92b abre completando a frase deixada cortada no fim de 92a: "e, se disseres que os homens de Hutzal fazem assim, a vontade deles se anula perante toda pessoa" — encerrando, com essa condição final, a discussão sobre carregar peso na cabeça, que na sua forma definitiva isenta em geral, mesmo o próprio habitante de Hutzal, pois o costume de uma única localidade não prevalece sobre o costume da maioria do mundo. Abre-se então uma nova Mishná do Perek Yud: quem pretende transportar um objeto à sua frente, mas este acaba sendo carregado atrás de si, é isento, pois o seu pensamento não se realizou; mas quem pretendia transportá-lo atrás de si, e ele acaba à sua frente, é responsável; em verdade disseram que a mulher que se cinge com um avental é responsável quer o objeto tenha ido para a frente quer para trás, pois é próprio do avental inverter-se; e Rabi Yehuda acrescenta que também os mensageiros que recebem bilhetes do rei são responsáveis. A Guemará pergunta por que a primeira cláusula isenta e a segunda responsabiliza, se em ambas o pensamento original não se realizou tal como planejado; Rabi Elazar responde que a Mishná está "quebrada", combinando opiniões de tanaítas diferentes; mas Rava oferece uma explicação unificada, com base na diferença entre buscar uma guarda superior e obter uma inferior, e vice-versa. A Guemará então desloca a dificuldade para uma inferência textual da própria Mishná, que Rabi Elazar volta a resolver dizendo que ela está quebrada; mas Rav Ashi propõe uma leitura diferente da Mishná, como um "não é preciso dizer... mas também", que dispensa a solução de Rabi Elazar. Segue-se uma disputa tanaítica sobre quem transporta moedas no seu cinto oco com a abertura para baixo — Rabi Yehuda responsabiliza e os sábios isentam —, com a troca de argumentos entre Rabi Yehuda e os sábios sobre o que cada lado concede ao outro, resolvida pela Guemará ao mostrar que a disputa real está apenas nesse caso do cinto, e não nos casos já unânimes de "atrás e atrás" (responsável) e "no dorso da mão ou com o pé" (isento). Uma baraita esclarece que a expressão "em verdade" da Mishná sempre indica uma halachá incontestada, e traz uma razão adicional para a responsabilidade dos mensageiros reais: assim fazem os escribas do reino. Encerrada essa Mishná, abre-se uma segunda: quem transporta um pão ao domínio público é responsável; se dois o transportaram juntos, são isentos; mas se um só não conseguia transportá-lo e dois o transportaram, são responsáveis — e Rabi Shimon isenta mesmo nesse caso. A Guemará que se segue traz uma tradição sobre as combinações possíveis — quando cada um dos dois poderia tê-lo feito sozinho, quando nenhum dos dois poderia, e quando um poderia e o outro não — e uma baraita paralela que deriva essa regra do versículo "בַּעֲשֹׂתָהּ" (Levítico 4:27): quem realiza a transgressão por inteiro é responsável, e não quem realiza apenas parte dela, ilustrando com o caso de dois que seguram juntos um ancinho, uma lançadeira, uma pena ou um caniço — terminando em aberto, no meio da mesma baraita, com mais exemplos (o disco de figos secos, a trave) prosseguindo diretamente em 93a.
92a terminara no meio da segunda reformulação do ensinamento de Rav em nome de Rabi Chiya sobre carregar peso na cabeça, cortada em "הַמּוֹצִיא מַשּׂוֹי עַל רֹאשׁוֹ — פָּטוּר, …" ("quem transporta um peso sobre a cabeça — é isento, …"). Confirmado via Sefaria, 92b abre completando exatamente essa frase.
"…quem transporta um peso sobre a cabeça — é isento, mesmo sendo ele próprio um habitante de Hutzal, e, se disseres que os homens de Hutzal fazem assim e por isso deveria ser responsável, a resposta é que a vontade deles se anula perante a de toda pessoa , isto é, perante o costume da maioria da humanidade, que não carrega dessa forma.
Com esta frase, encerra-se a discussão sobre carregar peso na cabeça em Shabat, iniciada com o ensinamento de Rav em nome de Rabi Chiya e cortada ao meio no fim de 92a. Na sua forma final, depois de duas reformulações sucessivas — cada uma corrigindo uma objeção à anterior —, o ensinamento isenta em geral quem carrega peso na cabeça, pois esse não é o modo costumeiro de transportar reconhecido pela maioria da humanidade; e isso vale mesmo para quem é, ele próprio, um habitante de Hutzal, cujo costume local de carregar jarros na cabeça não tem força para redefinir, para ele, o que conta como transporte costumeiro, já que a sua vontade individual — e mesmo a de toda uma localidade — se anula perante o costume da maioria do mundo.
