O daf conclui a citação da baraita sobre a refeição do enlutado, com a regra de que não se recita bênção nem se forma zimun por ele, e traz um esclarecimento de Rabi Yochanan sobre a única diferença prática entre Rabán Shimon ben Gamliel e os sábios: o uso da esposa em Shabat. A Guemará então enfrenta uma nova contradição — a baraita fala em "come em outro cômodo", implicando que a isenção vale mesmo sem o morto literalmente diante de si — e a resolve com Rav Papa e Rav Ashi, este último ensinando que todo aquele sobre quem recai a obrigação de sepultar é considerado como tendo o morto diante de si. Segue-se a extensão dessa isenção a quem apenas vigia um morto que não é seu parente, a proibição de caminhar no cemitério com tefilin na cabeça e Sêfer Torá no braço lendo em voz alta, o princípio de que o morto "ocupa quatro amot" para efeito da leitura do Shemá, o caso de dois vigias que se revezam para orar e o costume de Ben Azai no barco, a baraita sobre não transportar ossos de modo indigno, o dever e a recompensa de acompanhar um morto, e por fim o episódio de Rabi Chiya e Rabi Yonatan caminhando no cemitério, sobre esconder os tsitsit para não "zombar dos pobres" e a explicação de que os mortos sabem de seu próprio louvor até o terceiro dia.
continuação da baraita citada ao final de 17b: e não se abençoa por ele (outros não recitam para ele a bênção sobre o pão), e não se forma zimun por ele (ele não se junta a três para a introdução formal da bênção do alimento), e ele está isento da leitura do Shemá, e da oração, e dos tefilin, e de todos os mandamentos ditos na Torá. Mas em Shabat, ele se reclina à mesa com prestígio e come carne e bebe vinho, e recita a bênção completa e forma zimun, e abençoam por ele e formam zimun por ele, e fica obrigado em todos os mandamentos ditos na Torá. Rabán Shimon ben Gamliel diz: já que ficou obrigado nestes (nos mandamentos rabínicos ligados à refeição, como a bênção e o zimun), ficou obrigado em todos (inclusive nos mandamentos bíblicos como o Shemá, os tefilin e a Amidá — sem qualquer isenção residual em Shabat).
"E não se abençoa por ele" — não é necessário que outros recitem para ele a bênção do pão. "E não se forma zimun por ele" — ele não se junta com três para o zimun.
O daf abre retomando o fim da baraita citada ao final de 17b, que detalhava as restrições da refeição do enlutado em dia comum. Ela agora acrescenta que nem sequer se dispensa a ele a cortesia de que outros recitem a bênção do pão em seu favor, ou que ele complete um grupo de zimun — reforçando o isolamento ritual do enlutado agudo. Mas, chegado o Shabat, a baraita vira completamente a mesa: todas as restrições caem, o enlutado volta a se reclinar, comer carne, beber vinho e cumprir normalmente cada mandamento, bíblico ou rabínico. Rabán Shimon ben Gamliel resume esse retorno total com um princípio a fortiori: se ele já ficou obrigado nas leis rabínicas mais leves da refeição, com mais razão fica obrigado em todos os demais mandamentos, sem exceção — nem mesmo a isenção do Shemá, dos tefilin e da Amidá sobrevive ao Shabat.
E disse Rabi Yochanan: qual é a diferença entre eles (entre a opinião anônima da baraita e a de Rabán Shimon ben Gamliel, já que ambos concordam que em Shabat o enlutado volta a todos os mandamentos)? O uso da esposa (relação conjugal) há de diferença entre eles (a opinião anônima proíbe o enlutado desse ato mesmo em Shabat, por não estar contado entre os "mandamentos ditos na Torá" listados, enquanto Rabán Shimon ben Gamliel, ao dizer "ficou obrigado em todos", inclui também este).
"O uso da esposa há de diferença entre eles" — segundo Rabi Shimon (ben Gamliel), ele fica obrigado, mas apenas no seu horário regular de obrigação conjugal, em Shabat.
