O daf abre a Guemará sobre a Mishná que fechara 52b, começando pela primeira cláusula: o jumento sai com sua manta em Shabat, desde que ela esteja atada a ele. Shmuel precisa essa condição: a manta só pode permanecer sobre o jumento em Shabat se já estava atada a ele desde a véspera de Shabat — não bastando amarrá-la no próprio dia. Rav Nachman observa que a própria Mishná já contém essa leitura de modo implícito, pois sua formulação, se entendida a partir do que exclui, só faz sentido dessa maneira; uma baraita confirma essa leitura de modo explícito, e acrescenta a posição de Rabban Shimon ben Gamliel, que estende a mesma permissão também à sela, contanto que não se amarre ao jumento a correia de reforço nem se passe uma tira sob seu rabo. A Guemará narra então um breve diálogo: Rav Assi bar Natan perguntou a Rabi Chiya bar Rav Ashi se é permitido colocar a manta sobre o jumento já em Shabat (e não apenas deixá-la, previamente atada, sobre ele) — ele respondeu que sim, mas, ao ser questionado sobre a diferença entre isso e a sela (que não se pode sequer tocar), emudeceu. Uma baraita é trazida como objeção adicional: a sela sobre o jumento não pode ser sequer movida com a mão, apenas guiada com o próprio animal pelo pátio, até cair sozinha — o que tornaria ainda mais estranho permitir colocar a manta. Rabi Zeira defende o sábio silencioso, explicando que ele segue a posição de seu mestre Rav, que permite pendurar uma cesta de forragem ao animal em Shabat por constituir mero prazer — e, se isso é permitido, tanto mais a manta, que evita um verdadeiro sofrimento do frio. Shmuel, porém, discorda nesse ponto: para ele, a manta é permitida, mas a cesta de forragem é proibida — e ao ouvir essa posição atribuída a Rav, ficou surpreso, supondo tratar-se de erro. A Guemará narra ainda o encontro de Rabi Zeira, ao subir a Eretz Israel, com Rabi Binyamin bar Yefet, que relatou em nome de Rabi Yochanan a mesma permissão da manta — identificada como o ensinamento de "Aryoch" (identificado como Shmuel) na Babilônia, mesmo com a cesta proibida. Por fim, todos concordam que a manta é permitida, restando explicar por que ela se distingue da sela: para Rav Nachman, a sela pode cair sozinha, sem necessidade de manuseio; para Rav Papa, a distinção está entre aquecer o animal (permitido, pois seu frio é um sofrimento real) e esfriá-lo (proibido, pois seu calor não chega a ser sofrimento). O daf se fecha com uma extensa baraita listando o que os animais não podem sair usando em via pública — do rabo de raposa pendurado entre os olhos do cavalo à bolsa do zav, à bolsa nos úberes das cabras, à focinheira da vaca, à cesta na boca dos potros, à sandália de metal nas patas do animal, e até ao amuleto, mesmo já comprovado eficaz três vezes — em contraste com o que pode sair usando, como a bandagem sobre uma ferida, as talas sobre um osso quebrado, a placenta ainda pendente, e o sino do pescoço, desde que devidamente tapado para não tilintar; a Guemará então questiona se a proibição da cesta na boca dos potros se refere a animais grandes (cujo pescoço longo dispensa abaixar-se para comer do chão, sendo a cesta mero prazer) ou pequenos (para os quais abaixar-se causa sofrimento real) — pergunta cuja resposta é dada numa frase que o próprio daf interrompe, a ser concluída logo no início de 53b.
Guemará. Disse Shmuel: e isso desde que (a manta) esteja atada a ele desde a véspera de Shabat. Disse Rav Nachman: também a Mishná é precisa nisso, pois se ensinou: o jumento não sai com a manta quando ela não está atada a ele.
