Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Vav · Bameh Isha Yotzah
כַּבְלָא דְעַבְדָּא תְּנַן

A quarta lei do istema, a disputa de Shmuel sobre o kavul, e o selo e o sino do escravo e do animal

Shabbat 58a — a conclusão da frase interrompida ao final de 57b, sobre as coroas de noivas; a reabertura da disputa sobre o "kavul" (Shmuel: a marca do escravo); a resolução da aparente contradição na própria opinião de Shmuel sobre o selo do escravo; e a sugya sobre o selo e o sino do escravo e do animal, e sua suscetibilidade à impureza — numa objeção interrompida ao final, continuada em 58b.

O daf abre concluindo a frase deixada em suspenso ao final de 57b: em nome de Rabi Shimon disseram uma quarta lei sobre o "istema" — não há nele a proibição das coroas de noivas, o decreto que, desde a destruição do Templo, proíbe a noiva de sair com uma coroa, como sinal de luto. A Guemará então reabre a disputa sobre o "kavul", já discutida em 57b: ali, Rabi Abahu concluíra que se trata do gorro de lã; aqui, Shmuel afirma que se ensina, antes, a marca do escravo. A Guemará pergunta se Shmuel realmente sustenta isso, visto que ele próprio ensina, em outro contexto, que o escravo pode sair com o selo que traz no pescoço, mas não com o que traz na roupa — o que pareceria supor que a marca do escravo, ao menos em certos casos, é permitida. A dificuldade resolve-se, a princípio, distinguindo entre o selo feito pelo próprio senhor e o feito pelo escravo para si mesmo; mas a Guemará aprofunda ainda mais, perguntando por que, mesmo quando o senhor faz ambos os selos, o da roupa permanece proibido — respondendo que se teme que o selo se rompa e o escravo, atemorizado, dobre a roupa e a carregue sobre os ombros, um ato de transporte proibido, tal como ensinou Rav Yitzchak bar Yosef em nome de Rabi Yochanan sobre quem sai com o talit dobrado sobre os ombros; e ilustra o mesmo temor com a ordem de Shmuel a Rav Chinana bar Sheila, de que os sábios da casa do Exilarca não saíssem com seus mantos selados, exceto ele, a quem a casa do Exilarca não cobra com o mesmo rigor. A Guemará retoma então o assunto pela raiz, citando uma baraita que parece contradizer a própria regra de Shmuel: o escravo não pode sair nem com o selo do pescoço nem com o da roupa — e nenhum dos dois recebe impureza —, mas pode sair com o sino da roupa, e não com o do pescoço — e ambos recebem impureza —, e o animal não pode sair com selo ou sino algum, em pescoço ou cobertura, pois nenhum recebe impureza. A Guemará resolve a contradição não pela distinção entre selo feito pelo senhor ou pelo escravo, mas pela distinção entre o selo de metal, que o senhor preza e por isso teme que o escravo o esconda ao se romper, e o selo de barro, que não lhe importa — distinção confirmada por uma baraita sobre utensílios de pedra, de esterco e de terra, que nunca recebem impureza, provando que a baraita citada fala de selos de metal. Quanto ao sino, a mesma lógica do temor de que se rompa levaria a proibir também o sino da roupa — mas a Guemará responde que este é tecido com firmeza pelo tecelão, e por isso, segundo o princípio de Rav Huna filho de Rav Yehoshua, os sábios não decretaram contra ele. O daf termina, mais uma vez, interrompido no meio de uma objeção — se o sino do animal de fato não recebe impureza, como então explicar uma baraita que o declara impuro? —, cuja resposta, contrastando-o com o sino puro de uma porta, só aparece na abertura de 58b.

A quarta lei do istema: não há nele a proibição das coroas de noivas · אֵין בָּהּ מִשּׁוּם עַטְרוֹת כַּלּוֹת

01Conclui-se a frase interrompida ao final de 57b: o istema não está sujeito ao decreto contra as coroas de noivas
Baraita (continuação de 57b)
אֵין בָּהּ מִשּׁוּם עַטְרוֹת כַּלּוֹת.

Não há nele — no "istema" — a proibição das coroas de noivas.

