Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Bet
רָחַץ לַיְלָה הָרִאשׁוֹן שֶׁמֵּתָה אִשְׁתּוֹ

Conclusão da isenção do noivo comparada ao luto; a Mishná de Rabán Gamliel, que se banhou e aceitou condolências pelo escravo Tevi; a história da escrava de Rabi Eliezer; os três patriarcas e as quatro matriarcas; e a sequência de orações pessoais dos sábios após a Amidá

Berachot 16b

O daf abre com uma objeção final sobre a isenção do noivo, comparando-a à situação do endoentado, o que traz à tona um novo tema por meio da Mishná: Rabán Gamliel banhou-se na primeira noite após a morte de sua esposa, e depois aceitou condolências pela morte de seu escravo Tevi, justificando ambos os atos por sua condição especial e pela integridade excepcional de Tevi. A Guemará examina essa Mishná, traz a baraita sobre não se aceitarem condolências por escravos e o episódio marcante da escrava de Rabi Eliezer, que recusou consolo dos discípulos e fugiu deles pela casa. Segue-se a regra de que só três patriarcas e quatro matriarcas recebem esse título, e uma baraita sobre os escravos de Rabán Gamliel sendo chamados por títulos honoríficos. O daf fecha com o ensinamento de Rabi Elazar sobre o versículo "assim te abençoarei em minha vida" e uma extensa coletânea de orações pessoais (tefilot) que os sábios — Rabi Elazar, Rabi Yochanan, Rabi Zeirá, Rabi Chiya, Rav, Rabi Yehudá HaNassi e Rav Safra — costumavam recitar após concluir a Amidá, texto que se estende até 17a.

Conclusão da isenção do noivo · סִיּוּם דִּין חָתָן

01Objeção: por que então só a virgem isenta, e não também a viúva? Resposta: a preocupação é diferente
Bavli · 16b — Guemará
אִי הָכִי מַאי אִירְיָא הַכּוֹנֵס אֶת הַבְּתוּלָה? אֲפִילּוּ כּוֹנֵס אֶת הָאַלְמָנָה נָמֵי. הָכָא — טְרִיד, וְהָכָא — לָא טְרִיד.

Se assim (se a isenção do noivo decorre apenas de estar "andando pelo caminho" de forma facultativa), por que haveria de mencionar apenas aquele que desposa a virgem como isento? Até mesmo aquele que desposa a viúva deveria ser isento também! Responde-se: aqui (com a virgem) ele está preocupado intensamente, e aqui (com a viúva) ele não está preocupado da mesma forma.

Nota

A Guemará levanta uma nova objeção contra a explicação de que a isenção do noivo decorre de sua situação ser "facultativa": se assim fosse, essa lógica também deveria isentar quem desposa uma viúva, situação igualmente facultativa. A resposta desloca o critério: a isenção depende do grau real de perturbação mental — o homem que desposa uma virgem enfrenta uma tensão e um nervosismo muito maiores do que aquele que desposa uma viúva, cuja experiência prévia reduz a ansiedade.

02Nova objeção: se é só preocupação, e daí até quem teve o navio afundado no mar? Mas Rav ensinou que o endoentado é obrigado em tudo, menos tefilin
Bavli · 16b — Guemará
אִי מִשּׁוּם טִרְדָּא, אֲפִילּוּ טָבְעָה סְפִינָתוֹ בַּיָּם נָמֵי, אַלְּמָה אָמַר רַבִּי אַבָּא בַּר זַבְדָּא אָמַר רַב: אָבֵל חַיָּיב בְּכָל מִצְוֹת הָאֲמוּרוֹת בַּתּוֹרָה, חוּץ מִן הַתְּפִילִּין שֶׁהֲרֵי נֶאֱמַר בָּהֶן ״פְּאֵר״, שֶׁנֶּאֱמַר ״פְּאֵרְךָ חֲבוֹשׁ עָלֶיךָ וְגוֹ׳״!

Se a isenção decorre apenas de preocupação, então até mesmo aquele a quem afundou seu navio no mar deveria ser isento também! Ora, disse Rabi Abá bar Zavdá, disse Rav: o endoentado é obrigado em todos os mandamentos ditos na Torá, exceto os tefilin, pois neles foi dito o termo "esplendor" (peer), como está dito: "teu esplendor, ata sobre ti, etc." (Yechezkel 24:17, dito a Yechezkel no dia da morte de sua esposa — e o esplendor é incompatível com o luto)!

Nota

A Guemará amplia a dificuldade: se a mera "preocupação" bastasse para isentar de mandamentos, isso valeria para qualquer aflição grave, como a perda de um navio no mar — mas isso não é assim, pois o próprio endoentado, aflito pela perda de um ente querido, é obrigado em quase todos os mandamentos, com a única exceção dos tefilin, isentos por comparação textual explícita ao "esplendor" incompatível com o luto. Isso mostra que a preocupação sozinha não gera isenção geral.

03Resposta final: a preocupação do endoentado é facultativa, mas a do noivo com sua mitzvá é uma preocupação de mandamento
Bavli · 16b — Guemará
אָמְרִי הָתָם טִרְדָּא דִרְשׁוּת הָכָא טִרְדָּא דְמִצְוָה.

Disseram: ali (no caso do navio afundado, e mesmo no do endoentado quanto aos demais mandamentos) é uma preocupação facultativa (não gerada pelo cumprimento de um preceito); aqui (no caso do noivo) é uma preocupação de mandamento (pois o casamento e a construção de um lar em Israel são, eles próprios, um preceito, e essa preocupação especial com uma mitzvá em curso é o que gera a isenção).

