Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Bet
הָאוּמָּנִין קוֹרִין בְּרֹאשׁ הָאִילָן

Conclusão do ensinamento de Rabi Chama bar Chanina sobre "tendas junto aos rios"; o casamento de Rabi Elazar e a lei de reler o Shemá após um engano; a Mishná dos artesãos que leem no alto da árvore ou da construção; os trabalhadores contratados, o Birkat Hamazon abreviado; e o noivo isento da Keriat Shemá

Berachot 16a

O daf abre completando a frase cortada ao final de 15b: por que a Torá justapõe "tendas" a "rios", ensinando que as casas de estudo elevam o homem da culpa ao mérito. Em seguida, um episódio sobre o casamento de Rabi Elazar leva a um ensinamento de Rabi Yochanan sobre reler o Shemá quando se erra e não sabe onde. A Mishná então introduz os artesãos que podem ler o Shemá — mas não orar a Amidá — no alto da árvore ou da construção; a Guemará distingue essa permissão conforme a árvore e o capítulo do Shemá, debate se a leitura exige concentração plena (episódio de Rav Marí e Rava), e detalha as regras para trabalhadores contratados quanto à Keriat Shemá, à Amidá e ao Birkat Hamazon abreviado. O daf fecha com a lei do noivo isento da Keriat Shemá na primeira noite, e a leitura midráshica de "estando sentado em tua casa" e "andando pelo caminho".

Conclusão do ensinamento sobre tendas e rios; o casamento de Rabi Elazar · אֹהָלִים לִנְחָלִים

01Resposta à pergunta deixada em 15b: as tendas (casas de estudo) são justapostas aos rios, pois ambos elevam
Bavli · 16a — Guemará
אֹהָלִים לִנְחָלִים, דִּכְתִיב: ״כִּנְחָלִים נִטָּיוּ כְּגַנּוֹת עֲלֵי נָהָר כַּאֲהָלִים נָטַע וְגוֹ׳״ — לוֹמַר לְךָ: מָה נְחָלִים מַעֲלִין אֶת הָאָדָם מִטּוּמְאָה לְטׇהֳרָה — אַף אֹהָלִים מַעֲלִין אֶת הָאָדָם מִכַּף חוֹבָה לְכַף זְכוּת.

(Completando a pergunta de Rabi Chama bar Chanina, deixada em suspenso ao final de 15b: "por que foram justapostas...") "Tendas" a "rios" (Bamidbar 24:6, no oráculo de Bilam), pois está escrito: "como riachos que se estendem, como jardins junto ao rio, como tendas que o Eterno plantou, etc." — isso vem dizer-te: assim como os rios fazem subir o homem da impureza à pureza (pela imersão), também as tendas (as casas de estudo) fazem subir o homem do prato de culpa ao prato de mérito.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16a
אף אהלים – בתי מדרשות. אהלים לשון נטיעה נופלת בהם שנאמר ויטע אהלי אפדנו (דניאל יא):

"Também as tendas" — são as casas de estudo. A expressão "tendas" é usada com o verbo "plantar" porque essa linguagem se aplica a elas, como está dito: "e plantará as tendas de seu palácio" (Daniel 11:45).

Nota

O daf abre completando exatamente a frase interrompida ao final de 15b. Rabi Chama bar Chanina explica por que o versículo de Bilam justapõe "tendas" a "rios": assim como o rio purifica quem nele se imerge, tirando-o do estado de impureza, as casas de estudo — chamadas "tendas" porque nelas se "planta" a Torá — elevam o homem que nelas se dedica, fazendo-o passar da condição de culpado à de merecedor, por mérito do estudo e do arrependimento ali gerados.

02A Mishná: "quem lê de trás para diante não cumpriu"
Bavli · 16a — Guemará
״הַקּוֹרֵא לְמַפְרֵעַ לֹא יָצָא וְכוּ׳״.

A Mishná ensinou: "quem lê a Keriat Shemá de trás para diante (fora da ordem correta) não cumpriu a obrigação, etc."

Nota

A Guemará retoma outra cláusula da Mishná já citada, sobre a invalidade de ler o Shemá fora da ordem correta dos parágrafos e versículos, para introduzir, a seguir, um episódio ilustrativo sobre esse tema por meio de um relato envolvendo Rabi Elazar.

