O daf abre exatamente onde 60b terminou: a Mishná ensinou que não se sai com uma única sandália, quando não há ferida no pé — mas, havendo ferida, sai-se com ela. A Guemará pergunta: em qual dos dois pés? Rav Huna responde que no pé que tem a ferida, entendendo que a sandália serve para evitar a dor de pisar no chão; Chiya bar Rav responde que no pé são, entendendo que ela serve para o prazer, e que a própria ferida no outro pé já explica por que ele está descalço. Um incidente de Rabi Yochanan com seu assistente Rav Shemen bar Abba é trazido como possível apoio à opinião de Rav Huna, mas a Guemará rejeita a prova, pois o mesmo incidente também se explica segundo Chiya bar Rav. Esse incidente revela, de passagem, que Rabi Yochanan associava os sapatos aos tefilin: assim como os tefilin se colocam no braço esquerdo, também os sapatos se calçam começando pelo esquerdo — associação da qual ele nunca se afastava. Uma baraita objeta, ensinando que se calça primeiro o direito; Rav Yossef concilia as duas práticas como igualmente válidas, mas Abaye questiona se Rabi Yochanan conhecia essa baraita. Rav Nachman bar Yitzchak descreve o procedimento de quem teme aos Céus e cumpre as duas opiniões ao mesmo tempo, calçando o direito sem amarrar, depois o esquerdo com o laço, e só então amarrando o direito; Rav Ashi observa que Rav Kahana não se preocupava com essa ordem. Uma baraita completa é então citada, reunindo as leis sobre calçar, tirar, lavar e ungir o corpo, com a cabeça em primeiro lugar, por ser "rei" sobre todos os membros. O daf passa então a duas cláusulas da Mishná: a que proíbe sair com tefilin, explicada por Rav Safra segundo as duas leituras possíveis da cláusula, mostrando que a proibição e a isenção da oferenda pelo pecado valem em ambos os lados do debate sobre se o Shabat é ocasião para tefilin; e a que proíbe sair com amuleto que não seja de um especialista comprovado, explicada por Rav Pappa como exigindo apenas que o homem seja especialista, ainda que aquele amuleto específico nunca tenha curado antes — confirmado pela precisão da própria linguagem da Mishná. Uma baraita define o amuleto comprovadamente eficaz como aquele que curou três vezes, seja escrito, seja de raízes, tanto para doente em perigo de vida quanto para doente sem perigo, e esclarece que ele serve tanto para quem já foi acometido de epilepsia quanto para prevenir que a doença venha a ocorrer. O daf se encerra no meio da frase seguinte, sobre amarrar e desamarrar o amuleto mesmo no domínio público, contanto que não se faça dele um bracelete ou um anel — frase que prossegue, sem interrupção de conteúdo, no início do daf seguinte.
Mas, se há ferida em seu pé, ele sai com uma só sandália. Em qual deles ele sai? Disse Rav Huna: naquele em que há a ferida. Logo, ele entende que a sandália se faz por causa da dor.
A Guemará retoma exatamente a cláusula com que se encerrou 60b, deduzindo dela que, havendo ferida num dos pés, é permitido sair com apenas uma sandália. A pergunta que se segue é qual dos dois pés recebe a sandália: o ferido, ou o são? Rav Huna responde que ela vai no pé ferido, pois entende que o propósito de calçar sandália é evitar a dor de pisar diretamente no chão — de modo que o pé são, mais resistente, dispensa a proteção, mas o pé ferido precisa dela.
"Mas se há ferida em seu pé" — pode-se inferir daí que ele sai com uma só sandália; e agora o Talmud pergunta: com qual de seus pés ele sai? "A sandália se faz por causa da dor" — para que não tropece nas pedras dos caminhos e sofra; por isso, quando o veem mancando e sabem que há ferida em seu pé, não suspeitam dele que carrega a outra sandália na mão, mas reconhecem, por seus próprios atos, que suas solas são resistentes e ele não sofre com as pedras dos caminhos, e só a calçou por causa da ferida — e isso já basta, sozinho. E, segundo a versão de meus mestres: também não zombam dele, pois no pé que não serve para usar sandália sem sofrer com a ferida, ele não a tira, já que sofreria com as pedras dos caminhos por causa da ferida.
E Chiya bar Rav disse: naquele em que não há ferida. Logo, ele entende que ela se faz por causa do prazer, e quanto a esse pé em que há ferida, sua própria ferida já demonstra o motivo por que está descalço.
Chiya bar Rav discorda quanto ao raciocínio subjacente: para ele, calçar sandália não visa evitar dor, mas proporcionar conforto e prazer a um pé saudável e sensível. Por isso, a sandália vai no pé são, e o pé ferido permanece descalço — sem que isso desperte suspeita, pois a própria ferida visível já explica por que aquele pé em particular não está calçado.
