O daf abre completando a baraita que ficara interrompida no fim de 46a: braceletes, argolas de nariz e anéis têm o mesmo estatuto de todos os utensílios que se pode carregar num pátio em Shabat, e Ula explica a razão: porque também têm sobre si a categoria de utensílio — a mesma distinção usada por Rav Avya diante de Rava. Rav Nachman bar Yitzchak comenta, aliviado: bendito o Misericordioso, que Rava não chegou a envergonhar Rav Avya, pois sua resposta se confirmou correta. Abre-se então nova sugya: Abaye contesta Rabá com uma baraita segundo a qual o óleo restante numa lâmpada ou numa tigela é proibido de usar, mas Rabi Shimon permite — o que mostraria que, para Rabi Shimon, não existe a categoria de muktzeh; e traz-se, em contradição, outro ensinamento de Rabi Shimon segundo o qual, quanto ao primogênito de um animal, uma mancha que não seja reconhecível desde a véspera da festa não conta como algo já preparado, mesmo para ele. A Guemará rejeita a comparação: no caso da lâmpada, a pessoa já se senta esperando o momento em que ela se apagará, enquanto, no caso do primogênito, não se pode dizer que a pessoa espera ou conta com o surgimento de uma mancha — e, mesmo que surja, não se sabe se será permanente, e mesmo que seja permanente, não se sabe se um sábio estará disponível para examiná-la. Rami bar Chama objeta trazendo a regra de que se anulam votos em Shabat, e se consulta um sábio sobre votos que dizem respeito à necessidade do Shabat — e nesse caso também não se sabe se o marido vai concordar em anular o voto da esposa, o que, pela mesma lógica, deveria impedir a permissão; a resposta invoca o ensinamento de Rav Pinchas em nome de Rava, de que toda mulher que faz um voto já o faz contando com a vontade do marido. Traz-se ainda outra objeção semelhante sobre a consulta a um sábio quanto a votos de necessidade do Shabat, resolvida notando que, na falta de um sábio, bastam três leigos — o que não se aplica ao caso do primogênito, que exige especificamente um sábio. A Guemará então retorna ao tema da lâmpada: Abaye pergunta a Rav Yosef se Rabi Shimon permite mover a lâmpada apenas depois que já se apagou, e não antes, por receio de que o próprio ato de segurá-la venha a apagá-la — mas isso pareceria contradizer o princípio de Rabi Shimon de que um ato não intencional é permitido, refletido no ensinamento de que se pode arrastar uma cadeira, uma cama ou um banco, desde que não se tenha a intenção de abrir um sulco no chão. Propõe-se então uma distinção: onde o ato, se intencional, constituiria proibição bíblica, Rabi Shimon decreta contra o ato não intencional também, por receio rabínico; onde o ato, se intencional, seria apenas proibição rabínica, Rabi Shimon permite o ato não intencional de saída, sem decreto algum. Rava, porém, objeta com o ensinamento sobre os vendedores de roupas, que podem vender vestindo suas mercadorias — mesmo de tecidos mistos (sha'atnez) — contanto que não tenham a intenção de se aquecer ao sol ou de se proteger da chuva; ali, vestir sha'atnez intencionalmente seria proibição bíblica, e ainda assim Rabi Shimon permite o ato não intencional de saída — contradizendo a distinção recém-proposta. O daf termina de forma interrompida, no meio da resposta de Rava — "Mas disse Rava:" —, cuja continuação, revelando que a verdadeira razão de proibir mover a lâmpada de óleo com pavio antes de se apagar é que ela se torna base para um objeto proibido (a chama acesa), aparece apenas no início de 47a.
"...braceletes, argolas de nariz e anéis são como todos os utensílios que se pode carregar num pátio." E disse Ula: qual é a razão? Porque também têm sobre si a categoria de utensílio. Aqui também (no caso da lâmpada de nafta discutido em 46a), porque há sobre ela a categoria de utensílio. Disse Rav Nachman bar Yitzchak: bendito o Misericordioso, que Rava não envergonhou Rav Avya (pois a resposta deste se confirmou correta pela própria baraita).
