Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Heh · Bameh Behemah
בְּנֵי שְׁמוּאֵל

Os filhos de Shmuel não pecaram, apenas negligenciaram o costume de seu pai; e a extensa defesa de David, quanto a Bat-Sheva, Uriah e a difamação de Tziva contra Mefivoshet

Shabbat 56a — continuação da defesa dos filhos de Shmuel, com a disputa tanaítica sobre "vayitu acharei habatza"; e o início da defesa de David: a Shechiná que estava com ele, a leitura de "biksesh la'asot velo assah", a justificativa quanto a Uriah (rebelde contra o reino, e get condicional de guerra), e a disputa entre Rav e Shmuel sobre se David aceitou a difamação de Tziva contra Mefivoshet — frase interrompida no meio do relato de Mefivoshet, continuada em 56b.

O daf continua diretamente a frase interrompida ao final de 55b: Rabi Shmuel bar Nachmani, em nome de Rabi Yonatan, ensina que todo aquele que diz que os filhos de Shmuel pecaram está equivocado, pois o versículo diz apenas que "não andaram em seus caminhos" — em seus caminhos é que não andaram, mas pecar não pecaram. O verdadeiro desvio, explica a Guemará, foi não terem seguido o costume de seu pai, o justo Shmuel, que rondava pessoalmente todos os lugares de Israel para julgar o povo em suas próprias cidades; os filhos, em vez disso, permaneceram sentados, obrigando os litigantes a virem até eles, a fim de aumentar a paga de seus assistentes e escribas — desvio identificado com a expressão "e se desviaram atrás do lucro", sobre a qual uma disputa tanaítica detalha quatro formas possíveis desse abuso, segundo Rabi Meir, Rabi Yehuda, Rabi Akiva e Rabi Yossei. A Guemará passa então ao terceiro e mais extenso ensinamento da série mnemônica: a defesa de David. Rabi Shmuel bar Nachmani, em nome de Rabi Yonatan, sustenta que David não pecou com Bat-Sheva, pois a Shechiná estava com ele; o versículo que parece acusá-lo de "fazer o mal" é lido como prova de que ele apenas quis fazer, e não chegou a fazer — leitura reforçada por Rabi, descendente de David, a partir da forma verbal incomum do versículo. Quanto ao assassinato de Uriah, a Guemará explica que David deveria tê-lo julgado formalmente no Sinédrio por rebelião contra a coroa, e que, quanto a Bat-Sheva, tinha direito legítimo sobre ela, pois todo soldado que partia para as guerras da casa de David escrevia previamente à sua mulher um documento de repúdio condicional — ensinamento também de Rabi Shmuel bar Nachmani, provado pela leitura homilética da palavra "arubatam" no relato das dez fôrmas de queijo que Yishai envia a seus filhos. Segue-se uma discussão paralela, atribuída a Abaye o Ancião como contradição interna de Rav: se David não pecou nem mesmo indiretamente, como se concilia isso com o ensinamento de que David aceitou a difamação de Tziva contra Mefivoshet? A Guemará examina essa tradição em si mesma — a prova textual do jogo de palavras entre "belo davar" e "milo davar" — e por que David teria aceitado uma segunda vez a palavra de um servo já flagrado em mentira. Por fim, traz-se a posição oposta de Shmuel: David não aceitou a difamação, mas viu com os próprios olhos sinais reconhecíveis de luto genuíno em Mefivoshet — sua aparência descuidada. O daf termina no meio da citação do relato de Mefivoshet ao rei sobre o engano de seu servo Tziva, interrompido exatamente na palavra "manco" (pisse'ach), continuado logo no início de 56b.

Os filhos de Shmuel não pecaram · בְּנֵי שְׁמוּאֵל חָטְאוּ אֵינוֹ אֶלָּא טוֹעֶה

01Continuação: todo aquele que diz que os filhos de Shmuel pecaram está equivocado — não andaram em seus caminhos, mas pecar não pecaram
Rabi Shmuel bar Nachmani; Rabi Yonatan
בְּנֵי שְׁמוּאֵל חָטְאוּ אֵינוֹ אֶלָּא טוֹעֶה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי (כִּי זָקֵן שְׁמוּאֵל וּבָנָיו לֹא הָלְכוּ) בִּדְרָכָיו״ — בִּדְרָכָיו הוּא דְּלֹא הָלְכוּ, מִיחְטָא נָמֵי לָא חָטְאוּ.

— que os filhos de Shmuel pecaram não é senão um equivocado, pois está dito: "e sucedeu, quando Shmuel envelheceu, que seus filhos não andaram em seus caminhos" (I Samuel 8:1,3) — em seus caminhos é que não andaram, mas pecar, também não pecaram.