Nota

Completa-se aqui a frase deixada em suspenso ao final de 57b — "em nome de Rabi Shimon disseram: também..." —, com a quarta e última das leis ditas sobre o "istema": ele não está sujeito ao decreto que proíbe a noiva de sair com uma coroa. Como explica Rashi, os sábios decretaram, depois da destruição do Templo, que a noiva não deveria sair com uma coroa nupcial, como expressão de luto — decreto discutido no tratado de Sotá (49a). Como o "istema" é apenas um pequeno gorro que recolhe os cabelos soltos, e não uma coroa propriamente dita, ele não é abrangido por esse decreto de luto, e a mulher pode sair com ele normalmente.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ein bah mishum atarot kalot"
אין בה משום עטרות כלות - דגזרו עליהן שלא תצא בהן מחורבן ואילך משום צער במס' סוטה (דף מט.):

"Não há nele a proibição das coroas de noivas" — pois decretaram sobre elas (as coroas) que não se poderia sair com elas, desde a destruição do Templo em diante, por causa do luto, como se ensina no tratado de Sotá (49a).

A disputa sobre o kavul, reaberta: Shmuel diz que é a marca do escravo · כַּבְלָא דְעַבְדָּא תְּנַן

02Shmuel: ensinamos que o kavul é a marca do escravo — mas isso contradiz sua própria regra sobre o selo do escravo
Shmuel; Guemará
וּשְׁמוּאֵל אָמַר: כַּבְלָא דְעַבְדָּא תְּנַן. וּמִי אָמַר שְׁמוּאֵל הָכִי? וְהָאָמַר שְׁמוּאֵל: יוֹצֵא הָעֶבֶד בְּחוֹתָם שֶׁבְּצַוָּארוֹ, אֲבָל לֹא בְּחוֹתָם שֶׁבִּכְסוּתוֹ!

E Shmuel disse: ensinamos que o "kavul" da Mishná é a marca (kavla) do escravo — e não o gorro de lã, como concluíra Rabi Abahu em 57b. Mas será que Shmuel disse mesmo assim? E não disse Shmuel: o escravo pode sair com o selo que traz no pescoço, mas não com o que traz na roupa — o que implicaria que ao menos um tipo de marca do escravo é permitido, contra o que a Mishná parece proibir de modo absoluto!

Nota

A Guemará reabre, com a opinião de Shmuel, a dúvida que Rabi Yanai expusera e Rabi Abahu resolvera em 57b. Ali, Rabi Abahu concluíra que o "kavul" proibido pela Mishná é o gorro de lã, e não a marca do escravo. Aqui, Shmuel discorda, sustentando a outra possibilidade que Rabi Yanai havia levantado: que a Mishná fala, sim, da marca do escravo. A Guemará então questiona a coerência dessa posição, citando um ensinamento independente do próprio Shmuel — de que o escravo pode sair com o selo que traz no pescoço, embora não com o que traz na roupa —, o que sugeriria que nem toda marca de escravo é absolutamente proibida, contradizendo a leitura de que a Mishná proíbe a marca do escravo sem distinção.

03Primeira resolução: o selo proibido é o que o próprio escravo fez para si; o permitido, o que seu senhor fez
Guemará
לָא קַשְׁיָא: הָא דַּעֲבַד לֵיהּ רַבֵּיהּ, הָא דַּעֲבַד אִיהוּ לְנַפְשֵׁיהּ.

Não há dificuldade: este — o caso em que o selo, mesmo no pescoço, é proibido, segundo a Mishná — é aquele em que ele mesmo o fez para si — por vaidade, e por isso é tratado como um enfeite proibido; aquele — o caso em que Shmuel permite o selo do pescoço — é aquele em que seu senhor o fez — como marca de propriedade, e não como adorno.

Nota

A primeira resolução distingue conforme quem fez o selo: se o próprio escravo o fez para si mesmo, como um enfeite de vaidade, a Mishná o proíbe, tal como proíbe os demais adornos deste capítulo; mas se foi o senhor quem o fez, como simples marca de propriedade sobre o escravo, Shmuel permite que ele saia com ele no pescoço — pois não há aqui receio de exibição vaidosa, mas apenas a marca funcional da posse.

