95a abre completando, sem qualquer interrupção, a explicação de Rabi Avahu deixada suspensa no fim de 94b: quem pinta os olhos é responsável por semelhança com tingir, e quem trança ou talha o rosto é responsável por semelhança com construir — pois, ensina Rabi Shimon ben Menasya a partir do verso "e o Eterno Deus construiu a costela" (Gênesis 2:22), o Santo, bendito seja, trançou o cabelo de Eva antes de trazê-la a Adão, e nas cidades litorâneas chama-se de "construtora" quem trança. Segue-se uma baraita de Rabi Shimon ben Elazar: trançar, pintar os olhos e talhar o rosto — para si mesma a mulher é isenta, pois não consegue fazê-lo tão bem em si mesma quanto para a companheira; e, em nome de Rabi Eliezer, que uma mulher não deve passar tinta vermelha sobre o próprio rosto, por ser isso um ato de tingir. A Guemará traz então uma baraita sobre quem ordenha, coalha o leite ou faz queijo — responsável na medida de uma azeitona seca — e sobre quem varre a casa, asperge água no chão ou retira favos de mel, que Rabi Eliezer responsabiliza por uma oferenda pelo pecado em Shabat e por açoites em Yom Tov, enquanto os Sábios os consideram proibidos apenas por decreto rabínico. Relata-se o episódio de Rav Nachman bar Gurya em Neharde'a, que, incapaz de explicar sob qual trabalho cada um desses atos se enquadra, é humilhado como "cortador de canas no pântano" até buscar a resposta correta na casa de estudo: ordenhar assemelha-se a extrair, coalhar a selecionar, fazer queijo a construir. Rabi Elazar explica o fundamento de Rabi Eliezer quanto aos favos de mel a partir do verso sobre Yonatan, que "mergulhou a vara no favo de mel" (I Samuel 14:27), comparando floresta e mel para ensinar que retirar favos em Shabat gera a mesma responsabilidade que colher de uma árvore. A Guemará relata então que Ameimar permitiu aspergir água em Mechoza, cidade de piso todo em pedra, sem os buracos que motivam a proibição; e narra o encontro de Rava Tosfa'a com Ravina — ou, segundo outros, de Mar Kashisha filho de Rava com Rav Ashi —, sofrendo com o pó quente da casa, a quem se lembra a baraita do balde de água usado para lavar o rosto, as mãos e os pés em cantos diferentes, aspergindo a casa inteira sem intenção direta; ao que responde apenas "não me ocorreu". Uma baraita final ensina que a mulher sábia asperge sua casa dessa maneira em Shabat, e que, seguindo-se hoje a opinião de Rabi Shimon sobre atos sem intenção, isso é permitido mesmo de antemão. Encerrada essa sequência, chega uma nova Mishná: quem arranca de um vaso perfurado é responsável, e de um não perfurado é isento; e Rabi Shimon isenta em ambos os casos. A Guemará abre então perguntando: Abaye levantou uma contradição diante de Rava — ou, segundo outros, Rabi Chiya bar Rav diante de Rav — entre essa Mishná, que parece igualar o vaso perfurado ao não perfurado segundo Rabi Shimon, e uma baraita que ensina que Rabi Shimon reconhece alguma diferença entre os dois — e a folha termina exatamente aqui, no meio da citação dessa baraita, prosseguindo diretamente em 95b.
94b terminara no meio da resposta de Rabi Avahu à objeção dos rabinos, que haviam perguntado por que Rabi Yossei bei Rabi Chanina comparou trançar a tecer, pintar a escrever e talhar a fiar, se nenhuma dessas três é o modo costumeiro do trabalho respectivo. Rabi Avahu começara a dizer: "a mim, essa mesma dificuldade foi explicada por Rabi Yossei bei Rabi Chanina de outro modo —". Confirmado via Sefaria, 95a abre completando exatamente essa frase, com uma correspondência revisada entre as três práticas e os trabalhos proibidos.
Assim concluiu Rabi Avahu, transmitindo a explicação revisada de Rabi Yossei bei Rabi Chanina: quem pinta os olhos — é responsável por semelhança com tingir; quem trança o cabelo e quem talha o rosto — por semelhança com construir. Pergunta a Guemará: e acaso trançar é o modo costumeiro de construir? Responde a Guemará: sim , é considerado construir, conforme ensinou Rabi Shimon ben Menasya: "e o Eterno Deus construiu a costela que tomara do homem" (Gênesis 2:22) — este verso ensina que o Santo, bendito seja, trançou o cabelo de Eva e a trouxe perante Adão; pois, nas cidades litorâneas, chamam quem trança (קַלָּעִיתָא) de "construtora" (בַּנָּיְתָא).
