Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Guimel
בֶּן אִישׁ חַי

A explicação dos feitos de Benaiáhu; quem são os mortos que "nada sabem"; os filhos de Rabi Chiya que esqueceram seu estudo; a longa história do chassid piedoso e as duas almas no cemitério; Zeiri e o pai de Shmuel sobre dinheiro de órfãos; e a retratação de Rabi Yonatan

Berachot 18b

O daf conclui o episódio de Rabi Chiya e Rabi Yonatan, explicando verso a verso os feitos de Benaiáhu ben Yehoyadá como alegorias do estudo da Torá, e identifica os mortos que "nada sabem" com os ímpios, chamados mortos ainda em vida. Segue-se a história dos filhos de Rabi Chiya, que esqueceram seu estudo e temeram que o pai soubesse de seu sofrimento — resolvida com o princípio de que os mortos sabem da própria dor, mas não da dor alheia. A Guemará então traz a extensa história do chassid piedoso que ouviu duas almas conversando no cemitério sobre as decisões do Ano Novo, seguida pelas histórias de Zeiri e do pai de Shmuel, que revelam após a morte onde guardaram dinheiro de órfãos — aparentemente provando que os mortos sabem dos assuntos dos vivos. O daf fecha com a retratação de Rabi Yonatan, que agora ensina, a partir do versículo sobre a terra jurada aos patriarcas, que os mortos efetivamente conversam entre si.

Continuação: os feitos de Benaiáhu como alegoria do estudo · בֶּן אִישׁ חַי וּמַעֲשֵׂי בְּנָיָהוּ

01"Filho de homem vivo": mesmo em sua morte é chamado vivo; "grande em feitos, de Cabtsel": reuniu discípulos para a Torá; "feriu os dois ariéis de Moáv": não houve outro como ele em nenhum dos dois Templos
Bavli · 18b — Guemará (continuação)
״בֶּן אִישׁ חַי״: אַטּוּ כּוּלֵּי עָלְמָא בְּנֵי מֵתֵי נִינְהוּ? אֶלָּא: ״בֶּן אִישׁ חַי״ — שֶׁאֲפִילּוּ בְּמִיתָתוֹ קָרוּי חַי. ״רַב פְּעָלִים מִקַּבְצְאֵל״ — שֶׁרִיבָּה וְקִבֵּץ פּוֹעֲלִים לַתּוֹרָה. ״וְהוּא הִכָּה אֵת שְׁנֵי אֲרִאֵל מוֹאָב״ — שֶׁלֹּא הִנִּיחַ כְּמוֹתוֹ לֹא בְּמִקְדָּשׁ רִאשׁוֹן וְלֹא בְּמִקְדָּשׁ שֵׁנִי.

Continuando a exegese do versículo sobre Benaiáhu: "filho de um homem vivo" (Shemuel II 23:20) — acaso todo o mundo são filhos de mortos (para que fosse necessário especificar "vivo" — todo pai de qualquer pessoa foi, em algum momento, vivo)? Antes, "filho de um homem vivo" ensina que mesmo em sua morte é chamado vivo (o próprio Benaiáhu, e não seu pai, é quem, mesmo depois de falecido, mantém o título de "vivo"). "Grande em feitos, de Cabtsel" — que multiplicou e reuniu trabalhadores para a Torá (o nome "Cabtsel" é lido como derivado de "reunir"). "E ele feriu os dois ariéis de Moáv" — que não deixou igual a si, nem no primeiro Templo nem no segundo Templo (a expressão "dois ariéis", nome dado ao Templo, é lida como referindo-se aos dois Templos, e "feriu" como "superou" ou "rebaixou" os sábios de ambas as épocas em estatura).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
חלל רשע – על צדקיהו הוא אומר ועדיין בימי יחזקאל חי היה וקורהו חלל:

"Profano ímpio" — sobre Tsidkiáhu se diz este versículo, adiante, e ainda nos dias de Yechezkel ele estava vivo, e mesmo assim a Escritura o chama de "profano" (morto).

Nota

A Guemará retoma exatamente onde 18a foi interrompido, prosseguindo a leitura alegórica do versículo sobre Benaiáhu ben Yehoyadá como referindo-se, não a proezas militares literais, mas a feitos no estudo da Torá. "Filho de um homem vivo" é lido de modo a ensinar que o próprio sujeito do versículo, mesmo morto, retém o título de "vivo" — pois a formulação seria redundante se apenas descrevesse a genealogia. "Grande em feitos, de Cabtsel" torna-se elogio a quem reuniu numerosos alunos para o estudo, e "feriu os dois ariéis de Moáv" é reinterpretado como afirmando que ele suplantou em grandeza todos os sábios do primeiro e do segundo Templos.

02"Feriu o leão no poço, num dia de neve": duas explicações — quebrou pedaços de gelo e mergulhou para se purificar, ou estudou Torat Cohanim num dia de inverno
Bavli · 18b — Guemará
״וְהוּא יָרַד וְהִכָּה אֶת הָאֲרִי בְּתוֹךְ הַבּוֹר בְּיוֹם הַשָּׁלֶג״, אִיכָּא דְאָמְרִי: דְּתַבַּר גְּזִיזֵי דְבַרְדָּא, וּנְחַת וּטְבַל. אִיכָּא דְאָמְרִי: דִּתְנָא סִיפְרָא דְבֵי רַב בְּיוֹמָא דְסִיתְוָא.

"E ele desceu e feriu o leão dentro do poço, num dia de neve" — há quem diga: que ele quebrou pedaços de gelo, e desceu e se imergiu (numa mikvê congelada, para poder estudar Torá em pureza). Há quem diga: que ele ensinou Sifra debei Rav (a obra tanaítica também chamada Torat Cohánim) num dia de inverno (apesar do frio extremo, sem se deixar deter).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
גזיזי דברדא – חתיכות של ברד והקרח שקורין גלאנצ"א בלע"ז והיינו ביום השלג: ונחת וטבל לקריו – כדי לעסוק בתורה: דתנא סיפרא דבי רב – תורת כהנים:

"Pedaços de gelo" — pedaços de granizo e de gelo, que se chamam "glaça" em língua estrangeira, e isto é o que se entende por "num dia de neve". "E desceu e se imergiu por sua impureza de emissão" — a fim de dedicar-se à Torá. "Que ele ensinou Sifra debei Rav" — isto é, Torat Cohánim.