À primeira vista, a opinião anônima da baraita e a de Rabán Shimon ben Gamliel parecem dizer a mesma coisa: que em Shabat o enlutado volta a todas as obrigações. Rabi Yochanan localiza a diferença real num único ponto não mencionado explicitamente pela baraita: a relação conjugal. A opinião anônima entende que a lista de mandamentos aos quais o enlutado retorna não inclui esse ato, que permanece proibido mesmo em Shabat; Rabán Shimon ben Gamliel, ao generalizar "ficou obrigado em todos", inclui também esse âmbito — ao menos no horário em que já seria, de qualquer forma, sua obrigação conjugal regular daquela semana.
Retomando a objeção de 17b: de todo modo, a baraita ensina que ele está isento da leitura do Shemá, e da oração, e dos tefilin, e de todos os mandamentos ditos na Torá (mesmo no caso de comer em outro cômodo, casa de vizinho ou com divisória — contradizendo a leitura de que a isenção exige o morto literalmente "diante de si")! Disse Rav Papa: explica-se isto como referindo-se apenas a quem volta o rosto para a parede e come (o último caso da lista, quando não há sequer material para uma divisória — situação em que ele continua tecnicamente "diante" do morto, apenas de costas). Rav Ashi disse: não é necessário restringir assim; antes, vale para todos os casos da baraita, pois, já que recai sobre ele a obrigação de sepultá-lo, é como se estivesse o morto deitado diante dele considerado. Pois está dito: "e levantou-se Avraham de diante de seu falecido" (Bereshit 23:3), e está dito: "e sepultarei meu falecido de diante de mim" (Bereshit 23:4 — onde Avraham já fala de sepultar quando, tecnicamente, ainda não retornara à presença física do corpo); conclui-se que todo o tempo em que recai sobre ele a obrigação de sepultá-lo, é como se estivesse deitado diante dele considerado — mesmo estando fisicamente distante.
"De todo modo a baraita ensina que ele está isento do Shemá e de todas as bênçãos" — mesmo quando ele come na casa de seu companheiro. "Explica-se isto" — refere-se ao caso ensinado de estar isento a quem não tem outra casa, do qual se diz que volta o rosto e come. "Rav Ashi disse" — que a isenção vale sempre, em todos os casos, e também a Mishná isenta mesmo quando ele come em outra casa, pois todo aquele sobre quem recai a obrigação de sepultá-lo é chamado de "deitado diante dele". "E levantou-se Avraham etc., e está escrito: e sepultarei meu falecido de diante de mim" — e naquele momento o morto não estava literalmente diante dele.
Duas soluções concorrentes para a contradição levantada ao final de 17b. Rav Papa mantém a leitura restritiva original ("diante de si" = presença física literal) e reinterpreta a baraita de forma minimalista: apenas o último caso da lista — virar o rosto para a parede por falta de qualquer outra opção — realmente conta como "isento de tudo", pois nesse caso o morto continua tecnicamente presente no mesmo espaço. Rav Ashi propõe uma solução mais ampla e elegante: abandona a leitura restritiva por completo, extraindo de dois versículos sobre Avraham e Sara — que combinam a expressão "de diante de seu falecido" com um contexto em que Avraham já não estava fisicamente junto ao corpo — o princípio de que a expressão bíblica e mishnaica "diante de si" não exige presença física contínua, mas sim que a obrigação de providenciar o sepultamento ainda recaia sobre a pessoa. Esta segunda opinião, mais abrangente, prevalece na leitura tradicional da sugia.
Conclui-se da Mishná que apenas quando é seu falecido (um parente próximo, sobre quem recai a obrigação de sepultamento) — sim há isenção; mas quando ele apenas o vigia (um morto que não é seu parente, apenas guardando o corpo) — não há isenção.
Tendo estabelecido, com Rav Ashi, que a isenção não exige presença física literal, a Guemará tenta agora traçar uma nova fronteira para a regra: talvez ela dependa não da presença, mas do vínculo — aplicando-se apenas a um parente próximo ("seu falecido"), sobre quem recai pessoalmente a obrigação bíblica de sepultamento, e não a alguém que meramente vigia um cadáver alheio, sem essa obrigação pessoal.
