Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
לֶחִי מִכָּאן וְלֶחִי מִכָּאן

O poste ou a viga entre duas casas, o midbar como domínio público, e a Meguilat Setarim de Ísi ben Yehudá

Shabbat 6b — a explicação do caso de Rabi Yehudá com poste ou viga de cada lado, retirada de 6a; a razão de chamar esse domínio de "pleno"; a exclusão pela expressão "domínio público pleno" quanto aos pesin de beira de poço; nova questão sobre o deserto como domínio público, resolvida por Abaie; as penas de retirar e introduzir por engano e deliberadamente; a Meguilat Setarim de Rav com o ensinamento de Ísi ben Yehudá sobre as trinta e nove categorias; a réplica da Mishná e a resposta final; e o início da discussão sobre o campo aberto no verão e no inverno, resolvida por Ula, terminando no meio da resposta de Rav Ashi

O daf abre retomando exatamente onde 6a parou: o caso de Rabi Yehudá sobre quem tem duas casas nos dois lados do domínio público, que agora se completa — ele pode colocar um poste de um lado e um poste do outro, ou uma viga de um lado e uma viga do outro, e carregar e depositar no meio, mas os Sábios rejeitam essa solução, pois não se pode fundir o domínio público dessa forma. A Guemará então explica por que a baraita chamou de "pleno" tanto o domínio privado quanto, mais adiante, o domínio público — cada expressão vindo excluir um caso específico de Rabi Yehudá: quanto ao privado, o caso dos postes; quanto ao público, o caso dos pesin de beira de poço, onde Rabi Yehudá exige afastar o caminho do meio, mas os Sábios dizem que não é necessário. Uma nova dificuldade surge: por que a baraita não contou o deserto entre os exemplos de domínio público? Abaie resolve distinguindo a época em que Israel habitava no deserto da época atual. A Guemará então examina as penas de retirar e introduzir por engano e deliberadamente, o que leva a uma digressão sobre a Meguilat Setarim que Rav encontrou na casa de Rabi Chiya, contendo o ensinamento de Ísi ben Yehudá de que, embora haja trinta e nove categorias principais de trabalho proibido, uma pessoa só seria responsável por uma — afirmação que a Guemará reinterpreta à luz da Mishná que enumera as trinta e nove categorias exatamente para ensinar que quem as transgride todas num só momento de esquecimento é responsável por cada uma separadamente. O daf fecha voltando à baraita das quatro domínios, questionando por que o campo aberto (bikah) seria karmelit, já que outra fonte o classifica como domínio privado no verão e domínio público quanto à pureza — dificuldade que Ula resolve afirmando que, na realidade, é sempre karmelit, e Rav Ashi propõe uma segunda resposta que permanece inacabada, a ser concluída em 7a.

A conclusão do caso de Rabi Yehudá · לֶחִי מִכָּאן וְלֶחִי מִכָּאן

01Rabi Yehudá: poste ou viga de um lado e do outro; os Sábios rejeitam
Rabi Yehudá; os Sábios
לֶחִי מִכָּאן, וְלֶחִי מִכָּאן, אוֹ קוֹרָה מִכָּאן וְקוֹרָה מִכָּאן, וְנוֹשֵׂא וְנוֹתֵן בָּאֶמְצַע. אָמְרוּ לוֹ: אֵין מְעָרְבִין רְשׁוּת הָרַבִּים בְּכָךְ!

(Continuação da citação iniciada em 6a:) faz um poste de um lado (de uma das casas) e um poste do outro (lado da mesma casa), ou uma viga de um lado e uma viga do outro, e (assim pode) carregar e depositar no meio (entre as duas casas, atravessando o domínio público). Disseram-lhe (os Sábios): não se funde o domínio público dessa maneira!

Nota

O daf abre completando a citação deixada pela metade ao final de 6a. Rabi Yehudá ensina que quem possui duas casas situadas uma em frente à outra, nos dois lados opostos de uma rua pública, pode colocar um poste (lechi) de cada lado de uma das casas, ou uma viga (korá) de cada lado — marcas simbólicas que, na sua opinião, criam duas divisórias válidas de domínio privado por lei da Torá — e, com isso, carregar objetos e depositá-los livremente no meio da rua, entre as duas casas, como se essa faixa central fosse também domínio privado. Os Sábios rejeitam categoricamente essa solução: não se pode "fundir" (com um eruv simbólico, através de meras marcas de divisória) o domínio público verdadeiro dessa maneira, pois ele continua sendo domínio público pleno, destinado à livre circulação da multidão, independentemente dessas marcas simbólicas nas laterais.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "poste de um lado e poste do outro"
לחי מכאן ולחי מכאן - בשתי פאות של אחד מן הבתים להיכר בעלמא דקסבר רבי יהודה ב' מחיצות הוו רה"י מדאורייתא והא איכא שתי מחיצות מעלייתא מחיצות של ב' בתים:

"Poste de um lado e poste do outro" — nos dois cantos de uma das casas, (servindo) apenas como (sinal de) reconhecimento, pois Rabi Yehudá entende que duas divisórias já constituem domínio privado por lei da Torá; e eis que há (neste caso) duas divisórias excelentes: as divisórias das duas casas (uma de cada lado).

02Por que se chama de "pleno"? Para incluir a proibição de lançar
A Guemará
וְאַמַּאי קָרוּ לֵיהּ ״גְּמוּרָה״? מַהוּ דְתֵימָא: כִּי פְּלִיגִי רַבָּנַן עֲלֵיהּ דְּרַבִּי יְהוּדָה דְּלָא הָוֵי רְשׁוּת הַיָּחִיד, הָנֵי מִילֵּי לְטַלְטֵל, אֲבָל לִזְרוֹק מוֹדוּ לֵיהּ — קָא מַשְׁמַע לַן.

E por que (a baraita, em 6a) a chamou de (domínio privado) "pleno"? (Para que não penses) o que poderias pensar: que quando os Sábios discordam de Rabi Yehudá, de que (o caso das duas casas) não é domínio privado, isso se aplica apenas quanto a carregar (objetos livremente ali), mas quanto a lançar (um objeto do domínio público para dentro desse espaço, do exterior), concordariam com ele (de que há responsabilidade, por ser tecnicamente domínio privado)(por isso a baraita) nos ensina (que não é assim, e que o caso de Rabi Yehudá está totalmente excluído da definição de domínio privado).

Nota

A Guemará explica por que a baraita de 6a, ao definir a vala e a parede como domínio privado "pleno" (gemurá), precisou dessa qualificação: sem ela, poder-se-ia pensar que a discordância dos Sábios contra Rabi Yehudá (no caso dos postes ou vigas) é apenas parcial — que eles discordam somente quanto a permitir carregar livremente dentro daquele espaço central, mas concordariam que, tecnicamente, ali há duas divisórias válidas o suficiente para que lançar um objeto do domínio público para dentro dele gerasse responsabilidade (como em qualquer domínio privado). A palavra "pleno" vem ensinar que não é assim: segundo os Sábios, o caso de Rabi Yehudá não é domínio privado em absoluto, nem mesmo para o efeito de lançar — pois as divisórias que ele propõe não têm o número mínimo de lados válidos exigido pela lei.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "quando os Sábios discordam", "mas quanto a lançar" e "nos ensina"
מהו דתימא כי פליגי רבנן עליה דר' יהודה - בברייתא ואמרי אין מערבין רה"ר בכך למהוי רה"י ה"מ לטלטל שיהא מותר לטלטל בתוכה כדקתני אין מערבין רה"ר בכך דגזור בה משום דדמי לרה"ר:

"(Para que não penses) o que poderias pensar: que quando os Sábios discordam de Rabi Yehudá" — na baraita, e dizem "não se funde o domínio público dessa maneira" para (que se torne) domínio privado — isso se aplicaria apenas quanto a carregar, que seria permitido transportar dentro dele, conforme se ensina "não se funde o domínio público dessa maneira", pois decretaram sobre isso por se assemelhar ao domínio público.

אבל לזרוק - שהזורק מרה"ר לתוכה מודו ליה דחייב דשתי מחיצות דאוריי' ושם רה"י עליה:

"Mas quanto a lançar" — que quem lança do domínio público para dentro dele, (poderias pensar que) concordariam com ele (Rabi Yehudá) que é responsável, pois duas divisórias (bastam) por lei da Torá, e o nome de domínio privado recai sobre ele.