03Rabi Ami e Rabi Assi preparavam o casamento de Rabi Elazar; este foi à casa de estudo ouvir um ensinamento
Bavli · 16a — Guemará
רַבִּי אַמֵּי וְרַבִּי אַסִּי הֲווֹ קָא קָטְרִין לֵיהּ גְּנָנָא לְרַבִּי אֶלְעָזָר. אֲמַר לְהוּ: אַדְּהָכִי וְהָכִי אֵיזִיל וְאֶשְׁמַע מִלְּתָא דְבֵי מִדְרְשָׁא, וְאֵיתֵי וְאֵימָא לְכוּ. אֲזַל אַשְׁכְּחֵיהּ לְתַנָּא דְּקָתָנֵי קַמֵּיהּ דְּרַבִּי יוֹחָנָן:

Rabi Ami e Rabi Assi estavam preparando o dossel nupcial para Rabi Elazar (organizando seu casamento). Disse-lhes Rabi Elazar: enquanto isso, irei e ouvirei algum ensinamento da casa de estudo, e virei e vos direi o que ouvi. Foi, e encontrou o tanaíta (o repetidor de baraitot) que ensinava diante de Rabi Yochanan:

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16a
קטרין ליה גננא – קושרין לו חופה להשיאו אשה:

"Estavam preparando para ele o dossel" — armavam-lhe a chupá para casá-lo com uma mulher.

Nota

Inicia-se um episódio narrativo: enquanto seus colegas Rabi Ami e Rabi Assi cuidavam dos preparativos de seu casamento, Rabi Elazar preferiu ir ouvir um ensinamento na casa de estudo, mostrando a prioridade do estudo da Torá mesmo em meio às preocupações pessoais mais alegres. Lá, ele encontra um tanaíta recitando uma baraita diante de Rabi Yochanan, cujo conteúdo será revelado a seguir.

04A baraita: quem leu e errou sem saber onde, deve voltar ao início da unidade correspondente
Bavli · 16a — Guemará
קָרָא וְטָעָה וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ לְהֵיכָן טָעָה, בְּאֶמְצַע הַפֶּרֶק — יַחְזוֹר לָרֹאשׁ. בֵּין פֶּרֶק לְפֶרֶק — יַחְזוֹר לְפֶרֶק רִאשׁוֹן. בֵּין כְּתִיבָה לִכְתִיבָה — יַחְזוֹר לִכְתִיבָה רִאשׁוֹנָה.

Aquele que leu a Keriat Shemá e errou, e não sabe onde errou: se estava no meio do capítulo — deve voltar ao início desse capítulo; se estava entre um capítulo e outro (sem saber se terminou o primeiro ou já começou o segundo) — deve voltar ao início do primeiro capítulo; se estava entre uma seção da Torá escrita nos tefilin ou mezuzá e outra — deve voltar ao início da primeira seção.

Nota

A baraita estabelece a regra prática para quem, ao ler a Keriat Shemá, comete um erro e perde o lugar sem saber exatamente onde errou: em cada caso, aplica-se o princípio da dúvida, exigindo retornar ao ponto anterior mais seguro — o início do capítulo em curso, ou o início da sequência de capítulos, ou o início da sequência de seções escritas — para garantir que toda a leitura seja cumprida corretamente.

05Rabi Yochanan qualifica: isso vale apenas se ainda não começou "para que se multipliquem os vossos dias"; se já começou, basta seguir a sequência habitual
Bavli · 16a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רַבִּי יוֹחָנָן: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא שֶׁלֹּא פָּתַח בִּ״לְמַעַן יִרְבּוּ יְמֵיכֶם״, אֲבָל פָּתַח בִּ״לְמַעַן יִרְבּוּ יְמֵיכֶם״ — סִרְכֵיהּ נָקֵט וְאָתֵי.

Disse-lhe Rabi Yochanan ao tanaíta: não ensinaram isso (a necessidade de voltar ao início) senão quando o leitor ainda não começou as palavras "para que se multipliquem os vossos dias" (Devarim 11:21, do terceiro parágrafo do segundo capítulo); mas, se já começou "para que se multipliquem os vossos dias" — a boca dele segue a sequência habitual e prossegue naturalmente, sem necessidade de voltar.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16a
וא"ר יוחנן – לתנא וכו': סרכיה נקט – אין לטעות מכאן עד אמת ויציב וא"צ לחזור אלא לאמת שהפרשה שגורה בפיו:

"E disse Rabi Yochanan" — ao tanaíta, corrigindo o alcance da baraita, etc. "A boca dele segue a sequência habitual" — não há risco de errar daqui até a bênção "Emet veYatsiv" (verdadeiro e firme, que segue o Shemá), e não precisa voltar senão até essa bênção "Emet", pois a passagem já está fluente em sua boca (por repetição, e o hábito o conduz corretamente sem risco real de confusão).

Nota

Rabi Yochanan limita o alcance da regra anterior: a exigência de recomeçar do início só se aplica à parte inicial da leitura, ainda pouco automatizada; uma vez alcançada a passagem final e bastante repetida — "para que se multipliquem os vossos dias" — a familiaridade da boca com o texto torna improvável um erro real, de modo que a pessoa pode simplesmente prosseguir a leitura habitual sem voltar atrás.

06Rabi Elazar voltou e contou aos colegas, que disseram: só por ouvir isso já valeu a pena ter vindo
Bavli · 16a — Guemará
אֲתָא וַאֲמַר לְהוּ. אֲמַרוּ לֵיהּ: אִלּוּ לֹא בָּאנוּ אֶלָּא לִשְׁמוֹעַ דָּבָר זֶה — דַּיֵּינוּ.

