Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Vav · Bameh Isha Yotzah
בְּשֵׁיר וּבְטַבַּעַת

Não fazer do amuleto um ornamento; quantas curas comprovam o escritor e o amuleto; e se os amuletos têm santidade

Shabbat 61b — conclui-se a frase de 61a: não se amarra o amuleto à maneira de bracelete ou anel, por causa da aparência de transgressão; a objeção da baraita sobre três pessoas curadas, resolvida distinguindo comprovar o homem de comprovar o amuleto, com os três casos óbvios de Rav Pappa e sua dúvida não resolvida; e a dúvida se os amuletos têm santidade, resolvida quanto a entrar com eles na privada.

O daf abre concluindo, sem qualquer interrupção de conteúdo, a frase com que 61a terminou: pode-se amarrar e desamarrar o amuleto mesmo no domínio público, contanto que não se faça dele algo à maneira de um bracelete ou de um anel, e assim se saia com ele pelo domínio público — pois isso teria a aparência de transgressão, dando a impressão de que o traz apenas como ornamento, quando na verdade não é ornamento, mas resposta ao temor da doença. A Guemará então levanta uma objeção contra a própria definição de amuleto comprovadamente eficaz dada em 61a: uma baraita ensina que é preciso curar três pessoas diferentes, e não apenas a mesma pessoa três vezes. A objeção se resolve distinguindo duas coisas que a palavra "comprovadamente eficaz" pode significar: comprovar a competência do escritor, o que exige curar três pessoas diferentes, e comprovar a eficácia daquele amuleto específico, para o que basta curar a mesma pessoa três vezes. Rav Pappa detalha então três casos que lhe pareciam óbvios: três amuletos diferentes para três pessoas, cada um curando três vezes, tornam tanto o homem quanto o amuleto comprovadamente eficazes; três amuletos para três pessoas, cada um curando uma só vez, tornam apenas o homem comprovadamente eficaz; e um só amuleto para três pessoas torna apenas o amuleto comprovadamente eficaz, sem nada provar sobre o homem que o escreveu. Rav Pappa levanta ainda uma dúvida não resolvida: três amuletos diferentes, todos para um só homem — o amuleto certamente não se comprova, mas será que o homem se comprova, já que o curou, ou será que foi apenas a sorte daquele doente em particular que recebeu bem a escrita? A questão permanece sem solução (teiku). O daf passa então a uma dúvida distinta: será que os amuletos têm santidade, por conterem letras dos nomes divinos e conteúdos da Torá, ou não têm santidade? A Guemará testa essa dúvida contra três leis possíveis: primeiro, se seria preciso salvá-los do incêndio em Shabat — rejeitada, pois uma baraita ensina que bênçãos e amuletos não se salvam do fogo, e ardem em seu lugar; depois, se seria preciso sepultá-los quando descartados — também rejeitada, por uma baraita sobre inscrições do nome divino em objetos comuns, que devem ser cortadas e sepultadas em qualquer caso; por fim, se seria permitido entrar com eles na privada, questão que a própria Mishná já citada parece resolver, ao implicar que se sai com o amuleto de especialista sem restrição alguma, inclusive à privada. Contra essa conclusão, levanta-se a objeção de que, havendo santidade, o dono poderia esquecer-se deles na privada e vir a carregá-los quatro côvados pelo domínio público — respondida primeiro distinguindo o amuleto de raízes, sem santidade, do amuleto escrito; depois, quando uma baraita equipara ambos os tipos, distinguindo o doente em perigo de vida, cujo caso permite a leniência por causa do risco; e, quando uma baraita equipara também os dois níveis de gravidade da doença, a Guemará chega à resposta final: precisamente porque o amuleto cura, mesmo que seu dono o segure na mão, e não o vista, está bem assim — pois não há diferença, para fins de cura, entre usá-lo pendurado ao pescoço e carregá-lo na mão, de modo que a permissão de trazê-lo se estende a ambos os casos.

Conclusão: não fazer do amuleto um bracelete ou anel · מִשּׁוּם מַרְאִית הָעַיִן

01A frase de 61a se completa: por causa da aparência de transgressão
Baraita (continuação)
בְּשֵׁיר וּבְטַבַּעַת וְיֵצֵא בּוֹ בִּרְשׁוּת הָרַבִּים. מִשּׁוּם מַרְאִית הָעַיִן.

...à maneira de um bracelete ou de um anel, e saia com ele no domínio público. Por causa da aparência de transgressão.

