Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Bet · Halachá 5
בְּרָכוֹת

Os trabalhadores que leem o Shemá no alto da árvore ou da construção, e as regras de concentração para quem carrega fardos, moedas ou está atarefado

Perek Bet, Halachá 5 (completa — quinta halachá do capítulo)

A Mishná ensina que os artesãos podem ler o Shemá no topo da árvore ou no topo da fileira de pedras em construção — algo que não lhes é permitido fazer para orar a Amidá, que exige descer ao chão. A halachá abre precisando a Mishná: são os trabalhadores horistas que leem no alto da árvore, e os artesãos no alto da construção; traz a baraita paralela sobre orar no alto da oliveira ou da figueira, árvores de copa mais firme, mas descer para as demais; trata do carregador que pode ler o Shemá com o fardo nos ombros, mas não deve começar a lê-lo justamente no momento de carregar ou descarregar, por falta de serenidade; proíbe fazer sinais com os olhos durante a leitura; estabelece a fórmula abreviada do Birkat Hamazon para trabalhadores pagos pelo patrão, em contraste com a fórmula completa quando comem à mesa dele; discute se é permitido orar com uma moeda na mão, com o caso de Rabi Yassá e a história de Rabi Chizkiyá e Rabi Yaakov bar Achá que perderam moedas amarradas às pressas; e fecha com a questão de saber se a leitura do Shemá e a oração exigem verdadeira concentração do coração, incluindo o caso de quem carrega água da pureza sobre os ombros.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

הָאוּמָנִין קוֹרִין בְּרֹאשׁ הָאִילָן אוֹ בְרֹאשׁ הַנִּדְבָּךְ מַה שֶׁאֵין רְשָאִין לַעֲשׂוֹת כֵּן בִּתְפִילָּה.

Os artesãos leem o Shemá no topo da árvore ou no topo da fileira de pedras em construção — o que não lhes é permitido fazer desse modo na oração (a Amidá).

A Halachá · הֲלָכָה ה

01Precisando a Mishná: os horistas no alto da árvore, os artesãos no alto da construção
Yerushalmi · Berachot 2:5
[כֵּינִי] מַתְנִיתָה הַפּוֹעֲלִין קוֹרִין בְּרֹאשׁ הָאִילָן וְהָאוּמָנִין בְּרֹאשׁ הַנִּדְבָּךְ.

Assim deve ser entendida a Mishná: os trabalhadores horistas (pagos por hora ou por dia) leem o Shemá no topo da árvore, e os artesãos o leem no topo da fileira de pedras em construção.

02A oliveira e a figueira são exceção para a oração, por serem menos trabalhosas de descer
Yerushalmi · Berachot 2:5
וְתַנִּי כֵן מִתְפַּלְלִין בְּרֹאשׁ הַזַּיִת וּבְרֹאשׁ הַתְּאֵנָה. הָא בִשְׁאָר כָּל הָאִילָנוֹת יוֹרֵד וּמִתְפַּלֵּל לְמַטָּן. וּבַעַל הַבַּיִת לְעוֹלָם יוֹרֵד וּמִתְפַּלֵּל לְמַטָּן. וְלָמָּה בְּרֹאשׁ הַזַּיִת וּבְרֹאשׁ הַתְּאֵינָה. רִבִּי אַבָּא וְרִבִּי סִימוֹן תְּרַוַּיְהוּן אָמְרִין מִפְּנֵי שֶׁטִּרְחוֹתָן מְרוּבָּה.

E foi também ensinado assim: oram a Amidá no topo da oliveira e no topo da figueira. Portanto, quanto às demais árvores, o trabalhador desce e ora embaixo. E o dono da casa sempre desce e ora embaixo (mesmo na oliveira e na figueira, pois só o trabalhador tem essa permissão especial). E por que é permitido orar no topo da oliveira e no topo da figueira? Rabi Aba e Rabi Simon, ambos dizem: porque o seu trabalho de colheita é muito laborioso — descer e subir de novo tomaria tempo demais, em prejuízo do patrão.

03O carregador pode ler o Shemá com o fardo nos ombros, mas não no momento de carregar ou descarregar; a permissão de orar com fardo equilibrado
Yerushalmi · Berachot 2:5
תַּנִּי הַכַּתָּף אַף עַל פִּי שֶׁמַּשָּׂאוֹ עַל כְּתֵיפוֹ הֲרֵי זֶה קוֹרֵא אֶת שְׁמַע אֲבָל לֹא יַתְחִיל לֹא בְשָׁעָה שֶׁהוּא פוֹרֵק וְלֹא בְשָׁעָה שֶׁהוּא טוֹעֵן מִפְּנֵי שֶׁאֵין לִבּוֹ מְיוּשָּׁב. בֵּין כַּךְ וּבֵין כַּךְ אַל יִתְפַּלֵּל עַד שָׁעָה שֶׁיִּפְרוֹק. וְאִם הָיָה עָלָיו מַשּׂאוּי שֶׁל אַרְבָּעָת קַבִּין מוּתָּר. אָמַר רִבִּי יוֹנָתָן וְהוּא שֶׁשִּׁיקֵּל. מַהוּ שֶׁשִׁיקֵּל תְּרֵין חֲלָקִים לַחוֹרוֹיי וְחַד לְקוֹמוֹיי.

