92a abre completando a resposta que ficara interrompida no fim de 91b, no meio da pergunta de Rav Beivai bar Abaye sobre o lugar da costura da bolsa furtada: a Guemará explica que se trata de um lingote de moedas, comprido como os pepinos, de modo que sempre resta parte dele do lado de dentro até que a bolsa saia por inteiro; e, quanto à nova objeção de que as alças da bolsa poderiam ser usadas para puxar a sua abertura e retirar o dinheiro, responde-se que ou não há alças, ou elas estão enroladas sobre a própria bolsa, de modo que não podem ser usadas sem que a bolsa inteira seja transportada — encerrando, assim, a discussão da bolsa furtada iniciada em 91b. A Guemará traz então a versão de Rava, que repete quase literalmente a posição de Chizkiya sobre a cesta de mostarda, e a de Abaye, que repete a de Rabi Yochanan; mas observa que, noutro contexto — a respeito de quem transporta frutas ao domínio público na mão ou dentro de um recipiente —, Abaye e Rava trocam de posição um com o outro, o que gera uma dificuldade interna para cada um deles. A solução vem por meio da inversão de uma das atribuições, apoiada numa Mishná sobre o dono de casa que estende a mão para fora: a diferença está em transportar acima ou abaixo de três palmos do chão. Encerrada essa digressão, abre-se uma nova Mishná do Perek Yud: quem transporta um item na mão direita, na esquerda, no colo ou sobre os ombros é responsável, pois assim era o transporte dos filhos de Kehat; mas quem o transporta de modo incomum — no dorso da mão, com o pé, na boca, no cotovelo, na orelha, no cabelo, no cinto oco com a abertura para baixo, entre o cinto e a túnica, na barra da túnica, no sapato ou na sandália — é isento, por não ter transportado à maneira costumeira dos que transportam. A Guemará que se segue discute, a partir dessa Mishná, a medida de dez palmos de altura acima do chão que torna alguém responsável mesmo carregando pelo ar, sem apoiar sobre o ombro: Rabi Elazar deriva essa medida do transporte dos filhos de Kehat, comparando o altar ao Tabernáculo, ambos de dez cúbitos; a Guemará então explica como se sabe a própria altura do Tabernáculo, e deriva daí a altura dos levitas, aplicando a regra de que qualquer carga erguida sobre varas fica um terço acima e dois terços abaixo dos ombros dos carregadores — o que a eleva a mais de dez palmos do chão; ou, alternativamente, deriva a mesma medida da Arca, cuja altura, somada à do seu propiciatório, também chega a dez palmos; e considera, e rejeita, a possibilidade de derivar a altura diretamente de Moshe, que era de estatura excepcional. Por fim, a Guemará traz um ensinamento de Rav em nome de Rabi Chiya sobre quem carrega um peso sobre a cabeça em Shabat — a partir do costume dos homens de Hutzal —, que passa por duas reformulações sucessivas, cada uma corrigindo uma objeção à anterior; a frase fica cortada exatamente no meio da segunda reformulação, prosseguindo diretamente em 92b.
91b terminara no meio da resposta da Guemará à objeção de Rav Beivai bar Abaye sobre o furto de uma bolsa em Shabat: a Guemará já havia explicado que se tratava de alguém que a transportou pela sua parte de baixo, e fora interrompida no meio da pergunta sobre o lugar da costura lateral — "וְהָאִיכָּא מְקוֹם חֲלָמָה…" ("mas não há ali o lugar da costura…"). Confirmado via Sefaria, 92a abre completando exatamente essa pergunta e sua resposta.