Nota

O daf abre completando a frase interrompida ao final de 55b. Terceiro nome da lista mnemônica, os filhos de Shmuel — a quem o versículo acusa de se desviarem atrás do lucro após a velhice de seu pai — são defendidos pelo mesmo método já aplicado a Reuven e aos filhos de Eli: o próprio versículo, lido com precisão, afirma apenas que não seguiram os caminhos do pai, não que tenham pecado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "benei Shmuel chatu"
בני שמואל חטאו - במקח שוחד והטיית דין:

"Os filhos de Shmuel pecaram" — a suspeita seria de que pecaram com aceitação de suborno e distorção do julgamento.

02O desvio real: não fizeram como seu pai, que rondava as cidades de Israel para julgar; permaneceram sentados para aumentar a paga de seus assistentes
Guemará
אֶלָּא מָה אֲנִי מְקַיֵּים ״וַיִּטּוּ אַחֲרֵי הַבָּצַע״ — שֶׁלֹּא עָשׂוּ כְּמַעֲשֵׂה אֲבִיהֶם, שֶׁהָיָה שְׁמוּאֵל הַצַּדִּיק מְחַזֵּר בְּכָל מְקוֹמוֹת יִשְׂרָאֵל וְדָן אוֹתָם בְּעָרֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָלַךְ מִדֵּי שָׁנָה בְּשָׁנָה וְסָבַב בֵּית אֵל וְהַגִּלְגָּל וְהַמִּצְפָּה וְשָׁפַט אֶת יִשְׂרָאֵל״, וְהֵם לֹא עָשׂוּ כֵּן, אֶלָּא יָשְׁבוּ בְּעָרֵיהֶם כְּדֵי לְהַרְבּוֹת שָׂכָר לְחַזָּנֵיהֶן וּלְסוֹפְרֵיהֶן.

Mas como sustento então "e se desviaram atrás do lucro" (I Samuel 8:3)? Porque não fizeram como o ato de seu pai, pois Shmuel, o justo, rondava por todos os lugares de Israel e os julgava em suas próprias cidades, como está dito: "e ia, ano após ano, e circundava Beit-El, e Guilgal, e Mitzpá, e julgava a Israel" (I Samuel 7:16); e eles não fizeram assim, mas permaneciam sentados em suas cidades, a fim de aumentar a paga de seus assistentes (chazanim) e de seus escribas.

Nota

A explicação real do versículo é revelada: Shmuel percorria pessoalmente todas as localidades de Israel para julgar o povo em seus próprios lugares, poupando-o do custo e do esforço de viajar. Seus filhos, ao contrário, esperavam que o povo viesse até eles — não por corrupção direta, mas para gerar mais trabalho, e portanto mais paga, para os funcionários que empregavam: os assistentes que convocavam os litigantes e os escribas que redigiam os documentos do processo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lechazneihem" e "ulesofreihem"
לחזניהם - שמשיהם ששוכרין אותן לילך ולהזמין את הנקראים לדין:

"A seus assistentes (chazanim)" — seus servidores, que contratavam para ir e convocar os que eram chamados a julgamento.

ולסופריהם - לשטרי בירורין ולאגרות שום:

"E a seus escribas" — para os documentos de esclarecimento e as cartas de avaliação.

03Disputa tanaítica sobre "vayitu acharei habatza": quatro formas do desvio, segundo Rabi Meir, Rabi Yehuda, Rabi Akiva e Rabi Yossei
Rabi Meir; Rabi Yehuda; Rabi Akiva; Rabi Yossei
כְּתַנָּאֵי. ״וַיִּטּוּ אַחֲרֵי הַבָּצַע״, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר חֶלְקָם שָׁאֲלוּ בְּפִיהֶם. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: מְלַאי הִטִּילוּ עַל בַּעֲלֵי בָתִּים. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: קוּפָּה יְתֵירָה שֶׁל מַעֲשֵׂר נָטְלוּ בִּזְרוֹעַ. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: מַתָּנוֹת נָטְלוּ בִּזְרוֹעַ.

Isto é como uma disputa tanaítica. "E se desviaram atrás do lucro" — Rabi Meir diz: pediram sua porção de dízimo com a própria boca (por serem grandes do povo, embaraçando os que deviam pagar). Rabi Yehuda diz: impuseram mercadoria aos donos de casa. Rabi Akiva diz: tomaram à força uma cesta extra de dízimo. Rabi Yossei diz: tomaram à força os dons sacerdotais.