Nota

A Guemará resolve a dificuldade com uma distinção final: não é qualquer preocupação que isenta da Keriat Shemá, mas apenas aquela gerada pelo próprio cumprimento de um mandamento — como o casamento, que constitui em si uma mitzvá. A perda de um navio, ou mesmo o luto (quanto aos demais preceitos), é uma preocupação de ordem facultativa, sem relação com o cumprimento de um preceito, e por isso não isenta. Com esta distinção, encerra-se a sugya do noivo, aberta ainda em 15b, e a Guemará passa a expor uma nova Mishná, centrada na figura de Rabán Gamliel.

A Mishná: Rabán Gamliel se banha em luto e aceita condolências pelo escravo Tevi · רָחַץ לַיְלָה הָרִאשׁוֹן

04Mishná: Rabán Gamliel banhou-se na primeira noite de luto por sua esposa, dizendo não ser como as demais pessoas
Bavli · 16b — Mishná
רָחַץ לַיְלָה הָרִאשׁוֹן שֶׁמֵּתָה אִשְׁתּוֹ. אָמְרוּ לוֹ תַּלְמִידָיו: לִמַּדְתָּנוּ רַבֵּינוּ שֶׁאָבֵל אָסוּר לִרְחוֹץ? אָמַר לָהֶם אֵינִי כִּשְׁאָר בְּנֵי אָדָם, אִסְטְנִיס אֲנִי.

Mishná. Rabán Gamliel banhou-se na primeira noite em que morreu sua esposa. Disseram-lhe seus discípulos: não nos ensinaste tu, nosso mestre, que o endoentado está proibido de banhar-se? Disse-lhes: eu não sou como as demais pessoas; sou delicado (de constituição frágil, incapaz de suportar a privação do banho mesmo por um dia).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 16b
רחץ לילה הראשון שמתה אשתו – ונקברה בו ביום ואע"פ שאבל אסור ברחיצה הוא רחץ כדאמר טעמא אסטניס אני והוא אדם מעונג ומפונק:

"Mishná. Banhou-se na primeira noite em que morreu sua esposa" — e ela foi sepultada nesse mesmo dia; e, ainda que o endoentado esteja proibido de banhar-se, ele se banhou, como diz a razão: "sou delicado" — e ele era um homem habituado ao conforto e mimado por natureza, incapaz de suportar a sujeira do corpo mesmo durante o luto.

Nota

Uma nova Mishná introduz o tema seguinte, aparentemente desconectado da Keriat Shemá: as leis do luto, ilustradas por dois episódios envolvendo Rabán Gamliel. No primeiro, ele se banha na própria noite da morte de sua esposa — quando o luto é mais rigoroso —, contrariando a norma geral, e justifica a exceção por sua constituição pessoal excepcionalmente sensível, que tornaria a abstinência do banho um sofrimento desproporcional. Esta Mishná tem paralelo direto no Talmud Yerushalmi, Berachot 2:8, que traz a mesma tradição sobre Rabán Gamliel.

05Mishná: e quando morreu seu escravo Tevi, aceitou condolências, pois não era como os demais escravos
Bavli · 16b — Mishná
וּכְשֶׁמֵּת טָבִי עַבְדּוֹ קִבֵּל עָלָיו תַּנְחוּמִין. אָמְרוּ לוֹ תַּלְמִידָיו: לִמַּדְתָּנוּ רַבֵּינוּ שֶׁאֵין מְקַבְּלִין תַּנְחוּמִין עַל הָעֲבָדִים? אָמַר לָהֶם: אֵין טָבִי עַבְדִּי כִּשְׁאָר כָּל הָעֲבָדִים, כָּשֵׁר הָיָה.

E quando morreu Tevi, seu escravo, aceitou sobre si condolências. Disseram-lhe seus discípulos: não nos ensinaste tu, nosso mestre, que não se aceitam condolências pelos escravos? Disse-lhes: meu escravo Tevi não era como todos os demais escravos; era íntegro (quase como uma pessoa livre em conduta e sabedoria).

Nota

O segundo episódio da mesma Mishná espelha exatamente a estrutura do primeiro: Rabán Gamliel novamente age de modo aparentemente contrário à norma — aceitando condolências pela morte de um escravo, quando a regra geral é não as aceitar, já que o vínculo com um escravo não gera o mesmo dever de luto que com um parente. A justificativa é o caráter excepcional de Tevi, íntegro a ponto de merecer tratamento quase equivalente ao de uma pessoa livre. O caso de Tevi tem paralelo exato no Talmud Yerushalmi, Berachot 2:8 (ver a Mishná e a halachá correspondentes), onde a mesma tradição é citada como abertura daquela halachá.

06Mishná: o noivo, se quiser, pode ler o Shemá na primeira noite; Rabán Shimon ben Gamliel discorda
Bavli · 16b — Mishná
חָתָן אִם רוֹצֶה לִקְרוֹת קְרִיאַת שְׁמַע לַיְלָה הָרִאשׁוֹן — קוֹרֵא, רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: לֹא כָּל הָרוֹצֶה לִיטּוֹל אֶת הַשֵּׁם, יִטּוֹל.

O noivo, se quiser ler a Keriat Shemá na primeira noite — pode ler; Rabán Shimon ben Gamliel diz: nem todo aquele que quer tomar para si o bom nome (de piedoso, ao ler mesmo estando isento) pode tomá-lo (sem primeiro ter reputação estabelecida de piedade genuína).

Nota

A terceira cláusula da Mishná retoma o tema do noivo isento, abordado ao final de 16a, acrescentando que a isenção é facultativa: quem desejar ler mesmo assim, pode fazê-lo — situação análoga à de Rabán Gamliel, que optou por cumprir a mitzvá apesar de isento. Mas Rabán Shimon ben Gamliel adverte contra o exibicionismo religioso: tomar sobre si voluntariamente um comportamento mais estrito, quando isento, pode parecer — a quem não é reconhecidamente piedoso — um ato de vaidade e ostentação, e não de devoção sincera.