Rabi Elazar veio e disse-lhes a Rabi Ami e Rabi Assi o que ouvira. Disseram-lhe: se não tivéssemos vindo a este mundo senão para ouvir esta coisa — já nos bastaria.

Nota

O episódio se encerra com Rabi Elazar retornando aos preparativos de seu casamento e relatando aos colegas o ensinamento que ouvira. A reação entusiasmada deles — "já nos bastaria" — expressa o valor supremo atribuído ao aprendizado de uma única halachá prática e precisa, mesmo em meio às ocupações festivas do casamento, encerrando assim toda a sugya sobre a leitura do Shemá iniciada em 15a.

A Mishná: os artesãos que leem no alto da árvore ou da construção · הָאוּמָּנִין קוֹרִין בְּרֹאשׁ הָאִילָן

07Mishná: os artesãos leem o Shemá no alto da árvore ou da construção, mas não podem orar assim
Bavli · 16a — Mishná
מַתְנִי׳ הָאוּמָּנִין — קוֹרִין בְּרֹאשׁ הָאִילָן וּבְרֹאשׁ הַנִּדְבָּךְ. מַה שֶּׁאֵינָן רַשָּׁאִין לַעֲשׂוֹת כֵּן בַּתְּפִלָּה.

Mishná. Os artesãos — leem o Shemá no alto da árvore e no alto da fileira de pedras em construção; o que não lhes é permitido fazer assim na oração (a Amidá, que exige posição estável).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 16a
מתני' האומנין – שהם עסוקים במלאכתן בראש האילן או בראש הנדבך והגיע זמן ק"ש קורין לשם מיד: נדבך – בנין של אבנים כמו נדבכין די אבן גלל (עזרא ו׳:ד׳):

"Mishná. Os artesãos" — que estão ocupados em seu trabalho no alto da árvore ou no alto da fileira de pedras, e chegou o horário da Keriat Shemá — leem ali mesmo, imediatamente. "Fileira de pedras" — é uma construção de pedras, como em "fileiras de pedra bruta" (Ezra 6:4).

Nota

Uma nova Mishná abre uma nova sugya, dedicada às leis da Keriat Shemá para quem está ocupado em trabalho físico no alto de uma árvore ou de uma construção. A permissão de lá mesmo ler o Shemá — sem descer — contrasta com a exigência, quanto à Amidá, de descer ao chão, por essa oração exigir maior estabilidade e concentração. Este é precisamente o tema paralelo tratado no Talmud Yerushalmi, Berachot 2:5.

08Mishná: o noivo é isento da Keriat Shemá na primeira noite até o fim do Shabat, salvo se já consumou; o caso de Rabán Gamliel
Bavli · 16a — Mishná
חָתָן פָּטוּר מִקְּרִיאַת שְׁמַע לַיְלָה הָרִאשׁוֹנָה וְעַד מוֹצָאֵי שַׁבָּת אִם לֹא עָשָׂה מַעֲשֶׂה. וּמַעֲשֶׂה בְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל שֶׁנָּשָׂא אִשָּׁה וְקָרָא לַיְלָה הָרִאשׁוֹנָה. אָמְרוּ לוֹ תַּלְמִידָיו: לִמַּדְתָּנוּ רַבֵּינוּ שֶׁחָתָן פָּטוּר מִקְּרִיאַת שְׁמַע? אָמַר לָהֶם אֵינִי שׁוֹמֵעַ לָכֶם לְבַטֵּל הֵימֶנִי מַלְכוּת שָׁמַיִם אֲפִילּוּ שָׁעָה אַחַת.

O noivo é isento da Keriat Shemá na primeira noite, e essa isenção pode estender-se até o fim do Shabat, se não realizou o ato (a consumação do casamento — pois, se casou perto do Shabat e ainda está tenso, a isenção persiste). E houve um caso com Rabán Gamliel, que se casou e leu o Shemá na primeira noite. Disseram-lhe seus discípulos: não nos ensinaste tu, nosso mestre, que o noivo é isento da Keriat Shemá? Disse-lhes: não vos dou ouvidos para anular de mim o jugo do Reino dos Céus nem sequer por uma hora.

Nota

A segunda cláusula da Mishná trata de um caso muito diferente: o noivo, que está mentalmente perturbado pelas preocupações do casamento e não consegue concentrar-se devidamente, é isento da obrigação da Keriat Shemá — isenção que pode se estender por vários dias, até o fim do Shabat seguinte, caso ainda não tenha consumado a união. O relato sobre Rabán Gamliel ilustra que, apesar da isenção legal, um sábio pode optar por cumprir a mitzvá mesmo assim, por seu amor pessoal ao jugo do Reino dos Céus, recusando abrir mão dela mesmo por uma hora.