קמ"ל - גמורה כלומר זו היא שנגמרו מניין מחיצות שלה שיש לה מחיצות מכל צד כגון חריץ וכן גדר דאמרינן מד' צדדין גוד אסיק פני המחיצה על ראשו ונמצא ראשו מוקף מד' צדדין וחללו ד' אבל דרבי יהודה לא נגמרו מחיצות שלה למניינן ולאו רה"י היא כלל:

"(A baraita) nos ensina" — (a palavra) "pleno", isto é, este é (o caso) cujo número de divisórias se completou, que tem divisórias de todos os lados, como a vala e igualmente a parede, das quais dizemos que, dos quatro lados, se estende (imaginariamente) a face da divisória sobre sua abertura, e assim sua abertura se encontra cercada dos quatro lados, e seu espaço (tem) quatro (tefachim); mas (o caso) de Rabi Yehudá, não se completou o número de suas divisórias, e não é domínio privado algum.

03"Esta é domínio público pleno" — para excluir os pesin de beira de poço
A Guemará; Rabi Yehudá; os Sábios
אָמַר מָר: ״זוֹ הִיא רְשׁוּת הָרַבִּים״. לְמַעוֹטֵי מַאי? לְמַעוֹטֵי אִידַּךְ דְּרַבִּי יְהוּדָה. דִּתְנַן, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אִם הָיְתָה דֶּרֶךְ רְשׁוּת הָרַבִּים מַפְסַקְתָּן — יְסַלְּקֶנָּה לִצְדָדִין. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: אֵינוֹ צָרִיךְ.

Disse o Mestre: "este é o domínio público (pleno)". (A palavra "pleno" vem) excluir o quê? Excluir o outro (caso ensinado) por Rabi Yehudá. Pois foi ensinado (numa Mishná): Rabi Yehudá diz: se um caminho do domínio público os (os pesin) interrompia, afaste-o para os lados. E os Sábios dizem: não é necessário.

Nota

Do mesmo modo, a Guemará explica por que a baraita, ao definir a estrada, a praça e os becos abertos como domínio público "pleno", também usou essa qualificação: para excluir outro caso de Rabi Yehudá, relativo aos pesin (postes) de beira de poço. Trata-se de uma leniência rabínica (explicada por Rashi a partir de Eruvin) que permite, para facilitar os peregrinos que sobem a Jerusalém nas festas, cercar um poço no domínio público com quatro postes, deixando entre eles aberturas de até dez amot, tratando o espaço cercado como se fosse domínio privado para fins de tirar água. Rabi Yehudá exige que, se um caminho do domínio público atravessa esse espaço cercado, ele seja desviado para as laterais, pois a passagem contínua de multidões anularia a validade das divisórias simbólicas; os Sábios discordam, considerando desnecessário o desvio. A baraita, ao chamar a estrada e a praça de domínio público "pleno", ensina que mesmo o espaço interno aos pesin — que segundo os Sábios permanece válido como domínio privado simbólico mesmo com o caminho atravessando-o — não é domínio público pleno, mas sim que a circulação de multidões ali dentro não basta para anular sua condição de domínio privado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "os pesin de beira de poço" e "não é necessário"
מפסקתן - לפסי ביראות בפרק ב' דעירובין דהקילו חכמים משום עולי רגלים בבור בר"ה והבור עצמה רה"י שהיא עמוקה י' ורחבה ד' והממלא מתוכה ומניח על שפתה חייב והקילו חכמים לעשות ד' פסין וביניהן י' אמות דהוי חללו רה"י למלאות מן הבור וקאמר ר' יהודה אם היתה דרך רה"ר מפסקתן יסלקנה מביניהן דאתו רבים ומבטלי מחיצתה והתם רמינן דרבי יהודה אדרבי יהודה דלעיל דאמר נושא ונותן באמצע דלא אתו רבים ומבטלין מחיצות ורבנן אדרבנן ומשנינן לה:

"(Se um caminho) os interrompia" — refere-se aos postes de beira de poço, (discutidos) no segundo capítulo de Eruvin, onde os Sábios foram lenientes por causa dos peregrinos das festas, quanto a um poço no domínio público — e o próprio poço é domínio privado, tendo dez tefachim de profundidade e quatro de largura, e quem enche (água) dali e a deposita em sua borda é responsável; e os Sábios foram lenientes ao permitir fazer quatro postes com dez amot entre eles, de modo que seu espaço interno seja tratado como domínio privado para encher (água) do poço. E diz Rabi Yehudá: se um caminho do domínio público os interrompia, afaste-o de entre eles, pois a multidão que ali vem anula sua divisória. E ali (na Guemará de Eruvin) se contrapõe Rabi Yehudá a Rabi Yehudá acima, que disse "carrega e deposita no meio" — (implicando) que a multidão não vem anular as divisórias — e os Sábios aos Sábios, e se resolve (a contradição).