"Se faz por causa do prazer" — presume-se que é um homem delicado e sensível, e reconhecem, por seus atos, que calçou uma só sandália porque é sensível; e quanto a esse pé em que há ferida, ela própria já demonstra o motivo, e entendem que a ferida o impede de calçá-lo — e não suspeitam dele, e também não zombam dele.
E também Rabi Yochanan concordava com a opinião de Rav Huna, pois Rabi Yochanan disse a Rav Shemen bar Abba: dá-me minhas sandálias. Ele lhe deu a do pé direito. Disse-lhe: fizeste dele um pé com ferida.
A Guemará traz um episódio para sustentar que Rabi Yochanan também entendia como Rav Huna. Rabi Yochanan tinha por hábito calçar sempre primeiro o pé esquerdo; quando seu assistente lhe entregou a sandália direita primeiro, Rabi Yochanan protestou que, ao calçar o direito primeiro, ficaria impedido de calçar o esquerdo depois — o que, na prática, o deixaria com uma só sandália, no pé direito, "como se" o esquerdo tivesse ferida. Isso pressupõe que a sandália avulsa vai no pé ferido, tal como ensinou Rav Huna.
"Fizeste dele um pé com ferida" — pois Rabi Yochanan entendia que quem calça sandálias calça primeiro a esquerda, e depois a direita; e presumia-se, a princípio, que ele quis dizer: se eu calçar esta agora, não calçarei mais a esquerda depois dela, e sairei com uma só sandália, e fizeste deste pé direito como se nele houvesse ferida. Logo, ele entendia que se calça naquele pé em que há ferida.
Mas talvez ele concordasse com Chiya bar Rav, e o que ele disse foi: fizeste do pé esquerdo um pé com ferida.
A Guemará rejeita a suposta prova: o mesmo episódio pode ser lido de modo inverso. Se Rabi Yochanan seguisse Chiya bar Rav, entendendo que a sandália avulsa vai no pé são, seu protesto teria o sentido oposto: ao receber a direita primeiro, ele ficaria impedido de calçar a esquerda depois, e sairia com uma só sandália no pé direito — o que faria parecer que o esquerdo, o pé "são" que ficaria descalço, tem ferida, quando na verdade não tem. Assim, o episódio não decide entre as duas opiniões.
"Mas talvez ele concordasse com Rabi Chiya" — que diz que se calça naquele pé em que não há ferida; e o que ele quis dizer foi: se assim é, eis que saio com uma só sandália nesta do pé direito, e fizeste de meu pé esquerdo como se nele houvesse ferida, pois saio com uma só sandália naquele em que não há ferida.
E Rabi Yochanan segue seu próprio raciocínio, pois Rabi Yochanan disse: assim como os tefilin, assim são os sapatos: assim como os tefilin se colocam no braço esquerdo, também os sapatos se calçam começando pelo esquerdo.
Independentemente de qual leitura do episódio esteja correta, a Guemará observa que a prática de Rabi Yochanan, de calçar sempre primeiro o pé esquerdo, é consistente com um princípio próprio que ele formulou alhures: assim como os tefilin se colocam no braço esquerdo — o braço mais fraco —, também os sapatos se calçam começando pelo pé esquerdo.
"E Rabi Yochanan segue" — pois disse "fizeste um pé com ferida", do que se depreende que, se calçasse o direito primeiro, não calçaria mais o esquerdo depois — segue seu próprio raciocínio, pois ele diz que o esquerdo é o mais importante. "Os tefilin no braço esquerdo" — como aprendemos em Menachot (37a), de "sobre tua mão", que se lê "mão fraca" — isto é, a esquerda, que é a mais fraca para o uso.
Levantou-se uma objeção: quando alguém calça as sandálias, calça primeiro a direita, e depois calça a esquerda!
Levanta-se uma objeção direta contra o princípio de Rabi Yochanan: uma baraita ensina exatamente o oposto, que se deve calçar primeiro o pé direito.
Disse Rav Yossef: agora que foi ensinado assim, e Rabi Yochanan disse assim, quem agir assim, agiu bem, e quem agir assim, agiu bem também.
Rav Yossef propõe uma resolução conciliatória: diante de duas fontes de igual peso, ambas as práticas são aceitáveis, e cada pessoa pode seguir a que preferir, sem que uma invalide a outra.
Disse-lhe Abaye: mas talvez Rabi Yochanan não tivesse ouvido essa baraita, e se a tivesse ouvido, teria voltado atrás de sua prática; ou então, mesmo que a tivesse ouvido, ele entendia que a lei não segue aquela mishná.
Abaye contesta a conciliação simples de Rav Yossef: talvez Rabi Yochanan simplesmente desconhecesse a baraita, e a teria abandonado sua prática caso a conhecesse; ou, ainda que a conhecesse, talvez a rejeitasse deliberadamente como não normativa. Em qualquer dos casos, não se trataria de duas práticas igualmente válidas, mas de uma divergência real a ser resolvida.