Nota

A frase final do versículo sobre Benaiáhu — "feriu o leão dentro do poço, num dia de neve" — recebe duas leituras alegóricas alternativas, ambas centradas na dedicação ao estudo apesar do rigor climático. A primeira entende que ele quebrou o gelo de uma mikvê congelada para se purificar de uma emissão seminal e poder estudar Torá em estado de pureza ritual, mesmo em pleno inverno. A segunda entende, mais diretamente, que ele persistiu no ensino de Torat Cohánim (Sifra) num dia de frio extremo, sem deixar que as condições o impedissem — ambas as leituras convergindo no mesmo tema de perseverança no estudo contra todas as adversidades.

Quem são os mortos que "nada sabem" · וְהַמֵּתִים אֵינָם יוֹדְעִים מְאוּמָה

03"Os mortos nada sabem": são os ímpios, chamados mortos em vida; ou, alternativamente, do versículo sobre os dois ou três testemunhos que condenam à morte — o morto já é considerado morto desde o início
Bavli · 18b — Guemará
״וְהַמֵּתִים אֵינָם יוֹדְעִים מְאוּמָה״ — אֵלּוּ רְשָׁעִים, שֶׁבְּחַיֵּיהֶן קְרוּיִין ״מֵתִים״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאַתָּה חָלָל רָשָׁע נְשִׂיא יִשְׂרָאֵל״. וְאִי בָּעֵית אֵימָא, מֵהָכָא: ״עַל פִּי שְׁנַיִם עֵדִים אוֹ עַל פִּי שְׁלֹשָׁה עֵדִים יוּמַת הַמֵּת״, חַי הוּא! אֶלָּא, הַמֵּת מֵעִיקָּרָא.

Voltando agora ao versículo citado por Rabi Yonatan em 18a: "e os mortos nada sabem" (Kohélet 9:5) — estes são os ímpios, que em sua vida já são chamados de "mortos", como está dito: "e tu, profano ímpio, príncipe de Israel" (Yechezkel 21:30 — dito a Tsidkiáhu, ainda vivo no momento da profecia). E se quiseres, dize a prova a partir daqui: "por declaração de dois testemunhos ou por declaração de três testemunhos será morto o morto" (Devarim 17:6)ora, se ele ainda está para ser executado, vivo ele é (no momento do julgamento — por que, então, chamá-lo já de "o morto"?)! Antes, conclui-se que a Escritura chama de "o morto" já desde o princípio (mesmo enquanto ainda vivo, o ímpio condenado já é tratado juridicamente como morto).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
חלל רשע – על צדקיהו הוא אומר ועדיין בימי יחזקאל חי היה וקורהו חלל:

"Profano ímpio" — é dito sobre Tsidkiáhu, e ainda nos dias de Yechezkel ele estava vivo, e a Escritura o chama de "profano" (morto).

Nota

A Guemará agora completa a réplica de Rabi Chiya a Rabi Yonatan, iniciada em 18a: se o versículo de Kohélet fala tanto dos "vivos que sabem que morrerão" (os justos) quanto dos "mortos que nada sabem", quem são estes últimos? A resposta identifica-os com os ímpios — que, mesmo em vida, já merecem o título de "mortos", pois estão espiritualmente desconectados, tal como Tsidkiáhu é chamado de "profano" pelo profeta Yechezkel ainda em vida. Uma segunda prova, extraída das leis de execução judicial, reforça o mesmo princípio: a Torá já chama de "o morto" um réu condenado à pena capital, mesmo antes de sua execução, mostrando que a Escritura aplica a categoria de "morte" a quem já perdeu a condição espiritual associada à vida, independentemente do estado biológico.

Os filhos de Rabi Chiya · בְּנֵי רַבִּי חִיָּיא

04Os filhos de Rabi Chiya saíram para cuidar das terras e esqueceram seu estudo; um pergunta se o pai sabe de sua dor; o outro responde com o versículo "seus filhos serão honrados e ele não saberá"
Bavli · 18b — Guemará
בְּנֵי רַבִּי חִיָּיא נְפוּק לְקִרְיָיתָא. אִייַּקַּר לְהוּ תַּלְמוּדַיְיהוּ. הֲווֹ קָא מִצַּעֲרִי לְאִדְּכוֹרֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ חַד לְחַבְרֵיהּ: יָדַע אֲבוּן בְּהַאי צַעֲרָא? אֲמַר לֵיהּ אִידַּךְ: מְנָא יָדַע? וְהָא כְּתִיב: ״יִכְבְּדוּ בָנָיו וְלֹא יֵדָע״.

Os filhos de Rabi Chiya (que já falecera) saíram para as aldeias (para cuidar de suas propriedades agrícolas). Com o tempo, seu estudo tornou-se-lhes pesado (esqueceram o que haviam aprendido). Eles se afligiam tentando recordá-lo. Disse um deles ao seu companheiro: acaso nosso pai sabe desta nossa dor? Disse-lhe o outro: como haveria ele de saber? Não está escrito: "seus filhos serão honrados, e ele não saberá" (Iyov 14:21)?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
לקריתא – להתעסק בעבודת אחוזתם: אייקר תלמודייהו – אשתכח תלמודם מגרסתם. אייקר הוכבד עליהם מחמת שכחה:

"Para as aldeias" — para se ocuparem do trabalho de sua propriedade rural. "Tornou-se-lhes pesado seu estudo" — isto é, seu estudo se perdeu de sua capacidade de repetição de memória. "Tornou-se-lhes pesado" — ficou-lhes difícil, por causa do esquecimento.

Nota

Uma nova narrativa explora a mesma questão — o que os mortos sabem sobre os vivos — através de um caso pessoal e concreto. Os filhos de Rabi Chiya, tendo deixado o estudo intensivo para administrar suas propriedades no campo, começaram a esquecer o que haviam aprendido, e sofriam com isso. Um deles teme que o pai já falecido tenha conhecimento dessa angústia; o outro, apoiando-se no versículo de Iyov segundo o qual os mortos não sabem sequer da honra alcançada por seus próprios filhos, conclui que tampouco saberiam de seu sofrimento.