אינו צריך - והיינו דקתני זו היא רה"ר אבל הילוך דרבים לבין הפסים לא הוי רה"ר הואיל ואיכא שם ד' מחיצות:

"Não é necessário" — e por isso se ensina "este é o domínio público (pleno)", mas a passagem da multidão entre os postes não é domínio público, uma vez que ali há quatro divisórias.

04Por que também aqui "pleno"? Por ter sido dito na primeira parte
A Guemará
וְאַמַּאי קָרוּ לֵיהּ ״גְּמוּרָה״? אַיְּידֵי דִּתְנָא רֵישָׁא ״גְּמוּרָה״, תְּנָא נָמֵי סֵיפָא ״גְּמוּרָה״.

E por que (a baraita) a chamou (também aqui) de "pleno"? Por ter ensinado (a palavra) "pleno" na primeira parte, ensinou também "pleno" na última parte.

Nota

A Guemará faz uma pergunta paralela em sentido inverso: já que, no caso do domínio público, mesmo sem a palavra "pleno" seria óbvio que o caso dos pesin — onde os Sábios permitem até carregar livremente dentro deles — não é domínio público (pois é domínio privado até para efeito de transporte, e não apenas contra lançar, ao contrário do caso análogo de Rabi Yehudá), por que a baraita repetiu a mesma qualificação? A resposta é estilística: como a baraita já havia usado "pleno" na primeira cláusula (sobre domínio privado), por uma questão de paralelismo de linguagem, usou a mesma expressão também na segunda cláusula (sobre domínio público), ainda que ali a exclusão seja menos necessária.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "e qual pleno"
ומאי גמורה - הכא ליכא למימר מהו דתימא כדלעיל דעיקר עשייתן משום לטלטל בתוכו וקאמרי רבנן אינו צריך דרשות היחיד היא אפילו לטלטל וכ"ש דהזורק לתוכה מרה"ר חייב:

"E qual (o sentido de) pleno" — aqui não há como dizer "para que não penses", como acima, pois a própria finalidade de fazê-los (os pesin) é para carregar dentro deles, e os Sábios dizem "não é necessário" (desviar o caminho), (sinal de) que é domínio privado mesmo para carregar, e com maior razão que quem lança para dentro dele do domínio público é responsável.

05E o deserto? Abaie: depende da época
A Guemará; Abaie
וְלַחֲשׁוֹב נָמֵי מִדְבָּר, דְּהָא תַּנְיָא: אֵיזוֹ הִיא רְשׁוּת הָרַבִּים? — סְרַטְיָא וּפְלַטְיָא גְּדוֹלָה, וּמְבוֹאוֹת הַמְפוּלָּשִׁין, וְהַמִּדְבָּר! אָמַר אַבָּיֵי: לָא קַשְׁיָא, כָּאן בִּזְמַן שֶׁיִּשְׂרָאֵל שְׁרוּיִין בַּמִּדְבָּר. כָּאן בִּזְמַן הַזֶּה.

E (a baraita de 6a) deveria também contar o deserto (entre os exemplos de domínio público), pois foi ensinado (numa outra baraita): qual é o domínio público? A estrada e a grande praça, e os becos abertos, e o deserto! Disse Abaie: não é (uma real) dificuldade: aqui (nesta baraita, referindo-se) à época em que Israel habitava no deserto; ali (a baraita de 6a, referindo-se) aos dias de hoje.

Nota

A Guemará levanta uma contradição entre baraitot: uma inclui o deserto entre os exemplos de domínio público pleno, enquanto a baraita de 6a o omite. Abaie resolve harmonizando as duas fontes através de uma distinção temporal: a baraita que menciona o deserto refere-se à época histórica em que o povo de Israel de fato habitava e circulava pelo deserto (na saída do Egito), quando ele era efetivamente um lugar de intensa circulação de multidões, equiparável a uma verdadeira estrada; já a baraita de 6a refere-se aos dias atuais, quando o deserto não é mais habitado ou percorrido por multidões, e portanto não se qualifica mais como domínio público.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "quando Israel estava no deserto" e "nos dias de hoje"
בזמן שהיו ישראל במדבר - חשיבא רה"ר:

"Na época em que Israel estava no deserto" — (o deserto) era considerado domínio público.

