A Mishná traz o caso de Rabán Gamliel, que se banhou na primeira noite após a morte de sua esposa; quando os discípulos lhe lembraram que ele próprio havia ensinado que o endoentado está proibido de se banhar, ele respondeu que não é como as demais pessoas, pois é de constituição frágil. A halachá parte dessa exceção para investigar a regra geral: quem é a fonte da proibição de banho durante os sete dias de luto — identificada como Rabi Natan —, e traz uma série de casos práticos levados a diferentes sábios (Rabi Ami, Rabi Yossé, Rabi Chama), revelando uma divergência de costume entre a Galileia, onde se proibia, e o Sul, onde era costume banhar-se após o funeral. Em seguida distingue-se o banho de prazer, sempre proibido, do banho por necessidade médica, sempre permitido — ilustrado pelo caso de Shmuel bar Aba, acometido de sarna — e discute-se a imersão fria, o lavar os pés de quem retorna cansado da estrada, e a permissão de usar sandálias na estrada tanto para o endoentado quanto para o excomungado e para quem jejua. A halachá fecha com o costume de saudar os endoentados em Shabat — ausente na Galileia, presente no Sul — e a história de Rabi Meir, que ensinou aos habitantes de Tsipori, ao saudar os endoentados em Shabat, que não há luto em Shabat.
Rabán Gamliel banhou-se na primeira noite em que sua esposa morreu. Disseram-lhe os seus discípulos: não nos ensinaste, nosso mestre, que o endoentado está proibido de se banhar? Disse-lhes: eu não sou como as demais pessoas, sou de constituição frágil (do grego "asténico" — e por isso, mesmo em luto, o banho lhe é uma necessidade de saúde, não um prazer).
Quem é o tanna (sábio que estabeleceu na Mishná ou baraita) que ensinou que o endoentado está proibido de se banhar durante todos os sete dias? Rabi Natan. A Rabi Ami aconteceu um caso (de luto), e perguntou a Rabi Chiya bar Aba, que lhe instruiu: durante todos os sete dias, conforme Rabi Natan. A Rabi Yossé aconteceu um caso, e enviou Rabi Aba bar Cohen a Rabi Acha; disse-lhe Rabi Aba bar Cohen: não foi assim que nos ensinaste, mestre, que a Rabi Ami aconteceu um caso, e perguntou a Reish Lakish, que lhe instruiu: conforme Rabi Natan, todos os sete dias? Disse-lhe Rabi Acha: talvez sejam dois casos diferentes — nós o dizemos em nome de Rabi Chiya bar Aba, e vós o dizeis em nome de Reish Lakish. E ainda mais, disto: a Rabi Chama, pai de Rabi Oshaiá, aconteceu um caso; perguntou aos rabanim, e eles proibiram.
Rabi Yossé perguntou: quais rabanim são esses que proibiram? Os rabanim daqui (da Galileia), ou os rabanim do Sul (da Judeia)? Se disseres os rabanim daqui, está bem. Mas se disseres os rabanim do Sul — haveria uma dificuldade, pois os grandes estavam diante dele (Rabi Chama), e ele haveria de perguntar aos pequenos? Se disseres os rabanim do Sul, note-se que uns permitem e outros proíbem, como se ensinou: no lugar onde costumavam banhar-se depois do féretro (do funeral), banham-se; e no Sul, banham-se. Disse Rabi Yossé bei Rabi Avun: quem permite esse banho (o costume de se banhar após o funeral) o equipara a comer e a beber (ou seja, trata-o como parte das necessidades básicas providas ao endoentado pelos outros, e não como banho de prazer proibido).
Isso que se disse (a proibição) é a respeito do banho de prazer; mas o banho que não é de prazer é permitido. Como naquele caso de Shmuel bar Aba, em quem surgiram feridas de sarna: vieram e perguntaram a Rabi Yassá: o que se diz sobre ele se banhar? Disse-lhes: se não se banhar, não morrerá ele? Se precisa disso, que se banhe mesmo no Nove de Av; se precisa disso, mesmo no Yom Kipur.
Rabi Yossé bei Rabi Chanina — viram-no imergindo-se. Se foi por causa de sua emissão (seminal, que exige imersão mesmo durante o luto), não sabiam; se foi para refrescar seu corpo — pois o banho em água fria não se considera banho (de prazer, e portanto seria permitido ao endoentado) — não sabiam.
Instruiu Rabi Aba conforme esta baraita (a seguir). Instruiu Rabi Acha, a respeito de quem vem da estrada e seus pés estão doloridos (entorpecidos de cansaço), que é permitido lavá-los com água.
Foi ensinado: o endoentado e o excomungado que estejam caminhando na estrada têm permissão de calçar a sandália (ainda que normalmente estejam proibidos de usar calçado de couro); quando chegarem à cidade, deverão descalçá-la. E o mesmo se aplica no Nove de Av, e o mesmo no jejum público.
Foi ensinado: no lugar onde costumavam saudar os endoentados em Shabat, saúdam-nos; e no Sul, saúdam-nos. Rabi Hoshaiá Rabá foi a certo lugar, e viu ali endoentados em Shabat, e saudou-os. Disse-lhes: eu não conheço o costume do vosso lugar; mas digo-vos: paz sobre vós, conforme o costume do nosso lugar. Rabi Yossé bei Rabi Chalafta louvava, diante dos habitantes de Tsipori, a Rabi Meir: homem grande, homem santo, homem recatado. Certa vez, Rabi Meir viu endoentados em Shabat e saudou-os. Disseram-lhe a Rabi Yossé: é esse de quem contas os louvores? Disse-lhes: o que ele fez? Disseram-lhe: viu endoentados em Shabat e saudou-os. Disse-lhes: quereis vós saber qual é a sua força? Ele veio para vos ensinar que não há luto em Shabat. Esta é a razão pela qual está escrito (Provérbios 10:22): "a bênção do Eterno é que enriquece" — esta é a bênção de Shabat; "e não lhe acrescenta tristeza" — esta é o luto, tal como se diz (2 Samuel 19:3): "o rei está entristecido por causa de seu filho".
Esta é a sétima halachá do Perek Bet do Talmud Yerushalmi, Massechet Berachot. Ela comenta a Mishná sobre Rabán Gamliel, que se banhou na primeira noite de luto por sua esposa apesar de ter ensinado que o endoentado está proibido de se banhar — justificando-se por sua constituição frágil. A sugya identifica Rabi Natan como a fonte dessa proibição, examina uma série de casos práticos que revelam divergência de costume entre a Galileia (onde se proibia) e o Sul (onde era costume banhar-se após o funeral, equiparado a comer e beber), distingue o banho de prazer, sempre proibido, do banho por necessidade médica, sempre permitido, e trata de casos limítrofes: a imersão por emissão seminal ou para refrescar o corpo, o lavar os pés de quem chega cansado da estrada, e a permissão de sandálias na estrada tanto para o endoentado quanto para o excomungado e para quem jejua. Fecha com o costume, também variável entre Galileia e Sul, de saudar os endoentados em Shabat, e a história de Rabi Meir em Tsipori, que ensinou por meio desse gesto que não há luto em Shabat — apoiado numa leitura de Provérbios 10:22. O tema desta halachá pertence, no Talmud Bavli, ao tratado de Moed Katan, ainda não traduzido nesta biblioteca; por isso não há, no momento, um link cruzado direto para um daf já publicado.