O daf abre concluindo a oração citada ao final de 17a sobre "nenhuma brecha e nenhuma saída, e nenhum grito em nossas praças", explicando cada cláusula por meio de precedentes bíblicos negativos — Achitofel, saído de Davi; Doeg, saído de Shaul; Guechazi, saído de Elishá; e Yeshu, o Notsri. Segue-se uma disputa amoraítica sobre o versículo "ouvi-me, fortes de coração, distantes da retidão", com opiniões distintas sobre quem são esses "fortes de coração" — os sábios sustentados apenas pelo próprio mérito, como Rabi Chanina ben Dossa, os simplórios de Govai, ou os habitantes de Machoza, que veem a honra da Torá duas vezes ao ano sem que nenhum converso jamais surja entre eles. A Guemará retorna então à Mishná sobre o noivo, resolvendo uma aparente contradição entre a posição de Rabán Shimon ben Gamliel e a dos sábios quanto ao receio da aparência de arrogância, distinguindo entre a leitura do Shemá (praticada por todos) e o trabalho em Tishá BeAv (que nem todos praticam). O hadran encerra o Perek Haiá Korê, e o Perek Guimel se abre com a Mishná: aquele que tem seu falecido diante de si está isento da leitura do Shemá, da Amidá e dos tefilin e de todos os mandamentos da Torá; os carregadores do féretro se dividem entre os que ainda são necessários (isentos) e os que já não são (obrigados), mas todos estão isentos da Amidá; e a Guemará começa a analisar essas isenções, contrapondo-as a uma baraita sobre as restrições à refeição do enlutado com seu morto ainda insepulto.
continuação da oração citada ao final de 17a: "nenhuma brecha" (Tehilim 144:14) — que nosso grupo não seja como o grupo de Davi, do qual saiu Achitofel (seu conselheiro que se tornou traidor). "E nenhuma saída" — que nosso grupo não seja como o grupo de Shaul, do qual saiu Doeg, o Edomita (seu delator). "E nenhum grito" — que nosso grupo não seja como o grupo de Elishá, do qual saiu Guechazi (seu servo, expulso por avareza). "Em nossas praças" — que não tenhamos um filho ou um discípulo que queime seu prato (que corrompa seu ensino e se envergonhe) em público, como Yeshu, o Notsri (cujo mestre teria sido Rabi Yehoshua ben Perachiá, e que se desviou publicamente).
A Guemará explica, cláusula por cláusula, a fórmula de despedida citada ao final de 17a ("nossos chefes carregados de fardos... nenhuma brecha e nenhuma saída, e nenhum grito em nossas praças" — Tehilim 144:14), lendo cada expressão como súplica contra a repetição de um precedente bíblico funesto: um conselheiro traidor como Achitofel, saído do círculo de Davi; um delator como Doeg, saído do círculo de Shaul; um servo corrompido como Guechazi, saído do círculo de Elishá; e, por fim, um discípulo que se desvia publicamente e macula o nome de seu mestre, como o caso mencionado de Yeshu, o Notsri.
"Ouvi-me, fortes de coração, distantes da retidão" (Yeshaiáhu 46:12) — discutiram o versículo Rav e Shmuel, e há quem diga, Rabi Yochanan e Rabi Elazar. Um diz: o mundo inteiro é sustentado pela retidão (a bondade de D-us, não por mérito próprio), e eles (os "fortes de coração") são sustentados pela força (seu próprio mérito e poder, sem depender da bondade Divina). E o outro diz: o mundo inteiro é sustentado pelo mérito deles (dos justos, como este), e eles, nem mesmo pelo próprio mérito são sustentados (mas apenas pela pura bondade Divina, sendo ainda mais dignos). Conforme Rav Yehudá disse em nome de Rav.
"O mundo inteiro é sustentado pela retidão" — pela retidão do Santo, bendito Seja, e não pelo mérito que está em suas mãos. "E eles são sustentados pela força" — pelo mérito que está em suas próprias mãos; e nesta leitura o versículo trata de justos, e os chama "distantes da retidão do Santo, bendito Seja" (pois não precisam dela, sustentando-se por mérito próprio).