05Objeção: mas está escrito "sua carne sobre ele dói e sua alma sobre ele se aflige"; e Rabi Yitschak: o verme é tão penoso ao morto quanto a agulha à carne viva
Bavli · 18b — Guemará
אֲמַר לֵיהּ אִידַּךְ: וְלָא יָדַע? וְהָא כְּתִיב: ״אַךְ בְּשָׂרוֹ עָלָיו יִכְאָב וְנַפְשׁוֹ עָלָיו תֶּאֱבָל״. וְאָמַר רַבִּי יִצְחָק: קָשָׁה רִמָּה לַמֵּת כְּמַחַט בַּבָּשָׂר הַחַי!

Disse-lhe o outro: e acaso é mesmo verdade que ele não sabe? Não está escrito: "apenas sua própria carne, sobre si mesmo, dói, e sua própria alma, sobre si mesma, se aflige" (Iyov 14:22 — o versículo imediatamente seguinte ao citado, ensinando que o morto sente, sim, sua própria dor)? E disse Rabi Yitschak: penoso é o verme ao morto tanto quanto a agulha à carne viva (o corpo do falecido continua a sentir, de algum modo, o processo de decomposição)!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
צערא דידהו – צער גופם ממש כגון עקיצת הרימה:

"A dor deles mesmos" — a dor de seu próprio corpo, como, por exemplo, a picada do verme.

Nota

O outro filho contesta a conclusão anterior, citando o versículo seguinte de Iyov, que afirma explicitamente que o morto sente dor e aflição "sobre si mesmo". Rabi Yitschak reforça essa leitura com uma imagem vívida: o verme que consome o corpo em decomposição causa ao morto uma dor comparável à agulha na carne viva — mostrando que o falecido continua a experimentar, de alguma forma, sensações ligadas ao próprio corpo.

06Conclusão intermediária: de sua própria dor, os mortos sabem; da dor alheia, não sabem
Bavli · 18b — Guemará
אָמְרִי: בְּצַעֲרָא דִידְהוּ — יָדְעִי, בְּצַעֲרָא דְאַחֲרִינָא — לָא יָדְעִי.

Diante da aparente contradição entre os dois versículos, conclui-se: de sua própria dor (a do próprio corpo do morto)eles sabem; da dor alheia (a de outra pessoa, mesmo seus próprios filhos) — não sabem.

Nota

A Guemará harmoniza os dois versículos aparentemente contraditórios de Iyov com uma distinção precisa: os mortos permanecem cientes da própria dor física, como a causada pelo verme, mas não têm conhecimento do que se passa com os vivos ao seu redor, incluindo seus próprios descendentes. Esta seria a resposta definitiva à pergunta dos filhos de Rabi Chiya — mas a Guemará, a seguir, questiona também essa conclusão intermediária.

A história do chassid piedoso · מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד

07Objeção da baraita: o chassid que deu um dinar a um pobre, foi provocado pela esposa, e ouviu no cemitério duas almas planejando saber dos decretos do Ano Novo
Bavli · 18b — Guemará (baraita)
וְלָא? וְהָתַנְיָא: מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד שֶׁנָּתַן דִּינָר לְעָנִי בְּעֶרֶב רֹאשׁ הַשָּׁנָה בִּשְׁנֵי בַצּוֹרֶת, וְהִקְנִיטַתּוּ אִשְׁתּוֹ, וְהָלַךְ וְלָן בְּבֵית הַקְּבָרוֹת. וְשָׁמַע שְׁתֵּי רוּחוֹת שֶׁמְסַפְּרוֹת זוֹ לָזוֹ. אָמְרָה חֲדָא לַחֲבֶרְתָּהּ: חֲבֶרְתִּי, בּוֹאִי וְנָשׁוּט בָּעוֹלָם, וְנִשְׁמַע מֵאֲחוֹרֵי הַפַּרְגּוֹד מַה פּוּרְעָנוּת בָּא לָעוֹלָם? אָמְרָה לָהּ חֲבֶרְתָּהּ: אֵינִי יְכוֹלָה, שֶׁאֲנִי קְבוּרָה בְּמַחְצֶלֶת שֶׁל קָנִים. אֶלָּא לְכִי אַתְּ, וּמַה שֶּׁאַתְּ שׁוֹמַעַת אִמְרִי לִי. הָלְכָה הִיא וְשָׁטָה וּבָאָה. וְאָמְרָה לָהּ חֲבֶרְתָּהּ: חֲבֶרְתִּי, מַה שָּׁמַעְתְּ מֵאֲחוֹרֵי הַפַּרְגּוֹד? אָמְרָה לָהּ: שָׁמַעְתִּי שֶׁכָּל הַזּוֹרֵעַ בִּרְבִיעָה רִאשׁוֹנָה בָּרָד מַלְקֶה אוֹתוֹ. הָלַךְ הוּא וְזָרַע בִּרְבִיעָה שְׁנִיָּה. שֶׁל כָּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ לָקָה, שֶׁלּוֹ — לֹא לָקָה.

Pergunta-se: e de fato não sabem da dor alheia? Mas foi ensinado numa baraita: aconteceu com um certo chassid (homem piedoso) que deu um dinar a um pobre na véspera de Rosh HaShaná, em anos de escassez (de chuva e colheita), e sua esposa o provocou (repreendendo-o por essa generosidade em tempo de necessidade), e ele foi e passou a noite no cemitério. E ouviu duas almas (de meninas falecidas) que conversavam uma com a outra. Disse uma à sua companheira: minha amiga, vem, e vamos vagar pelo mundo, e ouçamos por detrás da cortina (que separa o mundo celestial dos decretos ainda não revelados) que castigo virá ao mundo (neste ano, decidido em Rosh HaShaná). Disse-lhe sua companheira: não posso, pois estou sepultada numa esteira de junco (sem mortalha adequada, o que a impede de vagar livremente). Mas vai tu, e o que ouvires, dize-me. Foi ela, e vagou, e voltou. E disse-lhe sua companheira: minha amiga, o que ouviste por detrás da cortina? Disse-lhe: ouvi que todo aquele que semear na primeira revi'á (a primeira das três chuvas da estação, aproximadamente em meados de outubro), o granizo o castigará. Foi ele (o chassid, aplicando o que ouvira) e semeou na segunda revi'á. A colheita de todo o mundo foi castigada pelo granizo; a sua — não foi castigada.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
שתי רוחות – של שתי ילדות מתות: ונשמע – ונדע מה גזרו היום פורענות בעולם. שהעולם נדון בר"ה: הפרגוד – מחיצה המבדלת בין מקום השכינה: ברביעה ראשונה – יורה. שלש רביעיות הן בכירה שניה ושלישית ראשונה בי"ז במרחשון שניה בכ"ג שלישית בר"ח כסליו: ברד מלקה אותו – שעתיד ברד ליפול סמוך לרביעה ראשונה ומה שנזרע כבר הוקשה והברד שוברו והנזרע בשניה עדיין רך הוא ואינו נשבר בשביל הברד כענין שנאמר והפשתה והשעורה נכתה והחטה והכוסמת לא נכו (שמות ט׳:ל״ב):

