O daf abre concluindo a frase interrompida de Rav Safra ao final de 16b, com sua súplica pela paz entre as academias celestiais e terrenas. Seguem-se as orações pessoais de Rabi Alexandri (e a variante atribuída a Rav Hamnuna) e a extensa confissão de Rava, idêntica à de Rav Hamnuna Zutá em Yom Kipur; a oração de Mar, filho de Ravina, pedindo guarda da língua; a súplica de Rav Sheshet em dia de jejum, comparando a redução de sua gordura e sangue a um sacrifício; e o ensinamento de Rabi Yochanan ao concluir o livro de Iyov, sobre a morte comum a todos e a bem-aventurança de quem cresce e parte com bom nome. A Guemará então reúne uma série de ditos memoráveis (margela befumei) de Rabi Meir, dos sábios de Yavne, de Abaié — sobre paz com todos, mesmo com um gentio no mercado —, de Rava sobre o propósito da sabedoria, e de Rav sobre a natureza do mundo vindouro. O daf fecha com a grande promessa que D-us fez às mulheres, a pergunta de Rav a Rabi Chiya sobre o mérito delas, e as fórmulas de bênção recitadas na despedida dos sábios ao saírem das casas de estudo de Rabi Ami, Rabi Chanina, Rav Chisda e Rabi Shmuel bar Nachmani.
continuação da oração de Rav Safra, iniciada ao final de 16b: "que estabeleças paz" — na assembleia de cima (entre os anjos e os príncipes celestiais das nações), e na assembleia de baixo (entre os sábios de Israel), e entre os discípulos que se ocupam de tua Torá, sejam eles os que a estudam por seu próprio nome, sejam eles os que a estudam não por seu próprio nome (por motivos alheios, como honra ou proveito). E, de todos os que a estudam não por seu próprio nome, seja de vontade que venham a estudá-la por seu próprio nome".
"Na assembleia de cima" — na companhia dos príncipes das nações (os anjos que as representam Acima), pois quando há discórdia entre os príncipes de cima, logo há briga entre as nações abaixo, como está escrito: "e agora eu voltarei a lutar com o príncipe da Pérsia" (Daniel 10:20). "E na assembleia de baixo" — na companhia dos sábios.
O daf abre completando a frase de Rav Safra que fora cortada ao final de 16b. Sua súplica pede paz em três planos: entre os príncipes celestiais das nações, cuja discórdia Acima se reflete em guerras entre os povos embaixo; entre os próprios sábios de Israel, cujas disputas de Torá podem gerar atrito pessoal; e, por fim, um pedido de que mesmo aqueles que hoje estudam Torá por motivos impuros — honra, proveito, competição — venham a purificar sua intenção e estudá-la verdadeiramente por seu próprio valor.
Rabi Alexandri, depois de sua oração, dizia assim: "seja de vontade diante de Ti, Eterno, nosso D-us, que nos ponhas na esquina da luz, e não nos ponhas na esquina da escuridão; e que nosso coração não desfaleça, e que nossos olhos não se escureçam". Há quem diga: eis que era Rav Hamnuna quem a rezava. E Rabi Alexandri, depois de rezar a sua própria oração, dizia assim: "Soberano dos mundos, revelado e conhecido diante de Ti que nossa vontade é fazer a tua vontade; e o que impede? — o fermento que está na massa (a inclinação má em nosso íntimo) e a sujeição aos reinos (o exílio sob domínio estrangeiro). Seja de vontade diante de Ti que nos salves da mão deles, e voltemos a fazer os decretos de tua vontade com coração pleno".
"Na esquina da luz" — no canto iluminado da luz. "E o que impede" — que não façamos tua vontade. "O fermento que está na massa" — a inclinação má que está em nosso coração, que nos azeda e corrompe, como o fermento à massa.
