Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Heh · Bameh Behemah
בַּמֶּה בְּהֵמָה

A manta do jumento atada desde a véspera de Shabat, a discussão sobre a sela e a cesta de forragem, e a baraita sobre o que o animal pode e não pode sair trazendo

Shabbat 53a — abre a Guemará sobre a nova Mishná do fim de 52b: Shmuel ensina que a permissão para o jumento sair com a manta vale apenas quando ela está atada a ele desde a véspera de Shabat, e Rav Nachman mostra que a própria Mishná, ao formular sua cláusula negativa, já implica essa leitura — confirmada por uma baraita explícita, que Rabban Shimon ben Gamliel amplia também à sela, com duas ressalvas; narra a pergunta de Rav Assi bar Natan a Rabi Chiya bar Rav Ashi sobre se é permitido colocar a manta sobre o jumento em Shabat — respondida que sim, e a réplica sobre a diferença em relação à sela ficou sem resposta; traz a objeção de uma baraita segundo a qual não se pode sequer tocar a sela com a mão em Shabat, quanto mais colocá-la; Rabi Zeira explica que aquele sábio segue seu mestre Rav, que permite pendurar uma cesta de forragem ao animal, e por raciocínio a fortiori permite a manta; relata a posição de Shmuel, que distingue a manta (permitida) da cesta (proibida), e o espanto de Rabi Chiya bar Yosef ao repetir essa opinião a Shmuel, pensando tratar-se de Rav; narra o encontro de Rabi Zeira, ao subir a Eretz Israel, com Rabi Binyamin bar Yefet, que confirma em nome de Rabi Yochanan a permissão da manta, e identifica "Aryoch" com Shmuel; traz a explicação final de Rav Papa, distinguindo aquecer (permitido, por causar sofrimento ao animal) de esfriar (proibido); e conclui com uma extensa baraita sobre o que o animal não pode sair usando em domínio público — cauda de raposa, marca entre os olhos, bolsa do zav, bolsa nos úberes das cabras, focinheira da vaca, cesta na boca dos potros, sandália nas patas, amuleto mesmo comprovado — em contraste com o que pode sair usando — bandagem sobre ferida, talas sobre osso quebrado, placenta pendente, e o sino do pescoço, desde que tapado —, fechando com a pergunta sobre se a proibição da cesta dos potros se refere a potros grandes (por prazer) ou pequenos (por sofrimento), que a Guemará começa a resolver numa frase interrompida e continuada em 53b.

O daf abre a Guemará sobre a Mishná que fechara 52b, começando pela primeira cláusula: o jumento sai com sua manta em Shabat, desde que ela esteja atada a ele. Shmuel precisa essa condição: a manta só pode permanecer sobre o jumento em Shabat se já estava atada a ele desde a véspera de Shabat — não bastando amarrá-la no próprio dia. Rav Nachman observa que a própria Mishná já contém essa leitura de modo implícito, pois sua formulação, se entendida a partir do que exclui, só faz sentido dessa maneira; uma baraita confirma essa leitura de modo explícito, e acrescenta a posição de Rabban Shimon ben Gamliel, que estende a mesma permissão também à sela, contanto que não se amarre ao jumento a correia de reforço nem se passe uma tira sob seu rabo. A Guemará narra então um breve diálogo: Rav Assi bar Natan perguntou a Rabi Chiya bar Rav Ashi se é permitido colocar a manta sobre o jumento já em Shabat (e não apenas deixá-la, previamente atada, sobre ele) — ele respondeu que sim, mas, ao ser questionado sobre a diferença entre isso e a sela (que não se pode sequer tocar), emudeceu. Uma baraita é trazida como objeção adicional: a sela sobre o jumento não pode ser sequer movida com a mão, apenas guiada com o próprio animal pelo pátio, até cair sozinha — o que tornaria ainda mais estranho permitir colocar a manta. Rabi Zeira defende o sábio silencioso, explicando que ele segue a posição de seu mestre Rav, que permite pendurar uma cesta de forragem ao animal em Shabat por constituir mero prazer — e, se isso é permitido, tanto mais a manta, que evita um verdadeiro sofrimento do frio. Shmuel, porém, discorda nesse ponto: para ele, a manta é permitida, mas a cesta de forragem é proibida — e ao ouvir essa posição atribuída a Rav, ficou surpreso, supondo tratar-se de erro. A Guemará narra ainda o encontro de Rabi Zeira, ao subir a Eretz Israel, com Rabi Binyamin bar Yefet, que relatou em nome de Rabi Yochanan a mesma permissão da manta — identificada como o ensinamento de "Aryoch" (identificado como Shmuel) na Babilônia, mesmo com a cesta proibida. Por fim, todos concordam que a manta é permitida, restando explicar por que ela se distingue da sela: para Rav Nachman, a sela pode cair sozinha, sem necessidade de manuseio; para Rav Papa, a distinção está entre aquecer o animal (permitido, pois seu frio é um sofrimento real) e esfriá-lo (proibido, pois seu calor não chega a ser sofrimento). O daf se fecha com uma extensa baraita listando o que os animais não podem sair usando em via pública — do rabo de raposa pendurado entre os olhos do cavalo à bolsa do zav, à bolsa nos úberes das cabras, à focinheira da vaca, à cesta na boca dos potros, à sandália de metal nas patas do animal, e até ao amuleto, mesmo já comprovado eficaz três vezes — em contraste com o que pode sair usando, como a bandagem sobre uma ferida, as talas sobre um osso quebrado, a placenta ainda pendente, e o sino do pescoço, desde que devidamente tapado para não tilintar; a Guemará então questiona se a proibição da cesta na boca dos potros se refere a animais grandes (cujo pescoço longo dispensa abaixar-se para comer do chão, sendo a cesta mero prazer) ou pequenos (para os quais abaixar-se causa sofrimento real) — pergunta cuja resposta é dada numa frase que o próprio daf interrompe, a ser concluída logo no início de 53b.

