Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Dalet · Bameh Tomnin
יִחוּד לְהַטְמָנָה

A correção da regra de Rava sobre tosquia designada permanentemente para esconder, e a distinção de Ravina sobre tosquia de comércio; os ramos de tamareira cortados para lenha e reconsiderados para sentar, entre atar, pensar e sentar-se; a cesta de terra que basta destinar a um canto; e o esfregar de utensílios de prata com natrão e areia, remetido à disputa sobre a coisa que não se pretende, interrompido e concluído em 50b

Shabbat 50a — completa a Mishná citada pelo sábio novato ao fim de 49b e corrige a atribuição da regra de Rava, agora sobre designar permanentemente a tosquia para esconder, com apoio de Ravin em nome de Rabi, e a distinção final de Ravina entre tosquia comum e tosquia de comércio (hefteq); traz a baraita de Rabá bar bar Chaná sobre ramos de tamareira cortados para lenha e reconsiderados para assento, com a disputa entre Rav (atar), Shmuel (pensar) e Rav Asi (basta sentar-se), apoiada por baraitot sobre curativos e sobre palha na cama, e identificada com a história de Rabi Chanina ben Akiva numa casa de festa ou de luto; a regra de Rav Yehudá sobre trazer terra numa cesta, refinada por Mar Zutra e por Rav Papa quanto à necessidade de um ato demonstrativo; e o fechamento do daf com a tentativa de ler como disputa tannaítica o esfregar de utensílios de prata com natrão e areia, resolvida como a disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Shimon sobre a coisa que não se pretende, cuja citação final fica interrompida e prossegue com a Mishná do nazireu em 50b

O daf abre completando a Mishná que o sábio novato havia citado a Rava ao fim de 49b: depois de "como ele faz?", a resposta é "remove a tampa, e elas caem" — mostrando que, mesmo quando se escondeu comida na tosquia de lã, ainda assim não se pode manusear a lã diretamente, apenas remover a tampa por cima dela, o que parecia contradizer a regra de Rava. A Guemará resolve a dificuldade corrigindo a própria formulação da regra: Rava não disse que basta ter escondido algo uma vez na tosquia, mas que só se pode manuseá-la quando ela foi designada permanentemente para esconder; um uso isolado, como o da Mishná, não basta. Essa versão corrigida é confirmada por uma tradição paralela, trazida por Ravin em nome de Rabi Yaakov, Rabi Asi ben Shaul e, por fim, de Rabi Yehudá HaNassi. Ravina oferece ainda uma leitura alternativa, situando a proibição da própria Mishná na tosquia reservada como mercadoria de comércio (hefteq), que por natureza será devolvida ao seu lugar e nunca é designada para esconder — ao passo que a tosquia de um dono de casa comum, uma vez usada para esse fim, pode ser manuseada livremente, apoiada por uma baraita paralela. Encerrado esse tema, a Guemará passa a uma nova baraita, ensinada por Rabá bar bar Chaná diante de Rav: ramos de tamareira cortados para servir de lenha, mas depois reconsiderados para servir de assento, precisam ser atados juntos para que se possa sentar-se sobre eles em Shabat, segundo a opinião anônima; Rabán Shimon ben Gamliel discorda, bastando o pensamento de destiná-los a esse fim, e a lei segue sua opinião. Um debate posterior refina ainda mais o critério: Rav exige atar; Shmuel considera suficiente apenas pensar; e Rav Asi vai além, bastando ter-se sentado sobre eles uma vez antes de Shabat, mesmo sem ato de atar nem pensamento explícito — posição apoiada por baraitot sobre curativos untados com azeite e sobre palha usada como travesseiro. A Guemará identifica o tanna que exige o ato de atar com Rabi Chanina ben Akiva, através de uma história em que ele mandou seus discípulos "pensarem" sobre ramos de tamareira numa casa de festa ou de luto — lugares de pressa, onde não haveria tempo para atar. Em seguida, a Guemará traz a regra de Rav Yehudá, de que se pode trazer uma cesta cheia de terra para dentro de casa e usá-la livremente para toda necessidade, refinada por Mar Zutra (é preciso destinar-lhe um canto) e por Rav Papa (a exigência geral de um ato demonstrativo só vale para objetos capazes de recebê-lo; a terra solta não é um deles). O daf fecha com uma tentativa de encontrar essa mesma disputa — sobre a necessidade de um ato — numa baraita sobre esfregar utensílios com natrão e areia, tentativa que a Guemará rejeita, identificando ali, em vez disso, a conhecida disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Shimon sobre a coisa que não se pretende; a citação final dessa baraita, sobre lavar o cabelo, fica interrompida no meio, prosseguindo com a Mishná do nazireu logo no início de 50b.

A correção da regra de Rava sobre tosquia designada permanentemente · יִחֲדָן לְהַטְמָנָה

01"Remove-se a tampa, e elas caem" (completa a Mishná citada ao fim de 49b)
Mishná, citada pelo sábio novato
נוֹטֵל אֶת הַכִּיסּוּי, וְהֵן נוֹפְלוֹת.

(Completando a citação da Mishná, interrompida ao fim de 49b, na pergunta "como ele faz?":) Remove-se a tampa (da panela escondida na tosquia), e elas (as fibras de lã) caem (sozinhas, sem que se toque diretamente na lã).