Completa-se aqui a citação que ficara interrompida no fim de 46a: a baraita ensina que braceletes, argolas de nariz e anéis — adornos que a mulher poderia usar — têm o mesmo estatuto de qualquer utensílio que se pode mover livremente num pátio em Shabat. Ula explica a razão exatamente nos termos que Rav Avya usara para distinguir a lâmpada das pedrinhas do pátio: esses adornos, por terem sido fabricados como utensílios, conservam essa categoria formal mesmo quando não estão sendo usados como vestimenta. A Guemará aplica a mesma razão de volta ao caso da lâmpada de nafta: ela também é permitida de mover porque tem sobre si a categoria de utensílio, exatamente como Rav Avya respondera. Rav Nachman bar Yitzchak encerra o episódio com um comentário quase carinhoso: como Rava pretendia atormentar Rav Avya com uma pergunta difícil, e a resposta deste se revelou correta e apoiada por uma baraita, bendito seja o Misericordioso por Rava não ter acabado envergonhando o visitante de pés enlameados.
"Os shirim (braceletes)" — são pulseiras de braço.
"São como todos os utensílios" — embora seja proibido sair com eles no domínio público, como se diz no capítulo "Bemá Ishá Yotzá" (adiante, Shabat 59b), por decreto, para que (a mulher) não os tire e os mostre (carregando-os na mão, o que constituiria transporte proibido); ainda assim, têm sobre si a categoria de utensílio, e é permitido movê-los quando não usados como vestimenta.
Abaye contestou Rabá (com uma contradição). Foi ensinado numa baraita: o óleo restante na lâmpada ou na tigela é proibido (usar em Shabat), mas Rabi Shimon permite. Isso mostra que, para Rabi Shimon, não existe a categoria de muktzeh! Mas trouxeram-lhe uma contradição: Rabi Shimon diz: todo (primogênito) cuja mancha não seja reconhecível desde a véspera do dia festivo não conta como algo já preparado (para o abate nesse dia)!
Abre-se uma nova sugya sobre os limites do muktzeh segundo Rabi Shimon. Uma baraita ensina que o óleo que sobra numa lâmpada ou numa tigela depois de terem sido usadas para a luz de Shabat é, em princípio, proibido de usar — pois a pessoa o havia destinado exclusivamente à iluminação —, mas Rabi Shimon permite seu uso. Abaye deduz daí que, para Rabi Shimon, a categoria de muktzeh simplesmente não existe: qualquer coisa pode ser usada, independentemente da intenção original. Mas essa dedução entra em contradição com outro ensinamento do próprio Rabi Shimon, relativo ao primogênito de um animal: a lei exige uma mancha permanente e reconhecida por um sábio para que o animal, normalmente proibido de abate, possa ser abatido; e Rabi Shimon ensina que, se a mancha não era reconhecível já na véspera do dia festivo, o animal não conta como "preparado" para esse dia, mesmo que a mancha seja identificada depois — o que soa como uma aplicação do próprio conceito de muktzeh (a pessoa não contava com aquele uso desde a véspera).
"Sua mancha é reconhecível" — refere-se ao primogênito (do animal, cuja mancha permite o abate).
É isso comparável agora? Ali (no caso da lâmpada), a pessoa se senta e espera quando sua lâmpada se apagará. Aqui (no caso do primogênito), será que a pessoa se senta e espera quando cairá nele uma mancha? Antes se diria: quem dirá que cairá nele uma mancha? E, mesmo que se diga que cairá nele uma mancha — quem dirá que será uma mancha permanente? E mesmo que se diga que caiu nele uma mancha permanente — quem dirá que um sábio se ocupará dele (para examiná-la)?
A Guemará rejeita a comparação entre os dois casos. No caso da lâmpada, a pessoa sabe com certeza que ela se apagará em algum momento — é apenas questão de tempo — e por isso pode, desde o início, contar mentalmente com o uso do óleo restante; a incerteza é só sobre quando. No caso do primogênito, porém, a incerteza é muito mais profunda e cumulativa: não se sabe sequer se uma mancha surgirá; mesmo que surja, não se sabe se será uma mancha permanente e halachicamente reconhecida (e não apenas passageira); e mesmo que seja permanente, não se sabe se algum sábio estará disponível para examiná-la e autorizar o abate. Por essa cadeia de incertezas, não há como dizer que a pessoa "conta" com esse uso futuro desde a véspera, e por isso Rabi Shimon aqui aplica a lógica do muktzeh, sem contradizer sua permissão quanto ao óleo da lâmpada.