A oração de Rabi Alexandri combina duas súplicas, com uma nota textual sobre sua autoria: a primeira, breve, pede estar sempre "na esquina da luz", metáfora para uma vida de clareza espiritual e vigor; a segunda, mais elaborada, expressa uma tensão íntima — a vontade sincera de cumprir a vontade Divina é sabotada por dois obstáculos: o "fermento na massa", isto é, a inclinação má que corrompe o coração de dentro, e a "sujeição aos reinos", a opressão política externa do exílio, que impede a plena observância. A imagem do fermento tornou-se, desde então, expressão consagrada na literatura rabínica para designar o impulso ao pecado.
Rava, depois de sua oração, dizia assim: "meu D-us, antes de eu ser formado, eu não valia nada; e agora que fui formado, é como se eu não tivesse sido formado. Pó sou eu em minha vida; tanto mais o serei em minha morte. Eis que estou diante de Ti como um vaso cheio de vergonha e humilhação. Seja de vontade diante de Ti, Eterno, meu D-us, que eu não peque mais; e o que já pequei diante de Ti, apaga tu com tuas muitas misericórdias, mas não por meio de aflições e doenças más". E esta é a confissão de Rav Hamnuna Zutá (o Pequeno) no dia de Yom Kipur.
"Eu não valia" — eu não era importante nem digno de ser formado. "E agora que fui formado" — qual é minha importância? Eis que sou como se não tivesse sido formado. "Tanto mais" — pois em minha morte, pó sou eu. "Apaga" — no sentido de extingue e elimina por completo.
A oração de Rava é uma das confissões mais radicais de humildade em toda a literatura talmúdica: ele se declara sem valor tanto antes como depois de sua própria criação, reduzido a pó em vida e ainda mais na morte, "vaso cheio de vergonha". Ainda assim, a súplica final pede perdão específico — não por meio de sofrimento físico ou doença, meios comuns de expiação na tradição rabínica, mas pela misericórdia direta Divina. A Guemará nota que este mesmo texto é a confissão tradicional recitada por Rav Hamnuna Zutá em Yom Kipur, ligando esta oração pessoal à liturgia penitencial coletiva.
Mar, filho de Ravina, quando concluía sua oração, dizia assim: "meu D-us, guarda minha língua do mal, e meus lábios de falar engano; e diante daqueles que me amaldiçoam, minha alma se cale, e minha alma seja como pó para todos. Abre meu coração à tua Torá, e que minha alma persiga teus mandamentos. E salva-me de encontro mau, da má inclinação, de mulher má, e de todos os males que se agitam para vir ao mundo. E todos os que pensam mal contra mim, frustra rapidamente seu conselho e transtorna seus pensamentos. Sejam aceitos os dizeres de minha boca e a meditação de meu coração diante de Ti, Eterno, minha Rocha e meu Redentor" (Tehilim 19:15).
A oração de Mar, filho de Ravina, tornou-se uma das mais influentes desta coletânea: ela é, quase palavra por palavra, a súplica pessoal que encerra a Amidá na liturgia judaica até hoje, recitada por todo fiel ao final das dezoito bênçãos. Combina o pedido de controle sobre a própria fala, a humildade total ("minha alma seja como pó"), a abertura do coração ao estudo, a proteção contra males externos e internos, e fecha citando o próprio versículo de Tehilim 19:15, que viria a se tornar a assinatura litúrgica desta oração.
Rav Sheshet, quando se sentava em jejum, depois de rezar, dizia assim: "Soberano dos mundos, revelado é diante de Ti que, no tempo em que o Templo existia, um homem pecava — e trazia um sacrifício. E não se sacrificava dele senão sua gordura e seu sangue, e ele era perdoado. E agora eu me sentei em jejum, e minha gordura e meu sangue se reduziram; seja de vontade diante de Ti que minha gordura e meu sangue que se reduziram sejam como se eu os tivesse oferecido diante de Ti sobre o altar, e aceita-me com favor".
