95b abre completando, sem qualquer interrupção, a baraita deixada suspensa no fim de 95a: Rabi Shimon ensina que não há diferença entre um vaso perfurado e um não perfurado — exceto quanto a tornar sementes plantadas nele aptas a receber impureza ritual, pois a Torá amplia a pureza quanto a sementes de semeadura. A essa objeção — que pareceria contradizer a isenção igual da Mishná para Shabat — responde-se que, para todos os demais assuntos de halachá, Rabi Shimon equipara o vaso perfurado a algo desligado da terra; apenas quanto à impureza a Torá cria uma exceção, o que não contradiz a isenção igual em matéria de Shabat. Segue-se a dúvida de um certo ancião a Rabi Zeira: quanto à raiz de uma planta situada diretamente em frente ao furo do vaso, o que diria Rabi Shimon — considerar-se-ia ligada à terra mesmo com um furo pequeno? Rabi Zeira permanece em silêncio; encontrado depois ensinando que Rabi Shimon concorda que um furo na medida de purificação do vaso já basta para considerá-lo ligado à terra, o ancião reclama que essa resposta, sobre um furo grande, não resolve a dúvida original sobre a raiz oposta a um furo qualquer. Abaye então reformula o que fora dito em nome de Rabi Zeira: Rabi Shimon concorda apenas quando o vaso foi perfurado abaixo da medida que retém um quarto de log — abaixo disso, deixa de ter estatuto de vaso. A Guemará traz então o ensinamento de Rava sobre cinco medidas progressivas de furo num vaso de barro, cada uma purificando-o de um nível de impureza enquanto ainda o mantém apto para o nível seguinte — da menor, que o purifica apenas da impureza de caco mas ainda o mantém apto para santificar as águas da vaca vermelha, até a maior, que faz uma romã sair e o purifica de tudo — acrescentando que, cercado por uma tampa selada numa tenda com um cadáver, o vaso só se purifica quando a maior parte dele se quebra. Por fim, Rav Asi afirma ter ouvido que a medida de purificação plena de um vaso de barro é a que faz uma romã sair; Rava replica que ele talvez tenha ouvido isso apenas quanto a um vaso cercado por tampa selada — e levanta contra o próprio ensinamento de Rava a contradição de que ele mesmo exigira, para esse caso, que a maior parte do vaso se quebrasse. A Guemará começa a responder "não é difícil —", e a folha termina exatamente aqui, no meio dessa resposta, prosseguindo diretamente em 96a com a distinção entre vasos grandes e pequenos.
95a terminara no meio da citação de uma baraita levantada por Abaye (ou, segundo a tradição alternativa, por Rabi Chiya bar Rav) como contradição à Mishná: "Rabi Shimon diz: não há diferença entre um vaso perfurado e um não perfurado —". Confirmado via Sefaria, 95b abre completando exatamente essa frase: a única diferença reconhecida por Rabi Shimon entre os dois vasos é quanto a tornar sementes aptas a receber impureza ritual — e não quanto a Shabat, o que resolve a contradição com a isenção igual da Mishná.
Completa-se a baraita citada como contradição: — exceto quanto a tornar sementes aptas a receber impureza ritual, apenas nisso há diferença entre um vaso perfurado e um não perfurado! Respondeu-lhe Rava (ou, segundo outra versão, Rav, a Rabi Chiya bar Rav): para todos os assuntos de halachá — Shabat, e também os modos de aquisição, e o prosbul — Rabi Shimon equipara o vaso perfurado a algo desligado da terra; e é diferente quanto à impureza, pois a Torá ampliou a pureza quanto a sementes, conforme está dito: "sobre toda semente de semeadura que se semeia , é pura" (Levítico 11:37).
A resposta resolve a contradição levantada entre a Mishná e a baraita: a Mishná ensina que Rabi Shimon isenta quem arranca tanto de um vaso perfurado quanto de um não perfurado — sugerindo equivalência total entre os dois, quanto a Shabat. A baraita, por sua vez, ensina que "não há diferença" entre os dois vasos exceto quanto a tornar sementes aptas a receber impureza — implicando que, para Rabi Shimon, os dois vasos SÃO diferentes nesse ponto de pureza. A resposta reconcilia as duas fontes: para todos os assuntos práticos, incluindo Shabat, os modos de aquisição por puxar (em vez de por dinheiro) e o prosbul (que só se escreve sobre bens de raiz), Rabi Shimon trata o vaso perfurado como algo desligado da terra — daí a isenção igual na Mishná; apenas quanto à impureza de sementes a Torá cria, pelo próprio texto do verso (a repetição "semente de semeadura que se semeia"), uma exceção que preserva a pureza das sementes mesmo no vaso perfurado, sem que isso reflita qualquer distinção quanto a Shabat.