A Guemará retoma um versículo de Yeshaiáhu para debater o sentido da expressão "fortes de coração, distantes da retidão", que à primeira vista soa pejorativa. Duas leituras opostas emergem: uma vê nos "fortes de coração" pessoas que se sustentam pela própria força, à parte da bondade gratuita de D-us da qual todo o resto do mundo depende — uma leitura neutra ou mesmo elogiosa de autossuficiência espiritual; a outra inverte a lógica, entendendo que o mundo inteiro se sustenta pelo mérito desses justos, que, por sua vez, são tão elevados que nem precisam do próprio mérito para se sustentar, dependendo apenas da graça Divina pura — sendo esta a leitura mais louvável.
Pois disse Rav Yehudá em nome de Rav: em todo dia, uma Bat Kol (voz celestial) sai do monte Chorev e diz: o mundo inteiro é sustentado por causa de Chanina, meu filho (Rabi Chanina ben Dossa); e a Chanina, meu filho, basta-lhe um kav (pequena medida) de alfarrobas de uma véspera de Shabat à outra (ele vive na mais extrema pobreza voluntária).
Este dito ilustrativo, atribuído a Rav, confirma a segunda leitura recém-apresentada: o mundo inteiro é sustentado pelo mérito de um único justo extremo — identificado pela tradição como Rabi Chanina ben Dossa —, cuja própria subsistência material é, em contraste gritante, da mais absoluta pobreza: uma medida mínima de alfarrobas para toda uma semana. O paradoxo é intencional: quem sustenta o mundo inteiro por seu mérito não usa esse mesmo mérito para melhorar sua própria condição material.
E isto discorda daquilo que Rav Yehudá ensinou noutra ocasião. Pois disse Rav Yehudá: quem são os "fortes de coração"? Os simplórios de Govai (um povoado, entendidos aqui em sentido pejorativo — obstinados e resistentes ao ensino). Disse Rav Yossef: sabe-se que é assim, pois nunca se converteu nenhum convertido dentre eles (sua obstinação impede até mesmo que se aproximem para se converter).
"E isto discorda daquilo que Rav Yehudá ensinou noutra ocasião" — pois ele disse que "fortes de coração" são os ímpios. "Govai" — é o nome de um povo na Babilônia, e no tratado Kidushin (70b) dizemos que eram dentre os netinim (descendentes dos gibeonitas, de status genealógico inferior).
A Guemará assinala uma contradição interna: em outro lugar, o próprio Rav Yehudá identificou os "fortes de coração" não com justos extremos, mas com um grupo de simplórios obstinados, de reputação negativa. Rav Yossef confirma essa leitura pejorativa com uma prova sociológica: a rigidez espiritual desse grupo é tal que jamais se registrou, entre eles, um único caso de conversão ao judaísmo — sinal de fechamento total, e não de virtude.
Disse Rav Ashi: os habitantes de Machoza são os "fortes de coração", pois eles veem a honra da Torá duas vezes por ano (nos meses de aglomeração pública de estudo), e ainda assim nenhum convertido se converteu dentre eles.
"A honra da Torá duas vezes ao ano" — pois ali se reunia Israel, em Adar, para ouvir as leis de Pêssach no midrash de Rav Ashi, e em Elul, para ouvir as leis da festa (Sucot).
Rav Ashi propõe uma terceira identificação, mais próxima de sua própria realidade geográfica: os habitantes de Machoza, cidade onde ele próprio ministrava seus grandes encontros públicos de ensino duas vezes ao ano (o yarchei kalá, nos meses de Adar e Elul). Apesar de testemunharem repetidamente a grandeza pública da Torá, jamais um único gentio dali se converteu — usado aqui, como no caso de Govai, como sinal de obstinação de coração e não de mérito espiritual.
"O noivo, se quiser ler o Shemá na primeira noite de núpcias, apesar de estar isento, pode fazê-lo", etc. (citação abreviada da Mishná de 16a, retomada aqui para nova análise).