"Duas almas" — de duas meninas falecidas. "E ouçamos" — e saibamos o que se decretou hoje de castigo ao mundo, pois o mundo é julgado em Rosh HaShaná. "A cortina" — a divisória que separa o lugar da Presença Divina (do resto). "Na primeira revi'á" — a chuva chamada yorê. Há três revi'ot: a mais cedo, a segunda e a terceira — a primeira em 17 de Marcheshvan, a segunda em 23 de Marcheshvan, a terceira em Rosh Chodesh Kislev. "O granizo o castigará" — pois há de cair granizo próximo à primeira revi'á, e o que já foi semeado antesbrotou e endureceu, e o granizo o quebra; mas o que é semeado na segunda revi'á ainda está tenro, e não se quebra por causa do granizo, tal como se diz: "e o linho e a cevada foram feridos, e o trigo e a espelta não foram feridos" (Shemot 9:32 — pois estes últimos ainda não haviam brotado).

Nota

A Guemará traz uma objeção contundente à conclusão anterior, através de uma longa e famosa narrativa. Um chassid, provocado por sua esposa após um ato de generosidade extrema, passa a noite num cemitério, onde escuta duas almas de meninas falecidas planejando descobrir os decretos do Ano Novo "por detrás da cortina" celestial. Uma delas, impedida de vagar por falta de mortalha adequada (sepultada apenas numa esteira de junco — sinal de pobreza extrema), envia a outra em seu lugar. Ao retornar, esta revela que o granizo castigará quem semear na primeira das três chuvas sazonais daquele ano. O chassid, aplicando essa informação obtida indiretamente do mundo dos mortos, semeia na segunda chuva e escapa ileso do granizo que atinge todas as demais colheitas — evidência aparente de que os mortos têm, sim, conhecimento de assuntos que dizem respeito aos vivos, contradizendo a conclusão anterior.

08No ano seguinte, o mesmo episódio se repete com o decreto do sidafon; o chassid escapa novamente
Bavli · 18b — Guemará (baraita, continuação)
לַשָּׁנָה הָאַחֶרֶת הָלַךְ וְלָן בְּבֵית הַקְּבָרוֹת, וְשָׁמַע אוֹתָן שְׁתֵּי רוּחוֹת שֶׁמְסַפְּרוֹת זוֹ עִם זוֹ. אָמְרָה חֲדָא לַחֲבֶרְתָּהּ: בּוֹאִי וְנָשׁוּט בָּעוֹלָם וְנִשְׁמַע מֵאֲחוֹרֵי הַפַּרְגּוֹד מַה פּוּרְעָנוּת בָּא לָעוֹלָם. אָמְרָה לָהּ: חֲבֶרְתִּי, לֹא כָּךְ אָמַרְתִּי לָךְ, אֵינִי יְכוֹלָה שֶׁאֲנִי קְבוּרָה בְּמַחְצֶלֶת שֶׁל קָנִים?! אֶלָּא לְכִי אַתְּ, וּמַה שֶּׁאַתְּ שׁוֹמַעַת בּוֹאִי וְאִמְרִי לִי. הָלְכָה וְשָׁטָה וּבָאָה. וְאָמְרָה לָהּ חֲבֶרְתָּהּ: חֲבֶרְתִּי, מַה שָּׁמַעְתְּ מֵאֲחוֹרֵי הַפַּרְגּוֹד? אָמְרָה לָהּ: שָׁמַעְתִּי שֶׁכָּל הַזּוֹרֵעַ בִּרְבִיעָה שְׁנִיָּה שִׁדָּפוֹן מַלְקֶה אוֹתוֹ. הָלַךְ וְזָרַע בִּרְבִיעָה רִאשׁוֹנָה, שֶׁל כָּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ נִשְׁדַּף וְשֶׁלּוֹ לֹא נִשְׁדַּף.

No ano seguinte, ele foi e passou a noite no cemitério, e ouviu aquelas mesmas duas almas que conversavam uma com a outra. Disse uma à sua companheira: vem, e vamos vagar pelo mundo, e ouçamos por detrás da cortina que castigo virá ao mundo. Disse-lhe: minha amiga, não foi isso que já te disse, que não posso, pois estou sepultada numa esteira de junco?! Mas vai tu, e o que ouvires, vem e dize-me. Foi ela, e vagou, e voltou. E disse-lhe sua companheira: minha amiga, o que ouviste por detrás da cortina? Disse-lhe: ouvi que todo aquele que semear na segunda revi'á, o sidafon (vento seco que resseca a plantação) o castigará. Foi ele e semeou na primeira revi'á. A colheita de todo o mundo foi ressecada pelo sidafon, e a sua não foi ressecada.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
שדפון – מלקה הרך ואינו משדף הקשה:

"Sidafon" — castiga o que ainda está tenro, e não resseca o que endureceu.

Nota

O padrão se repete no ano seguinte, com uma inversão simétrica: agora o decreto revelado é o de sidafon (ressecamento pelo vento), que atinge a plantação ainda tenra da segunda chuva, mas não a que já endureceu na primeira. O chassid, tendo aprendido a decodificar essas informações, inverte sua estratégia de plantio e mais uma vez escapa ileso, enquanto o restante do mundo sofre a praga anunciada.