"'Exceto quanto a tornar sementes aptas'" — as sementes semeadas dentro dele: num vaso perfurado, elas não recebem o estatuto de aptas a receber impureza; e num vaso não perfurado, recebem esse estatuto, pois o conteúdo é considerado desligado da terra. E é isso que Rabi Shimon lhe diz na baraita — e assim se lê: "Rabi Shimon diz: não há diferença entre vaso perfurado e não perfurado..." — pois, segundo os Sábios, há muitas outras diferenças, já que responsabilizam quanto ao perfurado por causa de Shabat e isentam quanto ao não perfurado. "'Para todos os assuntos'" — para Shabat, e para adquirir por puxar (מְשִׁיכָה) e não por dinheiro, e para escrever um prosbul, que só se escreve sobre bens de raiz. "'Que se semeia'" — do modo como uma pessoa normalmente tira a semente para semear — frase que serve para excluir qualquer coisa ligada à terra, por menor que seja; para isso serve a repetição de "semeadura" no verso; mas o vaso não perfurado é totalmente desligado da terra, sem exceção alguma.
Perguntou-lhe certo ancião a Rabi Zeira: quanto à raiz de uma planta situada em frente ao furo do vaso, o que diria Rabi Shimon a meu respeito — considera-se ligada à terra mesmo com um furo pequeno, já que a raiz sente diretamente a umidade através dele? Rabi Zeira ficou em silêncio e não lhe disse nada. Certa vez o ancião encontrou-o sentado, dizendo: e Rabi Shimon concorda que, se o vaso foi perfurado na medida de sua purificação , é considerado ligado à terra. Disse-lhe o ancião: agora, quanto à raiz em frente ao furo eu te perguntei, e não me disseste nada; e quanto a se foi perfurado na medida de sua purificação, seria preciso perguntar — pois esse caso é óbvio?!
Um ancião levanta uma dúvida específica e sutil: quando a raiz de uma planta está posicionada diretamente sobre um furo pequeno do vaso — de modo que ela, e só ela, tem contato direto com a umidade da terra através daquele ponto —, isso bastaria, segundo Rabi Shimon, para considerar toda a planta ligada à terra, mesmo que o furo em si seja pequeno demais para qualificar o vaso inteiro como "perfurado"? Rabi Zeira, sem resposta pronta, cala-se. Encontrado depois ensinando uma regra distinta — que Rabi Shimon concorda que um furo grande o bastante para purificar o vaso (isto é, do tamanho que o desqualifica como recipiente, cerca de uma azeitona) já o torna ligado à terra —, é confrontado pelo ancião: essa resposta trata do caso óbvio e maior (furo grande, em qualquer posição), não do caso sutil e menor que fora perguntado (furo pequeno, mas exatamente sob a raiz). A dúvida original permanece sem resposta explícita nesta troca.
"'O que diria Rabi Shimon'" — a dúvida é: concordaria ele que a planta é considerada ligada à terra, já que essa raiz está diretamente ligada à terra através do furo, e se alguém a arrancasse em Shabat seria responsável? "'Certa vez'" — isto é, noutra ocasião. "'Se foi perfurado'" — o vaso, na medida de sua purificação, de modo que, se estava impuro, se purifica com essa quebra — e essa é a mesma medida de fazer uma azeitona sair, conforme ensinamos em Massechet Kelim (3:1): um vaso de barro feito para alimentos tem sua medida em azeitonas — e Rabi Shimon concorda nisso, que se considera ligadas à terra todas as sementes que estão dentro dele, pois o vaso já não é mais vaso. "'Seria preciso perguntar se foi perfurado na medida de sua purificação'" — pois deveríamos ter ficado em dúvida apenas quanto àqueles furos que não estão em frente à raiz, e tu me resolveste a questão dizendo que todos esses casos são considerados ligados à terra — sem responder à minha pergunta original, mais difícil.