04Pergunta-se: se o critério é quem fez o selo, por que o selo da roupa — também feito pelo senhor — continua proibido?
Guemará
בְּמַאי אוֹקִימְתָּא לְהָא דִּשְׁמוּאֵל — דַּעֲבַד לֵיהּ רַבֵּיהּ? בְּחוֹתָם שֶׁבִּכְסוּתוֹ אַמַּאי לָא!

Como estabeleceste a afirmação de Shmuel — que permite o selo do pescoço? Como o caso em que seu senhor o fez. Mas, sendo assim, com o selo que está em sua roupa — também feito pelo senhor —, por que não pode sair?

Nota

A Guemará aprofunda a dificuldade: se o próprio Shmuel distingue entre o selo do pescoço (permitido, por ser feito pelo senhor) e o da roupa (proibido), mas ambos são igualmente feitos pelo senhor, a distinção anterior — quem fez o selo — não basta para explicar por que só o selo da roupa permanece proibido. É preciso uma razão adicional, específica ao selo da roupa.

05Resposta: teme-se que o selo da roupa se rompa, e o escravo, atemorizado, dobre a roupa e a carregue sobre os ombros
Guemará; Rav Yitzchak bar Yosef; Rabi Yochanan
דִּילְמָא מִיפְּסַק, וּמִירְתַת וּמְיקַפֵּל לֵיהּ וּמַחֵית לֵיהּ אַכַּתְפֵּיהּ. כִּדְרַב יִצְחָק בַּר יוֹסֵף, דְּאָמַר רַב יִצְחָק בַּר יוֹסֵף אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הַיּוֹצֵא בְּטַלִּית מְקֻפֶּלֶת וּמוּנַּחַת לוֹ עַל כְּתֵפָיו בְּשַׁבָּת — חַיָּיב חַטָּאת.

Teme-se que o selo da roupa talvez se rompa, e ele, o escravo, atemorizado — por medo de seu senhor —, dobre a roupa e a coloque sobre seus ombros — um modo proibido de transporte. Como ensinou Rav Yitzchak bar Yosef, que disse Rav Yitzchak bar Yosef, disse Rabi Yochanan: aquele que sai com o talit dobrado e colocado sobre seus ombros em Shabat — é culpado de trazer uma oferenda pelo pecado.

Nota

A razão adicional está no risco específico do selo da roupa: se ele se romper, o escravo, temendo a repreensão do senhor por ter perdido a marca de identificação, dobraria a roupa (escondendo o local rompido) e a carregaria sobre os ombros pelo domínio público — um ato equiparado, segundo Rabi Yochanan, a carregar o talit dobrado sobre os ombros em Shabat, que gera responsabilidade por transporte proibido. Já o selo do pescoço, se se romper, simplesmente cai, sem gerar esse risco adicional de transporte.

06A mesma preocupação: a ordem de Shmuel a Rav Chinana bar Sheila sobre os mantos selados da casa do Exilarca
Shmuel; Rav Chinana bar Sheila
וְכִי הָא דַּאֲמַר לֵיהּ שְׁמוּאֵל לְרַב חִינָּנָא בַּר שֵׁילָא: כּוּלְּהוּ רַבָּנַן דְּבֵי רֵישׁ גָּלוּתָא לָא לִיפְּקוּ בְּסַרְבָּלֵי חֲתִימֵי, לְבַר מִינָּךְ — דְּלָא קָפְדִי עֲלָיךְ דְּבֵי רֵישׁ גָּלוּתָא.

E é como aquilo que disse Shmuel a Rav Chinana bar Sheila: que todos os sábios da casa do Exilarca não saiam com seus mantos selados — pois temem que o selo se rompa e, atemorizados, os dobrem e os carreguem —, exceto tu, pois a casa do Exilarca não é rigorosa contigo — e por isso não temerias, mesmo que o selo se rompesse.

