Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Guimel · Kirah
מְטַלְטְלִין מַחְתָּה בְּאֶפְרָהּ

A conclusão sobre a lâmpada como base para o objeto proibido; o relato de Rabi Romanos sobre mover um braseiro por suas cinzas; e a nova sugya sobre recolocar utensílios desmontados em Shabat

Shabbat 47a — completa a resposta de Rava interrompida no fim de 46b; nova sugya sobre mover um braseiro por causa das cinzas; depois, a cama desmontável dos artesãos ambulantes; termina em texto interrompido, que prossegue em 47b

O daf abre completando a resposta de Rava que ficara interrompida no fim de 46b: a verdadeira razão de proibir mover a lâmpada de óleo com pavio antes que se apague não é a distinção entre proibição bíblica e rabínica discutida antes, mas sim que a lâmpada acesa se torna base para o objeto proibido — a própria chama que ainda arde. Abre-se então nova sugya, também sobre muktzeh: numa cadeia de transmissores até Rabi Romanos, ensina-se que Rabi lhe permitiu mover um braseiro de incenso por causa de suas cinzas. Rabi Zeira questiona a Rabi Assi se Rabi Yochanan realmente ensinou isso, trazendo a Mishná segundo a qual um homem pode segurar seu filho com uma pedra na mão dele, ou um cesto com uma pedra dentro — o que Rabá bar bar Chana, em nome de Rabi Yochanan, restringe a um cesto cheio de frutas: a razão é que há frutas, mas, sem frutas, não seria permitido. Conta-se então que Rabi Yochanan, ao ouvir a objeção, ficou perplexo por um instante — citando a expressão do profeta Daniel — e respondeu: aqui também há resíduos de incenso no braseiro. Abaye questiona se tais resíduos, numa casa rica como a de Rabi, seriam considerados relevantes; e rejeita ainda a ideia de que sobrariam para os pobres, pois roupas de pobres não servem aos ricos. Abaye propõe então outra razão: o braseiro é como um vaso de dejetos, que se pode mover mesmo sujo, por respeito à dignidade das pessoas. Rava oferece duas respostas que distinguem o braseiro do vaso de dejetos — este é repugnante e fica descoberto, aquele não é repugnante e fica coberto —, e explica, por experiência própria na casa de Rav Nachman, que se costumava mover o braseiro por causa das cinzas mesmo havendo lascas de madeira sobre ele; mas todos concordam que, havendo fragmentos de pavio, o braseiro fica proibido de mover — o que Abaye resolve dizendo que essa baraita foi ensinada na Galileia, onde os fragmentos de pavio eram valiosos e não se anulavam diante das cinzas. O daf passa então a uma nova sugya sobre reconstituir utensílios desmontados em Shabat: Levi bar Shmuel pergunta a Rabi Abba e a Rav Huna bar Chiya se é permitido recolocar uma cama desmontável de artesãos ambulantes, e eles respondem que sim; mas, diante de Rav Yehuda, descobre-se que Rav e Shmuel haviam ensinado o contrário — que quem faz isso é culpado de uma oferenda pelo pecado, pois o ato equivale a fabricar um utensílio. Levanta-se então uma objeção de uma baraita que distingue vários casos — a haste da menorá, a vara de pedreiros, os cornos musicais reto e redondo, e as molduras, pernas e tábuas de encaixe da cama — cada um com seu próprio grau de responsabilidade; e o daf termina em pleno meio dessa baraita, com a lista ainda incompleta, prosseguindo apenas no início de 47b, onde aparece a posição final e a opinião de Rabán Shimon ben Gamliel sobre encaixes frouxos.

A conclusão: a lâmpada é base para o objeto proibido · בָּסִיס לַדָּבָר הָאָסוּר

01"Mas disse Rava:" — a verdadeira razão é que a lâmpada se tornou base para o objeto proibido
Rava
הַנַּח לְנֵר שֶׁמֶן וּפְתִילָה, הוֹאִיל דְּנַעֲשָׂה בָּסִיס לַדָּבָר הָאָסוּר.