Disse Abaye: e, se algo foi dito em nome de Rabi Zeira a esse respeito, foi dito assim: e Rabi Shimon concorda que, se o vaso foi perfurado abaixo da altura de um furo que retém um quarto de log — isto é, na parte de baixo, onde o vaso já não retém sequer essa quantidade —, deixa de ter estatuto de vaso.
Abaye corrige a transmissão do ensinamento atribuído a Rabi Zeira: não se trata da posição do furo em relação à raiz, mas de sua altura na parede do vaso. Um vaso de barro comum, para reter líquido, precisa ter capacidade de pelo menos um quarto de log a partir do fundo; se o furo está abaixo dessa linha — de modo que o vaso não consegue mais reter nem essa quantidade mínima —, ele deixa de ter qualquer estatuto de recipiente, e tudo o que está dentro dele é considerado ligado à terra, mesmo segundo Rabi Shimon. Essa reformulação substitui o critério da posição da raiz pelo critério, mais objetivo, da altura do furo.
"'Se algo foi dito em nome de Rabi Zeira'" — que Rabi Shimon concorda quanto a algum furo. "'Foi dito assim'" — que, se foi perfurado abaixo da altura necessária para reter um quarto de log, de modo que o vaso não retém um quarto de log a partir do furo para baixo — pois abaixo dessa quantidade não é considerado vaso.
Disse Rava: cinco medidas há quanto a vasos de barro: perfurado na medida que faz líquido sair , um furo bem fino, — o vaso é puro de receber impureza como um caco, mas ainda é vaso para santificar nele as águas de purificação da vaca vermelha; perfurado na medida que faz líquido entrar , um furo um pouco maior, — é puro de santificar nele as águas de purificação, mas ainda é vaso para tornar sementes nele aptas a receber impureza; perfurado na medida de uma raiz pequena , maior ainda, — é puro de tornar sementes nele aptas, mas ainda é vaso para receber nele azeitonas; perfurado na medida que faz azeitonas saírem — é puro de receber nele azeitonas, mas ainda é vaso para receber nele romãs; perfurado na medida que faz romãs saírem — é puro de tudo , sem estatuto algum de vaso. E se o vaso foi cercado por uma tampa selada , estando numa tenda com um cadáver, não se purifica até que a maior parte dele se quebre.
Rava ensina uma escala progressiva de cinco furos, cada um purificando o vaso de um grau de impureza sucessivo, enquanto ele ainda retém aptidão para o grau seguinte, mais exigente: (1) um furo mínimo, que só deixa vazar líquido, já basta para que o vaso — se fosse um caco reaproveitado — não receba mais a impureza específica de caco, mas ele continua apto, como vaso pleno, para santificar as águas de purificação com cinzas da vaca vermelha; (2) um furo maior, por onde o líquido também consegue entrar, já o desqualifica dessa santificação, mas ele ainda serve para tornar sementes plantadas nele aptas a receber impureza (isto é, ainda não é considerado "vaso perfurado" com o estatuto de terra); (3) um furo do tamanho de uma raiz pequena o desqualifica também disso, mas ele ainda pode conter azeitonas com estatuto de vaso; (4) um furo que deixa azeitonas saírem o desqualifica disso, mas ainda serve para romãs; (5) e um furo que deixa romãs saírem o purifica completamente, sem estatuto algum de recipiente — salvo se for reaproveitado como caco. Uma ressalva final: se o vaso estiver hermeticamente selado (tampa vedada, "tzamid patil") dentro de uma tenda que contém um cadáver, protegendo tudo o que está dentro dele da impureza, esse efeito protetor só cessa quando a maior parte do vaso se quebra — não bastando o furo de romã.