09Guemará: baraita paralela precisa a Mishná — oram no alto da oliveira e da figueira; o dono da casa sempre desce
Bavli · 16a — Guemará
גְּמָ׳ תָּנוּ רַבָּנַן: הָאוּמָּנִין — קוֹרִין בְּרֹאשׁ הָאִילָן וּבְרֹאשׁ הַנִּדְבָּךְ. וּמִתְפַּלְּלִין בְּרֹאשׁ הַזַּיִת וּבְרֹאשׁ הַתְּאֵנָה. וּשְׁאָר כָּל הָאִילָנוֹת — יוֹרְדִים לְמַטָּה וּמִתְפַּלְּלִין. וּבַעַל הַבַּיִת, בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ יוֹרֵד לְמַטָּה וּמִתְפַּלֵּל, לְפִי שֶׁאֵין דַּעְתּוֹ מְיוּשֶּׁבֶת עָלָיו.

Guemará. Ensinaram os sábios: os artesãos — leem o Shemá no alto da árvore e no alto da fileira de pedras; e oram a Amidá no alto da oliveira e no alto da figueira (árvores de copa firme, onde se sustentam bem). E quanto às demais árvores, todas — descem para baixo e oram. E o dono da casa, de um modo ou de outro (mesmo na oliveira ou na figueira), desce para baixo e ora, porque sua mente não está serena sobre ele para orar no alto, já que não tem a urgência do trabalhador contratado.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16a
גמ' ומתפללין בראש הזית ובראש התאנה – בזמן שעוסקין בהן מפני שענפיהם מרובים ויכולין לעמוד שם שלא בדוחק ואין שם פחד ליפול לפיכך מתפללין בראשם אבל בשאר אילנות אין מתפללין: בין כך ובין כך – כלומר בין מתאנה בין משאר אילנות:

"Guemará. E oram no alto da oliveira e no alto da figueira" — quando estão ocupados colhendo nelas, porque seus ramos são numerosos e podem ficar ali sem aperto, e não há ali medo de cair; por isso oram no alto delas; mas nas demais árvores não oram lá em cima. "De um modo ou de outro" — ou seja, seja na figueira, seja nas demais árvores.

Nota

A baraita citada pela Guemará precisa e amplia a Mishná: enquanto a leitura do Shemá é permitida no alto de qualquer árvore ou construção, a oração da Amidá — que exige mais estabilidade física e mental — só é permitida no alto de árvores especialmente firmes e amplas como a oliveira e a figueira; nas demais, é preciso descer. Mesmo assim, o próprio dono da propriedade (que não está sob pressão de tempo como o trabalhador contratado) deve sempre descer para orar, pois sua mente não estaria serena o suficiente lá em cima sem essa urgência. Este trecho corresponde exatamente à baraita citada no Talmud Yerushalmi, Berachot 2:5, §2 (ver a halachá paralela).

10Rav Marí propõe a Rava uma contradição: a Mishná mostra que não se exige concentração, mas outra fonte exige "ouvir" com atenção plena
Bavli · 16a — Guemará
רָמֵי לֵיהּ רַב מָרִי בְּרַהּ דְּבַת שְׁמוּאֵל לְרָבָא, תְּנַן: הָאוּמָּנִין קוֹרִין בְּרֹאשׁ הָאִילָן וּבְרֹאשׁ הַנִּדְבָּךְ, אַלְמָא לָא בָּעֵי כַּוָּנָה. וּרְמִינְהִי: הַקּוֹרֵא אֶת שְׁמַע צָרִיךְ שֶׁיְּכַוֵּין אֶת לִבּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שְׁמַע יִשְׂרָאֵל״, וּלְהַלָּן הוּא אוֹמֵר: ״הַסְכֵּת וּשְׁמַע יִשְׂרָאֵל״. מַה לְּהַלָּן בְּ״הַסְכֵּת״ אַף כָּאן בְּ״הַסְכֵּת״.

Contrapôs Rav Marí, filho da filha de Shmuel, a Rava: aprendemos na Mishná: os artesãos leem o Shemá no alto da árvore e no alto da fileira de pedras — logo, não se exige concentração plena, já que estão ocupados no trabalho. E contraponho: aquele que lê a Keriat Shemá precisa concentrar o seu coração, pois está dito: "ouve, ó Israel"; e adiante a Torá diz: "cala-te e ouve, ó Israel" (Devarim 27:9) — assim como ali é com "cala-te" (silêncio total e atenção plena), também aqui é com "cala-te".

Nota

Rav Marí levanta uma contradição entre duas fontes: a Mishná parece indicar que os artesãos podem ler o Shemá enquanto trabalham, sem exigência de concentração plena; mas uma analogia verbal (gezerá shavá) entre "Shemá Israel" e "cala-te e ouve, ó Israel" sugere que a Keriat Shemá exige silêncio e atenção total, análogos aos exigidos no estudo da Torá — o que pareceria incompatível com continuar trabalhando durante a leitura. Esta mesma contradição aparente é discutida no Talmud Yerushalmi, Berachot 2:5, §8, quanto à concentração exigida na leitura do Shemá e na oração.