A manta do jumento: atada desde a véspera de Shabat · וְהוּא שֶׁקְּשׁוּרָה לוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת

01Shmuel: a condição é que a manta esteja atada ao jumento desde a véspera de Shabat; Rav Nachman: a própria Mishná já o diz, de modo implícito
Guemará; Shmuel; Rav Nachman
גְּמָ׳ אָמַר שְׁמוּאֵל: וְהוּא שֶׁקְּשׁוּרָה לוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת. אָמַר רַב נַחְמָן: מַתְנִיתִין נָמֵי דַּיְקָא, דְּקָתָנֵי: אֵין הַחֲמוֹר יוֹצֵא בַּמַּרְדַּעַת בִּזְמַן שֶׁאֵינָהּ קְשׁוּרָה לוֹ.

Guemará. Disse Shmuel: e isso desde que (a manta) esteja atada a ele desde a véspera de Shabat. Disse Rav Nachman: também a Mishná é precisa nisso, pois se ensinou: o jumento não sai com a manta quando ela não está atada a ele.

Nota

Abre-se aqui a Guemará sobre a Mishná citada ao fim de 52b, tratando primeiro da cláusula do jumento. Shmuel esclarece que a condição da Mishná — "quando ela está atada a ele" — não se satisfaz com qualquer amarração, mas exige que a manta já estivesse atada ao jumento desde antes da entrada de Shabat, isto é, desde a véspera. Rav Nachman observa que essa exigência já está implícita na própria formulação da Mishná, que ele reformula em sua forma negativa: "o jumento não sai com a manta quando ela não está atada a ele" — uma formulação cuja análise, no beat seguinte, revelará a mesma condição temporal de Shmuel.

02Como entender essa cláusula negativa? Não atada de modo algum é óbvio; logo, refere-se a não atada desde a véspera — e, por dedução, a cláusula afirmativa fala de atada desde a véspera
Guemará
הֵיכִי דָמֵי? אִילֵּימָא שֶׁאֵינָהּ קְשׁוּרָה לוֹ כְּלָל — פְּשִׁיטָא, דִילְמָא נָפְלָה לֵיהּ וְאָתֵי לְאֵתוּיֵי. אֶלָּא לָאו שֶׁאֵינָהּ קְשׁוּרָה מֵעֶרֶב שַׁבָּת. מִכְּלָל דְּרֵישָׁא, שֶׁקְּשׁוּרָה לוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת. שְׁמַע מִינַּהּ.

Como se entende isso? Se dizemos que não está atada a ele de modo algum — é óbvio, pois ela poderia cair e ele viria a trazê-la (de volta, em domínio público)! Mas, não é que não está atada desde a véspera de Shabat? Por dedução, a (cláusula) inicial (fala do caso) em que está atada a ele desde a véspera de Shabat. Conclua-se disso.

Nota

A Guemará examina a cláusula negativa da Mishná, tal como reformulada por Rav Nachman, para extrair dela a condição exigida por Shmuel. Se essa cláusula significasse simplesmente que a manta não está atada de forma alguma ao jumento, a proibição seria óbvia demais para merecer menção — pois, sem atadura nenhuma, há um receio evidente de que a manta caia no caminho e o dono a apanhe e a carregue de volta, incorrendo em transgressão. Sendo óbvio, não haveria necessidade de a Mishná dizê-lo. Por isso, a cláusula negativa deve referir-se a um caso mais sutil: a manta está, sim, atada ao jumento, mas não desde a véspera de Shabat, e sim já durante o próprio Shabat — e é esse o caso que a Mishná vem proibir. Por dedução lógica, segue-se que a cláusula afirmativa da Mishná (que permite o jumento sair com a manta) refere-se ao caso em que ela já estava atada a ele desde a véspera de Shabat, confirmando exatamente a condição estabelecida por Shmuel.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "matnitin nami daika"
גמ' מתניתין נמי דיקא - לקמן בהאי פירקא:

"Também a Mishná é precisa" — adiante, neste mesmo capítulo.

03Uma baraita confirma: a manta, desde a véspera, sim; a sela, mesmo desde a véspera, não — mas Rabban Shimon ben Gamliel permite também a sela, com duas ressalvas
Baraita; Rabban Shimon ben Gamliel
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: חֲמוֹר יוֹצֵא בַּמַּרְדַּעַת בִּזְמַן שֶׁקְּשׁוּרָה לוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת, וְלֹא בָּאוּכָּף אַף עַל פִּי שֶׁקָּשׁוּר לוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: אַף בָּאוּכָּף בִּזְמַן שֶׁקָּשׁוּר לוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִקְשׁוֹר לוֹ מַסְרֵיכָן, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִפְשׁוֹל לוֹ רְצוּעָה תַּחַת זְנָבוֹ.