Quem pretende transportar um objeto de casa em Shabat à sua frente, e ele acaba vindo a ser carregado atrás de si — é isento. Mas quem pretendia transportá-lo atrás de si, e ele vem a ser carregado à sua frente — é responsável. Em verdade disseram: a mulher que se cinge com um avental, quer o objeto se desloque de frente para trás, quer de trás para frente, é responsável, pois é próprio do avental inverter-se , de modo que ela já contava com isso desde o início. Rabi Yehuda diz: também os que recebem bilhetes do rei são responsáveis, mesmo quando o pensamento não se realiza exatamente como planejado.
Continuando o Perek Yud, abre-se uma nova Mishná sobre a intenção de transporte. Se alguém amarra dinheiro no seu lençol para que fique pendurado à sua frente, e ao caminhar o embrulho acaba ficando atrás de si, ele é isento, pois o seu pensamento — transportar à frente — não se realizou, o que o torna semelhante a quem age sem intenção plena. Mas se pretendia transportá-lo atrás de si, e ele acaba à frente, é responsável — a razão será discutida na Guemará. A Mishná traz então uma regra à parte, sem exceção: a mulher que usa um avental (uma espécie de calça curta, cingida por modéstia) e nele prende algo para transportar é sempre responsável, mesmo que o objeto mude de lado, porque é próprio desse tipo de peça inverter-se ao redor do corpo, de modo que, desde o início, ela já sabia que o resultado final poderia ser diferente do pretendido. Rabi Yehuda acrescenta que o mesmo vale para os mensageiros reais que carregam bilhetes para entregar aos corredores do rei: mesmo que a intenção original não se realize exatamente — por exemplo, se pretendia entregar a um corredor e acabou entregando a outro —, ainda assim são responsáveis.
"'Quem pretende transportar à sua frente'" — como, por exemplo, alguém que amarrou dinheiro no seu lençol para que ficasse pendurado à sua frente, e ele acaba vindo a ser carregado atrás de si. "'É isento'" — pois o seu pensamento não se realizou, e o caso se torna como quem age sem plena intenção. "'Atrás de si, e vem a ser carregado à frente — é responsável'" — na Guemará se explica a razão. "'Avental'" — algo como calças pequenas, e ela o cinge por modéstia; e se prendeu nele algo para transportar, e ele acaba indo para o outro lado, é responsável. "'Pois é próprio dele inverter-se'" — é do seu costume inverter-se ao seu redor, e, desde o início, ela sabia que, ao final, ele se voltaria. "'Rabi Yehuda diz: também os que recebem bilhetes'" — do rei, para entregá-los aos corredores, também eles são responsáveis pelo transporte, mesmo que o seu pensamento não se tenha realizado, como, por exemplo, se os transportou com a intenção de entregá-los a este corredor e acabou entregando-os a outro — assim é a explicação dos meus mestres, mas o meu coração hesita quanto a ela.
Pergunta a Guemará: por que há uma diferença: pretendia transportar à sua frente, e veio a ser carregado atrás de si, que é isento — é porque o seu pensamento não se realizou; pretendia transportá-lo atrás de si, e veio a ser carregado à frente, também deveria ser isento, pois eis que o seu pensamento não se realizou! Disse Rabi Elazar: ela , a Mishná, está quebrada — quem ensinou esta cláusula não ensinou aquela. Disse Rava: e que dificuldade há nisso? Talvez: pretendia transportar à sua frente, e veio a ser carregado atrás de si — a razão de ser isento é esta: ele pretendia proporcionar ao objeto uma guarda superior, e acabou obtendo uma guarda inferior; pretendia transportá-lo atrás de si, e veio a ser carregado à frente — a razão de ser responsável é esta: ele pretendia proporcionar uma guarda inferior, e acabou obtendo uma guarda superior.