Rabi Avahu completa, com uma nova correspondência, a resposta que havia começado a dar diante da objeção dos rabinos: pintar os olhos é responsável por semelhança com tingir (o lápis colore a pele ao redor do olho); trançar o cabelo e talhar o rosto são responsáveis por semelhança com construir, e não mais com tecer ou fiar, como propusera a primeira explicação de Rabi Yossei bei Rabi Chanina em 94b. A Guemará estranha que trançar seja chamado de construir, e prova a partir do verso da criação de Eva: "construiu a costela" só faz sentido, no contexto, se "construir" significa arrumar o cabelo em tranças — uso atestado no falar das cidades litorâneas, onde o próprio verbo "trançar" é chamado de "construir".
Foi ensinado numa baraita: Rabi Shimon ben Elazar diz: quem trança, pinta os olhos e talha o rosto — para si mesma é isenta , pois não consegue construir bem em si mesma, sendo esse modo de embelezar-se próprio apenas de uma mulher para a companheira, que vê e faz; para a companheira é responsável. E do mesmo modo Rabi Shimon ben Elazar dizia, em nome de Rabi Eliezer: uma mulher não deve passar tinta vermelha sobre o próprio rosto em Shabat, porque isso é o trabalho de tingir.
Rabi Shimon ben Elazar precisa que a responsabilidade por trançar, pintar os olhos e talhar depende de para quem o ato é feito: para si mesma, a mulher é isenta, pois — como explica Rashi — ela não consegue realizar essas práticas de embelezamento com a mesma perfeição em si mesma quanto faria para outra pessoa, tornando o ato incompleto; para a companheira, onde o resultado é pleno, ela é responsável. Uma segunda tradição, também em nome de Rabi Shimon ben Elazar mas transmitida por Rabi Eliezer, acrescenta uma proibição independente: passar tinta vermelha (סְרָק) sobre o próprio rosto é proibido em Shabat, pois constitui o próprio trabalho de tingir.
"'Para si mesma é isenta'" — pois ela não consegue construir , isto é, trançar, bem em si mesma, e não há modo costumeiro de construir assim senão uma mulher para a sua companheira, que vê e faz. "'E do mesmo modo'" — introduz outro assunto, proibido em Shabat. "'Tinta vermelha (סְרָק)'" — é um corante vermelho que vem de canas chamadas tipuniyin.
Ensinaram os Sábios numa baraita: quem ordenha um animal, quem coalha o leite e quem faz queijo é responsável na medida de uma azeitona seca de figo. Quem varre a casa, quem asperge água no chão, e quem retira favos de mel — se agiu por erro em Shabat, é responsável por uma oferenda pelo pecado; se agiu de propósito em Yom Tov, leva quarenta açoites — palavras de Rabi Eliezer. E os Sábios dizem: tanto este caso, de Shabat, quanto aquele, de Yom Tov, não são senão proibidos por decreto rabínico.
Uma nova baraita traz seis atividades relacionadas ao processamento de leite e à limpeza doméstica: ordenhar, coalhar o leite e fazer queijo geram responsabilidade na medida de uma azeitona seca de figo (a medida usual de comida); varrer a casa, aspergir água no chão e retirar favos de mel são, para Rabi Eliezer, plenamente proibidos por lei bíblica — gerando oferenda pelo pecado em Shabat e açoites em Yom Tov —, enquanto os Sábios os rebaixam a mera proibição rabínica, por não constituírem, a seu ver, o modo pleno de nenhum dos trinta e nove trabalhos.
Rav Nachman bar Gurya chegou a Neharde'a. Perguntaram-lhe: quem ordenha, por qual trabalho é responsável? Disse-lhes: por ordenhar. Quem coalha, por qual trabalho é responsável? Disse-lhes: por coalhar. Quem faz queijo, por qual trabalho é responsável? Disse-lhes: por fazer queijo. Disseram-lhe: teu mestre era cortador de canas no pântano , isto é, não sabia explicar a Mishná! Foi ele e perguntou a mesma questão na casa de estudo. Disseram-lhe: quem ordenha é responsável — por semelhança com extrair (מְפָרֵק); quem coalha é responsável — por semelhança com selecionar; quem faz queijo é responsável — por semelhança com construir.
