O daf abre completando a Mishná que o sábio novato havia citado a Rava ao fim de 49b: depois de "como ele faz?", a resposta é "remove a tampa, e elas caem" — mostrando que, mesmo quando se escondeu comida na tosquia de lã, ainda assim não se pode manusear a lã diretamente, apenas remover a tampa por cima dela, o que parecia contradizer a regra de Rava. A Guemará resolve a dificuldade corrigindo a própria formulação da regra: Rava não disse que basta ter escondido algo uma vez na tosquia, mas que só se pode manuseá-la quando ela foi designada permanentemente para esconder; um uso isolado, como o da Mishná, não basta. Essa versão corrigida é confirmada por uma tradição paralela, trazida por Ravin em nome de Rabi Yaakov, Rabi Asi ben Shaul e, por fim, de Rabi Yehudá HaNassi. Ravina oferece ainda uma leitura alternativa, situando a proibição da própria Mishná na tosquia reservada como mercadoria de comércio (hefteq), que por natureza será devolvida ao seu lugar e nunca é designada para esconder — ao passo que a tosquia de um dono de casa comum, uma vez usada para esse fim, pode ser manuseada livremente, apoiada por uma baraita paralela. Encerrado esse tema, a Guemará passa a uma nova baraita, ensinada por Rabá bar bar Chaná diante de Rav: ramos de tamareira cortados para servir de lenha, mas depois reconsiderados para servir de assento, precisam ser atados juntos para que se possa sentar-se sobre eles em Shabat, segundo a opinião anônima; Rabán Shimon ben Gamliel discorda, bastando o pensamento de destiná-los a esse fim, e a lei segue sua opinião. Um debate posterior refina ainda mais o critério: Rav exige atar; Shmuel considera suficiente apenas pensar; e Rav Asi vai além, bastando ter-se sentado sobre eles uma vez antes de Shabat, mesmo sem ato de atar nem pensamento explícito — posição apoiada por baraitot sobre curativos untados com azeite e sobre palha usada como travesseiro. A Guemará identifica o tanna que exige o ato de atar com Rabi Chanina ben Akiva, através de uma história em que ele mandou seus discípulos "pensarem" sobre ramos de tamareira numa casa de festa ou de luto — lugares de pressa, onde não haveria tempo para atar. Em seguida, a Guemará traz a regra de Rav Yehudá, de que se pode trazer uma cesta cheia de terra para dentro de casa e usá-la livremente para toda necessidade, refinada por Mar Zutra (é preciso destinar-lhe um canto) e por Rav Papa (a exigência geral de um ato demonstrativo só vale para objetos capazes de recebê-lo; a terra solta não é um deles). O daf fecha com uma tentativa de encontrar essa mesma disputa — sobre a necessidade de um ato — numa baraita sobre esfregar utensílios com natrão e areia, tentativa que a Guemará rejeita, identificando ali, em vez disso, a conhecida disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Shimon sobre a coisa que não se pretende; a citação final dessa baraita, sobre lavar o cabelo, fica interrompida no meio, prosseguindo com a Mishná do nazireu logo no início de 50b.
(Completando a citação da Mishná, interrompida ao fim de 49b, na pergunta "como ele faz?":) Remove-se a tampa (da panela escondida na tosquia), e elas (as fibras de lã) caem (sozinhas, sem que se toque diretamente na lã).
Aqui se completa a citação da Mishná feita pelo sábio novato: ela ensina que, mesmo tendo-se escondido uma panela quente na tosquia de lã, ainda assim não se pode manusear a lã diretamente para tirar a panela; o procedimento correto é remover apenas a tampa que cobre a panela, deixando que a lã caia por si mesma ao redor. Essa é precisamente a objeção à regra de Rava, citada ao fim de 49b: se bastasse ter escondido algo na tosquia uma vez para tornar toda a lã manuseável, não haveria necessidade desse procedimento indireto — a Mishná permitiria simplesmente tirar a lã com a mão.
"Remove-se a tampa" — logo, também quanto àquelas (fibras) com que se escondeu, a Mishná proíbe manuseá-las, a não ser por meio da remoção da tampa.