A Guemará questiona a lógica da Mishná: em ambas as cláusulas, o transportador não conseguiu realizar exatamente o que planejara — na primeira, planejava à frente e obteve atrás; na segunda, planejava atrás e obteve à frente — então por que uma isenta e a outra responsabiliza? Rabi Elazar responde que a Mishná está "quebrada": ela combina, sem dizê-lo, as opiniões de dois tanaítas diferentes, um que isenta em ambos os casos e outro que responsabiliza em ambos, sem que nenhum dos dois sustente exatamente a distinção que a Mishná parece traçar. Rava discorda e oferece uma explicação unificada: quem planeja transportar à frente do corpo busca a melhor forma de vigiar o objeto, pois o vê o tempo todo; se ele acaba atrás, obtém apenas uma guarda inferior — e, como isso não era o seu plano, é isento. Já quem planeja transportar atrás de si já está se contentando com uma guarda inferior desde o início; se o objeto acaba indo parar à frente, ele obteve mais do que pretendia — uma guarda superior —, e por isso é responsável: o seu plano de proporcionar guarda foi cumprido, e superado, não frustrado.
"'Quem ensinou esta não ensinou aquela'" — o primeiro tanaíta isenta em ambas as cláusulas, e o segundo tanaíta responsabiliza em ambas. "'E acabou obtendo uma guarda inferior'" — e nós somos testemunhas de que isso não lhe agrada; mas na segunda cláusula, com muito mais razão isso lhe agrada.
Mas, então, qual era a dificuldade de Rabi Elazar? É a inferência da própria Mishná que é difícil: a Mishná diz: quem pretende transportar à sua frente e ele vem a ser carregado atrás de si é isento — donde se infere que pretendia transportá-lo atrás de si e ele veio a ser carregado atrás de si (isto é, sem mudança) — é responsável. Mas diz a Mishná na cláusula final: atrás de si e ele veio a ser carregado à frente é que ela diz que é responsável — donde se infere que pretendia transportá-lo atrás de si e ele veio a ser carregado atrás de si é isento! Disse Rabi Elazar: ela está quebrada — quem ensinou esta não ensinou aquela.
A Guemará esclarece que a verdadeira dificuldade de Rabi Elazar não estava na comparação direta entre as duas cláusulas explícitas da Mishná, mas na inferência que cada uma delas permite tirar sobre o caso não mencionado — quando a intenção era atrás de si e o resultado também foi atrás de si, sem mudança de lugar. Da primeira cláusula ("à frente e veio atrás — isento") infere-se, por contraste, que "atrás e veio atrás" é responsável, pois ali não houve frustração alguma da intenção. Mas da cláusula final ("atrás e veio à frente — responsável") infere-se o oposto: que "atrás e veio atrás" seria isento. As duas inferências se contradizem, o que confirma, para Rabi Elazar, que a Mishná combina posições de tanaítas diferentes.
"'É a inferência da própria Mishná que é difícil'" — a inferência que podemos deduzir da Mishná. "'É que atrás de si e veio a ser carregado à frente é que é responsável'" — pois ali ele acabou obtendo uma guarda superior.
Disse Rav Ashi: e que dificuldade há? Talvez a Mishná esteja dizendo na forma de "não é preciso dizer": não é preciso dizer que pretendia transportá-lo atrás de si e ele veio a ser carregado atrás de si, que é responsável — pois o seu pensamento se realizou; mas até o caso de pretendia transportá-lo atrás de si e ele veio a ser carregado à frente foi necessário que ela ensinasse. Pois, sem isso, poderia ocorrer-te dizer: já que o seu pensamento não se realizou, que não seja responsável — por isso a Mishná nos ensina que, tendo pretendido proporcionar uma guarda inferior e acabado obtendo uma guarda superior, é responsável.
Rav Ashi propõe uma leitura estilística diferente da Mishná, que dispensa por completo a necessidade de dizer que ela está "quebrada": em vez de ler as duas cláusulas como casos paralelos e opostos, deve-se lê-la no estilo "não é preciso dizer... mas até", comum em formulações tanaíticas. Segundo essa leitura, a Mishná não pretendeu, com "atrás de si e veio à frente", contrastar-se com um caso implícito de "atrás e veio atrás"; antes, quis dizer: não é preciso dizer que, quando a intenção era atrás e o resultado foi atrás (sem mudança), a pessoa é responsável, pois isso é óbvio, já que o seu pensamento se realizou integralmente; mas era necessário ensinar que até quando a intenção era atrás e o resultado foi à frente — um caso em que se poderia pensar que a pessoa é isenta, por não ter se realizado exatamente o que planejara —, ainda assim ela é responsável, pois obteve mais proteção do que buscava.
