Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Vav · Bameh Isha Yotzah
פְּסוּלוֹת לַכְּהוּנָה

A conclusão sobre as mulheres que se friccionam; a fivela sobre a noz retomada; e a nova mishná do amputado

Shabbat 65b — completa-se o ensinamento de Rav Huna sobre mulheres que se friccionam uma na outra, e explica-se por que o receio do pai de Shmuel era outro; a Guemará discute a chuva no oeste e o Eufrates, e a controvérsia interna de Shmuel sobre os rios; retoma-se a mishná da fivela sobre pedra, noz e moeda, com a pergunta de Abaye sobre a artimanha para tirar a noz para o filho pequeno, que fica sem solução; e abre-se nova mishná sobre o amputado e seu kav — o daf termina, mais uma vez, interrompido no meio da controvérsia entre Rabi Meir e Rabi Yosei.

O daf abre completando o ensinamento de Rav Huna que ficara cortado ao final de Shabat 65a: mulheres que se friccionam uma na outra são desqualificadas para o sacerdócio, isto é, para casar com um Cohen Gadol, pois deixam de ser consideradas virgens completas. A Guemará então recusa a suposição de que o costume do pai de Shmuel — não deixar suas filhas dormirem juntas — se apoiasse nesse ensinamento: não, ele temia apenas que se acostumassem a um corpo estranho e viessem a desejar deitar-se com um homem, motivo mais brando que a desqualificação de Rav Huna. Volta-se então ao costume de fazer-lhes poços de imersão em Nissan: isso apoia Rav, que ensinou que a chuva no oeste — em Eretz Israel — é testemunhada pelo grande Eufrates, e o pai de Shmuel temia que as águas de chuva ("notafin") se multiplicassem sobre as águas correntes ("zochalin"), invalidando a imersão; mas isso contraria Shmuel, que ensinou que o rio é abençoado por sua própria fonte, e mesmo Shmuel se contradiz, pois em outro lugar disse que a água só purifica por correnteza no caso do Eufrates, e apenas em Tishrei. A Guemará retorna então à mishná sobre prender a roupa com fivela: se a primeira cláusula já ensinara que a mulher pode prender, por que repetir na última? Abaye responde que a última cláusula trata especificamente da moeda, que não pode ser carregada por si mesma. Abaye então pergunta se a mulher pode, por artimanha, prender a roupa sobre a noz para tirá-la a seu filho pequeno em Shabat — questão que se examina à luz das duas posições sobre se é permitido usar artimanhas para salvar bens de um incêndio, com um segundo argumento independente sobre se esse é ou não o modo costumeiro de carregar objetos — e a Guemará a deixa sem solução, com a palavra teiku. Por fim, uma nova mishná é ensinada: o amputado pode sair com seu kav (perna de madeira), segundo Rabi Meir — mas o daf se interrompe, mais uma vez, exatamente no meio dessa controvérsia, com a objeção de Rabi Yosei, que a proíbe, restando para Shabat 66a.

Conclusão: mulheres que se friccionam, e o receio do pai de Shmuel · פְּסוּלוֹת לַכְּהוּנָה

01Rav Huna (conclusão): são desqualificadas para o sacerdócio
Rav Huna (continuação de Shabat 65a)
פְּסוּלוֹת לַכְּהוּנָה.

...mulheres que se friccionam uma na outra são desqualificadas para o sacerdócio.

Nota

Completa-se aqui o ensinamento de Rav Huna que ficara cortado ao final de 65a: mulheres que se friccionam sexualmente uma com a outra deixam de ser consideradas virgens completas, e por isso ficam desqualificadas para casar com um Cohen Gadol, que a Torá exige que se case apenas com uma virgem. A Guemará havia sugerido que o costume do pai de Shmuel de não deixar suas filhas dormirem juntas confirmaria esse ensinamento — sugestão que a seguir será recusada.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "pesulot lakehuna"
פסולות לכהונה - לכהן גדול דלא הויא בתולה שלימה דאע"ג דכהן גדול ביומיה לא הוה הואיל ודרך זנות חשיב ליה לאו אורח ארעא:

"São desqualificadas para o sacerdócio" — para casar com um Cohen Gadol, pois deixa de ser uma virgem completa; e ainda que não haja, no momento, um Cohen Gadol em atividade, visto que esse ato é considerado um modo de licenciosidade, não é tido como um comportamento natural.

