Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Bet
שֶׁתָּשִׂים שָׁלוֹם בְּפָמַלְיָא שֶׁל מַעְלָה

Conclusão da coletânea de orações pessoais dos sábios após a Amidá — Rav Safra, Rabi Alexandri, Rava, Mar filho de Ravina, Rav Sheshet e Rabi Yochanan; os ditos memoráveis de Rabi Meir, dos sábios de Yavne, de Abaié e de Rava; a grande promessa às mulheres; e as bênçãos de despedida das casas de estudo

Berachot 17a

O daf abre concluindo a frase interrompida de Rav Safra ao final de 16b, com sua súplica pela paz entre as academias celestiais e terrenas. Seguem-se as orações pessoais de Rabi Alexandri (e a variante atribuída a Rav Hamnuna) e a extensa confissão de Rava, idêntica à de Rav Hamnuna Zutá em Yom Kipur; a oração de Mar, filho de Ravina, pedindo guarda da língua; a súplica de Rav Sheshet em dia de jejum, comparando a redução de sua gordura e sangue a um sacrifício; e o ensinamento de Rabi Yochanan ao concluir o livro de Iyov, sobre a morte comum a todos e a bem-aventurança de quem cresce e parte com bom nome. A Guemará então reúne uma série de ditos memoráveis (margela befumei) de Rabi Meir, dos sábios de Yavne, de Abaié — sobre paz com todos, mesmo com um gentio no mercado —, de Rava sobre o propósito da sabedoria, e de Rav sobre a natureza do mundo vindouro. O daf fecha com a grande promessa que D-us fez às mulheres, a pergunta de Rav a Rabi Chiya sobre o mérito delas, e as fórmulas de bênção recitadas na despedida dos sábios ao saírem das casas de estudo de Rabi Ami, Rabi Chanina, Rav Chisda e Rabi Shmuel bar Nachmani.

Conclusão das orações pessoais dos sábios · תַּשְׁלוּם תְּפִלּוֹת הַתַּנָּאִים וְהָאֳמוֹרָאִים

01Conclusão da oração de Rav Safra: paz na assembleia de cima e na de baixo, entre os discípulos que estudam a Torá por seu nome ou não por seu nome
Bavli · 17a — Guemará
בְּפָמַלְיָא שֶׁל מַעְלָה. וּבְפָמַלְיָא שֶׁל מַטָּה, וּבֵין הַתַּלְמִידִים הָעוֹסְקִים בְּתוֹרָתֶךָ בֵּין עוֹסְקִין לִשְׁמָהּ בֵּין עוֹסְקִין שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ. וְכָל הָעוֹסְקִין שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ יְהִי רָצוֹן שֶׁיְּהוּ עוֹסְקִין לִשְׁמָהּ״.

continuação da oração de Rav Safra, iniciada ao final de 16b: "que estabeleças paz" — na assembleia de cima (entre os anjos e os príncipes celestiais das nações), e na assembleia de baixo (entre os sábios de Israel), e entre os discípulos que se ocupam de tua Torá, sejam eles os que a estudam por seu próprio nome, sejam eles os que a estudam não por seu próprio nome (por motivos alheios, como honra ou proveito). E, de todos os que a estudam não por seu próprio nome, seja de vontade que venham a estudá-la por seu próprio nome".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
בפמליא של מעלה – בחבורת שרי האומות שכשהשרים של מעלה יש תגר ביניהם תיכף יש קטטה בין האומות כדכתיב ועתה אשוב להלחם עם שר פרס (דניאל י׳:כ׳): ובפמליא של מטה – בחבורת החכמים:

"Na assembleia de cima" — na companhia dos príncipes das nações (os anjos que as representam Acima), pois quando há discórdia entre os príncipes de cima, logo há briga entre as nações abaixo, como está escrito: "e agora eu voltarei a lutar com o príncipe da Pérsia" (Daniel 10:20). "E na assembleia de baixo" — na companhia dos sábios.

Nota

O daf abre completando a frase de Rav Safra que fora cortada ao final de 16b. Sua súplica pede paz em três planos: entre os príncipes celestiais das nações, cuja discórdia Acima se reflete em guerras entre os povos embaixo; entre os próprios sábios de Israel, cujas disputas de Torá podem gerar atrito pessoal; e, por fim, um pedido de que mesmo aqueles que hoje estudam Torá por motivos impuros — honra, proveito, competição — venham a purificar sua intenção e estudá-la verdadeiramente por seu próprio valor.

02A oração de Rabi Alexandri: que nos ponhas na esquina da luz; e sua súplica sobre o fermento na massa e a sujeição aos reinos
Bavli · 17a — Guemará
רַבִּי אָלֶכְּסַנְדְרִי בָּתַר צְלוֹתֵיהּ אָמַר הָכִי: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהֵינוּ, שֶׁתַּעֲמִידֵנוּ בְּקֶרֶן אוֹרָה, וְאַל תַּעֲמִידֵנוּ בְּקֶרֶן חֲשֵׁכָה, וְאַל יִדְוֶה לִבֵּנוּ, וְאַל יֶחְשְׁכוּ עֵינֵינוּ״. אִיכָּא דְאָמְרִי, הָא רַב הַמְנוּנָא מְצַלֵּי לַהּ. וְרַבִּי אָלֶכְּסַנְדְרִי בָּתַר דִּמְצַלֵּי אָמַר הָכִי: ״רִבּוֹן הָעוֹלָמִים, גָּלוּי וְיָדוּעַ לְפָנֶיךָ שֶׁרְצוֹנֵנוּ לַעֲשׂוֹת רְצוֹנֶךָ, וּמִי מְעַכֵּב? — שְׂאוֹר שֶׁבָּעִיסָּה וְשִׁעְבּוּד מַלְכֻיוֹת. יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ שֶׁתַּצִּילֵנוּ מִיָּדָם, וְנָשׁוּב לַעֲשׂוֹת חוּקֵּי רְצוֹנְךָ בְּלֵבָב שָׁלֵם״.