Também se ensinou assim: o jumento sai com a manta quando ela está atada a ele desde a véspera de Shabat, mas não com a sela, ainda que esteja atada a ele desde a véspera de Shabat. Rabban Shimon ben Gamliel diz: também com a sela, quando está atada a ele desde a véspera de Shabat, contanto que não se lhe amarre a correia de reforço, e contanto que não se lhe passe uma tira sob o rabo.

Nota

Uma baraita confirma explicitamente a leitura de Shmuel e Rav Nachman, distinguindo ainda a manta da sela: a manta, atada desde a véspera, é permitida, mas a sela, mesmo atada desde a véspera, é proibida — pois a sela é usada para carregar cargas, e há maior receio de que se interprete sua presença como preparação para tal, ou de que caia e seja recolhida. Rabban Shimon ben Gamliel discorda quanto à sela, permitindo-a também, desde que atada desde a véspera, mas com duas ressalvas adicionais: que não se amarre ao jumento a correia de reforço (masrichan), usada para evitar que a sela escorregue montanha abaixo, pois isso pareceria preparação para carga; e que não se passe sob seu rabo a tira (que evita que a sela escorregue montanha acima), pelo mesmo motivo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "af ba'ukaf", "uvilvad shelo yikshor lo masrichan" e "retzuah tachat zenavo"
אף באוכף - דאיהו נמי מהני לחממה:

"Também com a sela" — pois ela também serve para aquecê-lo.

ובלבד שלא יקשור לו מסריכן - פוטרא"ל דמיחזי כמי שרוצה להטעינו משוי:

"Contanto que não se lhe amarre a correia de reforço" — em francês antigo, "poitral", pois isso parece como quem quer carregá-lo com uma carga.

רצועה תחת זנבו - פושל"א שנותנים שם שלא תרד האוכף והמשוי על צוארה כשהיא יורדת לעמק והמסרך שלא תרד על זנבה כשהיא עולה על ההרים:

"Uma tira sob o rabo" — em francês antigo, "poitrail", que se coloca ali para que a sela e a carga não escorreguem para o pescoço quando ele desce a um vale, e a correia de reforço, para que não escorreguem para o rabo quando ele sobe montanhas.

Colocar a manta em Shabat: o silêncio de Rabi Chiya bar Rav Ashi e a objeção da sela · מַהוּ לִיתֵּן מַרְדַּעַת עַל גַּבֵּי חֲמוֹר בְּשַׁבָּת

04Rav Assi bar Natan pergunta a Rabi Chiya bar Rav Ashi: pode-se colocar a manta sobre o jumento em Shabat? Respondeu que sim; questionado sobre a sela, emudeceu
Rav Assi bar Natan; Rabi Chiya bar Rav Ashi
בְּעָא מִינֵּיהּ רַב אַסִּי בַּר נָתָן מֵרַבִּי חִיָּיא בַּר רַב אָשֵׁי: מַהוּ לִיתֵּן מַרְדַּעַת עַל גַּבֵּי חֲמוֹר בְּשַׁבָּת? אֲמַר לֵיהּ: מוּתָּר. אֲמַר לֵיהּ: וְכִי מָה בֵּין זֶה לְאוּכָּף? אִישְׁתִּיק.

Perguntou-lhe Rav Assi bar Natan a Rabi Chiya bar Rav Ashi: é permitido colocar a manta sobre o jumento em Shabat? Disse-lhe: é permitido. Disse-lhe: e qual a diferença entre isso e a sela? Ele emudeceu.

Nota

A discussão avança de uma questão diferente: até aqui, tratava-se de saber se o jumento pode sair, em Shabat, com a manta já atada a ele desde a véspera; agora, Rav Assi bar Natan pergunta se é permitido, no próprio Shabat, colocar a manta sobre o jumento (mesmo sem sair com ele à rua, apenas no pátio, por causa do frio) — uma ação nova, não meramente deixar o que já estava posto. Rabi Chiya bar Rav Ashi respondeu que sim, é permitido; mas, ao ser questionado sobre por que então não se permitiria, pelo mesmo raciocínio, colocar também a sela sobre o jumento em Shabat (já que ambas cobririam o animal), ele não soube responder e emudeceu.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mahu litein mardaat" e "amar leih mutar"
מהו ליתן מרדעת - ולא לצאת לרה"ר אלא בחצר ומפני הצינה:

"É permitido colocar a manta" — não para sair com ela em via pública, mas no pátio, e por causa do frio.

ה"ג אמר ליה מותר א"ל וכי מה בין זה לאוכף אישתיק:

Esta é a versão correta: "disse-lhe: é permitido. Disse-lhe: e qual a diferença entre isso e a sela? Ele emudeceu."

05Objeção adicional: uma baraita ensina que a sela nem sequer pode ser movida com a mão — apenas conduzida com o próprio animal, até cair sozinha
Guemará (objeção)
אֵיתִיבֵיהּ: אוּכָּף שֶׁעַל גַּבֵּי חֲמוֹר — לֹא יְטַלְטְלֶנּוּ בְּיָדוֹ, אֶלָּא מוֹלִיכָהּ וּמְבִיאָהּ בֶּחָצֵר וְהוּא נוֹפֵל מֵאֵילָיו. הַשְׁתָּא לִיטּוֹל אָמְרַתְּ לָא, לְהַנִּיחַ מִיבַּעְיָא?!