"…mas não há ali o lugar da costura, pois, se ele quisesse, poderia rasgá-la ali e retirar o dinheiro"! Responde a Guemará: trata-se de um lingote (o dinheiro estava fundido numa peça comprida, como os pepinos, de modo que sempre resta parte dela presa do lado de dentro). A Guemará objeta ainda: e, já que há alças (um cordão que fecha a boca da bolsa), ele a puxa até a sua abertura, desata e retira o dinheiro, e as alças continuam presas do lado de dentro! Responde a Guemará: trata-se de um caso em que não há alças. E, se quiseres, dize: ele até tem alças, mas elas estão enroladas sobre a própria bolsa , de modo que não podem ser usadas sem que a bolsa inteira seja transportada.
92a abre completando a resposta deixada em aberto no fim de 91b, encerrando a objeção de Rav Beivai bar Abaye sobre o furto de uma bolsa em Shabat. A pergunta era: mesmo que o dinheiro fique preso pelo fundo da bolsa, não haveria ainda o lugar da costura lateral, por onde se poderia rasgar e alcançar o dinheiro antes que a bolsa inteira saísse? A Guemará responde que se trata de um lingote — o dinheiro estava fundido numa única peça comprida, como os pepinos e abóboras do caso anterior, de modo que, enquanto a bolsa inteira não sai, sempre resta parte do lingote presa do lado de dentro, tornando irrelevante o rasgo na costura. Levanta-se então uma nova dificuldade: e as alças que fecham a boca da bolsa? Já que elas permitem puxar a abertura para perto de si mesmo enquanto o fundo ainda está preso dentro, não poderia o ladrão desatá-las e retirar o dinheiro por ali, completando o furto antes de Shabat? A Guemará responde com duas alternativas: ou se trata de uma bolsa sem alças, ou, havendo alças, elas estão enroladas sobre a própria bolsa, de modo que não podem ser usadas para puxar a abertura sem que a bolsa inteira seja transportada primeiro. Com isso, encerra-se a discussão da bolsa furtada.
"'Rasgar'" — o verbo "romper". "'Com um lingote'" — pois são peças compridas, e enquanto parte delas está do lado de dentro, ele não as adquiriu. E perguntamos: "'já que há alças'" — tiras que se chamam em francês antigo "estoldetz". "'Ele a puxa até a sua abertura e retira'" — e, já que ele pode retirá-las , o dinheiro, ele o adquire para fins de furto; mas, quanto a Shabat, não é responsável até que retire também as alças, pois, por meio da sua mão, o conjunto está preso ao domínio privado, já que as alças ainda não saíram. "'Elas estão enroladas sobre ela'" — pois assim ele não pode retirá-la sem tirar também as alças.
E assim disse Rava: não ensinaram isso senão numa cesta cheia de pepinos e abóboras, mas se estava cheia de mostarda — é responsável. Aparentemente, Rava sustenta que a união proporcionada por um recipiente (egued kli) não se chama união. Abaye disse: mesmo se estava cheia de mostarda — é isento. Aparentemente, ele sustenta que a união proporcionada por um recipiente se chama união. Mas, noutro contexto, Abaye assumiu a posição de Rava, e Rava assumiu a posição de Abaye; e por isso se contrapõe uma afirmação de Abaye a outra afirmação de Abaye, e uma afirmação de Rava a outra afirmação de Rava.
A Guemará traz agora, independentemente da disputa entre Chizkiya e Rabi Yochanan já registrada em 91b, uma versão paralela da mesma disputa protagonizada por Rava e Abaye: Rava repete quase literalmente a posição de Chizkiya, limitando a regra da cesta aos pepinos e abóboras e responsabilizando quem tem mostarda, por sustentar que a união do recipiente não é uma união real; Abaye repete a de Rabi Yochanan, isentando mesmo no caso da mostarda, por sustentar que a união do recipiente é real. Mas a Guemará observa que, noutro contexto — a respeito de quem transporta frutas ao domínio público, na mão ou dentro de um recipiente —, os papéis se invertem: é como se Abaye tivesse assumido ali o raciocínio que antes pertencia a Rava, e Rava o que antes pertencia a Abaye. Isso gera uma dificuldade interna para cada um dos dois sábios, que a Guemará passa a expor.