Pergunta-se: isto quer dizer que Rabán Shimon ben Gamliel teme a aparência de arrogância (pois, na Mishná de 16a, ele isenta o noivo mesmo de aparentar arrogância ao não ler o Shemá), e os sábios não temem a aparência de arrogância? Mas ouvimos deles o oposto! Pois ensinamos (numa Mishná de Pessachim): no lugar onde se costuma fazer trabalho em Tishá BeAv, faz-se; no lugar onde se costuma não fazer, não se faz; e em todo lugar, os estudiosos da Torá se abstêm de trabalho, ficando ociosos (independente do costume local). Rabán Shimon ben Gamliel diz: sempre deve o homem fazer-se a si mesmo como um estudioso da Torá (abstendo-se de trabalho, mesmo não sendo estudioso — logo aqui ele não teme a aparência de arrogância).
Há dificuldade: a posição dos sábios contra a posição dos sábios (pois, no caso do noivo, os sábios discordam de Rabán Shimon ben Gamliel por não temerem a arrogância; mas, no caso de Tishá BeAv, são eles que temem a arrogância, permitindo trabalho a quem não é estudioso); há dificuldade: a posição de Rabán Shimon ben Gamliel contra a posição de Rabán Shimon ben Gamliel (o inverso, em cada um dos dois casos)!
Disse Rabi Yochanan: as posições atribuídas na Mishná de Pessachim estão trocadas (inverte-se ali quem é "sábios" e quem é "Rabán Shimon ben Gamliel", resolvendo a contradição). Rav Shisha, filho de Rav Idi, disse: nunca é necessário trocar nada. A posição dos sábios contra a posição dos sábios não é difícil: quanto à leitura do Shemá, já que todo o mundo a lê e ele (o noivo) também a lê, não parece arrogância (pois ele não se destaca de ninguém). Aqui (quanto a Tishá BeAv), já que todo o mundo faz trabalho e ele não faz, parece arrogância (pois ele se destaca visivelmente dos demais).
A posição de Rabán Shimon ben Gamliel contra a posição de Rabán Shimon ben Gamliel não é difícil: ali (quanto ao noivo), a questão depende da intenção interior necessária para a leitura do Shemá, e nós somos testemunhas de que ele (o noivo, absorto em pensamentos de núpcias) não consegue dirigir sua mente a essa intenção — por isso está isento sem que pareça arrogância, já que todos reconhecem sua condição especial. Mas aqui (quanto a Tishá BeAv), quem o vê ocioso diz: é porque ele não tem trabalho para fazer — e não porque se abstém por devoção, daí parecer arrogância se ele se destacar sem ser sabidamente estudioso. Sai e vê quantos ociosos há no mercado (mesmo em dia comum, de modo que a ociosidade por si só não denuncia nada — mas abster-se ostensivamente de trabalho por princípio, sim).
"As pessoas dizem: é porque ele não tem trabalho" — quem o vê sem fazer trabalho não entende que é por causa de Tishá BeAv que ele está ocioso, mas presume que ele simplesmente não tem trabalho para fazer. "Sai e vê quantos ociosos há no mercado" — mesmo em dias comuns de trabalho.
A Guemará resolve elegantemente a contradição dupla através de uma única distinção de Rav Shisha: o critério de "aparência de arrogância" não é fixo, mas depende de quão visível e singular é o comportamento. Quanto ao noivo, sua isenção do Shemá depende de uma condição interna (falta de concentração) que ninguém pode verificar diretamente, e por isso ele pode optar por ler sem suspeita, pois ler o Shemá é o comportamento universal; quanto a Tishá BeAv, abster-se de trabalho é um comportamento visivelmente incomum em lugar onde se trabalha, e por isso soa a pretensão de erudição — a menos que a ociosidade seja tão comum (como no mercado, cheio de gente sem trabalho) que ninguém a note como statement religioso.
Retornaremos a ti, "Haiá Korê" — encerramento do quarto perek de Berachot (Perek Guimel numerado a partir de Bên Zomá, aqui referido pela Mishná de abertura "Haiá Korê", 13a)
Aquele que tem seu falecido (um parente próximo, ainda não sepultado) deitado diante de si está isento da leitura do Shemá, e da oração (a Amidá), e dos tefilin, e de todos os mandamentos ditos na Torá.