Objetou-lhe: a sela que está sobre o jumento — não a moverá com a mão, mas conduz o jumento de um lado a outro no pátio, e ela cai por si mesma. Ora, se dizes que sequer se pode retirá-la, colocá-la é questão ainda maior!

Nota

Traz-se uma nova objeção contra a permissão de colocar a manta, a partir de uma baraita sobre a sela: se a sela já está sobre o jumento, e se deseja removê-la em Shabat, não se pode sequer tocá-la ou levantá-la diretamente com a mão — o único método permitido é conduzir o próprio animal de um lado a outro do pátio, até que a sela caia por si mesma, sem intervenção direta. Se até a simples remoção da sela já demanda tamanho cuidado (por parecer manuseio de um utensílio destinado a carga), como poderia ser permitido, então, o ato ainda mais direto de colocar a manta sobre o jumento?

06Rabi Zeira: deixe-o, ele segue seu mestre Rav — que permite pendurar cesta de forragem por mero prazer; a fortiori, a manta, que evita sofrimento
Rabi Zeira; Rav
אֲמַר לֵיהּ רַבִּי זֵירָא: שִׁבְקֵיהּ, כְּרַבֵּיהּ סְבִירָא לֵיהּ, דְּאָמַר רַב חִיָּיא בַּר אָשֵׁי אָמַר רַב: תּוֹלִין טְרַסְקָל לִבְהֵמָה בְּשַׁבָּת, וְקַל וָחוֹמֶר לְמַרְדַּעַת. וּמָה הָתָם דְּמִשּׁוּם תַּעֲנוּג שְׁרֵי, הָכָא דְּמִשּׁוּם צַעַר — לֹא כׇּל שֶׁכֵּן.

Disse-lhe Rabi Zeira: deixe-o, ele entende como seu mestre — pois disse Rav Chiya bar Ashi, em nome de Rav: pendura-se uma cesta de forragem ao animal em Shabat, e a fortiori quanto à manta. E, se ali, por ser mero prazer, é permitido, aqui, por ser sofrimento, não é ainda mais evidente?

Nota

Rabi Zeira defende o silêncio de Rabi Chiya bar Rav Ashi, explicando que sua posição, embora não explicitamente justificada por ele, decorre de uma tradição de seu mestre, Rav: é permitido pendurar ao pescoço do animal uma cesta (trascal) cheia de forragem em Shabat, para que ele coma sem precisar abaixar a cabeça ao chão — sendo essa uma conveniência, um mero prazer, sem necessidade real. Se algo permitido por mero prazer já é permitido, então a manta, que evita um sofrimento real (o frio do jumento), deveria ser permitida com ainda mais razão — um raciocínio a fortiori (kal vachomer) que explica por que Rabi Chiya bar Rav Ashi considerou óbvia a permissão de colocar a manta, mesmo sem conseguir formular de imediato a distinção em relação à sela.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "keRabeih", "trascal" e "tzaar"
כרביה - רב:

"Seu mestre" — Rav.

טרסקל - סל מלא שעורים תולין לה בצוארה ופיה נתון לתוכו ואוכלת ותענוג בעלמא הוא שלא תטרח לשוח צוארה לארץ:

"Cesta de forragem" (trascal) — uma cesta cheia de cevada, que se pendura ao pescoço do animal, com a boca dele voltada para dentro dela, e ele come; e isso é mero prazer, para que não se canse de abaixar o pescoço ao chão.

צער - של צינה:

"Sofrimento" — do frio.

A posição de Shmuel: manta permitida, cesta proibida — e a confirmação de Rabi Yochanan sobre Aryoch · מַרְדַּעַת מוּתָּר, טְרַסְקָל אָסוּר

07Shmuel distingue: a manta é permitida, mas a cesta é proibida; ao ouvir isso atribuído a Rav, ficou surpreso
Shmuel; Rabi Chiya bar Yosef
שְׁמוּאֵל אָמַר: מַרְדַּעַת מוּתָּר, טְרַסְקָל — אָסוּר. אֲזַל רַבִּי חִיָּיא בַּר יוֹסֵף אַמְרַהּ לִשְׁמַעְתָּא דְרַב קַמֵּיהּ דִּשְׁמוּאֵל. אֲמַר לֵיהּ: אִי הָכִי אָמַר אַבָּא, לָא יָדַע בְּמִילֵּי דְשַׁבְּתָא וְלָא כְּלוּם.

Shmuel disse: a manta é permitida, a cesta de forragem é proibida. Foi Rabi Chiya bar Yosef e disse o ensinamento de Rav diante de Shmuel. Disse-lhe (Shmuel): se meu pai (assim) disse, ele não entende nada das leis de Shabat.