Nota

A mesma expressão que descreve o desvio dos filhos de Shmuel é objeto de uma disputa tanaítica independente sobre sua natureza exata — todas as quatro leituras evitando atribuir-lhes corrupção judicial propriamente dita, mas sim algum tipo de abuso de posição em matéria de dízimos e dons sacerdotais, seja pedindo abertamente o que lhes era devido de modo que os leviatas comuns não ousavam, seja impondo mercadoria aos donos de casa para lucrar com a venda, seja tomando à força mais do que lhes cabia.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre as quatro leituras de "vayitu acharei habatza"
חלקם שאלו בפיהם - מעשר ראשון הראוי להם שלוים היו שאלו בפיהם מתוך שהיו גדולי הדור ושופטים לא היו מונעים מהם ושאר לוים עניים מצטערים ולר' מאיר לא חטאו בהטיית משפט:

"Pediram sua porção com a própria boca" — o primeiro dízimo que lhes cabia por serem levitas, pediam com a própria boca; e, por serem grandes da geração e juízes, ninguém lho negava, enquanto os demais levitas, pobres, sofriam; e, segundo Rabi Meir, não pecaram por distorção do julgamento.

מלאי הטילו על בעלי בתים - נותנים להן פרגמטיא לעסוק בה ולתת להם השכר ומתוך כך היה נמשך לבם להטות דין כשבאין לפניהן לדון והיינו חטאם:

"Impuseram mercadoria aos donos de casa" — davam-lhes mercadoria para negociar e lhes davam o lucro; e por causa disso o coração deles se inclinava a distorcer o julgamento quando aqueles vinham perante eles para julgamento, e este era o pecado deles.

קופה יתירה - יותר מן הראוי:

"Cesta extra" — mais do que o devido.

מתנות - זרוע לחיים וקיבה והם לא היו כהנים ל"א מתנות לויה כגון מעשר וקרא כתיב ונתן לכהן ודרשינן ולא שיטול מעצמו בשחיטת חולין בפ' הזרוע (חולין דף קלג.) וה"ה לכל מתנות כהונה ולויה:

"Dons sacerdotais" — o braço, as queixadas e o estômago do abate, embora eles não fossem sacerdotes; outra explicação: dons de levitas, como o dízimo, pois está escrito "e dará ao sacerdote" (Deuteronômio 18:3), e interpretamos que não o toma por si mesmo, no tratado sobre o braço (Chulin 133a); e o mesmo vale para todos os dons sacerdotais e leviatas.

David não pecou: Bat-Sheva e Uriah · כׇּל הָאוֹמֵר דָּוִד חָטָא אֵינוֹ אֶלָּא טוֹעֶה

04Rabi Shmuel bar Nachmani em nome de Rabi Yonatan: quem diz que David pecou está equivocado, pois a Shechiná estava com ele
Rabi Shmuel bar Nachmani; Rabi Yonatan
אָמַר רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי אָמַר רַבִּי יוֹנָתָן: כׇּל הָאוֹמֵר דָּוִד חָטָא אֵינוֹ אֶלָּא טוֹעֶה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי דָּוִד לְכׇל דְּרָכָיו מַשְׂכִּיל וַה׳ עִמּוֹ וְגוֹ׳״. אֶפְשָׁר חֵטְא בָּא לְיָדוֹ וּשְׁכִינָה עִמּוֹ?!

Disse Rabi Shmuel bar Nachmani, disse Rabi Yonatan: todo aquele que diz que David pecou não é senão um equivocado, pois está dito: "e David era bem-sucedido em todos os seus caminhos, e o Senhor estava com ele" etc. (I Samuel 18:14). Seria possível que o pecado tivesse chegado às suas mãos e a Shechiná estivesse com ele?!

Nota

Quarto e mais extenso ensinamento da série: a defesa de David quanto ao episódio de Bat-Sheva. O argumento segue o mesmo padrão retórico já usado para Reuven e os filhos de Eli — um versículo que atesta a presença constante da Shechiná com David é tomado como prova de que ele não poderia ter cometido o pecado que a narrativa parece atribuir-lhe.

05"Quis fazer, e não fez": a leitura de "madua bazita et devar Hashem"
Guemará
אֶלָּא מָה אֲנִי מְקַיֵּים ״מַדּוּעַ בָּזִיתָ אֶת דְּבַר ה׳ לַעֲשׂוֹת הָרַע״ — שֶׁבִּיקֵּשׁ לַעֲשׂוֹת וְלֹא עָשָׂה.

Mas como sustento então "por que desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o mal" (II Samuel 12:9)? Porque quis fazer, e não fez.