Nota

Shmuel ilustra o mesmo princípio com um caso concreto: os mantos selados distribuídos pela casa do Exilarca a seus sábios não deveriam ser usados em Shabat, pelo mesmo temor de que, rompendo-se o selo, o portador o dobre e o carregue por medo de represália. Rav Chinana bar Sheila, porém, é uma exceção — por gozar de tratamento mais brando por parte da casa do Exilarca, ele não teria motivo para tal temor, e por isso pode usar o manto selado normalmente.

O tema retomado pela raiz: o selo e o sino, do escravo e do animal · חוֹתָם וְזוֹג

07Ao próprio assunto: confirma-se, por uma baraita, a regra de Shmuel sobre o selo do escravo
Guemará; Shmuel; Baraita
גּוּפָא, אָמַר שְׁמוּאֵל: יוֹצֵא הָעֶבֶד בְּחוֹתָם שֶׁבְּצַוָּארוֹ אֲבָל לֹא בְּחוֹתָם שֶׁבִּכְסוּתוֹ. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: יוֹצֵא הָעֶבֶד בְּחוֹתָם שֶׁבְּצַוָּארוֹ אֲבָל לֹא בְּחוֹתָם שֶׁבִּכְסוּתוֹ.

Ao próprio assunto — retomado desde o início: disse Shmuel: o escravo pode sair com o selo que traz no pescoço, mas não com o que traz na roupa. Também se ensinou assim numa baraita: o escravo pode sair com o selo que traz no pescoço, mas não com o que traz na roupa.

Nota

Com a fórmula "ao próprio assunto" (guf), a Guemará retoma, para aprofundar, o ensinamento de Shmuel já citado, trazendo uma baraita que o confirma nos mesmos termos exatos: o selo do pescoço é permitido, o da roupa, proibido.

08Contrapõe-se outra baraita: o escravo não pode sair com selo algum; pode sair com o sino da roupa, mas não do pescoço
Baraita (contradição)
וּרְמִינְהוּ: לֹא יֵצֵא הָעֶבֶד בְּחוֹתָם שֶׁבְּצַוָּארוֹ וְלֹא בְּחוֹתָם שֶׁבִּכְסוּתוֹ, זֶה וָזֶה אֵין מְקַבְּלִין טוּמְאָה. וְלֹא בְּזוֹג שֶׁבְּצַוָּארוֹ, אֲבָל יוֹצֵא הוּא בְּזוֹג שֶׁבִּכְסוּתוֹ, זֶה וָזֶה מְקַבְּלִין טוּמְאָה.

E contrapuseram: o escravo não pode sair nem com o selo que traz no pescoço, nem com o que traz na roupa — nenhum dos dois recebe impureza. E não pode sair com o sino que traz no pescoço, mas ele pode sair com o sino que traz na roupa — ambos estes recebem impureza.

Nota

Esta baraita parece contradizer diretamente a regra de Shmuel: aqui, o selo é proibido tanto no pescoço quanto na roupa — sem qualquer permissão —, ao passo que, quanto ao sino, a situação se inverte: proibido no pescoço, mas permitido na roupa. A baraita acrescenta ainda um detalhe sobre a suscetibilidade à impureza ritual de cada peça, que a Guemará explorará a seguir.

09A mesma baraita, quanto ao animal: nem selo nem sino algum, em pescoço ou cobertura — nenhum recebe impureza
Baraita (continuação)
וְלֹא תֵּצֵא בְּהֵמָה לֹא בְּחוֹתָם שֶׁבְּצַוָּארָהּ, וְלֹא בְּחוֹתָם שֶׁבִּכְסוּתָהּ, וְלֹא בְּזוֹג שֶׁבִּכְסוּתָהּ, וְלֹא בְּזוֹג שֶׁבְּצַוָּארָהּ, זֶה וָזֶה אֵין מְקַבְּלִין טוּמְאָה!

E o animal não pode sair nem com o selo que traz no pescoço, nem com o que traz na cobertura, nem com o sino que traz na cobertura, nem com o que traz no pescoço — nenhum dos dois tipos, selo ou sino, recebe impureza!