11Rava ficou em silêncio; Rav Marí revela que já tinha uma resposta de Rav Sheshet: apenas se pararem o trabalho
Bavli · 16a — Guemará
אִשְׁתִּיק. אֲמַר לֵיהּ: מִידֵּי שְׁמִיעַ לָךְ בְּהָא? אֲמַר לֵיהּ: הָכִי אָמַר רַב שֵׁשֶׁת — וְהוּא שֶׁבְּטֵלִין מִמְּלַאכְתָּן וְקוֹרִין.

Rava ficou em silêncio. Disse-lhe Rav Marí: ouviste algo sobre isso? Disse-lhe Rav Marí, respondendo ele mesmo: assim disse Rav Sheshet: e isso, quanto à Mishná dos artesãos, refere-se apenas a quando eles cessam de seu trabalho e então leem.

Nota

Diante do silêncio de Rava — que não soube resolver de imediato a contradição —, o próprio Rav Marí revela a solução que já conhecia em nome de Rav Sheshet: a permissão da Mishná para os artesãos lerem o Shemá no alto da árvore ou da construção pressupõe que eles interrompam totalmente o trabalho durante a leitura, preservando assim a concentração exigida; não se trata, portanto, de ler enquanto se continua a trabalhar.

12Objeção: mas uma baraita ensina que Beit Hilel permite ler enquanto se trabalha!
Bavli · 16a — Guemará
וְהָתַנְיָא: בֵּית הִלֵּל אוֹמְרִים עוֹסְקִים בִּמְלַאכְתָּן וְקוֹרִין!

Mas não foi ensinado em uma baraita: Beit Hilel diz: podem permanecer ocupados em seu trabalho e ler o Shemá ao mesmo tempo!

Nota

Levanta-se uma objeção contra a resposta de Rav Sheshet: existe uma baraita — já citada anteriormente na Mishná do primeiro capítulo (Berachot 11a) — segundo a qual Beit Hilel permite explicitamente continuar trabalhando enquanto se lê o Shemá, contradizendo a exigência de interromper totalmente o trabalho.

13Resposta: não é difícil — uma trata do primeiro capítulo, a outra do segundo
Bavli · 16a — Guemará
לָא קַשְׁיָא: הָא בְּפֶרֶק רִאשׁוֹן, הָא בְּפֶרֶק שֵׁנִי.

Não é difícil: esta (a permissão de Beit Hilel de continuar trabalhando) refere-se ao primeiro capítulo do Shemá — que exige concentração plena, mas é curto e não impede o trabalho manual; esta (a exigência de cessar o trabalho) refere-se ao segundo capítulo ou aos demais, onde a concentração já não é tão exigida, mas por outros motivos requer maior atenção.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16a
פרק ראשון – פרשת שמע בעי כוונה:

"Primeiro capítulo" — a seção do "Shemá" (o primeiro parágrafo) exige concentração plena, por isso Beit Hilel, que ali permite trabalhar, deve referir-se a um trabalho leve, compatível com essa concentração; a exigência de Rav Sheshet de cessar totalmente aplica-se ao segundo capítulo, "Vehayá im shamoa", que não exige a mesma concentração do coração, mas ainda assim requer atenção suficiente para não haver equívocos.

Nota

A Guemará resolve a contradição distinguindo entre os capítulos do Shemá: a permissão de Beit Hilel para continuar trabalhando refere-se ao primeiro capítulo, e a exigência de Rav Sheshet de cessar todo trabalho refere-se ao segundo capítulo — harmonizando, assim, as duas fontes sem contradição real.

Os trabalhadores contratados: Shemá, Amidá e Birkat Hamazon · הַפּוֹעֲלִים שֶׁהָיוּ עוֹשִׂין מְלָאכָה

14Baraita: os trabalhadores lêem o Shemá e abençoam antes e depois, comem seu pão e abençoam, e rezam a Amidá completa, mas não descem para ser chazan nem levantam as mãos
Bavli · 16a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: הַפּוֹעֲלִים שֶׁהָיוּ עוֹשִׂין מְלָאכָה אֵצֶל בַּעַל הַבַּיִת, קוֹרִין קְרִיאַת שְׁמַע וּמְבָרְכִין לְפָנֶיהָ וּלְאַחֲרֶיהָ. וְאוֹכְלִין פִּתָּן וּמְבָרְכִין לְפָנֶיהָ וּלְאַחֲרֶיהָ, וּמִתְפַּלְּלִין תְּפִלָּה שֶׁל שְׁמוֹנֶה עֶשְׂרֵה. אֲבָל אֵין יוֹרְדִין לִפְנֵי הַתֵּיבָה, וְאֵין נוֹשְׂאִין כַּפֵּיהֶם.

