A Mishná ensina que o noivo está isento da leitura do Shemá na primeira noite até o final do Shabat, se não consumou o casamento, trazendo o caso de Rabán Gamliel, que leu o Shemá na sua própria noite de núpcias e respondeu aos discípulos que não abriria mão do reino dos céus nem por uma hora. A halachá parte dessa isenção para uma questão distinta: já que o noivo tem permissão de consumar o casamento na própria noite, isso significaria que é permitido fazê-lo mesmo quando essa noite cai em Shabat? A discussão examina o problema do ferimento (chaburá) que o ato provoca na virgem, compara o caso a quebrar um barril lacrado para comer figos secos e a espremer um abscesso em Shabat, relata a disputa entre Rav e Shmuel sobre a permissão — com a morte de Rav e o lamento de Shmuel diante dela —, distingue entre halachá dita apenas em teoria e halachá para a prática, e fecha com o costume de Rabi Yanai, a pergunta sobre a segunda relação, os dias de purificação intermediários e a impossibilidade de distinguir o sangue de nidá do sangue da virgindade.
O noivo está isento da leitura do Shemá na primeira noite, até o final do Shabat, se não realizou o ato (a consumação do casamento). Houve um caso com Rabán Gamliel, que se casou e leu o Shemá na primeira noite. Disseram-lhe os seus discípulos: não nos ensinaste, nosso mestre, que o noivo está isento? Disse-lhes: não vos ouço para anular de mim o reino dos céus nem por uma hora.
Rabi Elazar ben Antignos, em nome de Rabi Elazar bei Rabi Yanai: isso quer dizer que é permitido realizar o ato conjugal pela primeira vez (a consumação do casamento com uma virgem) em Shabat — pois a Mishná fala do noivo que se casou na véspera do Shabat e permanece isento até o final do próprio Shabat, o que supõe que ele possa consumar o casamento dentro dele. Disse Rabi Chagai diante de Rabi Yossé: explica-se isso a respeito de uma viúva, que ao se casar não provoca ferimento (pois já não é virgem, e o ato não causa sangramento que violaria as leis de Shabat). Disse-lhe Rabi Yossé: mas não aprendemos na Mishná que a isenção dura quatro noites (para o caso da virgem)? Podes tu dizer que as quatro noites referem-se apenas ao caso da viúva ? Não — elas se referem à virgem, o que prova que a inferência de Rabi Elazar ben Antignos vale também para ela.
Disse Rabi Yaakov bar Zavdi: apresentei esta dificuldade diante de Rabi Yossé: qual é a diferença entre esse caso e o de quem quebra o barril (lacrado com barro ou cera) para comer dele figos secos (o que é permitido em Shabat, mesmo formando, ao quebrar, uma espécie de nova abertura)? Disse-lhe: mas não se ensina, a respeito desse caso, que é permitido desde que não tenha a intenção de fazer dele um recipiente (ou seja, desde que não vise a criar uma abertura útil, mas apenas alcançar o alimento)? E aqui (no caso da consumação do casamento), aquele que tem a intenção de realizar o ato conjugal (sabendo que provocará o ferimento) é como aquele que tem a intenção de fazer dele um recipiente — e por isso deveria ser proibido. Rav Yitschak bar Rav Meshirshiyá, ou outros dizem que foi ele quem perguntou: qual é a diferença entre esse caso e o de espremer um abscesso em Shabat (permitido para aliviar a dor)? Disse-lhe: mas não se ensina, a respeito desse caso, que é permitido desde que não tenha a intenção de fazer dele uma boca (uma abertura permanente)? E aqui, aquele que tem a intenção de realizar o ato conjugal é como aquele que tem a intenção de fazer dele um recipiente — logo, também deveria ser proibido.
Foi ensinado: não realize o homem o ato conjugal, de início, em Shabat, porque ele provoca um ferimento; mas outros permitem. Disse Rabi Yossé bei Rabi Avun: a razão dos outros (que permitem) é que ele tem a intenção apenas do seu trabalho (o próprio ato conjugal, que é permitido), e o ferimento se produz por si mesmo (como efeito colateral não intencional, o que é permitido em Shabat). Assi disse: é proibido. Biniamin Guinzakaiá saiu e disse em nome de Rav: é permitido. Ouviu isso Shmuel e indignou-se contra ele (Rav), e este morreu; e Shmuel então proclamou sobre ele: bendito seja Aquele que o feriu (interpretando a morte de Rav como um castigo por essa opinião). Mas sobre Rav se proclama: não sucederá ao justo mal algum (Provérbios 12:21) — sugerindo, ao contrário, que a morte de Rav não teve relação com sua opinião, e que Shmuel errou ao atribuí-la a isso.