"Aquele que tem seu falecido..." é isento de ler o Shemá — porque está ocupado com o pensamento de providenciar seu sepultamento; e isto é semelhante ao caso do noivo, que é isento por causa da preocupação com outro mandamento.
Esta Mishná abre o novo perek (o quarto de Massechet Berachot, chamado Perek Guimel a partir da numeração das mishnayot centrais, ou simplesmente "Mi Shemeto") e estabelece o princípio central das leis de luto agudo: quem tem um parente falecido ainda insepulto diante de si está isento de toda a gama de mandamentos — não apenas do Shemá e da Amidá, mas também dos tefilin e, de forma abrangente, de "todos os mandamentos ditos na Torá". Rashi conecta esta isenção à lógica já vista com o noivo: em ambos os casos, a pessoa está mentalmente tomada por outra preocupação urgente e legítima (o sepultamento, ou o casamento), o que a impede de ter a concentração necessária para cumprir devidamente os mandamentos.
Os carregadores do féretro, e seus substitutos, e os substitutos de seus substitutos — os que estão diante do féretro, e os que estão atrás do féretro: os que estão diante do féretro, se há necessidade deles (pois ainda vão carregá-lo), estão isentos; e os que estão atrás do féretro, mesmo se há necessidade deles, ficam obrigados. Mas uns e outros estão isentos da oração (a Amidá).
"E seus substitutos" — pois é costume que se revezem para carregar, já que todos desejam obter mérito nisso. "Os que estão diante do féretro" — que se ocuparão dele quando o féretro chegar até eles. "E os que estão atrás do féretro" — os que já o carregaram. "Os que estão diante do féretro, se há necessidade deles, estão isentos" — se precisam ainda carregá-lo, estão isentos. "E os que estão atrás do féretro" — mesmo que haja necessidade deles (para revezar novamente), ficam obrigados, pois já cumpriram sua obrigação com o morto. "Mas uns e outros estão isentos da oração" — porque a Amidá não é mandamento da Torá (mas apenas rabínico); e nossos mestres explicaram que a razão é que ainda têm tempo disponível para orar depois, mas a mim parece que esta não é a explicação correta para a expressão "isentos".
A Mishná detalha um sistema prático de revezamento no cortejo fúnebre: como todos desejam obter o mérito de carregar o féretro, formam-se filas de substitutos e substitutos de substitutos, à frente e atrás do féretro. O critério de isenção é funcional e não posicional: quem ainda precisa carregar (à frente, aguardando sua vez) está isento dos mandamentos, enquanto quem já carregou e não precisa mais (atrás) volta à obrigação normal — exceto quanto à Amidá, da qual todos, sem exceção, permanecem isentos, por ser esta de origem rabínica e não bíblica, e por causa da agitação geral do cortejo, que impossibilita a concentração exigida. Rashi registra e depois questiona a explicação transmitida por seus próprios mestres sobre o motivo dessa isenção coletiva da Amidá.
Sepultaram o morto e retornaram (do cemitério): se podem começar a orar a Amidá e terminá-la antes de chegarem à fileira (de pessoas formada para consolar os enlutados), comecem; e se não (não teriam tempo de terminar), não comecem.
"À fileira" — pois costumavam consolar o enlutado formando uma fileira ao redor dele, no retorno do túmulo.
Após o sepultamento, os que retornam do cemitério enfrentam uma nova janela de oportunidade para orar a Amidá, já que a isenção do luto agudo se aplicava apenas enquanto o morto estava insepulto diante deles. O critério é prático: só devem iniciar a oração se tiverem certeza de conseguir concluí-la inteiramente antes de chegar à fileira formada pela comunidade para consolar os enlutados — pois seria indecoroso interromper a Amidá no meio para participar do ato de consolação, ou fazer a comunidade esperar.
Os que estão de pé na fileira (de condolências): os de dentro (mais próximos do enlutado, que o veem) estão isentos; e os de fora (mais distantes) ficam obrigados. Mulheres, e escravos, e menores estão isentos da leitura do Shemá e dos tefilin, mas ficam obrigados na oração, na mezuzá e na bênção do alimento (Birkat Hamazon).