Mas foi ensinado numa baraita: aquele que vigia um morto, ainda que não seja seu falecido (parente), está isento da leitura do Shemá, e da oração, e dos tefilin, e de todos os mandamentos ditos na Torá! Responde-se: a isenção se aplica tanto a quem apenas o vigia, ainda que não seja seu falecido, quanto a quem tem seu falecido, ainda que não esteja ele mesmo o vigiando (pois pode ter delegado a vigília a outrem, permanecendo ele próprio ocupado com os preparativos do sepultamento).
A tentativa de restringir a isenção apenas ao parente responsável pelo sepultamento é refutada por uma baraita explícita: mesmo um estranho que apenas vigia o corpo — tarefa necessária para impedir profanação ou dano ao morto — está isento de todos os mandamentos, sem qualquer vínculo de parentesco. A Guemará reconcilia as duas fontes não como opiniões conflitantes, mas como dois casos que se somam sob a mesma regra ampla: a isenção vale tanto para quem vigia (mesmo sem ser parente) quanto para quem é parente responsável pelo sepultamento (mesmo sem estar ele mesmo fazendo a vigília naquele momento, por exemplo se outra pessoa a exerce em seu lugar).
Conclui-se então que apenas quando é seu falecido ou quando o vigia — sim há isenção; mas a alguém que apenas caminha no cemitério (sem vínculo com nenhum morto específico ali, e sem estar vigiando) — não há isenção. Mas foi ensinado numa baraita: não deve o homem caminhar no cemitério com os tefilin em sua cabeça e um Sêfer Torá em seu braço, lendo em voz alta. E se assim faz, transgride por causa do princípio: "quem zomba do pobre insulta seu Criador" (Provérbios 17:5 — pois exibir o cumprimento vivo de mandamentos diante dos mortos, que já não podem cumpri-los, seria uma forma de zombaria).
"Aquele que não está diante dele" — como, por exemplo, quando ele está numa casa e o morto está em outra casa. "Come em outro cômodo" — pois pareceria zombar do pobre (o falecido), etc.
A Guemará tenta uma terceira restrição: talvez a isenção exija ao menos algum vínculo — ser parente do morto, ou estar formalmente vigiando-o — excluindo o simples transeunte que atravessa um cemitério sem relação com nenhum cadáver específico. Mas uma nova baraita parece contradizer isso: ela proíbe explicitamente caminhar no cemitério usando tefilin e carregando um Sêfer Torá enquanto lê em voz alta, sob a acusação de "zombar do pobre" — implicando que, fora dessa situação ostensiva, um simples transeunte estaria isento (ou ao menos permitido) de portar tefilin discretamente, sugerindo que a proibição depende da exibição pública do cumprimento do mandamento diante dos mortos, e não de uma isenção pessoal do próprio transeunte.
Responde-se: ali (na baraita do tefilin e Sêfer Torá), é dentro de quatro amot (do morto) que é proibido (ler ostensivamente com tefilin e Torá, por parecer zombaria); fora de quatro amot, fica obrigado (a portar os tefilin e ler normalmente, sem que isso seja zombaria). Pois disse o Mestre: o morto ocupa quatro amot para efeito da leitura do Shemá (dentro dessa distância, considera-se como estando "diante" do morto). Aqui (no nosso caso do simples transeunte no cemitério, distante mais de quatro amot de qualquer corpo específico), fora de quatro amot também está isento (não pela proibição de zombaria, mas porque, dentro de um cemitério repleto de sepulturas, sempre have algum morto dentro do raio de quatro amot em algum ponto do trajeto — mantendo a isenção geral).
"O morto ocupa quatro amot para a proibição de ler o Shemá" — pois é proibido ler dentro de quatro amot dele, por causa de zombar do pobre.