"'Abaye assumiu a posição de Rava'" etc. — ambos retrataram suas palavras no outro contexto e as trocaram entre si.
Pois foi dito: quanto a quem transporta frutas para o domínio público, Abaye disse: se as carrega na mão — é responsável; se as carrega num recipiente — é isento. E Rava disse: se as carrega na mão — é isento; se as carrega num recipiente — é responsável!
A Guemará cita a fonte da dificuldade: a respeito de quem transporta frutas da propriedade privada ao domínio público, Abaye ensina que, carregando na própria mão, é responsável assim que as frutas cruzam para fora, mesmo que o seu corpo continue no domínio privado — pois não se diz que a prisão do próprio corpo conta como uma união que retenha as frutas; mas, num recipiente, é isento enquanto parte do recipiente ainda estiver dentro de casa. Rava ensina o oposto: na mão, é isento, pois a prisão do próprio corpo conta como união, já que a mão segue atrás do corpo; num recipiente, é responsável. Cada posição, isoladamente, é compreensível — mas, comparada à disputa anterior sobre a cesta de mostarda, revela que Abaye e Rava trocaram de raciocínio.
"'Na mão — é responsável'" — assim que as frutas saíram, ainda que o seu corpo esteja ainda no domínio privado, pois não dizemos que a prisão do próprio corpo se chama união. "'Num recipiente — é isento'" — enquanto houver parte do recipiente ainda em sua casa. "'Na mão — é isento'" — pois a prisão do próprio corpo se chama união, já que a sua mão segue atrás do seu corpo. "'Num recipiente — é responsável'" — e isto é difícil para ambos, quanto ao motivo pelo qual trocaram as suas posições.
Responde a Guemará: inverte-se a atribuição: na mão — é responsável , segundo esta outra opinião. Mas não ensinamos numa Mishná: o dono de casa que estendeu a mão para fora, e o pobre tomou alimento de dentro dela, ou o dono de casa pôs alimento dentro dela e o pobre o fez entrar — ambos são isentos? Ali , na Mishná, trata-se de acima de três palmos do chão; aqui , no nosso caso, trata-se de abaixo de três palmos.
A Guemará resolve a dificuldade invertendo uma das atribuições: em vez de manter que Rava isenta quem carrega na mão, entende-se que essa opinião responsabiliza — eliminando assim a contradição interna. Mas essa mesma posição de "na mão — é responsável" é desafiada por uma Mishná conhecida (de Eruvin), segundo a qual, quando um dono de casa estende a mão para fora de sua janela e um pobre do lado de fora toma algo dela, ou vice-versa, ambos são isentos — o que pareceria contradizer a regra de que a mão, uma vez fora, já responsabiliza. A Guemará distingue: aquela Mishná trata de uma mão estendida acima de três palmos do chão, onde o objeto na mão, por ainda estar no ar, não é considerado como tendo repousado; o nosso caso, porém, trata de uma mão abaixo de três palmos do chão, onde, pela regra de que "abaixo de três palmos é como se estivesse pousado", o objeto já é tratado como tendo repousado, gerando a responsabilidade.
"'Ali, acima de três'" — e o motivo da isenção é que o objeto não repousou, e não por causa da prisão do corpo. "'E aqui, abaixo de três'" — pois ali não há como isentar por causa da falta de repouso, já que abaixo de três palmos é considerado como se já estivesse pousado.
Quem transporta algo de casa em Shabat, quer na sua mão direita, quer na esquerda, dentro do seu colo ou sobre os seus ombros — é responsável, pois assim era o transporte dos filhos de Kehat (que carregavam os utensílios do Tabernáculo). Mas quem o transporta no dorso da sua mão, com o seu pé, na sua boca e no seu cotovelo, na sua orelha e no seu cabelo, no seu cinto oco com a abertura para baixo, entre o seu cinto e a sua túnica, na barra da sua túnica, no seu sapato, na sua sandália — é isento, porque não transportou à maneira dos que costumam transportar.