Deixe de lado a lâmpada de óleo e pavio (o caso não se compara ao dos vendedores de roupas), pois ela se tornou base para o objeto proibido.

Nota

Completa-se aqui a resposta de Rava que ficara interrompida no fim de 46b. Rava rejeita a distinção proposta entre proibição bíblica e proibição rabínica do ato não intencional, aplicada ao caso dos vendedores de roupas de tecidos mistos: essa distinção não explica por que Rabi Shimon proíbe mover a lâmpada de óleo e pavio antes que ela se apague. A razão verdadeira é outra: enquanto a chama ainda arde, a lâmpada deixa de ser um simples utensílio e passa a servir de base (báses) para a própria chama acesa — e a chama, sendo algo que a pessoa está proibida de apagar ou de manipular diretamente, é um objeto proibido. Um utensílio que serve de base para algo proibido fica, ele mesmo, proibido de mover enquanto essa condição persistir, independentemente de qualquer consideração sobre intenção.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "le-davar ha-assur" e "basis"
לדבר האסור - לשלהבת דבכי האי מוקצה מודה ר"ש שהכלי טפל לשלהבת בעודה בו ולאו משום דחייש לכבייה:

"Para o objeto proibido" — refere-se à chama; pois, nesse tipo de muktzeh, Rabi Shimon concorda que o utensílio é secundário à chama enquanto ela está nele, e não porque tema que se apague.

בסיס - מושב את כנו מתרגמינן בסיסיה:

"Base" — traduzimos (o hebraico bíblico) "mosav et kano" (seu assento e sua base) como "basisêh".

Mover um braseiro por suas cinzas: o relato de Rabi Romanos · מַחְתָּה בְּאֶפְרָהּ

02"A mim, Rabi permitiu mover um braseiro por suas cinzas" — Rabi Zeira contesta com a Mishná do filho e da pedra, e do cesto de frutas
Rabi Zeira; Rabi Assi; Rabi Yochanan; Rabi Chanina; Rabi Romanos; Rabá bar bar Chana
אָמַר רַבִּי זֵירָא אָמַר רַבִּי אַסִּי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר רַבִּי חֲנִינָא אָמַר רַבִּי רוֹמָנוֹס: לִי הִתִּיר רַבִּי לְטַלְטֵל מַחְתָּה בְּאֶפְרָהּ. אֲמַר לֵיהּ רַבִּי זֵירָא לְרַבִּי אַסִּי: מִי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן הָכִי? וְהָתְנַן: נוֹטֵל אָדָם בְּנוֹ וְהָאֶבֶן בְּיָדוֹ אוֹ כַּלְכַּלָּה וְהָאֶבֶן בְּתוֹכָהּ. וְאָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: בְּכַלְכַּלָּה מְלֵאָה פֵּירוֹת עָסְקִינַן. טַעְמָא דְּאִית בַּהּ פֵּירֵי, הָא לֵית בַּהּ פֵּירֵי — לָא?

Disse Rabi Zeira, disse Rabi Assi, disse Rabi Yochanan, disse Rabi Chanina, disse Rabi Romanos: a mim, Rabi permitiu mover um braseiro de incenso por causa de suas cinzas. Disse-lhe Rabi Zeira a Rabi Assi: será que Rabi Yochanan disse mesmo isso? Mas nós aprendemos: um homem pode segurar seu filho com uma pedra na mão dele, ou um cesto com uma pedra dentro dele. E disse Rabá bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: trata-se de um cesto cheio de frutas (com a pedra apenas junto delas). A razão é que há frutas nele; mas, se não há frutas nele — não (seria permitido)?