Rabi Alexandri, depois de sua oração, dizia assim: "seja de vontade diante de Ti, Eterno, nosso D-us, que nos ponhas na esquina da luz, e não nos ponhas na esquina da escuridão; e que nosso coração não desfaleça, e que nossos olhos não se escureçam". Há quem diga: eis que era Rav Hamnuna quem a rezava. E Rabi Alexandri, depois de rezar a sua própria oração, dizia assim: "Soberano dos mundos, revelado e conhecido diante de Ti que nossa vontade é fazer a tua vontade; e o que impede? — o fermento que está na massa (a inclinação má em nosso íntimo) e a sujeição aos reinos (o exílio sob domínio estrangeiro). Seja de vontade diante de Ti que nos salves da mão deles, e voltemos a fazer os decretos de tua vontade com coração pleno".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
בקרן אורה – בזוית אורה: ומי מעכב – שאין אנו עושים רצונך: שאור שבעיסה – יצר הרע שבלבבנו המחמיצנו:

"Na esquina da luz" — no canto iluminado da luz. "E o que impede" — que não façamos tua vontade. "O fermento que está na massa" — a inclinação má que está em nosso coração, que nos azeda e corrompe, como o fermento à massa.

Nota

A oração de Rabi Alexandri combina duas súplicas, com uma nota textual sobre sua autoria: a primeira, breve, pede estar sempre "na esquina da luz", metáfora para uma vida de clareza espiritual e vigor; a segunda, mais elaborada, expressa uma tensão íntima — a vontade sincera de cumprir a vontade Divina é sabotada por dois obstáculos: o "fermento na massa", isto é, a inclinação má que corrompe o coração de dentro, e a "sujeição aos reinos", a opressão política externa do exílio, que impede a plena observância. A imagem do fermento tornou-se, desde então, expressão consagrada na literatura rabínica para designar o impulso ao pecado.

03A confissão de Rava: "antes de ser formado eu não valia..."; a mesma confissão de Rav Hamnuna Zutá em Yom Kipur
Bavli · 17a — Guemará
רָבָא בָּתַר צְלוֹתֵיהּ אָמַר הָכִי: ״אֱלֹהַי, עַד שֶׁלֹּא נוֹצַרְתִּי אֵינִי כְּדַאי, וְעַכְשָׁיו שֶׁנּוֹצַרְתִּי כְּאִלּוּ לֹא נוֹצַרְתִּי. עָפָר אֲנִי בְּחַיַּי, קַל וָחוֹמֶר בְּמִיתָתִי, הֲרֵי אֲנִי לְפָנֶיךָ כִּכְלִי מָלֵא בּוּשָׁה וּכְלִימָּה. יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהַי, שֶׁלֹּא אֶחֱטָא עוֹד, וּמַה שֶּׁחָטָאתִי לְפָנֶיךָ מָרֵק בְּרַחֲמֶיךָ הָרַבִּים, אֲבָל לֹא עַל יְדֵי יִסּוּרִין וָחֳלָאִים רָעִים״. וְהַיְינוּ וִידּוּי דְרַב הַמְנוּנָא זוּטֵי בְּיוֹמָא דְכִפּוּרֵי.

Rava, depois de sua oração, dizia assim: "meu D-us, antes de eu ser formado, eu não valia nada; e agora que fui formado, é como se eu não tivesse sido formado. Pó sou eu em minha vida; tanto mais o serei em minha morte. Eis que estou diante de Ti como um vaso cheio de vergonha e humilhação. Seja de vontade diante de Ti, Eterno, meu D-us, que eu não peque mais; e o que já pequei diante de Ti, apaga tu com tuas muitas misericórdias, mas não por meio de aflições e doenças más". E esta é a confissão de Rav Hamnuna Zutá (o Pequeno) no dia de Yom Kipur.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
איני כדאי – לא הייתי חשוב והגון להיות נוצר: ועכשיו שנוצרתי – מה חשיבותי הרי אני כאילו לא נוצרתי: ק"ו – שבמיתתי עפר אני: מרק – כלה והתם:

"Eu não valia" — eu não era importante nem digno de ser formado. "E agora que fui formado" — qual é minha importância? Eis que sou como se não tivesse sido formado. "Tanto mais" — pois em minha morte, pó sou eu. "Apaga" — no sentido de extingue e elimina por completo.

Nota

A oração de Rava é uma das confissões mais radicais de humildade em toda a literatura talmúdica: ele se declara sem valor tanto antes como depois de sua própria criação, reduzido a pó em vida e ainda mais na morte, "vaso cheio de vergonha". Ainda assim, a súplica final pede perdão específico — não por meio de sofrimento físico ou doença, meios comuns de expiação na tradição rabínica, mas pela misericórdia direta Divina. A Guemará nota que este mesmo texto é a confissão tradicional recitada por Rav Hamnuna Zutá em Yom Kipur, ligando esta oração pessoal à liturgia penitencial coletiva.