Ensinaram os sábios: os trabalhadores que estavam fazendo trabalho para o dono da casa — leem a Keriat Shemá e abençoam as bênçãos que a envolvem, antes dela e depois dela. E comem seu pão e abençoam antes dele e depois dele, e rezam a oração de dezoito bênçãos, completa. Mas não descem diante da arca (para servir de chazan, oficiante público), e não levantam as suas mãos (para a bênção sacerdotal, caso sejam cohanim).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16a
קורין את שמע ומברכין לפניה ולאחריה – כתקונה וכן בזמן תפלה: אבל אין יורדין לפני התיבה – אינן רשאין ליבטל ממלאכתן ולירד לפני התיבה לעשות שליח צבור שיש שם בטול מלאכה יותר מדאי:

"Leem a Keriat Shemá e abençoam antes dela e depois dela" — conforme sua forma estabelecida completa; e assim também no que se refere ao horário da oração (a Amidá completa). "Mas não descem diante da arca" — não têm permissão para se ausentar de seu trabalho e descer diante da arca para servir de emissário público, pois isso implicaria uma ausência do trabalho excessiva demais.

Nota

Esta baraita estabelece o padrão geral: os trabalhadores contratados devem cumprir integralmente a Keriat Shemá (com suas bênçãos), o Birkat Hamazon (com suas bênçãos) e a Amidá completa de dezoito bênçãos — sem qualquer abreviação —, mas não podem assumir funções públicas adicionais, como servir de chazan ou levantar as mãos na bênção sacerdotal, pois isso implicaria uma ausência excessiva do trabalho, prejudicando indevidamente o patrão. Corresponde ao início da halachá paralela no Talmud Yerushalmi, Berachot 2:5, §5, sobre os trabalhadores horistas.

15Objeção: mas uma baraita ensina que rezam apenas "algo semelhante às dezoito bênçãos"!
Bavli · 16a — Guemará
וְהָתַנְיָא מֵעֵין שְׁמוֹנֶה עֶשְׂרֵה! אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: לָא קַשְׁיָא, הָא — רַבָּן גַּמְלִיאֵל, הָא — רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

Mas não foi ensinado em outra baraita: rezam apenas uma versão semelhante às dezoito bênçãos, abreviada! Disse Rav Sheshet: não é difícil: esta (a que exige a Amidá completa) é a posição de Rabán Gamliel; esta (a que permite a versão abreviada) é a posição de Rabi Yehoshua.

Nota

Surge uma contradição com outra baraita, que permite aos trabalhadores rezar apenas uma versão abreviada — "Havinenu", que resume o conteúdo das dezoito bênçãos numa só. Rav Sheshet resolve atribuindo cada baraita a um sábio diferente da conhecida disputa sobre a Amidá: Rabán Gamliel, que exige as dezoito bênçãos completas para todos, e Rabi Yehoshua, que permite a versão abreviada.

16Dificuldade: se é a posição de Rabi Yehoshua, por que mencionar só os trabalhadores? Qualquer pessoa poderia abreviar!
Bavli · 16a — Guemará
אִי רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, מַאי אִירְיָא פּוֹעֲלִים? אֲפִילּוּ כָּל אָדָם נָמֵי!

Se a baraita que permite a versão abreviada é a posição de Rabi Yehoshua, por que haveria de mencionar especificamente os trabalhadores? Segundo Rabi Yehoshua, até mesmo qualquer pessoa poderia rezar a versão abreviada!

Nota

A Guemará questiona a solução de Rav Sheshet: se Rabi Yehoshua permite a todos rezar a versão abreviada, independentemente de sua ocupação, não haveria razão para a baraita mencionar especificamente os trabalhadores — a lei se aplicaria igualmente a qualquer pessoa, o que sugere que a distinção não é, de fato, sobre a disputa geral entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua.

17Solução: ambas são de Rabán Gamliel; a diferença está entre trabalhar por salário e trabalhar pela própria refeição
Bavli · 16a — Guemará
אֶלָּא אִידֵּי וְאִידֵּי רַבָּן גַּמְלִיאֵל, וְלָא קַשְׁיָא: כָּאן, בְּעוֹשִׂין בִּשְׂכָרָן. כָּאן, בְּעוֹשִׂין בִּסְעוּדָתָן.

Mas antes, esta baraita e aquela baraita são a posição de Rabán Gamliel, e não é difícil a contradição entre elas: aqui (a versão abreviada aplica-se a trabalhadores) que trabalham por seu salário (pagos em dinheiro, e por isso mais apressados); aqui (a Amidá completa aplica-se a trabalhadores) que trabalham por sua própria refeição (pagos em comida, com menos pressa).

Nota

A Guemará abandona a distinção anterior e propõe uma nova: ambas as baraitot seguem Rabán Gamliel (que, em geral, exige a Amidá completa), mas se aplicam a situações diferentes — o trabalhador pago em salário, mais apressado por seu tempo ser mais precioso ao patrão, pode abreviar a Amidá; já o trabalhador pago com sua própria refeição, com menos pressão de tempo, deve rezá-la por completo.