Nota

O versículo em que o profeta Natan repreende David é reinterpretado: em vez de constatar um mal já cometido, ele descreve apenas a intenção de David — um desejo que não chegou a se concretizar em ato pecaminoso.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "david chata" e "shebikesh"
דוד חטא - בבת שבע קודם שקבלה גט:

"David pecou" — a suspeita seria com Bat-Sheva, antes que ela recebesse o documento de repúdio.

שבקש - לשכב עמה קודם שקבלה גט שהיה בעלה שולח לה מן המלחמה שאם ימות לא תיזקק ליבום או שמא יהרג ואין מעיד עליו ותתעגן אשתו או שמא יהא שבוי כדאמרינן לקמן כל היוצא למלחמת בית דוד כו':

"Que quis" — deitar-se com ela antes que ela recebesse o documento de repúdio que seu marido lhe enviava desde a guerra, para que, se morresse, ela não ficasse presa ao levirato, ou para que, se fosse morto sem testemunha que o atestasse, sua esposa não ficasse agunáh (presa sem poder casar novamente), ou ainda para o caso de ser feito prisioneiro — conforme diremos adiante: todo aquele que sai para a guerra da casa de David etc.

06Rav: Rabi, descendente de David, inverte a leitura em favor do mérito de David, a partir da forma verbal incomum "la'asot"
Rav; Rabi
אָמַר רַב: רַבִּי דְּאָתֵי מִדָּוִד מְהַפֵּךְ וְדָרֵישׁ בִּזְכוּתֵיהּ דְּדָוִד. ״מַדּוּעַ בָּזִיתָ אֶת דְּבַר ה׳ לַעֲשׂוֹת הָרַע״ — רַבִּי אוֹמֵר: מְשׁוּנָּה רָעָה זוֹ מִכׇּל רָעוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה, שֶׁכָּל רָעוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה כְּתִיב בְּהוּ ״וַיַּעַשׂ״, וְכָאן כְּתִיב ״לַעֲשׂוֹת״ — שֶׁבִּיקֵּשׁ לַעֲשׂוֹת וְלֹא עָשָׂה.

Disse Rav: Rabi, que descende de David, inverte e interpreta em favor do mérito de David. "Por que desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o mal" — Rabi diz: este mal é diferente de todos os males mencionados na Torá, pois de todos os males da Torá está escrito "e fez" (vaya'as), e aqui está escrito "fazer" (la'asot) — porque quis fazer, e não fez.

Nota

Rav atribui a leitura anterior especificamente a Rabi (Yehuda HaNassi), que, sendo ele mesmo descendente de David, tinha interesse e autoridade em interpretar o versículo a seu favor. A prova filológica reforça o argumento: em toda a Torá, os relatos de mal cometido usam a forma verbal consumada "vaya'as" (e fez), ao passo que aqui o texto emprega o infinitivo "la'asot" (fazer), sugerindo intenção não realizada, não ato consumado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "meshuna ra'ah zo"
משונה רעה זו - בכתיבתה ובלשונה:

"Este mal é diferente" — em sua escrita e em sua linguagem gramatical.

07"A Uriah feriste com a espada": deverias tê-lo julgado no Sinédrio; "e tomaste sua mulher": tinhas direito legítimo sobre ela
Guemará
״אֵת אוּרִיָּה הַחִתִּי הִכִּיתָ בַחֶרֶב״ — שֶׁהָיָה לְךָ לְדוּנוֹ בְּסַנְהֶדְרִין וְלֹא דַּנְתָּ. ״וְאֶת אִשְׁתּוֹ לָקַחְתָּ לְּךָ לְאִשָּׁה״ — לִיקּוּחִין יֵשׁ לְךָ בָּהּ.

"A Uriah, o hitita, feriste com a espada" (II Samuel 12:9) — porque devias tê-lo julgado no Sinédrio, e não o julgaste. "E a sua mulher tomaste para ti por mulher" — casamento legítimo tens com ela.

Nota

As duas outras acusações do versículo são igualmente reinterpretadas em favor de David. Matar Uriah não foi assassinato comum, mas a execução — irregular apenas por falta do devido processo — de um rebelde contra a coroa, que merecia julgamento formal perante o Sinédrio. E "tomar sua mulher" não implica adultério, pois, como se explica a seguir, David já possuía vínculo matrimonial legítimo com Bat-Sheva.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shehayah lecha ledino" e "likuchin yesh lecha bah"
שהיה לך לדונו - על שמרד במלכות כדלקמן:

"Porque devias tê-lo julgado" — por ter se rebelado contra o reino, como adiante se explica.