בזמן הזה - אינו מקום הילוך לרבים דהולכי מדברות לא שכיחי:

"Nos dias de hoje" — não é lugar de circulação da multidão, pois os que andam pelos desertos não são comuns.

As penas de retirar e introduzir, e a Meguilat Setarim · מְגִלַּת סְתָרִים

06Por engano, oferenda; deliberadamente, caret e apedrejamento
A Guemará
אָמַר מָר: אִם הוֹצִיא וְהִכְנִיס בְּשׁוֹגֵג — חַיָּיב חַטָּאת, בְּמֵזִיד — עָנוּשׁ כָּרֵת, וְנִסְקָל. בְּשׁוֹגֵג חַיָּיב חַטָּאת, פְּשִׁיטָא! בְּמֵזִיד עָנוּשׁ כָּרֵת וְנִסְקָל אִצְטְרִיכָא לֵיהּ.

Disse o Mestre: se retirou e introduziu por engano — (é) responsável por oferenda pelo pecado; deliberadamente — (é) punido com caret, e apedrejado. Por engano, (ser) responsável por oferenda pelo pecado é óbvio! (A menção de que) deliberadamente (é) punido com caret e apedrejado — (essa é a parte que) lhe era necessária.

Nota

A Guemará retoma a baraita de 6a (a definição de domínio público e suas penas) para questionar sua formulação: por que ela precisou dizer explicitamente que retirar e introduzir por engano gera obrigação de oferenda? Isso já era evidente, pois toda transgressão de Shabat feita por engano gera essa obrigação. A resposta é que a baraita não precisava, de fato, mencionar o caso do engano por si só — mas o fez apenas como contraste necessário para poder ensinar, em seguida, a novidade real: que, feito deliberadamente, na presença de testemunhas com advertência, a pena é apedrejamento, e sem testemunhas ou advertência, é caret.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "responsável por oferenda pelo pecado, é óbvio"
חייב חטאת פשיטא - כיון דתנא חדא רה"י וחדא רה"ר ניתני סתמא ואם הוציא והכניס חייב ואנא ידענא דשגגתו חטאת דהא שבת זדונו כרת הוא:

"(Ser) responsável por oferenda pelo pecado é óbvio" — já que (a baraita) ensinou um (caso de) domínio privado e um (caso de) domínio público, que ensinasse de modo genérico "e se retirou e introduziu — (é) responsável", e eu já saberia que seu (caso de) engano (traz) oferenda pelo pecado, pois (toda transgressão) do Shabat cujo (ato) deliberado (é punido com) caret (o engano correspondente traz oferenda).

07Também isso é óbvio! A Meguilat Setarim de Rav
A Guemará; Rav; Ísi ben Yehudá
הָא נָמֵי פְּשִׁיטָא! הָא קָא מַשְׁמַע לַן כִּדְרַב, דְּאָמַר רַב: מָצָאתִי מְגִלַּת סְתָרִים בֵּי רַבִּי חִיָּיא וְכָתוּב בָּהּ: אִיסִי בֶּן יְהוּדָה אוֹמֵר: אֲבוֹת מְלָאכוֹת אַרְבָּעִים חָסֵר אַחַת, וְאֵינוֹ חַיָּיב אֶלָּא אַחַת.

Também isso é óbvio (pois se conhece a regra geral de que a transgressão deliberada do Shabat é punida com apedrejamento, na presença de testemunhas e advertência, e com caret, na ausência delas)! (Ainda assim, a baraita) vem nos ensinar conforme (o que disse) Rav, pois disse Rav: encontrei uma Meguilat Setarim na casa de Rabi Chiya, e nela estava escrito: Ísi ben Yehudá diz: as categorias principais de trabalho (são) quarenta menos uma, mas (a pessoa) não é responsável senão por uma (delas).

Nota

A Guemará antecipa nova objeção: mesmo a menção de caret e apedrejamento no caso deliberado seria óbvia, por ser a regra padrão de toda transgressão do Shabat. A resposta revela uma fonte notável: Rav conta que encontrou, na casa de Rabi Chiya, uma "Meguilat Setarim" — um rolo oculto, escondido porque continha opiniões individuais de sábios que não eram ensinadas publicamente na Casa de Estudo (por ainda não terem sido examinadas e aceitas pela maioria, e por isso escondidas para que não se esquecessem antes de serem devidamente discutidas). Nela estava escrita a opinião de Ísi ben Yehudá: embora existam trinta e nove categorias principais de trabalho proibido no Shabat, quem as transgredisse todas de uma só vez, num único momento de esquecimento, seria responsável por apenas uma oferenda — não por trinta e nove. Essa afirmação surpreendente é o que a baraita de 6a vem, precisamente, refutar ou qualificar.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "também isso é óbvio", "Meguilat Setarim" e "não é responsável senão por uma"
הא נמי פשיטא - דבהתראה סקילה ממקושש:

"Também isso é óbvio" — que (a pena) com advertência (é) apedrejamento, (que se aprende) do (caso do homem) que colhia lenha (no Shabat, em Números 15).