07Guemará: a razão de Rabán Shimon ben Gamliel — o luto da noite é só rabínico, mas não isentaram o delicado
Bavli · 16b — Guemará
גְּמָ׳ מַאי טַעְמָא דְּרַבָּן (שִׁמְעוֹן בֶּן) גַּמְלִיאֵל? קָסָבַר: אֲנִינוּת לַיְלָה — דְּרַבָּנַן, דִּכְתִיב: ״וְאַחֲרִיתָהּ כְּיוֹם מָר״. וּבִמְקוֹם אִיסְטְנִיס לָא גְזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן.

Guemará. Qual é a razão de Rabán Shimon ben Gamliel quanto ao banho na noite do luto — retomando o primeiro episódio da Mishná? Ele entende: o luto agudo (aninut) da noite do dia da morte é apenas uma instituição dos sábios, como está escrito: "e seu fim será como dia amargo" (Amós 8:10 — indicando que só o dia, e não necessariamente a noite seguinte, é de luto pleno por Torá); e no caso de alguém delicado como Rabán Gamliel, os sábios não decretaram essa proibição sobre ele.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16b
גמ' קסבר אנינות לילה דרבנן – ואע"פ שהיה ליל יום המיתה וכתיבא אנינות באורייתא דכתיב לא אכלתי באוני ממנו (דברים כ״ו:י״ד) ופחות מיום אחד אינו אנינות דילפי רבנן מואחריתה כיום מר קסבר ר"ג אין לילה של אחריו עם היום אלא מדרבנן הוא כשאר ימי האבל וגבי אסטניס לא גזור בה רבנן פלוגתייהו דתנאי היא בזבחים (ד' צט:) באנינות לילה אי מדאורייתא אי מדרבנן:

"Guemará. Ele entende: o luto agudo da noite é apenas dos sábios" — ainda que fosse a noite do dia da morte, e o luto agudo esteja escrito na própria Torá, como está dito: "não comi dele em meu luto agudo" (Devarim 26:14); mas o luto agudo por menos de um dia inteiro não é considerado luto agudo pleno, pois os sábios o aprendem do versículo "e seu fim será como dia amargo" — daí Rabán Gamliel entende que a noite seguinte ao dia da morte não se junta ao dia anterior como luto agudo pleno, senão que é proibição apenas dos sábios, como os demais dias de luto; e quanto ao delicado, os sábios não decretaram sobre ele. A disputa sobre se o luto agudo da noite é da Torá ou dos sábios é uma controvérsia entre tanaítas, em Zevachim (99b).

Nota

A Guemará explica o fundamento de Rabán Gamliel quanto ao banho: o luto mais rigoroso (aninut), que normalmente proibiria o banho até o sepultamento, aplica-se por lei da Torá apenas ao próprio dia da morte; a noite seguinte já é regida apenas por decreto rabínico, e os sábios, ao instituí-lo, dispensaram dele quem tem constituição delicada — como o próprio Rabán Gamliel se descreveu. A Guemará remete a uma controvérsia tanaítica paralela em Zevachim 99b sobre a natureza exata desse luto agudo noturno.

Condolências por escravos e a escrava de Rabi Eliezer · אֵין מְקַבְּלִין תַּנְחוּמִין עַל הָעֲבָדִים

08Baraita: não se ficam em fila nem se dizem bênção e condolências de luto por escravos e escravas
Bavli · 16b — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: עֲבָדִים וּשְׁפָחוֹת אֵין עוֹמְדִין עֲלֵיהֶם בְּשׁוּרָה, וְאֵין אוֹמְרִים עֲלֵיהֶם בִּרְכַּת אֲבֵלִים וְתַנְחוּמֵי אֲבֵלִים.

Ensinaram os sábios: por escravos e escravas não se fica em fila (a formação de condolência ao voltar do enterro), e não se dizem por eles a bênção dos endoentados nem as condolências dos endoentados.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16b
אין עומדין עליהם בשורה – כשחוזרים מבית הקברות היו עושים שורות סביב האבל ומנחמין אותו ואין שורה פחותה מעשרה: ברכת אבלים – ברכת רחבה שמברין אותו סעודה ראשונה משל אחרים ומברכין שם ברכת אבלים והיא מפורשת בכתובות פרק ראשון (ד' ח.):

"Não se fica em fila por eles" — quando as pessoas voltam do cemitério, costumavam fazer filas ao redor do endoentado e consolá-lo, e não há fila com menos de dez pessoas. "A bênção dos endoentados" — é a bênção ampla que se recita quando as pessoas alimentam o endoentado na primeira refeição após o enterro, feita com pão e vinho de outros, e ali se abençoa essa bênção dos endoentados; e ela está explicada no tratado de Ketubot, primeiro capítulo (8a).

Nota

Esta baraita estabelece a regra geral de fundo da Mishná: por escravos, não se realizam os ritos formais de consolação reservados a parentes — nem a fila de consolação ao retorno do cemitério, nem as bênçãos e fórmulas litúrgicas específicas do luto. É essa regra que os discípulos de Rabán Gamliel invocaram ao questioná-lo sobre Tevi, e é a mesma regra que estará no centro do episódio seguinte, envolvendo Rabi Eliezer. Corresponde à mesma baraita citada no Talmud Yerushalmi, Berachot 2:8.

09Caso da escrava de Rabi Eliezer: ele fugiu de seus discípulos pela casa, recusando-se a aceitar condolências
Bavli · 16b — Guemará
מַעֲשֶׂה וּמֵתָה שִׁפְחָתוֹ שֶׁל רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. נִכְנְסוּ תַּלְמִידָיו לְנַחֲמוֹ. כֵּיוָן שֶׁרָאָה אוֹתָם עָלָה לַעֲלִיָּיה, וְעָלוּ אַחֲרָיו. נִכְנַס לָאַנְפִּילוֹן, נִכְנְסוּ אַחֲרָיו. נִכְנַס לַטְּרַקְלִין, נִכְנְסוּ אַחֲרָיו.