ליקוחין יש לך בה - קדושין תופסין בה שאינה אשת איש כדשמואל כו':

"Casamento legítimo tens com ela" — o matrimônio recai validamente sobre ela, pois ela não era mulher casada, segundo a opinião de Shmuel etc.

08Rabi Shmuel bar Nachmani em nome de Rabi Yonatan: todo aquele que sai para a guerra da casa de David escreve um documento de repúdio condicional para sua mulher
Rabi Shmuel bar Nachmani; Rabi Yonatan
דְּאָמַר רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי אָמַר רַבִּי יוֹנָתָן: כׇּל הַיּוֹצֵא לְמִלְחֶמֶת בֵּית דָּוִד, כּוֹתֵב גֵּט כְּרִיתוּת לְאִשְׁתּוֹ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֵת עֲשֶׂרֶת חֲרִיצֵי הֶחָלָב הָאֵלֶּה תָּבִיא לְשַׂר הָאָלֶף וְאֶת אַחֶיךָ תִּפְקֹד לְשָׁלוֹם וְאֶת עֲרֻבָּתָם תִּקָּח״.

Pois disse Rabi Shmuel bar Nachmani, disse Rabi Yonatan: todo aquele que sai para a guerra da casa de David escreve um documento de repúdio condicional (guet kritut) para sua mulher, pois está dito: "e estas dez fôrmas de queijo levarás ao chefe do milhar, e visitarás teus irmãos, para saber se estão bem, e tomarás o penhor deles" (I Samuel 17:18).

Nota

A base para afirmar que David tinha direito legítimo sobre Bat-Sheva é agora explicada: existia o costume, entre os soldados do exército de David, de escrever a suas esposas, antes de partir para a batalha, um documento de repúdio condicional — válido apenas se o marido não retornasse —, de modo a evitar que ficassem agunot (presas sem poder casar novamente) em caso de morte não testemunhada, ou vinculadas ao levirato. Se Uriah havia feito o mesmo antes de partir, Bat-Sheva já estaria, tecnicamente, livre para se casar.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "get kritut" e "ve'et arubatam tikach"
גט כריתות - על תנאי שאם ימות תהא מגורשת מעכשיו ופעמים שהוא טרוד בצאתו ושולחו מן המלחמה:

"Documento de repúdio" — sob condição de que, se morresse, ela estaria divorciada desde agora; e às vezes ele está ocupado ao sair, e o envia desde a guerra.

ואת ערובתם תקח - במלחמת שאול כתיב:

"E tomarás o penhor deles" — está escrito na guerra de Shaul (o contexto original do versículo).

09O que é "arubatam"? Rav Yossef: coisas entrelaçadas entre ele e ela
Rav Yossef
מַאי ״עֲרֻבָּתָם״? — תָּנֵי רַב יוֹסֵף: דְּבָרִים הַמְעוֹרָבִים בֵּינוֹ לְבֵינָהּ.

O que é "o penhor deles" (arubatam)? Ensinou Rav Yossef: coisas entrelaçadas entre ele e ela.

Nota

Rav Yossef lê a palavra "arubatam" — literalmente "seu penhor" — não como referência a bens materiais deixados como garantia, mas como alusão homilética ao próprio vínculo matrimonial: o documento de repúdio condicional que "entrelaça" e ao mesmo tempo regula a situação entre marido e mulher enquanto ele estiver na guerra.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "devarim hameoravim beineihem"
דברים המעורבים ביניהם - היינו קדושין תקח תבטל ע"י גט שתביא להם מן המלחמה:

"Coisas entrelaçadas entre eles" — isto é, o vínculo do casamento; "tomarás" — anularás por meio do documento de repúdio que lhes trarás desde a guerra.

10"Com a espada dos filhos de Amon": assim como por ela não és punido, também por Uriah não és punido
Guemará
״וְאֹתוֹ הָרַגְתָּ בְּחֶרֶב בְּנֵי עַמּוֹן״ — מַה חֶרֶב בְּנֵי עַמּוֹן אִי אַתָּה נֶעֱנָשׁ עָלָיו, אַף אוּרִיָּה הַחִתִּי אִי אַתָּה נֶעֱנָשׁ עָלָיו.

"E a ele mataste com a espada dos filhos de Amon" (II Samuel 12:9) — assim como pela espada dos filhos de Amon (mortos em guerra legítima) não és punido, também por Uriah, o hitita, não és punido.

Nota

A própria formulação do versículo, ao comparar a morte de Uriah à espada usada contra os filhos de Amon — inimigos mortos licitamente em guerra —, sugere que sua morte também não constituiu crime passível de punição, reforçando a leitura de que Uriah foi executado legitimamente como rebelde.