Abre-se aqui a Guemará sobre a Mishná citada ao fim de 52b, tratando primeiro da cláusula do jumento. Shmuel esclarece que a condição da Mishná — "quando ela está atada a ele" — não se satisfaz com qualquer amarração, mas exige que a manta já estivesse atada ao jumento desde antes da entrada de Shabat, isto é, desde a véspera. Rav Nachman observa que essa exigência já está implícita na própria formulação da Mishná, que ele reformula em sua forma negativa: "o jumento não sai com a manta quando ela não está atada a ele" — uma formulação cuja análise, no beat seguinte, revelará a mesma condição temporal de Shmuel.
Como se entende isso? Se dizemos que não está atada a ele de modo algum — é óbvio, pois ela poderia cair e ele viria a trazê-la (de volta, em domínio público)! Mas, não é que não está atada desde a véspera de Shabat? Por dedução, a (cláusula) inicial (fala do caso) em que está atada a ele desde a véspera de Shabat. Conclua-se disso.
A Guemará examina a cláusula negativa da Mishná, tal como reformulada por Rav Nachman, para extrair dela a condição exigida por Shmuel. Se essa cláusula significasse simplesmente que a manta não está atada de forma alguma ao jumento, a proibição seria óbvia demais para merecer menção — pois, sem atadura nenhuma, há um receio evidente de que a manta caia no caminho e o dono a apanhe e a carregue de volta, incorrendo em transgressão. Sendo óbvio, não haveria necessidade de a Mishná dizê-lo. Por isso, a cláusula negativa deve referir-se a um caso mais sutil: a manta está, sim, atada ao jumento, mas não desde a véspera de Shabat, e sim já durante o próprio Shabat — e é esse o caso que a Mishná vem proibir. Por dedução lógica, segue-se que a cláusula afirmativa da Mishná (que permite o jumento sair com a manta) refere-se ao caso em que ela já estava atada a ele desde a véspera de Shabat, confirmando exatamente a condição estabelecida por Shmuel.
"Também a Mishná é precisa" — adiante, neste mesmo capítulo.
Também se ensinou assim: o jumento sai com a manta quando ela está atada a ele desde a véspera de Shabat, mas não com a sela, ainda que esteja atada a ele desde a véspera de Shabat. Rabban Shimon ben Gamliel diz: também com a sela, quando está atada a ele desde a véspera de Shabat, contanto que não se lhe amarre a correia de reforço, e contanto que não se lhe passe uma tira sob o rabo.
Uma baraita confirma explicitamente a leitura de Shmuel e Rav Nachman, distinguindo ainda a manta da sela: a manta, atada desde a véspera, é permitida, mas a sela, mesmo atada desde a véspera, é proibida — pois a sela é usada para carregar cargas, e há maior receio de que se interprete sua presença como preparação para tal, ou de que caia e seja recolhida. Rabban Shimon ben Gamliel discorda quanto à sela, permitindo-a também, desde que atada desde a véspera, mas com duas ressalvas adicionais: que não se amarre ao jumento a correia de reforço (masrichan), usada para evitar que a sela escorregue montanha abaixo, pois isso pareceria preparação para carga; e que não se passe sob seu rabo a tira (que evita que a sela escorregue montanha acima), pelo mesmo motivo.
"Também com a sela" — pois ela também serve para aquecê-lo.
"Contanto que não se lhe amarre a correia de reforço" — em francês antigo, "poitral", pois isso parece como quem quer carregá-lo com uma carga.
"Uma tira sob o rabo" — em francês antigo, "poitrail", que se coloca ali para que a sela e a carga não escorreguem para o pescoço quando ele desce a um vale, e a correia de reforço, para que não escorreguem para o rabo quando ele sobe montanhas.
Perguntou-lhe Rav Assi bar Natan a Rabi Chiya bar Rav Ashi: é permitido colocar a manta sobre o jumento em Shabat? Disse-lhe: é permitido. Disse-lhe: e qual a diferença entre isso e a sela? Ele emudeceu.
