Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Guimel · Halachá 4
בְּרָכוֹת

O baal keri: pensar as bênçãos em silêncio, e a longa história da imersão instituída pelos sábios

Perek Guimel, Halachá 4 (completa)

A Mishná trata do baal keri — o homem que teve emissão seminal —, que pensa as bênçãos do Shemá em seu coração sem pronunciá-las, mas, quanto ao Birkat Hamazon, abençoa depois de comer, ainda que não abençoe antes; e traz a opinião de Rabi Yehudá, que o obriga a abençoar antes e depois em ambos os casos. A halachá abre perguntando o que significa "pensar as bênçãos", e estabelece que a Mishná trata do caso em que não há água disponível, seguindo Rabi Meir. Segue-se a baraita sobre o doente com keri e o puro que recebem água derramada sobre o corpo, e a distinção entre purificar-se a si mesmo e desobrigar o público. A halachá então investiga a definição de keri, a relação entre a impureza seminal e o Yom Kipur, e desenvolve uma longa sequência de episódios sobre a origem e o propósito da imersão instituída pelos sábios — desde a preocupação de que os judeus se tornassem "como galos", passando pela tentativa de abolir a imersão por causa das mulheres da Galileia, o episódio do vigia de vinhas, o episódio da escrava de Rabi, até o ensinamento de que a imersão foi instituída por causa do estudo da Torá. A halachá trata ainda da permissão ou proibição de pensar em assuntos de Torá no banheiro, do momento em que a proximidade a uma mulher foi exigida antes da entrega da Torá no Sinai, da baraita sobre zavim, zavot, menstruadas e parturientes que podem ler e estudar Torá enquanto o baal keri está proibido, dos episódios de Rabi Yossei bar Chalafta e Rabi Yossei ben Yossei sobre o perigo de se lançar à água à noite, e fecha com o ensinamento de Rabi Yanai sobre os que são leves e os que são rigorosos quanto a essa imersão.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

בַּעַל קֶרִי מְהַרְהֵר בְּלִבּוֹ וְאֵינוֹ מְבָרֵךְ לֹא לְפָנֶיהָ וְלֹא לְאַחֲרֶיהָ וְעַל הַמָּזוֹן מְבָרֵךְ לְאַחֲרֶיהָ וְאֵינוֹ מְבָרֵךְ לְפָנֶיהָ. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מְבָרֵךְ לִפְנֵיהֶן וּלְאַחֲרֵיהֶן.

O baal keri (homem que teve emissão seminal) pensa as bênçãos em seu coração, e não as pronuncia nem antes nem depois (da leitura do Shemá); e quanto à refeição, abençoa depois dela, mas não abençoa antes. Rabi Yehudá diz: ele abençoa antes e depois, tanto no Shemá quanto na refeição.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01O que significa "pensar as bênçãos"
Yerushalmi · Berachot 3:4
מַהוּ מְהַרהֵר בְּרָכוֹת.

O que significa "pensa as bênçãos"? (A halachá abre com esta pergunta antes de esclarecer o sentido exato da expressão da Mishná.)

02A Mishná trata do lugar sem água, segundo Rabi Meir
Yerushalmi · Berachot 3:4
מַתְנִיתָא בְּמָקוֹם שֶׁאֵין מַיִם וּכְרִבִּי מֵאִיר דְּתַנִּי בַּעַל קֶרִי שֶׁאֵין לוֹ מַיִם לִטְבּוֹל הֲרֵי זֶה קוֹרֵא אֶת שְׁמַע וְאֵינוֹ מַשְׁמִיעַ לְאָזְנוֹ וְאֵינוֹ מְבָרֵךְ לֹא לְפָנֶיהָ וְלֹא לְאַחֲרֶיהָ דִּבְרֵי רִבִּי מֵאִיר וַחֲכָמִים אוֹמְרִין קוֹרֵא אֶת שְׁמַע וּמַשְׁמִיעַ לְאָזְנָיו וּמְבָרֵךְ לְפָנֶיהָ וּלְאַחֲרֶיהָ.