Nota

Abre-se nova sugya sobre os limites do muktzeh. Rabi Romanos transmite, numa longa cadeia de nomes, que o próprio Rabi (Yehudá HaNassi) lhe permitira mover um braseiro de incenso pelo motivo de suas cinzas — mesmo sendo as cinzas, por si só, algo sem uso e portanto muktzeh, o braseiro inteiro poderia ser deslocado por causa delas, como se as cinzas fossem o objetivo do movimento. Rabi Zeira duvida que Rabi Yochanan tenha realmente ensinado algo tão permissivo, e traz uma baraita já citada em contextos anteriores: pode-se pegar um filho pequeno mesmo tendo uma pedra na mão, ou um cesto mesmo com uma pedra dentro — mas Rabá bar bar Chana, em nome do próprio Rabi Yochanan, já havia restringido esse ensinamento a um cesto cheio de frutas, onde a pedra é apenas incidental: precisamente porque há frutas — um conteúdo permitido e desejado — o cesto pode ser levantado apesar da pedra; sem frutas, porém, a pedra sozinha tornaria o cesto proibido de mover. Se assim é, pergunta Rabi Zeira, como poderia Rabi Yochanan permitir mover um braseiro apenas por causa das cinzas — que são, elas mesmas, sem valor, tal como a pedra sozinha no cesto vazio?

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "li hitir Rabi", "notel adam" e "ha leit bah peiri lo"
א"ר רומנוס לי התיר רבי לטלטל מחתה - של לבונה באפרה קס"ד באפרה עם אפרה קאמר שהאפר מוקצה ולא היו צריכין לו ואשמעינן דאגב מחתה דאיכא תורת כלי עליה טלטלה עם אפרה:

"Disse Rabi Romanos: a mim, Rabi permitiu mover um braseiro" — de incenso, por causa de suas cinzas. Pensamos, a princípio, que ele dizia "por causa das cinzas" no sentido de junto com as cinzas, sendo as cinzas muktzeh e sem necessidade alguma para elas; e ensina-se que, por conta do braseiro, sobre o qual há categoria de utensílio, pode-se movê-lo junto com suas cinzas.

נוטל אדם - הכלכלה בשבת והאבן בתוכה:

"Um homem pode segurar" — o cesto em Shabat, com a pedra dentro dele.

הא ליכא פרי לא - דכלי נעשה בסיס לאבן וטפלה לו ובטל תורת כלי דידיה והכי נמי נעשית מחתה בסיס לאפר ורבי יוחנן שמעי' ליה לעיל דכדר' יהודה סבירא ליה:

"Mas, se não há fruta, não" — pois o utensílio se torna base para a pedra, e a pedra é secundária a ele (no raciocínio inverso: sem fruta, é a pedra que domina), e sua categoria de utensílio se anula; e, do mesmo modo, o braseiro se tornaria base para as cinzas — e já ouvimos, acima, que Rabi Yochanan opina como Rabi Yehudá (mais restritivo quanto a muktzeh).

03"Fiquei perplexo por uma hora" — e respondeu: aqui também há resíduos de incenso; Abaye questiona se são relevantes na casa de Rabi
Rabi Yochanan; Abaye
״אֶשְׁתּוֹמַם כְּשָׁעָה חֲדָא״, וַאֲמַר: הָכָא נָמֵי דְּאִית בַּהּ קְרָטִין. אָמַר אַבָּיֵי: קְרָטִין בֵּי רַבִּי מִי חֲשִׁיבִי?

"Fiquei perplexo por uma hora" — e então disse: aqui também (no caso do braseiro), porque há nele resíduos (de incenso, junto com as cinzas). Disse Abaye: será que resíduos de incenso, na casa de Rabi, são considerados algo?

Nota

Diante da objeção de Rabi Zeira, o relato descreve que Rabi Yochanan — citando a expressão usada pelo profeta Daniel ao descrever seu próprio espanto diante de uma visão — ficou momentaneamente perplexo, sem resposta pronta. Depois, porém, encontrou uma saída: assim como o cesto é permitido de mover por causa das frutas que contém, também o braseiro seria permitido de mover por causa dos pequenos resíduos de incenso que ainda restam nele junto com as cinzas — esses resíduos fariam as vezes das "frutas" do caso anterior, um conteúdo de valor que justifica o movimento do todo. Abaye, porém, questiona a premissa: na casa de Rabi, homem extremamente rico, tais resíduos de incenso seriam considerados algo de valor real, ou seriam tão insignificantes que nem contariam como conteúdo relevante?

