Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Vav · Bameh Isha Yotzah
וּמַאי רַבִּי מֵאִיר

A chave na mão da mulher; a distinção entre prazer com alegria e sem alegria; as camas de marfim; as três coisas que trazem à pobreza; e a soberba das filhas de Sião

Shabbat 62b — a baraita completada sobre a chave e a trouxinha de perfume; Rav Adda bar Ahava sobre o recipiente com aroma abaixo da medida; o bálsamo perfumado identificado no versículo, e o decreto de Rabi Yehuda ben Bava; a interpretação de Rabi Abahu sobre "os que se deitam em camas de marfim"; as três coisas que trazem o homem à pobreza; a exposição de Rava bar Rav Ilai sobre a soberba das filhas de Sião e seu castigo; e os homens arrogantes de Jerusalém — daf interrompido no meio da frase.

O daf continua, dentro do mesmo perek, um assunto novo: uma baraita sobre a chave que a mulher traz em sua mão, cuja formulação — atribuída somente a Rabi Meir, sem menção aos Sábios — leva a Guemará a perguntar por que ela nomeia apenas essa opinião, e a notar que ela também não menciona a trouxinha de perfume, citada logo em seguida por Rabi Eliezer. A Guemará resolve reconstruindo o texto da baraita como incompleto, restaurando também a trouxinha de perfume e o frasco de bálsamo, com a ressalva de que a isenção de Rabi Eliezer vale apenas quando eles contêm de fato o perfume. Dessa ressalva, Rav Adda bar Ahava extrai um princípio sobre quem transporta alimentos abaixo da medida mínima dentro de um recipiente, e Rav Ashi qualifica esse princípio distinguindo o caso em que não há substância alguma. A Guemará então identifica o bálsamo perfumado no versículo sobre "o melhor dos óleos", e enfrenta a objeção de Rav Yossef a partir do decreto de Rabi Yehuda ben Bava contra seu uso — resolvida por Abaye com o paralelo das taças largas de vinho, e pela distinção final entre todo prazer acompanhado de alegria, que os Sábios restringiram por causa do luto pela destruição, e o prazer sem alegria, que não restringiram. Um novo bloco aggádico se abre a partir do versículo sobre "os que se deitam em camas de marfim": Rabi Yossei bar Rabi Chanina o lê literalmente, mas Rabi Abahu zomba dessa leitura e propõe a verdadeira — homens que trocavam parceiras e profanavam seus leitos. Segue-se uma baraita sobre as três coisas que trazem o homem à pobreza — urinar nu diante da cama, tratar com desprezo a lavagem das mãos, e a esposa que o amaldiçoa em sua face —, cada uma delas qualificada e restringida por Rava, com o contraponto de Rav Chisda sobre a bênção recebida por quem lava bem as mãos. O daf se volta então para a longa exposição de Rava bar Rav Ilai sobre a soberba das "filhas de Sião" de Yeshayahu — o andar afetado, os olhos pintados, o perfume nos sapatos usado para seduzir os jovens —, seguida pela descrição ponto a ponto de seu castigo, culminando na aflição da lepra e na desonra de seus corpos. O daf termina, de modo excepcional dentro desta tradução, interrompido no meio de uma frase: Rav Yehuda, em nome de Rav, começa a descrever os homens de Jerusalém como arrogantes, dando o exemplo de sua fala pretensiosa sobre pão, e o texto se corta ao chegar ao tipo de vinho, retomando apenas na abertura de Shabat 63a.

A chave na mão da mulher: a baraita completada · לֹא תֵּצֵא בְּמַפְתֵּחַ

01A baraita sobre a chave, atribuída somente a Rabi Meir
Guemará; baraita
וּמַאי רַבִּי מֵאִיר? דְּתַנְיָא: לֹא תֵּצֵא אִשָּׁה בְּמַפְתֵּחַ שֶׁבְּיָדָהּ, וְאִם יָצָאת — חַיֶּיבֶת חַטָּאת, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר פּוֹטֵר בְּכוֹבֶלֶת וּבִצְלוֹחִית שֶׁל פִּלְיָיטוֹן.

E o que é "Rabi Meir"? Pois se ensinou numa baraita: a mulher não sai com a chave que está em sua mão, e, se saiu, é obrigada à oferenda pelo pecado — palavras de Rabi Meir. Rabi Eliezer isenta quanto à trouxinha de perfume e ao frasco de bálsamo.

Nota

A Guemará abre um assunto novo, ainda dentro do mesmo perek: uma baraita distinta, sobre a chave que a mulher traz consigo na mão, formulada como "palavras de Rabi Meir" sem qualquer menção aos Sábios. A Guemará pergunta pela fonte dessa atribuição isolada — onde se encontra que Rabi Meir tratou desse assunto sozinho, sem os Sábios, tendo apenas Rabi Eliezer como opositor.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "u-mai Rabi Meir"
ומאי רבי מאיר - היכא אשכחן דאיירי בה רבי מאיר בלא רבנן ופליג רבי אליעזר עליה:

"E o que é 'Rabi Meir'" — onde encontramos que Rabi Meir tratou disso sem os Sábios, e que Rabi Eliezer discordou dele sozinho?

02Dificuldade: a trouxinha de perfume não foi sequer mencionada
Guemará
כּוֹבֶלֶת — מַאן דְּכַר שְׁמַהּ?