Foi ensinado: o carregador, ainda que o seu fardo esteja sobre o seu ombro, eis que ele pode ler o Shemá; mas não deve começá-lo nem no momento em que descarrega nem no momento em que carrega, porque o seu coração não está assentado (sereno). De um modo ou de outro, não ore até o momento em que descarregar. E se tinha sobre si um fardo de quatro cabin (medida de capacidade), é permitido orar mesmo carregando. Disse Rabi Yonatán: e isso, desde que esteja equilibrado. O que é estar equilibrado? Duas partes atrás de si e uma na frente.

04Não fazer sinais com os olhos durante a leitura
Yerushalmi · Berachot 2:5
תַּנִּי לֹא יְהֵא מְרַמֵּז בְּעֵינָיו וְקוֹרֵא.

Foi ensinado: não fará sinais com os seus olhos enquantoo Shemá.

05A fórmula abreviada do Birkat Hamazon para trabalhadores pagos pelo patrão, e a proibição de trabalhar enquanto se abençoa
Yerushalmi · Berachot 2:5
תַּנִּי הַפּוֹעֲלִין שֶׁהָיוּ עוֹשִׂין מְלָאכָה אֵצֶל בַּעַל הַבַּיִת הֲרֵי אֵילּוּ מְבָרְכִין בְּרָכָה רִאשׁוֹנָה וְכוֹלְלִין שֶׁל יְרוּשָׁלַיִם וְשֶׁל אָרֶץ וְחוֹתְמִין בְּשֶׁל אָרֶץ. אֲבָל אִם הָיוּ עוֹשִׂין עִמּוֹ בִסְעוּדָן אוֹ שֶׁהָיָה בַעַל הַבַּיִת אוֹכֵל עִמָּהֶן הֲרֵי אֵילּוּ מְבָרְכִין אַרְבַּע. אָמַר רִבִּי מָנָא זֹאת אוֹמֶרֶת שֶׁאָסוּר לַעֲשׂוֹת מְלָאכָה בְשָׁעָה שֶׁיְבָרֵךְ. דִּלָכֵן מַה אֲנָן אָמְרִין יַעֲשֶׂה מְלָאכָה וִיבָרֵךְ.

Foi ensinado: os trabalhadores horistas que estavam fazendo trabalho para o dono da casa, eis que eles abençoam a primeira bênção do Birkat Hamazon por completo, e incluem a bênção de Jerusalém dentro da bênção da Terra, e selam com a bênção da Terra (fundindo a segunda e a terceira bênçãos numa só, para abreviar). Mas se estavam trabalhando por sua própria refeição, ou se o dono da casa comia com eles, eis que eles abençoam as quatro bênçãos completas, sem abreviar. Disse Rabi Maná: isso quer dizer que é proibido fazer trabalho no momento em que se abençoa (mesmo o trabalhador que abrevia por causa do tempo do patrão não pode continuar trabalhando enquanto recita o Birkat Hamazon). Pois, do contrário, o que diríamos? Que faça o trabalho e ao mesmo tempo abençoe — e não seria necessário abreviar as bênçãos, bastaria trabalhar durante elas; mas como isso é proibido, foi necessário abreviá-las.

06Não orar com moeda na mão à frente do corpo; o costume de amarrar as moedas; a fonte bíblica
Yerushalmi · Berachot 2:5
רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רַב יִצְחָק בְּשֵׁם רַב חוּנָה לֹא יַעֲמוֹד אָדָם וְיִתְפַּלֵּל וּמִין מַטְבֵּעַ בְּיָדוֹ. לְפָנָיו אָסוּר לְאַחֲרָיו מוּתָּר. רִבִּי יָסָא הָיָה צוֹרְרָן וְתוֹפְשָׂן בְּיָדוֹ. וְּלמִדַּת הַדִּין אָמַר רִבִּי יִצְחָק וְצַרְתָּ הַכֶּסֶף בְּיָדְךָ. וּבִלְבַד בְּיָדְךָ. רִבִּי יוֹסֵי בַּר אָבוּן הוֹרֵי לְרִבִּי הִלֵּל חַתְנֵיהּ כֵּן.