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "de-it bah keratin" e "bei Rabi"
דאית ביה קרטין - שנשתיירו מן האור ולבונה דחזיא להריח ואגב לבונה מטלטל למחתה עם אפרה דומיא דכלכלה מלאה פירות והאבן בתוכה:

"Porque há nele resíduos" — que restaram do fogo e do incenso, e que ainda servem para cheirar; e, por causa do incenso, move-se o braseiro junto com as cinzas, de modo semelhante ao cesto cheio de frutas com a pedra dentro.

קרטין - של שיור לבונה:

"Resíduos" — restos de incenso.

בי רבי - דנשיא ועשיר הוה מי חשיבי:

"Na casa de Rabi" — que era o Nassi e era rico: será que (tais resíduos) são considerados algo (para ele)?

04"Servem para os pobres?" — não, roupas de pobres não servem aos ricos; Abaye: é como o vaso de dejetos
Guemará; Abaye; Baraita das roupas
וְכִי תֵימָא: חֲזוּ לַעֲנִיִּים — וְהָתַנְיָא, בִּגְדֵי עֲנִיִּים לַעֲנִיִּים, בִּגְדֵי עֲשִׁירִים לַעֲשִׁירִים, אֲבָל דַּעֲנִיִּים לַעֲשִׁירִים לָא. אֶלָּא אָמַר אַבָּיֵי: מִידֵּי דְּהָוֵה אַגְּרָף שֶׁל רֶיעִי.

E se disser: ainda servem para os pobres (e por isso têm valor mesmo na casa de Rabi) — mas foi ensinado: roupas de pobres (contam como vestimenta) para pobres; roupas de ricos, para ricos; mas roupas de pobres, para ricos, não (contam). Mas disse Abaye: é como o caso do vaso de dejetos (que se pode mover apesar de repugnante, por respeito à dignidade).

Nota

A Guemará tenta salvar a explicação anterior sugerindo que, mesmo sendo insignificantes para um homem rico como Rabi, os resíduos de incenso ainda teriam valor para os pobres — e o padrão de avaliação de muktzeh costuma seguir o valor que um objeto tem para alguém, não necessariamente para o dono específico. Mas essa saída é rejeitada com uma baraita sobre a categoria de vestimenta para fins de impureza: roupas pequenas ou grosseiras contam como vestimenta para os padrões de um pobre, e roupas maiores ou finas contam como vestimenta tanto para pobres quanto para ricos; mas uma peça que só serviria a um pobre não conta como vestimenta do ponto de vista de um rico. Pelo mesmo princípio, resíduos de incenso que só teriam valor para pobres não contariam como algo relevante na casa rica de Rabi. Abaye abandona então essa linha de explicação e propõe uma completamente diferente: o braseiro é permitido de mover não por causa de qualquer conteúdo valioso nele, mas porque ele é comparável a um vaso usado para recolher dejetos — que a lei permite mover e esvaziar mesmo sendo repugnante, por respeito à dignidade das pessoas, e não por causa de seu conteúdo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "bigdei aniyim", "bigdei ashirim" e "ela amar Abaye"
בגדי עניים - שלש על שלש או שחוטן עבה הוו בגדים לעניים לענין טומאה:

"Roupas de pobres" — de três por três (dedos), ou de fio grosso, contam como vestimenta para pobres quanto à impureza.

בגדי עשירים - שלשה על שלשה הוו בגדים לעשירים וכל שכן לעניים אבל בגדי עניים לעשירים לא הוה בגד גבייהו ולא מקבלי טומאה הכא נמי בי רבי בטלי קרטין:

"Roupas de ricos" — de três por três, contam como vestimenta para ricos, e tanto mais para pobres; mas roupas de pobres, para ricos, não contam como vestimenta para eles, e não recebem impureza. Aqui também, na casa de Rabi, os resíduos (de incenso) se anulam.

אלא אמר אביי - הא דשרי ליה לטלטל מחתה באפרה משום דאפרה מאיס עליה לראותו והוי כגרף של רעי דתניא במסכת ביצה (דף לו:) מותר להוציאו לאשפה שבחצר:

"Mas disse Abaye" — o motivo pelo qual é permitido mover o braseiro por causa de suas cinzas é que as cinzas lhe são repugnantes de ver, e ele é como um vaso de dejetos, sobre o qual foi ensinado, no tratado Beitzá (36b), que é permitido levá-lo ao monte de lixo no pátio.

