Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Bet · Halachá 6
בְּרָכוֹת

O noivo isento do Shemá na primeira noite, e a discussão sobre consumar o casamento com uma virgem em Shabat

Perek Bet, Halachá 6 (completa — sexta halachá do capítulo)

A Mishná ensina que o noivo está isento da leitura do Shemá na primeira noite até o final do Shabat, se não consumou o casamento, trazendo o caso de Rabán Gamliel, que leu o Shemá na sua própria noite de núpcias e respondeu aos discípulos que não abriria mão do reino dos céus nem por uma hora. A halachá parte dessa isenção para uma questão distinta: já que o noivo tem permissão de consumar o casamento na própria noite, isso significaria que é permitido fazê-lo mesmo quando essa noite cai em Shabat? A discussão examina o problema do ferimento (chaburá) que o ato provoca na virgem, compara o caso a quebrar um barril lacrado para comer figos secos e a espremer um abscesso em Shabat, relata a disputa entre Rav e Shmuel sobre a permissão — com a morte de Rav e o lamento de Shmuel diante dela —, distingue entre halachá dita apenas em teoria e halachá para a prática, e fecha com o costume de Rabi Yanai, a pergunta sobre a segunda relação, os dias de purificação intermediários e a impossibilidade de distinguir o sangue de nidá do sangue da virgindade.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

חָתָן פָּטוּר מִקִּרְיַת שְׁמַע לַיְלָה רִאשׁוֹן עַד מוֹצָאֵי שַׁבָּת אִם לֹא עָשָׂה מַעֲשֶׂה. מַעֲשֶׂה בְרַבָּן גַּמְלִיאֵל שֶׁנָּשָׂא וְקָרָא לַיְלָה הָרִאשׁוֹן. אָמְרוּ לוֹ תַלְמִידָיו לִימַּדְתָּנוּ רַבֵּינוּ שֶׁחָתָן פָּטוּר. אָמַר לָהֶם אֵינִי שׁוֹמֵעַ לָכֶם לְבַטֵּל מִמֶּנִּי מַלְכוּת שָׁמַיִם אֲפִילוּ שָׁעָה אַחַת.

O noivo está isento da leitura do Shemá na primeira noite, até o final do Shabat, se não realizou o ato (a consumação do casamento). Houve um caso com Rabán Gamliel, que se casou e leu o Shemá na primeira noite. Disseram-lhe os seus discípulos: não nos ensinaste, nosso mestre, que o noivo está isento? Disse-lhes: não vos ouço para anular de mim o reino dos céus nem por uma hora.

A Halachá · הֲלָכָה ו

01A inferência de Rabi Elazar ben Antignos: é permitido consumar o casamento em Shabat; a objeção da viúva
Yerushalmi · Berachot 2:6
רִבִּי אֶלְעָזָר בֶּן אַנְטִיגְנֹס בְּשֵׁם רִבִּי אֶלְעָזָר בֵּי רִבִּי יַנַּאי זֹאת אוֹמֶרֶת שֶּׁמּוּתָּר לִבְעוֹל בְּעִילָה בִּתְחִילָּה בְשַׁבָּת. אָמַר רִבִּי חַגַּיי קוֹמֵי רִבִּי יוֹסֵה תִּיפְתַּר בְּאַלְמָנָה שֶׁאֵינָהּ עוֹשֶׂה חַבּוּרָה. אָמַר לֵיהּ וְהָא תַנִּינָן אַרְבָּעָה לֵילוֹת. אִית לָךְ לְמֵימַר אַרְבָּעָה לֵיְלוֹת בְּאַלְמָנָה.

Rabi Elazar ben Antignos, em nome de Rabi Elazar bei Rabi Yanai: isso quer dizer que é permitido realizar o ato conjugal pela primeira vez (a consumação do casamento com uma virgem) em Shabat — pois a Mishná fala do noivo que se casou na véspera do Shabat e permanece isento até o final do próprio Shabat, o que supõe que ele possa consumar o casamento dentro dele. Disse Rabi Chagai diante de Rabi Yossé: explica-se isso a respeito de uma viúva, que ao se casar não provoca ferimento (pois já não é virgem, e o ato não causa sangramento que violaria as leis de Shabat). Disse-lhe Rabi Yossé: mas não aprendemos na Mishná que a isenção dura quatro noites (para o caso da virgem)? Podes tu dizer que as quatro noites referem-se apenas ao caso da viúva ? Não — elas se referem à virgem, o que prova que a inferência de Rabi Elazar ben Antignos vale também para ela.