A trouxinha de perfume — quem mencionou seu nome?

Nota

A Guemará nota uma segunda falha na baraita: Rabi Eliezer isenta quanto à trouxinha de perfume, mas o texto citado, até aqui, só havia falado da chave — a trouxinha nunca foi mencionada. Isso indica que falta algo à formulação da baraita.

03Resolução: a baraita está incompleta, e se reconstrói o texto
Guemará
חַסּוֹרֵי מִחַסְּרָא וְהָכִי קָתָנֵי: וְכֵן בְּכוֹבֶלֶת וְכֵן בִּצְלוֹחִית שֶׁל פְּלַיְיטוֹן לֹא תֵּצֵא, וְאִם יָצְאָה — חַיֶּיבֶת חַטָּאת, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר פּוֹטֵר בְּכוֹבֶלֶת וּבִצְלוֹחִית שֶׁל פְּלַיְיטוֹן. בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים — כְּשֶׁיֵּשׁ בָּהֶם בּוֹשֶׂם, אֲבָל אֵין בָּהֶם בּוֹשֶׂם — חַיֶּיבֶת.

Falta algo no ensino, e ensina-se assim: e também com a trouxinha de perfume, e também com o frasco de bálsamo, não se sai; e, se saiu, é obrigada à oferenda pelo pecado — palavras de Rabi Meir. Rabi Eliezer isenta quanto à trouxinha de perfume e ao frasco de bálsamo. Quando se disse isso? Quando há neles perfume; mas, se não há neles perfume, é obrigada.

Nota

A Guemará resolve ambas as dificuldades reconstruindo o texto: a baraita, tal como transmitida, omitiu por elipse a menção à trouxinha e ao frasco, que devem ser lidos como parte da mesma cláusula da chave, todos atribuídos a Rabi Meir. Acrescenta-se ainda uma ressalva à isenção de Rabi Eliezer: ela vale apenas quando a trouxinha e o frasco de fato contêm a substância perfumada; se estiverem vazios, a mulher é obrigada mesmo segundo ele.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ke-she-yesh bahem bosem" e "avur ein bahem bosem"
כשיש בה בושם - פלייטון יש בההוא חומרתא העשויה כקמיע דכיון דיש בה בושם תכשיט היא לזו שריחה רע ולמשלף ואיתויי נמי לא חייש כדאמרן דגנות הוא לה: אבל אין בה בושם - חומרתא לחודא לאו תכשיט הוא וחייבת:

"Quando há neles perfume" — há bálsamo naquele embrulho feito à maneira de amuleto; e, havendo nele perfume, ele é ornamento para a mulher cujo odor é ruim, e não se teme que ela venha a tirá-lo e mostrá-lo, e chegue a carregá-lo, como dissemos, pois isso seria uma desonra para ela. "Mas, se não há neles perfume" — o embrulho sozinho não é ornamento, e ela é obrigada.

Rav Adda bar Ahava: o recipiente com aroma abaixo da medida · פָּחוֹת מִכְּשִׁיעוּר בִּכְלִי

04Rav Adda bar Ahava: quem transporta comida abaixo da medida num recipiente é responsável
Rav Adda bar Ahava
אָמַר רַב אַדָּא בַּר אַהֲבָה: זֹאת אוֹמֶרֶת הַמּוֹצִיא אוֹכָלִין פָּחוֹת מִכְּשִׁיעוּר בִּכְלִי — חַיָּיב. דְּהָא אֵין בָּהּ בּוֹשֶׂם כְּפָחוֹת מִכְּשִׁיעוּר בִּכְלִי דָּמֵי, וְקָתָנֵי חַיֶּיבֶת.

Disse Rav Adda bar Ahava: isto ensina que quem transporta alimentos, em quantidade inferior à medida mínima, dentro de um recipiente, é responsável. Pois este caso, em que não há perfume no embrulho, equivale a uma quantidade inferior à medida mínima dentro de um recipiente, e ensinou-se que ela é obrigada.

Nota

Rav Adda bar Ahava extrai um princípio geral da ressalva que acaba de ser formulada: mesmo quando o próprio conteúdo transportado é inferior à quantidade mínima que geraria responsabilidade por si só, o recipiente que o contém não se torna, por isso, isento — ao contrário, a pessoa continua responsável por transportar o recipiente com seu conteúdo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "zot omeret" e "de-ha ein bah bosem"
זאת אומרת - הא דקתני אין בה בושם חייבת אלמא דקסבר רבי אליעזר המוציא אוכלין בשבת בכלי פחות מכשיעור דלא מיחייב על הוצאת אוכלין פחות מגרוגרת כדלקמן (שבת דף עו:) חייב מיהא על הכלי ולא אמרינן הכלי טפל להן ולא מיחייב עליה שלא נתכוין להוציא אלא משום אוכלין ופלוגתא היא על סתם משנה השנויה בפרק המצניע (לקמן שבת דף צג:) דקתני פטור אף על הכלי: דהא אין בו בושם כפחות מכשיעור דמי - שהכלי קלט את הריח ושיעור הוצאת בשמים בכל שהוא וכיון שאינו כל שהוא הוי ריחה פחות מכשיעור (הוא) וקתני חייבת ולא אמרינן נעשה כלי טפל לריח שבתוכו ואריחא לא מיחייב דפחות מכשיעור הוא:

"Isto ensina" — o fato de se ter ensinado que, não havendo nele perfume, ela é obrigada, mostra que Rabi Eliezer sustenta que quem transporta alimentos em Shabat dentro de um recipiente, em quantidade inferior à medida mínima — ainda que não seja responsável pelo transporte dos próprios alimentos, sendo estes inferiores a um figo seco, como adiante se ensina —, é, ainda assim, responsável por causa do recipiente; e não se diz que o recipiente é secundário aos alimentos, isentando-o também, por não ter tido intenção de transportar senão por causa dos alimentos. E isso diverge da Mishná anônima ensinada no capítulo HaMatzni'a, que isenta mesmo quanto ao recipiente. "Pois este caso, em que não há perfume, equivale a uma quantidade inferior à medida mínima" — pois o recipiente absorveu o aroma, e a medida mínima para o transporte de especiarias é qualquer quantidade; e, não havendo sequer essa quantidade, seu aroma é inferior à medida mínima, e ainda assim se ensinou que ela é obrigada — e não se diz que o recipiente se torna secundário ao aroma que contém, isentando-o por ser inferior à medida mínima.

05Rav Ashi: aqui é diferente, pois não há substância alguma
Rav Ashi
רַב אָשֵׁי אָמַר: בְּעָלְמָא אֵימָא לָךְ פָּטוּר, וְשָׁאנֵי הָכָא דְּלֵיתֵיהּ לְמַמָּשָׁא כְּלָל.

Rav Ashi disse: em geral, eu poderia dizer-te que está isento; mas aqui é diferente, pois não há nele substância alguma.

Nota

Rav Ashi qualifica o princípio de Rav Adda bar Ahava: em geral, quando o conteúdo transportado tem alguma substância física, ainda que abaixo da medida mínima, o recipiente pode se tornar secundário a ele e ficar isento junto com ele. Mas o aroma que impregna o embrulho vazio não tem substância física alguma — não se qualifica sequer como "abaixo da medida mínima" —, de modo que o recipiente não pode se tornar secundário a ele, e permanece responsável por si mesmo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve-shani hacha"
ושאני הכא - ליכא למימר נעשה כלי טפל לריח שאין בו שום ממש ואפילו פחות מכשיעור לא מיקרי אבל פחות מכשיעור בדבר שיש בו ממש נעשה כלי טפל לו ופטור:

"Mas aqui é diferente" — não se pode dizer que o recipiente se torna secundário ao aroma, pois este não tem substância alguma, e nem sequer se chama "inferior à medida mínima"; mas, quando se trata de uma quantidade inferior à medida mínima de algo que tem substância, o recipiente se torna secundário a ele, e fica isento.

O bálsamo perfumado nas Escrituras; prazer com alegria e sem alegria · רֵאשִׁית שְׁמָנִים

06"O melhor dos óleos" é o bálsamo perfumado
Rav Yehuda em nome de Shmuel
״וְרֵאשִׁית שְׁמָנִים יִמְשָׁחוּ״, אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: זֶה פִּלְיָיטוֹן.

"E se ungem com o melhor dos óleos" — disse Rav Yehuda, disse Shmuel: isto é o bálsamo perfumado.

Nota

A Guemará traz um versículo de Amós, que descreve os excessos dos ricos de Israel antes do exílio, e o identifica com o mesmo bálsamo perfumado tratado na Mishná — "o melhor dos óleos" com que se ungiam sendo o próprio óleo de bálsamo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "reishit shemanim"
ראשית שמנים - מובחר שבשמנים:

"O melhor dos óleos" — o mais seleto dentre os óleos.

07Objeção de Rav Yossef: o decreto de Rabi Yehuda ben Bava não foi aceito
Rav Yossef
מֵתִיב רַב יוֹסֵף: אַף עַל פִּלְיָיטוֹן גְּזַר רַבִּי יְהוּדָה בֶּן בָּבָא, וְלֹא הוֹדוּ לוֹ. וְאִי אָמְרַתְּ, מִשּׁוּם תַּעֲנוּג, אַמַּאי לֹא הוֹדוּ לוֹ?

Objetou Rav Yossef: também quanto ao bálsamo perfumado decretou Rabi Yehuda ben Bava — proibindo seu uso por causa do luto pela destruição —, e não concordaram com ele. E, se dizes que este versículo condena o bálsamo por causa do prazer, por que não concordaram com ele?

Nota

Rav Yossef traz uma tradição sobre decretos de luto instituídos após a destruição do Templo: Rabi Yehuda ben Bava teria tentado proibir também o uso do bálsamo perfumado, e os demais Sábios não concordaram com ele. Se, porém, o próprio versículo já condenasse esse prazer como causa da calamidade, seria de esperar que os Sábios aceitassem prontamente tal proibição — e não que a rejeitassem.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "gazar" e "ve-i amrat"
גזר - משום צער חורבן: ואי אמרת - זה פלייטון והאי קרא בתענוג משתעי שלא היו נותנים לב לדברי הנביאים הניבאים על הפורענות ועסוקים בתענוגים:

"Decretou" — por causa do luto pela destruição. "E se dizes" — que isso é o bálsamo perfumado, e este versículo trata do prazer, pois não davam atenção às palavras dos profetas que profetizavam a calamidade, e se ocupavam de prazeres.