E o caso de pretendia transportar atrás de si e ele veio a ser carregado atrás de si é matéria de disputa entre tanaítas. Pois foi ensinado: quem transporta moedas no seu cinto oco, com a abertura voltada para cima — é responsável. Se estava com a abertura para baixo — Rabi Yehuda responsabiliza, e os sábios isentam. Disse-lhes Rabi Yehuda: não concordais vós que, no caso de pretendia transportá-lo atrás de si e ele veio a ser carregado atrás de si, ele é responsável? E disseram-lhe: e não concordas tu que, no caso de o transportar como no dorso da sua mão e com o seu pé, ele é isento?
A Guemará mostra que o próprio caso de "atrás e veio atrás" — que Rav Ashi assumira como consensualmente responsável — é, na realidade, objeto de disputa entre tanaítas, e traz a baraita que a demonstra: quem transporta moedas no seu cinto oco, com a abertura virada para cima (o modo costumeiro de guardar dinheiro nele), é responsável por unanimidade. Mas se a abertura está virada para baixo — um modo menos usual, mas ainda assim praticado por alguns —, Rabi Yehuda responsabiliza e os sábios isentam. Rabi Yehuda argumenta que os sábios já concordam, no caso geral de "atrás e veio atrás", que há responsabilidade; os sábios replicam perguntando se ele, por sua vez, não concorda que transportar no dorso da mão ou com o pé — modos reconhecidamente incomuns — é isento.
"'E os sábios isentam'" — pois não é este o modo costumeiro de transportar.
Disse Rabi Yehuda: eu disse uma coisa e eles disseram uma coisa; eu não encontrei resposta às suas palavras, e eles não encontraram resposta às minhas palavras. A Guemará pergunta: do fato de Rabi Yehuda lhes ter dito "não concordais vós" — não se infere que os sábios já isentam no caso de "atrás e veio atrás"? E, segundo o teu raciocínio, do fato de os sábios lhe terem dito "não concordas tu" — infere-se que Rabi Yehuda responsabiliza até no caso do dorso da mão? Mas não foi ensinado que, quanto ao dorso da sua mão e ao seu pé, é opinião unânime que é isento?! Antes, deve-se entender assim: no caso de pretendia transportá-lo atrás de si e ele veio a ser carregado atrás de si, é opinião unânime que é responsável; quanto ao caso de no dorso da mão e com o pé, é opinião unânime que é isento; onde discordam de fato é no cinto de moedas com a abertura para baixo: este mestre , Rabi Yehuda, o compara ao caso de pretendia transportá-lo atrás de si e ele veio a ser carregado atrás de si , e por isso responsabiliza; e aquele mestre, os sábios, o comparam ao caso do dorso da mão e do pé , e por isso isentam.
Rabi Yehuda observa que o impasse é simétrico: cada lado apresentou um argumento ao qual o outro não conseguiu responder. A Guemará então examina, e rejeita, uma leitura ingênua das palavras trocadas entre eles — como se cada "não concordais" ou "não concordas" implicasse uma concessão total do outro lado num caso que, na verdade, é unânime (o dorso da mão, reconhecidamente isento por todos). A conclusão correta é que os dois casos citados por Rabi Yehuda e pelos sábios — "atrás e veio atrás" e "dorso da mão e pé" — são, ambos, consensuais; a disputa real entre eles está apenas no caso intermediário do cinto de moedas com a abertura para baixo, que cada lado compara, por analogia, a um dos dois casos consensuais: Rabi Yehuda o vê como semelhante ao transporte atrás do corpo (por isso responsabiliza), e os sábios o veem como semelhante ao transporte pelo dorso da mão (por isso isentam).
"'Eu disse uma coisa'" — "não concordais vós" etc. "'E eles disseram uma coisa'" — "não concordas tu" etc. "'Infere-se que Rabi Yehuda responsabiliza'" — a pergunta é feita com espanto: mas certamente é opinião unânime que nesse caso é isento, pois as pessoas não costumam transportar assim. "'No caso de atrás e veio atrás, é opinião unânime que é responsável'" — pois há quem transporte assim mesmo buscando apenas uma guarda inferior. "'No dorso da mão, é opinião unânime que é isento'" — pois não se costuma transportar assim. "'Este mestre o compara ao caso de atrás e veio atrás'" — pois ali também é apenas uma guarda inferior; e aquele mestre o compara ao dorso da mão, pois o cinto com a abertura para baixo não se assemelha a quem transporta atrás de si, já que ali , no cinto, as moedas se guardam apenas dos ladrões, mas estas , se a abertura está para baixo, caem por si mesmas, e não se costuma transportar assim.