Um episódio ilustra a diferença entre saber a lei e saber explicá-la: Rav Nachman bar Gurya, questionado sobre o fundamento de cada responsabilidade, apenas repete o nome do próprio ato ("ordenhar é responsável por ordenhar"), sem indicar a qual dos trinta e nove trabalhos proibidos cada prática se assemelha — resposta circular e vazia, que lhe rende o insulto de "cortador de canas no pântano", isto é, um homem de trabalho braçal sem instrução. Buscando a resposta correta na casa de estudo, ele aprende: ordenhar assemelha-se a extrair (מְפָרֵק, derivado de debulhar — como quem retira o alimento do que o envolve), coalhar assemelha-se a selecionar (pois separa o coalho do soro), e fazer queijo assemelha-se a construir (pois o queijo assume forma sólida).
"'Cortador de canas no pântano'" — isto é, alguém que apenas corta canas do pântano , um trabalho braçal qualquer; ele não sabia explicar a Mishná. "'Extrair (מְפָרֵק)'" — como quem descarrega uma carga, que retira o alimento de onde estava coberto, e é uma derivação de debulhar; e há os que dizem que é uma derivação de colher, mas isso não é correto, pois o leite não está preso ao solo, mas simplesmente depositado e retirado, permanecendo nos tetos do animal como o grão em seu talo; e o termo "extrair" também não caberia ali senão o termo "arrancar". "'Selecionar'" — separar o alimento de dentro do refugo.
Ensinamos acima: quem varre a casa, quem asperge água no chão, e quem retira favos de mel — se agiu por erro em Shabat, é responsável por uma oferenda pelo pecado; se agiu de propósito em Yom Tov, leva quarenta açoites — palavras de Rabi Eliezer. Disse Rabi Elazar: qual é o fundamento de Rabi Eliezer quanto aos favos de mel? É pois está escrito: "e mergulhou a ponta da vara no favo de mel (יַעְרַת הַדְּבָשׁ)" (I Samuel 14:27) — e que relação tem floresta (יַעַר) com mel (דְּבַשׁ)? Antes, o verso vem te dizer: assim como, quanto a uma floresta, quem colhe dela em Shabat é responsável por uma oferenda pelo pecado, também quanto aos favos de mel, quem os retira em Shabat é responsável por uma oferenda pelo pecado.
Rabi Elazar fundamenta a posição de Rabi Eliezer — que retirar favos de mel é plenamente proibido por lei bíblica — a partir de um jogo de palavras no verso sobre Yonatan, filho de Shaul, que mergulhou a ponta de sua vara num favo de mel durante a batalha (I Samuel 14:27). O texto usa a palavra יַעְרַת, aparentada de יַעַר ("floresta"), para "favo": essa aparente estranheza é lida como uma comparação deliberada entre colher frutos de uma árvore na floresta — trabalho bíblico pleno de colher — e retirar mel de um favo, que é assim equiparado ao mesmo trabalho e à mesma responsabilidade.
Ameimar permitiu aspergir água no chão em Mechoza. Disse: qual é o motivo pelo qual os Sábios proibiram isso em geral? É por temer que a pessoa venha a nivelar buracos no piso não pavimentado, o que constituiria construir; aqui , em Mechoza, onde todas as casas têm piso de pedra, não há buracos a nivelar.
Ameimar aplica com precisão o fundamento da proibição rabínica de aspergir água: o receio de que, ao molhar o chão de terra, a pessoa seja levada a nivelar buracos irregulares, um ato assimilado a construir. Em Mechoza, cidade cujas casas tinham piso todo em pedra, esse receio simplesmente não se aplica, e por isso Ameimar permitiu a prática ali.
Rava Tosfa'a encontrou Ravina sofrendo na casa com o pó quente que subia no ar — e há quem diga que foi Mar Kashisha, filho de Rava, quem encontrou Rav Ashi sofrendo com o pó quente. Disse-lhe: acaso não sustenta o mestre a halachá que foi ensinada numa baraita: quem deseja aspergir a própria casa em Shabat traz uma bacia cheia de água, e lava o rosto num canto, as mãos noutro canto, os pés noutro canto — e a casa acaba aspergida por si mesma , sem intenção direta de aspergir o chão? Disse-lhe: não me ocorreu esse método.
Um relato ilustra na prática a distinção entre aspergir água diretamente — proibido, por levar a nivelar buracos — e aspergi-la incidentalmente, como subproduto não intencional de lavar-se em partes diferentes da casa. Encontrando um colega sofrendo com o pó levantado pelo calor, quem quer que tenha feito o encontro lembra-lhe a solução da baraita: lavar rosto, mãos e pés em três cantos distintos da casa, deixando que a água respingada asperja o piso sem que isso seja o propósito direto do ato — o que, segundo o princípio de que um ato sem intenção é permitido, resolveria o desconforto sem transgressão. A resposta simples — "não me ocorreu" — reconhece a solução como válida, mas esquecida no momento.