Nota

A mesma baraita estende a proibição ao animal, de forma ainda mais ampla: nem selo nem sino, em qualquer localização, são permitidos, e nenhum deles é suscetível à impureza ritual — ao contrário do que se disse quanto ao sino da roupa do escravo, que recebe impureza. Essa diferença entre o caso do escravo e o do animal é o que a Guemará buscará explicar a seguir.

10Proposta inicial de resolução, repetindo a distinção anterior: selo feito pelo senhor, ou pelo próprio escravo
Guemará
לֵימָא, הָא דַּעֲבַד לֵיהּ רַבֵּיהּ, הָא דַּעֲבַד אִיהוּ לְנַפְשֵׁיהּ.

Diremos — para resolver esta nova contradição — que este — o caso, na baraita anterior, em que o selo do pescoço é permitido — é aquele em que seu senhor o fez, e aquele — o caso, nesta baraita, em que ambos os selos são proibidos — é aquele em que ele mesmo o fez para si?

Nota

A Guemará propõe, primeiro, resolver a contradição entre as duas baraitot com a mesma distinção já usada acima — quem fez o selo —, mas essa proposta será rejeitada a seguir em favor de uma distinção mais precisa.

11Rejeitada: a verdadeira distinção é entre selo de metal, que o senhor preza, e de barro, que não lhe importa
Guemará; Rav Nachman; Raba bar Avuh
לָא, אִידִי וְאִידִי דַּעֲבַד לֵיהּ רַבֵּיהּ — וְכָאן בְּשֶׁל מַתֶּכֶת, וְכָאן בְּשֶׁל טִיט, וְכִדְרַב נַחְמָן אָמַר רַבָּה בַּר אֲבוּהּ: דָּבָר הַמַּקְפִּיד עָלָיו רַבּוֹ — אֵין יוֹצְאִין בּוֹ. דָּבָר שֶׁאֵין מַקְפִּיד עָלָיו — יוֹצְאִין בּוֹ.

Não; tanto este quanto aquele são casos em que seu senhor o fez — mas aqui , na baraita que permite o selo do pescoço, trata-se de selo de metal, e ali , na baraita que proíbe ambos, de selo de barro; e como ensinou Rav Nachman, disse Raba bar Avuh: uma coisa com a qual o senhor é rigoroso — zeloso a ponto de se incomodar se o escravo a perder ou danificar — não se pode sair com ela; uma coisa com a qual ele não é rigoroso — pode-se sair com ela.

Nota

A Guemará rejeita a primeira proposta e oferece uma distinção mais fina: em ambas as baraitot, o selo foi feito pelo senhor, mas o material difere — selo de metal (valioso, o senhor se importa com ele) versus selo de barro (sem valor, o senhor não se importa). O princípio geral de Rav Nachman em nome de Raba bar Avuh explica o motivo: quando o senhor é rigoroso quanto a um objeto, o escravo, temendo perdê-lo ou danificá-lo, poderia removê-lo e carregá-lo — daí a proibição; quando o senhor não se importa, não há esse risco, e o objeto é permitido.

12Confirma-se: "ambos não recebem impureza" só faz sentido referindo-se ao selo de metal
Guemará
הָכִי נָמֵי מִסְתַּבְּרָא, מִדְּקָתָנֵי: זֶה וָזֶה אֵין מְקַבְּלִין טוּמְאָה. אִי אָמְרַתְּ בִּשְׁלָמָא שֶׁל מַתֶּכֶת — הָנֵי הוּא דְּלָא מְקַבְּלִי טוּמְאָה, הָא כֵּלִים דִּידְהוּ מְקַבְּלִי טוּמְאָה.

Assim também é razoável, pelo fato de a baraita ensinar: ambos os selos, do pescoço e da roupa, não recebem impureza. Se dirás, com razão, que se trata de selo de metal — está bem, pois são precisamente estes — pequenas peças de marcação — que não recebem impureza, ao passo que os utensílios de metal em geral recebem impureza.

Nota

A Guemará confirma a identificação com o selo de metal: a afirmação de que "ambos não recebem impureza" só é significativa — e não óbvia — se referida ao metal, pois utensílios de metal em geral são plenamente suscetíveis à impureza ritual; dizer que este selo específico, apesar de metálico, não a recebe, ensina algo relevante (por não ser considerado um "utensílio" pleno, mas mera marca).