Shmuel disse: toda aquela halachá que está no início do último capítulo do tratado de Nidá (sobre a permissão de consumar o casamento em Shabat) vale para o estudo teórico da halachá, mas não para a prática (não se deve agir conforme ela). Rabi Yanai fugia de casar em Shabat mesmo com uma menina que ainda não havia chegado ao seu tempo de ver sangue e portanto não podia ficar nidá ao se casar. Perguntaram diante de Rabi Yochanan: o que se diz sobre a permissão de realizar a segunda relação (depois da primeira, também em Shabat)? Disseram: quanto a atribuir o sangramento subsequente ao sangue do ferimento (e não a nidá), ele não decidiu; mas quanto a realizar a segunda relação, ele decidiu que é proibido. Por que isso é necessário a Rabi Yochanan proibir também quando já vieram para ela os dias de interrupção, os dias de pureza, entre uma relação e outra? Porque, mesmo assim, há dúvida quanto à origem do sangramento. Disse Rabi Abahu: eu era o padrinho de casamento de Rabi Shimon bar Aba; perguntei a Rabi Elazar o que se diz sobre realizar a segunda relação, e ele permitiu-a a ele, pois Rabi Elazar opinava conforme aquilo que disse Shmuel. Pois Shmuel disse: numa brecha apertada (estreita, já parcialmente aberta) se entra em Shabat, mesmo para continuar a abertura de fendas — ou seja, uma vez já iniciado o processo, é permitido prosseguir. Disse Rabi Chagai: eu era o padrinho de casamento de Rabi Shmuel Kapodkiá; perguntei a Rabi Yoshiyá, e ele permitiu-o. Perguntei a Rabi Shmuel bar Rav Yitschak; disse-me: mas então, qual é o sangue de nidá e qual é o sangue da virgindade (como distingui-los)? Foi ensinado: a noiva está proibida à sua casa (ao seu marido, para relações) por todos os sete dias após a primeira relação, e é proibido tomar dela o cálice da bênção (ela não deve segurar o cálice do Birkat Hamazon, pois se presume que ainda sangra) — palavras de Rabi Eliezer. Qual é a razão de Rabi Eliezer? Porque é impossível que não saia sangue de nidá junto com o sangue da virgindade — por isso, durante os sete dias, presume-se sempre a possível presença de sangue de nidá.
O Talmud Bavli discute a mesma isenção do noivo na noite de núpcias, incluindo a distinção entre desposar uma virgem (isento) e uma viúva (obrigado), a partir da mesma Mishná.
Ver também no Talmud Bavli · Berachot 11aEsta é a sexta halachá do Perek Bet do Talmud Yerushalmi, Massechet Berachot. Ela comenta a Mishná sobre o noivo isento da leitura do Shemá na primeira noite — ilustrada pelo episódio de Rabán Gamliel, que preferiu não abrir mão do reino dos céus nem por uma hora — mas desvia o eixo da discussão: já que a isenção da Mishná pressupõe que o noivo possa consumar o casamento dentro do próprio Shabat, os sábios perguntam se isso é de fato permitido, dado o ferimento que o ato causa a uma virgem. A sugya percorre analogias com outras permissões de Shabat (quebrar um barril lacrado, espremer um abscesso), uma baraita que registra a disputa entre quem proíbe e quem permite, o episódio trágico da disputa entre Rav e Shmuel sobre o tema — que terminou com a morte de Rav e o lamento (mal-empregado, segundo o texto) de Shmuel — e fecha com uma cadeia de tradições sobre a segunda relação, os dias de purificação e a impossibilidade prática de distinguir o sangue da nidá do sangue da virgindade, o que fundamenta a proibição de sete dias imposta à noiva. O tema da isenção do noivo, com a mesma distinção entre virgem e viúva, também é discutido no Talmud Bavli, Berachot 11a, já traduzido nesta biblioteca.