Nota

Aqui se completa a citação da Mishná feita pelo sábio novato: ela ensina que, mesmo tendo-se escondido uma panela quente na tosquia de lã, ainda assim não se pode manusear a lã diretamente para tirar a panela; o procedimento correto é remover apenas a tampa que cobre a panela, deixando que a lã caia por si mesma ao redor. Essa é precisamente a objeção à regra de Rava, citada ao fim de 49b: se bastasse ter escondido algo na tosquia uma vez para tornar toda a lã manuseável, não haveria necessidade desse procedimento indireto — a Mishná permitiria simplesmente tirar a lã com a mão.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "notel et hakisui"
נוטל את הכיסוי - אלמא בהנך דטמן נמי קאסר לטלטולי אלא על ידי כיסוי:

"Remove-se a tampa" — logo, também quanto àquelas (fibras) com que se escondeu, a Mishná proíbe manuseá-las, a não ser por meio da remoção da tampa.

02A resposta: a regra de Rava não fala de ter escondido algo uma vez, mas de tê-la designado permanentemente
Guemará; Rava
אֶלָּא אִי אִיתְּמַר, הָכִי אִיתְּמַר: אָמַר רָבָא לֹא שָׁנוּ אֶלָּא שֶׁלֹּא יִחֲדָן לְהַטְמָנָה. אֲבָל יִחֲדָן לְהַטְמָנָה — מְטַלְטְלִין אוֹתָן.

Mas, se foi dita (a regra de Rava), assim foi dita: disse Rava, não se ensinou (que não se pode manusear a tosquia) senão quando não a designou permanentemente para esconder; mas, se a designou permanentemente para esconder, pode-se manuseá-la.

Nota

A Guemará resolve a contradição corrigindo a própria formulação da regra de Rava, tal como havia sido citada em 49b. Não se trata de um simples ato de esconder algo uma vez na tosquia, o que de fato não bastaria para permitir seu manuseio — como prova a Mishná recém-citada. A regra correta de Rava é outra: a tosquia só se torna manuseável quando o dono a designou permanentemente para esse fim, isto é, reservou-a de modo contínuo como material de esconder, e não apenas a usou uma vez de passagem. Com essa correção, a objeção do sábio novato deixa de ter força.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "yichadan lehatmana"
יחדן להטמנה - לעולם:

"Designou-as permanentemente para esconder" — para sempre (reservando-as de modo contínuo para esse fim, e não apenas por uma vez).

03Também se disse assim: a mesma regra, transmitida por Ravin em nome de Rabi Yaakov, Rabi Asi ben Shaul e Rabi
Ravin, em nome de Rabi Yaakov, em nome de Rabi Asi ben Shaul, em nome de Rabi Yehudá HaNassi
אִיתְּמַר נָמֵי, כִּי אֲתָא רָבִין אָמַר רַבִּי יַעֲקֹב אָמַר רַבִּי אַסִּי בֶּן שָׁאוּל אָמַר רַבִּי: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא שֶׁלֹּא יִחֲדָן לְהַטְמָנָה, אֲבָל יִחֲדָן לְהַטְמָנָה — מְטַלְטְלִין אוֹתָן.

Também se disse assim: quando veio Ravin (da Terra de Israel para a Babilônia), disse Rabi Yaakov, disse Rabi Asi filho de Shaul, disse Rabi (Yehudá HaNassi): não se ensinou (a proibição) senão quando não a designou permanentemente para esconder; mas, se a designou permanentemente para esconder, pode-se manuseá-la.

Nota

A versão corrigida da regra de Rava é confirmada de modo independente por uma tradição paralela, transmitida através de uma longa cadeia — Ravin, ao subir da Terra de Israel, trouxe o ensinamento em nome de Rabi Yaakov, que o recebera de Rabi Asi ben Shaul, que o recebera do próprio Rabi Yehudá HaNassi. A coincidência exata de formulação, palavra por palavra, reforça que esta é de fato a versão autêntica da regra, e não a que fora citada de início em 49b.

04Ravina: a Mishná fala de tosquia de comércio (hefteq), sempre destinada a voltar ao seu lugar
Ravina; Baraita
רָבִינָא אוֹמֵר: בְּשֶׁל הֶפְתֵּק שָׁנוּ. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי, גִּיזֵּי צֶמֶר שֶׁל הֶפְתֵּק אֵין מְטַלְטְלִין אוֹתָן. וְאִם הִתְקִינָן בַּעַל הַבַּיִת לְהִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶן — מְטַלְטְלִין אוֹתָן.

Ravina diz: a respeito da tosquia de comércio (hefteq) se ensinou isto (a proibição da Mishná, sem que isso contradiga Rava). Também se ensinou assim numa baraita: a tosquia de lã de comércio não se pode manusear; mas, se o dono de casa a preparou para uso próprio, pode-se manuseá-la.