Ensinamos na Mishná: "em verdade disseram que a mulher que se cinge com um avental é responsável" etc. Foi ensinado na Tosefta: toda vez que a Mishná diz "em verdade" — trata-se de uma halachá incontestada. Rabi Yehuda diz: também os que recebem bilhetes são responsáveis. E foi ensinado ainda: pois assim fazem os escribas do reino , que trazem bilhetes de todos os lados do seu cinto, sem se importar com o lugar exato.
A Guemará traz uma Tosefta que esclarece um ponto terminológico da Mishná: sempre que ela emprega a expressão "em verdade disseram", isso sinaliza que a regra citada em seguida é uma halachá aceita sem disputa, e não uma opinião isolada — tal como a responsabilidade da mulher com o avental. A Tosefta acrescenta ainda uma razão complementar para a posição de Rabi Yehuda sobre os mensageiros reais: eles são responsáveis porque assim fazem, de fato, os escribas do próprio reino, que trazem os seus bilhetes espalhados por todos os lados do cinto, sem cuidado quanto ao lugar exato — o que confirma que esse é, para eles, um modo reconhecido de transportar.
"'Pois assim fazem os escribas do reino'" — o mensageiro tinha em mente entregá-los a este corredor, e não o encontra; e o assunto do rei é urgente, e ele encontra outro e entrega-os a ele.
Quem transporta um pão para o domínio público em Shabat — é responsável. Se dois o transportaram juntos — são isentos , pois nenhum dos dois realizou sozinho a obra proibida por inteiro. Mas se um só não conseguia transportá-lo, e dois o transportaram juntos — são responsáveis. E Rabi Shimon isenta também neste caso.
Encerrada a Mishná sobre a intenção de transporte, abre-se ainda uma segunda Mishná do Perek Yud, agora sobre a responsabilidade de quem transporta algo em conjunto com outra pessoa. A regra básica é que quem transporta um pão sozinho para o domínio público é responsável; mas se dois o transportaram juntos, cada um realizou apenas parte da obra proibida, e ambos são isentos — pois a transgressão de "transportar" só gera responsabilidade quando realizada por inteiro por uma única pessoa. A exceção é quando o pão era tão pesado que um só não conseguiria transportá-lo sozinho: nesse caso, os dois juntos são responsáveis, pois, em conjunto, eles constituem a força necessária mínima para realizar essa obra, e cada um contribui com uma parte indispensável do todo. Rabi Shimon discorda dessa exceção e isenta também nesse caso, por um motivo que a Guemará discutirá a seguir.
"'Se dois o transportaram, são isentos'" — conforme derivamos de "בעשותה" (Levítico 4:27): é responsável um só, e não dois. "'São responsáveis'" — e a razão se explica na Guemará.
Guemará. Disse Rav Yehuda, disse Rav — e alguns dizem que disse Abaye, e alguns dizem que assim foi ensinado numa baraita: quando este podia transportá-lo sozinho e aquele também podia — Rabi Meir responsabiliza, e Rabi Yehuda e Rabi Shimon isentam. Quando este não podia e aquele também não podia — Rabi Yehuda e Rabi Meir responsabilizam, e Rabi Shimon isenta. Quando este podia e aquele não podia — é opinião unânime que é responsável.
A Guemará traz uma tradição — atribuída, com incerteza, a Rav (por meio de Rav Yehuda), a Abaye, ou a uma baraita independente — que detalha três combinações possíveis quando dois transportam juntos um objeto. Se cada um dos dois, isoladamente, seria capaz de transportá-lo sozinho, mas o fizeram juntos, Rabi Meir responsabiliza (pois cada um realizou, ainda que em conjunto, um ato que sozinho seria proibido), enquanto Rabi Yehuda e Rabi Shimon isentam, pois nenhum dos dois realizou sozinho a obra por inteiro. Se nenhum dos dois seria capaz de transportá-lo sozinho — sendo necessário o esforço conjunto —, Rabi Yehuda muda de posição e se junta a Rabi Meir para responsabilizar, enquanto Rabi Shimon continua a isentar. E se um deles seria capaz de transportá-lo sozinho, mas o outro não, todos concordam que ambos são responsáveis — pois aquele que sozinho conseguiria já realiza a obra por inteiro, e o outro se soma a ele.