Continuando o Perek Yud, abre-se uma nova Mishná que lista as formas costumeiras e incomuns de transportar um item em Shabat. As formas costumeiras — na mão direita, na esquerda, no colo (a dobra da roupa junto ao peito) ou sobre os ombros — responsabilizam plenamente, e a Mishná traz como precedente o transporte dos utensílios sagrados pelos filhos de Kehat, no deserto, que os carregavam exatamente desse modo. Já as formas incomuns — no dorso da mão (em vez da palma), com o pé, presa na boca, no cotovelo, na orelha, entrelaçada no cabelo, dentro do cinto oco mas com a abertura virada para baixo (o que não é a maneira usual de guardar algo nele), entre o cinto e a túnica, na barra inferior da túnica, dentro do sapato ou da sandália — isentam, porque a definição da obra proibida de "transportar" pressupõe o modo costumeiro pelo qual as pessoas efetivamente transportam objetos; um transporte tecnicamente realizado, mas por um meio incomum, não configura a transgressão.
"'Pois assim era o transporte dos filhos de Kehat'" — "sobre o ombro carregarão" (Números 7:9); e a mão direita, a esquerda e o colo são o modo costumeiro de qualquer pessoa. E em nome de Rabeinu Yitzchak bar Yehuda encontrei que disse, em nome de Rav Hai, que se explica no Talmude de Jerusalém, quanto ao versículo "e o encargo de Elazar, filho de Aharon, o sacerdote: o óleo da iluminação, o incenso dos aromas, a oferenda contínua e o óleo da unção" — um óleo na direita, um óleo na esquerda, o incenso no colo, e os jarros no ombro. "'No seu cotovelo'" — em francês antigo, "aisselle". "'O seu cinto'" — um cinto oco. "'Com a abertura para baixo'" — não é este o modo costumeiro de transportar; mas com a abertura para cima, é o modo costumeiro de transportar. "'A barra da sua túnica'" — a barra de baixo.
Guemará. Disse Rabi Elazar: quem transporta um peso pelo ar, na sua mão, e não sobre o ombro, acima de dez palmos do chão — é responsável, pois assim era o transporte dos filhos de Kehat. E de onde sabemos que o transporte dos filhos de Kehat era acima de dez palmos? Pois está escrito: "sobre o Tabernáculo e sobre o altar, ao redor" (Números 4:26) — o versículo compara o altar ao Tabernáculo: assim como o Tabernáculo tinha dez cúbitos de altura, também o altar tinha dez cúbitos.
A Guemará volta à Mishná para estabelecer, a partir dela, uma nova medida: quem transporta um objeto pelo ar — segurando-o na mão, erguido, sem apoiá-lo sobre o ombro ou o corpo — só é responsável se o transporte ocorrer acima de dez palmos do chão; abaixo dessa altura, aplicam-se outras regras (como a de que abaixo de três palmos já se considera pousado). Rabi Elazar deriva essa medida do próprio transporte dos filhos de Kehat, mencionado na Mishná: o versículo que descreve as cortinas do pátio ao redor "do Tabernáculo e do altar" justapõe os dois, ensinando que o altar, tal como o Tabernáculo, tinha dez cúbitos de altura — e, sendo carregado pelos filhos de Kehat sobre os ombros por meio de varas, isso implica que ele era erguido bem acima de dez palmos do chão durante o transporte.