Nota

Ravina propõe uma leitura alternativa que preserva a regra original de Rava tal como fora entendida — que basta ter escondido algo uma vez —, sem precisar corrigi-la: a Mishná que fala em "esconder-se com tosquia de lã, sem poder manuseá-la" refere-se especificamente à tosquia reservada como estoque de comércio (hefteq), um grande depósito de mercadoria que, por sua própria natureza, será sempre devolvido ao seu lugar depois de usado, e por isso nunca é verdadeiramente designado para esconder. Já a tosquia comum de um dono de casa, uma vez usada para esconder algo, é de fato liberada para manuseio, tal como Rava havia dito originalmente. Uma baraita paralela confirma exatamente essa distinção entre a tosquia de comércio e a que o dono de casa preparou para uso próprio.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "Ravina omer" e "hefteq"
רבינא אומר - לעולם כדקאמר רבא אם טמן בהן מותר לטלטל דכמאן דיחדן להכי דמו ורבא לאו אמתניתין קאי דמתניתין בגיזין של הפתק דודאי עתיד להחזירן משם ולא יחדן לכך:

"Ravina diz" — a regra continua sendo como Rava disse originalmente: se escondeu algo com elas, é permitido manuseá-las, pois isso equivale a tê-las designado para esse fim; e Rava não se referia à própria Mishná, pois a Mishná fala de tosquia de comércio, que certamente será devolvida a seu lugar, e por isso nunca foi designada para aquilo.

הפתק - מערכה גדולה שעורכין ומושיבין להקצותן לסחורה שקורין ט"ש בין של בגדים בין של צמר בין של חגבים ובשר מלוח:

"Hefteq" — um grande depósito que se organiza e se estabelece para reservar como mercadoria de comércio, chamado, no vernáculo, "tas", seja de roupas, de lã, de gafanhotos ou de carne salgada.

Os ramos de tamareira: cortados para lenha, reconsiderados para sentar · חֲרִיּוֹת שֶׁל דֶּקֶל שֶׁגְּדָרָן לְעֵצִים

05Rabá bar bar Chaná: é preciso atar os ramos juntos; Rabán Shimon ben Gamliel: basta o pensamento
Rabá bar bar Chaná, diante de Rav; Rabán Shimon ben Gamliel
תָּנָא רַבָּה בַּר בַּר חַנָּה קַמֵּיהּ דְּרַב: חֲרִיּוֹת שֶׁל דֶּקֶל שֶׁגְּדָרָן לְעֵצִים, וְנִמְלַךְ עֲלֵיהֶן לִישִׁיבָה — צָרִיךְ לְקַשֵּׁר. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: אֵין צָרִיךְ לְקַשֵּׁר. הוּא תָּנֵי לַהּ וְהוּא אָמַר לַהּ: הֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל.

Ensinou Rabá bar bar Chaná diante de Rav: ramos de tamareira que se cortaram para lenha, e depois se reconsiderou usá-los para sentar — é preciso atá-los juntos (para demonstrar a nova destinação). Rabán Shimon ben Gamliel diz: não é preciso atá-los. Ele mesmo (Rav) ensinou-a (a baraita), e ele mesmo decidiu: a lei é como Rabán Shimon ben Gamliel.

Nota

Encerrado o tema da tosquia, a Guemará passa a um novo caso de reconsideração de destinação: ramos duros de tamareira, cortados originalmente para servir de lenha — e por isso reservados (muktzeh) — mas que depois se decidiu usar como assento. A opinião anônima da baraita exige um ato concreto, atar os ramos juntos ainda antes de Shabat, para demonstrar objetivamente a nova destinação; o pensamento sozinho não bastaria. Rabán Shimon ben Gamliel discorda, considerando suficiente a mera intenção de destiná-los ao assento, sem exigir nenhum ato demonstrativo. Rav, que transmitiu a própria baraita, também decidiu a lei a favor de Rabán Shimon ben Gamliel.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "chariot", "shegedaran" e "tzarich lekasher"
חריות - ענפים קשים כעץ משהוקשו שדראות של לולבין ונפלו עלין שלהן קרי להן חריות:

"Ramos" (chariot) — ramos que se tornaram duros como madeira depois de endurecidos: os caules dos lulavim, depois que suas folhas caíram, chamam-se "chariot".

שגדרן - כל (לקיטת) [קציצת] תמרים קרי גדירה:

"Que os cortou" — todo corte de tâmaras se chama "guedirá".

צריך לקשר - לקשרם יחד מבעוד יום להוכיח שלישיבה עומדים ואם לא קשרם יחד אסור לטלטלן למחר דלא הוי יחוד במחשבה:

"É preciso atá-los" — atá-los juntos ainda de dia, antes de Shabat, para demonstrar que estão destinados a sentar-se; e, se não os atou juntos, é proibido manuseá-los no dia seguinte, pois o pensamento sozinho não constitui designação.

06Rav: atar; Shmuel: pensar; Rav Asi: basta ter-se sentado, mesmo sem atar nem pensar
Rav; Shmuel; Rav Asi
אִיתְּמַר רַב אָמַר: קוֹשֵׁר, וּשְׁמוּאֵל אָמַר: חוֹשֵׁב, וְרַב אַסִּי אָמַר: יוֹשֵׁב, אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא קִישֵּׁר וְאַף עַל פִּי שֶׁלֹּא חִישֵּׁב.

Disse-se: Rav disse: (é preciso) atar; e Shmuel disse: (basta) pensar; e Rav Asi disse: (basta ter-se) sentado (sobre eles antes de Shabat), ainda que não tenha atado e ainda que não tenha pensado.