04A oração de Mar, filho de Ravina: guarda minha língua do mal; que os que planejam mal contra mim tenham seus planos frustrados
Bavli · 17a — Guemará
מָר בְּרֵיהּ דְּרָבִינָא כִּי הֲוָה מְסַיֵּים צְלוֹתֵיהּ אָמַר הָכִי: ״אֱלֹהַי, נְצוֹר לְשׁוֹנִי מֵרָע וְשִׂפְתוֹתַי מִדַּבֵּר מִרְמָה, וְלִמְקַלְּלַי נַפְשִׁי תִדּוֹם, וְנַפְשִׁי כֶּעָפָר לַכֹּל תִּהְיֶה. פְּתַח לִבִּי בְּתוֹרָתֶךָ, וּבְמִצְוֹתֶיךָ תִּרְדּוֹף נַפְשִׁי. וְתַצִּילֵנִי מִפֶּגַע רָע, מִיֵּצֶר הָרָע, וּמֵאִשָּׁה רָעָה, וּמִכָּל רָעוֹת הַמִּתְרַגְּשׁוֹת לָבֹא בָּעוֹלָם. וְכָל הַחוֹשְׁבִים עָלַי רָעָה מְהֵרָה הָפֵר עֲצָתָם וְקַלְקֵל מַחְשְׁבוֹתָם. יִהְיוּ לְרָצוֹן אִמְרֵי פִי וְהֶגְיוֹן לִבִּי לְפָנֶיךָ ה׳ צוּרִי וְגוֹאֲלִי״.

Mar, filho de Ravina, quando concluía sua oração, dizia assim: "meu D-us, guarda minha língua do mal, e meus lábios de falar engano; e diante daqueles que me amaldiçoam, minha alma se cale, e minha alma seja como pó para todos. Abre meu coração à tua Torá, e que minha alma persiga teus mandamentos. E salva-me de encontro mau, da má inclinação, de mulher má, e de todos os males que se agitam para vir ao mundo. E todos os que pensam mal contra mim, frustra rapidamente seu conselho e transtorna seus pensamentos. Sejam aceitos os dizeres de minha boca e a meditação de meu coração diante de Ti, Eterno, minha Rocha e meu Redentor" (Tehilim 19:15).

Nota

A oração de Mar, filho de Ravina, tornou-se uma das mais influentes desta coletânea: ela é, quase palavra por palavra, a súplica pessoal que encerra a Amidá na liturgia judaica até hoje, recitada por todo fiel ao final das dezoito bênçãos. Combina o pedido de controle sobre a própria fala, a humildade total ("minha alma seja como pó"), a abertura do coração ao estudo, a proteção contra males externos e internos, e fecha citando o próprio versículo de Tehilim 19:15, que viria a se tornar a assinatura litúrgica desta oração.

05A súplica de Rav Sheshet em dia de jejum: que a redução de minha gordura e meu sangue seja como se os tivesse oferecido no altar
Bavli · 17a — Guemará
רַב שֵׁשֶׁת כִּי הֲוָה יָתֵיב בְּתַעֲנִיתָא, בָּתַר דִּמְצַלֵּי אָמַר הָכִי: ״רִבּוֹן הָעוֹלָמִים, גָּלוּי לְפָנֶיךָ בִּזְמַן שֶׁבֵּית הַמִּקְדָּשׁ קַיָּים, אָדָם חוֹטֵא — וּמַקְרִיב קָרְבָּן. וְאֵין מַקְרִיבִין מִמֶּנּוּ, אֶלָּא חֶלְבּוֹ וְדָמוֹ, וּמִתְכַּפֵּר לוֹ. וְעַכְשָׁיו יָשַׁבְתִּי בְּתַעֲנִית וְנִתְמַעֵט חֶלְבִּי וְדָמִי, יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ שֶׁיְּהֵא חֶלְבִּי וְדָמִי שֶׁנִּתְמַעֵט כְּאִילּוּ הִקְרַבְתִּיו לְפָנֶיךָ עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, וְתִרְצֵנִי״.

Rav Sheshet, quando se sentava em jejum, depois de rezar, dizia assim: "Soberano dos mundos, revelado é diante de Ti que, no tempo em que o Templo existia, um homem pecava — e trazia um sacrifício. E não se sacrificava dele senão sua gordura e seu sangue, e ele era perdoado. E agora eu me sentei em jejum, e minha gordura e meu sangue se reduziram; seja de vontade diante de Ti que minha gordura e meu sangue que se reduziram sejam como se eu os tivesse oferecido diante de Ti sobre o altar, e aceita-me com favor".

Nota

Rav Sheshet compara diretamente o efeito físico do jejum — a redução de gordura e sangue corporais — à essência do sacrifício expiatório no Templo, cuja parte central era precisamente a queima da gordura e a aspersão do sangue sobre o altar. Sem o Templo em pé, ele pede que essa perda física voluntária seja aceita como substituto simbólico do sacrifício, gerando o mesmo efeito de expiação e favor Divino.

06Rabi Yochanan ao concluir o livro de Iyov: todos vão à morte; feliz quem cresce na Torá e parte com bom nome, como Shlomo ensinou
Bavli · 17a — Guemará
רַבִּי יוֹחָנָן כִּי הֲוָה מְסַיֵּים סִפְרָא דְאִיּוֹב, אָמַר הָכִי: ״סוֹף אָדָם לָמוּת וְסוֹף בְּהֵמָה לִשְׁחִיטָה, וְהַכֹּל לְמִיתָה הֵם עוֹמְדִים. אַשְׁרֵי מִי שֶׁגָּדֵל בַּתּוֹרָה וַעֲמָלוֹ בַּתּוֹרָה, וְעוֹשֶׂה נַחַת רוּחַ לְיוֹצְרוֹ, וְגָדֵל בְּשֵׁם טוֹב וְנִפְטָר בְּשֵׁם טוֹב מִן הָעוֹלָם, וְעָלָיו אָמַר שְׁלֹמֹה: 'טוֹב שֵׁם מִשֶּׁמֶן טוֹב וְיוֹם הַמָּוֶת מִיּוֹם הִוָּלְדוֹ'״.

