viva, e então mover o leito inteiro, já que agora se está movendo, formalmente, por causa de um item permitido. A Guemará esclarece que, quando há um pão ou uma criança disponíveis, ambas as posições concordam que é permitido mover o leito assim; a única divergência real ocorre quando nenhum dos dois está disponível: um Sábio sustenta que mover algo indiretamente, apoiado sobre outra coisa (tiltul min ha-tzad), ainda se considera "mover" no sentido pleno — e por isso permite virá-lo de leito em leito mesmo sem base permitida; o outro sustenta que isso não se considera mover — e por isso, sem pão ou criança, seria proibido.

08Tentativa de identificar a disputa com uma baraita sobre salvar o morto do incêndio — rejeitada: todos concordam que mover indiretamente é mover; a razão de Rabi Yehudá ben Lakish é a aflição de quem teme por seu morto… (texto interrompido, continua em 44a)
Guemará; baraita; Rabi Yehudá ben Lakish
לֵימָא כְתַנָּאֵי: אֵין מַצִּילִין אֶת הַמֵּת מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה בֶּן לָקִישׁ: שָׁמַעְתִּי שֶׁמַּצִּילִין אֶת הַמֵּת מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה. הֵיכִי דָמֵי: אִי דְּאִיכָּא כִּכָּר אוֹ תִּינוֹק, מַאי טַעְמָא דְּתַנָּא קַמָּא? אִי דְּלֵיכָּא, מַאי טַעְמָא דְּרַבִּי יְהוּדָה בֶּן לָקִישׁ? אֶלָּא לָאו בְּטִלְטוּל מִן הַצַּד פְּלִיגִי. דְּמָר סָבַר טִלְטוּל מִן הַצַּד שְׁמֵיהּ טִלְטוּל, וּמָר סָבַר לָא שְׁמֵיהּ טִלְטוּל! לָא, דְּכוּלֵּי עָלְמָא טִלְטוּל מִן הַצַּד שְׁמֵיהּ טִלְטוּל, וְהַיְינוּ טַעְמָא דְּרַבִּי יְהוּדָה בֶּן לָקִישׁ: דְּמִתּוֹךְ שֶׁאָדָם בָּהוּל עַל מֵתוֹ...

Digamos que (essa disputa) é como uma controvérsia de tanaítas: não se salva o morto de um incêndio. Disse Rabi Yehudá ben Lakish: ouvi que se salva o morto de um incêndio. Como assim: se há um pão ou uma criança, qual a razão do primeiro tanna (para proibir)? Se não há, qual a razão de Rabi Yehudá ben Lakish (para permitir)? Mas então não divergem eles justamente sobre mover indiretamente — um entendendo que mover indiretamente se chama mover, e o outro que não se chama mover? Não; para todos, mover indiretamente se chama mover, e esta é a razão de Rabi Yehudá ben Lakish: pois, visto que uma pessoa fica aflita por seu morto…

Nota

A Guemará tenta ligar a disputa amoraica a uma controvérsia tanaítica já conhecida sobre salvar um cadáver de um incêndio: uma opinião proíbe, e Rabi Yehudá ben Lakish permite. Como essa baraita não menciona pão ou criança, a tentativa é entendê-la exatamente como a disputa sobre "mover indiretamente" sem base permitida — se há um pão ou criança presente, ninguém proibiria salvar o morto, então a proibição do primeiro tanna só faz sentido quando não há; e, inversamente, a permissão de Rabi Yehudá ben Lakish só faria sentido nesse mesmo caso, se ele considerasse que mover indiretamente não conta como mover. A Guemará rejeita essa identificação: na verdade, todos concordam que mover indiretamente conta plenamente como mover, e por isso, em princípio, também seria proibido salvar o morto assim. A permissão de Rabi Yehudá ben Lakish tem, portanto, uma razão diferente e mais específica — ligada à aflição e ao desespero de quem vê seu próprio morto ameaçado pelo fogo.

Nota sobre o texto

O daf 43b termina de forma interrompida, no meio da razão de Rabi Yehudá ben Lakish: "דְּמִתּוֹךְ שֶׁאָדָם בָּהוּל עַל מֵתוֹ" ("pois, visto que uma pessoa fica aflita por seu morto…"). A continuação, em 44a, completa o raciocínio: "אִי לָא שָׁרֵית לֵיהּ, אָתֵי לְכַבּוֹיֵי" — "…se você não lhe permitir (salvá-lo), ele virá a apagar o fogo" — explicando que a permissão existe para evitar que, no desespero, a pessoa acabe por transgredir a proibição, mais grave, de apagar o incêndio em Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hofcho mi-mitá le-mitá", "min ha-tzad", "i de-leika" e "mai ta'ama de-Rabi Yehudá"
הופכו ממטה למטה - עד שמגיע לצל:

"Vira-o de leito em leito" — até chegar à sombra.

מן הצד - כלאחר יד:

"Indiretamente" (min ha-tzad) — como que de mão inversa, de modo incomum.

אי דליכא - והאי מצילין דקאמר ר' יהודה בן לקיש דמטלטל ליה להדיא הוא:

"Se não há (pão ou criança)" — e este "salva-se", de que fala Rabi Yehudá ben Lakish, seria movê-lo diretamente.

מאי טעמא דר' יהודה - אלא לאו מן הצד הוא דקשרי:

"Qual a razão de Rabi Yehudá (ben Lakish, para permitir)" — mas então não é justamente sobre mover indiretamente que ele permite?