Mas, se foi dita (a regra de Rava), assim foi dita: disse Rava, não se ensinou (que não se pode manusear a tosquia) senão quando não a designou permanentemente para esconder; mas, se a designou permanentemente para esconder, pode-se manuseá-la.
A Guemará resolve a contradição corrigindo a própria formulação da regra de Rava, tal como havia sido citada em 49b. Não se trata de um simples ato de esconder algo uma vez na tosquia, o que de fato não bastaria para permitir seu manuseio — como prova a Mishná recém-citada. A regra correta de Rava é outra: a tosquia só se torna manuseável quando o dono a designou permanentemente para esse fim, isto é, reservou-a de modo contínuo como material de esconder, e não apenas a usou uma vez de passagem. Com essa correção, a objeção do sábio novato deixa de ter força.
"Designou-as permanentemente para esconder" — para sempre (reservando-as de modo contínuo para esse fim, e não apenas por uma vez).
Também se disse assim: quando veio Ravin (da Terra de Israel para a Babilônia), disse Rabi Yaakov, disse Rabi Asi filho de Shaul, disse Rabi (Yehudá HaNassi): não se ensinou (a proibição) senão quando não a designou permanentemente para esconder; mas, se a designou permanentemente para esconder, pode-se manuseá-la.
A versão corrigida da regra de Rava é confirmada de modo independente por uma tradição paralela, transmitida através de uma longa cadeia — Ravin, ao subir da Terra de Israel, trouxe o ensinamento em nome de Rabi Yaakov, que o recebera de Rabi Asi ben Shaul, que o recebera do próprio Rabi Yehudá HaNassi. A coincidência exata de formulação, palavra por palavra, reforça que esta é de fato a versão autêntica da regra, e não a que fora citada de início em 49b.
Ravina diz: a respeito da tosquia de comércio (hefteq) se ensinou isto (a proibição da Mishná, sem que isso contradiga Rava). Também se ensinou assim numa baraita: a tosquia de lã de comércio não se pode manusear; mas, se o dono de casa a preparou para uso próprio, pode-se manuseá-la.
Ravina propõe uma leitura alternativa que preserva a regra original de Rava tal como fora entendida — que basta ter escondido algo uma vez —, sem precisar corrigi-la: a Mishná que fala em "esconder-se com tosquia de lã, sem poder manuseá-la" refere-se especificamente à tosquia reservada como estoque de comércio (hefteq), um grande depósito de mercadoria que, por sua própria natureza, será sempre devolvido ao seu lugar depois de usado, e por isso nunca é verdadeiramente designado para esconder. Já a tosquia comum de um dono de casa, uma vez usada para esconder algo, é de fato liberada para manuseio, tal como Rava havia dito originalmente. Uma baraita paralela confirma exatamente essa distinção entre a tosquia de comércio e a que o dono de casa preparou para uso próprio.
"Ravina diz" — a regra continua sendo como Rava disse originalmente: se escondeu algo com elas, é permitido manuseá-las, pois isso equivale a tê-las designado para esse fim; e Rava não se referia à própria Mishná, pois a Mishná fala de tosquia de comércio, que certamente será devolvida a seu lugar, e por isso nunca foi designada para aquilo.
"Hefteq" — um grande depósito que se organiza e se estabelece para reservar como mercadoria de comércio, chamado, no vernáculo, "tas", seja de roupas, de lã, de gafanhotos ou de carne salgada.
Ensinou Rabá bar bar Chaná diante de Rav: ramos de tamareira que se cortaram para lenha, e depois se reconsiderou usá-los para sentar — é preciso atá-los juntos (para demonstrar a nova destinação). Rabán Shimon ben Gamliel diz: não é preciso atá-los. Ele mesmo (Rav) ensinou-a (a baraita), e ele mesmo decidiu: a lei é como Rabán Shimon ben Gamliel.