Nota

Este daf abre concluindo, sem qualquer interrupção de conteúdo, a frase com que 61a terminou. A baraita ensinava que se pode amarrar e desamarrar o amuleto mesmo no domínio público — completando-se agora a ressalva: contanto que não se faça dele algo semelhante a um bracelete ou anel de puro ornamento, saindo assim com ele pelo domínio público. A razão é a aparência de transgressão: se o amuleto fosse permanentemente atado como um adorno fixo, pareceria que a pessoa o traz apenas por enfeite, e não por causa da doença.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "be-shir" e "mipnei marit ha-ayin"
בשיר - אצעדה: מפני מראית העין - דלא מיחזי כמאן דבעי ליה לרפואה אלא לתכשיט ולאו תכשיט הוא אלא מחמת דאגת חולי:

"À maneira de um bracelete" — trata-se de um bracelete de metal. "Por causa da aparência de transgressão" — pois assim não pareceria que o traz por causa da cura, mas sim como ornamento, quando na verdade não é ornamento, mas decorre do temor da doença.

Quantas curas comprovam o escritor e o amuleto · לִמְּחוֹיֵי גַּבְרָא, לִמְּחוֹיֵי קְמִיעָא

02Objeção: uma baraita exige três pessoas diferentes curadas
Guemará
וְהָתַנְיָא: אֵיזֶהוּ קָמֵיעַ מוּמְחֶה — כֹּל שֶׁרִיפֵּא שְׁלֹשָׁה בְּנֵי אָדָם כְּאֶחָד!

Mas não se ensinou numa baraita: qual é o amuleto comprovadamente eficaz? Todo aquele que curou três pessoas, igualmente!

Nota

A Guemará levanta uma objeção contra a definição de amuleto comprovadamente eficaz dada ao final de 61a — que curou, curou de novo, e curou uma terceira vez, mesmo tratando-se sempre da mesma pessoa. Uma baraita distinta parece exigir, em vez disso, que o amuleto tenha curado três pessoas diferentes.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve-hataniah kol she-ripe shelosha"
והתניא כל שריפא ג' בני אדם - ולעיל קתני כל שריפא ושנה ושילש ואפילו אדם אחד:

"Mas não se ensinou: todo aquele que curou três pessoas" — e acima se ensinou: todo aquele que curou, e curou de novo, e curou uma terceira vez, e isso vale mesmo para uma só pessoa.

03Resolução: comprovar o homem exige três pessoas; comprovar o amuleto, basta a mesma pessoa três vezes
Guemará
לָא קַשְׁיָא: הָא — לִמְּחוֹיֵי גַּבְרָא, הָא — לִמְּחוֹיֵי קְמִיעָא.

Não há dificuldade: esta baraita fala de comprovar o homem, e aquela fala de comprovar o amuleto.

Nota

A Guemará resolve a contradição distinguindo dois objetos de comprovação, ambos chamados pela mesma palavra: para que o escritor seja reconhecido como especialista — o que vale para qualquer amuleto futuro que ele venha a escrever —, é preciso que tenha curado três pessoas diferentes, com doenças diferentes; mas para que este amuleto específico, com este texto específico, seja reconhecido como comprovadamente eficaz, basta que tenha curado a mesma pessoa três vezes, ou até três pessoas distintas com este mesmo texto.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ha le-amchuyei gavra" e o caso de cura repetida
הא לאמחויי גברא כו' - הא דקתני ג' בני אדם משום דסתם ג' בני אדם שלשה מיני חלאים ואיירי בג' מיני קמיעין שאינן דומין זה לזה ולאמחויי גברא שנעשה מומחה בכל קמיעים שיעשה לעולם כדאמרינן בב"ק (דף לז.) נגח שור וחמור וגמל נעשה מועד לכל אבל הקמיע אינו מומחה אם יכתוב רופא אחר אחד מהן: והא - דקתני כל שריפא ושנה ושילש מיירי בחולי אחד וכתבו זה הלחש וריפא ג' פעמים או לאדם אחד או לשלשה ולאיתמחויי קמיעא מיירי דנעשה הקמיע לבדו מומחה על יד אדם זה או אם כתבום שלשה רופאים נעשה קמיע של לחש זה מומחה מיד כל אדם:

"Esta baraita fala de comprovar o homem, etc." — o fato de se ensinar "três pessoas" deve-se a que, em geral, três pessoas diferentes têm três tipos de doenças, e trata-se de três tipos de amuletos que não se parecem entre si; e isso serve para comprovar o homem, que se torna especialista para todo e qualquer amuleto que venha a escrever, como dizemos em Bava Kama (37a): o boi, o asno e o camelo que cornearam tornam-se cada um "advertido" para todos — mas o amuleto em si não se torna comprovadamente eficaz caso outro médico escreva um deles.