Nota

Um debate posterior entre três amoraítas refina o critério para liberar do estatuto de muktzeh objetos reconsiderados: Rav mantém a exigência do ato concreto de atar; Shmuel considera suficiente o pensamento de destiná-los ao assento; e Rav Asi vai ainda mais longe, dispensando tanto o ato quanto o pensamento explícito — basta que a pessoa já tenha se sentado sobre os ramos uma vez antes de Shabat, pois esse próprio gesto já revela, por si, a intenção de destiná-los ao uso de assento.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "veRav Asi amar yashav" e "veaf al pi shelo chishev"
ורב אסי אמר ישב - עליהן מבעוד יום:

"E Rav Asi disse: sentou-se" — sobre eles ainda de dia, antes de Shabat.

ואע"פ שלא חישב - עליהן לישב למחר גלי דעתיה דלישיבה קיימי:

"Ainda que não tenha pensado" — em sentar-se sobre eles no dia seguinte; mas, ao sentar-se uma vez, já revelou sua intenção de que estão destinados a sentar-se.

07Rav e Shmuel seguem os dois tannaítas conhecidos; mas Rav Asi, com quem concorda?
Guemará
בִּשְׁלָמָא רַב הוּא דְּאָמַר כְּתַנָּא קַמָּא, וּשְׁמוּאֵל נָמֵי הוּא דְּאָמַר כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל. אֶלָּא רַב אַסִּי דְּאָמַר כְּמַאן?

Está bem que Rav diz como o primeiro tanna (anônimo, que exige atar), e Shmuel também diz como Rabán Shimon ben Gamliel (que basta pensar); mas Rav Asi, com quem (dos tannaítas) ele concorda?

Nota

A Guemará observa que as posições de Rav e de Shmuel correspondem exatamente às duas opiniões já conhecidas da baraita de Rabá bar bar Chaná — a anônima, que exige o ato de atar, e a de Rabán Shimon ben Gamliel, que se contenta com o pensamento. Mas a posição de Rav Asi, ainda mais permissiva, não corresponde a nenhuma das duas; a Guemará busca então uma fonte tannaítica para essa terceira posição.

08Como a baraita dos curativos: se saiu com eles uma vez antes de Shabat, mesmo sem untar nem amarrar
Baraita
הוּא דְּאָמַר כִּי הַאי תַּנָּא דְּתַנְיָא: יוֹצְאִין בְּפָקוֹרִין וּבְצִיפָא, בִּזְמַן שֶׁצְּבָעָן בְּשֶׁמֶן וּכְרָכָן בִּמְשִׁיחָה. לֹא צְבָעָן בְּשֶׁמֶן וְלֹא כְּרָכָן בִּמְשִׁיחָה — אֵין יוֹצְאִין בָּהֶם. וְאִם יָצָא בָּהֶן שָׁעָה אַחַת מִבְּעוֹד יוֹם, אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא צָבַע וְלֹא כְּרָכָן בִּמְשִׁיחָה מוּתָּר לָצֵאת בָּהֶן.

Ele (Rav Asi) diz como este tanna, que se ensinou: sai-se (em Shabat para o domínio público, usando) curativos de linho penteado e de lã cardada (sobre uma ferida), quando os untou com azeite e os amarrou com cordão. (Se) não os untou com azeite nem os amarrou com cordão — não se sai com eles. Mas, se saiu com eles uma hora ainda de dia (antes de Shabat), ainda que não os tenha untado nem amarrado com cordão, é permitido sair com eles.

Nota

A Guemará encontra a fonte da posição de Rav Asi numa baraita sobre curativos colocados sobre feridas: em geral, só se pode sair com eles ao domínio público em Shabat se foram untados com azeite e amarrados com cordão, gestos que revelam que estão destinados a permanecer sobre a ferida como parte da vestimenta, e não como um simples fardo. Mas, se a pessoa já saiu com eles uma vez antes de Shabat, esse próprio gesto — sem nenhum untar ou amarrar — já basta para permitir seu uso, exatamente como disse Rav Asi quanto aos ramos de tamareira.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "pakorin", "tzipa", "bizman shetzva'an beshemen" e "ve'im yatza bahen"
פקורין - פשתן סרוק שנותנין על המכה:

"Curativos de linho" (pakorin) — linho penteado que se coloca sobre a ferida.

בציפא - צמר מנופץ הניתן על המכה:

"E de lã cardada" (tzipa) — lã cardada que se coloca sobre a ferida.

בזמן שצבען בשמן - גלי דעתיה דלמכה קיימי להניחן עליה בשבת דלאו לרפואה נינהו אלא שלא ישרטו מלבושיו את מכתו והוה ליה כמלבוש דעלמא אבל לא צבען בשמן דלאו מלבוש נינהו הוה ליה משאוי ואין יוצאין בו לר"ה:

"Quando os untou com azeite" — revelou sua intenção de que estão destinados à ferida, para colocá-los sobre ela em Shabat; pois não são para cura, mas para que suas roupas não arranhem a ferida, e assim se tornam como uma vestimenta comum; mas, se não os untou com azeite, não são vestimenta, tornam-se um fardo, e não se sai com eles para o domínio público.

ואם יצא בהן כו' - היינו כרב אסי דאמר ישב אע"פ שלא קשר ולא חישב:

"Mas, se saiu com eles etc." — isto é como Rav Asi, que disse "sentou-se", ainda que não tenha atado nem pensado.