09A esposa pergunta a razão do sucesso repetido; ele conta tudo; pouco depois há uma briga entre ela e a mãe da menina falecida, que revela o segredo
Bavli · 18b — Guemará (baraita, continuação)
אָמְרָה לוֹ אִשְׁתּוֹ: מִפְּנֵי מָה אֶשְׁתָּקַד שֶׁל כָּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ לָקָה וְשֶׁלְּךָ לֹא לָקָה, וְעַכְשָׁיו שֶׁל כָּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ נִשְׁדַּף וְשֶׁלְּךָ לֹא נִשְׁדַּף? סָח לָהּ כָּל הַדְּבָרִים הַלָּלוּ. אָמְרוּ: לֹא הָיוּ יָמִים מוּעָטִים עַד שֶׁנָּפְלָה קְטָטָה בֵּין אִשְׁתּוֹ שֶׁל אוֹתוֹ חָסִיד וּבֵין אִמָּהּ שֶׁל אוֹתָהּ רִיבָה. אָמְרָה לָהּ: לְכִי וְאַרְאֵךְ בִּתֵּךְ שֶׁהִיא קְבוּרָה בְּמַחְצֶלֶת שֶׁל קָנִים.

Disse-lhe sua esposa: por que motivo, no ano passado, a colheita de todo o mundo foi castigada e a tua não foi castigada, e agora a colheita de todo o mundo foi ressecada e a tua não foi ressecada? Ele lhe contou todas essas coisas. Contam: não se passaram poucos dias até que caiu uma discórdia entre a esposa daquele chassid e a mãe daquela jovem (a menina falecida, cuja alma fora ouvida no cemitério). Disse-lhe a esposa do chassid, na discussão: vem, e mostrar-te-ei tua filha, que está sepultada numa esteira de junco (revelando publicamente, por vingança, o segredo que aprendera do marido).

Nota

A narrativa introduz um elemento de tensão dramática e ironia moral: a mesma esposa que provocara o chassid por sua generosidade agora se torna, ironicamente, a guardiã do segredo obtido no cemitério. Mas, num momento de raiva contra a mãe da menina falecida, ela usa essa informação sensível e íntima — o fato de que a menina fora sepultada pobremente, numa simples esteira de junco — como arma numa briga, revelando publicamente algo que deveria ter permanecido velado. Esse ato de indiscrição prepara a reviravolta final da história.

10No terceiro ano, a alma revela que os assuntos entre elas já são conhecidos entre os vivos, provando que os mortos sabem
Bavli · 18b — Guemará (baraita, conclusão)
לַשָּׁנָה הָאַחֶרֶת הָלַךְ וְלָן בְּבֵית הַקְּבָרוֹת וְשָׁמַע אוֹתָן רוּחוֹת שֶׁמְסַפְּרוֹת זוֹ עִם זוֹ. אָמְרָה לָהּ: חֲבֶרְתִּי, בּוֹאִי וְנָשׁוּט בָּעוֹלָם וְנִשְׁמַע מֵאֲחוֹרֵי הַפַּרְגּוֹד מַה פּוּרְעָנוּת בָּא לָעוֹלָם. אָמְרָה לָהּ: חֲבֶרְתִּי, הֲנִיחִינִי, דְּבָרִים שֶׁבֵּינִי לְבֵינֵךְ כְּבָר נִשְׁמְעוּ בֵּין הַחַיִּים. אַלְמָא יָדְעִי.

No ano seguinte (o terceiro), ele foi e passou a noite no cemitério, e ouviu aquelas mesmas almas que conversavam uma com a outra. Disse-lhe uma: minha amiga, vem, e vamos vagar pelo mundo, e ouçamos por detrás da cortina que castigo virá ao mundo. Disse-lhe a outra: minha amiga, deixa-me em paz; as coisas que se passaram entre mim e ti já foram ouvidas entre os vivos (e não quero mais correr esse risco de exposição). Conclui-se, portanto, que eles sabem sim, dos assuntos dos vivos — contradizendo a conclusão anterior de que os mortos não sabem da dor alheia.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
אלמא ידעי – דברים האמורים בין החיים:

"Conclui-se, portanto, que eles sabem" — as coisas que se disseram entre os vivos.

Nota

O desfecho da história completa a prova contra a conclusão anterior. No terceiro ano, a alma que fora exposta recusa-se a repetir a aventura, revelando que sabe — de algum modo — que o segredo de sua pobreza fora divulgado entre os vivos, na briga entre as duas mulheres. Este é o ponto central da baraita: os mortos evidentemente têm conhecimento de acontecimentos entre os vivos, mesmo os mais íntimos, contradizendo diretamente a conclusão de que "da dor alheia não sabem".

11Refutação: talvez outra pessoa tenha morrido depois e lhes tenha contado
Bavli · 18b — Guemará
דִּילְמָא אִינִישׁ אַחֲרִינָא שָׁכֵיב, וְאָזֵיל וְאָמַר לְהוּ.

Rejeita-se a prova: talvez outra pessoa tenha morrido nesse ínterim, e tenha ido ao mundo dos mortos e lhes tenha contado o que ouvira dos vivos antes de morrer — sem que isso prove que os mortos, por si mesmos, tenham qualquer conhecimento direto do que se passa entre os vivos.

Nota

A Guemará rejeita a prova da baraita com uma explicação alternativa: a informação sobre a briga não precisa ter chegado às almas por conhecimento direto e contínuo do mundo dos vivos, mas pode ter sido trazida por uma terceira pessoa, falecida posteriormente, que teria testemunhado a briga em vida e a relatado ao chegar ao mundo dos mortos. Essa explicação preserva a tese de que os mortos, por si sós, não têm acesso contínuo aos assuntos dos vivos.

Zeiri e o pai de Shmuel: dinheiro de órfãos · זְעֵירִי וַאֲבוּהּ דִּשְׁמוּאֵל

12A história de Zeiri: depositou dinheiro com sua hospedeira; ela morreu; ele a segue ao "pátio da morte" e ela revela onde está o dinheiro, além de um pedido pessoal
Bavli · 18b — Guemará
תָּא שְׁמַע: דִּזְעֵירִי הֲוָה מַפְקֵיד זוּזֵי גַּבֵּי אוּשְׁפִּיזְכָתֵיהּ. עַד דְּאָתֵי וְאָזֵיל לְבֵי רַב, שְׁכִיבָה. אֲזַל בָּתְרַהּ לַחֲצַר מָוֶת, אֲמַר לַהּ: זוּזֵי הֵיכָא? אֲמַרָה לֵיהּ: זִיל שַׁקְלִינְהוּ מִתּוּתֵי צִנּוֹרָא דְּדָשָׁא בְּדוּךְ פְּלָן, וְאֵימָא לַהּ לְאִימָּא, תְּשַׁדַּר לִי מַסְרְקַאי וְגוּבְתַּאי דְּכוּחְלָא בַּהֲדֵי פְּלָנִיתָא דְּאָתְיָא לִמְחַר. אַלְמָא יָדְעִי!