18Nova objeção de uma baraita: o Birkat Hamazon dos trabalhadores é abreviado, sem a bênção anterior, e a segunda bênção incorpora "constrói Jerusalém"
Bavli · 16a — Guemará
וְהָתַנְיָא: הַפּוֹעֲלִים שֶׁהָיוּ עוֹשִׂים מְלָאכָה אֵצֶל בַּעַל הַבַּיִת — קוֹרִין קְרִיאַת שְׁמַע וּמִתְפַּלְּלִין. וְאוֹכְלִין פִּתָּן — וְאֵין מְבָרְכִים לְפָנֶיהָ, אֲבָל מְבָרְכִין לְאַחֲרֶיהָ שְׁתַּיִם. כֵּיצַד? בְּרָכָה רִאשׁוֹנָה כְּתִקּוּנָהּ, שְׁנִיָּה פּוֹתֵחַ בְּבִרְכַּת הָאָרֶץ וְכוֹלְלִין ״בּוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״ בְּבִרְכַּת הָאָרֶץ.

Mas não foi ensinado em outra baraita: os trabalhadores que estavam fazendo trabalho para o dono da casa — leem a Keriat Shemá e rezam a Amidá, sem detalhar se completa ou abreviada. E comem seu pão — e não abençoam antes dele, mas abençoam depois dele duas bênçãos apenas. Como assim? A primeira bênção conforme sua forma estabelecida; a segunda bênção abre com a bênção da terra, e incluem "que constrói Jerusalém" dentro da bênção da terra (fundindo a segunda e a terceira bênçãos numa só).

Nota

Surge uma nova dificuldade: esta baraita ensina que os trabalhadores nem sequer abençoam antes de comer o pão, e que, depois de comer, recitam apenas duas bênçãos em vez de quatro — fundindo a segunda e a terceira num só texto —, o que parece contradizer a primeira baraita citada, que exigia todas as bênçãos completas. Esta é exatamente a mesma lei detalhada no Talmud Yerushalmi, Berachot 2:5, §5.

19Resposta: essa abreviação vale para quem trabalha por salário; quem trabalha pela refeição, ou come com o patrão, abençoa por completo
Bavli · 16a — Guemará
בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים — בְּעוֹשִׂין בִּשְׂכָרָן, אֲבָל עוֹשִׂין בִּסְעוּדָתָן אוֹ שֶׁהָיָה בַּעַל הַבַּיִת מֵיסֵב עִמָּהֶן — מְבָרְכִין כְּתִיקּוּנָהּ.

Em que caso se disseram estas palavras (sobre a abreviação do Birkat Hamazon)? Quando os trabalhadores trabalham por seu salário; mas se trabalham por sua própria refeição, ou se o dono da casa estava reclinado à mesa com eles (comendo junto) — abençoam conforme a forma estabelecida completa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16a
עושין בשכרן – שנוטלין שכר פעולתן לבד סעודתן צריכין למהר המלאכה ומתפללין מעין י"ח: והתניא כו' – ואין מברכין לפניה – שאינה מן התורה: אבל עושין בסעודתן – בשביל האכילה לבדה מתפללין י"ח:

"Trabalham por seu salário" — que recebem pagamento por seu trabalho, além de sua refeição; precisam apressar o trabalho, e por isso rezam a versão semelhante às dezoito bênçãos, abreviada. "E não abençoam antes dele" — porque essa bênção prévia não é obrigação vinda da Torá. "Mas se trabalham por sua refeição" — trabalhando apenas em troca da comida, rezam as dezoito bênçãos completas.

Nota

A Guemará harmoniza as duas baraitot com a mesma distinção já estabelecida: o trabalhador pago em salário, sob maior pressão de tempo, abrevia tanto a Amidá quanto o Birkat Hamazon; já o trabalhador pago apenas com sua refeição — ou que come junto com o próprio patrão, situação em que não há pressa excessiva — recita todas as bênçãos por completo, sem abreviação alguma. Com isso, encerra-se a sugya sobre os trabalhadores, cujo conteúdo corresponde integralmente à halachá paralela do Talmud Yerushalmi, Berachot 2:5 (ver comparação completa).

O noivo isento da Keriat Shemá · חָתָן פָּטוּר מִקְּרִיאַת שְׁמַע

20A Mishná repetida: o noivo é isento; baraita: "estando sentado em tua casa" exclui quem está ocupado com um mandamento, "e andando pelo caminho" exclui o noivo
Bavli · 16a — Guemará
חָתָן פָּטוּר מִקְּרִיאַת שְׁמַע. תָּנוּ רַבָּנַן: ״בְּשִׁבְתְּךָ בְּבֵיתֶךָ״ — פְּרָט לְעוֹסֵק בְּמִצְוָה. ״וּבְלֶכְתְּךָ בַּדֶּרֶךְ״ — פְּרָט לְחָתָן. מִכָּאן אָמְרוּ: הַכּוֹנֵס אֶת הַבְּתוּלָה — פָּטוּר, וְאֶת הָאַלְמָנָה — חַיָּיב.