Rabi Yochanan, quando concluía o livro de Iyov, dizia assim: "o fim do homem é morrer, e o fim do animal é ser abatido, e todos estão destinados à morte. Feliz é aquele que cresce na Torá, e seu labor é na Torá, e faz satisfação de espírito para seu Formador, e cresce com bom nome e parte com bom nome deste mundo. E sobre ele disse Shlomo: 'melhor é o bom nome que o óleo bom, e o dia da morte mais que o dia do nascimento'" (Kohelet 7:1).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
כי הוה מסיים ספרא דאיוב – על שם שאיוב נפטר בשם טוב:

"Quando concluía o livro de Iyov" — em razão de que Iyov partiu deste mundo com bom nome.

Nota

Ao terminar de estudar o livro de Iyov — que narra o sofrimento do justo e seu restabelecimento final —, Rabi Yochanan extrai um ensinamento sobre a inevitabilidade universal da morte, que iguala homens e animais em seu fim. Mas dentro dessa igualdade última, ele distingue quem verdadeiramente prospera: não quem acumula riqueza, mas quem cresce ocupado na Torá e conclui a vida com boa reputação — citando o versículo de Kohelet que valoriza o "dia da morte" (culminação de uma vida de bom nome) até mais que o "dia do nascimento" (mero potencial ainda não realizado).

Ditos memoráveis dos sábios · מַרְגְּלָא בְּפוּמַיְיהוּ דְּרַבָּנַן

07Dito de Rabi Meir: aprende com todo teu coração e alma para conhecer Meus caminhos; guarda tua boca de todo pecado
Bavli · 17a — Guemará
מַרְגְּלָא בְּפוּמֵּיהּ דְּרַבִּי מֵאִיר: ״גְּמוֹר בְּכָל לְבָבְךָ וּבְכָל נַפְשְׁךָ לָדַעַת אֶת דְּרָכַי, וְלִשְׁקוֹד עַל דַּלְתֵי תוֹרָתִי. נְצוֹר תּוֹרָתִי בְּלִבְּךָ, וְנֶגֶד עֵינֶיךָ תִּהְיֶה יִרְאָתִי. שְׁמוֹר פִּיךְ מִכָּל חֵטְא, וְטַהֵר וְקַדֵּשׁ עַצְמְךָ מִכָּל אַשְׁמָה וְעָוֹן. וַאֲנִי אֶהְיֶה עִמְּךָ בְּכָל מָקוֹם״.

Era corrente na boca de Rabi Meir este ensinamento, formulado como se D-us falasse ao homem: "aprende com todo teu coração e com toda tua alma a conhecer meus caminhos, e a vigiar às portas de minha Torá. Guarda minha Torá em teu coração, e diante de teus olhos esteja meu temor. Guarda tua boca de todo pecado, e purifica-te e santifica-te de toda culpa e transgressão. E eu estarei contigo em todo lugar".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
מרגלא בפומיה – דבר זה רגיל בפיו:

"Era corrente em sua boca" — esta coisa era habitual em sua fala.

Nota

A Guemará passa de orações formais para uma série de "ditos correntes" (margela befumei) — máximas que cada sábio repetia com frequência, funcionando como lema pessoal. O de Rabi Meir é formulado na primeira pessoa Divina, como promessa condicional: dedicação total ao estudo e à guarda da fala e da pureza pessoal são recompensadas com a presença constante de D-us junto ao homem, "em todo lugar".

08Dito dos sábios de Yavne: eu sou criatura e meu companheiro é criatura; nem quem faz mais nem quem faz menos importa, contanto que dirija o coração aos Céus
Bavli · 17a — Guemará
מַרְגְּלָא בְּפוּמַּיְיהוּ דְּרַבָּנַן דְּיַבְנֶה: ״אֲנִי בְּרִיָּה, וַחֲבֵרִי בְּרִיָּה. אֲנִי מְלַאכְתִּי בָּעִיר וְהוּא מְלַאכְתּוֹ בַּשָּׂדֶה. אֲנִי מַשְׁכִּים לִמְלַאכְתִּי, וְהוּא מַשְׁכִּים לִמְלַאכְתּוֹ. כְּשֵׁם שֶׁהוּא אֵינוֹ מִתְגַּדֵּר בִּמְלַאכְתִּי, כָּךְ אֲנִי אֵינִי מִתְגַּדֵּר בִּמְלַאכְתּוֹ. וְשֶׁמָּא תֹּאמַר: אֲנִי מַרְבֶּה, וְהוּא מַמְעִיט — שָׁנִינוּ: אֶחָד הַמַּרְבֶּה וְאֶחָד הַמַּמְעִיט וּבִלְבַד שֶׁיְּכַוֵּין לִבּוֹ לַשָּׁמַיִם״.