A Mishná trata de um lugar onde não há água, e segue Rabi Meir, pois foi ensinado (na Tosefta): o baal keri que não tem água para imergir-se lê o Shemá, mas não o faz de modo que seus próprios ouvidos o escutem, e não abençoa nem antes nem depois — palavras de Rabi Meir. Mas os sábios dizem: ele lê o Shemá e o faz de modo que seus próprios ouvidos o escutem, e abençoa antes e depois.

03O doente com keri e o puro sobre quem caiu água derramada; purificar-se a si mesmo e desobrigar o público
Yerushalmi · Berachot 3:4
תַּנִּי בַּעַל קֶרִי חוֹלֶה שֶׁנָּפְלוּ עָלָיו תִּשְׁעָת קַבִּין מַיִם וְטָהוֹר שֶׁנָּפְלוּ עַל רֹאשׁוֹ וְעַל רוּבּוֹ שְׁלֹשָׁה לוֹגִין מַיִם שְׁאוּבִים טִהֵר לְעַצְמוֹ אֲבָל אֵינוֹ מוֹצִיא אֶת הָרַבִּים יְדֵי חוֹבָתָן עַד שֶׁיָּבֹא בְּאַרְבָּעִים סְאָה. רִבִּי יוּדָה אוֹמֵר אַרְבָּעִים סְאָה מִכָּל מָקוֹם.

Foi ensinado: o baal keri doente sobre quem caíram nove kabin de água, e o puro sobre cuja cabeça e sobre cuja maior parte do corpo caíram três login de água extraída (de um recipiente, e não de uma fonte natural), purificou-se a si mesmo, mas não desobriga o público de seu dever até que venha com uma imersão de quarenta seá. Rabi Yehudá diz: quarenta seá em todo caso (ou seja, mesmo o doente precisa, em última análise, dessa mesma quantidade, e não apenas da quantidade reduzida).

04A definição de keri; sua relação com o Yom Kipur e o episódio de Rabi Yossei ben Chalafta
Yerushalmi · Berachot 3:4
רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא רִבִּי יָסָא בְשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי אֵין קֶרִי אֶלָּא מִתַּשְׁמִישׁ הַמִּיטָּה. רַב חוּנָא אָמַר וַאֲפִילוּ רָאָה אֶת עַצְמוֹ נֵאוֹת בַּחֲלוֹם. הֲווּן בָּעִיין מֵימַר וּבִלְבַד מֵאִשָּׁה. רִבִּי יוֹנָה וְרִבִּי יוֹסֵי תְּרַוֵּיהוֹן אָמְרִין וַאֲפִילוּ מִדָּבָר אַחֵר. תַּמָּן תַּנִּינָן יוֹם הַכִּיפּוּרִים אָסוּר בַּאֲכִילָה וּשְׁתִיָּיה וּבִרְחִיצָה וְסִיכָה וּבִנְעִילַת הַסַּנְדָּל וּבְתַשְׁמִישׁ הַמִּיטָּה. וְתַנִּי עֲלָהּ בַּעֲלֵי קֶרִיִּין טוֹבְלִין כְּדַרְכָּן בְּצִינְעָה בְיוֹם הַכִּיפּוּרִים. וְלֵית הֲדָא פְלִיגָא עַל רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי דְּרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי אָמַר אֵין קֶרִי אֶלָּא מִתַּשְׁמִישׁ הַמִּיטָּה. פְּתַר לָהּ בְּשֶׁשִּׁימֵּשׁ מִיטָּתוֹ מִבְעוֹד יוֹם וְשָׁכַח וְלֹא טָבַל. וְהָתַנִּי מַעֲשֶׂה בְּרִבִּי יוֹסֵה בֶּן חֲלַפְתָּא שֶׁרָאוּ אוֹתוֹ טוֹבֵל בְּצִינְעָה בְיוֹם הַכִּיפּוּרִים. אִית לָךְ מֵימַר עַל אוֹתוֹ הַגּוּף הַקָּדוֹשׁ בּשׁוֹכֵחַ.