02Não: ele temia que se acostumassem a um corpo estranho
Guemará
לָא — סָבַר כִּי הֵיכִי דְּלָא לֵילְפָן גּוּפָא נוּכְרָאָה.

Não — o pai de Shmuel pensava assim: para que não se acostumassem a um corpo estranho.

Nota

A Guemará recusa a suposição anterior: o costume do pai de Shmuel não se apoiava no ensinamento de Rav Huna sobre a desqualificação para o sacerdócio, motivo grave demais para o caso. Sua preocupação era mais branda — que suas filhas, ao dormirem juntas, se acostumassem ao contato com um corpo alheio e, com isso, viessem a desenvolver o desejo de deitar-se com um homem.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "de-lo lilfan gufa nuchraah"
דלא לילפן גופא נוכראה - ויתאוו לשכב עם איש:

"Para que não se acostumassem a um corpo estranho" — e viessem a desejar deitar-se com um homem.

03Os poços de imersão em Nissan: apoio a Rav sobre a chuva e o Eufrates
Guemará; Rav
וְעָבֵיד לְהוּ מִקְוֶה בְּיוֹמֵי נִיסָן, מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַב, דְּאָמַר רַב: מִטְרָא בְּמַעְרְבָא סָהֲדָא רַבָּה פְּרָת. סָבַר, שֶׁלֹּא יִרְבּוּ הַנּוֹטְפִין עַל הַזּוֹחֲלִין.

"E fazia para elas poços de imersão nos dias de Nissan" — isso apoia Rav, pois disse Rav: a chuva no oeste, sua grande testemunha é o Eufrates. O pai de Shmuel pensava assim: para que as águas de chuva não se multiplicassem sobre as águas correntes.

Nota

Rav ensinou que o volume do rio Eufrates na Babilônia serve de testemunho para saber se choveu no oeste — em Eretz Israel —, pois o rio cresce com as águas da chuva que descem de lá. Por isso, o pai de Shmuel receava que, na primavera (Nissan), as águas de chuva ("notafin", que têm o status de mikvê comum) se multiplicassem sobre as águas correntes da nascente ("zochalin", que têm o status superior de fonte), invalidando a imersão de suas filhas — daí sua cautela de fazer-lhes poços de água reunida.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mitra bema'arava", "sahada raba Perat" e "savar shelo yirbu hanotfin"
מטרא במערבא - בארץ ישראל: סהדא רבה פרת - פרת מעיד בדבר שהוא יורד מארץ ישראל לבבל וגדל ממי הגשמים ויודעין בני בבל שירדו גשמים בהרי ארץ ישראל ושמחים על אחיהם ואבוה דשמואל נמי כרב סבירא ליה דאמר פרת גדל ומימיו מתברכין ע"י גשמים: וסבר שמא ירבו נוטפים - היינו גשמים על הזוחלין הנובעין ותנן במסכת מקואות (פ"ה מ"ה) הזוחלין כמעיין והנוטפין כמקוה ושנינו בת"כ אך מעין ובור מקוה מים יכול מילא על כתפו ועשה מקוה בתחילה יהא טהור ת"ל מעיין מה מעיין בידי שמים אף מקוה בידי שמים אי מה מעיין מטהר בזוחלין אף מקוה מטהר בזוחלין ת"ל אך מעיין המעיין מטהר בזוחלין ומקוה מטהר באשבורן ומהו אשבורן דקוו וקיימי לאפוקי שאם הטביל בו כלים דרך זחילתו כשהן נמשכין ויורדים למקוה לא עלתה להם טבילה דבור ומקוה כתיב דקוו וקיימי אבל נובעין מטהרין כמו שהן זוחלין ומושכין מגבוה לנמוך כדרך כל הנהרות הלכך ביומי ניסן שהנהרות גדילים ממי הגשמים של ימי החורף ומהפשרת השלגים חייש שמא ירבו הנוטפין על הזוחלין שניתוספו בנהר מן הגשמים על הזוחלים החיים ובטלו הזוחלין החיים בנוטפים ואין תורת מעיין עליהן לטהר בזוחלין אלא באשבורן ועביד להו מקוואות דקוו וקיימי ואני קבלתי מרבינו הלוי משום דספק זיבות נינהו וזבה טעונה מים חיים ואי אפשר להעמיד שמועתו משום דאמרינן חומר בזב מבזבה שהזב טעון מים חיים וזבה אינה טעונה מים חיים וחזרתי ובדקתי לפרשה וכן נראה בעיני כמו שפירשתי ורובא דעלמא מפרשים נוטפין כשאובין ולאו מילתא היא דתנן הנוטפין כמקוה: דהוו להו שאובין ל"ג:

"A chuva no oeste" — em Eretz Israel. "Sua grande testemunha é o Eufrates" — o Eufrates testemunha o assunto, pois desce de Eretz Israel para a Babilônia e cresce com as águas da chuva, e os habitantes da Babilônia sabem que choveu nos montes de Eretz Israel e se alegram por seus irmãos; e o pai de Shmuel também sustentava, como Rav, que o Eufrates cresce e suas águas são abençoadas por meio da chuva. "E pensava que não se multiplicassem as águas de chuva" — isto é, a chuva, sobre as águas correntes que brotam da nascente; e aprendemos no tratado Mikvaot que as águas correntes têm o status de fonte, e as de chuva o de mikvê; e ensinou-se na Torat Cohanim: "somente a fonte e o poço, reunião de águas" — poderia pensar-se que, se alguém encheu um recipiente sobre o ombro e fez um mikvê de início, seria puro; ensina o versículo "fonte": assim como a fonte é feita pelo Céu, também o mikvê é feito pelo Céu; ou então, assim como a fonte purifica em correnteza, também o mikvê purificaria em correnteza — ensina o versículo "somente a fonte": a fonte purifica em correnteza, e o mikvê purifica em águas paradas. E o que é "águas paradas"? As que se acumulam e permanecem — para excluir que, se alguém imergiu nele utensílios no percurso da correnteza, enquanto se estendem e descem ao mikvê, não valeu a imersão, pois de poço e mikvê se escreveu que se acumulam e permanecem; mas as que brotam purificam enquanto correm e se estendem de cima para baixo, como é costume de todos os rios. Por isso, nos dias de Nissan, quando os rios crescem com as águas de chuva dos dias de inverno e do derretimento das neves, ele temia que as águas de chuva se multiplicassem sobre as correntes — as que se somaram ao rio pela chuva, sobre as correntes vivas — e as correntes vivas se anulassem nas de chuva, deixando de ter sobre elas o estatuto de fonte para purificar em correnteza, senão em águas paradas; e por isso fazia para elas poços que se acumulam e permanecem. E eu recebi de Rabeinu HaLevi que era por serem dúvida de fluxo (zivá), e a que tem fluxo precisa de águas vivas — mas não se pode sustentar essa tradição, pois dizemos que há maior rigor no homem com fluxo que na mulher, pois o homem precisa de águas vivas e a mulher não precisa de águas vivas; e voltei a examinar o assunto, e assim me parece, como expliquei. E a maioria explica "notafin" como águas retiradas à mão — mas não é correto, pois ensinamos que as de chuva têm o status de mikvê.

04Isso contraria Shmuel; e Shmuel se contradiz a si mesmo
Guemará; Shmuel
וּפְלִיגָא דִּשְׁמוּאֵל. דְּאָמַר שְׁמוּאֵל: נַהֲרָא מִכֵּיפֵיהּ מִיבָּרַךְ. וּפְלִיגָא דִּידֵיהּ אַדִּידֵיהּ, דְּאָמַר שְׁמוּאֵל: אֵין הַמַּיִם מְטַהֲרִין בְּזוֹחֲלִין אֶלָּא פְּרָת בְּיוֹמֵי תִשְׁרֵי בִּלְבַד.