11Por que Uriah era rebelde: chamou Yoav de "meu senhor" diante do rei
Guemará
מַאי טַעְמָא — מוֹרֵד בַּמַּלְכוּת הֲוָה. דַּאֲמַר לֵיהּ: ״וַאדֹנִי יוֹאָב וְעַבְדֵי אֲדֹנִי עַל פְּנֵי הַשָּׂדֶה חֹנִים״.

Qual é a razão de ser considerado rebelde? Ele era um rebelde contra o reino, pois lhe disse a David: "e meu senhor Joav, e os servos de meu senhor, estão acampados a céu aberto" (II Samuel 11:11).

Nota

A prova da rebelião de Uriah vem de suas próprias palavras: ao se dirigir a David, chamou Yoav, o general, de "meu senhor", em vez de reservar esse título ao próprio rei diante de quem falava — uma afronta implícita à autoridade real, suficiente para classificá-lo como rebelde contra a coroa.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "va'adoni Yoav"
ואדוני יואב - לאו אורח ארעא לקבל עליו מרות אחרים בפני המלך:

"E meu senhor Joav" — não é conduta apropriada aceitar sobre si a autoridade de outros diante do rei.

12Rav: examinando David, nada se encontra contra ele, exceto o caso de Uriah
Rav
אָמַר רַב: כִּי מְעַיְּינַתְּ בֵּיהּ בְּדָוִד לָא מַשְׁכַּחַתְּ בֵּיהּ בַּר מִדְּאוּרִיָּה, דִּכְתִיב: ״רַק בִּדְבַר אוּרִיָּה הַחִתִּי״.

Disse Rav: quando examinas David, não encontras nele falta alguma, exceto quanto a Uriah, pois está escrito: "somente no caso de Uriah, o hitita" (I Reis 15:5).

Nota

Rav resume o balanço geral do caráter de David a partir do versículo que o descreve, séculos depois, como modelo de integridade régia — exceto quanto ao próprio caso de Uriah, cuja ressalva textual confirma que este foi realmente o único ponto problemático em toda a vida de David, ainda que reinterpretado como falha processual e não como pecado moral.

David e a difamação de Tziva contra Mefivoshet · קִיבֵּל דָּוִד לָשׁוֹן הָרָע

13Abaye o Ancião aponta uma contradição interna de Rav: será que David aceitou a difamação de Tziva?
Abaye Kashisha
אַבָּיֵי קַשִּׁישָׁא רָמֵי דְּרַב אַדְּרַב: מִי אָמַר רַב הָכִי? וְהָאָמַר רַב: קִיבֵּל דָּוִד לָשׁוֹן הָרָע. קַשְׁיָא.

Abaye, o Ancião, apontou uma contradição de Rav contra Rav: acaso disse Rav isto (que nada se encontra contra David além do caso de Uriah)? Mas não disse Rav também que David aceitou a difamação (lashon hara, de Tziva contra Mefivoshet)? É uma dificuldade.

Nota

Se Rav afirmou que nada se encontra contra David senão o caso de Uriah, como pôde o próprio Rav também ensinar, em outro lugar, que David aceitou a difamação levantada por seu servo Tziva contra Mefivoshet, neto de Shaul — um segundo ponto problemático? Abaye levanta a contradição sem resolvê-la de imediato; a Guemará passa a examinar essa segunda tradição em si mesma.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lashon hara"
לשון הרע - לקמיה מפרש:

"Difamação" — adiante se explica.

14Quanto ao próprio assunto: Rav disse que David aceitou a difamação, provado pelo jogo de palavras entre "belo davar" e "milo davar"
Rav
גּוּפָא. רַב אָמַר: קִיבֵּל דָּוִד לָשׁוֹן הָרָע, דִּכְתִיב: ״וַיֹּאמֶר לוֹ הַמֶּלֶךְ אֵיפוֹא הוּא וַיֹּאמֶר צִיבָא אֶל הַמֶּלֶךְ הִנֵּה הוּא בֵּית מָכִיר בֶּן עַמִּיאֵל בְּלֹא דְבָר״. וּכְתִיב: ״וַיִּשְׁלַח הַמֶּלֶךְ וַיִּקָּחֵהוּ מִבֵּית מָכִיר בֶּן עַמִּיאֵל מִלֹּא דְבָר״.

Quanto ao próprio assunto: Rav disse: David aceitou a difamação, pois está escrito: "e disse-lhe o rei: onde está ele? E disse Tziva ao rei: eis que está na casa de Machir, filho de Amiel, em Lo-Davar" (belo davar) (II Samuel 9:4). E está escrito: "e enviou o rei, e o tomou da casa de Machir, filho de Amiel, de Lo-Davar" (milo davar) (II Samuel 9:5).