מגילת סתרים - שהסתירוה מפני שלא ניתנה ליכתוב וכששומעין דברי יחיד חדשים שאינן נשנין בב"ה וכותבין אותן שלא ישתכחו מסתירין את המגילה:

"Meguilat Setarim" — que a esconderam, porque não foi dada (permissão) para ser escrita; e, quando ouvem palavras individuais novas, que não são ensinadas na Casa de Estudo, e as escrevem para que não sejam esquecidas, escondem o rolo.

אינו חייב אלא אחת - השתא משמע אם עשאן בהעלם אחד שלא נודע לו בין כל אחת ואחת שחטא אינו חייב אלא אחת דכל חילול דשבת גוף אחד של עבירה הוא:

"Não é responsável senão por uma" — agora (o texto) parece (significar) que, se as fez num só momento de esquecimento, sem que lhe fosse dado a conhecer, entre cada uma e cada uma, que havia pecado, não é responsável senão por uma (oferenda), pois toda profanação do Shabat é um só corpo de transgressão.

08Mas não ensinamos que são responsáveis por cada uma?
A Guemará; a Mishná; Rabi Yochanan
אִינִי?! וְהָתְנַן: אֲבוֹת מְלָאכוֹת אַרְבָּעִים חָסֵר אַחַת. וְהָוֵינַן בַּהּ: מִנְיָנָא לְמָה לִי? וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: שֶׁאִם עֲשָׂאָן כּוּלָּן בְּהֶעְלֵם אַחַת — חַיָּיב עַל כׇּל אַחַת וְאַחַת.

É (mesmo) assim?! Mas não ensinamos (na Mishná): as categorias principais de trabalho (são) quarenta menos uma. E nos perguntamos sobre isso: por que preciso (dessa) contagem? E disse Rabi Yochanan: (para ensinar) que, se (a pessoa) as fez todas num só (momento de) esquecimento, é responsável por cada uma delas (separadamente).

Nota

A Guemará contesta a afirmação de Ísi ben Yehudá com base numa discussão já conhecida sobre a própria Mishná (2:6 deste tratado) que enumera as trinta e nove categorias principais de trabalho. Ali se perguntou por que a Mishná precisava dar o número exato ("quarenta menos uma") em vez de simplesmente listar as categorias — e Rabi Yochanan respondeu que o propósito da contagem é precisamente ensinar o oposto do que Ísi ben Yehudá parece dizer: que quem transgride todas as trinta e nove categorias num único momento de esquecimento é responsável por cada uma delas separadamente (trinta e nove oferendas), e não por apenas uma. Isso contradiz diretamente a leitura simples da Meguilat Setarim.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "por que preciso da contagem" e "responsável por cada uma"
מנינא למה לי - ליתני אבות מלאכות הזורע והחורש כו' למה לי לאשמעי' מניינא הא מני להו ואזיל:

"Por que preciso (dessa) contagem" — que ensinasse (apenas) "as categorias principais de trabalho (são): quem semeia, e quem lavra" etc.; por que preciso que (a Mishná) me ensine a contagem (exata)? Eis que (de qualquer modo) ela as enumera (uma a uma) em seguida.

חייב על כל אחת ואחת - ובא להודיענו סכום החטאות שאדם חייב באיסורי שבת בהעלם אחד ואשמעינן מ' חסר אחת הן ותו לא שאפי' עשה תולדותיהן עמהן אינו מביא על התולדה היכא דעשאה עם אביה דה"ל כעושה וחוזר ועושה דכול' חדא עבירה היא:

"É responsável por cada uma delas" — e (a Mishná) vem nos dar a conhecer a soma das oferendas pelo pecado a que a pessoa fica obrigada, quanto às proibições do Shabat, num só (momento de) esquecimento; e nos ensina que são quarenta menos uma, e não mais (do que isso): que, mesmo que tenha feito também suas derivações junto com elas, não traz (oferenda separada) pela derivação, no caso em que a fez junto com sua categoria principal, pois isso é como quem faz e torna a fazer (o mesmo ato), já que toda (a derivação e sua categoria) é uma só transgressão.