05Rava: duas respostas que distinguem o braseiro do vaso de dejetos; o costume na casa de Rav Nachman; a objeção dos fragmentos de pavio, resolvida como ensino da Galileia
Rava; Rav Nachman; Abaye
אָמַר רָבָא, שְׁתֵּי תְּשׁוּבוֹת בַּדָּבָר: חֲדָא, גְּרָף שֶׁל רֶיעִי מְאִיס, וְהַאי לָא מְאִיס. וְעוֹד, גְּרָף שֶׁל רֶיעִי מִיגַּלֵּי, וְהַאי מִיכַּסֵּי. אֶלָּא אָמַר רָבָא: כִּי הֲוֵינַן בֵּי רַב נַחְמָן הֲוָה מְטַלְטְלִינַן כָּנוּנָא אַגַּב קִיטְמָא, וְאַף עַל גַּב דְּאִיכָּא עֲלֵיהּ שִׁבְרֵי עֵצִים. מֵיתִיבִי: וְשָׁוִין שֶׁאִם יֵשׁ בָּהּ שִׁבְרֵי פְּתִילָה שֶׁאָסוּר לְטַלְטֵל! אָמַר אַבָּיֵי: בְּגָלִילָא שָׁנוּ.

Disse Rava: há duas respostas ao caso (à comparação de Abaye). Uma: o vaso de dejetos é repugnante, e este (braseiro com cinzas) não é repugnante. E ainda: o vaso de dejetos fica descoberto, e este fica coberto. Mas disse Rava (sua própria explicação): quando estávamos na casa de Rav Nachman, costumávamos mover o braseiro por causa das cinzas, mesmo havendo sobre ele lascas de madeira. Levantaram uma objeção: e concordam (Rabi Yehudá e Rabi Shimon) que, se há nele fragmentos de pavio, é proibido movê-lo! Disse Abaye: ensinaram isso na Galileia.

Nota

Rava rejeita a comparação de Abaye com o vaso de dejetos por duas razões: primeiro, o vaso de dejetos é permitido de mover justamente por ser repugnante — a própria repugnância é o que motiva a permissão, por respeito à dignidade —, enquanto o braseiro com cinzas não é repugnante da mesma forma, de modo que essa lógica não se aplicaria a ele; segundo, o vaso de dejetos fica exposto, sem tampa, o que agrava sua repugnância, enquanto o braseiro normalmente vem coberto. Rava então oferece sua própria explicação, baseada na prática que observara pessoalmente na casa de Rav Nachman: ali se costumava mover o braseiro por causa das cinzas mesmo quando havia sobre ele lascas de madeira que sobraram da queima — um resíduo sem valor especial, mas que não impedia o movimento. Levanta-se uma objeção de uma baraita que ensina que, mesmo segundo a opinião mais permissiva, há um limite: se restam no braseiro fragmentos do próprio pavio usado para acender o fogo, ele fica proibido de mover, pois o pavio é mais claramente muktzeh do que simples lascas de madeira queimada. Abaye harmoniza as duas fontes dizendo que a baraita mais restritiva sobre fragmentos de pavio foi ensinada na Galileia, uma região onde tecidos de linho eram escassos e caros, de modo que ali os fragmentos de pavio (feitos de tecido) eram considerados valiosos e não se anulavam diante das cinzas — ao contrário do costume observado na Babilônia, na casa de Rav Nachman.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "geraf", "michasei", "kenuna" e "be-Galila shanu"
גרף - כלי חרס המוכן לכך:

"Vaso" — um utensílio de barro preparado para esse fim.

מיכסי - כל מחתות מכוסות הן ויש בהן נקבים להוציא הריח:

"Fica coberto" — todos os braseiros são cobertos, e têm furos para deixar sair o cheiro.

כנונא - כלי נחשת שמביאין בו האור לפני שרים להתחמם:

"Braseiro" (kenuna) — um utensílio de cobre em que se traz fogo diante de nobres, para que se aqueçam.