"E aquela baraita" — que ensina "todo aquele que curou, e curou de novo, e curou uma terceira vez" — trata de uma só doença, em que este homem escreveu este encantamento e curou três vezes, seja a uma só pessoa, seja a três pessoas; e serve para comprovar o amuleto, pois este amuleto por si só se torna comprovadamente eficaz pela mão deste homem, ou, se três médicos o escreveram, este amuleto deste encantamento se torna comprovadamente eficaz vindo de qualquer pessoa.

04Rav Pappa: três casos que lhe pareciam óbvios
Rav Pappa
אָמַר רַב פָּפָּא: פְּשִׁיטָא לִי תְּלָתָא קְמֵיעֵי לִתְלָתָא גַּבְרֵי תְּלָתָא תְּלָתָא זִימְנֵי — אִיתְמַחִי גַּבְרָא וְאִתְמַחִי קָמֵיעַ. תְּלָתָא קְמֵיעֵי לִתְלָתָא גַּבְרֵי חַד חַד זִימְנָא — גַּבְרָא אִיתְמַחִי, קְמִיעָא לָא אִיתְמַחִי. חַד קָמֵיעַ לִתְלָתָא גַּבְרֵי — קְמִיעָא אִיתְמַחִי, גַּבְרָא לָא אִיתְמַחִי.

Disse Rav Pappa: é óbvio para mim que, havendo três amuletos para três homens, cada um curando três vezes, tanto o homem quanto o amuleto se tornam comprovadamente eficazes. Havendo três amuletos para três homens, cada um curando uma só vez, o homem se torna comprovadamente eficaz, mas o amuleto não se torna comprovadamente eficaz. Havendo um só amuleto para três homens, o amuleto se torna comprovadamente eficaz, mas o homem não se torna comprovadamente eficaz.

Nota

Rav Pappa aplica a distinção anterior a três configurações concretas. Quando três amuletos diferentes, para três pessoas diferentes, curam cada um três vezes, tanto o escritor quanto cada amuleto individual ficam comprovados. Quando três amuletos diferentes curam cada um apenas uma vez, o escritor já está comprovado — pois demonstrou competência em três casos distintos —, mas nenhum amuleto específico foi testado o suficiente para ser considerado, por si só, eficaz. E quando um único amuleto cura três pessoas diferentes, o amuleto está comprovado, mas nada se aprende sobre a competência geral do escritor, pois ele só demonstrou sucesso com este texto específico.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "telata kamei", "itmachi gavra" e "kamia lo itmachi"
תלתא קמיעי - ג' מיני לחש: תלתא תלתא זימני - כל לחש ריפא שלשה פעמים ואפילו אדם אחד: אתמחי גברא - בכל קמיעות לעולם שהרי הומחה בשלשה מיני קמיעים: ואתמחי קמיע - שלשה קמיעין הללו נעשים מומחים מיד כל אדם שהרי ריפא כל אחד ג"פ ואין לומר מזל הרופא גורם דאין הדבר תלוי במזל הרופא אלא בחכמתו ואין לומר נמי החולה גרם שמתרפא על ידי קמיעין שהרי בשלשה אנשים הוחזק: קמיעא לא אתמחי - לבא מיד רופא אחר: חד קמיע לתלתא גברי - לחולי אחד: קמיעא איתמחי - מיד כל אדם: גברא לא איתמחי - לקמיע אחר שאינו של לחש ושל חולי זה:

"Três amuletos" — três tipos de encantamento. "Cada um três vezes" — cada encantamento curou três vezes, mesmo que sempre a uma só pessoa. "O homem se torna comprovadamente eficaz" — para todo e qualquer amuleto, para sempre, pois já se comprovou em três tipos de amuletos. "E o amuleto se torna comprovadamente eficaz" — estes três amuletos se tornam comprovadamente eficazes vindos de qualquer pessoa, pois cada um curou três vezes; e não se pode dizer que foi a sorte do médico a causa, pois isso não depende da sorte do médico, mas de sua sabedoria; nem se pode dizer que foi o doente a causa de se curar por meio dos amuletos, pois isso já se confirmou em três pessoas diferentes. "O amuleto não se torna comprovadamente eficaz" — a ponto de ser aceito vindo de outro médico. "Um só amuleto para três homens" — para uma só doença. "O amuleto se torna comprovadamente eficaz" — vindo de qualquer pessoa. "O homem não se torna comprovadamente eficaz" — para outro amuleto que não seja deste encantamento e desta doença.