Guemará. "'Quem transporta um peso acima de dez'" — trata-se de transportá-lo pelo ar, na sua mão, e não sobre o seu ombro; e "alto do chão dez palmos" é o que ele diz, pois, se estivesse pousado sobre o ombro, seria o caso já coberto pela nossa Mishná. E aquilo que ensinamos (adiante, Shabat 100a): "quem lança um objeto quatro cúbitos ao longo de um muro, acima de dez palmos, é como quem lança pelo ar" — aparentemente, acima de dez palmos não é domínio público apenas quanto a lançar; mas quanto a transportar caminhando, é responsável, pois isso se deriva dos filhos de Kehat no Tabernáculo. "'Que estava sobre o Tabernáculo' etc." — o versículo trata das cortinas do pátio. "'Também o altar'" — a sua altura era de dez cúbitos, e foi necessário circundá-lo com cortinas de dez cúbitos de largura; e como sustento o versículo "e três cúbitos a sua altura" (Êxodo 27:1)? A partir da borda do rebordo (sovev) para cima. E como sustento a altura de cinco cúbitos das cortinas? A partir do topo do altar para cima — assim se explica em Zevachim (59b), que as cortinas tinham quinze cúbitos ao todo.
E o próprio Tabernáculo, de onde sabemos a sua altura? Pois está escrito: "dez cúbitos era o comprimento da tábua" (Êxodo 26:16), e está escrito: "e estendeu a tenda sobre o Tabernáculo" (Êxodo 40:19), e Rav disse: Moshe, nosso mestre, a estendeu. Daqui aprendes que a altura dos levitas era de dez cúbitos. E é uma tradição que toda carga erguida sobre varas por dois carregadores fica um terço acima dos ombros e dois terços abaixo; descobre-se, assim, que o altar era erguido bem alto do chão.
A Guemará agora estabelece a própria premissa usada por Rabi Elazar: de onde se sabe que o Tabernáculo tinha dez cúbitos de altura? Da medida das suas tábuas verticais, que tinham dez cúbitos de comprimento. E de onde se sabe que Moshe conseguiu, sozinho, estender a cobertura de pelo de cabra sobre um Tabernáculo já montado, de dez cúbitos de altura? Disso se aprende que a própria estatura de Moshe — e, por extensão, a dos levitas em geral — era de dez cúbitos. Aplicando então a regra tradicional de que toda carga erguida sobre varas, carregada por dois homens sobre os ombros, fica um terço da carga acima do nível dos ombros e dois terços abaixo, conclui-se que o altar, erguido dessa maneira por levitas de dez cúbitos de altura, ficava consideravelmente mais alto que dez palmos do chão durante o transporte.
"'Daqui aprendes'" — pois o pressuposto é que os demais levitas eram também tão altos quanto Moshe. "'Um terço acima'" — e, já que o altar tinha dez cúbitos e era carregado no ombro, como está escrito (Números 7:9) "e aos filhos de Kehat não deu carroças" etc., e os levitas tinham dez cúbitos de altura: quando o erguiam um terço acima de suas cabeças ou de seu ombro, descobre-se que ficava alto do chão perto de um terço dos dez cúbitos, o que é bem mais do que dez palmos.
E, se quiseres, dize: deriva-se da Arca. Pois disse o mestre: a Arca tinha nove palmos de altura, e o propiciatório, um palmo. Eis aqui dez; e é uma tradição que toda carga erguida sobre varas fica um terço acima e dois terços abaixo; descobre-se, assim, que a Arca ficava acima de dez palmos do chão. Mas por que não derivar a medida diretamente de Moshe , que já sabemos ter dez cúbitos de altura? Talvez Moshe fosse excepcional, pois disse o mestre: a Presença Divina não repousa senão sobre quem é sábio, forte, rico e de elevada estatura.
A Guemará oferece uma derivação alternativa, independente da altura dos levitas: a própria Arca da Aliança, cuja altura era de nove palmos, somada a um palmo do propiciatório (kaporet) que a cobria, chega a dez palmos; aplicando a mesma regra de um terço acima e dois terços abaixo para cargas erguidas sobre varas, conclui-se que a Arca, carregada dessa maneira, ficava acima de dez palmos do chão — uma derivação que não depende da premissa de que os levitas eram tão altos quanto Moshe. A Guemará então questiona por que não se deriva a medida diretamente da altura de Moshe, já estabelecida em dez cúbitos: a resposta é que Moshe pode ter sido uma exceção, de estatura excepcionalmente elevada — pois há uma tradição de que a Presença Divina só repousa sobre quem reúne sabedoria, força, riqueza e estatura elevada —, de modo que sua altura pessoal não prova a altura dos demais levitas.