Rabi Shmuel bar Rav Yitschak, em nome de Rav Chuná: não se ponha o homem de pé e ore tendo alguma moeda em sua mão. À sua frente é proibido; atrás de si é permitido. Rabi Yassá costumava amarrá-las em um trouxinha e segurá-las na mão. E, quanto à medida de precaução exigida por essa lei, disse Rabi Yitschak: "e amarrarás o dinheiro em tua mão" (Deuteronômio 14:25) — e isso deve ser apenas em tua mão (bem seguro, amarrado). Rabi Yossé bar Avun assim instruiu Rabi Hilel, seu genro.

07A história de Rabi Chizkiyá e Rabi Yaakov bar Achá: moedas amarradas às pressas que se perderam
Yerushalmi · Berachot 2:5
רִבִּי חִזְקִיָּה וְרִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא הֲווּ יָתְבִין בְּחַד אֲתָר וַהֲוָה גַבֵּי רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא פְרִיטִין. אָתָת עֹנְתָא דִצְלוּתָא וְשָׁרְתוּן וִיהָבוּן לְרִבִּי חִזְקִיָּה. קָטַר פּוּרְתֵּיהּ לְפוּרְתֵּיהּ. וְשָרְתוּן וְעָרַק. אָמַר לֵיהּ וּמַה בְיָדְךָ.

Rabi Chizkiyá e Rabi Yaakov bar Achá estavam sentados num mesmo lugar, e Rabi Yaakov bar Achá tinha consigo moedas pequenas. Chegou o tempo da oração; ele as desamarrou e as deu a Rabi Chizkiyá. Este amarrou-as pouco a pouco, uma por uma (às pressas, sem cuidado). E elas se desamarraram e escaparam (caíram e se perderam). Disse-lhe Rabi Yaakov bar Achá: e o que ficou em tua mão?

08O carregador de água da pureza; a disputa se a leitura do Shemá e a oração exigem concentração
Yerushalmi · Berachot 2:5
אָמַר רִבִּי חֲנִינָא אַף מִי שֶׁהָיוּ מֵימָיו עַל כְּתֵיפוֹ הֲרֵי זֶה קוֹרֵא אֶת שְׁמַע וּמִתְפַּלֵּל. רַב חוּנָא אָמַר קִרְיַת שְׁמַע וּתְפִילָּה אֵינָן צְרִיכוֹת כַּוָונָה. אָמַר רִבִּי מָנָא קַשְׁיָיתָהּ קוֹמֵי רִבִּי פִינְחָס וַאֲפִילוּ תֵימַר קִרְיַת שְׁמַע צְרִיכָה כַּוָונָה תְפִילָּה אֵינָהּ צְרִיכָה כַוָונָה. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי קִיַּימְתִּיהָ כִיַּי דָמַר רִבִי יַעֲקֹב בַּר אַחָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן הִגִּיעוּךָ סוֹף מְלֶאכֶת הַמַּיִם שֶׁאֵינָם מְחֻוָורִים דְּבַר תּוֹרָה.

Disse Rabi Chanina: também aquele que tinha sobre si as suas águas (a água da purificação, guardada com as cinzas da vaca ruiva) sobre o ombro, eis que ele pode ler o Shemá e orar. Rav Chuná disse: então a leitura do Shemá e a oração não precisam de concentração? Disse Rabi Maná: eu apresentei esta dificuldade diante de Rabi Pinchas: e mesmo que digas que a leitura do Shemá precisa de concentração, acaso dirás que a oração não precisa de concentração? Disse Rabi Yossé: eu a confirmei conforme o que disse Rabi Yaakov bar Achá, em nome de Rabi Yochanan: alcançaste aqui o final do trabalho de guarda da água (depois que as cinzas já foram lançadas nela), que não é claramente exigido pela palavra da Torá — e por isso, nesse estágio final, não há mais o rigor que exigiria concentração total, o que explica a leniência de Rabi Chanina.

Nota

Esta é a quinta halachá do Perek Bet do Talmud Yerushalmi, Massechet Berachot. Ela comenta a Mishná sobre os artesãos que podem ler o Shemá no alto da árvore ou da construção — algo vedado para a oração da Amidá, que exige posição estável no chão — precisando que a permissão da árvore é para os horistas e a da construção para os artesãos, e acrescentando, por uma baraita paralela, a exceção da oliveira e da figueira também para a própria oração. A partir daí, o texto reúne um conjunto de leis práticas ligadas ao trabalho e à concentração: o carregador de fardos, a proibição de sinais com os olhos, a fórmula abreviada do Birkat Hamazon para trabalhadores pagos pelo patrão, o cuidado com moedas na mão durante a oração — ilustrado por uma pequena história de dois sábios que perderam moedas amarradas às pressas — e fecha com a questão teórica de saber se a leitura do Shemá e a oração exigem verdadeira concentração do coração, discutida a partir do caso de quem carrega a água da purificação sobre os ombros.