Nota

Shmuel discorda diretamente da posição de Rav relatada por Rabi Zeira: para Shmuel, a manta é permitida (pelo raciocínio do frio real), mas a cesta de forragem é proibida — não havendo, para ele, o raciocínio a fortiori de Rav, pois a cesta seria considerada uma carga real sobre o animal, e não mero acessório de conforto. Quando Rabi Chiya bar Yosef foi relatar diante de Shmuel o ensinamento atribuído a Rav (que permite a cesta), Shmuel reagiu com forte surpresa e ironia — chamando Rav de "meu pai" (uma expressão de reverência análoga a "Abba"), mas afirmando que, se de fato Rav dissera isso, ele não entenderia nada das leis de Shabat — uma reação que revela o quanto Shmuel considerava evidente sua própria distinção.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mardaat mutar", "lishma'ata deRav" e "Abba"
מרדעת מותר - דצערא היא הלכך אורחה בהכי ולאו משוי הוא:

"A manta é permitida" — pois é sofrimento, e por isso é seu costume estar assim, e não é carga.

לשמעתא דרב - דשרי בטרסקל:

"O ensinamento de Rav" — que permite a cesta de forragem.

אבא - חברי כמו אברך אבא למלכא (בראשית מא):

"Meu pai" (Abba) — meu colega, como em "ajoelhai-vos diante dele" (Bereshit 41), termo de reverência.

08Rabi Zeira, ao subir a Eretz Israel, encontra Rabi Binyamin bar Yefet citando Rabi Yochanan: permite-se colocar a manta, como ensinou Aryoch na Babilônia
Rabi Zeira; Rabi Binyamin bar Yefet; Rabi Yochanan
כִּי סָלֵיק רַבִּי זֵירָא, אַשְׁכְּחֵיהּ לְרַבִּי בִּנְיָמִין בַּר יֶפֶת דְּיָתֵיב וְקָאָמַר לֵיהּ מִשְּׁמֵיהּ דְּרַבִּי יוֹחָנָן: נוֹתְנִין מַרְדַּעַת עַל גַּבֵּי חֲמוֹר בְּשַׁבָּת. אֲמַר לֵיהּ: יִישַׁר, וְכֵן תַּרְגְּמַהּ אַרְיוֹךְ בְּבָבֶל.

Quando Rabi Zeira subiu (a Eretz Israel), encontrou Rabi Binyamin bar Yefet, que estava sentado e dizia, em nome de Rabi Yochanan: coloca-se a manta sobre o jumento em Shabat. Disse-lhe: está certo, e assim o explicou Aryoch na Babilônia.

Nota

Ao subir de volta a Eretz Israel, Rabi Zeira encontrou Rabi Binyamin bar Yefet ensinando, em nome de Rabi Yochanan, exatamente a mesma permissão discutida na Babilônia: pode-se colocar a manta sobre o jumento já em Shabat. Rabi Zeira confirma esse ensinamento, aprovando-o, e observa que essa mesma posição já fora explicada na Babilônia por "Aryoch" — um apelido, cuja identidade a Guemará esclarece no beat seguinte.

09Quem é "Aryoch"? É Shmuel — mas Rav também não dissera o mesmo? Não: ele ouvira Rav concluir proibindo também a cesta
Guemará
״אַרְיוֹךְ״ מַנּוּ — שְׁמוּאֵל. וְהָא רַב נָמֵי אַמְרַהּ? אֶלָּא שַׁמְעֵיהּ דַּהֲוָה מְסַיֵּים בַּהּ: וְאֵין תּוֹלִין טְרַסְקָל בְּשַׁבָּת, אֲמַר לֵיהּ: יִישַׁר, וְכֵן תַּרְגְּמַהּ אַרְיוֹךְ בְּבָבֶל.

"Aryoch" — quem é? Shmuel. Mas Rav também não a disse? Mas (Rabi Zeira) o ouviu concluir: e não se pendura a cesta de forragem em Shabat. Disse-lhe: está certo, e assim o explicou Aryoch na Babilônia.

Nota

A Guemará esclarece que "Aryoch" é o apelido de Shmuel. Levanta-se então uma dificuldade: mas Rav também havia ensinado a mesma permissão da manta (segundo Rabi Zeira, no beat 06) — por que atribuir esse ensinamento apenas a Shmuel, e não também a Rav? A resposta é que Rabi Zeira ouviu especificamente Rabi Binyamin bar Yefet concluir seu ensinamento acrescentando que não se pendura a cesta de forragem em Shabat — uma conclusão que corresponde exatamente à posição distintiva de Shmuel (manta permitida, cesta proibida), e não à de Rav (que permitia ambas por raciocínio a fortiori). Por isso, Rabi Zeira reconheceu ali o ensinamento específico de Shmuel-Aryoch, e não o de Rav.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "Aryoch" e "veha Rav nami amrah"
שמואל קרי אריוך על שם שהיה בקי בדינין ושופט כמלך השופט על הארץ לשון ריכא מלך (ב"ב דף ד.):

Shmuel é chamado "Aryoch" porque era versado em julgamentos e julgava como um rei que julga a terra, a partir da palavra "richa", rei (Bava Batra 4a).

והא רב נמי אמרה - דכיון דשרי בטרסקל כ"ש מרדעת:

"Mas Rav também não a disse?" — pois, já que ele permite a cesta de forragem, tanto mais a manta.

10Todos concordam que a manta é permitida: qual a diferença em relação à sela? Porque a sela pode cair sozinha
Guemará
דְּכוּלֵּי עָלְמָא מִיהַת מַרְדַּעַת מוּתָּר, מַאי שְׁנָא מֵאוּכָּף? — שָׁאנֵי הָתָם דְּאֶפְשָׁר דְּנָפֵיל מִמֵּילָא.