Houve um caso em que morreu a escrava de Rabi Eliezer. Entraram seus discípulos para consolá-lo. Assim que os viu, subiu ao sótão, e eles subiram atrás dele. Entrou no vestíbulo (o pequeno cômodo diante do salão principal), e eles entraram atrás dele. Entrou no salão (triclínio, a sala principal da casa), e eles entraram atrás dele.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16b
לאנפילון – בית קטן שלפני טרקלין הגדול:

"No vestíbulo" — é um cômodo pequeno que fica diante do salão grande.

Nota

Inicia-se o episódio central desta parte do daf: quando morre a escrava de Rabi Eliezer, seus discípulos, desconhecendo — ou ignorando de propósito — a norma de não consolar por escravos, tentam consolá-lo mesmo assim. Rabi Eliezer, evitando aceitar essas condolências indevidas, foge deles por diferentes cômodos da casa, um a um, numa sequência quase cômica que evidencia sua determinação silenciosa em não infringir a halachá, até finalmente ser obrigado a confrontá-los verbalmente. Este é precisamente o episódio citado, quase palavra por palavra, no Talmud Yerushalmi, Berachot 2:8.

10Rabi Eliezer repreende os discípulos: nem água fervente os detém; explica que nem por livres, quanto mais por escravos
Bavli · 16b — Guemará
אָמַר לָהֶם: כִּמְדוּמֶּה אֲנִי שֶׁאַתֶּם נִכְוִים בְּפוֹשְׁרִים, עַכְשָׁיו אִי אַתֶּם נִכְוִים אֲפִילּוּ בְּחַמֵּי חַמִּין, לֹא כָּךְ שָׁנִיתִי לָכֶם: עֲבָדִים וּשְׁפָחוֹת אֵין עוֹמְדִים עֲלֵיהֶם בְּשׁוּרָה, וְאֵין אוֹמְרִים עֲלֵיהֶם בִּרְכַּת אֲבֵלִים וְלֹא תַּנְחוּמֵי אֲבֵלִים? אֶלָּא מָה אוֹמְרִים עֲלֵיהֶם? — כְּשֵׁם שֶׁאוֹמְרִים לוֹ לְאָדָם עַל שׁוֹרוֹ וְעַל חֲמוֹרוֹ שֶׁמֵּתוּ — ״הַמָּקוֹם יְמַלֵּא לְךָ חֶסְרוֹנְךָ״, כָּךְ אוֹמְרִים לוֹ עַל עַבְדּוֹ וְעַל שִׁפְחָתוֹ ״הַמָּקוֹם יְמַלֵּא לְךָ חֶסְרוֹנְךָ״.

Disse-lhes: eu supunha que vos queimáveis apenas com água morna (bastaria uma indicação sutil, como afastar-me em silêncio, para que entendêssseis); agora vejo que nem sequer vos queimais com água fervente (nem mesmo minha fuga clara pela casa toda vos deteve)! Não vos ensinei assim: por escravos e escravas não se fica em fila, e não se dizem por eles a bênção dos endoentados nem as condolências dos endoentados? Mas então o que se diz por eles? Assim como se diz a um homem, sobre seu boi ou seu jumento que morreram: "que o Onipresente preencha a tua falta" — assim também se diz a ele, sobre seu escravo ou sua escrava: "que o Onipresente preencha a tua falta".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16b
נכוים בפושרים – כלומר סבור הייתי שתבינו דבר ברמז מועט שראיתם אותי סר מעליכם ליכנס לאנפילון:

"Vos queimáveis com água morna" — ou seja: eu supunha que entendêsseis a coisa por uma leve indicação, ao verdes-me afastar-me de vós para entrar no vestíbulo e nos demais cômodos, sem que fosse necessário dizer-vos nada.

Nota

Ao ser finalmente alcançado, Rabi Eliezer repreende seus discípulos com uma imagem vívida: sua fuga silenciosa por três cômodos sucessivos já deveria ter servido de indicação clara e inequívoca — mais forte ainda que "água fervente" —, mas mesmo assim eles insistiram em segui-lo. Ele então reafirma a halachá que já lhes ensinara: por um escravo não se recita a fórmula de consolação reservada aos parentes, mas apenas a fórmula genérica usada até para a perda de um animal de trabalho — "que o Onipresente preencha a tua falta" —, pois, do ponto de vista dessas leis específicas de luto, o vínculo com o escravo equipara-se ao vínculo com um bem material, e não ao de parentesco.

11Baraita paralela: não se faz elogio fúnebre por escravos; Rabi Yossei permite elogiar o escravo íntegro, mas objetam-lhe
Bavli · 16b — Guemará
תַּנְיָא אִידַּךְ: עֲבָדִים וּשְׁפָחוֹת אֵין מַסְפִּידִין אוֹתָן. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: אִם עֶבֶד כָּשֵׁר הוּא — אוֹמְרִים עָלָיו: ״הוֹי אִישׁ טוֹב וְנֶאֱמָן וְנֶהֱנֶה מִיגִיעוֹ״. אָמְרוּ לוֹ: אִם כֵּן, מָה הִנַּחְתָּ לַכְּשֵׁרִים?

Foi ensinado em outra baraita: por escravos e escravas não se faz elogio fúnebre. Rabi Yossei diz: se é um escravo íntegro — diz-se sobre ele: "ai, homem bom e fiel, que se beneficiava do fruto de seu próprio labor (e não roubava seu patrão)!" Disseram-lhe os sábios a Rabi Yossei: se assim, o que deixaste de elogio a mais para as pessoas íntegras livres, já que atribuis ao escravo o mesmo elogio que se faria a um homem livre virtuoso?