Ensina-se: "'cinco medidas'". "'Na medida que faz líquido sair'" — um furo muito fino, por onde o líquido sai. "'É puro de receber impureza como um caco'" — isto é, se é um vaso inteiro, não se purifica só com isso; mas se era um pedaço de vaso quebrado e ainda apto para uso — que recebe impureza depois de quebrado, conforme ensinamos (Chulin 54b): "elas, e seus fundos, e suas paredes, quando assentados sem apoio..." entre os sinais de treifá —, e esse caco foi depois perfurado na medida que faz líquido sair, já não é mais impuro por lei de caco. "'Caco'" — um pedaço de vaso quebrado; e mais adiante a Guemará explica o motivo pelo qual um caco de vaso não é valioso o bastante para ser guardado depois de perfurado — dizendo-se apenas "traga outro caco" para pôr debaixo dele e recolher o gotejar que escorre deste; mas se era um vaso inteiro e foi perfurado só um pouco, não se descarta, mas se diz "traga outro caco" e coloca-se debaixo dele, preservando o vaso original. "'Mas ainda é vaso para santificar nele as águas de purificação'" — isto é, se era um vaso inteiro e foi perfurado na medida que faz líquido sair, ainda tem sobre si toda a lei de vaso, inclusive para santificar nele as águas de purificação com as cinzas da vaca vermelha, pois se exige um vaso apto, conforme está escrito (Números 19): "água viva, num vaso" — e tanto mais que ainda recebe impureza. "'Perfurado na medida que faz líquido entrar'" — que, se o assenta sobre a água, a água entra dentro dele — um furo um pouco mais largo que o anterior. "'É puro de santificar nele as águas de purificação'" — "puro" aqui não é exato, mas como na expressão "o dia clareou" (Berachot 2a) — isto é, deixa de ter sobre si a lei de vaso quanto às águas de purificação. "'Mas ainda é vaso quanto a tornar sementes aptas'" — as sementes semeadas dentro dele, pois são consideradas desligadas da terra, mesmo segundo os Sábios, já que esse furo não é suficiente para sentir a umidade da terra. "'Perfurado na medida de uma raiz pequena'" — um furo maior que o que faz líquido entrar. "'É puro de tornar sementes aptas'" — segundo os Sábios, pois agora é considerado vaso perfurado como a própria terra. "'Mas ainda é vaso para receber nele azeitonas'" — pois essa é a medida de impureza de todo vaso de barro feito para alimentos em geral, enquanto não foi destinado especificamente a romãs, e ainda recebe impureza. "'É puro de receber nele azeitonas'" — isto é, de receber mais impureza por lei de vaso de barro comum, cuja medida é de azeitonas; e se havia impureza sobre ele, purifica-se dela. "'Mas ainda é vaso para receber nele romãs'" — pois, se voltar a ser destinado a romãs, recebe impureza dali em diante; ou, se já havia sido destinado a romãs desde o início, não se purifica por esse furo. "'É puro de tudo'" — quanto à lei de vaso, a menos que o guarde como caco, caso em que se torna impuro por lei de caco. "'E se foi cercado por uma tampa selada'" — e o vaso está numa tenda com um cadáver, a impureza não entra nele pelo furo, e o vaso protege tudo o que está dentro dele. "'Até que a maior parte se quebre'" — pois de todo vaso está escrito "aberto" (ibid.) — pela abertura entra nele impureza, e não por seus furos.
Disse Rav Asi: ouvi a tradição de que a medida de purificação plena de um vaso de barro é a que faz uma romã sair. Disse-lhe Rava: talvez não tenhas ouvido isso senão quanto a um vaso cercado por tampa selada. Pergunta a Guemará: mas não foi o próprio Rava quem disse que um vaso cercado por tampa selada só se purifica até que a maior parte dele se quebre — e não bastaria então o furo de romã?! Responde a Guemará: não é difícil, …
Rav Asi cita uma tradição segundo a qual a medida que purifica completamente um vaso de barro, sem qualquer estatuto restante, é a de um furo grande o bastante para deixar sair uma romã — a quinta e última das medidas de Rava. Rava, porém, aponta que essa tradição de Rav Asi provavelmente se referia apenas ao caso do vaso cercado por tampa selada numa tenda com um cadáver — mas isso gera uma contradição imediata contra o próprio ensinamento de Rava, citado no beat anterior: ali, Rava exigira que, para um vaso com tampa selada, a maior parte dele se quebrasse antes que ele deixasse de proteger o que está dentro — um padrão muito mais exigente do que um simples furo de romã. A Guemará começa a responder "não é difícil —", indicando que os dois ensinamentos de Rava tratam de situações distintas — mas a folha termina exatamente aqui, no meio dessa resposta. Confirmado via Sefaria, 96a prossegue imediatamente completando a resolução: "isto — a medida do furo de romã — refere-se a vasos grandes; e isto — a exigência de quebrar a maior parte — refere-se a vasos pequenos", distinguindo os dois ensinamentos pelo tamanho do vaso em questão.