"'Este podia'" — transportá-lo sozinho, e aquele também podia transportá-lo sozinho, e ambos o transportaram juntos. "'Rabi Meir responsabiliza'" — pois não interpreta "בעשותה" para este propósito, mas apenas para isentar o indivíduo que agiu por erro na instrução de um tribunal, como se explicará adiante. "'E Rabi Yehuda isenta'" — pois não é este o modo costumeiro de agir, e a Mishná anônima segue Rabi Yehuda. "'Quando este não podia e aquele não podia'" — pois é do costume deles transportar a dois nesse caso; e nisso Rabi Yehuda concorda com Rabi Meir, que responsabiliza, e Rabi Shimon isenta, pois deriva a sua posição dos versículos, como se explicará adiante. "'Quando este podia e aquele não podia'" — e ambos o transportaram, é opinião unânime que é responsável, e adiante se explica qual deles é responsável. Assim é a versão correta: "se dois o transportaram, Rabi Meir responsabiliza", e não se lê ali "isento".
Também foi ensinado assim numa baraita paralela: quem transporta um pão para o domínio público — é responsável. Se dois o transportaram — Rabi Meir responsabiliza; e Rabi Yehuda diz: se um só não conseguia transportá-lo, e dois o transportaram — são responsáveis; e, se não era esse o caso, isto é, se cada um poderia sozinho — são isentos; e Rabi Shimon isenta em ambos os casos. De onde se derivam estas coisas? Pois ensinaram os sábios: "ao realizá-la (ba'assotah)" (Levítico 4:27) — quem a realiza por inteiro é responsável, e não quem realiza apenas parte dela. Como assim? Dois que estavam segurando juntos um ancinho e recolhendo a colheita com ele, ou segurando uma lançadeira e tecendo, ou segurando uma pena e escrevendo, ou segurando um caniço e o transportaram para o domínio público — poderias pensar que fossem responsáveis; por isso o texto diz: "ao realizá-la" — quem a realiza por inteiro é responsável, e não quem realiza apenas parte dela.
A Guemará traz uma baraita paralela que confirma a tradição anterior nas suas linhas gerais, com uma pequena variação na posição de Rabi Shimon (que aqui isenta em ambos os casos citados, e não apenas no de "nenhum dos dois podia sozinho"). Busca-se então a fonte bíblica de toda esta regra: o versículo sobre a oferenda pelo pecado do indivíduo comum diz "עַל אַחַת מִמִּצְוֺת ה׳ אֲשֶׁר לֹא־תֵעָשֶׂינָה וְאָשֵׁם" — mas a expressão exata interpretada aqui, "בַּעֲשֹׂתָהּ" ("ao realizá-la"), ensina que só é responsável quem realiza a transgressão por inteiro, e não quem realiza apenas uma parte dela. A baraita ilustra a regra com quatro exemplos de duas pessoas que seguram juntas uma única ferramenta e realizam juntas uma única ação proibida — um ancinho de três dentes para revirar e recolher grãos na eira (uma forma de debulhar), uma lançadeira para tecer, uma pena para escrever, ou um caniço que carregam juntos para o domínio público — casos em que se poderia pensar que ambos são responsáveis, precisamente porque cada um segura o mesmo objeto; mas o versículo ensina que não, pois nenhum dos dois, isoladamente, realizou a obra proibida por inteiro. Confirmado via Sefaria, o daf termina aqui em aberto: 93a prossegue imediatamente com mais dois exemplos dessa mesma baraita — o disco de figos secos e a trave —, aplicados de volta à disputa da Mishná entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon sobre quando dois que transportam juntos são responsáveis.
"'Rabi Yehuda diz: se um só não conseguia'" — isto é, cada um deles individualmente. "'E, se não era esse o caso'" — mas sim que este podia e aquele podia — é isento; e, por si só, entende-se que, num caso assim, Rabi Meir responsabiliza. "'Ancinho'" — em francês antigo, "forche", um instrumento de três dentes, com o qual se revira o grão na eira, e isso é uma forma de "recolher em feixes (me'amer)", que é uma das categorias principais de trabalho. "'E recolhendo'" — juntando as espigas. "'Com uma lançadeira e tecendo'" — pois isso é "urdir (mesach)", como se disse no capítulo "Regra Geral" (acima, Shabat 75a): a ação de "sovet" está incluída em "urdir". "'Com um caniço e o transportaram' etc." — e todos estes casos são de "este podia e aquele podia".