Encerrado o tema da tosquia, a Guemará passa a um novo caso de reconsideração de destinação: ramos duros de tamareira, cortados originalmente para servir de lenha — e por isso reservados (muktzeh) — mas que depois se decidiu usar como assento. A opinião anônima da baraita exige um ato concreto, atar os ramos juntos ainda antes de Shabat, para demonstrar objetivamente a nova destinação; o pensamento sozinho não bastaria. Rabán Shimon ben Gamliel discorda, considerando suficiente a mera intenção de destiná-los ao assento, sem exigir nenhum ato demonstrativo. Rav, que transmitiu a própria baraita, também decidiu a lei a favor de Rabán Shimon ben Gamliel.
"Ramos" (chariot) — ramos que se tornaram duros como madeira depois de endurecidos: os caules dos lulavim, depois que suas folhas caíram, chamam-se "chariot".
"Que os cortou" — todo corte de tâmaras se chama "guedirá".
"É preciso atá-los" — atá-los juntos ainda de dia, antes de Shabat, para demonstrar que estão destinados a sentar-se; e, se não os atou juntos, é proibido manuseá-los no dia seguinte, pois o pensamento sozinho não constitui designação.
Disse-se: Rav disse: (é preciso) atar; e Shmuel disse: (basta) pensar; e Rav Asi disse: (basta ter-se) sentado (sobre eles antes de Shabat), ainda que não tenha atado e ainda que não tenha pensado.
Um debate posterior entre três amoraítas refina o critério para liberar do estatuto de muktzeh objetos reconsiderados: Rav mantém a exigência do ato concreto de atar; Shmuel considera suficiente o pensamento de destiná-los ao assento; e Rav Asi vai ainda mais longe, dispensando tanto o ato quanto o pensamento explícito — basta que a pessoa já tenha se sentado sobre os ramos uma vez antes de Shabat, pois esse próprio gesto já revela, por si, a intenção de destiná-los ao uso de assento.
"E Rav Asi disse: sentou-se" — sobre eles ainda de dia, antes de Shabat.
"Ainda que não tenha pensado" — em sentar-se sobre eles no dia seguinte; mas, ao sentar-se uma vez, já revelou sua intenção de que estão destinados a sentar-se.
Está bem que Rav diz como o primeiro tanna (anônimo, que exige atar), e Shmuel também diz como Rabán Shimon ben Gamliel (que basta pensar); mas Rav Asi, com quem (dos tannaítas) ele concorda?
A Guemará observa que as posições de Rav e de Shmuel correspondem exatamente às duas opiniões já conhecidas da baraita de Rabá bar bar Chaná — a anônima, que exige o ato de atar, e a de Rabán Shimon ben Gamliel, que se contenta com o pensamento. Mas a posição de Rav Asi, ainda mais permissiva, não corresponde a nenhuma das duas; a Guemará busca então uma fonte tannaítica para essa terceira posição.
Ele (Rav Asi) diz como este tanna, que se ensinou: sai-se (em Shabat para o domínio público, usando) curativos de linho penteado e de lã cardada (sobre uma ferida), quando os untou com azeite e os amarrou com cordão. (Se) não os untou com azeite nem os amarrou com cordão — não se sai com eles. Mas, se saiu com eles uma hora ainda de dia (antes de Shabat), ainda que não os tenha untado nem amarrado com cordão, é permitido sair com eles.
A Guemará encontra a fonte da posição de Rav Asi numa baraita sobre curativos colocados sobre feridas: em geral, só se pode sair com eles ao domínio público em Shabat se foram untados com azeite e amarrados com cordão, gestos que revelam que estão destinados a permanecer sobre a ferida como parte da vestimenta, e não como um simples fardo. Mas, se a pessoa já saiu com eles uma vez antes de Shabat, esse próprio gesto — sem nenhum untar ou amarrar — já basta para permitir seu uso, exatamente como disse Rav Asi quanto aos ramos de tamareira.
"Curativos de linho" (pakorin) — linho penteado que se coloca sobre a ferida.
"E de lã cardada" (tzipa) — lã cardada que se coloca sobre a ferida.
"Quando os untou com azeite" — revelou sua intenção de que estão destinados à ferida, para colocá-los sobre ela em Shabat; pois não são para cura, mas para que suas roupas não arranhem a ferida, e assim se tornam como uma vestimenta comum; mas, se não os untou com azeite, não são vestimenta, tornam-se um fardo, e não se sai com eles para o domínio público.