אגב קטמיה - שהיו צריכין לאפרו לכסות רוק או צואה וא"ת מה צד איסור יש כאן היינו רבותא דאע"ג דאיכא עליה שברי עצים והא דר' רומנוס נמי האי מחתה באפרה דקאמר מחתה בשביל אפרה שהיה צריך לו ודעתייהו עליה מאתמול ורבותא אשמעינן (כיון) אע"ג דאיכא עליה שברי עצים דהוי ככלכלה של פירות והאבן בתוכה:

"Por causa de suas cinzas" — pois precisavam da cinza para cobrir escarro ou excremento; e, se perguntar qual seria aqui o lado da proibição, é justamente a novidade: mesmo havendo sobre ele lascas de madeira. E também o caso de Rabi Romanos, "este braseiro por causa das cinzas", quer dizer que o braseiro é movido por causa das cinzas, das quais se precisava, e cuja utilidade já se tinha em mente desde a véspera; e ensina-se a novidade de que, mesmo havendo lascas de madeira sobre ele, é como o cesto de frutas com a pedra dentro.

בגלילא שנו - שחשובות להן שברי פתילה שאין בגדים של פשתן מצויין להם הלכך לא בטלי ונעשה נר בסיס להן:

"Ensinaram isso na Galileia" — pois ali os fragmentos de pavio lhes eram valiosos, já que roupas de linho não eram comuns entre eles; por isso não se anulam, e a lâmpada se torna base para eles.

Recolocar a cama desmontável em Shabat · מִטָּה שֶׁל טַרְסִיִּים

06Levi bar Shmuel pergunta se é permitido recolocar a cama dos artesãos ambulantes; Rav Yehuda corrige com o ensinamento de Rav e Shmuel
Levi bar Shmuel; Rabi Abba; Rav Huna bar Chiya; Rav Yehuda; Rav; Shmuel
לֵוִי בַּר שְׁמוּאֵל אַשְׁכְּחִינְהוּ לְרַבִּי אַבָּא וּלְרַב הוּנָא בַּר חִיָּיא דַּהֲווֹ קָיְימִי אַפִּיתְחָא דְּבֵי רַב הוּנָא. אֲמַר לְהוּ: מַהוּ לְהַחֲזִיר מִטָּה שֶׁל טַרְסִיִּים בְּשַׁבָּת? אֲמַרוּ לֵיהּ: שַׁפִּיר דָּמֵי. אֲתָא לְקַמֵּיהּ דְּרַב יְהוּדָה, אָמַר: הָא רַב וּשְׁמוּאֵל דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: הַמַּחֲזִיר מִטָּה שֶׁל טַרְסִיִּים בְּשַׁבָּת — חַיָּיב חַטָּאת.

Levi bar Shmuel encontrou Rabi Abba e Rav Huna bar Chiya, que estavam parados à entrada da casa de Rav Huna. Perguntou-lhes: qual é a lei sobre recolocar uma cama de artesãos ambulantes (desmontável, transportada em peças) em Shabat? Disseram-lhe: está bem (é permitido). Foi diante de Rav Yehuda, e este disse: mas Rav e Shmuel, ambos, disseram: quem recoloca uma cama de artesãos ambulantes em Shabat é culpado de uma oferenda pelo pecado.

Nota

Abre-se nova sugya, ainda dentro do tema mais amplo de muktzeh e do que se pode ou não manusear em Shabat, mas agora voltada à melachá de boné (construir): certos artesãos ambulantes — vendedores de utensílios de cobre ou tecelões, segundo Rashi — viajavam de cidade em cidade carregando camas desmontáveis, feitas de peças que se encaixavam. Levi bar Shmuel pergunta a dois sábios se é permitido, em Shabat, encaixar de volta as peças de uma dessas camas, e eles respondem que sim, sem restrição. Mas, ao apresentar a mesma pergunta a Rav Yehuda, este revela que essa permissão contradiz um ensinamento explícito de Rav e Shmuel: montar essa cama em Shabat é equivalente a fabricá-la do zero, constituindo a melachá de "golpear com o martelo" (makeh be-fatish) — o ato final que dá acabamento a um utensílio — e por isso quem o faz é culpado de uma oferenda pelo pecado, como qualquer transgressão intencional de uma melachá bíblica.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "tarsiyim" e "chayav chatat"
טרסיים - צורפי נחשת או גרדיים והולכין מעיר לעיר למלאכתן ונושאין עמהן מטות של פרקים:

"Artesãos ambulantes" (tarsiyim) — ourives de cobre ou tecelões, que vão de cidade em cidade para seu ofício, e carregam consigo camas desmontáveis, feitas de peças.

חייב חטאת - הוא תחלתו וגמרו ונמצא עושה כלי וחייב משום מכה בפטיש אב לכל גומרי מלאכה ולא משום בנין דאין בנין בכלים:

"É culpado de oferenda pelo pecado" — pois este é seu início e seu acabamento juntos, e resulta que ele está fabricando um utensílio; e é culpado por "golpear com o martelo", a melachá principal de todos os que dão acabamento a um trabalho — e não por construção, pois não há construção (propriamente dita) em utensílios.

07Objeção de uma baraita: a haste da menorá, a vara de pedreiros, os cornos musicais, e as peças da cama — o texto se interrompe em pleno meio da lista
Baraita; Rabi Simai
מֵיתִיבִי: הַמַּחֲזִיר קְנֵה מְנוֹרָה בְּשַׁבָּת — חַיָּיב חַטָּאת. קְנֵה סַיָּידִין — לֹא יַחֲזִיר, וְאִם הֶחֱזִיר — פָּטוּר, אֲבָל אָסוּר. רַבִּי סִימַאי אוֹמֵר: קֶרֶן עֲגוּלָּה — חַיָּיב. קֶרֶן פְּשׁוּטָה — פָּטוּר. אִינְהוּ דַּאֲמוּר כִּי הַאי תַּנָּא דְּתַנְיָא: מַלְבְּנוֹת הַמִּטָּה וְכַרְעֵי הַמִּטָּה וּלְווֹחִים שֶׁל סְקִיבָס — לֹא יַחֲזִיר, וְאִם הֶחֱזִיר — פָּטוּר, …

Levantaram uma objeção: quem recoloca a haste da menorá (desmontável) em Shabat é culpado de oferenda pelo pecado. A vara de pedreiros (usada para rebocar em alturas crescentes) — não deve recolocá-la; e, se a recolocou, está isento, mas é proibido. Rabi Simai diz: o corno redondo (instrumento musical) — é culpado; o corno reto — está isento. Eles (Rabi Abba e Rav Huna bar Chiya) falaram de acordo com este mesmo tanna, que ensinou: as molduras da cama, as pernas da cama e as tábuas de encaixe — não deve recolocá-las; e, se as recolocou, está isento…

Nota

Traz-se uma baraita que distingue vários graus de responsabilidade conforme o utensílio e o tipo de encaixe. Recolocar a haste principal de uma menorá desmontável — da qual saem os braços com as luzes — é considerado fabricação completa, e obriga a oferenda pelo pecado. Já a vara usada por pedreiros, que se alonga peça por peça conforme o trabalho sobe em altura, não deve ser recolocada de saída, mas, se foi recolocada, a pessoa está isenta de punição, embora o ato permaneça proibido — por não ser um acabamento tão definitivo quanto o da menorá, mas ainda assim indesejável. Rabi Simai distingue dois tipos de instrumentos musicais de sopro com múltiplos furos: o corno redondo, que exige encaixe firme e trabalhoso, equivale a fabricação completa e obriga a oferenda; o corno reto, de encaixe mais frouxo e comum, isenta. Os dois sábios da pergunta anterior, ao permitirem recolocar a cama dos artesãos ambulantes, baseavam-se nesta mesma linha de ensinamento, que trata as peças da cama — molduras, pernas e tábuas de encaixe — como um caso mais leve, isento de punição mesmo quando proibido. O texto do daf se interrompe exatamente nesse ponto, no meio da lista de peças da cama, com a palavra "isento" seguida de reticências.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kaneh menorá", "kaneh sayadin", "patur", "keren agulá u-keren peshutá", "de-amur ki hai tanna", "malbenot ha-mitá" e "levochim shel sekivas"
קנה מנורה - שיוצאין ממנה קנים לנרות הרבה ונוטלין הימנה ובשעת הצורך מחזירין אותו:

"Haste da menorá" — da qual saem hastes para muitas luzes; e retiram-se dela, e, quando necessário, recolocam-na.