A discussão avança de uma questão diferente: até aqui, tratava-se de saber se o jumento pode sair, em Shabat, com a manta já atada a ele desde a véspera; agora, Rav Assi bar Natan pergunta se é permitido, no próprio Shabat, colocar a manta sobre o jumento (mesmo sem sair com ele à rua, apenas no pátio, por causa do frio) — uma ação nova, não meramente deixar o que já estava posto. Rabi Chiya bar Rav Ashi respondeu que sim, é permitido; mas, ao ser questionado sobre por que então não se permitiria, pelo mesmo raciocínio, colocar também a sela sobre o jumento em Shabat (já que ambas cobririam o animal), ele não soube responder e emudeceu.
"É permitido colocar a manta" — não para sair com ela em via pública, mas no pátio, e por causa do frio.
Esta é a versão correta: "disse-lhe: é permitido. Disse-lhe: e qual a diferença entre isso e a sela? Ele emudeceu."
Objetou-lhe: a sela que está sobre o jumento — não a moverá com a mão, mas conduz o jumento de um lado a outro no pátio, e ela cai por si mesma. Ora, se dizes que sequer se pode retirá-la, colocá-la é questão ainda maior!
Traz-se uma nova objeção contra a permissão de colocar a manta, a partir de uma baraita sobre a sela: se a sela já está sobre o jumento, e se deseja removê-la em Shabat, não se pode sequer tocá-la ou levantá-la diretamente com a mão — o único método permitido é conduzir o próprio animal de um lado a outro do pátio, até que a sela caia por si mesma, sem intervenção direta. Se até a simples remoção da sela já demanda tamanho cuidado (por parecer manuseio de um utensílio destinado a carga), como poderia ser permitido, então, o ato ainda mais direto de colocar a manta sobre o jumento?
Disse-lhe Rabi Zeira: deixe-o, ele entende como seu mestre — pois disse Rav Chiya bar Ashi, em nome de Rav: pendura-se uma cesta de forragem ao animal em Shabat, e a fortiori quanto à manta. E, se ali, por ser mero prazer, é permitido, aqui, por ser sofrimento, não é ainda mais evidente?
Rabi Zeira defende o silêncio de Rabi Chiya bar Rav Ashi, explicando que sua posição, embora não explicitamente justificada por ele, decorre de uma tradição de seu mestre, Rav: é permitido pendurar ao pescoço do animal uma cesta (trascal) cheia de forragem em Shabat, para que ele coma sem precisar abaixar a cabeça ao chão — sendo essa uma conveniência, um mero prazer, sem necessidade real. Se algo permitido por mero prazer já é permitido, então a manta, que evita um sofrimento real (o frio do jumento), deveria ser permitida com ainda mais razão — um raciocínio a fortiori (kal vachomer) que explica por que Rabi Chiya bar Rav Ashi considerou óbvia a permissão de colocar a manta, mesmo sem conseguir formular de imediato a distinção em relação à sela.
"Seu mestre" — Rav.
"Cesta de forragem" (trascal) — uma cesta cheia de cevada, que se pendura ao pescoço do animal, com a boca dele voltada para dentro dela, e ele come; e isso é mero prazer, para que não se canse de abaixar o pescoço ao chão.
"Sofrimento" — do frio.
Shmuel disse: a manta é permitida, a cesta de forragem é proibida. Foi Rabi Chiya bar Yosef e disse o ensinamento de Rav diante de Shmuel. Disse-lhe (Shmuel): se meu pai (assim) disse, ele não entende nada das leis de Shabat.
Shmuel discorda diretamente da posição de Rav relatada por Rabi Zeira: para Shmuel, a manta é permitida (pelo raciocínio do frio real), mas a cesta de forragem é proibida — não havendo, para ele, o raciocínio a fortiori de Rav, pois a cesta seria considerada uma carga real sobre o animal, e não mero acessório de conforto. Quando Rabi Chiya bar Yosef foi relatar diante de Shmuel o ensinamento atribuído a Rav (que permite a cesta), Shmuel reagiu com forte surpresa e ironia — chamando Rav de "meu pai" (uma expressão de reverência análoga a "Abba"), mas afirmando que, se de fato Rav dissera isso, ele não entenderia nada das leis de Shabat — uma reação que revela o quanto Shmuel considerava evidente sua própria distinção.