05A dúvida de Rav Pappa, sem solução: três amuletos para um só homem
Rav Pappa
בָּעֵי רַב פָּפָּא: תְּלָתָא קְמֵיעֵי לְחַד גַּבְרָא מַאי? קְמִיעָא וַדַּאי לָא אִיתְמַחִי. גַּבְרָא אִיתְמַחִי, אוֹ לָא אִיתְמַחִי? מִי אָמְרִינַן הָא אַסִּי לֵיהּ, אוֹ דִילְמָא מַזָּלָא דְּהַאי גַּבְרָא הוּא דְּקָא מְקַבֵּל כְּתָבָא. תֵּיקוּ.

Perguntou Rav Pappa: havendo três amuletos diferentes para um só homem, o que se diz? O amuleto certamente não se torna comprovadamente eficaz; mas o homem se torna comprovadamente eficaz, ou não se torna? Diremos que sim, pois ele o curou, ou talvez seja a sorte desse homem doente que recebe bem o texto escrito? Que fique sem solução.

Nota

Rav Pappa formula uma dúvida que os três casos anteriores não resolvem: se três amuletos de tipos diferentes, escritos pelo mesmo homem, curam todos a uma única pessoa doente, o amuleto certamente não está comprovado, pois cada tipo foi usado apenas uma vez. Mas quanto ao escritor, permanece incerto se ele demonstrou competência geral — já que curou com três tipos distintos de amuleto —, ou se todo o sucesso se deve, na verdade, à sorte particular daquele doente, que reagiria bem a qualquer texto escrito por qualquer pessoa. A questão fica sem resposta, com o termo técnico que marca as dúvidas insolúveis do Talmud.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "telata kamei" e "mazlei de-hai gavra"
תלתא קמיעי - של שלשה מיני חולי: קמיעא ודאי לא איתמחי - מיד אדם אחר שהרי לא ריפא אלא פעם אחת: מזליה דהאי גברא - מלאכו של חולי זה דמקבל קמיעא וא"ת ממתני' דלעיל שמעינן לה דקתני כל שריפא ושנה ושילש דמשמע לאדם אחד ואוקימנא דאיתמחי קמיעא ולא אמרינן מזליה הוא לא דמי התם חד קמיעא הוא וליכא למיתלייה במזלא דגברא אלא בקמיע הני ודאי בגברא תלוי או ברופא או במתרפא הלכך מיבעיא לן במאי ניתליה:

"Três amuletos" — de três tipos de doença. "O amuleto certamente não se torna comprovadamente eficaz" — vindo de outra pessoa, pois só curou uma vez. "A sorte desse homem" — o anjo dessa doença específica, que aceita bem o amuleto. E, se disseres: da mishná anterior já ouvíamos isso, pois se ensinou "todo aquele que curou, e curou de novo, e curou uma terceira vez", o que subentende uma só pessoa, e estabelecemos que o amuleto se torna comprovadamente eficaz, sem dizer que era a sorte — não é o mesmo caso: ali é um só amuleto, e não há como atribuir o resultado à sorte do homem, mas apenas ao amuleto; já aqui, o resultado certamente depende do homem, seja do médico, seja do doente, e por isso ficamos em dúvida sobre a qual dos dois atribuí-lo.

Os amuletos têm santidade? · מִשּׁוּם קְדוּשָּׁה

06A dúvida se levanta; testada primeiro quanto a salvar do incêndio, e rejeitada
Guemará
אִיבַּעְיָא לְהוּ: קְמֵיעִין יֵשׁ בָּהֶן מִשּׁוּם קְדוּשָּׁה, אוֹ דִילְמָא אֵין בָּהֶן מִשּׁוּם קְדוּשָּׁה? לְמַאי הִילְכְתָא? אִילֵּימָא לְאַצּוֹלִינְהוּ מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה, תָּא שְׁמַע: הַבְּרָכוֹת וְהַקְּמֵיעִין, אַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ בָּהֶן אוֹתִיּוֹת וּמֵעִנְיָנוֹת הַרְבֵּה שֶׁבַּתּוֹרָה — אֵין מַצִּילִין אוֹתָן מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה, וְנִשְׂרָפִים בִּמְקוֹמָן!