Rav Sheshet compara diretamente o efeito físico do jejum — a redução de gordura e sangue corporais — à essência do sacrifício expiatório no Templo, cuja parte central era precisamente a queima da gordura e a aspersão do sangue sobre o altar. Sem o Templo em pé, ele pede que essa perda física voluntária seja aceita como substituto simbólico do sacrifício, gerando o mesmo efeito de expiação e favor Divino.
Rabi Yochanan, quando concluía o livro de Iyov, dizia assim: "o fim do homem é morrer, e o fim do animal é ser abatido, e todos estão destinados à morte. Feliz é aquele que cresce na Torá, e seu labor é na Torá, e faz satisfação de espírito para seu Formador, e cresce com bom nome e parte com bom nome deste mundo. E sobre ele disse Shlomo: 'melhor é o bom nome que o óleo bom, e o dia da morte mais que o dia do nascimento'" (Kohelet 7:1).
"Quando concluía o livro de Iyov" — em razão de que Iyov partiu deste mundo com bom nome.
Ao terminar de estudar o livro de Iyov — que narra o sofrimento do justo e seu restabelecimento final —, Rabi Yochanan extrai um ensinamento sobre a inevitabilidade universal da morte, que iguala homens e animais em seu fim. Mas dentro dessa igualdade última, ele distingue quem verdadeiramente prospera: não quem acumula riqueza, mas quem cresce ocupado na Torá e conclui a vida com boa reputação — citando o versículo de Kohelet que valoriza o "dia da morte" (culminação de uma vida de bom nome) até mais que o "dia do nascimento" (mero potencial ainda não realizado).
Era corrente na boca de Rabi Meir este ensinamento, formulado como se D-us falasse ao homem: "aprende com todo teu coração e com toda tua alma a conhecer meus caminhos, e a vigiar às portas de minha Torá. Guarda minha Torá em teu coração, e diante de teus olhos esteja meu temor. Guarda tua boca de todo pecado, e purifica-te e santifica-te de toda culpa e transgressão. E eu estarei contigo em todo lugar".
"Era corrente em sua boca" — esta coisa era habitual em sua fala.
A Guemará passa de orações formais para uma série de "ditos correntes" (margela befumei) — máximas que cada sábio repetia com frequência, funcionando como lema pessoal. O de Rabi Meir é formulado na primeira pessoa Divina, como promessa condicional: dedicação total ao estudo e à guarda da fala e da pureza pessoal são recompensadas com a presença constante de D-us junto ao homem, "em todo lugar".
Era corrente na boca dos sábios de Yavne: "eu sou criatura, e meu companheiro é criatura. Eu, meu trabalho é na cidade, e ele, seu trabalho é no campo. Eu me levanto cedo para meu trabalho, e ele se levanta cedo para seu trabalho. Assim como ele não se vangloria de meu trabalho, assim também eu não me vanglorio de seu trabalho. E caso digas: eu faço muito, e ele faz pouco — já ensinamos: tanto faz quem faz muito quanto quem faz pouco, contanto que dirija seu coração aos Céus".
"Eu" — o que se ocupa da Torá é uma criatura, e da mesma forma meu companheiro, o homem do povo (sem instrução), é uma criatura. "Eu, meu trabalho é na cidade" — ou seja, meu trabalho é mais fácil que o dele. "Se vangloria" — se engrandece a ponto de querer assumir meu ofício. "E caso digas" — teria razão de dizer que ele não se vangloria de meu trabalho, pois, se assumisse meu ofício, não teria coração livre para se dedicar amplamente à Torá como eu, e faria pouco, e não teria mérito algum. "Já ensinamos" — que há mérito para quem faz pouco, assim como para quem faz muito. "Contanto que dirija seu coração aos Céus" — e o mesmo se ensina quanto aos sacrifícios, em Menachot, ao final (110a).