Rabi Yaacov bar Achá e Rabi Yassa, em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: o keri só ocorre por relação conjugal. Rav Huná disse: mesmo se ele apenas se viu tendo prazer em sonho. Quiseram dizer então: e desde que o sonho fosse com uma mulher. Rabi Yoná e Rabi Yossei, ambos, disseram: mesmo se o sonho fosse com outra coisa. Ali (na Mishná de Yomá) formulamos: no Yom Kipur é proibido comer, beber, lavar-se, ungir-se, calçar sandálias e ter relação conjugal. E foi ensinado a respeito disso: os que têm keri imergem-se de seu modo habitual, discretamente, no Yom Kipur. E isto não contradiz Rabi Yehoshua ben Levi, pois Rabi Yehoshua ben Levi disse que o keri só ocorre por relação conjugal (e no Yom Kipur a relação conjugal é proibida)? Resolve-se isso, explicando que se trata de quem teve relação conjugal antes de começar o dia (véspera do Yom Kipur) e se esqueceu e não imergiu a tempo. Mas não foi ensinado: aconteceu com Rabi Yossei ben Chalafta que o viram imergindo-se discretamente no Yom Kipur — o que sugeriria que ele teve keri no próprio dia? Podes dizer, a respeito daquele corpo sagrado, que ele se esqueceu (a resposta é irônica: é inconcebível que uma figura tão santa tenha simplesmente se esquecido de se purificar antes do jejum, portanto seu caso confirma que o keri pode mesmo ocorrer por outra via que não a relação conjugal).

05A razão da imersão: para que Israel não seja como os galos
Yerushalmi · Berachot 3:4
אָמַר רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָבוּן כָּל עַצְמָן לֹא הִתְקִינוּ אֶת הַטְּבִילָה הַזֹּאת אֶלָּא שֶׁלֹֹּא יְהוּ יִשְׂרָאֵל כְּתַרְנְגוֹלִין הַלָּלוּ מְשַׁמֵּשׁ מִיטָּתוֹ וְעוֹלֶה וְיוֹרֵד וְאוֹכֵל.

Disse Rabi Yaacov bar Avun: eles não instituíram essa imersão senão para que Israel não fosse como estes galos, que têm relação conjugal, sobem, descem e logo em seguida comem (a imersão dá ao ato conjugal uma pausa e um caráter mais elevado, distinguindo o homem do animal irracional).

06Rabi Chanina e os que se atrasam ao amanhecer
Yerushalmi · Berachot 3:4
רִבִּי חֲנִינָא הֲוָה עָבַר עַל תַּרְעֵי דֵימוֹסִין בִּקְרִיצְתָּא וַאֲמַר מַה טוֹבְלֵי שַׁחֲרִית עוֹשִׂין פֹּה יֵיזְלוּן וִיתַנּוּן. בְּהַהִיא דְצַפְרָא הֲוָה אֲמַר מַאן דְּאִית לֵיהּ עֲבִידָא יֵיזִיל וַעֲבַד.

Rabi Chanina costumava passar pelos portões dos banhos públicos antes do amanhecer e dizia: o que fazem aqui os que ainda precisam imergir-se de manhã? Que vão e estudem (a Mishná)! Já naquela hora da manhã seguinte, quando chegava a hora da oração, dizia: quem tem essa necessidade, que vá e a cumpra (ou seja, antes do amanhecer há tempo para estudar em vez de correr ao banho; mas, chegada a hora da oração, quem precisa imergir-se deve fazê-lo sem demora).