Mas isso contraria Shmuel, pois disse Shmuel: o rio é abençoado por sua própria fonte. E essa opinião dele contraria outra opinião dele, pois disse Shmuel: as águas não purificam por correnteza senão o Eufrates, e apenas nos dias de Tishrei.

Nota

Shmuel discorda de Rav: para ele, o volume do rio vem de sua própria nascente, e não das águas de chuva — por isso não haveria motivo para temer, na primavera, a invalidação da imersão por excesso de água de chuva. Mas a Guemará aponta que o próprio Shmuel se contradiz, pois em outro lugar limitou a purificação por correnteza ao Eufrates e apenas no outono (Tishrei), quando as chuvas já cessaram e as águas correntes predominam — o que pressupõe que, na primavera, as águas de chuva de fato se multiplicam sobre as correntes.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mikeifeih mivarech", "u-flig dideih adideih", "ein hamayim metaharin bezochalin" e "ela Perat beyomei Tishrei"
מכיפיה מיברך - משפתו וממקורו ומסלעו סלע מתרגמינן כיפה מכיפיה מיברך ולא ממי הגשמים: ופליגא דידיה אדידיה - דשמואל אשמואל: אין המים מטהרין בזוחלין - אין מטהרין אדם וכלים הטובלין בהן דרך זחילה וצריך להמשיכן למקוה ולטבול במקוה: אלא פרת ביומי תשרי - שחדלו הגשמים ורבו הזוחלין עליהם ויש תורת מעיין על נהרות המושכין אלמא סבירא ליה שגדילין ממי הגשמים ואני שמעתי בבכורות מטהרין בזוחלין שהנוטפין שבתוכן מטהרין בריבוי הזוחלין ויתבטלו הנוטפין בהן להיות זב וזבה טובלין בהן בשביל הזוחלין:

"É abençoado por sua própria fonte" — de sua margem, de sua nascente e de sua rocha; "sela" (rocha) se traduz "keifa" — é abençoado por sua fonte, e não pelas águas de chuva. "E essa opinião dele contraria outra opinião dele" — de Shmuel contra Shmuel. "As águas não purificam por correnteza" — não purificam a pessoa e os utensílios que nelas imergem em movimento de correnteza, sendo necessário desviá-las para um mikvê e imergir no mikvê. "Senão o Eufrates nos dias de Tishrei" — quando cessaram as chuvas e as águas correntes predominam sobre elas, e há sobre os rios correntes o estatuto de fonte — o que mostra que ele sustenta que os rios crescem com as águas de chuva. E eu ouvi, em Bechorot, que purificam por correnteza, pois as águas de chuva que há neles são purificadas pela abundância das correntes, e as de chuva se anulam nelas, de modo que o homem e a mulher com fluxo podem imergir neles por causa das correntes.

A mishná retomada: a fivela sobre a noz, e a artimanha do filho pequeno · פּוֹרֶפֶת עַל הָאֶבֶן

05Objeção: a primeira cláusula já ensinara "prende"; Abaye: a última trata da moeda
Guemará; Abaye
פּוֹרֶפֶת עַל הָאֶבֶן כּוּ׳. וְהָאָמְרַתְּ רֵישָׁא ״פּוֹרֶפֶת״? אָמַר אַבָּיֵי: סֵיפָא אֲתָאן לְמַטְבֵּעַ.

"Ela pode prender a roupa sobre a pedra etc." Mas não dissemos já, na primeira cláusula, "ela pode prender"? Disse Abaye: na última cláusula chegamos ao caso da moeda.