Levantaram os sábios uma dúvida: os amuletos têm santidade, ou talvez não tenham santidade? Para qual lei isso importa? Se disseres que é para salvá-los do incêndio em Shabat, vem e ouve: as bênçãos e os amuletos, ainda que tenham neles letras dos nomes divinos e muitos conteúdos que estão na Torá, não se salvam do incêndio, e ardem em seu lugar!

Nota

A Guemará abre uma nova dúvida, independente do que se discutiu até aqui: os amuletos, por conterem letras de nomes divinos e trechos da Torá, teriam alguma santidade formal? A pergunta só faz sentido se houver uma lei prática em jogo, e a primeira candidata é a permissão especial de salvar objetos sagrados de um incêndio em Shabat, apesar da proibição geral de apagar o fogo ou retirar pertences. Mas essa aplicação é descartada de imediato: uma baraita ensina explicitamente que nem as bênçãos litúrgicas nem os amuletos, mesmo contendo elementos sagrados, recebem esse privilégio — ardem onde estão.

07Testada depois quanto ao sepultamento, e também rejeitada
Guemará
אֶלָּא לְעִנְיַן גְּנִיזָה. תָּא שְׁמַע: הָיָה כָּתוּב עַל יְדוֹת הַכֵּלִים וְעַל כַּרְעֵי הַמִּטָּה — יָגוֹד וְיִגְנְזֶנּוּ!

Mas então a dúvida importa quanto ao sepultamento. Vem e ouve: se o nome divino estava escrito nos cabos dos utensílios e nos pés da cama, corte-se o local e sepulte-se!

Nota

Descartada a hipótese do incêndio, a Guemará propõe que a dúvida se refira, então, à obrigação de sepultar documentos sagrados fora de uso, em vez de simplesmente descartá-los. Mas essa segunda hipótese também é rejeitada: uma baraita já ensina, independentemente da questão dos amuletos, que qualquer inscrição do nome divino — mesmo em objetos utilitários como o cabo de um utensílio ou o pé de uma cama — deve ser cortada e sepultada, tornando essa lei irrelevante para decidir se os amuletos têm santidade própria.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "haya katuv shem yagod"
היה כתוב שם יגוד - יקוץ מקום השם ויגנזנו: סתם בית הכסא שלהן בשדות:

"Se o nome divino estava escrito, corte-se" — corte-se o local do nome e sepulte-se. A privada comum deles ficava nos campos.

08Testada por fim quanto a entrar na privada; a própria Mishná resolve
Guemará
אֶלָּא לִיכָּנֵס בָּהֶן בְּבֵית הַכִּסֵּא. מַאי? יֵשׁ בָּהֶן קְדוּשָּׁה — וַאֲסִיר, אוֹ דִילְמָא אֵין בָּהֶן קְדוּשָּׁה — וּשְׁרֵי? תָּא שְׁמַע וְלֹא בְּקָמֵיעַ בִּזְמַן שֶׁאֵינוֹ מִן הַמּוּמְחֶה: הָא מִן הַמּוּמְחֶה — נָפֵיק.

Mas então a dúvida importa quanto a entrar com eles na privada. O que se diz? Têm santidade, e portanto é proibido? Ou talvez não tenham santidade, e portanto é permitido? Vem e ouve: "e nem com um amuleto, quando não é de um especialista" — logo, sendo de um especialista, sai-se com ele, mesmo à privada.

Nota

A terceira hipótese é a que finalmente se sustenta: a dúvida quanto à santidade dos amuletos importa para saber se é permitido entrar com eles na privada, lugar onde a honra devida a textos sagrados normalmente impede sua presença. A Guemará traz uma prova da própria Mishná citada em 61a: ao dizer que não se sai apenas com o amuleto que não é de especialista, ela dá a entender, por inferência, que com o amuleto de especialista se sai livremente — inclusive, aparentemente, à privada, sem qualquer restrição adicional por causa de sua possível santidade.