Era corrente na boca dos sábios de Yavne: "eu sou criatura, e meu companheiro é criatura. Eu, meu trabalho é na cidade, e ele, seu trabalho é no campo. Eu me levanto cedo para meu trabalho, e ele se levanta cedo para seu trabalho. Assim como ele não se vangloria de meu trabalho, assim também eu não me vanglorio de seu trabalho. E caso digas: eu faço muito, e ele faz pouco — já ensinamos: tanto faz quem faz muito quanto quem faz pouco, contanto que dirija seu coração aos Céus".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
אני – העוסק בתורה בריה אני וכן חברי עם הארץ בריה הוא: אני מלאכתי בעיר – כלומר נוחה מלאכתי ממלאכתו: מתגדר – מתגדל לתפוס אומנותי: ושמא תאמר – הדין עמו שאינו מתגדר במלאכתי שאילו היה תופס אומנותי לא היה לו לב פתוח להרבות בתורה כמותי והיה ממעיט ואין לו שכר: שנינו – שיש לו שכר לממעיט כמו למרבה: ובלבד שיכוין לבו לשמים – ואצל קרבנות הוא במנחות בסופה:

"Eu" — o que se ocupa da Torá é uma criatura, e da mesma forma meu companheiro, o homem do povo (sem instrução), é uma criatura. "Eu, meu trabalho é na cidade" — ou seja, meu trabalho é mais fácil que o dele. "Se vangloria" — se engrandece a ponto de querer assumir meu ofício. "E caso digas" — teria razão de dizer que ele não se vangloria de meu trabalho, pois, se assumisse meu ofício, não teria coração livre para se dedicar amplamente à Torá como eu, e faria pouco, e não teria mérito algum. "Já ensinamos" — que há mérito para quem faz pouco, assim como para quem faz muito. "Contanto que dirija seu coração aos Céus" — e o mesmo se ensina quanto aos sacrifícios, em Menachot, ao final (110a).

Nota

Este dito coletivo dos sábios de Yavne estabelece um princípio de igualdade fundamental e de respeito mútuo entre o estudioso de Torá e o trabalhador comum: ambos são "criaturas" de D-us, cada um ocupado em seu ofício, sem que um deva menosprezar ou cobiçar o trabalho do outro. A conclusão amplia o princípio para dentro do próprio mundo do estudo: o mérito não se mede pela quantidade produzida, mas pela sinceridade da intenção dirigida aos Céus — seja no estudo, seja, por extensão, nos sacrifícios do Templo.

09Dito de Abaié: seja sempre o homem astuto no temor, com resposta branda, e multiplique paz com todos, até com o gentio no mercado
Bavli · 17a — Guemará
מַרְגְּלָא בְּפוּמֵּיהּ דְּאַבָּיֵּי: לְעוֹלָם יְהֵא אָדָם עָרוּם בְּיִרְאָה. ״מַעֲנֶה רַךְ מֵשִׁיב חֵמָה״. וּמַרְבֶּה שָׁלוֹם עִם אֶחָיו וְעִם קְרוֹבָיו וְעִם כָּל אָדָם וַאֲפִילּוּ עִם גּוֹי בַּשּׁוּק, כְּדֵי שֶׁיְּהֵא אָהוּב לְמַעְלָה וְנֶחְמָד לְמַטָּה, וִיהֵא מְקוּבָּל עַל הַבְּרִיּוֹת.

Era corrente na boca de Abaié: sempre seja o homem astuto no seu temor a D-us (buscando toda estratégia para não pecar). "Resposta branda desvia a ira" (Mishlei 15:1). E multiplique paz com seus irmãos, e com seus parentes, e com toda pessoa, e até mesmo com um gentio no mercado, a fim de que seja amado Acima e agradável embaixo, e seja aceito pelas criaturas.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
ערום ביראה – להערים בכל מיני ערמה ליראת בוראו:

"Astuto no temor" — que se empenhe em usar de astúcia por todos os meios possíveis a favor do temor a seu Criador.

Nota

Abaié ensina uma "astúcia sagrada": assim como o astuto emprega estratégia para alcançar seus fins mundanos, o temente a D-us deve empregar toda sua inteligência e engenho a serviço de evitar o pecado. A isso ele soma o valor supremo da paz — cultivada não apenas dentro do círculo familiar e comunitário, mas estendida deliberadamente até ao gentio encontrado casualmente no mercado, como meio de conquistar tanto o favor Divino quanto a boa aceitação entre todas as pessoas.

10Disseram de Rabán Yochanan ben Zacai que ninguém jamais o precedeu em saudação, nem mesmo um gentio no mercado
Bavli · 17a — Guemará
אָמְרוּ עָלָיו עַל רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי שֶׁלֹּא הִקְדִּימוֹ אָדָם שָׁלוֹם מֵעוֹלָם, וַאֲפִילּוּ גּוֹי בַּשּׁוּק.

Disseram sobre Rabán Yochanan ben Zacai que ninguém jamais o precedeu em saudação de paz, nem mesmo um gentio no mercado — era sempre ele quem saudava primeiro.

Nota

Esta breve nota biográfica ilustra concretamente o ensinamento de Abaié recém-citado: Rabán Yochanan ben Zacai, uma das maiores autoridades da geração da destruição do Segundo Templo, tinha por hábito pessoal sempre saudar primeiro qualquer pessoa que encontrasse — incluindo um gentio desconhecido no mercado —, exemplificando na prática o valor de multiplicar a paz com toda pessoa, sem distinção.