02A comparação com quebrar um barril lacrado para comer figos secos, e com espremer um abscesso em Shabat
Yerushalmi · Berachot 2:6
אָמַר רִבִּי יַעֲקֹב בַּר זַבְדִּי קַשְׁיָיתָהּ קוֹמֵי רִבִּי יוֹסֵי מַה בֵינָהּ לְבֵין שׁוֹבֵר אֶת הֶחָבִית לֶאֱכוֹל מִמֶּנָּה גְרוֹגֶרוֹת. אָמַר לֵיהּ וָמוֹר דְּבַתְרָהּ וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִתְכַּוֵּין לַעֲשׂוֹתָהּ כֵּלִי. וְכַאן שֶׁמִּתְכַּוֵּין לַעֲשׂוֹתָהּ בְּעוּלָה כְּמִי שֶׁמִּתְכַּוֵּין לַעֲשׂוֹתָהּ כֵּלִי. רַב יִצְחָק בַּר רַב מְשִׁירְשִׁיָּא אוֹ מַקְשֵׁי מַה בֵינָהּ לְמֵיפִיס מוּרְסָא בְשַׁבָּת. אָמַר לֵיהּ וָמוֹר דְּבַתְרָהּ וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִתְכַּוֵּין לַעֲשׂוֹתָהּ פֶּה. וְכַאן מִתְכַּוֵּין שֶׁהוּא מִתְכַּוֵּין לַעֲשׂוֹתָהּ בְּעוּלָה כְּמִי שֶׁהוּא מִּתְכַּוֵּין לַעֲשׂוֹתָהּ כֵּלִי.

Disse Rabi Yaakov bar Zavdi: apresentei esta dificuldade diante de Rabi Yossé: qual é a diferença entre esse caso e o de quem quebra o barril (lacrado com barro ou cera) para comer dele figos secos (o que é permitido em Shabat, mesmo formando, ao quebrar, uma espécie de nova abertura)? Disse-lhe: mas não se ensina, a respeito desse caso, que é permitido desde que não tenha a intenção de fazer dele um recipiente (ou seja, desde que não vise a criar uma abertura útil, mas apenas alcançar o alimento)? E aqui (no caso da consumação do casamento), aquele que tem a intenção de realizar o ato conjugal (sabendo que provocará o ferimento) é como aquele que tem a intenção de fazer dele um recipiente — e por isso deveria ser proibido. Rav Yitschak bar Rav Meshirshiyá, ou outros dizem que foi ele quem perguntou: qual é a diferença entre esse caso e o de espremer um abscesso em Shabat (permitido para aliviar a dor)? Disse-lhe: mas não se ensina, a respeito desse caso, que é permitido desde que não tenha a intenção de fazer dele uma boca (uma abertura permanente)? E aqui, aquele que tem a intenção de realizar o ato conjugal é como aquele que tem a intenção de fazer dele um recipiente — logo, também deveria ser proibido.

03A baraita: proibido consumar o casamento em Shabat por causa do ferimento; a disputa entre Rav e Shmuel; a morte de Rav
Yerushalmi · Berachot 2:6
תַּנִּי לֹא יִבְעוֹל אָדָם בְּעִילָה לְכַתְּחִילָּה בְשַׁבָּת מִפְּנֵי שֶׁהוּא עוֹשֶׂה חַבּוּרָה וַאֲחֵרִים מַתִּירִין. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי אָבוּן טַעֲמוֹן דַּאֲחֵרִים לִמְלַאכְתּוֹ הוּא מִתְכַּוֵּין. מֵאֵילֶיהָ נַעֲשֶׂה חַבּוּרָה. אַסִּי אָמַר אָסוּר. בִּנְיָמִן גִּנְזַכַּיּיָה נָפַק וָמַור מִשְׁמֵיהּ דְּרַב מוּתָּר. שָׁמַע שְׁמוּאֵל וְאִיקְפִּד עִילוֹי וּמִית וְקָרֵי עִילוֹי בָּרוּךְ שֶׁנָּגְפּוֹ. וְעַל רַב קָרֵי לֹא יְאוּנֶּה לַצַּדִּיק כָּל אָוֶן.