Em todo caso, todos concordam que a manta é permitida. Qual a diferença em relação à sela? — Ali é diferente, pois é possível que caia por si mesma.

Nota

Estabelecido que tanto Rav (via raciocínio a fortiori) quanto Shmuel concordam, ao final, que colocar a manta sobre o jumento em Shabat é permitido, resta explicar por que a sela permanece proibida, já que ambas cobrem o animal. A resposta: no caso da sela, é possível removê-la sem intervenção direta da mão — bastando conduzir o animal pelo pátio até que ela caia sozinha (como ensinado no beat 05) —, o que mostra que ela é tratada como um utensílio de carga, sujeito a um regime mais estrito; a manta, por sua vez, não tem esse método alternativo de remoção, e por isso pode ser manuseada diretamente.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mai shena me'ukaf" e "de'efshar denafeil mimeila"
מאי שנא מאוכף - שאסור ליטול וכ"ש להניחו:

"Qual a diferença em relação à sela" — que é proibido retirar, e tanto mais colocá-la.

דנפיל ממילא - כדקתני מוליכו ומביאו לחצר והוא נופל מאליו:

"Pois é possível que caia por si mesma" — como se ensinou: conduz-o de um lado a outro no pátio, e ela cai por si mesma.

11Rav Papa: aqui, para aquecer (sofrimento real, permitido); ali, para esfriar (sem sofrimento, proibido)
Rav Papa
רַב פָּפָּא אָמַר: כָּאן לְחַמְּמָהּ, כָּאן לְצַנְּנָהּ. לְחַמְּמָהּ, אִית לַהּ צַעֲרָא. לְצַנְּנָהּ, לֵית לַהּ צַעֲרָא. וְהַיְינוּ דְּאָמְרִי אִינָשֵׁי: חֲמָרָא אֲפִילּוּ בִּתְקוּפַת תַּמּוּז קָרִיר לַהּ.

Rav Papa disse: aqui é para aquecê-lo, ali é para esfriá-lo. Para aquecê-lo, há sofrimento; para esfriá-lo, não há sofrimento. E é isso que dizem as pessoas: o jumento, mesmo no solstício de verão, sente frio.

Nota

Rav Papa propõe uma explicação alternativa para a distinção entre a manta e a sela, independente da questão de cair sozinha. Para ele, a diferença está na função de cada peça: a manta serve para aquecer o jumento, e sua ausência lhe causaria sofrimento real, já que, segundo o dito popular, o jumento sente frio mesmo no auge do calor do verão (o solstício de Tamuz); por isso, ela pode ser colocada diretamente. Já a sela, uma vez retirada, deixa o animal exposto ao ar, o que apenas o esfriaria — sem que isso constitua um sofrimento real que justifique manuseá-la diretamente; por isso permanece proibida.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kan lechamemah"
כאן לחממה - מרדעת צריך לחממה ומותר משום צער דצינה אבל נטילת אוכף אינו אלא שיצטנן שנתחממה ע"י משאוי שנשאה מבעוד יום ואי לא שקיל ליה לא איכפת לן שהרי הוא יצטנן מאליו דאמרי אינשי וכו':

"Aqui é para aquecê-lo" — a manta é necessária para aquecê-lo, e é permitida por causa do sofrimento do frio; mas a retirada da sela é apenas para que ele esfrie, já que se aquecera por causa da carga que carregara ainda de dia; e, se não a retirasse, não haveria problema, pois ele esfriaria por si mesmo — pois dizem as pessoas (que o jumento sente frio mesmo no verão, o que não se aplica aqui).

A baraita sobre o que o animal sai e não sai usando · לֹא יֵצֵא הַסּוּס בִּזְנַב שׁוּעָל

12Objeção de uma extensa baraita: o cavalo não sai com rabo de raposa nem marca entre os olhos; nem o zav, as cabras, a vaca, os potros, o animal com sandália ou amuleto — mesmo comprovado
Guemará (objeção); baraita
מֵיתִיבִי: לֹא יֵצֵא הַסּוּס בִּזְנַב שׁוּעָל, וְלֹא בַּזַּהֲרוּרִית שֶׁבֵּין עֵינָיו. לֹא יֵצֵא הַזָּב בַּכִּיס שֶׁלּוֹ, וְלֹא עִזִּים בַּכִּיס שֶׁבְּדַדֵּיהֶן, וְלֹא פָּרָה בַּחִסּוּם שֶׁבְּפִיהָ, וְלֹא סְיָיחִים בַּטְּרַסְקָלִין שֶׁבְּפִיהֶם לִרְשׁוּת הָרַבִּים, וְלֹא בְּהֵמָה בַּסַּנְדָּל שֶׁבְּרַגְלֶיהָ, וְלֹא בַּקָּמֵיעַ אַף עַל פִּי שֶׁהוּא מוּמְחֶה — וְזֶה חוֹמֶר בַּבְּהֵמָה מִבָּאָדָם.

Objetaram: o cavalo não sai com o rabo de raposa, nem com a marca vermelha entre os olhos. O (homem) zav não sai com sua bolsa, nem as cabras com a bolsa em seus úberes, nem a vaca com a focinheira em sua boca, nem os potros com as cestas de forragem em sua boca para o domínio público, nem o animal com a sandália em suas patas, nem com o amuleto, ainda que seja comprovado — e isto é mais estrito no animal do que na pessoa.