"'Aspergir'" — para umedecer a casa, e havia piso de pedra em toda a cidade de Mechoza. "'Com o pó quente'" — pois na outra casa, o pó subia e aumentava o calor abafado. "'Não me ocorreu'" — não me lembrei desse método; e meus mestres explicaram: não sustento essa halachá como válida.
Foi ensinado numa baraita: uma mulher sábia asperge a própria casa em Shabat desse modo indireto. E, agora que sustentamos a halachá segundo Rabi Shimon , que um ato sem intenção direta é permitido, é permitido varrer e aspergir água mesmo de antemão.
A baraita atribui a uma "mulher sábia" — esposa ou filha de um sábio da Torá, que aprendeu o costume em casa — a prática de aspergir a casa por meio do truque de lavar-se em cantos diferentes. A Guemará acrescenta uma nota halachica final: como a lei segue Rabi Shimon, para quem um ato sem intenção direta (דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין) é permitido, e quem asperge água dessa maneira não pretende nivelar buracos, mas apenas evitar a poeira, essa prática é permitida mesmo de antemão, sem necessidade do disfarce do balde de água.
"'Uma mulher sábia'" — esposa de um sábio da Torá, ou filha de um sábio da Torá que ouviu o costume de seu pai. "'Asperge a própria casa'" — lava jarros num canto e copos noutro canto. "'Segundo Rabi Shimon'" — pois um ato sem intenção direta é permitido, e quem asperge a água desse modo não pretende colar a terra no buraco nem nivelar a casa, mas apenas evitar que suba poeira.
Quem arranca uma folha ou um fruto de um vaso perfurado , que tem o estatuto legal de algo ligado à terra, é responsável; e quem arranca de um vaso não perfurado é isento , mas é proibido de antemão. E Rabi Shimon isenta quem arranca tanto deste, o vaso perfurado, quanto daquele, o vaso não perfurado.
Uma nova Mishná, ainda dentro do Perek Yud, introduz a questão do vaso de plantas: um vaso perfurado (com um furo no fundo ou na lateral, por onde a planta absorve a umidade da terra) tem o estatuto legal de algo ligado ao solo, de modo que arrancar dele é considerado colher — trabalho bíblico pleno. Um vaso não perfurado, por outro lado, é considerado desligado do solo, e arrancar dele é apenas proibido por decreto rabínico, sem responsabilidade plena. Rabi Shimon dissente radicalmente, isentando em ambos os casos — opinião cuja base a Guemará passará a investigar.
"'Quem arranca de um vaso perfurado é responsável'" — pois esse vaso tem o estatuto de algo ligado à terra, já que a planta absorve umidade do solo através do furo, que sente a umidade da terra — e isso vale mesmo que o furo esteja na lateral do vaso, e não apenas no fundo.
Levantou Abaye uma contradição diante de Rava — e há quem diga que foi Rabi Chiya bar Rav quem levantou a contradição diante de Rav: ensinamos na Mishná que Rabi Shimon isenta quem arranca tanto deste , o perfurado, quanto daquele, o não perfurado. Isso pareceria implicar que, segundo Rabi Shimon, um vaso perfurado equivale a um vaso não perfurado em tudo. Mas a isso se opõe uma contradição: pois foi ensinado numa baraita que Rabi Shimon diz: não há diferença entre um vaso perfurado e um vaso não perfurado …
A Guemará abre a discussão sobre a nova Mishná perguntando qual o fundamento da isenção de Rabi Shimon tanto para o vaso perfurado quanto para o não perfurado — e Abaye, ou, segundo a tradição alternativa, Rabi Chiya bar Rav, levanta imediatamente uma contradição: se a Mishná isenta em ambos os casos igualmente, isso sugeriria que, para Rabi Shimon, não há diferença nenhuma entre um vaso perfurado e um não perfurado. Mas uma baraita paralela começa a ensinar, em nome do próprio Rabi Shimon, que "não há diferença entre um vaso perfurado e um não perfurado" — uma frase que, pela sua própria estrutura ("não há diferença entre X e Y") sinaliza que a seguir viria uma especificação de exatamente qual diferença ainda restaria entre eles, apesar da isenção comum. A folha termina exatamente aqui, no meio dessa citação, sem que se saiba ainda qual é essa diferença residual — confirmado via Sefaria, 95b prossegue imediatamente completando a baraita: "... exceto quanto a tornar sementes aptas a receber impureza ritual" — uma diferença que, segundo a resposta dada em 95b, não se refere a Shabat (onde Rabi Shimon de fato equipara os dois vasos a algo desligado da terra), mas apenas à pureza de sementes, cuja isenção a própria Torá amplia por um verso específico; por isso essa diferença não contradiz a isenção igual da Mishná.