Foi ensinado: não realize o homem o ato conjugal, de início, em Shabat, porque ele provoca um ferimento; mas outros permitem. Disse Rabi Yossé bei Rabi Avun: a razão dos outros (que permitem) é que ele tem a intenção apenas do seu trabalho (o próprio ato conjugal, que é permitido), e o ferimento se produz por si mesmo (como efeito colateral não intencional, o que é permitido em Shabat). Assi disse: é proibido. Biniamin Guinzakaiá saiu e disse em nome de Rav: é permitido. Ouviu isso Shmuel e indignou-se contra ele (Rav), e este morreu; e Shmuel então proclamou sobre ele: bendito seja Aquele que o feriu (interpretando a morte de Rav como um castigo por essa opinião). Mas sobre Rav se proclama: não sucederá ao justo mal algum (Provérbios 12:21) — sugerindo, ao contrário, que a morte de Rav não teve relação com sua opinião, e que Shmuel errou ao atribuí-la a isso.

04Shmuel: essa halachá vale só em teoria, não na prática; o costume de Rabi Yanai; a segunda relação e os dias de purificação intermediários; o sangue de nidá e o sangue da virgindade
Yerushalmi · Berachot 2:6
שְׁמוּאֵל אָמַר כָּל הַהִיא הִילְכְתָא דְּרֵישֵׁיהּ דְּפִירְקָא אֲחָרִיָיא דְנִידָּה לַהֲלָכָה אֲבָל לֹא לְמַעֲשֶׂה. רִבִּי יַנַּיי עָרַק אֲפִילוּ מִתִּינּוֹקֶת שֶׁלֹּא הִגִּיעַ זְמַנָּהּ לִרְאוֹת וְנִישְׂאֵת. בָּעוּן קוֹמוֹי רִבִּי יוֹחָנָן מַהוּ לִבְעוֹל בְּעִילָה שְׁנִיָיה. אָמְרִין לִתְלוֹת בְּדַם הַמַּכָּה לֹא הוֹרֵי וְלִבְעוֹל בְּעִילָה שְׁנִיָיה הוּא מוֹרֵייא. מַה צְרִיכָה לָהּ בְּשֶׁבָּאוּ לֵיהּ יְמֵי הֶפְסֵק יְמֵי טָהֳרָה בֵּנְתַיִם. אָמַר רִבִּי אַבָּהוּ שׁוּשְׁבִּינֵיהּ דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן בַּר אַבָּא הֲוֵינָא שְׁאֵלִית לְרִבִּי אֶלְעָזָר מַהוּ לִבְעוֹל בְּעִילָה שְׁנִיָיה וְשָׁרָא לֵיהּ דְּהוּא סָבַר כַּהֲדָא דִשְׁמוּאֵל. דִּשְׁמוּאֵל אָמַר פִּירְצָה דְחוּקָה נִכְנָסִין בָּהּ בְּשַׁבָּת אֲפִילוּ מִשְׁרָת צְרוֹרוֹת. אָמַר רִבִּי חַגַּי שׁוּשְׁבִּינֵיהּ דְּרִבִּי שְׁמוּאֵל קַפּוֹדְקִיָּא הֲוֵינָא שְׁאֵילִית לְרִבִּי יֹאשִׁיָּה וְשָׁרַע מִינֵיהּ. שְׁאֵילִית לְרִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רַב יִצְחָק אָמַר לִי מֵעַתָּה אֵי זֶה דַם נִידָּה וְאֵי זֶה דַם בְּתוּלִים. תַּנִּי כַּלָּה אֲסוּרָה לְבֵיתָהּ כָּל שִׁבְעָה וְאָסוּר לִיטוֹל מִמֶּנָּה כוֹס שֶׁל בְּרָכָה דִּבְרֵי רִבִּי אֱלִיעֶזֶר. מַאי טַעֲמָא דְּרִבִּי אֱלִיעֶזֶר אִי אֶיפְשַׁר שֶׁלֹּא יֵצֵא דַם נִידָּה עִם דַּם בְּתוּלִים.