"A manta é permitida" — pois é sofrimento, e por isso é seu costume estar assim, e não é carga.
"O ensinamento de Rav" — que permite a cesta de forragem.
"Meu pai" (Abba) — meu colega, como em "ajoelhai-vos diante dele" (Bereshit 41), termo de reverência.
Quando Rabi Zeira subiu (a Eretz Israel), encontrou Rabi Binyamin bar Yefet, que estava sentado e dizia, em nome de Rabi Yochanan: coloca-se a manta sobre o jumento em Shabat. Disse-lhe: está certo, e assim o explicou Aryoch na Babilônia.
Ao subir de volta a Eretz Israel, Rabi Zeira encontrou Rabi Binyamin bar Yefet ensinando, em nome de Rabi Yochanan, exatamente a mesma permissão discutida na Babilônia: pode-se colocar a manta sobre o jumento já em Shabat. Rabi Zeira confirma esse ensinamento, aprovando-o, e observa que essa mesma posição já fora explicada na Babilônia por "Aryoch" — um apelido, cuja identidade a Guemará esclarece no beat seguinte.
"Aryoch" — quem é? Shmuel. Mas Rav também não a disse? Mas (Rabi Zeira) o ouviu concluir: e não se pendura a cesta de forragem em Shabat. Disse-lhe: está certo, e assim o explicou Aryoch na Babilônia.
A Guemará esclarece que "Aryoch" é o apelido de Shmuel. Levanta-se então uma dificuldade: mas Rav também havia ensinado a mesma permissão da manta (segundo Rabi Zeira, no beat 06) — por que atribuir esse ensinamento apenas a Shmuel, e não também a Rav? A resposta é que Rabi Zeira ouviu especificamente Rabi Binyamin bar Yefet concluir seu ensinamento acrescentando que não se pendura a cesta de forragem em Shabat — uma conclusão que corresponde exatamente à posição distintiva de Shmuel (manta permitida, cesta proibida), e não à de Rav (que permitia ambas por raciocínio a fortiori). Por isso, Rabi Zeira reconheceu ali o ensinamento específico de Shmuel-Aryoch, e não o de Rav.
Shmuel é chamado "Aryoch" porque era versado em julgamentos e julgava como um rei que julga a terra, a partir da palavra "richa", rei (Bava Batra 4a).
"Mas Rav também não a disse?" — pois, já que ele permite a cesta de forragem, tanto mais a manta.
Em todo caso, todos concordam que a manta é permitida. Qual a diferença em relação à sela? — Ali é diferente, pois é possível que caia por si mesma.
Estabelecido que tanto Rav (via raciocínio a fortiori) quanto Shmuel concordam, ao final, que colocar a manta sobre o jumento em Shabat é permitido, resta explicar por que a sela permanece proibida, já que ambas cobrem o animal. A resposta: no caso da sela, é possível removê-la sem intervenção direta da mão — bastando conduzir o animal pelo pátio até que ela caia sozinha (como ensinado no beat 05) —, o que mostra que ela é tratada como um utensílio de carga, sujeito a um regime mais estrito; a manta, por sua vez, não tem esse método alternativo de remoção, e por isso pode ser manuseada diretamente.
"Qual a diferença em relação à sela" — que é proibido retirar, e tanto mais colocá-la.
"Pois é possível que caia por si mesma" — como se ensinou: conduz-o de um lado a outro no pátio, e ela cai por si mesma.
Rav Papa disse: aqui é para aquecê-lo, ali é para esfriá-lo. Para aquecê-lo, há sofrimento; para esfriá-lo, não há sofrimento. E é isso que dizem as pessoas: o jumento, mesmo no solstício de verão, sente frio.