"Teria voltado atrás" — e não agiríamos então conforme Rabi Yochanan. "A lei não segue" aquela mishná — mas, ainda assim, devemos agir conforme Rabi Yochanan.
Disse Rav Nachman bar Yitzchak: o temente aos Céus cumpre ambas as opiniões. E quem é ele? Mar, filho de Rabana. Como ele procede? Calça o pé direito e não amarra; e calça o pé esquerdo e amarra; e depois amarra o direito. Disse Rav Ashi: eu vi que Rav Kahana não se preocupava com essa ordem.
Rav Nachman bar Yitzchak descreve um procedimento que satisfaz simultaneamente a baraita e Rabi Yochanan: calçando primeiro o pé direito, como ensina a baraita, mas sem amarrá-lo ainda; depois calçando e amarrando o esquerdo, dando a ele a precedência na conclusão do ato, como quer Rabi Yochanan; e só então amarrando o direito. Rav Ashi, porém, relata que Rav Kahana não seguia esse cuidado, sugerindo que, na prática, nem todos os sábios consideravam essa ordem obrigatória.
"Cumpre ambas as opiniões" — faz conforme as duas. "E calça o esquerdo e amarra" — resulta que o calçar do direito precede o esquerdo, como ensina a baraita, e o amarrar do esquerdo precede o do direito, conforme Rabi Yochanan.
Ensinaram os sábios: quando alguém calça as sandálias, calça primeiro a direita, e depois calça a esquerda; quando alguém tira, tira primeiro a esquerda, e depois tira a direita.
A Guemará cita agora a baraita completa da qual a objeção anterior era apenas um trecho, reunindo toda a lei sobre a ordem de calçar, tirar, lavar e ungir o corpo. O direito recebe precedência ao calçar, mas o esquerdo é retirado primeiro, de modo que o pé direito permanece calçado por mais tempo — preservando, em ambos os extremos, a honra do lado direito.
"Tira o esquerdo" — pois essa é a honra do pé direito; em todos os casos lemos "o direito" primeiro, exceto quanto a tirar.
Quando alguém lava, lava primeiro o direito, e depois lava o esquerdo. Quando alguém unge, unge primeiro o direito, e depois o esquerdo. E quem quiser ungir todo o seu corpo, unge primeiro a cabeça, pois ela é rei sobre todos os seus membros.
A mesma precedência do lado direito se estende a lavar e ungir os pés. E, ao ungir o corpo inteiro, a cabeça recebe prioridade sobre todos os outros membros, por ser comparada a um rei que governa sobre eles.
"E nem com tefilin." Disse Rav Safra: não digas que isso vale apenas segundo quem diz que o Shabat não é ocasião para tefilin; mas, mesmo segundo quem diz que o Shabat é ocasião para tefilin, ele não deve sair com eles, pois talvez venha a trazê-los pelo domínio público.
A Guemará passa a uma nova cláusula da Mishná, já citada anteriormente na íntegra: entre os itens com que o homem não sai em Shabat está o tefilin. Rav Safra esclarece que essa proibição não depende de uma controvérsia paralela sobre se é permitido colocar tefilin em Shabat: mesmo para quem sustenta que sim, ainda assim não se deve sair para o domínio público usando-os, por temor de que, ao precisar removê-los, a pessoa acabe carregando-os na mão por esse domínio, violando uma proibição da Torá.
"Não digas, etc." — no último capítulo de Eruvin (95b) trazemos essa discordância na Guemará. "Talvez" — que os tire da cabeça, se precisar se aliviar, e os carregue quatro cúbitos.
E há quem ensine isso a propósito da cláusula final: "e, se saiu, não é obrigado a trazer oferenda pelo pecado." Disse Rav Safra: não digas que isso vale apenas segundo quem diz que o Shabat é ocasião para tefilin, mas mesmo segundo quem diz que o Shabat não é ocasião para tefilin, ele não é obrigado a trazer oferenda pelo pecado. Qual é o motivo? Porque isso se faz à maneira de uma vestimenta.
Uma segunda versão liga o ensinamento de Rav Safra à cláusula final da Mishná, que isenta de oferenda quem saiu inadvertidamente com tefilin. Rav Safra esclarece, de modo simétrico ao anterior, que essa isenção não depende de qual lado da controvérsia se aceita: mesmo para quem sustenta que o Shabat não é ocasião para tefilin — de modo que usá-los seria, em princípio, uma transgressão mais grave —, ainda assim não há obrigação de oferenda, pois o uso de tefilin se dá à maneira de se vestir uma peça de roupa ou ornamento, e não como um ato de transporte proibido pela Torá.