"Quem dirá que um sábio se ocupará dele" — que se encontrará um sábio disposto, no dia festivo, a examinar se é uma mancha permanente ou não.
Objetou Rami bar Chama: anulam-se votos em Shabat, e consulta-se um sábio sobre votos que sejam para a necessidade do Shabat. Mas por quê? Que se diga: quem dirá que o marido se ocupará dele (consentindo em anular o voto de sua esposa)?
Rami bar Chama traz uma objeção paralela, na mesma lógica de "quem dirá". A Mishná permite que, em Shabat, um marido anule os votos de sua esposa, e que se consulte um sábio para dissolver votos que impedem algo necessário ao Shabat — por exemplo, um voto de jejuar naquele dia. Mas, se aplicássemos a mesma cadeia de incertezas usada para o primogênito, deveríamos perguntar: quem garante, de antemão, que o marido vai de fato concordar em anular o voto? Antes de ele efetivamente anulá-lo, a esposa não tem certeza alguma de que poderá comer — e, no entanto, a Mishná permite tratar do assunto em Shabat mesmo assim, sem invocar o muktzeh, o que pareceria contradizer a lógica da resposta anterior.
"Anulam-se votos" — o marido (anula os votos) de sua esposa.
"E consulta-se sobre votos" — a um sábio, para que os dissolva.
"Que são para necessidade do Shabat" — como um voto de não comer (algo) naquele dia.
"Mas por quê" — (pergunta-se): ela poderia comer; e, mesmo que o marido a permita, deveria estar proibido para ela por muktzeh, pois ela havia tirado o pensamento (daquele alimento), dizendo: quem dirá que o marido se ocupará (de anular meu voto)?
Ali (a resposta) é como (o ensinamento de) Rav Pinchas em nome de Rava. Pois disse Rav Pinchas em nome de Rava: toda mulher que faz um voto, faz o voto contando com a vontade de seu marido. Venha e ouça (outra objeção semelhante): consulta-se sobre votos de necessidade do Shabat, em Shabat. Mas por quê? Que se diga: quem dirá que um sábio se ocupará dele? Ali (quanto aos votos) — se um sábio não se ocupar, basta com três leigos. Aqui (quanto ao primogênito) — quem dirá que um sábio se ocupará dele (pois só um sábio pode examinar essa mancha).
A Guemará resolve a objeção de Rami bar Chama citando o ensinamento de Rav Pinchas em nome de Rava: quando uma mulher faz um voto, ela já o faz sabendo que está sujeita à vontade do marido — ou seja, desde o início ela conta com a possibilidade concreta de que ele a libere, o que não é o caso de uma incerteza aberta como a do primogênito. Traz-se ainda uma segunda objeção parecida, sobre a consulta a um sábio para votos de necessidade do Shabat — mas essa é resolvida de modo diferente: quanto aos votos, mesmo que nenhum sábio esteja disponível, bastam três leigos comuns para formar um tribunal e dissolver o voto, de modo que a solução está sempre ao alcance; já quanto ao primogênito, a lei exige especificamente um sábio qualificado para examinar a mancha, e essa exigência mais estrita é o que sustenta a aplicação do muktzeh nesse caso.
"Contando com a vontade de seu marido" — sob a condição de que o marido queira; e ela confia nisso, que ele se ocupará do voto no dia em que ouvir dele.
"Aqui, quem dirá etc." — pois leigos não podem permitir (o abate) do primogênito, senão por uma mancha conhecida por todos, como a falta de um membro.
Abaye contestou Rav Yosef: será que Rabi Shimon disse: depois de apagada, é permitido movê-la — depois de apagada, sim; ainda não apagada, não? Qual é a razão? Talvez porque, enquanto a segura, ela venha a se apagar? Mas nós ouvimos Rabi Shimon dizer que um ato não intencional é permitido! Pois foi ensinado: Rabi Shimon diz: uma pessoa pode arrastar uma cadeira, uma cama e um banco, contanto que não tenha a intenção de fazer um sulco (no chão)!