13Mas se fosse de barro, a afirmação seria óbvia — pois utensílios de barro desse tipo nunca recebem impureza
Guemará
אֶלָּא אִי אָמְרַתְּ בְּשֶׁל טִיט תְּנַן, הָנֵי הוּא דְּלָא מְקַבְּלִי טוּמְאָה, הָא כֵּלִים דִּידְהוּ מְקַבְּלִי טוּמְאָה?!

Mas se dirás que ensinamos que se trata de selo de barro, a mesma leitura levaria a dizer: são precisamente estes que não recebem impureza, ao passo que os utensílios de barro em geral recebem impureza?! — o que seria falso, pois utensílios desse tipo de barro nunca recebem impureza alguma.

Nota

Se o selo fosse de barro (ou de material semelhante, não cozido como cerâmica), a frase "ambos não recebem impureza" seria vazia de conteúdo, pois toda essa categoria de utensílios está isenta de impureza por definição, tornando desnecessária qualquer menção especial ao selo. Isso mostra que a leitura correta deve ser a do metal.

14Prova de uma baraita: utensílios de pedra, esterco e terra nunca recebem impureza — logo, a baraita fala de metal
Baraita
וְהָא תַּנְיָא: כְּלֵי אֲבָנִים כְּלֵי גְלָלִים וּכְלֵי אֲדָמָה — אֵין מְקַבְּלִין טוּמְאָה לֹא מִדִּבְרֵי תוֹרָה וְלֹא מִדִּבְרֵי סוֹפְרִים. אֶלָּא שְׁמַע מִינַּהּ שֶׁל מַתֶּכֶת. שְׁמַע מִינַּהּ.

E não se ensinou numa baraita: utensílios de pedra, utensílios de esterco e utensílios de terra — não recebem impureza, nem pela palavra da Torá, nem pela palavra dos sábios — confirmando que essa categoria nunca recebe impureza, tornando sem sentido dizer isso especificamente do selo de barro? Antes, conclui-se disso que a baraita citada acima fala de selo de metal. Conclui-se disso.

Nota

Esta baraita independente prova o ponto: utensílios de pedra, esterco compactado e terra (materiais análogos ao barro não cozido) nunca recebem impureza, nem por lei da Torá, nem por decreto rabínico. Isso confirma que a menção de "não recebem impureza" na baraita sobre o selo do escravo só é significativa se referida ao metal, encerrando a prova de que a distinção correta é entre selo de metal (proibido) e de barro (permitido), conforme o zelo do senhor.

O sino do escravo: por que o da roupa é permitido, e o do pescoço, proibido · זוֹג שֶׁבִּכְסוּתוֹ

15Citando de novo a baraita: o sino do pescoço é proibido; o da roupa, permitido
Guemará (citando a baraita)
אָמַר מָר: וְלֹא בְּזוֹג שֶׁבְּצַוָּארוֹ, אֲבָל יוֹצֵא הוּא בְּזוֹג שֶׁבִּכְסוּתוֹ.

Disse o Mestre — citando de novo a baraita acima, para analisá-la: e não pode sair com o sino que traz no pescoço, mas ele pode sair com o sino que traz na roupa.

Nota

A Guemará volta a citar esta cláusula da baraita, agora para investigar sua lógica interna: por que, ao contrário do selo, o sino é proibido no pescoço e permitido na roupa?

16Pergunta-se: se o sino do pescoço é proibido por medo de que se rompa e seja carregado, o mesmo devia valer para o da roupa
Guemará
זוֹג שֶׁבְּצַוָּארוֹ אַמַּאי לָא — דִּילְמָא מִיפְּסִיק וְאָתֵי לְאֵיתוֹיֵי? זוֹג שֶׁבִּכְסוּתוֹ נָמֵי לִיחוּשׁ דִּילְמָא מִיפְּסִיק וְאָתֵי לְאֵיתוֹיֵי!