Este dito coletivo dos sábios de Yavne estabelece um princípio de igualdade fundamental e de respeito mútuo entre o estudioso de Torá e o trabalhador comum: ambos são "criaturas" de D-us, cada um ocupado em seu ofício, sem que um deva menosprezar ou cobiçar o trabalho do outro. A conclusão amplia o princípio para dentro do próprio mundo do estudo: o mérito não se mede pela quantidade produzida, mas pela sinceridade da intenção dirigida aos Céus — seja no estudo, seja, por extensão, nos sacrifícios do Templo.
Era corrente na boca de Abaié: sempre seja o homem astuto no seu temor a D-us (buscando toda estratégia para não pecar). "Resposta branda desvia a ira" (Mishlei 15:1). E multiplique paz com seus irmãos, e com seus parentes, e com toda pessoa, e até mesmo com um gentio no mercado, a fim de que seja amado Acima e agradável embaixo, e seja aceito pelas criaturas.
"Astuto no temor" — que se empenhe em usar de astúcia por todos os meios possíveis a favor do temor a seu Criador.
Abaié ensina uma "astúcia sagrada": assim como o astuto emprega estratégia para alcançar seus fins mundanos, o temente a D-us deve empregar toda sua inteligência e engenho a serviço de evitar o pecado. A isso ele soma o valor supremo da paz — cultivada não apenas dentro do círculo familiar e comunitário, mas estendida deliberadamente até ao gentio encontrado casualmente no mercado, como meio de conquistar tanto o favor Divino quanto a boa aceitação entre todas as pessoas.
Disseram sobre Rabán Yochanan ben Zacai que ninguém jamais o precedeu em saudação de paz, nem mesmo um gentio no mercado — era sempre ele quem saudava primeiro.
Esta breve nota biográfica ilustra concretamente o ensinamento de Abaié recém-citado: Rabán Yochanan ben Zacai, uma das maiores autoridades da geração da destruição do Segundo Templo, tinha por hábito pessoal sempre saudar primeiro qualquer pessoa que encontrasse — incluindo um gentio desconhecido no mercado —, exemplificando na prática o valor de multiplicar a paz com toda pessoa, sem distinção.
Era corrente na boca de Rava: o objetivo final da sabedoria (o estudo da Torá) é o arrependimento e as boas ações, para que o homem não seja daqueles que leem a Escritura e estudam a Mishná e ainda assim dão pontapés contra seu pai, e contra sua mãe, e contra seu mestre, e contra quem é maior que ele em sabedoria e em posição, como está dito: "o princípio da sabedoria é o temor do Eterno; bom entendimento têm todos os que as praticam" (Tehilim 111:10). "Aos que praticam" não está dito, mas sim "aos que as praticam" — referindo-se aos que as praticam por seu próprio nome, e não aos que as praticam não por seu próprio nome. E todo aquele que a estuda não por seu próprio nome, seria melhor para ele não ter sido criado.
"O objetivo final da sabedoria" — a essência da Torá é que venha acompanhada de arrependimento e de boas ações. "Quem a estuda não por seu próprio nome, seria melhor para ele não ter sido criado" — explicação: refere-se a quem não estuda a fim de cumprir os mandamentos, mas sim para provocar e humilhar os outros com seu saber; pois, no capítulo "Onde se costumava" (Pêssachim 50b), dizemos: Rava contrapôs dois versículos — está escrito "até os céus chega tua bondade" (referindo-se a quem estuda por seu próprio nome), e está escrito "acima dos céus está tua bondade" (referindo-se ali a quem cumpre para ser honrado) — ali o texto trata de quem cumpre os mandamentos a fim de ser honrado (o que ainda tem algum mérito); e assim se depreende também do Yerushalmi deste mesmo capítulo.