Rav Papa propõe uma explicação alternativa para a distinção entre a manta e a sela, independente da questão de cair sozinha. Para ele, a diferença está na função de cada peça: a manta serve para aquecer o jumento, e sua ausência lhe causaria sofrimento real, já que, segundo o dito popular, o jumento sente frio mesmo no auge do calor do verão (o solstício de Tamuz); por isso, ela pode ser colocada diretamente. Já a sela, uma vez retirada, deixa o animal exposto ao ar, o que apenas o esfriaria — sem que isso constitua um sofrimento real que justifique manuseá-la diretamente; por isso permanece proibida.
"Aqui é para aquecê-lo" — a manta é necessária para aquecê-lo, e é permitida por causa do sofrimento do frio; mas a retirada da sela é apenas para que ele esfrie, já que se aquecera por causa da carga que carregara ainda de dia; e, se não a retirasse, não haveria problema, pois ele esfriaria por si mesmo — pois dizem as pessoas (que o jumento sente frio mesmo no verão, o que não se aplica aqui).
Objetaram: o cavalo não sai com o rabo de raposa, nem com a marca vermelha entre os olhos. O (homem) zav não sai com sua bolsa, nem as cabras com a bolsa em seus úberes, nem a vaca com a focinheira em sua boca, nem os potros com as cestas de forragem em sua boca para o domínio público, nem o animal com a sandália em suas patas, nem com o amuleto, ainda que seja comprovado — e isto é mais estrito no animal do que na pessoa.
Traz-se uma longa baraita, que a princípio parece contradizer a permissão recém-estabelecida para a manta do jumento e para a cesta de forragem (segundo Rav): ela lista uma série de itens que os animais não podem usar ao sair em domínio público — o rabo de raposa pendurado entre os olhos do cavalo, usado contra o mau-olhado; a marca vermelha, também usada como adorno ou proteção; a bolsa que o homem com fluxo (zav) usa para recolher secreções e verificar sua condição; a bolsa nos úberes das cabras (referida na Mishná anterior); a focinheira que impede a vaca de pastar em campos alheios; a cesta de forragem na boca dos potros — mencionada explicitamente aqui como proibida em domínio público, o que aparenta contradizer a permissão de Rav; a sandália de metal usada para proteger as patas do animal contra pedras; e até o amuleto medicinal, mesmo já comprovado eficaz (tendo curado três vezes) — sendo esta última proibição mais severa para o animal do que seria para uma pessoa, que pode sair com amuleto comprovado.
"Com o rabo de raposa" — que se pendura entre seus olhos, para que o mau-olhado não prevaleça sobre ele.
"Marca vermelha" — para adorno.
"Com sua bolsa" — que se pendura em seu membro para recolher o fluxo e verificar o número de suas emissões, pois não é adorno para ele.
"Com a bolsa em seus úberes" — para recolher o leite que goteja, ou ainda para que não arranhem os úberes nos espinhos, pois seus úberes eram grandes.
"Com a focinheira em sua boca" — pois a impedem de pastar em campos alheios, e quando chegam ao seu lugar de pasto, retiram-na dela.
"Com a sandália em suas patas" — pois lhe fazem uma sandália de metal, para que as pedras não o firam.
"Amuleto" — uma inscrição para a cura de uma doença.
"Comprovado" — que já curou três vezes.
"E isto é mais estrito no animal do que na pessoa" — pensa-se agora que isso se refere ao amuleto, pois adiante, no capítulo "Bameh Ishah Yotzah" (Shabat 61a), dizemos que a pessoa sai com amuleto comprovado; e todos estes casos que se ensinou que não saem são aqueles que não são proteção de seu próprio corpo, mas sim carga; e a sandália, porque poderia soltar-se e vir a trazê-la de volta.