Nota

Uma baraita adicional estende a proibição ao elogio fúnebre formal (hesped), vedado inteiramente para escravos. Rabi Yossei propõe uma exceção limitada para o escravo íntegro, permitindo uma frase de elogio moderada — louvando sua honestidade no trabalho, sem roubar de seu senhor. Mas os sábios rejeitam mesmo essa concessão, argumentando que tal elogio, se usado também para escravos, esvaziaria o que resta como elogio distintivo para pessoas livres verdadeiramente virtuosas — mantendo, assim, uma distinção categórica entre os dois status.

Três patriarcas, quatro matriarcas — e os escravos de Rabán Gamliel · אֵין קוֹרִין אָבוֹת אֶלָּא לִשְׁלֹשָׁה

12Baraita: só se chamam "patriarcas" a três, e "matriarcas" a quatro
Bavli · 16b — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: אֵין קוֹרִין ״אָבוֹת״ אֶלָּא לִשְׁלֹשָׁה, וְאֵין קוֹרִין ״אִמָּהוֹת״ אֶלָּא לְאַרְבַּע.

Ensinaram os sábios: não se chama "patriarcas" senão a três (homens), e não se chama "matriarcas" senão a quatro (mulheres).

Nota

A Guemará introduz, um tanto abruptamente — ligada ao tema anterior pela questão de títulos honoríficos aplicados a pessoas —, uma baraita sobre o uso restrito dos termos "patriarcas" (avot) e "matriarcas" (imahot) exclusivamente para as figuras fundadoras do povo de Israel, sem estendê-los a outras gerações de ancestrais bíblicos.

13Por que só três e quatro? Não por desconhecer a linhagem exata, mas por serem eles os mais importantes
Bavli · 16b — Guemará
אָבוֹת מַאי טַעְמָא? אִילֵּימָא מִשּׁוּם דְּלָא יָדְעִינַן אִי מֵרְאוּבֵן קָא אָתֵינַן אִי מִשִּׁמְעוֹן קָא אָתֵינַן, אִי הָכִי אִמָּהוֹת נָמֵי לָא יָדְעִינַן אִי מֵרָחֵל קָא אָתֵינַן אִי מִלֵּאָה קָא אָתֵינַן! אֶלָּא, עַד הָכָא חֲשִׁיבִי, טְפִי לָא חֲשִׁיבִי.

Quanto aos patriarcas (Avraham, Yitzchak e Yaacov), qual é a razão de limitar o título a apenas três, e não incluir também as doze tribos? Se dissermos que é porque não sabemos se descendemos de Reuven ou se descendemos de Shimon (cada judeu descende de uma tribo específica, não de todas, por isso não se chamam "pais" a todas as doze) — se assim, quanto às matriarcas também não sabemos se descendemos de Rachel ou se descendemos de Leá (pois cada um descende apenas de uma das quatro esposas, e ainda assim todas as quatro são chamadas "matriarcas")! Mas, na verdade, a razão é outra: até aqui (os três patriarcas e as quatro matriarcas) são importantes o bastante para receber o título; mais além disso (as doze tribos), não são tão importantes a ponto de merecerem o título de "pais".

Nota

A Guemará examina e rejeita uma explicação baseada na linhagem biológica direta, pois ela não explicaria por que todas as quatro matriarcas recebem o título, mesmo sabendo que cada judeu descende apenas de uma delas. A explicação final é de ordem qualitativa: os três patriarcas e as quatro matriarcas possuem uma estatura espiritual e fundacional única, superior à das doze tribos, o que justifica reservar-lhes esses títulos honoríficos exclusivos.

14Baraita: não se chamam escravos de "fulano, meu pai" ou "fulana, minha mãe" — exceto os de Rabán Gamliel
Bavli · 16b — Guemará
תַּנְיָא אִידָךְ: עֲבָדִים וּשְׁפָחוֹת אֵין קוֹרִין אוֹתָם ״אַבָּא פְּלוֹנִי״ וְ״אִמָּא פְּלוֹנִית״. וְשֶׁל רַבָּן גַּמְלִיאֵל הָיוּ קוֹרִים אוֹתָם ״אַבָּא פְּלוֹנִי״ וְ״אִמָּא פְּלוֹנִית״.

Foi ensinado em outra baraita: escravos e escravas — não se chamam por títulos como "pai fulano" e "mãe fulana" (termos de respeito usados por membros da casa). Mas os escravos e escravas de Rabán Gamliel eram chamados "pai fulano" e "mãe fulana".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16b
אבא פלוני אמא פלונית – לא בבניהם קאמר אלא בשאר בני אדם כעין שאנו קורין עכשיו מר פלוני מרת פלונית כך היו רגילין לומר אבא פלוני ואמא פלונית:

"Pai fulano, mãe fulana" — não se refere a serem chamados assim por seus próprios filhos (o que seria natural), mas sim pelas demais pessoas (estranhas à casa); assim como hoje costumamos chamar alguém de "senhor fulano" ou "senhora fulana", assim naquela época costumavam dizer "pai fulano" e "mãe fulana" como título honorífico de respeito.

Nota

Uma nova baraita traz outra restrição relativa a escravos: o costume de conferir-lhes títulos honoríficos de respeito, como "pai fulano" ou "mãe fulana" — usados então como hoje se usa "senhor" ou "senhora" — normalmente não se aplicava a eles. A exceção explícita dos escravos da própria casa de Rabán Gamliel prepara a objeção seguinte: como conciliar essa prática com o caráter especial de Tevi, já apresentado na Mishná?

15Objeção: mas isso contradiz o próprio caso de Tevi! Resposta: eram igualmente íntegros
Bavli · 16b — Guemará
מַעֲשֶׂה לִסְתּוֹר?! מִשּׁוּם דַּחֲשִׁיבִי.