Rava define a verdadeira finalidade do estudo: não o acúmulo de conhecimento por si só, mas sua tradução em arrependimento genuíno e em ações concretas — advertindo contra o tipo de "erudito" que, apesar de versado nos textos, trata com desrespeito seus próprios pais, mestres e superiores. A leitura minuciosa do versículo de Tehilim — "aos que as praticam", no plural referente às leis, e não "aos que praticam" de forma genérica — serve de base para distinguir entre estudar a Torá por seu próprio valor e estudá-la por motivos alheios, sendo esta última atitude julgada tão distorcida que seria preferível nunca ter existido.
Era corrente na boca de Rav: não é como este mundo o mundo vindouro. No mundo vindouro não há nem comer, nem beber, nem procriação, nem comércio, nem inveja, nem ódio, nem competição; mas os justos se sentam, e suas coroas estão em suas cabeças, e se deleitam do esplendor da Presença Divina, como está dito: "e contemplaram a D-us, e comeram e beberam" (Shemot 24:11 — referindo-se aos nobres de Israel no Sinai, cujo "comer e beber" é entendido como fruição espiritual da visão Divina).
"E comeram e beberam" — quer dizer que se saciaram do esplendor da Presença Divina, como se tivessem comido e bebido.
Este é um dos textos mais citados de toda a literatura rabínica sobre a natureza do mundo vindouro (Olam HaBá): Rav o descreve como radicalmente distinto da existência física atual, despojado de todas as necessidades corporais e das paixões que geram conflito entre os homens — inveja, ódio, competição. Em seu lugar, há pura fruição espiritual, descrita como os justos "sentados com coroas" contemplando o esplendor da Presença Divina, uma existência de conhecimento e proximidade a D-us, e não de prazer físico.
Maior é a promessa que fez o Santo, bendito Seja, às mulheres do que aos homens, como está dito: "mulheres tranquilas, levantai-vos, ouvi minha voz; filhas confiantes, dai ouvidos à minha palavra" (Yeshaiáhu 32:9 — dirigido especificamente e com atenção às mulheres).
"Maior é a promessa" — pois o versículo as chamou "tranquilas" e "confiantes" (termos de segurança e recompensa que não constam de igual modo nas exortações dirigidas aos homens).
A Guemará conclui a série de ditos memoráveis com um novo tema, introduzido de forma independente: uma reflexão sobre o mérito específico das mulheres. A base é a leitura do versículo de Yeshaiáhu, que se dirige a elas com termos de tranquilidade e confiança — sugerindo uma promessa Divina de segurança particularmente dirigida a elas, superior, neste aspecto retórico, à formulada para os homens.
Disse-lhe Rav a Rabi Chiya: as mulheres, em que merecem sua recompensa e ganham mérito? Ele respondeu: em levar seus filhos para serem ensinados à casa de reunião (a sinagoga ou a escola), e em permitir e incentivar que seus maridos estudem na casa dos sábios (a casa de estudo), e em esperar por seus maridos até que voltem da casa dos sábios.
"À casa de reunião" — as crianças de tenra idade costumavam ser ensinadas diante do mestre na sinagoga. "Casa dos sábios" — a casa de estudo, onde se estudam a Mishná e a Guemará. "E esperam por seus maridos" — as esposas aguardam seus maridos, e lhes dão permissão para irem estudar Torá em outra cidade.
Rav pergunta pela base concreta do mérito feminino recém-elogiado, e Rabi Chiya responde com três atos específicos, todos voltados a possibilitar o estudo de Torá de outrem: conduzir os filhos pequenos à escola, permitir e apoiar ativamente que o marido se ausente para estudar — inclusive em outra cidade — e esperar pacientemente seu retorno. O mérito feminino é assim descrito não por estudo próprio, mas pelo papel essencial de sustentar e viabilizar o estudo alheio.