A Mishná ensinou: o noivo é isento da Keriat Shemá. Ensinaram os sábios: "estando tu sentado em tua casa" (Devarim 6:7 e 11:19)isso exclui aquele que está ocupado no cumprimento de um mandamento (que fica isento de outros deveres enquanto o realiza). "E andando tu pelo caminho" — isso exclui o noivo (cuja mente está voltada para outra preocupação, análoga a estar "fora de casa"). Daqui disseram: aquele que desposa a virgem (pela primeira vez) — é isento; mas aquele que desposa a viúva — é obrigado.

Nota

A Guemará retoma a última cláusula da Mishná — a isenção do noivo — e busca sua fonte bíblica: o versículo que introduz a obrigação da Keriat Shemá descreve situações cotidianas ("sentado em casa", "andando pelo caminho") que, lidas de forma exclusiva, servem para isentar quem está ocupado com outro mandamento, ou o noivo, cuja mente está naturalmente distraída pela novidade e pela responsabilidade do casamento — mas apenas quando desposa uma virgem, situação de maior tensão emocional do que ao desposar uma viúva.

21De onde se infere isso? Rav Papa: "pelo caminho" implica uma situação facultativa, não obrigatória
Bavli · 16a — Guemará
מַאי מַשְׁמַע? אָמַר רַב פָּפָּא: כִּי דֶרֶךְ. מָה דֶּרֶךְ רְשׁוּת, אַף הָכָא נָמֵי רְשׁוּת.

De onde se infere isso (que "andando pelo caminho" exclui especificamente o noivo)? Disse Rav Papa: a expressão indica uma situação como a de "caminho" (uma viagem comum): assim como o caminho é uma atividade facultativa, também aqui (a situação do noivo) é uma situação facultativa — e não obrigatória como o cumprimento de outro preceito.

Nota

Rav Papa explica por que o versículo sobre "andar pelo caminho" foi interpretado especificamente como referência ao noivo, e não a qualquer viajante genérico: a comparação implícita é de que, assim como uma viagem comum é uma atividade facultativa (não uma mitzvá), a preocupação do noivo com seu casamento também é, tecnicamente, algo facultativo, e não o cumprimento direto de um mandamento — distinguindo-o, assim, de quem está genuinamente ocupado com uma mitzvá.

22Objeção: mas não tratamos também de quem viaja para cumprir um mandamento, e mesmo assim a Torá exige que leia?
Bavli · 16a — Guemará
מִי לָא עָסְקִינַן דְּקָאָזֵיל לִדְבַר מִצְוָה, וַאֲפִילּוּ הָכִי אָמַר רַחֲמָנָא: לִיקְרֵי.

Acaso não tratamos também do caso de alguém que vai pelo caminho a caminho de cumprir um mandamento, e, mesmo assim, disse o Misericordioso (a Torá): que leia o Shemá?

Nota

Levanta-se uma objeção contra a explicação de Rav Papa: mesmo alguém que viaja especificamente para cumprir um mandamento — portanto, em uma situação não meramente facultativa — ainda assim é obrigado a ler o Shemá durante a viagem, segundo o próprio versículo "e andando pelo caminho". Isso parece contradizer a ideia de que o versículo se refere apenas a situações facultativas.

23Resposta final: o versículo diz "em teu andar", indicando que a obrigação é apenas quanto ao próprio andar facultativo; quanto ao mandamento, está isento
Bavli · 16a — Guemará
אִם כֵּן, לֵימָא קְרָא ״בְּלֶכֶת״, מַאי ״בְּלֶכְתְּךָ״ — שְׁמַע מִינַּהּ: בְּלֶכֶת דִּידָךְ הוּא דִּמְחַיְּיבַתְּ, הָא דְמִצְוָה — פְּטִירַתְּ.

Se assim (se a Torá quisesse incluir toda viagem, mesmo a de mandamento), que o versículo dissesse "andando" (belechet, forma impessoal); por que então "em teu andar" (belechtechá, com o pronome possessivo "teu")? Disso se aprende: apenas quanto ao teu próprio andar (facultativo, pessoal) és obrigado a ler o Shemá; mas quanto ao andar a caminho de cumprir um mandamento — estás isento.

Nota

A Guemará resolve a dificuldade com uma leitura precisa do texto: o versículo usa a forma pessoal "em teu andar" (com o sufixo possessivo), e não a forma impessoal "andando". Isso ensina que a obrigação de ler o Shemá durante o caminho aplica-se apenas a uma viagem facultativa e pessoal do próprio indivíduo; quem viaja especificamente a caminho de cumprir um mandamento está isento da leitura, pois já está ocupado com outro preceito — confirmando, assim, a explicação original de Rav Papa e encerrando o daf.