09Rav Ashi: também aprendemos isto na Mishná da palha sobre a cama
Rav Ashi
אָמַר רַב אָשֵׁי, אַף אֲנַן נָמֵי תְּנֵינָא: הַקַּשׁ שֶׁעַל גַּבֵּי הַמִּטָּה לֹא יְנַעְנְעֶנּוּ בְּיָדוֹ, אֲבָל מְנַעַנְעוֹ בְּגוּפוֹ. אֲבָל אִם הָיָה עָלָיו מַאֲכַל בְּהֵמָה, אוֹ שֶׁהָיָה עָלָיו כַּר אוֹ סָדִין מִבְּעוֹד יוֹם — מְנַעַנְעוֹ בְּיָדוֹ. שְׁמַע מִינָּה.

Disse Rav Ashi: também nós aprendemos isto (noutra Mishná): a palha que está sobre a cama não se deve sacudi-la com a mão, mas pode-se sacudi-la com o corpo. Mas, se havia sobre ela comida de animal, ou se havia sobre ela um travesseiro ou um lençol ainda de dia (antes de Shabat), pode-se sacudi-la com a mão. Aprenda-se disto (a posição de Rav Asi).

Nota

Rav Ashi encontra apoio adicional para a posição de Rav Asi numa Mishná sobre a palha usada como enchimento de cama: em regra, é proibido manuseá-la diretamente com a mão, pois se presume destinada a barro ou combustível, e é reservada. Mas, se sobre ela havia sido colocada comida de animal, ou se a própria pessoa a usou como travesseiro ou lençol antes de Shabat, isso basta para liberá-la — sem exigir nenhum ato de atar nem pensamento explícito de designação para o dia seguinte, confirmando assim a posição de Rav Asi.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "af anan nami teninâ", "kash", "lo yena'ne'enu beyado", "aval menane'o begufo" e "o shehaya alav kar o sadin"
אף אנן נמי תנינא - כרב אסי:

"Também nós aprendemos isto" — como Rav Asi.

קש - סתמיה לטינא קאי ללבנים או להסקה ומוקצה הוא ואם היה נתון על המטה ולא לשכב עליו ובא בשבת לשכב עליו והוצרך לנענעו ולשוטחו לשכיבה שלא יהא צבור וקשה:

"Palha" — por padrão está destinada a barro para tijolos ou para combustível, e é reservada (muktzeh); e, se estava colocada sobre a cama sem ser para deitar-se sobre ela, e em Shabat quis deitar-se sobre ela, precisou sacudi-la e espalhá-la para se deitar, para que não ficasse amontoada e dura.

לא ינענעו בידו - שאסור לטלטלו:

"Não deve sacudi-la com a mão" — pois é proibido manuseá-la.

אבל מנענעו בגופו - כלאחר יד:

"Mas pode sacudi-la com o corpo" — de modo indireto.

או שהיה עליו כר או סדין - ששכב עליו מבעוד יום ואע"פ שלא יחדו לכך ולא חישב עליו דהיינו כרב אסי:

"Ou se havia sobre ela um travesseiro ou um lençol" — sobre os quais se deitou ainda de dia, mesmo que não os tenha designado para isso nem pensado neles — isto é como Rav Asi.

10Quem é o tanna que exige atar? Rabi Chanina ben Akiva, com sua dúvida sobre casa de festa ou de luto
Rav Dimi, em nome de Ze'eiri, em nome de Rabi Chanina
וּמַאן תְּנָא דִּפְלִיג עֲלֵיהּ דְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל — רַבִּי חֲנִינָא בֶּן עֲקִיבָא. דְּכִי אֲתָא רַב דִּימִי, אָמַר זְעֵירִי אָמַר רַבִּי חֲנִינָא: פַּעַם אַחַת הָלַךְ רַבִּי חֲנִינָא בֶּן עֲקִיבָא לְמָקוֹם אֶחָד, וּמָצָא חֲרִיּוֹת שֶׁל דֶּקֶל שֶׁגְּדָרוּם לְשׁוּם עֵצִים, וְאָמַר לָהֶם לְתַלְמִידָיו: צְאוּ וְחַשְּׁבוּ כְּדֵי שֶׁנֵּשֵׁב עֲלֵיהֶן לְמָחָר. וְלָא יָדַעְנָא אִי בֵּית הַמִּשְׁתֶּה הֲוָה, אִי בֵּית הָאֵבֶל הֲוָה.

E qual tanna discorda de Rabán Shimon ben Gamliel (exigindo o ato de atar)? Rabi Chanina ben Akiva. Pois, quando veio Rav Dimi (da Terra de Israel), disse Ze'eiri, disse Rabi Chanina: certa vez foi Rabi Chanina ben Akiva a um certo lugar, e encontrou ramos de tamareira que haviam sido cortados para lenha, e disse a seus discípulos: saí e pensai (sobre destiná-los a assento), para que nos sentemos sobre eles amanhã. E não sei se era uma casa de festa de casamento, ou se era uma casa de luto.

Nota

A Guemará identifica o tanna anônimo que exige o ato de atar — na baraita de Rabá bar bar Chaná — como sendo Rabi Chanina ben Akiva, com base numa tradição transmitida por Rav Dimi, ao subir da Terra de Israel, em nome de Ze'eiri, em nome de Rabi Chanina. Segundo o relato, Rabi Chanina ben Akiva, ao encontrar ramos de tamareira já cortados para lenha num certo lugar, instruiu seus discípulos a apenas "pensarem" em destiná-los a assento, sem exigir que os atassem — mas Ze'eiri, ao transmitir a história, admite não se lembrar se o local era uma casa de festa de casamento ou uma casa de luto.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "uman tena" e "vela yadana"
ומאן תנא - דלעיל דאמר צריך לקשור ופליג אדרבן שמעון:

"E qual tanna" — daquele de antes, que disse ser preciso atar, e discorda de Rabán Shimon.