09Objeção: o risco de esquecer e carregar quatro côvados; resposta: amuleto de raízes
Guemará
וְאִי אָמְרַתְּ קְמֵיעִין יֵשׁ בָּהֶן מִשּׁוּם קְדוּשָּׁה, זִמְנִין דְּמִיצְטְרִיךְ לְבֵית הַכִּסֵּא, וְאָתֵי לְאֵיתוֹיִינְהוּ אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים. הָכָא בְמַאי עָסְקִינַן — בְּקָמֵיעַ שֶׁל עִיקָּרִין.

E se disseres que os amuletos têm santidade, haveria a seguinte dificuldade: por vezes ele precisará ir à privada, e ao tirá-los virá a carregá-los quatro côvados pelo domínio público sem perceber. Aqui, do que estamos tratando? De um amuleto de raízes.

Nota

A Guemará objeta contra a prova anterior: se os amuletos realmente tivessem santidade, haveria um problema prático em permitir que se entre com eles na privada — pois, precisando removê-los por respeito ao lugar, a pessoa correria o risco de esquecê-los na mão e carregá-los inadvertidamente quatro côvados pelo domínio público, violando uma proibição da Torá. A Guemará resolve reinterpretando o caso da Mishná: ela trata apenas de amuleto feito de raízes de plantas medicinais, que certamente não tem santidade alguma, por não conter escrita.

10Nova objeção de uma baraita que equipara os dois tipos de amuleto e os dois graus de doença
Guemará
וְהָתַנְיָא: אֶחָד קָמֵיעַ שֶׁל כְּתָב וְאֶחָד קָמֵיעַ שֶׁל עִיקָּרִין! אֶלָּא הָכָא בְמַאי עָסְקִינַן — בְּחוֹלֶה שֶׁיֵּשׁ בּוֹ סַכָּנָה. וְהָתַנְיָא: אֶחָד חוֹלֶה שֶׁיֵּשׁ בּוֹ סַכָּנָה וְאֶחָד חוֹלֶה שֶׁאֵין בּוֹ סַכָּנָה.

Mas não se ensinou: tanto um amuleto escrito quanto um amuleto de raízes! Mas então, do que estamos tratando aqui? De um doente em perigo de vida. Mas não se ensinou: tanto um doente em perigo de vida quanto um doente sem perigo de vida!

Nota

A Guemará rejeita a resolução anterior: a baraita citada em 61a, que definia o amuleto comprovadamente eficaz, já equiparava explicitamente o amuleto escrito e o de raízes — não há, portanto, base para restringir o caso da Mishná apenas ao segundo. A Guemará tenta então uma segunda reinterpretação: talvez a permissão de entrar na privada com o amuleto valha apenas para o doente em perigo de vida, cujo risco justifica a leniência mesmo quanto a um amuleto escrito. Mas essa tentativa também esbarra na mesma baraita, que equipara igualmente o doente em perigo de vida e o doente sem perigo de vida — fechando também essa via de distinção.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "yesh bo sakana"
שיש בו סכנה - אי שקיל ליה מיניה דשרי למיעל בהן לבית הכסא משום פיקוח נפש:

"Doente em perigo de vida" — a leniência valeria caso alguém o tirasse dele, pois é permitido entrar com eles na privada por causa da preservação da vida.

11Resposta final: por curar, pode-se trazê-lo mesmo na mão
Guemará
אֶלָּא כֵּיוָן דְּמַסֵּי, אַף עַל גַּב דְּנָקֵיט לֵיהּ בִּידֵיהּ — (נָמֵי) שַׁפִּיר דָּמֵי.

Mas então, uma vez que ele cura, ainda que o segure em sua mão, e não o traga vestido, também está bem assim.

Nota

A Guemará chega à resposta definitiva, que dissolve toda a dificuldade anterior: não há, de fato, diferença prática entre trazer o amuleto pendurado ao pescoço e trazê-lo na própria mão, pois, para efeito de cura, o que importa é apenas que ele acompanhe o doente. Assim, mesmo que a pessoa precise segurá-lo na mão ao sair da privada, em vez de recolocá-lo no corpo, isso está bem, e não configura o transporte proibido de um objeto pelo domínio público — pois a permissão de sair com o amuleto já se estende a essa forma de trazê-lo, tanto quanto à forma de vesti-lo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "af al gav de-nakit lei bi-yadeih"
אף על גב דנקיט ליה בידיה - תכשיטו הוא הלכך אי נמי מייתי ליה ד' אמות בידים לא מחייב:

"Ainda que o segure em sua mão" — o amuleto é seu ornamento de cura; por isso, mesmo que o traga quatro côvados na mão, ele não incorre em responsabilidade.