Abaye questiona a Rav Yosef a formulação exata da permissão de Rabi Shimon quanto à lâmpada apagada, discutida ao longo do daf anterior: será que a permissão vale apenas depois que a lâmpada já se apagou, e não antes? Se assim é, a razão só pode ser o receio de que, ao segurá-la ainda acesa para movê-la, o próprio manuseio acabe por apagá-la — constituindo um apagamento (melachá de kibuy) não intencional. Mas isso pareceria contradizer um princípio central de Rabi Shimon: que um ato não intencional (davar she-eino mitkavein) é permitido, mesmo que sua ocorrência seja fisicamente possível — como no caso, já conhecido, de que se pode arrastar móveis pesados pelo chão, mesmo correndo o risco de abrir um sulco, desde que não haja intenção de cavar.
Em todo lugar onde, se houvesse intenção, haveria proibição da Torá — quando não há intenção, Rabi Shimon decreta (proibição) por (receio) rabínico. Em todo lugar onde, se houvesse intenção, haveria apenas proibição rabínica — quando não há intenção, Rabi Shimon permite de saída, sem receio algum.
A Guemará propõe uma distinção que resolveria a aparente contradição: apagar uma chama é, por si só, uma melachá principal (av melachá), proibida pela Torá quando feita intencionalmente; por isso, mesmo o apagamento não intencional — que ocorreria ao segurar a lâmpada ainda acesa — é objeto de um decreto rabínico preventivo por parte de Rabi Shimon, e por isso ele só permite mover a lâmpada depois que já se apagou. Já cavar um sulco arrastando um móvel, mesmo que feito intencionalmente, constitui apenas uma proibição rabínica (por ser um modo incomum, indireto, de cavar), e por isso, quando feito sem intenção, Rabi Shimon permite de saída, sem necessidade de qualquer decreto adicional.
"Proibição da Torá" — apagar (a chama) é uma melachá principal; já (fazer) um sulco não constitui proibição da Torá, pois cavar dessa forma é feito de modo incomum — pois cavar, o que se diz adiante ser uma toldá de lavrar e obrigar (o transgressor), refere-se a quem cava do modo usual, com enxada e picareta.
Objetou Rava: vendedores de roupas (mesmo de tecidos mistos) podem vendê-las do modo costumeiro (vestindo-as para mostrá-las), contanto que não tenham a intenção, no sol, de se beneficiar do calor do sol, nem, na chuva, de se proteger da chuva; e os mais recatados as jogam sobre um bastão, atrás de si. Mas aqui, justamente, se houvesse intenção haveria proibição da Torá (pois vestir sha'atnez é proibição bíblica), e ainda assim, sem intenção, Rabi Shimon permite de saída! Mas disse Rava: …
Rava desafia a distinção recém-proposta com um caso conhecido: a lei permite que vendedores de roupas de tecidos mistos (sha'atnez) as vistam para exibi-las ao mercado, desde que não pretendam, com isso, aproveitar-se do calor do sol ou da proteção contra a chuva — e os mais cuidadosos evitam mesmo essa aparência, carregando a roupa pendurada num bastão atrás de si. Ora, vestir sha'atnez intencionalmente é uma proibição bíblica das mais graves; segundo a distinção proposta, isso deveria levar Rabi Shimon a decretar contra o uso não intencional também, por receio rabínico — mas, ao contrário, ele permite esse uso de saída, sem qualquer decreto, contradizendo diretamente a regra que acabara de se formular. O daf termina exatamente no ponto em que Rava começa a responder à própria objeção que levantou: "Mas disse Rava:" — e o texto se interrompe.
"Vendem do modo costumeiro" — mesmo (uma roupa) de tecidos mistos, vestindo-a para mostrá-la no mercado.
"Contanto que não tenha a intenção" — de se beneficiar do calor; e esta é (a posição de) Rabi Shimon, pois ele se guia pela intenção.
O daf 46b termina em plena resposta de Rava, de forma interrompida: "Mas disse Rava: …" — a continuação aparece apenas no início de 47a, onde se revela que a verdadeira razão de proibir mover a lâmpada de óleo com pavio, antes que se apague, não é a distinção entre proibição bíblica e rabínica proposta acima, mas sim que a lâmpada acesa se torna uma base (báses) para um objeto proibido — a própria chama que ainda arde —, e um utensílio que serve de base a algo proibido fica, ele mesmo, proibido de mover enquanto essa condição persistir. A sequência prossegue com o relato de Rabi Zeira em nome de uma cadeia de transmissores até Rabi Romanos sobre mover um braseiro por suas cinzas, e a discussão sobre o muktzeh de Rabi Shimon continua a se aprofundar.