Shmuel disse: toda aquela halachá que está no início do último capítulo do tratado de Nidá (sobre a permissão de consumar o casamento em Shabat) vale para o estudo teórico da halachá, mas não para a prática (não se deve agir conforme ela). Rabi Yanai fugia de casar em Shabat mesmo com uma menina que ainda não havia chegado ao seu tempo de ver sangue e portanto não podia ficar nidá ao se casar. Perguntaram diante de Rabi Yochanan: o que se diz sobre a permissão de realizar a segunda relação (depois da primeira, também em Shabat)? Disseram: quanto a atribuir o sangramento subsequente ao sangue do ferimento (e não a nidá), ele não decidiu; mas quanto a realizar a segunda relação, ele decidiu que é proibido. Por que isso é necessário a Rabi Yochanan proibir também quando já vieram para ela os dias de interrupção, os dias de pureza, entre uma relação e outra? Porque, mesmo assim, há dúvida quanto à origem do sangramento. Disse Rabi Abahu: eu era o padrinho de casamento de Rabi Shimon bar Aba; perguntei a Rabi Elazar o que se diz sobre realizar a segunda relação, e ele permitiu-a a ele, pois Rabi Elazar opinava conforme aquilo que disse Shmuel. Pois Shmuel disse: numa brecha apertada (estreita, já parcialmente aberta) se entra em Shabat, mesmo para continuar a abertura de fendas — ou seja, uma vez já iniciado o processo, é permitido prosseguir. Disse Rabi Chagai: eu era o padrinho de casamento de Rabi Shmuel Kapodkiá; perguntei a Rabi Yoshiyá, e ele permitiu-o. Perguntei a Rabi Shmuel bar Rav Yitschak; disse-me: mas então, qual é o sangue de nidá e qual é o sangue da virgindade (como distingui-los)? Foi ensinado: a noiva está proibida à sua casa (ao seu marido, para relações) por todos os sete dias após a primeira relação, e é proibido tomar dela o cálice da bênção (ela não deve segurar o cálice do Birkat Hamazon, pois se presume que ainda sangra) — palavras de Rabi Eliezer. Qual é a razão de Rabi Eliezer? Porque é impossível que não saia sangue de nidá junto com o sangue da virgindade — por isso, durante os sete dias, presume-se sempre a possível presença de sangue de nidá.

Nota

Esta é a sexta halachá do Perek Bet do Talmud Yerushalmi, Massechet Berachot. Ela comenta a Mishná sobre o noivo isento da leitura do Shemá na primeira noite — ilustrada pelo episódio de Rabán Gamliel, que preferiu não abrir mão do reino dos céus nem por uma hora — mas desvia o eixo da discussão: já que a isenção da Mishná pressupõe que o noivo possa consumar o casamento dentro do próprio Shabat, os sábios perguntam se isso é de fato permitido, dado o ferimento que o ato causa a uma virgem. A sugya percorre analogias com outras permissões de Shabat (quebrar um barril lacrado, espremer um abscesso), uma baraita que registra a disputa entre quem proíbe e quem permite, o episódio trágico da disputa entre Rav e Shmuel sobre o tema — que terminou com a morte de Rav e o lamento (mal-empregado, segundo o texto) de Shmuel — e fecha com uma cadeia de tradições sobre a segunda relação, os dias de purificação e a impossibilidade prática de distinguir o sangue da nidá do sangue da virgindade, o que fundamenta a proibição de sete dias imposta à noiva. O tema da isenção do noivo, com a mesma distinção entre virgem e viúva, também é discutido no Talmud Bavli, Berachot 11a, já traduzido nesta biblioteca.