Mas ele sai com a bandagem que está sobre a ferida, e com as talas que estão sobre o osso quebrado, e com a placenta pendente nela; e tapam-lhe o sino no pescoço, e ela passeia com ele no pátio.
A mesma baraita, em contraste, permite que o animal saia com certos itens que, por serem verdadeira proteção do próprio corpo (e não meros acessórios de carga ou adorno), não se enquadram na proibição anterior: a bandagem que cobre uma ferida; as talas de madeira colocadas de cada lado de um osso quebrado para imobilizá-lo até que se solde; e a placenta que ainda pende parcialmente da fêmea após o parto, sem que se possa removê-la sem risco. Quanto ao sino usado no pescoço do animal (para localizá-lo ou para adorno), permite-se que o dono o tape com lã ou fibra, para que o badalo não produza som, e passeie com o animal apenas dentro do pátio — mas não que saia com ele à via pública, por parecer estar levando o animal a uma festa ou celebração.
"A bandagem que está sobre a ferida" — não há como dizer que ele viria a trazê-la de volta.
"As talas que estão sobre o osso quebrado" — quando o animal tem um osso quebrado, fazem-lhe tábuas de um lado e de outro, e as atam ali, e elas sustêm o osso para que não se mova de um lado para outro, até que se solde.
"E com a placenta pendente nela" — da qual saiu apenas uma parte.
"E tapam-lhe o sino" — mas, quando não está tapado, mesmo no pátio ela não deve sair, porque o badalo em seu interior chacoalha e produz som; por isso se tapa com lã ou fibra, para que o badalo em seu interior não chacoalhe.
"Sino" — em francês antigo, "esclot".
"Badalo" — em francês antigo, "batail".
"E passeia" — com esse mesmo sino, no pátio, mas não sai com ele em via pública, como se explicará adiante neste capítulo (Shabat 54b), pois parece com quem vai a uma festa.
Em todo caso, ensinou-se: e não (saem) os potros com as cestas de forragem em sua boca para o domínio público. Para o domínio público é que não; mas no pátio, tudo bem. Não seria isso, então, potros grandes, e por mero prazer?
A Guemará retoma a baraita do beat 12 e nota uma precisão em sua linguagem: ela disse que os potros não saem com a cesta de forragem "para o domínio público" — uma formulação que, por exclusão, sugere que dentro do pátio isso seria, sim, permitido. Levanta-se então a pergunta: não seria essa permissão, dentro do pátio, exatamente o caso dos potros grandes, cujo pescoço já é longo o bastante para comer do chão sem esforço — de modo que pendurar-lhes a cesta seria mero prazer, e não necessidade real (contrariando, à primeira vista, a posição de Shmuel, que proibia a cesta de forragem mesmo no pátio)?
"Não seria isso" — refere-se a potros grandes, cujo pescoço é longo, e não sentem sofrimento ao abaixar-se para comer do chão, e pendura-se-lhes a cesta por mero prazer — o que seria uma dificuldade contra Shmuel.
Não; (trata-se) de potros pequenos, e por causa do sofrimento. Também se infere isso precisamente, pois se ensinou… (o texto continua em 53b)
O daf termina em meio à resposta da Guemará à pergunta do beat anterior: não se trata de potros grandes por prazer, mas de potros pequenos, cujo pescoço ainda curto lhes causa sofrimento real ao abaixar-se para comer do chão — de modo que, no pátio, pendurar-lhes a cesta é permitido pelo mesmo motivo que permite a manta do jumento (sofrimento real), sem contradizer a posição de Shmuel. A Guemará começa então a trazer uma prova adicional, precisa, a partir da própria continuação da baraita ("pois se ensinou…") — mas o texto do daf se interrompe exatamente neste ponto, sem completar a citação. A continuação, em Shabat 53b, retoma com as palavras "דּוּמְיָא דְּקָמֵיעַ. שְׁמַע מִינָּה" ("semelhante ao amuleto. Conclua disso"), fechando ali a prova e o raciocínio iniciados nesta última linha de 53a.