Traz-se outra prova: Zeiri costumava depositar seu dinheiro junto à sua hospedeira (a dona da casa onde se hospedava). Certa vez, enquanto ele foi e veio da casa de estudo de seu mestre, ela faleceu. Ele foi atrás dela ao chamado "pátio da morte" (um modo de se referir ao local ou estado dos mortos). Disse-lhe: o dinheiro, onde está? Disse-lhe ela: vai, toma-o debaixo da dobradiça da porta, em tal lugar, e dize à minha mãe que me envie meu pente e meu tubinho de kohl (cosmético para os olhos) por intermédio de fulana, que virá amanhã (ao mundo dos mortos, ou seja, que está próxima de falecer). Conclui-se, portanto, que eles sabem!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
לחצר מות – לבית הקברות: בצנורא דדשא – בחור מפתן הבית שהדלת סובב אותו: מסרקאי – מסרק שלי: גובתא – קנה ובשביל שמתה ילדה אמרה כן לעגמת נפש: בהדי פלניתא דאתיא למחר – לקבורה: אלמא ידעי – מה שעושין שידעה זו שזו גוססת ונטויה למות:

"Ao pátio da morte" — ao cemitério. "Debaixo da dobradiça da porta" — no orifício do umbral da casa ao redor do qual a porta gira. "Meu pente" — meu pente. "Tubinho" — um caniço oco usado como recipiente, e por ter morrido ainda jovem, ela disse isso por angústia da alma (saudade de seus objetos pessoais, típica de quem morreu prematuramente). "Por intermédio de fulana, que vem amanhã" — para o sepultamento. "Conclui-se, portanto, que eles sabem" — o que fazem os vivos, já que ela sabia que esta outra mulher estava agonizando e prestes a morrer.

Nota

Uma nova prova é trazida, desta vez de um episódio envolvendo o amora Zeiri. Tendo confiado seu dinheiro à mulher em cuja casa se hospedava, ele descobre, ao retornar de um período de estudo, que ela morrera. Sem hesitar, ele vai até o cemitério e pergunta diretamente onde está seu dinheiro — e ela responde com precisão, indicando o esconderijo exato, além de fazer um pedido pessoal e comovente (seus objetos de higiene e beleza), e ainda revelando conhecimento prévio de que outra mulher específica morreria no dia seguinte. Esse conhecimento sobre um evento futuro entre os vivos pareceria provar, de modo ainda mais forte, que os mortos têm acesso a informações do mundo dos vivos.

13Refutação: talvez seja Dumá, o anjo encarregado dos mortos, quem anuncia antecipadamente as chegadas
Bavli · 18b — Guemará
דִּלְמָא דּוּמָה קָדֵים וּמַכְרֵיז לְהוּ.

Rejeita-se também esta prova: talvez Dumá (o anjo encarregado sobre as almas dos mortos) se antecipe e anuncie-lhes quem está prestes a chegarsem que isso prove qualquer conhecimento direto por parte dos mortos sobre os assuntos dos vivos em geral.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
דלמא דומה – מלאך שהוא ממונה על המתים קדים ומכריז להו עכשיו יבא פלוני אבל שאר דברי החיים אינם יודעים:

"Talvez Dumá" — o anjo que está encarregado sobre os mortos se antecipe e anuncie-lhes: agora virá fulano; mas o restante dos assuntos dos vivos, eles não sabem.

Nota

Assim como na refutação anterior, a Guemará encontra uma explicação alternativa que preserva a tese de que os mortos não têm conhecimento próprio e contínuo dos assuntos dos vivos. O conhecimento antecipado da mulher sobre quem chegaria "amanhã" ao mundo dos mortos não decorreria de uma percepção geral do mundo dos vivos, mas de um anúncio específico feito por Dumá, o anjo responsável pelos mortos, que informa antecipadamente as almas sobre as chegadas iminentes — um mecanismo limitado e específico, que não implica conhecimento amplo dos assuntos cotidianos dos vivos.

14A história do pai de Shmuel: guardava dinheiro de órfãos; Shmuel, chamado de "devorador do dinheiro de órfãos", vai buscá-lo no pátio da morte e encontra Levi sentado do lado de fora da academia celestial
Bavli · 18b — Guemará
תָּא שְׁמַע: דַּאֲבוּהּ דִּשְׁמוּאֵל הֲווֹ קָא מַפְקְדִי גַּבֵּיהּ זוּזֵי דְיַתְמֵי. כִּי נָח נַפְשֵׁיהּ לָא הֲוָה שְׁמוּאֵל גַּבֵּיהּ. הֲווֹ קָא קָרוּ לֵיהּ: ״בַּר אָכֵיל זוּזֵי דְיַתְמֵי״. אֲזַל אַבָּתְרֵיהּ לַחֲצַר מָוֶת. אֲמַר לְהוּ: בָּעֵינָא אַבָּא! אֲמַרוּ לֵיהּ: אַבָּא טוּבָא אִיכָּא הָכָא. אֲמַר לְהוּ: בָּעֵינָא אַבָּא בַּר אַבָּא. אֲמַרוּ לֵיהּ: אַבָּא בַּר אַבָּא נָמֵי טוּבָא אִיכָּא הָכָא. אֲמַר לְהוּ: בָּעֵינָא אַבָּא בַּר אַבָּא אֲבוּהּ דִּשְׁמוּאֵל הֵיכָא? אֲמַרוּ לֵיהּ סְלֵיק לִמְתִיבְתָּא דִּרְקִיעָא. אַדְּהָכִי חַזְיֵיהּ לְלֵוִי דְּיָתֵיב אַבָּרַאי. אֲמַר לֵיהּ: אַמַּאי יָתְבַתְּ אַבָּרַאי? מַאי טַעְמָא לָא סָלְקַתְּ? אֲמַר לֵיהּ, דְאָמְרִי לִי: כָּל כִּי הָנָךְ שְׁנֵי דְּלָא סְלֵיקְתְּ לִמְתִיבְתָּא דְּרַבִּי אַפָּס וְאַחְלֵישְׁתֵּיהּ לְדַעְתֵּיהּ, לָא מְעַיְּילִינַן לָךְ לִמְתִיבְתָּא דִרְקִיעָא.