"Mas, se saiu com eles etc." — isto é como Rav Asi, que disse "sentou-se", ainda que não tenha atado nem pensado.
Disse Rav Ashi: também nós aprendemos isto (noutra Mishná): a palha que está sobre a cama não se deve sacudi-la com a mão, mas pode-se sacudi-la com o corpo. Mas, se havia sobre ela comida de animal, ou se havia sobre ela um travesseiro ou um lençol ainda de dia (antes de Shabat), pode-se sacudi-la com a mão. Aprenda-se disto (a posição de Rav Asi).
Rav Ashi encontra apoio adicional para a posição de Rav Asi numa Mishná sobre a palha usada como enchimento de cama: em regra, é proibido manuseá-la diretamente com a mão, pois se presume destinada a barro ou combustível, e é reservada. Mas, se sobre ela havia sido colocada comida de animal, ou se a própria pessoa a usou como travesseiro ou lençol antes de Shabat, isso basta para liberá-la — sem exigir nenhum ato de atar nem pensamento explícito de designação para o dia seguinte, confirmando assim a posição de Rav Asi.
"Também nós aprendemos isto" — como Rav Asi.
"Palha" — por padrão está destinada a barro para tijolos ou para combustível, e é reservada (muktzeh); e, se estava colocada sobre a cama sem ser para deitar-se sobre ela, e em Shabat quis deitar-se sobre ela, precisou sacudi-la e espalhá-la para se deitar, para que não ficasse amontoada e dura.
"Não deve sacudi-la com a mão" — pois é proibido manuseá-la.
"Mas pode sacudi-la com o corpo" — de modo indireto.
"Ou se havia sobre ela um travesseiro ou um lençol" — sobre os quais se deitou ainda de dia, mesmo que não os tenha designado para isso nem pensado neles — isto é como Rav Asi.
E qual tanna discorda de Rabán Shimon ben Gamliel (exigindo o ato de atar)? Rabi Chanina ben Akiva. Pois, quando veio Rav Dimi (da Terra de Israel), disse Ze'eiri, disse Rabi Chanina: certa vez foi Rabi Chanina ben Akiva a um certo lugar, e encontrou ramos de tamareira que haviam sido cortados para lenha, e disse a seus discípulos: saí e pensai (sobre destiná-los a assento), para que nos sentemos sobre eles amanhã. E não sei se era uma casa de festa de casamento, ou se era uma casa de luto.
A Guemará identifica o tanna anônimo que exige o ato de atar — na baraita de Rabá bar bar Chaná — como sendo Rabi Chanina ben Akiva, com base numa tradição transmitida por Rav Dimi, ao subir da Terra de Israel, em nome de Ze'eiri, em nome de Rabi Chanina. Segundo o relato, Rabi Chanina ben Akiva, ao encontrar ramos de tamareira já cortados para lenha num certo lugar, instruiu seus discípulos a apenas "pensarem" em destiná-los a assento, sem exigir que os atassem — mas Ze'eiri, ao transmitir a história, admite não se lembrar se o local era uma casa de festa de casamento ou uma casa de luto.
"E qual tanna" — daquele de antes, que disse ser preciso atar, e discorda de Rabán Shimon.
"E não sei" — é Ze'eiri quem diz isto.
Do fato de (Ze'eiri) dizer "se era casa de festa de casamento, ou se era casa de luto" (aprende-se que): especificamente numa casa de luto ou numa casa de festa de casamento, onde (as pessoas) estão ocupadas (e não teriam tempo de atar, basta o pensamento); mas aqui, (em circunstâncias comuns), se atou — sim (pode manusear); se não atou — não.
A Guemará explica por que a incerteza de Ze'eiri quanto ao lugar da história é relevante: Rabi Chanina ben Akiva só dispensou o ato de atar precisamente porque o local — fosse casa de festa, fosse casa de luto — era um lugar de grande atarefamento, onde não haveria tempo disponível para atar os ramos ainda de dia. Fora desse contexto específico de pressa, porém, Rabi Chanina ben Akiva concordaria com a exigência geral do ato de atar; a permissão de bastar o pensamento não se generaliza para todas as situações.