ולא ידענא - זעירי קאמר לה:

"E não sei" — é Ze'eiri quem diz isto.

11Apenas em lugares de pressa basta o pensamento; em geral, é preciso atar
Guemará
מִדְּקָאָמַר אִי בֵּית הַמִּשְׁתֶּה הֲוָה אִי בֵּית הָאֵבֶל הֲוָה — דַּוְקָא בֵּית הָאֵבֶל אוֹ בֵּית הַמִּשְׁתֶּה דִּטְרִידִי, אֲבָל הָכָא קָשַׁר — אִין, לֹא קָשַׁר — לָא.

Do fato de (Ze'eiri) dizer "se era casa de festa de casamento, ou se era casa de luto" (aprende-se que): especificamente numa casa de luto ou numa casa de festa de casamento, onde (as pessoas) estão ocupadas (e não teriam tempo de atar, basta o pensamento); mas aqui, (em circunstâncias comuns), se atou — sim (pode manusear); se não atou — não.

Nota

A Guemará explica por que a incerteza de Ze'eiri quanto ao lugar da história é relevante: Rabi Chanina ben Akiva só dispensou o ato de atar precisamente porque o local — fosse casa de festa, fosse casa de luto — era um lugar de grande atarefamento, onde não haveria tempo disponível para atar os ramos ainda de dia. Fora desse contexto específico de pressa, porém, Rabi Chanina ben Akiva concordaria com a exigência geral do ato de atar; a permissão de bastar o pensamento não se generaliza para todas as situações.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "detridi"
דטרידי - ולא יכלו לקשור מבעוד יום והתם הוא דשרי בלא קישור אבל בעלמא לא:

"Que estão ocupadas" — e não puderam atar ainda de dia; e apenas ali é que se permite sem atar, mas em geral, não.

A cesta de terra: basta destinar-lhe um canto · מַכְנִיס אָדָם מְלֹא קוּפָּתוֹ עָפָר

12Rav Yehudá: trazer terra numa cesta e usá-la livremente; Mar Zutra: desde que se destine um canto
Rav Yehudá; Mar Zutra, em nome de Mar Zutra, o Grande
אָמַר רַב יְהוּדָה: מַכְנִיס אָדָם מְלֹא קוּפָּתוֹ עָפָר, וְעוֹשֶׂה בָּהּ כׇּל צָרְכּוֹ. דָּרֵשׁ מָר זוּטְרָא מִשְּׁמֵיהּ דְּמָר זוּטְרָא רַבָּה: וְהוּא שֶׁיִּחֵד לוֹ קֶרֶן זָוִית.

Disse Rav Yehudá: uma pessoa pode trazer sua cesta cheia de terra (para dentro de casa), e fazer com ela todo o seu necessário. Ensinou Mar Zutra, em nome de Mar Zutra, o Grande: e isso desde que tenha destinado para ela um canto.

Nota

Rav Yehudá ensina que é permitido trazer para dentro de casa, em Shabat, uma cesta cheia de terra, e usá-la livremente para cobrir excrementos, saliva ou qualquer outra necessidade — apesar de a terra ser, em princípio, reservada (muktzeh) por não ter uso próprio definido antecipadamente. Mar Zutra, transmitindo em nome de Mar Zutra, o Grande, acrescenta uma condição: essa permissão só vale se o dono da casa destinou previamente um canto específico para receber essa terra, o que a torna algo preparado e reservado para esse fim; se, em vez disso, a espalhou pelo meio da casa, onde será pisada, ela se anula ao piso e permanece reservada.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "machnis melo kufato afar" e "vehu sheyichad lo keren zavit"
מכניס מלא קופתו עפר - לכסות בו צואה ורוק ומערה העפר בביתו לארץ ונוטלו תמיד לכל צרכיו:

"Traz sua cesta cheia de terra" — para cobrir excremento e saliva com ela; e despeja a terra dentro de sua casa no chão, e a toma sempre para todo o seu necessário.

והוא שייחד לו קרן זוית - דהוי כמוכן ועומד לכך אבל נתנו באמצע ביתו למדרס רגלים הרי הוא בטל לגבי קרקעית הבית ומוקצה ואסור:

"E isso desde que tenha destinado para ela um canto" — pois assim ela fica como algo preparado e destinado para isso; mas, se a colocou no meio de sua casa, para ser pisada pelos pés, ela se anula em relação ao piso da casa, torna-se reservada (muktzeh), e é proibida.

13Os sábios diante de Rav Papa: esta regra segue Rabán Shimon ben Gamliel, não os sábios que exigem um ato
Sábios, diante de Rav Papa
אֲמַרוּ רַבָּנַן קַמֵּיהּ דְּרַב פָּפָּא: כְּמַאן — כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל. דְּאִי כְּרַבָּנַן — הָאָמְרִי בָּעֵינַן מַעֲשֶׂה.