Nota

A Guemará retoma a mishná já traduzida em 65a e questiona sua aparente redundância: a primeira cláusula já dissera que a mulher pode sair prendendo a roupa com uma moeda sobre a tzinit, então por que repetir, ao final da mishná, que ela pode prender sobre pedra, noz ou moeda? Abaye responde que a última cláusula acrescenta um caso novo — o da moeda usada apenas como fecho, sem função medicinal —, esclarecendo que, embora a moeda por si só não seja um objeto que se possa carregar em Shabat, tornando-se parte da roupa ao servir de fecho, ela deixa de ser um "fardo" proibido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "veha amarat risha porefet", "sefa" e "ataan lematbeia"
והא אמרת רישא פורפת - וההיא ודאי לכתחלה קאמר בשבת דאי מבעוד יום ולאשמועינן דיוצאה בו בשבת הא תנא רישא מדיות פרופות: סיפא - דקתני לא תפרוף: אתאן למטבע - דלאו בר טלטול הוא אבל אבן שהקצה לכך ראוי לטלטול:

"Mas não dissemos já, na primeira cláusula, 'prende'?" — e aquilo, decerto, refere-se a prender já em Shabat; pois, se fosse ainda de dia, e viesse apenas ensinar que ela sai com isso em Shabat, já ensinara a primeira cláusula "as medas, presas por fivela". "A última cláusula" — que ensina "não prenda pela primeira vez". "Chegamos ao caso da moeda" — que não é apta a ser carregada por si mesma; mas a pedra que se designou para isso é apta a ser carregada.

06Abaye pergunta: pode-se prender sobre a noz por artimanha, para o filho pequeno comer?
Abaye
בָּעֵי אַבָּיֵי: אִשָּׁה מַהוּ שֶׁתַּעֲרִים וְתִפְרוֹף עַל הָאֱגוֹז לְהוֹצִיא לִבְנָהּ קָטָן בְּשַׁבָּת?

Perguntou Abaye: qual é a lei de uma mulher usar de artimanha e prender a roupa sobre a noz, para tirá-la a seu filho pequeno em Shabat?

Nota

Abaye levanta uma nova dúvida: como a mishná permite prender a roupa com uma noz sem propósito medicinal (contanto que não seja a primeira vez em Shabat), pode a mulher usar esse recurso deliberadamente, como artimanha, para carregar a noz para fora — não como fecho de roupa, mas para dar de comer a seu filho pequeno? A dúvida está em saber se essa forma disfarçada de transporte é equiparável, ou não, a outros casos conhecidos de "artimanha" permitida em Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lehotzi livnah hakatan"
להוציא לבנה הקטן - לאוכלו:

"Para tirá-la a seu filho pequeno" — para que ele a coma.

07A dúvida se coloca conforme as duas posições sobre artimanha no incêndio
Guemará
תִּיבְּעֵי לְמַאן דְּאָמַר מַעֲרִימִין. תִּיבְּעֵי לְמַאן דְּאָמַר אֵין מַעֲרִימִין.

Que se coloque a dúvida segundo quem diz que se usa de artimanha; que se coloque a dúvida segundo quem diz que não se usa de artimanha.

Nota

A Guemará situa a pergunta de Abaye dentro de uma controvérsia mais ampla, já conhecida de outro contexto — se é permitido, em caso de incêndio em Shabat, usar de artimanha para salvar bens que de outro modo não se poderia carregar. A dúvida de Abaye se coloca tanto para quem permite tal artimanha quanto para quem a proíbe, pois em ambos os casos há motivo para distinguir esse caso do incêndio.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "tibbe'ei lemaan de'amar"
תיבעי למאן דאמר - פלוגתא בכל כתבי הקדש (לקמן שבת דף קכ.) לובש כל מה שיכול ללבוש דברי רבי מאיר ואפילו עשרה חלוקים זה על זה רבי יוסי אומר שמונה עשר כלים כדרך שהוא לובש בחול:

"Que se coloque a dúvida segundo quem diz" — referência à controvérsia ensinada em "Todos os Escritos Sagrados" (adiante, Shabat 120a): veste tudo o que pode vestir — palavras de Rabi Meir, e mesmo dez túnicas uma sobre a outra; Rabi Yosei diz: dezoito peças, do mesmo modo que se veste em dia comum.