"E nem com um amuleto, quando não é de um especialista." Disse Rav Pappa: não digas que é preciso que tanto o homem seja especialista quanto o amuleto seja comprovadamente eficaz; mas, uma vez que o homem é especialista, ainda que o amuleto específico não seja comprovadamente eficaz, é permitido.
A Guemará passa à cláusula seguinte da Mishná, sobre o amuleto de cura. Rav Pappa esclarece que a exigência de que o amuleto seja "de especialista" recai apenas sobre a pessoa que o escreveu, e não sobre aquele amuleto em particular: basta que o escritor já tenha demonstrado sua competência, curando com sucesso em três ocasiões prévias, para que qualquer novo amuleto seu seja permitido, mesmo que este exemplar específico nunca tenha sido testado.
"Que tanto o homem seja especialista quanto o amuleto seja eficaz" — que este homem fez este mesmo amuleto para três pessoas, de modo que ele se torna especialista, por ter curado três pessoas, e o amuleto se torna comprovadamente eficaz, por ter curado, com este mesmo texto, três pessoas; ou então, que este homem escreveu três tipos de amuletos, para três tipos de doenças, para três pessoas — isso é o homem se tornar especialista para todo e qualquer amuleto que venha a fazer; e o amuleto se torna comprovadamente eficaz quando este mesmo amuleto foi feito para três pessoas com essa mesma doença, seja que o escreveu este médico, seja que o escreveu outro médico. "Mas, uma vez que o homem se tornou especialista" — em três tipos de amuletos, para três pessoas, ainda que aquele amuleto específico não seja comprovadamente eficaz, por nunca ter curado ninguém antes.
E a precisão da própria linguagem também confirma isso, pois se ensina: "e nem com um amuleto, quando não é de um especialista", e não se ensina: "quando ele não é comprovadamente eficaz." Conclui-se disso que é assim.
A Guemará corrobora a leitura de Rav Pappa observando a redação exata da Mishná: ela diz "quando não é de um especialista" — colocando a condição na origem do amuleto, isto é, no escritor —, e não "quando ele não é comprovadamente eficaz", o que colocaria a condição no próprio objeto.
"De um especialista" — subentende-se: de um homem especialista. "E não se ensina: quando ele não é comprovadamente eficaz" — o que faria subentender que se exige que o próprio amuleto seja comprovadamente eficaz; "kamea" não é senão uma palavra que significa "atar", e também as raízes de ervas medicinais são chamadas de amuleto.
Ensinaram os sábios: qual é o amuleto comprovadamente eficaz? Todo aquele que curou, e curou de novo, e curou uma terceira vez — tanto um amuleto escrito quanto um amuleto de raízes; tanto num doente em perigo de vida quanto num doente sem perigo de vida.
Uma baraita define objetivamente o critério de "amuleto comprovadamente eficaz" ou "escritor comprovadamente especialista": a cura bem-sucedida em três ocasiões distintas. Esse critério vale igualmente para amuletos com textos escritos e para amuletos feitos de raízes de plantas medicinais, e aplica-se tanto a casos de doença grave, com risco de vida, quanto a casos de doença leve.
Não apenas para quem já teve um ataque de epilepsia, mas também para que não venha a tê-lo.
A baraita esclarece o alcance da permissão de usar amuleto em Shabat: ela não se restringe a quem já sofreu efetivamente de epilepsia e busca evitar uma recaída, mas se estende também a quem nunca foi acometido pela doença, mas teme contraí-la — por exemplo, por vir de família com histórico da enfermidade.
"Não apenas para quem já teve epilepsia" — isto é, não digas que só sai com ele quem já foi acometido da doença uma vez. "Epilepsia" — é a doença por causa da qual a pessoa cai ao chão, e é atingida na cabeça, no cérebro, e cai. "Mas também para que não venha a tê-la" — quando é de família de epiléticos, e teme não vir a tê-la.
E pode-se amarrá-lo e desamarrá-lo mesmo no domínio público, contanto que não o amarre...
O daf se encerra no meio de uma frase, e não ao final de uma unidade fechada: a baraita começa a explicar que o amuleto pode ser amarrado e desamarrado mesmo no domínio público, contanto que não se faça dele algo semelhante a um bracelete ou anel de puro ornamento. Uma segunda consulta independente ao texto de Shabat 61b confirma que a Guemará prossegue exatamente essa mesma frase, sem qualquer interrupção de conteúdo: "...à maneira de um bracelete ou de um anel, e saia com ele no domínio público — por causa da aparência de transgressão", explicando que, se o amuleto fosse permanentemente atado como um ornamento fixo, pareceria estar sendo usado apenas por enfeite, o que é proibido. Este segmento, portanto, permanece genuinamente aberto, ao contrário do encerramento fechado de 60b, e sua conclusão se dá apenas no início do daf seguinte.