A Guemará resolve a aparente contradição com uma medida espacial precisa, já estabelecida alhures: o morto "ocupa" um raio de quatro amot (cerca de dois metros) ao seu redor, dentro do qual a leitura ostensiva do Shemá com tefilin é proibida por zombaria; fora desse raio, a obrigação normal de ler o Shemá e portar tefilin é retomada. No caso do transeunte comum no cemitério, o mesmo princípio de quatro amot mantém a isenção geral, já que, num cemitério repleto de sepulturas, dificilmente alguém estará continuamente fora do raio de quatro amot de todo e qualquer corpo — de modo que a isenção prática persiste ao longo de todo o trajeto.
Retomando o assunto em si (a baraita citada acima): aquele que vigia um morto, ainda que não seja seu falecido, está isento da leitura do Shemá, e da oração, e dos tefilin, e de todos os mandamentos ditos na Torá. Se eram dois (vigiando juntos): este vigia e aquele lê o Shemá, e aquele vigia e este lê (revezando-se, de modo que um deles sempre esteja livre para cumprir o mandamento, já que a vigília não exige dois ao mesmo tempo). Ben Azai diz: se vinham de barco (transportando o morto), deixa-se o corpo num canto, e ambos oram noutro canto (distante ao menos quatro amot, já que no barco não há alternativa de saírem do mesmo recinto).
"Está isento da leitura do Shemá" — porque está ocupado com um outro mandamento (vigiar o morto contra roedores e outros danos).
A Guemará agora traz o texto completo da baraita anteriormente citada em resumo, detalhando os mecanismos práticos da vigília compartilhada. Quando dois vigiam juntos, eles se revezam: enquanto um permanece atento ao corpo, o outro pode ler o Shemá livremente, e depois trocam de papel — pois a tarefa de vigília não exige literalmente dois pares de olhos simultâneos, e assim nenhum dos dois precisa abrir mão totalmente da leitura. Ben Azai acrescenta o caso particular de estarem confinados a um barco, onde não há como se afastar para outro cômodo: a solução ali é segregar o corpo num canto do barco e rezar noutro canto, mantendo alguma distância mesmo dentro do mesmo espaço fechado.
Qual é a diferença entre eles (entre o caso dos dois vigias comuns, que oram apenas em turnos, e o caso de Ben Azai, que permite ambos orarem juntos, desde que segregado o corpo num canto)? Disse Ravina: se se teme por ratos (que possam atacar o corpo desacompanhado) há de diferença entre eles. Um Mestre (o tana anônimo) entende: tememos (por isso exige que sempre um permaneça vigiando ativamente, mesmo em terra firme). E o outro Mestre (Ben Azai) entende: não tememos (por isso permite que ambos orem juntos, mesmo deixando o corpo sozinho num canto do barco, pois no barco não há por onde os ratos entrarem).
A Guemará identifica a lógica subjacente à diferença entre a regra geral (revezamento obrigatório) e a permissão especial de Ben Azai (ambos orando juntos, com o corpo apenas segregado a um canto): o receio de que roedores ataquem o corpo desguarnecido. Segundo o tana da baraita geral, esse receio existe sempre, exigindo vigília contínua por ao menos um dos dois; segundo Ben Azai, no ambiente fechado e elevado de um barco, esse receio não se aplica, permitindo que ambos se afastem para orar juntos sem qualquer vigia ativa.
Ensinaram nossos mestres numa baraita: aquele que transporta ossos (de um falecido, para reenterro) de um lugar para outro não deve colocá-los num alforje e colocá-lo sobre um jumento e cavalgar sobre eles (sentando-se por cima dos ossos), porque assim se conduz com eles de modo desrespeitoso. Mas se temia por causa de não-judeus ou de salteadores, é permitido. E do mesmo modo que se disse quanto aos ossos, assim também se disse quanto a um Sêfer Torá (que não deve ser transportado de modo desrespeitoso, salvo por necessidade de segurança).
"Disakaya" — um grande saco de couro. "Mas se temia" — e precisa cavalgar sobre o cavalo e correr (para escapar do perigo, quando então se permite sentar sobre os ossos).