Traz-se ainda outra prova: o pai de Shmuel costumavam depositar junto a ele diversas pessoas dinheiro de órfãos. Quando ele faleceu, Shmuel não estava junto a ele (no momento da morte, e por isso não sabia onde o dinheiro fora guardado). As pessoas passaram a chamá-lo: "filho de quem devora o dinheiro de órfãos" (suspeitando que Shmuel se apropriara indevidamente do dinheiro). Foi Shmuel atrás dele ao pátio da morte. Disse-lhes: quero meu pai! Disseram-lhe: pai muitos aqui. Disse-lhes: quero meu pai, filho de meu pai. Disseram-lhe: "pai, filho de pai" também há muitos aqui. Disse-lhes: quero meu pai, filho de meu pai — o pai de Shmuel, onde está? Disseram-lhe: subiu à academia celestial. Enquanto isso, Shmuel viu Levi (seu colega, já falecido) sentado do lado de fora da academia. Disse-lhe: por que estás sentado do lado de fora? Qual o motivo de não teres subido à academia celestial? Disse-lhe: porque me dizem: todos aqueles anos em que não subiste à academia de Rabi Apas e enfraqueceste seu ânimo (por não frequentar suas aulas, causando-lhe desgosto), não te deixaremos entrar na academia celestial.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
בעינא אבא – מבקש אני את אבא כך היה שמו: א"ל – המתים נגלו לו כאילו הם חוץ מקבריהם ויושבים בעגולה: חזייה – שמואל ללוי חברו שהיה יושב חוץ לישיבה של שאר מתים: כל כי הנך שני – מספר השנים שלא נכנסת בישיבתו של רבי אפס במס' כתובות בפרק הנושא את האשה (כתובות דף קג:):

"Quero meu pai" — busco a meu pai, cujo nome próprio era, de fato, "Aba" (Abba, nome pessoal do pai de Shmuel). "Disseram-lhe" — os mortos se revelaram a ele como que estando fora de seus túmulos, sentados em círculo. "Viu ele" — Shmuel viu a Levi, seu colega, que estava sentado fora da assembleia dos demais mortos. "Todos aqueles anos" — refere-se ao número de anos em que não entraste na academia de Rabi Apasepisódio narrado no tratado Ketubot, no capítulo "Aquele que traz a esposa" (Ketubot 103b).

Nota

A terceira e mais elaborada narrativa desta série trata do próprio pai do amora Shmuel, também chamado Abba, que servia de depositário confiável para o dinheiro de órfãos. Tendo falecido sem que Shmuel estivesse presente para saber o paradeiro do dinheiro, o filho passou a ser injustamente acusado de tê-lo desviado. Determinado a limpar seu nome, Shmuel vai ao "pátio da morte" e, através de um diálogo quase burocrático (pois há muitos com o mesmo nome comum "Abba"), localiza seu pai, que subira à prestigiosa "academia celestial". No caminho, encontra Levi, sentado do lado de fora dessa academia, e descobre que ele fora impedido de entrar como punição por, em vida, ter causado desgosto a seu mestre Rabi Apas ao não frequentar suas aulas — um episódio também mencionado no tratado Ketubot.

15O pai de Shmuel aparece; explica por que chorava (por Shmuel vir se juntar cedo aos mortos) e por que ria (por sua própria estima no Céu); e faz entrar Levi na academia
Bavli · 18b — Guemará (continuação)
אַדְּהָכִי וְהָכִי אֲתָא אֲבוּהּ, חַזְיֵיהּ דַּהֲוָה קָא בָכֵי וְאַחֵיךְ. אֲמַר לֵיהּ: מַאי טַעְמָא קָא בָכֵית? אֲמַר לֵיהּ: דְּלַעֲגָל קָא אָתֵית. מַאי טַעְמָא אַחֵיכְתְּ? דַּחֲשִׁיבַתְּ בְּהַאי עָלְמָא טוּבָא. אֲמַר לֵיהּ: אִי חֲשִׁיבְנָא — נְעַיְּילוּהּ לְלֵוִי. וְעַיְּילוּהוּ לְלֵוִי.

Enquanto isso se passava, chegou seu pai de Shmuel. Shmuel viu que ele estava chorando e também rindo. Disse-lhe: qual o motivo de estares chorando? Disse-lhe: porque em breve virás (morrerás cedo, juntando-te ao mundo dos mortos). E qual o motivo de teres rido? Porque és estimado neste mundo (o mundo celestial, onde Shmuel é altamente respeitado). Disse-lhe Shmuel: se sou estimado, façam entrar também a Levi na academia celestial, como favor a mim. E fizeram entrar a Levi.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
חזייה – שמואל לאבוה דקא בכי וחייך: דלעגל אתית – במהרה תקבר:

"Viu ele" — Shmuel viu a seu pai, que estava chorando e rindo. "Porque em breve virás" — em pouco tempo serás sepultado (morrerás logo).

Nota

O encontro entre Shmuel e seu falecido pai combina um lampejo de profecia pessoal com um ato final de bondade. O pai chora ao perceber que seu filho, ainda jovem, morrerá em breve e se juntará ao mundo dos mortos, mas ri de alegria ao constatar o alto prestígio que Shmuel desfruta no mundo celestial. Aproveitando essa influência revelada, Shmuel intercede em favor de Levi, conseguindo, por sua própria estima, que este seja admitido na academia celestial da qual fora excluído — encerrando a subtrama de Levi com uma nota de redenção.