09Reinterpretação: "não é responsável por uma delas"
A Guemará
אֶלָּא אֵימָא: אֵינוֹ חַיָּיב עַל אַחַת מֵהֶן. וְהָא קָא מַשְׁמַע לַן: הָא מֵהָנָךְ דְּלָא מְסַפְּקָן.

Mas dize (antes que Ísi ben Yehudá quis dizer): não é responsável por (uma certa) uma delas (especificamente, a de retirar e introduzir do exemplo da baraita, que não é punida com apedrejamento). E isso (a baraita) vem nos ensinar: esta (categoria) é uma daquelas de que não há dúvida (quanto à sua pena de apedrejamento).

Nota

A Guemará resolve a contradição reinterpretando a formulação ambígua de Ísi ben Yehudá: ele não quis dizer que a pessoa é responsável por apenas uma oferenda entre as trinta e nove (o que contradiria Rabi Yochanan), mas sim que há uma categoria específica entre as trinta e nove pela qual a pessoa não é responsável com pena de apedrejamento — ou seja, uma categoria cuja classificação exata como transgressão capital é incerta ou discutida. E é precisamente por isso que a baraita de 6a insiste em mencionar explicitamente que retirar e introduzir (do domínio privado ao público) é punido com apedrejamento quando deliberado: para deixar claro que esta categoria específica não é uma daquelas "duvidosas" mencionadas por Ísi ben Yehudá, mas sim uma cuja pena de apedrejamento é certa e inequívoca.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não é responsável por uma delas"
אינו חייב על אחת מהן - אחת יש בהן שאינו חייב עליה מיתה ולא פי' (רבי) איזו היא ואשמעי' תנא דמתנית' דקתני נסקל דהא הוצאה והכנסה מהנך דלא מספקן היא דעל זו לא אמר איסי בן יהודה:

"Não é responsável por uma delas" — há uma entre elas pela qual não é responsável com pena de morte, e (o sábio) não explicou qual é; e (por isso) o tanaíta da (nossa) baraita nos ensina, ensinando "e é apedrejado", que retirar e introduzir são (categorias) daquelas de que não há dúvida, pois sobre esta (categoria) Ísi ben Yehudá não falou.

O campo aberto, no verão e no inverno · בִּקְעָה בִּימוֹת הַחַמָּה

10O campo aberto — mas não há uma fonte que o trata diferente conforme a estação?
A Guemará; Mishná
אָמַר מָר: אֲבָל יָם וּבִקְעָה וְהָאִיסְטְווֹנִית וְהַכַּרְמְלִית אֵינָן לֹא כִּרְשׁוּת הַיָּחִיד וְלֹא כִּרְשׁוּת הָרַבִּים. וּבִקְעָה אֵינוֹ לֹא כִּרְשׁוּת הַיָּחִיד וְלֹא כִּרְשׁוּת הָרַבִּים? וְהָא תְּנַן הַבִּקְעָה בִּימוֹת הַחַמָּה, רְשׁוּת הַיָּחִיד לַשַּׁבָּת וּרְשׁוּת הָרַבִּים לַטּוּמְאָה. בִּימוֹת הַגְּשָׁמִים, רְשׁוּת הַיָּחִיד לְכָאן וּלְכָאן!

Disse o Mestre: mas o mar, e o campo aberto, e o pórtico, e a karmelit(nenhum deles) é como domínio privado nem como domínio público. Mas o campo aberto não é como domínio privado nem como domínio público? Mas não ensinamos (numa Mishná): o campo aberto, nos dias de verão, (é) domínio privado quanto ao Shabat, e domínio público quanto à impureza (da sota); nos dias de chuva, (é) domínio privado tanto para um lado quanto para o outro!