"'E, se quiseres, dize'" — talvez os levitas não fossem tão altos, e não se derive do altar, pois talvez os levitas tivessem apenas sete cúbitos de altura, e o seu transporte do altar não ficasse alto do chão senão dois ou três palmos; e por isso Rabi Elazar a deriva da Arca. "'Descobre-se que ficava acima de dez'" — bem mais, mesmo que a altura dos levitas fosse apenas três cúbitos, como a nossa estatura comum: eis aqui dezoito palmos, e a Arca não pende abaixo dos seus ombros senão seis palmos e dois terços de palmo; descobre-se que ficava alta dez palmos e mais. "'Mas por que não derivar de Moshe'" — que estendeu o Tabernáculo, de modo que se conclui que a altura dos levitas era de dez cúbitos, e derivemos dos levitas que carregavam o altar. "'Pois disse o mestre'" — no tratado Nedarim.
Disse Rav em nome de Rabi Chiya: quem transporta um peso em Shabat sobre a sua cabeça — é responsável por uma oferenda pelo pecado, pois assim fazem os homens de Hutzal. A Guemará objeta: e os homens de Hutzal seriam equiparáveis à maioria do mundo , para que o seu costume particular defina o modo costumeiro de transportar para todos?! Responde a Guemará: antes, se isso foi dito, foi dito assim: disse Rav em nome de Rabi Chiya: um dos filhos de Hutzal que transportou um peso sobre a sua cabeça em Shabat — é responsável, pois assim fazem os habitantes da sua cidade. A Guemará objeta de novo: e não se anularia a sua vontade individual diante da de todo o resto do mundo , que não carrega desse modo?! Responde a Guemará: antes, se isso foi dito, foi dito assim: quem transporta um peso sobre a sua cabeça — é isento, …
A Guemará traz um último ensinamento do daf, sobre carregar um peso sobre a própria cabeça — um modo de transporte que a Mishná anterior já classificara como incomum e, portanto, isento (não estando entre "a mão direita, a esquerda, o colo ou o ombro"). Rav, em nome de Rabi Chiya, propõe uma exceção: quem transporta assim é, ainda, responsável, porque esse é o costume dos homens de Hutzal — um lugar cujos habitantes normalmente carregavam jarros de água e vinho sobre a cabeça, sem segurá-los com as mãos. A Guemará objeta: o costume particular de uma única localidade poderia realmente redefinir o "modo costumeiro de transportar" válido para toda a humanidade? Isso leva a uma primeira reformulação: o ensinamento tratava, na verdade, apenas de um habitante de Hutzal, responsável porque, para ele, aquele é o costume da sua própria cidade. Mas surge nova objeção: mesmo assim, a vontade individual desse habitante não deveria ser anulada perante o costume da maioria da humanidade, que não carrega dessa forma? Isso leva a uma segunda reformulação, que a Guemará começa a citar — "quem transporta um peso sobre a cabeça é isento" — mas a frase é cortada exatamente neste ponto, no fim do daf. Confirmado via Sefaria: o daf 92b abre completando essa mesma frase, com a condição que a fecha: "e, se disseres que os homens de Hutzal fazem assim, a vontade deles se anula perante a de toda a humanidade" — de modo que o ensinamento, na sua forma final, isenta em geral quem carrega peso na cabeça, mesmo sendo ele mesmo um habitante de Hutzal, pois o costume local não prevalece sobre o costume da maioria do mundo.
"'Os homens de Hutzal'" — costumavam carregar jarros de água e de vinho sobre as suas cabeças, e não os seguravam com as mãos.