08Resposta de Abaye: o paralelo com as taças largas de vinho
Abaye
אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: וּלְטַעְמָיךְ, הָא דִּכְתִיב: ״הַשֹּׁתִים בְּמִזְרְקֵי יַיִן״ — רַבִּי אַמֵּי וְרַבִּי אַסִּי, חַד אָמַר קְנִישְׁקְנִין, וְחַד אָמַר שֶׁמְּזָרְקִין כּוֹסוֹתֵיהֶן זֶה לָזֶה. הָכִי נָמֵי דַּאֲסִיר? וְהָא רַבָּה בַּר רַב הוּנָא אִיקְּלַע לְבֵי רֵישׁ גָּלוּתָא וְאִישְׁתִּי בִּקְנִישְׁקְנִין, וְלָא אֲמַר לֵיהּ וְלָא מִידֵּי!

Disse-lhe Abaye: mas, segundo teu raciocínio, quanto ao que está escrito, "os que bebem em taças largas de vinho" — Rabi Ami e Rabi Assi divergem sobre o que são: um diz que são keneshkanin, e o outro diz que significa que lançam seus copos um ao outro. Também aqui, isso é proibido? Mas eis que Rabá bar Rav Huna chegou à casa do Reish Galutá e bebeu em keneshkanin, e ele não lhe disse coisa alguma!

Nota

Abaye responde por analogia: um outro versículo, sobre os que bebem "em taças largas de vinho", é lido por Rabi Ami e Rabi Assi como referência a certo recipiente de vidro ou a certo hábito de lançar taças de um para o outro — e, no entanto, ninguém decretou proibição contra isso, como se vê do próprio caso de Rabá bar Rav Huna, que bebeu assim na casa do Reish Galutá sem qualquer objeção. Segue-se que a mera menção de um prazer num versículo condenatório não basta para justificar um decreto de proibição.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "u-le-ta'amaych" e "she-mezarkin"
ולטעמיך הא דכתיב - בהאי ענינא השותים במזרקי יין ורבי אמי ורבי אסי פירשו זהו קנישקנין כלי זכוכית ארוך ולו שני פיות ויין נזרק מזה לזה: שמזרקין - על ידי אומנות כדאמר בהחליל (סוכה דף נג.) מטייל בתמני כסי: הכי נמי דאסיר - למשתי השתא בקנישקנין:

"Mas, segundo teu raciocínio, quanto ao que está escrito" — nesse mesmo contexto, "os que bebem em taças largas de vinho", e Rabi Ami e Rabi Assi explicaram que isso são os keneshkanin, um recipiente de vidro alongado, com duas bocas, pelo qual o vinho é lançado de um lado a outro. "Que lançam" — por meio de uma habilidade, como se diz em HeChalil: ele passeia equilibrando oito copos. "Também aqui, isso é proibido" — beber agora em keneshkanin?

09A distinção final: prazer com alegria, e prazer sem alegria
Guemará
אֶלָּא: כׇּל מִידֵּי דְּאִית בֵּיהּ תַּעֲנוּג וְאִית בֵּיהּ שִׂמְחָה — גְּזַרוּ רַבָּנַן, אֲבָל מִידֵּי דְּאִית בֵּיהּ תַּעֲנוּג וְלֵית בֵּיהּ שִׂמְחָה — לָא גְזַרוּ רַבָּנַן.

Mas então: tudo o que traz prazer e traz alegria, os Sábios decretaram proibição de luto; mas o que traz prazer e não traz alegria, os Sábios não decretaram.

Nota

A Guemará conclui com o princípio que distingue os dois casos: os decretos de luto pela destruição do Templo recaem apenas sobre prazeres associados à alegria festiva e social — como o vinho, bebido em companhia e com regozijo —, mas não sobre prazeres solitários, como o simples uso de um óleo perfumado, que não gera alegria compartilhada e por isso não foi objeto de decreto.

As camas de marfim: a interpretação de Rabi Abahu · הַשֹּׁכְבִים עַל מִטּוֹת שֵׁן

10Rabi Yossei bar Rabi Chanina: urinavam nus diante das camas
Rabi Yossei bar Rabi Chanina
״הַשֹּׁכְבִים עַל מִטּוֹת שֵׁן וּסְרֻחִים עַל עַרְשׂוֹתָם״. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: מְלַמֵּד שֶׁהָיוּ מַשְׁתִּינִין מַיִם בִּפְנֵי מִטּוֹתֵיהֶן עֲרוּמִּים.

"Os que se deitam em camas de marfim e se estendem sobre seus leitos" — disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: isso ensina que urinavam diante de suas camas, nus.

Nota

A Guemará passa a um novo bloco aggádico, comentando um versículo de Amós sobre a decadência moral que precedeu o exílio. Rabi Yossei bar Rabi Chanina lê o verbo "se estendem" como indicação de que aqueles homens urinavam de pé, nus, bem diante de suas próprias camas, por puro desleixo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mashtinin"
משתינין - דדייק מסרוחים:

"Urinavam" — ele deduz isso da palavra "se estendem".

11Rabi Abahu zomba dessa leitura
Rabi Abahu
מְגַדֵּף בַּהּ רַבִּי אֲבָהוּ: אִי הָכִי, הַיְינוּ דִּכְתִיב: ״לָכֵן עַתָּה יִגְלוּ בְּרֹאשׁ גֹּלִים״ — מִשּׁוּם דְּמַשְׁתִּינִין מַיִם בִּפְנֵי מִטּוֹתֵיהֶם עֲרוּמִּים יִגְלוּ בְּרֹאשׁ גּוֹלִים?!