Nota

A Guemará retorna à baraita de 6a que classificou o campo aberto (bikah) como karmelit — nem domínio público nem privado — e levanta uma objeção a partir de uma Mishná (de Sotá) que parece tratá-lo de modo diferente conforme a estação: no verão, quando o campo está seco e sem plantações, ele é considerado domínio privado para efeitos de Shabat (por não ser um lugar de livre circulação de multidões, já que as pessoas evitam atravessar campos cultiváveis) mas domínio público quanto às leis de impureza da sota (a mulher suspeita de adultério, cuja reclusão com o suspeito precisa ocorrer em local onde não haja testemunhas, e por isso qualquer lugar de trânsito serve); já nos dias de chuva, quando o campo está plantado e as pessoas não passam por ali de forma alguma, é domínio privado para ambos os efeitos. Essa Mishná parece contradizer a baraita de 6a, que trata o campo aberto uniformemente como karmelit, em todas as estações.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "dias de verão", "domínio privado quanto ao Shabat", "domínio público quanto à impureza" e "dias de chuva"
בימות החמה - שאין בה זרעים:

"Nos dias de verão" — quando não há nele plantações.

רה"י לשבת - דהא לאו הילוך לרבים הוא שאין רבים מסתלקין מן המסילה לילך בשדה:

"Domínio privado quanto ao Shabat" — pois (mesmo assim) não é lugar de circulação da multidão, já que a multidão não se desvia da estrada para andar pelo campo.

רה"ר לטומאה - וספקו טהור דהא לאו מקום סתירה הוא שיש בני אדם נכנסים לה דספק טומאה לטמא מסוטה גמרינן לה והתם סתירה כתיב ונסתרה והיא נטמאה דבמקום סתירה טמאה היא לבעלה מספק ומכאן אתה דן לשרץ:

"Domínio público quanto à impureza" — e sua dúvida (de impureza) é pura, pois (mesmo sendo domínio público) não é lugar de reclusão (a sós), já que há pessoas que ali entram; e (a lei da) dúvida de impureza (nos casos gerais), aprendemos (por analogia) da (lei da) sota, e ali está escrito "reclusão": "e se recluiu, e ela se contaminou" — pois em lugar de reclusão (a sós, sem testemunhas,) ela é impura para seu marido por dúvida; e daqui tu deduzes (a mesma regra) quanto ao réptil (impuro, em caso de dúvida).

בימות הגשמים - שהיא זרועה אין אדם נכנס לה:

"Nos dias de chuva" — quando está plantado, ninguém nele entra.

11Ula: na realidade é sempre karmelit
Ula
אָמַר עוּלָּא: לְעוֹלָם כַּרְמְלִית הָוְיָא, וְאַמַּאי קָרֵי לַהּ רְשׁוּת הַיָּחִיד — לְפִי שֶׁאֵינָהּ רְשׁוּת הָרַבִּים.

Disse Ula: na realidade, (o campo aberto) é karmelit; e por que (a Mishná de Sotá) a chama de domínio privado? Porque (apenas) não é domínio público (e, em contraste com este, chamou-a de "domínio privado", sem que isso signifique domínio privado pleno).

Nota

Ula resolve a contradição afirmando que, na realidade jurídica precisa, o campo aberto é sempre karmelit — em qualquer estação —, em plena concordância com a baraita de 6a. A Mishná de Sotá, ao chamá-lo de "domínio privado" no verão, não está usando o termo tecnicamente, no sentido pleno de domínio privado da Torá, mas apenas em sentido relativo e contrastivo: como o campo aberto, no verão, não é domínio público (por não ser lugar de livre circulação de multidões), a Mishná o chamou de "domínio privado" simplesmente por exclusão — porque não é o outro extremo —, e não porque tenha de fato o status pleno de domínio privado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "na realidade é karmelit"
לעולם כרמלית הויא - והזורק מרה"ר לתוכה אינו חייב:

"Na realidade é karmelit" — e quem lança do domínio público para dentro dele não é responsável.

12Rav Ashi propõe outra resposta — inacabada
Rav Ashi
רַב אָשֵׁי אָמַר:

Rav Ashi disse: (o daf termina aqui, no meio da resposta, que prossegue em Shabbat 7a com "כגון דאית לה מחיצות" — como quando ele tem divisórias).

Nota

Rav Ashi propõe uma segunda resposta, alternativa à de Ula, para a mesma dificuldade sobre o campo aberto — mas o daf termina exatamente na abertura de sua fala, antes que a resposta seja formulada. O início de 7a completa a frase: "como quando ele tem divisórias" — isto é, Rav Ashi explica que a Mishná de Sotá trata de um campo aberto que, excepcionalmente, possui divisórias parciais (tornando-o mais próximo de domínio privado tecnicamente), enquanto a baraita das quatro reshuyot trata do caso comum, sem tais divisórias, permanecendo sempre karmelit.