Quando os sábios se despediam da casa de Rabi Ami — e há quem diga, da casa de Rabi Chanina — diziam-lhe assim: "que vejas teu mundo (a plenitude de tuas necessidades) em tua vida; e teu fim seja destinado à vida do mundo vindouro; e tua esperança se estenda por gerações e gerações. Teu coração medite entendimento; tua boca fale sabedorias, e tua língua murmure cânticos de júbilo; tuas pálpebras se dirijam retas diante de ti; teus olhos se iluminem com a luz da Torá, e teu rosto resplandeça como o brilho do firmamento; teus lábios pronunciem conhecimento, e teus rins se regozijem em retidões; e teus passos corram para ouvir as palavras do Ancião de Dias (D-us)".
"Os sábios se despediam" — um do outro, quando algum deles tomava licença de seu companheiro para retornar à sua casa e à sua terra. "Que vejas teu mundo em tua vida" — que encontres todas as tuas necessidades. "Tua boca fale sabedorias" — tudo isso diziam em forma de bênção. "Se dirijam retas" — expressão relacionada a retidão, significando que compreendas a Torá corretamente, conforme a lei.
A Guemará encerra o daf com fórmulas de bênção de despedida usadas entre sábios ao se separarem — um sábio retornando à sua terra natal após período de estudo em outra academia. A primeira, associada à casa de Rabi Ami (ou Rabi Chanina), é uma bênção elaborada e poética: pede satisfação plena nesta vida, uma boa porção no mundo vindouro, e depois enumera, órgão por órgão do corpo, uma dedicação total e luminosa ao estudo da Torá — coração, boca, língua, olhos, rosto, lábios e até os passos, todos voltados a "ouvir as palavras do Ancião de Dias".
Quando os sábios se despediam da casa de Rav Chisda — e há quem diga, da casa de Rabi Shmuel bar Nachmani — diziam-lhe assim: "nossos chefes estejam carregados (fortes o bastante para suportar o peso das responsabilidades e do sustento), etc." (citação abreviada de Tehilim 144:14).
Uma segunda fórmula de despedida, mais breve, é citada apenas por sua abertura — prática comum na Guemará ao referir-se a versículos conhecidos de cor pelos estudiosos, remetendo o leitor ao texto completo do salmo. A Guemará dedica a seguir uma unidade própria a explicar exatamente o sentido dessa citação abreviada.
"Nossos chefes carregados de fardos" (Tehilim 144:14) — discutiram o sentido Rav e Shmuel, e há quem diga, Rabi Yochanan e Rabi Elazar. Um diz: "nossos chefes" — referem-se a serem eminentes na Torá; e "carregados" — referem-se a estarem plenamente ocupados e sobrecarregados nos mandamentos. E o outro diz: "nossos chefes" — referem-se a serem eminentes na Torá e nos mandamentos; e "carregados" — referem-se a estarem sobrecarregados nas aflições (o sofrimento suportado por causa do estudo e da observância).
O daf se encerra com uma pequena disputa exegética sobre a segunda fórmula de despedida, dividindo a interpretação do versículo entre dois pares de amoraítas. Ambas as opiniões concordam que "nossos chefes" designa a eminência na Torá; divergem quanto ao termo "carregados": uma opinião o associa apenas ao peso do cumprimento extensivo dos mandamentos, enquanto a outra o estende também às aflições pessoais que frequentemente acompanham uma vida de estudo e observância intensos — encerrando, com esta nota sóbria sobre o preço do compromisso religioso, toda a longa sugya das orações e ditos pessoais dos sábios iniciada em 16b.
Trilha comparada: A coletânea de orações pessoais recitadas pelos sábios depois da Amidá — iniciada em 16b e concluída neste daf com Rav Safra, Rabi Alexandri, Rava, Mar filho de Ravina, Rav Sheshet e Rabi Yochanan — corresponde, no Talmud Yerushalmi, à mesma tradição reunida em Berachot, Perek Dalet, Halachá 2, já traduzida neste site: as orações de Rabi Elazar, Rabi Chiya bar Aba, Rabi Chiya bar Vava, Rabi Tanchum bar Iscolastica e Rabi Yochanan, ditas ao final da Amidá.
Ver Yerushalmi Berachot 4:2 →