A Mishná encerra com duas regras adicionais. A primeira distingue, dentro da própria fileira de consolação, entre os que estão perto o bastante do enlutado para partilhar visualmente de seu luto (isentos, como o próprio enlutado) e os mais distantes (obrigados normalmente). A segunda regra, de caráter mais geral, define o padrão de obrigação para mulheres, escravos e menores: isentos dos mandamentos vinculados ao tempo e ligados mais estritamente à obrigação masculina plena (Shemá e tefilin), mas obrigados na Amidá (por ser súplica por misericórdia, aplicável a todos), na mezuzá (proteção do lar, que serve a todos os moradores) e na bênção após as refeições (obrigação decorrente do próprio ato de comer, que todos praticam).
A Mishná ensina que apenas quando o falecido está deitado diante dele é que há isenção — isto é, sim há isenção; mas quando o falecido não está deitado diante dele, não há isenção — permanecendo o parente enlutado obrigado nos mandamentos.
A Guemará abre sua análise extraindo, por leitura precisa da própria formulação da Mishná ("mi shemeto mutal lefanav" — "aquele que tem seu falecido deitado diante de si"), uma implicação restritiva: a isenção plena dos mandamentos se aplica exclusivamente enquanto o corpo está fisicamente presente diante do enlutado; se o enlutado se encontra em outro cômodo ou lugar, distante do corpo, ainda que dentro do mesmo período de luto agudo anterior ao sepultamento, ele não goza dessa isenção total.
E contrapõe-se a esta leitura uma baraita: aquele que tem seu falecido deitado diante de si come (durante o período em que aguarda o sepultamento) em outro cômodo (afastado do corpo — o que já pressupõe que ele continua sendo chamado de "quem tem seu falecido diante de si", mesmo comendo longe dele, contradizendo a leitura restritiva anterior); e se não tem outro cômodo, come na casa de seu companheiro; e se não tem a casa de seu companheiro, faz uma divisória e come; e se não tem material para fazer uma divisória, volta o rosto para a parede e come. E não se reclina à mesa para comer. E não come carne, e não bebe vinho, e não recita a bênção completa após comer, e não forma zimun (convite formal para a bênção conjunta).
"Aquele que não está deitado diante dele" — como, por exemplo, quando ele está numa casa e o morto está em outra casa. "Come em outro cômodo" — pois pareceria zombar do pobre (o falecido, que não pode mais comer) comer normalmente diante dele, etc. "E não se reclina" — não come conforme o modo dos que se reclinam com prestígio, sobre seu lado esquerdo e em leito. "E não recita a bênção" — e não precisa recitar a bênção de "HaMotsi" (sobre o pão, antes de comer). "E não forma zimun" — não precisa recitar a bênção completa do alimento (com a introdução formal do zimun).
A Guemará levanta uma contradição direta: se a isenção plena da Mishná depende de o morto estar literalmente "diante" do enlutado, como pode uma baraita afirmar que esse mesmo enlutado ("aquele que tem seu falecido diante de si") come em outro cômodo, ou até na casa de um vizinho — ou seja, fisicamente distante do corpo? A própria baraita usa a expressão "diante de si" para descrever alguém que come longe do cadáver, sugerindo que a expressão da Mishná não exige presença física literal e contínua, mas designa todo o período entre a morte e o sepultamento — contradizendo a leitura restritiva que a Guemará havia acabado de propor. A baraita detalha, além disso, uma sequência decrescente de acomodações para a refeição do enlutado (outro cômodo, casa de vizinho, divisória improvisada, ou simplesmente virar o rosto) e as restrições que a acompanham: não reclinar-se com prestígio, não comer carne nem beber vinho, e dispensar tanto a bênção sobre o pão quanto o convite formal do zimun — paralelas às leis já vistas no Yerushalmi sobre a mesma refeição do enlutado.
Trilha comparada: A Mishná deste daf — "aquele que tem seu falecido diante de si está isento da leitura do Shemá, da oração e dos tefilin" — é exatamente a Mishná que abre o Talmud Yerushalmi, Berachot, Perek Guimel, Halachá 1, já traduzida neste site, com sua extensa discussão sobre os tefilin do enlutado, virar a cama, a refeição do endoentado e a contaminação do cohen por honra.
Ver Yerushalmi Berachot 3:1 →