08Para quem permite só no incêndio: lá é para não vir a apagar; aqui não haveria tal risco
Guemará
תִּיבְּעֵי לְמַאן דְּאָמַר מַעֲרִימִין בִּדְלֵיקָה: הָתָם הוּא דְּאִי לָא שָׁרֵית לֵיהּ אָתֵי לְכַבּוֹיֵי, אֲבָל הָכָא אִי לָא שָׁרֵית לֵיהּ לָא אָתֵי לְאַפּוֹקֵי.

Que se coloque a dúvida segundo quem diz que se usa de artimanha no incêndio: ali é porque, se não lhe permitires, ele virá a apagar o fogo; mas aqui, se não lhe permitires, ela não virá a tirá-la de modo proibido.

Nota

Segundo quem permite a artimanha no incêndio, o motivo é evitar que, sem essa saída permitida, a pessoa acabe apagando o fogo — transgressão mais grave. Poder-se-ia argumentar que esse motivo não existe no caso da noz: se não se permitir à mulher a artimanha, ela simplesmente não tirará a noz de modo proibido, não havendo o mesmo risco a evitar — o que sugeriria que aqui a artimanha deveria ser vedada mesmo para quem a permite no incêndio.

09Ou: lá é modo costumeiro de carregar, aqui não — questão sem solução
Guemará
אוֹ דִלְמָא, אֲפִילּוּ לְמַאן דְּאָמַר אֵין מַעֲרִימִין בִּדְלֵיקָה, הָתָם — דֶּרֶךְ הוֹצָאָה בְּכָךְ, אֲבָל הָכָא — אֵין דֶּרֶךְ הוֹצָאָה בְּכָךְ, אֵימָא שַׁפִּיר דָּמֵי. תֵּיקוּ.

Ou então, diremos que mesmo segundo quem diz que não se usa de artimanha no incêndio, ali não se permite porque esse não é o modo costumeiro de se carregar uma roupa; mas aqui, prender sobre a noz é o modo costumeiro de a carregar, e por isso diríamos que está bem. Fica em pé a questão.

Nota

A Guemará propõe uma segunda leitura da controvérsia: talvez mesmo quem proíba a artimanha no incêndio — porque ali vestir várias roupas de uma vez não é o modo costumeiro de as carregar — permitiria a artimanha da noz, pois prendê-la à roupa por uma fivela é, precisamente, o modo costumeiro e permitido de transportar tal objeto. A questão de Abaye permanece, assim, sem solução em nenhuma das leituras, e a Guemará a encerra com a palavra técnica teiku.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "derech hotza'ah bechach"
דרך הוצאה בכך - כגון מוכרי כסות מוציאין אותו דרך מלבוש:

"O modo costumeiro de se carregar assim" — como, por exemplo, os que vendem roupas as carregam vestindo-as.

Nova mishná: o amputado e seu kav · הַקִּיטֵּעַ יוֹצֵא בְּקַב שֶׁלּוֹ

Mishná (Shabat 6:8) · מִשְׁנָה
מַתְנִי׳ הַקִּיטֵּעַ יוֹצֵא בְּקַב שֶׁלּוֹ — דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר,

Mishná: O amputado pode sair em Shabat com seu kav (perna de madeira) — palavras de Rabi Meir,

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hakitea" e "yotze bekav shelo"
מתני' הקיטע - שנקטעה רגלו: יוצא בקב שלו - דמנעל דידיה הוא:

Mishná: "O amputado" — aquele cuja perna foi cortada. "Pode sair com seu kav" — pois este é, para ele, como seu calçado.

O daf 65b termina aqui, interrompido no meio de uma controvérsia — caso excepcional nesta tradução, como já ocorrera ao final de 62b, de 63a, de 63b, de 64a, de 64b e de 65a. A nova mishná sobre o amputado e seu kav, iniciada segundo Rabi Meir, se corta antes da objeção de Rabi Yosei, que a proíbe — retomando apenas na abertura de Shabat 66a.