Nota

A prova de que David aceitou a calúnia de Tziva contra Mefivoshet vem de uma sutileza textual: na primeira vez, o texto escreve o nome do lugar "Lo-Davar" como "belo davar" (sem valor algum), sugerindo que Tziva o descrevera a David como um lugar insignificante — implicando, entrelinhas, que Mefivoshet ali vivia sem instrução, "sem nenhuma coisa" de sabedoria. Mas a segunda menção escreve "milo davar", a grafia correta e neutra do topônimo, revelando que a primeira formulação de Tziva fora deliberadamente depreciativa — e David, ainda assim, aceitara aquela caracterização sem verificá-la.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "belo davar"
בלא דבר - אינו חכם בתורה והוא מצאו מלא דבר וחכם בתורה:

"Sem nenhuma coisa" (belo davar)Tziva deu a entender que Mefivoshet não era versado na Torá; e, no entanto, ele o encontrou cheio de conhecimento (malé davar) e versado na Torá.

15Já sabendo que Tziva era mentiroso, por que David aceitou dele uma segunda difamação, entregando-lhe os bens de Mefivoshet?
Guemará
מִכְּדִי חַזְיֵיהּ דְּשַׁקָּרָא הוּא, כִּי הֲדַר אַלְשֵׁין עִילָּוֵיהּ מַאי טַעְמָא קַבֵּיל מִינֵּיהּ? דִּכְתִיב: ״וַיֹּאמֶר הַמֶּלֶךְ אֶל צִיבָא אַיֵּה בֶּן אֲדוֹנֶיךָ וַיֹּאמֶר צִיבָא אֶל הַמֶּלֶךְ הִנֵּה הוּא יוֹשֵׁב בִּירוּשָׁלַיִם וְגוֹ׳״. וּמְנָא לַן דְּקַבֵּיל מִינֵּיהּ, דִּכְתִיב: ״וַיֹּאמֶר הַמֶּלֶךְ הִנֵּה לְךָ כֹּל אֲשֶׁר לִמְפִיבוֹשֶׁת וַיֹּאמֶר צִיבָא הִשְׁתַּחֲוֵיתִי אֶמְצָא חֵן בְּעֵינֵי הַמֶּלֶךְ״.

Ora, já que David viu que ele (Tziva) era mentiroso, quando este voltou a difamar sobre ele (Mefivoshet), por que motivo aceitou dele? Pois está escrito: "e disse o rei a Tziva: onde está o filho de teu senhor? E disse Tziva ao rei: eis que está morando em Jerusalém" etc. (II Samuel 16:3). E de onde sabemos que aceitou dele? Pois está escrito: "e disse o rei: eis que é teu tudo o que pertence a Mefivoshet. E disse Tziva: prostro-me; que eu ache graça aos olhos do rei" (II Samuel 16:4).

Nota

A Guemará aprofunda a dificuldade: David já tinha motivo para desconfiar de Tziva, tendo-o flagrado depreciando Mefivoshet injustamente na primeira ocasião. Ainda assim, quando Tziva o difamou uma segunda vez — durante a fuga de David diante de Absalão, acusando Mefivoshet de esperar a restauração do reino de Shaul para si — David aceitou a acusação sem verificação, chegando a entregar a Tziva todos os bens que pertenciam a Mefivoshet.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "chazyeih deshakra hava" e "ki hadar alshin alei"
חזייא דשקרא הוה - מתחילה מצאו שקרן בכך:

"Viu que ele era mentiroso" — desde o início encontrou-o mentiroso nisso.

כי הדר אלשין עליה - ציבא על מפיבושת כשהיה דוד בורח מפני אבשלום מאי טעמא קביל מיניה:

"Quando este voltou a difamar sobre ele" — Tziva sobre Mefivoshet, quando David fugia diante de Absalão — por que motivo aceitou dele?

איה בן אדונך ויאמר הנה יושב בירושלים - כי אמר היום ישיבו לי את ממלכת אבי:

"'Onde está o filho de teu senhor? E disse: eis que está morando em Jerusalém'" — pois Mefivoshet supostamente disse: hoje me devolverão o reino de meu pai.