11Dito de Rava: o objetivo da sabedoria é o arrependimento e as boas ações; "para seus praticantes" refere-se a quem age por seu próprio nome
Bavli · 17a — Guemará
מַרְגְּלָא בְּפוּמֵּיהּ דְּרָבָא: תַּכְלִית חָכְמָה — תְּשׁוּבָה וּמַעֲשִׂים טוֹבִים, שֶׁלֹּא יְהֵא אָדָם קוֹרֵא וְשׁוֹנֶה וּבוֹעֵט בְּאָבִיו וּבְאִמּוֹ וּבְרַבּוֹ וּבְמִי שֶׁהוּא גָּדוֹל מִמֶּנּוּ בְּחָכְמָה וּבְמִנְיָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רֵאשִׁית חָכְמָה יִרְאַת ה׳ שֵׂכֶל טוֹב לְכָל עוֹשֵׂיהֶם״. ״לָעוֹשִׂים״ לֹא נֶאֱמַר, אֶלָּא ״לְעוֹשֵׂיהֶם״ — לָעוֹשִׂים לִשְׁמָהּ וְלֹא לָעוֹשִׂים שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ. וְכָל הָעוֹשֶׂה שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ, נוֹחַ לוֹ שֶׁלֹּא נִבְרָא.

Era corrente na boca de Rava: o objetivo final da sabedoria (o estudo da Torá) é o arrependimento e as boas ações, para que o homem não seja daqueles que leem a Escritura e estudam a Mishná e ainda assim dão pontapés contra seu pai, e contra sua mãe, e contra seu mestre, e contra quem é maior que ele em sabedoria e em posição, como está dito: "o princípio da sabedoria é o temor do Eterno; bom entendimento têm todos os que as praticam" (Tehilim 111:10). "Aos que praticam" não está dito, mas sim "aos que as praticam" — referindo-se aos que as praticam por seu próprio nome, e não aos que as praticam não por seu próprio nome. E todo aquele que a estuda não por seu próprio nome, seria melhor para ele não ter sido criado.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
תכלית חכמה – עיקרה של תורה שיהא עמה תשובה ומע"ט: העושה שלא לשמה נוח לו שלא נברא – פירוש שאינו לומד כדי לקיים אלא לקנטר דבפרק מקום שנהגו (פסחים דף נ:) אמרינן רבא רמי כתיב עד שמים חסדך וכתיב מעל השמים כאן בעוסק שלא לשמה כו' והתם איירי במקיים כדי שיכבדוהו וכן משמע בירושלמי דפירקין:

"O objetivo final da sabedoria" — a essência da Torá é que venha acompanhada de arrependimento e de boas ações. "Quem a estuda não por seu próprio nome, seria melhor para ele não ter sido criado" — explicação: refere-se a quem não estuda a fim de cumprir os mandamentos, mas sim para provocar e humilhar os outros com seu saber; pois, no capítulo "Onde se costumava" (Pêssachim 50b), dizemos: Rava contrapôs dois versículos — está escrito "até os céus chega tua bondade" (referindo-se a quem estuda por seu próprio nome), e está escrito "acima dos céus está tua bondade" (referindo-se ali a quem cumpre para ser honrado) — ali o texto trata de quem cumpre os mandamentos a fim de ser honrado (o que ainda tem algum mérito); e assim se depreende também do Yerushalmi deste mesmo capítulo.

Nota

Rava define a verdadeira finalidade do estudo: não o acúmulo de conhecimento por si só, mas sua tradução em arrependimento genuíno e em ações concretas — advertindo contra o tipo de "erudito" que, apesar de versado nos textos, trata com desrespeito seus próprios pais, mestres e superiores. A leitura minuciosa do versículo de Tehilim — "aos que as praticam", no plural referente às leis, e não "aos que praticam" de forma genérica — serve de base para distinguir entre estudar a Torá por seu próprio valor e estudá-la por motivos alheios, sendo esta última atitude julgada tão distorcida que seria preferível nunca ter existido.

12Dito de Rav: o mundo vindouro não é como este mundo; nele não há comer nem beber, mas os justos se deleitam do esplendor da Presença Divina
Bavli · 17a — Guemará
מַרְגְּלָא בְּפוּמֵּיהּ דְּרַב: לֹא כָּעוֹלָם הַזֶּה הָעוֹלָם הַבָּא. הָעוֹלָם הַבָּא אֵין בּוֹ לֹא אֲכִילָה וְלֹא שְׁתִיָּהּ וְלֹא פְּרִיָּה וּרְבִיָּה וְלֹא מַשָּׂא וּמַתָּן וְלֹא קִנְאָה וְלֹא שִׂנְאָה וְלֹא תַּחֲרוּת, אֶלָּא צַדִּיקִים יוֹשְׁבִין וְעַטְרוֹתֵיהֶם בְּרָאשֵׁיהֶם וְנֶהֱנִים מִזִּיו הַשְּׁכִינָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֶּחֱזוּ אֶת הָאֱלֹהִים וַיֹּאכְלוּ וַיִּשְׁתּוּ״.

Era corrente na boca de Rav: não é como este mundo o mundo vindouro. No mundo vindouro não há nem comer, nem beber, nem procriação, nem comércio, nem inveja, nem ódio, nem competição; mas os justos se sentam, e suas coroas estão em suas cabeças, e se deleitam do esplendor da Presença Divina, como está dito: "e contemplaram a D-us, e comeram e beberam" (Shemot 24:11 — referindo-se aos nobres de Israel no Sinai, cujo "comer e beber" é entendido como fruição espiritual da visão Divina).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
ויאכלו וישתו – שבעו מזיו השכינה כאילו אכלו ושתו:

"E comeram e beberam" — quer dizer que se saciaram do esplendor da Presença Divina, como se tivessem comido e bebido.