Um caso concreto trazido para refutar a própria regra recém-ensinada — pois se não se chamam assim os escravos em geral, como então os de Rabán Gamliel eram chamados assim?! Responde-se: é porque eram importantes (íntegros e dignos, como Tevi, e por isso mereciam esse título honorífico excepcionalmente).

Nota

A Guemará resolve a aparente contradição interna da própria baraita — que primeiro proíbe o costume e depois relata uma exceção — explicando que a exceção dos escravos de Rabán Gamliel não invalida a regra geral, mas confirma-a: precisamente por serem excepcionalmente íntegros, como o próprio Tevi da Mishná, mereciam ser tratados com esse título de respeito normalmente reservado a pessoas livres — fechando, assim, o círculo temático iniciado com o episódio de Tevi.

Rabi Elazar e as orações pessoais dos sábios após a Amidá · כֵּן אֲבָרֶכְךָ בְחַיָּי

16Rabi Elazar: "assim te abençoarei em minha vida" refere-se à Keriat Shemá e à Amidá; a recompensa de quem as cumpre
Bavli · 16b — Guemará
אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מַאי דִּכְתִיב, ״כֵּן אֲבָרֶכְךָ בְחַיָּי בְּשִׁמְךָ אֶשָּׂא כַפָּי״? ״כֵּן אֲבָרֶכְךָ בְחַיָּי״ — זוֹ קְרִיאַת שְׁמַע. ״בְּשִׁמְךָ אֶשָּׂא כַפָּי״ — זוֹ תְּפִלָּה. וְאִם עוֹשֶׂה כֵּן — עָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״כְּמוֹ חֵלֶב וָדֶשֶׁן תִּשְׂבַּע נַפְשִׁי״. וְלֹא עוֹד אֶלָּא שֶׁנּוֹחֵל שְׁנֵי עוֹלָמִים — הָעוֹלָם הַזֶּה וְהָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְשִׂפְתֵי רְנָנוֹת יְהַלֶּל פִּי״.

Disse Rabi Elazar: o que significa o que está escrito: "assim te abençoarei em minha vida, em teu nome erguerei as minhas mãos" (Tehilim 63:5)? "Assim te abençoarei em minha vida" — esta é a Keriat Shemá. "Em teu nome erguerei as minhas mãos" — esta é a oração (a Amidá). E se a pessoa faz assim (cumpre ambas devidamente), sobre ela diz o versículo: "como de gordura e sebo se saciará minha alma" (Tehilim 63:6). E não só isso, mas herda dois mundos — este mundo e o mundo vindouro, como está dito: "e com lábios de júbilo louvará minha boca" (Tehilim 63:6, continuação).

Nota

Encerrada a sugya sobre luto e títulos honoríficos, a Guemará retorna ao tema geral da Keriat Shemá e da oração para introduzir um ensinamento homilético de Rabi Elazar: o versículo de Tehilim, que fala de bendizer "em vida" e erguer as mãos "em teu nome", é lido como referência dupla à leitura do Shemá pela manhã e à noite ("em minha vida") e à Amidá ("erguerei as mãos"); quem cumpre ambas com regularidade recebe uma recompensa dupla, descrita nos versículos seguintes do mesmo salmo — satisfação espiritual plena e herança tanto neste mundo quanto no mundo vindouro. Este ensinamento serve de ponte para a extensa coletânea de orações pessoais que os sábios recitavam após a Amidá, iniciada a seguir.

17A oração de Rabi Elazar após a Amidá: amor, fraternidade, muitos discípulos e um bom fim
Bavli · 16b — Guemará
רַבִּי אֶלְעָזָר בָּתַר דִּמְסַיֵּים צְלוֹתֵיהּ אָמַר הָכִי: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהֵינוּ, שֶׁתְּשַׁכֵּן בְּפוּרֵינוּ אַהֲבָה וְאַחְוָה וְשָׁלוֹם וְרֵיעוּת. וְתַרְבֶּה גְּבוּלֵנוּ בְּתַלְמִידִים וְתַצְלִיחַ סוֹפֵנוּ אַחֲרִית וְתִקְוָה. וְתָשִׂים חֶלְקֵנוּ בְּגַן עֵדֶן, וְתַקְּנֵנוּ בְּחָבֵר טוֹב וְיֵצֶר טוֹב בְּעוֹלָמֶךָ. וְנַשְׁכִּים וְנִמְצָא יִחוּל לְבָבֵנוּ לְיִרְאָה אֶת שְׁמֶךָ, וְתָבֹא לְפָנֶיךָ קוֹרַת נַפְשֵׁנוּ לְטוֹבָה״.

Rabi Elazar, depois de concluir sua oração (a Amidá), dizia assim: "seja de vontade diante de Ti, Eterno, nosso D-us, que estabeleças em nosso destino (ou: em nossa sorte) amor, fraternidade, paz e companheirismo; que multipliques nossa fronteira (nossa comunidade) com discípulos, e faças prosperar nosso fim, com bom destino final e esperança; que ponhas nossa porção no Jardim do Éden, e nos firmes com bom companheiro e boa inclinação em teu mundo; e que nos levantemos cedo e encontremos nosso coração anelando temer o teu nome, e que chegue diante de Ti a satisfação de nossa alma para o bem".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16b
כן אברכך – וכמו חלב ודשן. תרי קראי דסמיכי להדדי: רננות – שתים: בפורינו – בגורלנו: אחרית ותקוה – שתהא אחריתנו טובה ונראה מה שקוינו: ותקננו – לשון תקון: ונשכים ונמצא יחול לבבנו ליראה את שמך – שלא יתגבר עלינו יצר הרע בהרהור הלילה לסור מאחריך ביום אלא כשנשכים בכל בקר נמצא לבבנו מייחל לך: ותבא לפניך קורת נפשנו – כלומר ספוק צרכנו וקורת רוחנו:

"Assim te abençoarei" — e também "como de gordura e sebo" (Tehilim 63:5-6) são dois versículos contíguos entre si. "Lábios de júbilo" — note-se que estão no plural, dois tipos de louvor. "Em nosso destino" — em nossa sorte. "Fim e esperança" — que nosso fim seja bom, e vejamos cumprido aquilo que esperamos. "E nos firmes" — expressão relacionada a firmeza. "E que nos levantemos cedo e encontremos nosso coração anelando temer o teu nome" — que a inclinação má não prevaleça sobre nós com pensamentos impuros durante a noite, levando-nos a desviar-nos de Ti de dia; mas que, ao nos levantarmos cedo todas as manhãs, encontremos nosso coração anelando por Ti. "E que chegue diante de Ti a satisfação de nossa alma" — ou seja, o suprimento de nossas necessidades e a satisfação de nosso espírito.