Nota

Traz-se uma longa baraita, que a princípio parece contradizer a permissão recém-estabelecida para a manta do jumento e para a cesta de forragem (segundo Rav): ela lista uma série de itens que os animais não podem usar ao sair em domínio público — o rabo de raposa pendurado entre os olhos do cavalo, usado contra o mau-olhado; a marca vermelha, também usada como adorno ou proteção; a bolsa que o homem com fluxo (zav) usa para recolher secreções e verificar sua condição; a bolsa nos úberes das cabras (referida na Mishná anterior); a focinheira que impede a vaca de pastar em campos alheios; a cesta de forragem na boca dos potros — mencionada explicitamente aqui como proibida em domínio público, o que aparenta contradizer a permissão de Rav; a sandália de metal usada para proteger as patas do animal contra pedras; e até o amuleto medicinal, mesmo já comprovado eficaz (tendo curado três vezes) — sendo esta última proibição mais severa para o animal do que seria para uma pessoa, que pode sair com amuleto comprovado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "bizenav shu'al", "zeharurit", "bekis shelo", "bekis shebedadeihen", "bechisum shebefiha", "basandal sheberagleha", "kamea", "mumcheh" e "vezeh chomer babehemah me'baadam"
בזנב שועל - שתולין לו בין עיניו שלא ישלוט בו עין:

"Com o rabo de raposa" — que se pendura entre seus olhos, para que o mau-olhado não prevaleça sobre ele.

זהרורית - לנוי:

"Marca vermelha" — para adorno.

בכיס שלו - שתולין לו באמתו לקבל זוב ולבדוק מנין ראיותיו שאינו תכשיט לו:

"Com sua bolsa" — que se pendura em seu membro para recolher o fluxo e verificar o número de suas emissões, pois não é adorno para ele.

בכיס שבדדיהן - לקבל חלב הנוטף אי נמי שלא ישרטו דדיהן על הקוצים שהיו דדיהן גסין:

"Com a bolsa em seus úberes" — para recolher o leite que goteja, ou ainda para que não arranhem os úberes nos espinhos, pois seus úberes eram grandes.

בחסום שבפיה - שחוסמין אותה שלא תרעה בשדות אחרים וכשמגיעין למקום מרעיתם נוטלין אותה הימנה:

"Com a focinheira em sua boca" — pois a impedem de pastar em campos alheios, e quando chegam ao seu lugar de pasto, retiram-na dela.

בסנדל שברגליה - שעושין לה סנדל של מתכת שלא יזיקוה האבנים:

"Com a sandália em suas patas" — pois lhe fazem uma sandália de metal, para que as pedras não o firam.

קמיע - כתב לרפואת חולי:

"Amuleto" — uma inscrição para a cura de uma doença.

מומחה - שריפא כבר ג' פעמים:

"Comprovado" — que já curou três vezes.

וזה חומר בבהמה מבאדם - קס"ד השתא דאקמיע קאי דאמרינן לקמן בפרק במה אשה יוצאה (שבת ד' סא.) שהאדם יוצא בקמיע מומחה וכל הני דקתני לא תצא הנך דלאו שמירת גופה הוא אלא משאוי וסנדל משום דדילמא מישתליף ואתי לאתויי:

"E isto é mais estrito no animal do que na pessoa" — pensa-se agora que isso se refere ao amuleto, pois adiante, no capítulo "Bameh Ishah Yotzah" (Shabat 61a), dizemos que a pessoa sai com amuleto comprovado; e todos estes casos que se ensinou que não saem são aqueles que não são proteção de seu próprio corpo, mas sim carga; e a sandália, porque poderia soltar-se e vir a trazê-la de volta.

13Mas o animal sai com a bandagem sobre a ferida, as talas sobre o osso quebrado, a placenta pendente, e o sino tapado no pescoço, passeando com ele no pátio
Baraita
אֲבָל יוֹצֵא הוּא בָּאֶגֶד שֶׁעַל גַּבֵּי הַמַּכָּה, וּבַקְּשִׁישִׁין שֶׁעַל גַּבֵּי הַשֶּׁבֶר, וּבַשִּׁילְיָא הַמְדוּלְדֶּלֶת בָּהּ, וּפוֹקְקִין לָהּ זוּג בְּצַוָּארָהּ, וּמְטַיֶּילֶת עִמּוֹ בֶּחָצֵר.

Mas ele sai com a bandagem que está sobre a ferida, e com as talas que estão sobre o osso quebrado, e com a placenta pendente nela; e tapam-lhe o sino no pescoço, e ela passeia com ele no pátio.

Nota

A mesma baraita, em contraste, permite que o animal saia com certos itens que, por serem verdadeira proteção do próprio corpo (e não meros acessórios de carga ou adorno), não se enquadram na proibição anterior: a bandagem que cobre uma ferida; as talas de madeira colocadas de cada lado de um osso quebrado para imobilizá-lo até que se solde; e a placenta que ainda pende parcialmente da fêmea após o parto, sem que se possa removê-la sem risco. Quanto ao sino usado no pescoço do animal (para localizá-lo ou para adorno), permite-se que o dono o tape com lã ou fibra, para que o badalo não produza som, e passeie com o animal apenas dentro do pátio — mas não que saia com ele à via pública, por parecer estar levando o animal a uma festa ou celebração.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "eged she'al gabei hamakah", "keshishin shel gabei hashever", "shilya hamedudeledet bah", "pokekin lah zug" e "metayelet"
אגד שעל גבי המכה - ליכא למימר אתי לאתויי:

"A bandagem que está sobre a ferida" — não há como dizer que ele viria a trazê-la de volta.