Disseram os sábios diante de Rav Papa: (esta lei de Rav Yehudá e Mar Zutra) segue quem — segue Rabán Shimon ben Gamliel; pois, se fosse como os sábios (que discordam dele quanto aos ramos de tamareira), eles dizem que é preciso um ato (demonstrativo, e não bastaria apenas destinar mentalmente um canto).

Nota

Os sábios da academia observam diante de Rav Papa que a condição de Mar Zutra — bastar destinar um canto, sem exigir nenhum ato demonstrativo sobre a própria terra — só se sustenta segundo a opinião de Rabán Shimon ben Gamliel, que se contenta com o pensamento de designação. Segundo a opinião anônima dos sábios, que exige um ato concreto como o de atar os ramos de tamareira, essa regra sobre a terra pareceria, à primeira vista, insustentável, pois não há como realizar um ato demonstrativo sobre terra solta despejada num canto.

14Rav Papa: mesmo os sábios só exigem ato onde ele é possível; a terra não admite tal ato
Rav Papa
אֲמַר לְהוּ רַב פָּפָּא: אֲפִילּוּ תֵּימָא רַבָּנַן, עַד כָּאן לָא קָאָמְרִי רַבָּנַן דְּבָעֵינַן מַעֲשֶׂה אֶלָּא מִידֵּי דְּבַר מֶיעְבַּד בֵּיהּ מַעֲשֶׂה, אֲבָל מִידֵּי דְּלָא בַּר מֶיעְבַּד בֵּיהּ מַעֲשֶׂה — לָא.

Disse-lhes Rav Papa: ainda que digas (que a lei segue) os sábios, eles só disseram que é preciso um ato quando se trata de algo em que se pode realizar um ato demonstrativo; mas, quando se trata de algo em que não se pode realizar tal ato, não (é preciso — basta o pensamento).

Nota

Rav Papa responde que não há, na verdade, nenhuma contradição: mesmo os sábios que exigem um ato demonstrativo — como atar os ramos de tamareira, algo capaz de receber tal ato — só o exigem nos casos em que esse ato é fisicamente possível. Mas a terra solta despejada num canto não é passível de nenhum ato equivalente a "atar"; portanto, mesmo segundo os sábios, basta aqui o pensamento de destinar-lhe um canto, sem contradizer sua posição geral sobre os ramos de tamareira.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kerabban Shimon" e "davar demeavid bo maasse"
כרבן שמעון - דשרי במחשבה בעלמא שאין מעשה מוכיח שעומד לעשות צרכיו:

"Segue Rabán Shimon" — que permite apenas com o pensamento, sem nenhum ato demonstrativo de que está destinado ao seu uso.

דבר מעביד מעשה - שבן מעשה הוא שיכול לעשות בו מעשה הוכחה:

"Coisa em que se pode realizar um ato" — que é passível de ato, em que se pode fazer um ato demonstrativo.

Esfregar utensílios de prata: natrão, areia, e a coisa que não se pretende · בַּכֹּל חֹפִין אֶת הַכֵּלִים

15Tentativa de encontrar aqui outra disputa tannaítica: a baraita dos utensílios de prata
Guemará; Baraita
נֵימָא כְּתַנָּאֵי: בַּכֹּל חֹפִין אֶת הַכֵּלִים חוּץ מִכְּלֵי כֶסֶף בִּגְרַתְקוֹן. הָא נֶתֶר וָחוֹל מוּתָּר.

Digamos (que esta distinção de Rav Yehudá, sobre o que admite ato) é objeto de disputa tannaítica: com qualquer coisa se esfregam os utensílios (em Shabat, para poli-los), exceto utensílios de prata com gartekon. Isto (implica que) natrão e areia são permitidos (mesmo para utensílios de prata).

Nota

A Guemará tenta encontrar, numa baraita sobre esfregar utensílios em Shabat, o mesmo tipo de distinção que Rav Papa havia proposto — entre coisas que admitem um ato demonstrativo e coisas que não admitem. A baraita permite esfregar utensílios com qualquer substância, exceto que utensílios de prata não podem ser esfregados com gartekon, uma substância abrasiva específica; disso se infere que natrão e areia, substâncias mais suaves, são permitidos até mesmo para utensílios de prata.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "nema ketanaei", "chofin" e "chutz mikelei chesef bigratkon"
לימא כתנאי - הא דרב יהודה במידי דלאו בר מעשה:

"Digamos que é disputa tannaítica" — esta distinção de Rav Yehudá quanto a algo em que não se pode realizar um ato.

חפין - משפשפין את הכלים בשבת לצחצחן:

"Esfregam" — esfregam os utensílios em Shabat para poli-los.

חוץ מכלי כסף בגרתקון - כמין עפר שגדל בחביות של יין וקורין לו אלו"ם והוא עיקר תקון כלי כסף וגורר אותו שהכסף רך והוא ממחק שהוא אב מלאכה:

"Exceto utensílios de prata com gartekon" — uma espécie de terra que cresce em barris de vinho, chamada, no vernáculo, "alum"; é o principal meio de polir utensílios de prata, e o raspa, pois a prata é mole; e isso é "alisar" (memachek), que é uma categoria primária de trabalho.

אבל נתר וחול מותר - דלא גריר ליה לכסף:

"Mas natrão e areia são permitidos" — pois não raspam a prata.