Nota

Abre-se aqui a longa coletânea de orações pessoais (tefilot privadas) que diversos sábios amoraítas costumavam acrescentar, por iniciativa própria, ao final da Amidá obrigatória — um costume que perdura até hoje na liturgia judaica, sob a forma de súplicas adicionais após a "Amidá silenciosa". A de Rabi Elazar pede harmonia comunitária, multiplicação de discípulos, um bom destino final, porção no Paraíso, boas companhias e disposição constante para o temor a D-us.

18A oração de Rabi Yochanan: que D-us olhe para nossa vergonha e nossa desgraça com misericórdia, força, piedade, graça e bondade
Bavli · 16b — Guemará
רַבִּי יוֹחָנָן בָּתַר דִּמְסַיֵּים צְלוֹתֵיהּ אָמַר הָכִי: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהֵינוּ, שֶׁתָּצִיץ בְּבׇשְׁתֵּנוּ, וְתַבִּיט בְּרָעָתֵנוּ, וְתִתְלַבֵּשׁ בְּרַחֲמֶיךָ, וְתִתְכַּסֶּה בְּעֻזֶּךָ, וְתִתְעַטֵּף בַּחֲסִידוּתֶךָ, וְתִתְאַזֵּר בַּחֲנִינוּתֶךָ, וְתָבֹא לְפָנֶיךָ מִדַּת טוּבְךָ וְעִנְוְתָנוּתֶךְ״.

Rabi Yochanan, depois de concluir sua oração, dizia assim: "seja de vontade diante de Ti, Eterno, nosso D-us, que olhes para nossa vergonha, e vejas nossa desgraça; e que te revistas de tua misericórdia, e te cubras com teu poder, e te envolvas em tua piedade, e te cinjas de tua graça, e chegue diante de Ti o atributo de tua bondade e de tua humildade".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16b
ותביט ברעתנו – תדע ותתן לבך ברעה הבאה עלינו:

"E vejas nossa desgraça" — que saibas e voltes teu coração para a desgraça que vem sobre nós.

Nota

Rabi Yochanan formula sua súplica pessoal numa série de imagens de investidura — pedindo que D-us "se revista" e "se cinja" de Seus próprios atributos de misericórdia, poder, piedade, graça e bondade, como quem se veste para agir — a fim de que essas qualidades divinas se manifestem concretamente diante do sofrimento e da humilhação do povo.

19A oração breve de Rabi Zeirá: não pecar, não se envergonhar nem se humilhar diante de nossos antepassados
Bavli · 16b — Guemará
רַבִּי זֵירָא בָּתַר דִּמְסַיֵּים צְלוֹתֵיהּ אָמַר הָכִי: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהֵינוּ, שֶׁלֹּא נֶחֱטָא וְלֹא נֵבוֹשׁ וְלֹא נִכָּלֵם מֵאֲבוֹתֵינוּ״.

Rabi Zeirá, depois de concluir sua oração, dizia assim: "seja de vontade diante de Ti, Eterno, nosso D-us, que não pequemos, e não nos envergonhemos, e não nos humilhemos diante de nossos antepassados (por não estarmos à altura de sua conduta)".

Nota

A oração de Rabi Zeirá é a mais breve da série: um pedido simples para não pecar e para não sentir vergonha ou humilhação ao comparar-se, na posteridade, com a conduta exemplar dos patriarcas e sábios anteriores.

20A oração de Rabi Chiya: que a Torá seja nosso ofício, sem desânimo do coração nem escurecimento dos olhos
Bavli · 16b — Guemará
רַבִּי חִיָּיא בָּתַר דִּמְצַלֵּי אָמַר הָכִי: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהֵינוּ, שֶׁתְּהֵא תּוֹרָתְךָ אוּמָּנוּתֵנוּ, וְאַל יִדְוֶה לִבֵּנוּ, וְאַל יֶחְשְׁכוּ עֵינֵינוּ״.

Rabi Chiya, depois de orar, dizia assim: "seja de vontade diante de Ti, Eterno, nosso D-us, que a tua Torá seja nosso ofício, e que nosso coração não desfaleça, e que nossos olhos não se escureçam".

Nota

Rabi Chiya pede que o estudo da Torá se torne verdadeiramente a ocupação central e permanente de sua vida — não uma atividade acessória — e que nem o desânimo emocional nem o enfraquecimento físico da visão (necessária ao estudo dos textos) o impeçam de persistir nesse ofício.