קשישין שעל השבר - בהמה שנשבר בה עצם עושין לה דפין מכאן ומכאן וקושרים אותן שם והן מעמידין העצם שלא ינוד אנה ואנה עד שמתחבר:

"As talas que estão sobre o osso quebrado" — quando o animal tem um osso quebrado, fazem-lhe tábuas de um lado e de outro, e as atam ali, e elas sustêm o osso para que não se mova de um lado para outro, até que se solde.

ובשליא המדולדלת בה - שיצתה מקצתה:

"E com a placenta pendente nela" — da qual saiu apenas uma parte.

ופוקקין לה זוג - אבל כשאינו פקוק אפי' בחצר לא תצא מפני שהעינבל שבתוכה מקשקש ומוליד קול לכך פוקק בצמר או במוכין שלא יקשקש העינבל שבתוכה:

"E tapam-lhe o sino" — mas, quando não está tapado, mesmo no pátio ela não deve sair, porque o badalo em seu interior chacoalha e produz som; por isso se tapa com lã ou fibra, para que o badalo em seu interior não chacoalhe.

זוג - אישקלי"ט:

"Sino" — em francês antigo, "esclot".

עינבל - בטדי"ל:

"Badalo" — em francês antigo, "batail".

ומטיילת - באותו זוג בחצר אבל לא תצא בו לרה"ר כדמפרש לקמן בפרקין (שבת דף נד:) דמיחזי כמאן דאזיל לחינגא:

"E passeia" — com esse mesmo sino, no pátio, mas não sai com ele em via pública, como se explicará adiante neste capítulo (Shabat 54b), pois parece com quem vai a uma festa.

14Mas a baraita disse "para o domínio público" — logo, no pátio seria permitido: seria isso potros grandes, por mero prazer?
Guemará (pergunta)
קָתָנֵי מִיהַת: וְלֹא סְיָיחִין בִּטְרַסְקָלִים שֶׁבְּפִיהֶם לִרְשׁוּת הָרַבִּים. לִרְשׁוּת הָרַבִּים הוּא דְּלָא, הָא בְּחָצֵר — שַׁפִּיר דָּמֵי. מַאי לַָאו, בִּגְדוֹלִים וּמִשּׁוּם תַּעֲנוּג?!

Em todo caso, ensinou-se: e não (saem) os potros com as cestas de forragem em sua boca para o domínio público. Para o domínio público é que não; mas no pátio, tudo bem. Não seria isso, então, potros grandes, e por mero prazer?

Nota

A Guemará retoma a baraita do beat 12 e nota uma precisão em sua linguagem: ela disse que os potros não saem com a cesta de forragem "para o domínio público" — uma formulação que, por exclusão, sugere que dentro do pátio isso seria, sim, permitido. Levanta-se então a pergunta: não seria essa permissão, dentro do pátio, exatamente o caso dos potros grandes, cujo pescoço já é longo o bastante para comer do chão sem esforço — de modo que pendurar-lhes a cesta seria mero prazer, e não necessidade real (contrariando, à primeira vista, a posição de Shmuel, que proibia a cesta de forragem mesmo no pátio)?

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mai lav bigedolim umishum ta'anug"
מאי לאו - בסייחים גדולים קאמר דצוארן ארוך ואין להם צער לשוח ולאכול מע"ג הקרקע ותולה להן טרסקל לתענוג וקשיא לשמואל:

"Não seria isso" — refere-se a potros grandes, cujo pescoço é longo, e não sentem sofrimento ao abaixar-se para comer do chão, e pendura-se-lhes a cesta por mero prazer — o que seria uma dificuldade contra Shmuel.

15Não: potros pequenos, e por sofrimento — e isto também se infere, pois se ensinou… (fragmento interrompido; continua em 53b)
Guemará (resposta, interrompida)
לָא, בִּקְטַנִּים וּמִשּׁוּם צַעַר: דַּיְקָא נָמֵי, דְּקָתָנֵי…

Não; (trata-se) de potros pequenos, e por causa do sofrimento. Também se infere isso precisamente, pois se ensinou… (o texto continua em 53b)

Nota

O daf termina em meio à resposta da Guemará à pergunta do beat anterior: não se trata de potros grandes por prazer, mas de potros pequenos, cujo pescoço ainda curto lhes causa sofrimento real ao abaixar-se para comer do chão — de modo que, no pátio, pendurar-lhes a cesta é permitido pelo mesmo motivo que permite a manta do jumento (sofrimento real), sem contradizer a posição de Shmuel. A Guemará começa então a trazer uma prova adicional, precisa, a partir da própria continuação da baraita ("pois se ensinou…") — mas o texto do daf se interrompe exatamente neste ponto, sem completar a citação. A continuação, em Shabat 53b, retoma com as palavras "דּוּמְיָא דְּקָמֵיעַ. שְׁמַע מִינָּה" ("semelhante ao amuleto. Conclua disso"), fechando ali a prova e o raciocínio iniciados nesta última linha de 53a.