Uma nova baraita, ainda no tema do respeito devido aos mortos, trata do transporte de ossos para reenterro (uma prática documentada de reunir os ossos de um falecido, após a decomposição da carne, para transferi-los a um sepulcro familiar definitivo). É proibido colocá-los num alforje montado sobre um animal e sentar-se diretamente sobre eles, por ser modo indigno de tratá-los; mas em caso de perigo real — de gentios hostis ou de salteadores — a necessidade de segurança e rapidez suplanta a preocupação com o decoro, tornando permitido. A baraita equipara essa regra à do transporte de um Sêfer Torá, sugerindo uma analogia estrutural entre o respeito devido aos restos mortais e o respeito devido ao objeto sagrado por excelência.
Pergunta-se: a qual parte da baraita se refere a analogia final? Se disseres que se refere à primeira parte (a proibição de transportar de modo desrespeitoso) — é óbvio que também se aplica ao Sêfer Torá, sem necessidade de dizê-lo! Acaso é o Sêfer Torá inferior aos ossos (para que se pensasse que ele mereceria menos respeito)? Mas, sim, refere-se à segunda parte (a permissão de cavalgar sobre ele por medo de gentios ou salteadores — o que não seria óbvio, e por isso precisava ser dito também quanto ao Sêfer Torá).
"Mas refere-se à segunda parte" — se temia, cavalga sobre o Sêfer Torá também, quando necessário.
A Guemará examina com precisão a que exatamente se refere a frase final da baraita ("do mesmo modo que se disse quanto aos ossos, assim também se disse quanto a um Sêfer Torá"). Descarta a leitura óbvia — que a proibição de transporte desrespeitoso também vale para o Sêfer Torá — por ser desnecessária: ninguém pensaria que um Sêfer Torá merece menos cuidado que meros ossos humanos. A leitura correta, portanto, é a menos óbvia: mesmo a permissão excepcional de cavalgar sobre o objeto por motivo de perigo real também se estende ao Sêfer Torá, o que não seria evidente sem essa explicitação, dado o elevado grau de santidade do rolo da Torá.
Disse Rachavá em nome de Rav Yehudá: todo aquele que vê o morto (sendo levado ao sepultamento) e não o acompanha transgride por causa do princípio: "quem zomba do pobre insulta seu Criador" (Provérbios 17:5). E se o acompanhou, qual é sua recompensa? Disse Rav Assi: sobre ele o versículo diz: "quem empresta ao Eterno é aquele que agracia o pobre" (Provérbios 19:17), "e quem o honra é aquele que agracia o necessitado" (Provérbios 14:31 — lidos aqui em conjunto como referindo-se a quem honra o morto, considerado o mais pobre e necessitado de todos, por já não poder agir por si).
"Quem empresta ao Eterno é quem agracia o pobre" — lê-se o versículo como dizendo: empresta a D-us aquele que agracia o pobre; e não há pobre maior que o morto, e quem o acompanha é como se emprestasse a D-us mesmo.
Rachavá, em nome de Rav Yehudá, converte o princípio de "zombar do pobre" — já usado antes nesta sugia quanto à leitura ostensiva do Shemá no cemitério — numa obrigação positiva mais ampla: quem simplesmente vê um cortejo fúnebre passar e não se junta a ele, ainda que por um trecho breve, comete essa mesma transgressão, pois o morto, incapaz de agir em seu próprio favor, é o "pobre" por excelência. Rav Assi, então, descreve a recompensa: aplicando dois versículos de Provérbios lidos em conjunto, ele identifica quem acompanha e honra o morto com quem "empresta ao Eterno" — uma imagem que eleva o ato de acompanhar um cortejo fúnebre ao nível de um empréstimo direto a D-us, com a garantia implícita de retribuição divina.