21A oração de Rav: vida longa, de paz, bem, bênção, sustento, saúde, temor do pecado, sem vergonha, riqueza e honra, amor à Torá e temor aos Céus
Bavli · 16b — Guemará
רַב בָּתַר צְלוֹתֵיהּ אָמַר הָכִי: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהֵינוּ שֶׁתִּתֵּן לָנוּ חַיִּים אֲרוּכִּים, חַיִּים שֶׁל שָׁלוֹם, חַיִּים שֶׁל טוֹבָה, חַיִּים שֶׁל בְּרָכָה, חַיִּים שֶׁל פַּרְנָסָה, חַיִּים שֶׁל חִלּוּץ עֲצָמוֹת, חַיִּים שֶׁיֵּשׁ בָּהֶם יִרְאַת חֵטְא, חַיִּים שֶׁאֵין בָּהֶם בּוּשָׁה וּכְלִימָּה, חַיִּים שֶׁל עוֹשֶׁר וְכָבוֹד, חַיִּים שֶׁתְּהֵא בָּנוּ אַהֲבַת תּוֹרָה וְיִרְאַת שָׁמַיִם, חַיִּים שֶׁתְּמַלֵּא לָנוּ אֶת כָּל מִשְׁאֲלוֹת לִבֵּנוּ לְטוֹבָה״.

Rav, depois de sua oração, dizia assim: "seja de vontade diante de Ti, Eterno, nosso D-us, que nos dês vida longa; vida de paz; vida de bem; vida de bênção; vida de sustento; vida de vigor dos ossos (saúde física); vida em que haja temor do pecado; vida em que não haja vergonha nem humilhação; vida de riqueza e honra; vida em que haja em nós amor à Torá e temor aos Céus; vida em que preenchas para nós todos os pedidos de nosso coração para o bem".

Nota

A oração de Rav é a mais longa e abrangente da série, estruturada como uma sucessão de dez pedidos, cada um introduzido pela palavra "vida", cobrindo simultaneamente bem-estar material (sustento, saúde, riqueza), bem-estar espiritual (temor do pecado, amor à Torá, temor aos Céus) e bem-estar emocional (paz, ausência de vergonha) — um modelo de súplica holística que viria a influenciar, em versões adaptadas, orações posteriores da liturgia judaica, como a bênção do novo mês (Birkat HaChodesh).

22A oração de Rabi (Yehudá HaNassi): que nos salves de gente insolente e de todo mal, mesmo que vigiado por guardas hostis
Bavli · 16b — Guemará
רַבִּי בָּתַר צְלוֹתֵיהּ אָמַר הָכִי: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהֵינוּ וֵאלֹהֵי אֲבוֹתֵינוּ, שֶׁתַּצִּילֵנוּ מֵעַזֵּי פָּנִים וּמֵעַזּוּת פָּנִים, מֵאָדָם רָע, וּמִפֶּגַע רָע, מִיֵּצֶר רָע, מֵחָבֵר רָע, מִשָּׁכֵן רָע, וּמִשָּׂטָן הַמַּשְׁחִית, וּמִדִּין קָשֶׁה וּמִבַּעַל דִּין קָשֶׁה, בֵּין שֶׁהוּא בֶּן בְּרִית בֵּין שֶׁאֵינוֹ בֶּן בְּרִית״. וְאַף עַל גַּב דְּקָיְימִי קָצוֹצֵי עֲלֵיהּ דְּרַבִּי.

Rabi (Yehudá HaNassi), depois de sua oração, dizia assim: "seja de vontade diante de Ti, Eterno, nosso D-us e D-us de nossos antepassados, que nos salves de gente de rosto insolente e da própria insolência, de homem mau, de encontro mau, de má inclinação, de mau companheiro, de mau vizinho, do satã destruidor, de juízo severo e de litigante severo, seja ele um filho do pacto (judeu), seja ele não filho do pacto (gentio)". E ele dizia assim ainda que houvesse guardas armados postados sobre Rabi vigiando-o.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 16b
מעזי פנים – שלא יתגרו בי: ומעזות פנים – שלא יוציאו עלי לעז ממזרות: שאינו בן ברית – שאינו מהול: ואע"ג דקיימי קצוצי עליה דרבי – שהיו שוטרים עומדין במצות אנטונינוס להכות ולהנקם בכל העומדים עליו:

"De gente de rosto insolente" — que não me provoquem. "E da insolência" — que não espalhem sobre mim calúnia de bastardia. "Que não é filho do pacto" — que não é circuncidado. "E ainda que houvesse guardas postados sobre Rabi" — pois havia guardas postados por ordem de Antonino (o imperador romano, amigo de Rabi) para golpear e vingar-se de todos os que se levantassem contra ele — e, mesmo protegido por essa guarda poderosa, Rabi ainda assim rezava para ser salvo de litigantes severos, judeus ou gentios.

Nota

A oração de Rabi Yehudá HaNassi — o editor da Mishná, figura de grande prestígio político e social, amigo do imperador romano Antonino — pede proteção contra adversários humanos e espirituais de toda ordem: pessoas insolentes, más companhias, vizinhos hostis, o "satã destruidor" e litigantes severos, tanto judeus quanto gentios. Rashi nota que essa súplica era recitada mesmo quando Rabi já contava com proteção armada pessoal, mostrando que nem o poder político mitigava sua sensação de vulnerabilidade e sua confiança última apenas na proteção Divina.

23A oração de Rav Safra: "que estabeleças paz..." — texto que continua no início de 17a
Bavli · 16b — Guemará
רַב סָפְרָא בָּתַר צְלוֹתֵיהּ אָמַר הָכִי: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהֵינוּ, שֶׁתָּשִׂים שָׁלוֹם...״

Rav Safra, depois de sua oração, dizia assim: "seja de vontade diante de Ti, Eterno, nosso D-us, que estabeleças paz (o texto do daf termina aqui, interrompido; a oração completa de Rav Safra prossegue no início do próximo daf, 17a, com uma súplica pela paz entre as diferentes assembleias e escolas de sábios que discutem a Torá)".

Nota

O daf 16b termina de modo abrupto, no meio da oração de Rav Safra — um corte de página comum no layout tradicional do Talmud impresso, que não corresponde a uma pausa de conteúdo. A frase será concluída logo no início de 17a, com uma súplica pela paz entre as academias de estudo, e a coletânea de orações pessoais dos sábios prosseguirá com outros nomes, incluindo Mar, filho de Ravina, e Rava.