O sino que traz no pescoço, por que não pode sair com ele? Será porque talvez se rompa e ele venha a trazê-lo — carregando-o pela mão, pelo domínio público? Mas, sendo assim, quanto ao sino que traz na roupa também deveríamos temer que talvez se rompa e ele venha a trazê-lo!

Nota

A Guemará questiona a assimetria: se a razão para proibir o sino do pescoço é o temor de que se rompa e o escravo o carregue na mão, essa mesma lógica deveria se aplicar igualmente ao sino da roupa — e, no entanto, a baraita o permite. É preciso explicar essa diferença.

17Resposta: o sino da roupa é tecido com firmeza, e por isso os sábios não decretaram contra ele
Guemará; Rav Huna filho de Rav Yehoshua
הָכָא בְמַאי עָסְקִינַן — דִּימְחָא בֵּיהּ מוּמְחָא. וְכִדְרַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוֹשֻׁעַ. דְּאָמַר רַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוֹשֻׁעַ: כׇּל שֶׁהוּא אָרוּג לֹא גָּזְרוּ.

Aqui, do que tratamos? De um caso em que o sino foi fixado ao tecido por um artesão especializado — entretecido com firmeza na própria trama da roupa. E como ensinou Rav Huna filho de Rav Yehoshua, que disse Rav Huna filho de Rav Yehoshua: tudo o que é tecido junto à peça, não decretaram proibição sobre isso.

Nota

A resposta distingue pela forma de fixação: o sino da roupa, na baraita, refere-se a um caso em que foi tecido com firmeza na própria trama por um artesão especializado, e por isso não há risco real de que se solte. Segundo o princípio de Rav Huna filho de Rav Yehoshua, qualquer peça tecida junto à roupa (e não meramente amarrada ou pendurada) está fora do decreto, pois falta o pressuposto — o risco de queda — que motivaria a proibição.

O selo e o sino do animal: a objeção final, interrompida · זוֹג דִּבְהֵמָה

18Citando de novo a baraita sobre o animal: nem selo nem sino algum — nenhum recebe impureza
Guemará (citando a baraita)
אָמַר מָר: לֹא תֵּצֵא בְּהֵמָה לֹא בְּחוֹתָם שֶׁבְּצַוָּארָהּ, וְלֹא בְּחוֹתָם שֶׁבִּכְסוּתָהּ, וְלֹא בְּזוֹג שֶׁבְּצַוָּארָהּ, וְלֹא בְּזוֹג שֶׁבִּכְסוּתָהּ, זֶה וָזֶה אֵין מְקַבְּלִין טוּמְאָה.

Disse o Mestre — citando de novo a baraita acima: o animal não pode sair nem com o selo que traz no pescoço, nem com o que traz na cobertura, nem com o sino que traz no pescoço, nem com o que traz na cobertura — nenhum dos dois tipos recebe impureza.

Nota

A Guemará volta a citar a cláusula da baraita referente ao animal, para investigar, a seguir, a afirmação de que nenhum desses objetos — nem selo, nem sino, em nenhuma localização — recebe impureza ritual.

19A objeção final: se o sino do animal não recebe impureza, como explicar uma baraita que o declara impuro? — frase interrompida, continuada em 58b
Guemará (objeção incompleta)
וְזוֹג דִּבְהֵמָה אֵין מְקַבְּלִין טוּמְאָה? וּרְמִינְהוּ: זוֹג שֶׁל בְּהֵמָה — טְמֵאָה,

E o sino do animal não recebe impureza? Mas contrapuseram: o sino do animal — é impuro ...

Nota

O daf termina, mais uma vez, no meio de uma frase. A Guemará levanta uma objeção contra a própria baraita que acabara de citar: se o sino do animal não recebe impureza, como explicar outra baraita que o declara impuro? A resposta completa — contrastando o sino do animal, impuro, com o de uma porta, puro, pois este último não é considerado um utensílio pessoal — só aparece na abertura de 58b: "e o [sino] da porta é puro". Esta divisão de conteúdo entre dois dafim, sem qualquer fórmula de encerramento no meio da frase, confirma-se por uma consulta independente ao texto de Shabat 58b, e segue o mesmo padrão já observado nas transições entre 57a e 57b, e entre 57b e este daf.