Zombou disso Rabi Abahu: se é assim, é isso o que está escrito, "portanto agora irão ao exílio à frente dos exilados"? Por urinarem diante de suas camas, nus, irão ao exílio à frente dos exilados?!

Nota

Rabi Abahu rejeita a leitura anterior por ser desproporcional: o versículo conclui anunciando que esses homens seriam os primeiros a ir ao exílio, uma punição severa demais para um simples desleixo de higiene pessoal — sinal de que a verdadeira falta descrita ali deve ser mais grave.

12A verdadeira interpretação: trocavam de parceiras e profanavam os leitos
Rabi Abahu
אֶלָּא אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ: אֵלּוּ בְּנֵי אָדָם שֶׁהָיוּ אוֹכְלִים וְשׁוֹתִים זֶה עִם זֶה, וְדוֹבְקִין מִטּוֹתֵיהֶן זוֹ בָּזוֹ, וּמַחֲלִיפִין נְשׁוֹתֵיהֶן זֶה עִם זֶה, וּמַסְרִיחִין עַרְסוֹתָם בְּשִׁכְבַת זֶרַע שֶׁאֵינוֹ שֶׁלָּהֶן.

Mas então disse Rabi Abahu: estes eram homens que comiam e bebiam uns com os outros, e juntavam suas camas uma à outra, e trocavam suas esposas uns com os outros, e tornavam fétidos seus leitos com sêmen que não era o seu.

Nota

Rabi Abahu propõe a leitura correta: o versículo descreve homens que, em seus banquetes de luxo, aproximavam suas camas para trocar parceiras entre si, profanando assim o próprio leito conjugal — falta moral grave o bastante para justificar a punição do exílio antecipado.

As três coisas que trazem o homem à pobreza · שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים מְבִיאִין לִידֵי עֲנִיּוּת

13Urinar nu diante da cama, desprezar a lavagem das mãos, a esposa que amaldiçoa
Rabi Abahu / baraita
אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ, וְאָמְרִי לַהּ בְּמַתְנִיתָא תָּנָא: שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים מְבִיאִין אֶת הָאָדָם לִידֵי עֲנִיּוּת, וְאֵלּוּ הֵן: הַמַּשְׁתִּין מַיִם בִּפְנֵי מִטָּתוֹ עָרוֹם, וּמְזַלְזֵל בִּנְטִילַת יָדַיִם, וְשֶׁאִשְׁתּוֹ מְקַלַּלְתּוֹ בְּפָנָיו.

Disse Rabi Abahu — e há quem diga que se ensinou numa baraita: três coisas trazem o homem à pobreza, e são estas: quem urina diante de sua cama, nu; quem trata com desprezo a lavagem das mãos; e aquele cuja esposa o amaldiçoa em sua face.

Nota

Retomando o tema do desleixo mencionado antes, a Guemará traz um ensinamento — atribuído a Rabi Abahu ou, segundo outra versão, a uma baraita independente — que enumera três comportamentos concretos que trazem a pobreza sobre quem os pratica.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lidei aniyut" e "arom"
לידי עניות - דאמרינן בע"פ (פסחים דף קיא:) שרא דעניותא נביל שמיה ונביל קרי ליה ואוהב מקום מיאוס ומשתין מים לפני מטתו היינו מיאוס: ערום - אורחא דמילתא נקט מתוך שהוא ערום אינו יוצא לחוץ להשתין דטורח הוא לו ללבוש ולצאת:

"À pobreza" — pois se diz em Erev Pessach: o príncipe da pobreza chama-se Naval, e o chamam de Naval porque ama lugar de imundície; e urinar diante de sua cama é imundície. "Nu" — a baraita menciona o caso comum, pois, estando nu, ele não sai para fora para urinar, porque lhe seria trabalhoso vestir-se e sair.

14Rava: só há problema se voltado para a própria cama
Rava
הַמַּשְׁתִּין מַיִם בִּפְנֵי מִטָּתוֹ עָרוֹם, אָמַר רָבָא: לָא אֲמַרַן אֶלָּא דְּמַהְדַּר אַפֵּיהּ לְפוּרְיֵיהּ, אֲבָל לְבָרַאי — לֵית לַן בַּהּ. וּמַהְדַּר אַפֵּיהּ לְפוּרְיֵיהּ, נָמֵי לָא אֲמַרַן אֶלָּא לְאַרְעָא, אֲבָל בְּמָנָא — לֵית לַן בַּהּ.

"Quem urina diante de sua cama, nu" — disse Rava: não dissemos isso senão de quem volta o rosto para sua cama; mas, para fora, não há problema quanto a isso. E, quanto a voltar o rosto para sua cama, também não dissemos isso senão sobre o chão; mas, num recipiente, não há problema quanto a isso.

Nota

Rava restringe o primeiro item em duas etapas: a advertência só se aplica a quem urina de frente para a própria cama — pois urinando para fora do quarto o jato se lança longe, sem sujar as proximidades — e, mesmo voltado para a cama, só há problema se for diretamente sobre o chão, e não dentro de um recipiente.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "avur le-varai"
אבל לבראי לית לן בה - שהקילוח ארוך וניתז למרחוק:

"Mas, para fora, não há problema quanto a isso" — pois o jato é longo e se lança para longe.