Nota

Este é um dos textos mais citados de toda a literatura rabínica sobre a natureza do mundo vindouro (Olam HaBá): Rav o descreve como radicalmente distinto da existência física atual, despojado de todas as necessidades corporais e das paixões que geram conflito entre os homens — inveja, ódio, competição. Em seu lugar, há pura fruição espiritual, descrita como os justos "sentados com coroas" contemplando o esplendor da Presença Divina, uma existência de conhecimento e proximidade a D-us, e não de prazer físico.

A grande promessa às mulheres e as bênçãos de despedida · גְּדוֹלָה הַבְטָחָה שֶׁהִבְטִיחָן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְנָשִׁים

13Maior é a promessa que D-us fez às mulheres do que aos homens, conforme o versículo dirigido às "mulheres tranquilas"
Bavli · 17a — Guemará
גְּדוֹלָה הַבְטָחָה שֶׁהִבְטִיחָן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְנָשִׁים יוֹתֵר מִן הָאֲנָשִׁים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נָשִׁים שַׁאֲנַנּוֹת קֹמְנָה שְׁמַעְנָה קוֹלִי בָּנוֹת בֹּטְחוֹת הַאְזֵנָּה אִמְרָתִי״.

Maior é a promessa que fez o Santo, bendito Seja, às mulheres do que aos homens, como está dito: "mulheres tranquilas, levantai-vos, ouvi minha voz; filhas confiantes, dai ouvidos à minha palavra" (Yeshaiáhu 32:9 — dirigido especificamente e com atenção às mulheres).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
גדולה הבטחה – שהרי קראן שאננות ובוטחות:

"Maior é a promessa" — pois o versículo as chamou "tranquilas" e "confiantes" (termos de segurança e recompensa que não constam de igual modo nas exortações dirigidas aos homens).

Nota

A Guemará conclui a série de ditos memoráveis com um novo tema, introduzido de forma independente: uma reflexão sobre o mérito específico das mulheres. A base é a leitura do versículo de Yeshaiáhu, que se dirige a elas com termos de tranquilidade e confiança — sugerindo uma promessa Divina de segurança particularmente dirigida a elas, superior, neste aspecto retórico, à formulada para os homens.

14Rav pergunta a Rabi Chiya: em que as mulheres merecem? Em levar os filhos à sinagoga, mandar os maridos à casa de estudo e esperá-los
Bavli · 17a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב לְרַבִּי חִיָּיא: נָשִׁים בְּמַאי זָכְיָין? בְּאַקְרוֹיֵי בְּנַיְיהוּ לְבֵי כְנִישְׁתָּא, וּבְאַתְנוֹיֵי גַּבְרַיְיהוּ בֵּי רַבָּנַן, וְנָטְרִין לְגַבְרַיְיהוּ עַד דְּאָתוּ מִבֵּי רַבָּנַן.

Disse-lhe Rav a Rabi Chiya: as mulheres, em que merecem sua recompensa e ganham mérito? Ele respondeu: em levar seus filhos para serem ensinados à casa de reunião (a sinagoga ou a escola), e em permitir e incentivar que seus maridos estudem na casa dos sábios (a casa de estudo), e em esperar por seus maridos até que voltem da casa dos sábios.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
לבי כנישתא – תינוקות של בית רבן היו רגילין להיות למדים לפני רבן בבית הכנסת: בי רבנן – בית המדרש ששם שונים משנה וגמרא: ונטרן לגברייהו – ממתינות לבעליהן ונותנות להם רשות ללכת וללמוד תורה בעיר אחרת:

"À casa de reunião" — as crianças de tenra idade costumavam ser ensinadas diante do mestre na sinagoga. "Casa dos sábios" — a casa de estudo, onde se estudam a Mishná e a Guemará. "E esperam por seus maridos" — as esposas aguardam seus maridos, e lhes dão permissão para irem estudar Torá em outra cidade.

Nota

Rav pergunta pela base concreta do mérito feminino recém-elogiado, e Rabi Chiya responde com três atos específicos, todos voltados a possibilitar o estudo de Torá de outrem: conduzir os filhos pequenos à escola, permitir e apoiar ativamente que o marido se ausente para estudar — inclusive em outra cidade — e esperar pacientemente seu retorno. O mérito feminino é assim descrito não por estudo próprio, mas pelo papel essencial de sustentar e viabilizar o estudo alheio.

15A bênção de despedida na casa de Rabi Ami (ou Rabi Chanina): que vejas teu mundo em vida, e teus lábios falem sabedorias
Bavli · 17a — Guemará
כִּי הֲווֹ מִפַּטְרִי רַבָּנַן מִבֵּי רַבִּי אַמֵּי, וְאָמְרִי לַהּ מִבֵּי רַבִּי חֲנִינָא, אָמְרִי לֵיהּ הָכִי: ״עוֹלָמְךָ תִּרְאֶה בְּחַיֶּיךָ, וְאַחֲרִיתְךָ לְחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא, וְתִקְוָתְךָ לְדוֹר דּוֹרִים. לִבְּךָ יֶהְגֶּה תְּבוּנָה, פִּיךָ יְדַבֵּר חָכְמוֹת וּלְשׁוֹנְךָ יַרְחִישׁ רְנָנוֹת, עַפְעַפֶּיךָ יַיְשִׁירוּ נֶגְדְּךָ, עֵינֶיךָ יָאִירוּ בִּמְאוֹר תּוֹרָה, וּפָנֶיךָ יַזְהִירוּ כְּזוֹהַר הָרָקִיעַ, שִׂפְתוֹתֶיךָ יַבִּיעוּ דַּעַת, וְכִלְיוֹתֶיךָ תַּעֲלוֹזְנָה מֵישָׁרִים, וּפְעָמֶיךָ יָרוּצוּ לִשְׁמוֹעַ דִּבְרֵי עַתִּיק יוֹמִין״.