16Shmuel: David não aceitou a difamação, mas viu sinais reconhecíveis de luto genuíno em Mefivoshet — frase interrompida, continuada em 56b
Shmuel
וּשְׁמוּאֵל אָמַר: לֹא קִיבֵּל דָּוִד לָשׁוֹן הָרָע, דְּבָרִים הַנִּיכָּרִים חֲזָא בֵּיהּ. דִּכְתִיב: ״וּמְפִיבוֹשֶׁת בֶּן שָׁאוּל יָרַד לִפְנֵי הַמֶּלֶךְ וְלֹא עָשָׂה רַגְלָיו וְלֹא עָשָׂה שְׂפָמוֹ וְאֶת בְּגָדָיו לֹא כִבֵּס וְגוֹ׳״. וּכְתִיב: ״וַיְהִי כִּי בָא יְרוּשָׁלִַים לִקְרַאת הַמֶּלֶךְ וַיֹּאמֶר לוֹ הַמֶּלֶךְ לָמָּה לֹא הָלַכְתָּ עִמִּי מְפִיבוֹשֶׁת. וַיֹּאמַר אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ עַבְדִּי רִמָּנִי כִּי אָמַר עַבְדְּךָ אֶחְבְּשָׁה לִּי הַחֲמוֹר וְאֶרְכַּב עָלֶיהָ וְאֵלֵךְ אֶת הַמֶּלֶךְ כִּי פִסֵּחַ

E Shmuel disse: David não aceitou a difamação; sinais reconhecíveis de luto genuíno viu nele. Pois está escrito: "e Mefivoshet, filho de Shaul, desceu ao encontro do rei; e não cuidara de seus pés, nem cuidara de seu bigode, nem lavara suas vestes" etc. (II Samuel 19:25). E está escrito: "e sucedeu que, quando veio a Jerusalém ao encontro do rei, disse-lhe o rei: por que não foste comigo, Mefivoshet? E disse: meu senhor, ó rei, meu servo me enganou, pois disse teu servo: albardarei para mim o jumento, e montarei sobre ele, e irei com o rei — pois manco —

Nota

A posição oposta, de Shmuel, resolve a contradição levantada por Abaye: David não teria, de fato, aceitado cegamente a difamação de Tziva; antes, viu com os próprios olhos evidências concretas e inconfundíveis do luto genuíno de Mefivoshet durante toda a fuga de David — sua aparência descuidada, sinal de verdadeira lealdade, e não de ambição pelo trono. A citação do relato de Mefivoshet ao rei, explicando o engano de seu servo Tziva, é interrompida exatamente na palavra "manco" (pissé'ach), no meio do próprio versículo bíblico — a continuação, "teu servo" (avdecha), e o restante do relato de Mefivoshet, abrem imediatamente o daf seguinte, 56b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "devarim hanikarim chaza bo"
דברים הנכרים חזא ביה - במפיבושת כשנהרג אבשלום וחזר דוד למלכותו ובא לפניו לא עשה רגליו ולא עשה שפמו כסבור דוד שניכרים דברי ציבא שנצטער על שחזר דוד ולא קישט עצמו ועוד היה מצפה שכשיושיבוהו במלכות יתנאה ויסתפר לכך לא קבל דבריו ואמר לו אתה וציבא תחלקו השדה והוא השיבו קשה אין לי לצעוק אלא על מי שהביאך הלום הנה שמצטער על שובו ואם לא שראה בו דברים הניכרים היה חוזר ממה שאמר הנה לך כל אשר למפיבושת ואע"פ שמיהר ואמר לו מתחלה הנה לך כל אשר למפיבושת אין זו קבלה כי כל זמן שלא היה דוד שב למלכותו יודע היה שאין מתנתו מתנה ולא אמר לו אלא על תנאי אם יראה אמת בדבריו:

"Sinais reconhecíveis viu nele" — em Mefivoshet: quando Absalão foi morto e David voltou a seu reinado, e Mefivoshet veio perante ele e não cuidara de seus pés nem de seu bigode, David pensou que se confirmavam as palavras de Tziva, de que Mefivoshet se entristecera com o retorno de David e por isso não se enfeitara; e ainda esperava que, quando o restabelecessem no reino, se enfeitaria e se aparariam; por isso não aceitou suas palavras, e disse-lhe: tu e Tziva dividireis o campo. E ele lhe respondeu duramente: não tenho queixa senão contra aquele que te trouxe de volta aqui — mostrando que se entristecera com seu retorno. E se não tivesse visto nele sinais reconhecíveis, teria voltado atrás do que disse: "eis que é teu tudo o que pertence a Mefivoshet"; e, embora se tivesse apressado a dizer-lhe de início "eis que é teu tudo o que pertence a Mefivoshet", isso não constitui aceitação plena, pois, enquanto David não tivesse retornado ao reinado, sabia que seu dom não era dom definitivo, e não lho disse senão sob condição, caso visse verdade em suas palavras.