"Que estão ocupadas" — e não puderam atar ainda de dia; e apenas ali é que se permite sem atar, mas em geral, não.
Disse Rav Yehudá: uma pessoa pode trazer sua cesta cheia de terra (para dentro de casa), e fazer com ela todo o seu necessário. Ensinou Mar Zutra, em nome de Mar Zutra, o Grande: e isso desde que tenha destinado para ela um canto.
Rav Yehudá ensina que é permitido trazer para dentro de casa, em Shabat, uma cesta cheia de terra, e usá-la livremente para cobrir excrementos, saliva ou qualquer outra necessidade — apesar de a terra ser, em princípio, reservada (muktzeh) por não ter uso próprio definido antecipadamente. Mar Zutra, transmitindo em nome de Mar Zutra, o Grande, acrescenta uma condição: essa permissão só vale se o dono da casa destinou previamente um canto específico para receber essa terra, o que a torna algo preparado e reservado para esse fim; se, em vez disso, a espalhou pelo meio da casa, onde será pisada, ela se anula ao piso e permanece reservada.
"Traz sua cesta cheia de terra" — para cobrir excremento e saliva com ela; e despeja a terra dentro de sua casa no chão, e a toma sempre para todo o seu necessário.
"E isso desde que tenha destinado para ela um canto" — pois assim ela fica como algo preparado e destinado para isso; mas, se a colocou no meio de sua casa, para ser pisada pelos pés, ela se anula em relação ao piso da casa, torna-se reservada (muktzeh), e é proibida.
Disseram os sábios diante de Rav Papa: (esta lei de Rav Yehudá e Mar Zutra) segue quem — segue Rabán Shimon ben Gamliel; pois, se fosse como os sábios (que discordam dele quanto aos ramos de tamareira), eles dizem que é preciso um ato (demonstrativo, e não bastaria apenas destinar mentalmente um canto).
Os sábios da academia observam diante de Rav Papa que a condição de Mar Zutra — bastar destinar um canto, sem exigir nenhum ato demonstrativo sobre a própria terra — só se sustenta segundo a opinião de Rabán Shimon ben Gamliel, que se contenta com o pensamento de designação. Segundo a opinião anônima dos sábios, que exige um ato concreto como o de atar os ramos de tamareira, essa regra sobre a terra pareceria, à primeira vista, insustentável, pois não há como realizar um ato demonstrativo sobre terra solta despejada num canto.
Disse-lhes Rav Papa: ainda que digas (que a lei segue) os sábios, eles só disseram que é preciso um ato quando se trata de algo em que se pode realizar um ato demonstrativo; mas, quando se trata de algo em que não se pode realizar tal ato, não (é preciso — basta o pensamento).
Rav Papa responde que não há, na verdade, nenhuma contradição: mesmo os sábios que exigem um ato demonstrativo — como atar os ramos de tamareira, algo capaz de receber tal ato — só o exigem nos casos em que esse ato é fisicamente possível. Mas a terra solta despejada num canto não é passível de nenhum ato equivalente a "atar"; portanto, mesmo segundo os sábios, basta aqui o pensamento de destinar-lhe um canto, sem contradizer sua posição geral sobre os ramos de tamareira.
"Segue Rabán Shimon" — que permite apenas com o pensamento, sem nenhum ato demonstrativo de que está destinado ao seu uso.
"Coisa em que se pode realizar um ato" — que é passível de ato, em que se pode fazer um ato demonstrativo.
Digamos (que esta distinção de Rav Yehudá, sobre o que admite ato) é objeto de disputa tannaítica: com qualquer coisa se esfregam os utensílios (em Shabat, para poli-los), exceto utensílios de prata com gartekon. Isto (implica que) natrão e areia são permitidos (mesmo para utensílios de prata).
A Guemará tenta encontrar, numa baraita sobre esfregar utensílios em Shabat, o mesmo tipo de distinção que Rav Papa havia proposto — entre coisas que admitem um ato demonstrativo e coisas que não admitem. A baraita permite esfregar utensílios com qualquer substância, exceto que utensílios de prata não podem ser esfregados com gartekon, uma substância abrasiva específica; disso se infere que natrão e areia, substâncias mais suaves, são permitidos até mesmo para utensílios de prata.