Rabi Chiya e Rabi Yonatan caminhavam pelo cemitério. Estava arrastando no chão o techelet (o fio azul dos tsitsit) de Rabi Yonatan. Disse-lhe Rabi Chiya: levanta-o, para que não digam os mortos, referindo-se aos vivos: "amanhã eles virão até nós (morrerão também), e agora nos insultam (exibindo diante de nós o cumprimento vivo de um mandamento que já não podemos cumprir)".
"Levanta-o" — ergue-o do chão.
Um episódio narrativo ilustra, na prática, o princípio de "zombar do pobre" que percorreu todo o daf. Ao caminhar num cemitério, Rabi Chiya nota que os fios de techelet dos tsitsit de Rabi Yonatan estão se arrastando visivelmente pelo chão — tornando-os conspícuos — e pede que ele os levante, temendo que essa exibição pareça uma zombaria dos mortos, que já não podem cumprir o mandamento do tsitsit, ironicamente formulada como se os próprios mortos protestassem contra a exibição de privilégio que ainda não é deles.
Disse-lhe Rabi Yonatan: e acaso os mortos sabem tanto assim (a ponto de perceber e se ofender com um detalhe como este)? Não está escrito: "e os mortos nada sabem" (Kohélet 9:5)? Disse-lhe Rabi Chiya: se leste a Escritura, não a repetiste (estudando-a uma segunda vez); se a repetiste, não te a explicaram numa terceira leitura mais profunda; pois o versículo completo diz: "porque os vivos sabem que morrerão" (mesma passagem de Kohélet 9:5, e não apenas a segunda metade sobre os mortos) — estes são os justos, que em sua morte são chamados de vivos, como está dito: "e Benaiáhu, filho de Yehoyadá, filho de um homem vivo, grande em feitos, de Cabtsel, ele feriu os dois ariéis de Moáv, e ele desceu e feriu o leão dentro do poço, num dia de neve" (Shemuel II 23:20 — onde "homem vivo" é entendido como um título honorífico, aplicável mesmo após a morte, aos justos).
"Não a repetiste" — não voltaste a ela uma segunda vez para te aprofundares nela. "Estes são os justos" — e o que significa "sabem que morrerão"? Que tomam a seu coração o dia da morte e afastam suas mãos da transgressão; já os ímpios nada sabem, pois se fazem como que não soubessem, e pecam. "Ele feriu" — rebaixou os equivalentes de duas gerações desde os dois Templos, pois não houve ninguém como ele desde então. "Ariel" — refere-se a este é o Templo, como está dito: "ai de Ariel, Ariel, cidade onde Davi acampou" (Yeshaiáhu 29:1). "Moáv" — porque Davi o construiu, sendo ele mesmo descendente de Rut, a moabita.
O episódio se desenvolve numa pequena disputa exegética entre os dois sábios. Rabi Yonatan questiona a premissa de Rabi Chiya citando o versículo de Kohélet segundo o qual "os mortos nada sabem" — logo, argumenta ele, não haveria razão para temer que se ofendessem com um detalhe como o tsitsit arrastado. Rabi Chiya responde com uma reprimenda em três graus sobre a profundidade do estudo (ler, repetir, e ter a explicação transmitida por um mestre), revelando que a citação de Rabi Yonatan estava incompleta: o versículo integral também afirma que "os vivos sabem que morrerão", e aplica essa expressão — paradoxalmente — aos justos, que mesmo depois de mortos continuam sendo chamados de "vivos", com base no título dado a Benaiáhu ben Yehoyadá. A conclusão implícita é que, ao menos os justos, mesmo mortos, mantêm algum tipo de consciência — sustentando a preocupação original de Rabi Chiya quanto ao tsitsit arrastado.
Trilha comparada: A discussão deste daf — a extensão da isenção de "quem tem seu falecido diante de si" a quem apenas vigia um morto, e as restrições da refeição do enlutado — continua o mesmo tema do Talmud Yerushalmi, Berachot, Perek Guimel, Halachá 1, já traduzida neste site, que trata da mesma Mishná com sua extensa discussão sobre os tefilin do enlutado e a refeição do endoentado.
Ver Yerushalmi Berachot 3:1 →