16O pai revela onde está o dinheiro dos órfãos, escondido de modo que perdas recaiam sobre a parte que pertence à própria família; refutação: talvez o caso de Shmuel seja excepcional
Bavli · 18b — Guemará (conclusão)
אֲמַר לֵיהּ: זוּזֵי דְיַתְמֵי הֵיכָא? אֲמַר לֵיהּ: זִיל שַׁקְלִינְהוּ בְּאַמְתָא דְרִחְיָא. עִילָּאֵי וְתַתָּאֵי — דִּידַן, וּמִיצְעֵי דְּיַתְמֵי. אֲמַר לֵיהּ: מַאי טַעְמָא עֲבַדְתְּ הָכִי? אֲמַר לֵיהּ: אִי גָּנְבִי גַּנָּבֵי — מִגַּנְבוּ מִדִּידַן. אִי אָכְלָה אַרְעָא — אָכְלָה מִדִּידַן. אַלְמָא דְּיָדְעִי! — דִּילְמָא שָׁאנֵי שְׁמוּאֵל, כֵּיוָן דַּחֲשִׁיב קָדְמִי וּמַכְרְזִי: פַּנּוּ מָקוֹם.

Disse-lhe Shmuel a seu pai: o dinheiro dos órfãos, onde está? Disse-lhe: vai, toma-o no eixo do moinho (escondido na estrutura da mó de moer). As moedas de cima e as de baixo são nossas, e as do meio são dos órfãos (dispostas nessa ordem propositalmente). Disse-lhe: qual o motivo de teres feito assim? Disse-lhe: se ladrões roubarem, roubarão das nossas; se a terra as consumir (por umidade ou deterioração), consumirá das nossas (pois as moedas mais expostas, em cima e embaixo, são a parte da própria família, protegendo assim, ao centro, a parte pertencente aos órfãos). Conclui-se, portanto, que eles sabem! — Rejeita-se também esta prova: talvez o caso de Shmuel seja diferente, pois, sendo ele tão estimado, os anjos se antecipam diante dele e anunciam: abram espaço (dando-lhe tratamento excepcional, sem que isso prove conhecimento geral dos mortos sobre os vivos).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
באמתא דרחיא – כל בנין מושב הרחים קרוי אמת הרחיים: אלמא ידעי – מי חשוב בין החיים:

"No eixo do moinho" — toda a estrutura da base sobre a qual assenta o moinho é chamada de "amá (eixo) do moinho". "Conclui-se, portanto, que eles sabem" — quem é estimado entre os vivos.

Nota

O pai de Shmuel revela o esconderijo do dinheiro dos órfãos com um detalhe que demonstra extraordinária previdência ética: as moedas foram dispostas de modo que qualquer risco de perda — por roubo ou deterioração — recaísse primeiro sobre a parte pertencente à própria família, protegendo ao máximo o patrimônio dos órfãos. A Guemará nota que esse conhecimento do pai sobre a situação de seu filho pareceria provar, mais uma vez, que os mortos sabem dos assuntos dos vivos; mas encontra ainda uma última via de escape para a tese contrária: talvez o caso de Shmuel seja excepcional, dado seu extraordinário prestígio no mundo celestial, que lhe garantiria tratamento e informação especiais, não extensíveis à generalidade dos mortos em relação aos vivos comuns.

A retratação de Rabi Yonatan · רַבִּי יוֹנָתָן הֲדַר בֵּיהּ

17Também Rabi Yonatan se retratou: os mortos conversam entre si, prova do versículo sobre a terra jurada aos patriarcas — "dize a eles" que o juramento já se cumpriu para seus filhos
Bavli · 18b — Guemará (encerramento do daf)
וְאַף רַבִּי יוֹנָתָן הֲדַר בֵּיהּ, דְּאָמַר רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי אָמַר רַבִּי יוֹנָתָן: מִנַּיִן לַמֵּתִים שֶׁמְסַפְּרִים זֶה עִם זֶה — שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר ה׳ אֵלָיו זֹאת הָאָרֶץ אֲשֶׁר נִשְׁבַּעְתִּי לְאַבְרָהָם לְיִצְחָק וּלְיַעֲקֹב לֵאמֹר״. מַאי ״לֵאמֹר״? — אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: לֵךְ אֱמוֹר לָהֶם לְאַבְרָהָם לְיִצְחָק וּלְיַעֲקֹב: שְׁבוּעָה שֶׁנִּשְׁבַּעְתִּי לָכֶם כְּבָר קִייַּמְתִּיהָ לִבְנֵיכֶם.

Depois de toda esta série de provas e refutações, conclui-se que também Rabi Yonatan se retratou de sua posição original em 18a, de que os mortos nada sabem, pois disse Rabi Shmuel bar Nachmani em nome de Rabi Yonatan: de onde se aprende que os mortos conversam uns com os outros? Do fato de que está dito: "e disse o Eterno a ele (a Moshé): esta é a terra que jurei a Avraham, a Yitschak e a Yaacov, dizendo" (Devarim 34:4). O que significa "dizendo"? Disse o Santo, Bendito Seja, a Moshé: vai, dize a eles — a Avraham, a Yitschak e a Yaacov (já falecidos): o juramento que jurei a vós já o cumpri para vossos filhos (concluindo-se que Moshé, ao morrer, deveria efetivamente transmitir essa mensagem aos patriarcas no mundo dos mortos — o que só faz sentido se os mortos são capazes de receber e compreender tal comunicação).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 18b
זאת הארץ – במיתת משה כתיב:

"Esta é a terra" — este versículo está escrito a respeito da morte de Moshé.

Nota

O daf se encerra com uma reviravolta editorial explícita: depois de toda a sequência de histórias e refutações — que, ao final, deixam em aberto se os mortos realmente sabem dos assuntos dos vivos —, a Guemará revela que o próprio Rabi Yonatan, autor da posição inicial de que "os mortos nada sabem" (citada por ele mesmo no episódio com Rabi Chiya em 18a), acabou por se retratar. A prova de sua nova posição vem do versículo em que D-us, no momento da morte de Moshé, ordena-lhe que "diga" aos patriarcas já falecidos que o juramento da terra fora cumprido para seus descendentes — instrução que só faz sentido pressupondo que os mortos podem, sim, receber comunicações e ter conhecimento do que se passa entre os vivos. Este ensinamento de Rabi Yonatan, ironicamente atribuído a ele mesmo em retratação de sua fala anterior, fecha o longo excurso sobre o que os mortos sabem.