15Rava: só há problema se não lavar as mãos de modo algum
Rava; Rav Chisda
וּמְזַלְזֵל בִּנְטִילַת יָדַיִם, אָמַר רָבָא: לָא אֲמַרַן אֶלָּא דְּלָא מְשָׁא יְדֵיהּ כְּלָל, אֲבָל מְשָׁא וְלָא מְשָׁא — לֵית לַן בַּהּ. וְלָאו מִלְּתָא הִיא, דְּאָמַר רַב חִסְדָּא: אֲנָא מְשַׁאי מְלֵא חָפְנַי מַיָּא וִיהַבוּ לִי מְלֵא חָפְנַי טֵיבוּתָא.

"Quem trata com desprezo a lavagem das mãos" — disse Rava: não dissemos isso senão de quem não lava as mãos de modo algum; mas quem lava, ainda que não lave bem, não há problema quanto a isso. Mas isso não é correto, pois disse Rav Chisda: eu lavava as mãos com uma quantidade cheia de minhas duas mãos em água, e me davam em recompensa uma quantidade cheia de minhas duas mãos em bondade.

Nota

Rava restringe também o segundo item: só há falha grave em quem não lava as mãos absolutamente nada, mas quem o faz, mesmo que de modo incompleto, já cumpre o mínimo. A Guemará rejeita, porém, essa restrição, trazendo o testemunho de Rav Chisda, que atribuía a própria fartura de bênçãos justamente ao cuidado de lavar as mãos generosamente, com as duas mãos cheias de água — sugerindo que até mesmo lavar pouco, se feito com desleixo, já compromete a bênção.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "masha ve-lo masha"
משא ולא משא - שאינו רוחץ ומשפשף יפה אלא מעט מים כגון רביעית מצומצם:

"Lava, ainda que não lave bem" — que não se banha nem esfrega bem, mas apenas com pouca água, como um reviit justo.

16Rava: a esposa que amaldiçoa por causa dos ornamentos
Rava
וְשֶׁאִשְׁתּוֹ מְקַלַּלְתּוֹ בְּפָנָיו, אָמַר רָבָא: עַל עִסְקֵי תַּכְשִׁיטֶיהָ. וְהָנֵי מִילֵּי הוּא דְּאִית לֵיהּ וְלָא עָבֵיד.

"E aquele cuja esposa o amaldiçoa em sua face" — disse Rava: por causa de seus ornamentos. E isso vale apenas quando ele tem recursos e não os provê.

Nota

Rava explica e restringe o terceiro item: a maldição da esposa que traz pobreza é especificamente aquela motivada pela recusa do marido em prover-lhe ornamentos — e isso somente quando ele de fato tem condições de comprá-los e se nega a fazê-lo, e não quando simplesmente não pode.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "al iske tachshiteha"
על עסקי תכשיטיה - שאינו רוצה לקנות לה:

"Por causa de seus ornamentos" — porque ele não quer comprá-los para ela.

A soberba das filhas de Sião e seu castigo · יַעַן כִּי גָבְהוּ בְּנוֹת צִיּוֹן

17Rava bar Rav Ilai: o andar afetado, os olhos pintados, o perfume nos sapatos
Rava bar Rav Ilai; Rav Yitzchak da escola de Rabi Ami
דָּרֵשׁ רָבָא בְּרֵיהּ דְּרַב עִילָּאֵי, מַאי דִכְתִיב: ״וַיֹּאמֶר ה׳ יַעַן כִּי גָבְהוּ בְּנוֹת צִיּוֹן״ — שֶׁהָיוּ מְהַלְּכוֹת בְּקוֹמָה זְקוּפָה. ״וַתֵּלַכְנָה נְטוּיוֹת גָּרוֹן״ — שֶׁהָיוּ מְהַלְּכוֹת עָקֵב בְּצַד גּוּדָל. ״וּמְשַׂקְּרוֹת עֵינַיִם״ — דַּהֲוָה מָלְיָאן כּוּחְלָא לְעֵינַיְיהוּ וּמְרַמְּזָן. ״הָלוֹךְ וְטָפוֹף״ — שֶׁהָיוּ מְהַלְּכוֹת אֲרוּכָּה בְּצַד קְצָרָה. ״וּבְרַגְלֵיהֶן תְּעַכַּסְנָה״ — אָמַר רַב יִצְחָק דְּבֵי רַבִּי אַמֵּי: מְלַמֵּד שֶׁמַּטִּילוֹת מוֹר וַאֲפַרְסְמוֹן בְּמִנְעֲלֵיהֶן וּמְהַלְּכוֹת בְּשׁוּקֵי יְרוּשָׁלַיִם, וְכֵיוָן שֶׁמַּגִּיעוֹת אֵצֶל בַּחוּרֵי יִשְׂרָאֵל בּוֹעֲטוֹת בַּקַּרְקַע וּמַתִּיזוֹת עֲלֵיהֶם וּמַכְנִיסוֹת בָּהֶן יֵצֶר הָרָע כְּאֶרֶס בְּכָעוּס.