Quando os sábios se despediam da casa de Rabi Ami — e há quem diga, da casa de Rabi Chanina — diziam-lhe assim: "que vejas teu mundo (a plenitude de tuas necessidades) em tua vida; e teu fim seja destinado à vida do mundo vindouro; e tua esperança se estenda por gerações e gerações. Teu coração medite entendimento; tua boca fale sabedorias, e tua língua murmure cânticos de júbilo; tuas pálpebras se dirijam retas diante de ti; teus olhos se iluminem com a luz da Torá, e teu rosto resplandeça como o brilho do firmamento; teus lábios pronunciem conhecimento, e teus rins se regozijem em retidões; e teus passos corram para ouvir as palavras do Ancião de Dias (D-us)".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 17a
מפטרי רבנן – זה מזה שהיה נוטל רשות מחבירו לשוב לביתו ולארצו: עולמך תראה בחייך – כל צרכיך תמצא: פיך ידבר חכמות – בלשון ברכה היו אומרים: יישירו – לשון יושר שתהא מבין בתורה כהלכה:

"Os sábios se despediam" — um do outro, quando algum deles tomava licença de seu companheiro para retornar à sua casa e à sua terra. "Que vejas teu mundo em tua vida" — que encontres todas as tuas necessidades. "Tua boca fale sabedorias" — tudo isso diziam em forma de bênção. "Se dirijam retas" — expressão relacionada a retidão, significando que compreendas a Torá corretamente, conforme a lei.

Nota

A Guemará encerra o daf com fórmulas de bênção de despedida usadas entre sábios ao se separarem — um sábio retornando à sua terra natal após período de estudo em outra academia. A primeira, associada à casa de Rabi Ami (ou Rabi Chanina), é uma bênção elaborada e poética: pede satisfação plena nesta vida, uma boa porção no mundo vindouro, e depois enumera, órgão por órgão do corpo, uma dedicação total e luminosa ao estudo da Torá — coração, boca, língua, olhos, rosto, lábios e até os passos, todos voltados a "ouvir as palavras do Ancião de Dias".

16A bênção de despedida na casa de Rav Chisda (ou Rabi Shmuel bar Nachmani): "nossos chefes carregados de fardos, etc."
Bavli · 17a — Guemará
כִּי הֲווֹ מִפַּטְרִי רַבָּנַן מִבֵּי רַב חִסְדָּא, וְאָמְרִי לַהּ מִבֵּי רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי, אָמְרוּ לֵיהּ הָכִי: ״אַלּוּפֵינוּ מְסֻבָּלִים וְגוֹ׳״.

Quando os sábios se despediam da casa de Rav Chisda — e há quem diga, da casa de Rabi Shmuel bar Nachmani — diziam-lhe assim: "nossos chefes estejam carregados (fortes o bastante para suportar o peso das responsabilidades e do sustento), etc." (citação abreviada de Tehilim 144:14).

Nota

Uma segunda fórmula de despedida, mais breve, é citada apenas por sua abertura — prática comum na Guemará ao referir-se a versículos conhecidos de cor pelos estudiosos, remetendo o leitor ao texto completo do salmo. A Guemará dedica a seguir uma unidade própria a explicar exatamente o sentido dessa citação abreviada.

17Explicação do versículo "nossos chefes carregados": uma opinião liga-o à Torá e mandamentos; outra, à Torá, mandamentos e aflições
Bavli · 17a — Guemará
״אַלּוּפֵינוּ מְסֻבָּלִים״ — רַב וּשְׁמוּאֵל, וְאָמְרִי לַהּ רַבִּי יוֹחָנָן וְרַבִּי אֶלְעָזָר, חַד אָמַר: ״אַלּוּפֵינוּ״ — בַּתּוֹרָה, וּ״מְסֻבָּלִים״ — בְּמִצְוֹת. וְחַד אָמַר: ״אַלּוּפֵינוּ״ — בַּתּוֹרָה וּבְמִצְוֹת, וּ״מְסֻבָּלִים״ — בְּיִסּוּרִים.

"Nossos chefes carregados de fardos" (Tehilim 144:14)discutiram o sentido Rav e Shmuel, e há quem diga, Rabi Yochanan e Rabi Elazar. Um diz: "nossos chefes" — referem-se a serem eminentes na Torá; e "carregados" — referem-se a estarem plenamente ocupados e sobrecarregados nos mandamentos. E o outro diz: "nossos chefes" — referem-se a serem eminentes na Torá e nos mandamentos; e "carregados" — referem-se a estarem sobrecarregados nas aflições (o sofrimento suportado por causa do estudo e da observância).

Nota

O daf se encerra com uma pequena disputa exegética sobre a segunda fórmula de despedida, dividindo a interpretação do versículo entre dois pares de amoraítas. Ambas as opiniões concordam que "nossos chefes" designa a eminência na Torá; divergem quanto ao termo "carregados": uma opinião o associa apenas ao peso do cumprimento extensivo dos mandamentos, enquanto a outra o estende também às aflições pessoais que frequentemente acompanham uma vida de estudo e observância intensos — encerrando, com esta nota sóbria sobre o preço do compromisso religioso, toda a longa sugya das orações e ditos pessoais dos sábios iniciada em 16b.