קנה של סיידין - הטחין ומלבנין הבית בסיד יש להן קנים של פרקים ונותן מטלית בראשה ושורין בסיד המחוי וטח את הבית וכשהוא טח מלמטה אי אפשר לו אלא בקנה קצר וכשהוא הולך ומגביה מוסיף קנה על קנה ומאריכו:

"Vara de pedreiros" — os que rebocam e caiam a casa têm varas de peças; colocam um pano na ponta, embebem-no na cal já preparada e rebocam a casa; e, quando rebocam embaixo, só é possível com uma vara curta, e conforme sobem, vão acrescentando peça sobre peça, alongando-a.

פטור - שאין זה גמרו שהרי צריך לחזור ולפרקו תמיד:

"Isento" — pois isso não é seu acabamento definitivo, já que é preciso voltar a desmontá-la sempre.

קרן עגולה וקרן פשוטה - שניהם מין כלי זמר והוא עשוי נקבים נקבים ככברה ומכניס בהן חלילים ומוציאין קולות הרבה קרן עגולה מעשה אומן הוא וצריך לתקוע בנקבים בחוזק והויא מלאכה ובקרן פשוט מכניסו בריוח ודרכן לפרקם תמיד ופטור קתני מיהת בקני מנורה דחייב והוא הדין למטה של טרסיים:

"Corno redondo e corno reto" — ambos são um tipo de instrumento musical, feito com vários furos como uma peneira, no qual se inserem tubos que produzem muitos sons. O corno redondo é obra de artesão, e é preciso encaixar os tubos nos furos com força, o que constitui trabalho; já no corno reto, encaixa-se com folga, e costuma-se sempre desmontá-lo — por isso, isento. De qualquer modo, ensina-se que, quanto à haste da menorá, é culpado — e o mesmo vale para a cama dos artesãos ambulantes.

אינהו - רבי אבא ורב הונא בר חייא:

"Eles" — Rabi Abba e Rav Huna bar Chiya.

דאמור כי האי תנא - כרבי שמעון דמתיר לכתחלה:

"Falaram de acordo com este mesmo tanna" — como Rabi Shimon, que permite de saída.

מלבנות המטה - כעין רגלים קטנים ויש להן בית קיבול ומכניס לתוכן ראשי כרעי המטה שלא ירקבו בארץ:

"As molduras da cama" — como pequenos pés, que têm um receptáculo, no qual se inserem as pontas das pernas da cama, para que não apodreçam no chão.

לווחים של סקיבס - עץ קטן כמין דף שתוקעין בקשת שקורין אבלשטר"א שעליו מושך החץ:

"As tábuas de encaixe" (sekivas) — uma peça pequena de madeira, como uma tábua, que se encaixa no arco chamado "abalestra", sobre a qual se puxa a flecha.

Nota sobre o texto

O daf 47a termina em pleno meio da baraita citada, de forma interrompida, logo após a palavra "פָּטוּר" ("isento") referente às tábuas de encaixe da cama — a continuação aparece apenas no início de 47b: "אֲבָל אָסוּר. וְלֹא יִתְקַע, וְאִם תָּקַע — חַיָּיב חַטָּאת. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: אִם הָיָה רָפוּי — מוּתָּר" ("...mas é proibido. E não deve encaixá-las com força; e, se as encaixou com força, é culpado de oferenda pelo pecado. Rabán Shimon ben Gamliel diz: se estava frouxo, é permitido"). A sugya sobre camas desmontáveis prossegue então em 47b com o caso da cama de Rav Chama, feita de peças enroláveis, e com nova discussão sobre "construção lateral".