Expôs Rava, filho de Rav Ilai, o que está escrito: "e disse o Eterno: porquanto as filhas de Sião se exaltaram" — pois caminhavam de porte ereto. "E andavam de pescoço estendido" — pois caminhavam com o calcanhar junto ao dedão, a passos curtos. "E lançavam olhares sedutores com os olhos" — pois enchiam de tintura os olhos e faziam sinais com eles. "Andando e requebrando" — pois caminhavam colocando a alta ao lado da baixa. "E com seus pés faziam tilintar ornamentos" — disse Rav Yitzchak, da escola de Rabi Ami: isso ensina que colocavam mirra e bálsamo em seus sapatos, e caminhavam pelos mercados de Jerusalém, e, quando chegavam perto dos jovens de Israel, pisavam no chão e faziam o perfume espirrar sobre eles, e assim introduziam neles a inclinação para o mal, como o veneno de uma serpente enfurecida.

Nota

A Guemará traz uma longa exposição sobre a passagem de Yeshayahu que descreve a soberba das "filhas de Sião" antes da destruição, interpretando cada detalhe do versículo como uma afetação deliberada de sedução: o porte ereto, os passos curtos e medidos, o olhar insinuante realçado por tintura, o arranjo entre mulheres altas e baixas para exibição mútua, e, por fim, o uso de perfume escondido nos sapatos, espalhado propositalmente diante dos jovens para despertar neles o desejo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "gavehu", "netuyot garon" e "techakasna"
גבהו - היינו קומה זקופה: ותלכנה נטויות גרון - שהיו הולכות עקב בצד גודל למעט בהילוכם שהיו מסתכלין בה והיא שוהה בפסיעותיה ודרך נוטין גרון לילך בנחת לפי שאינו רואה לרגליו: ומשקרות עינים דמליין כוחלא - לשון סיקרא: ומרמזן - את הבחורים: סיקור - לשון הבטה: הלוך וטפוף שהיו מהלכות ארוכה בצד קצרה - שתראה צפה על ראש חברתה והוא נוי לה ונשואות היו לפיכך מספר בגנותן: וטפוף - כמו על דאטפת אטפוך (אבות פ"ב מ"ו): תעכסנה - כמו וכעכס אל מוסר אויל (משלי ז׳:כ״ב) והוא ארס של נחש וקרי לה עכס על שם שאינו מטילו אלא על ידי כעס: בכעוס - נחש כעוסה:

"Se exaltaram" — isto é, porte ereto. "E andavam de pescoço estendido" — pois caminhavam com o calcanhar junto ao dedão, para diminuir seus passos, de modo que as olhassem enquanto ela se demorava em suas passadas; e é costume, ao caminhar assim devagar, estender o pescoço, porque não se vê os próprios pés. "E lançavam olhares sedutores com os olhos, enchendo-os de tintura" — expressão de sikra, o corante vermelho. "E faziam sinais com eles" — aos jovens. "Sikur" — expressão de olhar. "Andando e requebrando, pois caminhavam colocando a alta ao lado da baixa" — para que a mais alta parecesse sobressair sobre a cabeça de sua companheira, o que era um enfeite para ela; e eram casadas, por isso a Escritura conta sua desonra. "E requebrando" — como em "pelo que afogaste, te afogarão" (Avot 2:6). "Faziam tilintar" — como em "e como o grilhão para a correção do tolo" (Provérbios 7:22), que é o veneno de uma serpente, e chama-o de échess porque ela só o lança por raiva. "Enfurecida" — serpente enfurecida.

18O castigo espelhado: em vez de perfume, chagas; em vez de beleza, dor
Rabá bar Ula; Rava
מַאי פּוּרְעֲנוּתַיְהִי? — כִּדְדָרֵישׁ רַבָּה בַּר עוּלָּא: ״וְהָיָה תַחַת בֹּשֶׂם מַק יִהְיֶה״ — מָקוֹם שֶׁהָיוּ מִתְבַּשְּׂמוֹת בּוֹ נַעֲשָׂה נְמָקִים נְמָקִים. ״וְתַחַת חֲגוֹרָה נִקְפָּה״ — מָקוֹם שֶׁהָיוּ חֲגוּרוֹת בְּצִלְצוֹל נַעֲשָׂה נְקָפִים נְקָפִים. ״וְתַחַת מַעֲשֶׂה מִקְשֶׁה קׇרְחָה״ — מָקוֹם שֶׁהָיוּ מִתְקַשְּׁטוֹת בּוֹ נַעֲשָׂה קְרָחִים קְרָחִים. ״וְתַחַת פְּתִיגִיל מַחֲגֹרֶת שָׂק״ — פְּתָחִים הַמְּבִיאִין לִידֵי גִּילָה, יִהְיוּ לְמַחֲגֹרֶת שָׂק. ״כִּי תַחַת יֹפִי״ — אָמַר רָבָא, הַיְינוּ דְּאָמְרִי אִינָשֵׁי: חַלּוֹפֵי שׁוּפְרָא — כֵּיבָא.

Qual foi seu castigo? Conforme expôs Rabá bar Ula: "e será que, em vez de perfume, haverá podridão" — o lugar em que se perfumavam tornou-se cheio de chagas apodrecidas. "E em vez de cinto, uma chaga aberta" — o lugar em que se cingiam com um cinto belo tornou-se cheio de feridas abertas. "E em vez de cabelo trançado, calvície" — o lugar em que se enfeitavam tornou-se cheio de calvas. "E em vez de manto vistoso, cinto de saco" — as aberturas que trazem à alegria tornar-se-ão cinto de saco. "Porque em vez de beleza" — disse Rava: é isso o que dizem as pessoas: a troca da beleza é dor.