16Mas outra baraita proíbe natrão e areia; não seria a mesma disputa sobre exigir um ato?
Guemará
וְהָתַנְיָא: נֶתֶר וָחוֹל — אָסוּר. מַאי לָאו בְּהָא קָמִיפַּלְגִי: דְּמָר סָבַר בָּעֵינַן מַעֲשֶׂה, וּמָר סָבַר לָא בָּעֵינַן מַעֲשֶׂה.

Mas não se ensinou (noutra baraita): natrão e areia são proibidos! Não é isto que (os dois tannaítas) discordam quanto a isto: um sábio entende que é preciso um ato, e o outro sábio entende que não é preciso um ato?

Nota

A Guemará traz uma segunda baraita que parece contradizer a primeira: ela proíbe explicitamente esfregar utensílios com natrão e areia. À primeira vista, isso confirmaria a hipótese de que as duas baraitot representam a mesma disputa entre os sábios sobre se é preciso, ou não, um ato demonstrativo para retirar algo do estatuto de reservado — aqui aplicada à terra solta que compõe o natrão e a areia, que não é passível de tal ato.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mai lav"
מאי לאו - הא דתניא אסור לאו משום דגריר ליה אלא משום מוקצה קאסר ליה ותנא דשרי כגון שהכניס מלא קופתו לכך ועירה על גבי קרקע ומאן דאסר קסבר בעינן מעשה וזה לא יכול:

"Não é isto" — aquilo que se ensinou que é proibido não é por raspar a prata, mas por ser reservado (muktzeh) que o proíbe; e o tanna que permite refere-se a quando trouxe sua cesta cheia para isso e a despejou sobre o chão; e quem proíbe entende que é preciso um ato demonstrativo, e este (natrão e areia) não pode tê-lo.

17Não; ambos concordam que não é preciso ato — a disputa real é outra
Guemará
לָא, דְּכוּלֵּי עָלְמָא לָא בָּעֵינַן מַעֲשֶׂה, וְלָא קַשְׁיָא: הָא רַבִּי יְהוּדָה, הָא רַבִּי שִׁמְעוֹן.

Não; todos concordam que não é preciso um ato, e não há dificuldade: um (ensina) como Rabi Yehudá, o outro como Rabi Shimon.

Nota

A Guemará rejeita a comparação: na verdade, ambos os tannaítas concordam que não se exige nenhum ato demonstrativo para permitir natrão e areia, aceitando a distinção de Rav Yehudá e Rav Papa. A verdadeira disputa entre as duas baraitot é outra, bem conhecida: a disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Shimon sobre a coisa que não se pretende.

18Rabi Yehudá proíbe a coisa que não se pretende; Rabi Shimon permite
Guemará
הָא רַבִּי יְהוּדָה, דְּאָמַר: דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין — אָסוּר. הָא רַבִּי שִׁמְעוֹן, דְּאָמַר: דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין — מוּתָּר.

Este (que proíbe) é Rabi Yehudá, que diz: uma coisa que não se pretende (seu efeito colateral proibido) é proibida; aquele (que permite) é Rabi Shimon, que diz: uma coisa que não se pretende é permitida.

Nota

A Guemará explica a base da disputa: esfregar prata com natrão e areia pode, ocasionalmente, acabar por raspar levemente o metal — um efeito que se enquadraria na categoria proibida de "alisar" —, ainda que ninguém pretenda esse resultado ao esfregar. Rabi Yehudá proíbe qualquer ação cujo efeito colateral proibido possa ocorrer, mesmo sem intenção; Rabi Shimon permite, desde que o efeito não seja pretendido nem inevitável.

19"Mas não se deve lavar o cabelo com eles" — e, se é Rabi Shimon, ele permitiria! Pois aprendemos… (interrompida, prossegue em 50b)
Guemará
בְּמַאי אוֹקֵימְתָּא לְהָא דְּשָׁרֵי — כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, אֵימָא סֵיפָא: אֲבָל לֹא יָחוֹף בָּהֶם שְׂעָרוֹ, וְאִי רַבִּי שִׁמְעוֹן — מִשְׁרָא קָשָׁרֵי. דִּתְנַן: …

Em que (baraita) estabeleceste esta que permite (natrão e areia)? Como Rabi Shimon; então diz a parte final (dessa mesma baraita): mas não se deve lavar com eles o cabelo; e, se é (a mesma baraita de) Rabi Shimon, ele deveria permitir (também isto, pois não se pretende arrancar os cabelos)! Pois aprendemos (na Mishná sobre o nazireu): …

Nota

A Guemará levanta uma última dificuldade contra atribuir a baraita permissiva a Rabi Shimon: essa mesma baraita, em sua continuação, proíbe lavar o cabelo com natrão e areia — mas, se o autor fosse mesmo Rabi Shimon, que permite a coisa que não se pretende, ele deveria permitir também isso, já que ninguém pretende arrancar os próprios cabelos ao lavá-los. A Guemará começa a responder citando a Mishná paralela sobre as leis do nazireu, mas o texto do daf 50a se interrompe exatamente neste ponto, no meio da citação, indicada pela palavra "דתנן" ("pois aprendemos"). A continuação — a Mishná "o nazireu esfrega e desembaraça o cabelo, mas não penteia" — e o restante da resposta da Guemará só aparecem no início de 50b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lo yachof bahen"
לא יחוף בהן - בנתר וחול שערו בשבת מפני שמשירו:

"Não deve lavar com eles" — com natrão e areia seu cabelo em Shabat, porque os faz cair.