"Digamos que é disputa tannaítica" — esta distinção de Rav Yehudá quanto a algo em que não se pode realizar um ato.
"Esfregam" — esfregam os utensílios em Shabat para poli-los.
"Exceto utensílios de prata com gartekon" — uma espécie de terra que cresce em barris de vinho, chamada, no vernáculo, "alum"; é o principal meio de polir utensílios de prata, e o raspa, pois a prata é mole; e isso é "alisar" (memachek), que é uma categoria primária de trabalho.
"Mas natrão e areia são permitidos" — pois não raspam a prata.
Mas não se ensinou (noutra baraita): natrão e areia são proibidos! Não é isto que (os dois tannaítas) discordam quanto a isto: um sábio entende que é preciso um ato, e o outro sábio entende que não é preciso um ato?
A Guemará traz uma segunda baraita que parece contradizer a primeira: ela proíbe explicitamente esfregar utensílios com natrão e areia. À primeira vista, isso confirmaria a hipótese de que as duas baraitot representam a mesma disputa entre os sábios sobre se é preciso, ou não, um ato demonstrativo para retirar algo do estatuto de reservado — aqui aplicada à terra solta que compõe o natrão e a areia, que não é passível de tal ato.
"Não é isto" — aquilo que se ensinou que é proibido não é por raspar a prata, mas por ser reservado (muktzeh) que o proíbe; e o tanna que permite refere-se a quando trouxe sua cesta cheia para isso e a despejou sobre o chão; e quem proíbe entende que é preciso um ato demonstrativo, e este (natrão e areia) não pode tê-lo.
Não; todos concordam que não é preciso um ato, e não há dificuldade: um (ensina) como Rabi Yehudá, o outro como Rabi Shimon.
A Guemará rejeita a comparação: na verdade, ambos os tannaítas concordam que não se exige nenhum ato demonstrativo para permitir natrão e areia, aceitando a distinção de Rav Yehudá e Rav Papa. A verdadeira disputa entre as duas baraitot é outra, bem conhecida: a disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Shimon sobre a coisa que não se pretende.
Este (que proíbe) é Rabi Yehudá, que diz: uma coisa que não se pretende (seu efeito colateral proibido) é proibida; aquele (que permite) é Rabi Shimon, que diz: uma coisa que não se pretende é permitida.
A Guemará explica a base da disputa: esfregar prata com natrão e areia pode, ocasionalmente, acabar por raspar levemente o metal — um efeito que se enquadraria na categoria proibida de "alisar" —, ainda que ninguém pretenda esse resultado ao esfregar. Rabi Yehudá proíbe qualquer ação cujo efeito colateral proibido possa ocorrer, mesmo sem intenção; Rabi Shimon permite, desde que o efeito não seja pretendido nem inevitável.
Em que (baraita) estabeleceste esta que permite (natrão e areia)? Como Rabi Shimon; então diz a parte final (dessa mesma baraita): mas não se deve lavar com eles o cabelo; e, se é (a mesma baraita de) Rabi Shimon, ele deveria permitir (também isto, pois não se pretende arrancar os cabelos)! Pois aprendemos (na Mishná sobre o nazireu): …
A Guemará levanta uma última dificuldade contra atribuir a baraita permissiva a Rabi Shimon: essa mesma baraita, em sua continuação, proíbe lavar o cabelo com natrão e areia — mas, se o autor fosse mesmo Rabi Shimon, que permite a coisa que não se pretende, ele deveria permitir também isso, já que ninguém pretende arrancar os próprios cabelos ao lavá-los. A Guemará começa a responder citando a Mishná paralela sobre as leis do nazireu, mas o texto do daf 50a se interrompe exatamente neste ponto, no meio da citação, indicada pela palavra "דתנן" ("pois aprendemos"). A continuação — a Mishná "o nazireu esfrega e desembaraça o cabelo, mas não penteia" — e o restante da resposta da Guemará só aparecem no início de 50b.
"Não deve lavar com eles" — com natrão e areia seu cabelo em Shabat, porque os faz cair.