Nota

A Guemará detalha o castigo, ponto a ponto, como espelho exato do pecado: cada parte do corpo usada para ornamento e sedução tornou-se sede de aflição — o local do perfume, apodrecido; o local do cinto, ferido; o local do penteado, calvo; e o vestido vistoso, substituído pelo pano de saco do luto. Rava resume com um dito popular: perder a beleza, depois de tê-la, é uma dor em si mesma.

19A lepra na cabeça, e a desonra dos corpos
Rabi Yossei bar Rabi Chanina; Rav e Shmuel
״וְסִפַּח ה׳ קׇדְקֹד בְּנוֹת צִיּוֹן״ — אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: מְלַמֵּד שֶׁפָּרְחָה בָּהֶן צָרַעַת. כְּתִיב הָכָא ״וְשִׂפַּח״, וּכְתִיב הָתָם: ״לַשְׂאֵת וְלַסַּפַּחַת״. ״וַה׳ פׇּתְהֵן יְעָרֶה״. רַב וּשְׁמוּאֵל, חַד אָמַר: שֶׁנִּשְׁפְּכוּ כְּקִיתוֹן, וְחַד אָמַר: שֶׁנַּעֲשׂוּ פִּתְחֵיהֶן כְּיַעַר.

"E o Eterno afligirá com sarna o alto da cabeça das filhas de Sião" — disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: isso ensina que a lepra brotou nelas. Está escrito aqui "afligirá com sarna", e está escrito ali "para a inchação e para a sarna". "E o Eterno descobrirá suas partes íntimas" — Rav e Shmuel: um diz que se esvaziaram como um jarro; e o outro diz que suas aberturas se tornaram como uma floresta.

Nota

Concluindo a exposição sobre o castigo, a Guemará explica, por analogia verbal com o livro de Vayikra, que a aflição na cabeça das filhas de Sião era a própria lepra. Quanto à última cláusula do castigo, Rav e Shmuel divergem sobre sua natureza precisa — um a entende como referência a uma perda contínua de sangue, e o outro como referência ao crescimento descontrolado de pelos —, ambas as leituras apontando para a desonra física que substituiu a antiga vaidade.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "poten", "ye'are" e "ke-ya'ar"
פתהן - כמו פתחיהן: יערה - כמו ותער כדה (בראשית כד): שנשפכו כקיתון - שופכות דם זיבה: כיער - נתמלאו שער ונמאסות לתשמיש:

"Suas partes" — como "suas aberturas". "Descobrirá" — como em "e esvaziou seu cântaro" (Gênesis 24). "Que se esvaziaram como um jarro" — que verteram sangue de fluxo. "Como uma floresta" — encheram-se de pelos, e tornaram-se repugnantes para a relação conjugal.

Os homens de Jerusalém eram arrogantes · אַנְשֵׁי יְרוּשָׁלַיִם אַנְשֵׁי שַׁחַץ

20Rav Yehuda em nome de Rav: a fala pretensiosa sobre pão — o daf se interrompe
Rav Yehuda em nome de Rav
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: אַנְשֵׁי יְרוּשָׁלַיִם אַנְשֵׁי שַׁחַץ הָיוּ. אָדָם אוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ: בַּמֶּה סָעַדְתָּ הַיּוֹם? בְּפַת עֲמִילָה, אוֹ בְּפַת שֶׁאֵינָהּ עֲמִילָה? בְּיַיִן גּוֹרְדָּלִי, אוֹ …

Disse Rav Yehuda, disse Rav: os homens de Jerusalém eram homens arrogantes. Um dizia ao outro: com que te alimentaste hoje — com pão fermentado, ou com pão não fermentado? Com vinho gordali, ou…

Nota

A Guemará inicia uma última tradição sobre a soberba dos homens de Jerusalém, ilustrada por um modo de falar pretensioso e cheio de subentendidos: perguntavam uns aos outros sobre sua refeição do dia usando termos que, segundo Rashi, são eufemismos para a relação conjugal — "pão fermentado" designando a mulher casada, e "pão não fermentado", a virgem. O texto do daf se interrompe aqui, no meio da frase, ao chegar à pergunta sobre o tipo de vinho; a continuação — "ou com vinho chardali? Em assento largo, ou em assento estreito? Com bom companheiro, ou com mau companheiro? Disse Rav Chisda: e tudo isso para efeitos de licenciosidade" — pertence já à abertura de Shabat 63a.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "anshei shachatz", "sa'adta" e "pat amila"
אנשי שחץ - מדברים בלשון גאוה ולעגי שפה: סעדת - תשמיש: פת עמילה - בעולה: שאינה עמילה - בתולה: פת עמילה - ברייאיא"ה בלע"ז: גורדלי - לבן היה:

"Homens arrogantes" — que falam com linguagem de soberba e de escárnio. "Te alimentaste" — refere-se à relação conjugal. "Pão fermentado" — mulher casada. "Não fermentado" — virgem. "Pão fermentado" — em francês antigo, braiee. "Gordali" — era vinho branco.

O daf 62b termina aqui, interrompido no meio da frase — caso excepcional nesta tradução. A frase de Rav Yehuda em nome de Rav só se completa na abertura de Shabat 63a, com a resposta de Rav Chisda e a nova Mishná sobre as armas que o homem não deve trazer para o domínio público.