07Pensar em assuntos de Torá no banheiro
Yerushalmi · Berachot 3:4
מַהוּ לְהַרְהֵר בְּבֵית הַכִּסֵּא. חִזְקִיָּה אָמַר מוּתָּר. רִבִּי יָסָא אָמַר אָסוּר. אָמַר רִבִּי זְעוּרָא כָּל סֶבֶר קָשֶׁי דַּהֲוָה לִי תַּמָּן סְבֵירְתֵיהּ. אָמַר רִבִּי אֶלְעָזָר בַּר שִׁמְעוֹן כָּל הַהוּא סְבָרָא קַשְׁיָא דִטְבוּל יוֹם תַּמָּן סְבֵירְתֵיהּ.

É permitido pensar em assuntos de Torá no banheiro? Chizkiá disse: é permitido. Rabi Yassa disse: é proibido. Disse Rabi Zeurá: todo raciocínio difícil que eu tinha, ali (no banheiro) eu o compreendia. Disse Rabi Elazar bar Shimon: todo aquele raciocínio difícil sobre o tevul yom (quem imergiu mas ainda aguarda o pôr do sol para sua purificação completa), ali eu o compreendi.

08A tentativa de abolir a imersão por causa das mulheres da Galileia; o episódio do vigia de vinhas e da escrava de Rabi
Yerushalmi · Berachot 3:4
רִבִּי אָחָא בְשֵׁם תַּנְחוּם בֵּי רִבִּי חִיָיא בְּיוֹמוֹי רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי בִּיקְשׁוּ לַעֲקוֹר אֶת הַטְּבִילָה הַזֹּאת מִפְּנֵי נַשֵּׁי הַגָּלִיל שֶׁהָיוּ נֶעֱקָרוֹת מִפְּנֵי הַצִּינָּה. אָמַר לָהֶן רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי דָּבָר שֶׁהוּא גוֹדֵר אֶת יִשְׂרָאֵל מִן הָעֲבֵירָה אַתֶּם מְבַקְּשִׁים לַעֲקוֹר אוֹתוֹ. מַהוּ גוֹדֵר יִשְׂרָאֵל מִן הָעֲבֵירָה. מַעֲשֶׂה בְשׁוֹמֵר כְּרָמִים אֶחָד שֶׁבָּא לְהִיזָּקֵק עִם אֵשֶׁת אִישׁ. עַד שֶׁהֵן מְתַקְּינִין לָהֶן מָקוֹם אֵיכַן הֵן טוֹבְלִין עָבְרוּ הָעוֹבְרִין וְהַשָּׁבִין וּבָטְלָה הָעֲבֵירָה. מַעֲשֶׂה בְּאֶחָד שֶׁבָּא לְהִיזָּקֵק עִם שִׁפְחָתוֹ שֶׁל רִבִּי. אָמְרָה לוֹ אִם אֵין גְּבִירְתִּי טוֹבֶלֶת אֵינִי טוֹבֶלֶת. אָמַר לָהּ וְלֹא כִבְהֵמָה אַתְּ. אָמְרָה לוֹ וְלֹא שָׁמַעְתָּ בְּבָא עַל הַבְּהֵמָה שֶׁהוּא נִסְקַּל שֶׁנֶּאֱמַר כָּל שׁוֹכֵב עִם בְּהֵמָה מוֹת יוּמָת.

Rabi Achá, em nome de Tanchum bei Rabi Chiyá: nos dias de Rabi Yehoshua ben Levi, quiseram abolir essa imersão por causa das mulheres da Galileia, que dela se afastavam por causa do frio. Rabi Yehoshua ben Levi disse-lhes: uma coisa que cerca Israel e o afasta da transgressão, vós quereis abolir? O que cerca Israel e o afasta da transgressão? Aconteceu com um vigia de vinhas que veio ter relação ilícita com a mulher de um homem (casada). Enquanto preparavam para si um lugar onde pudessem imergir-se antes do ato, como era seu costume, passaram os que iam e os que vinham, e a transgressão foi anulada. Aconteceu com um que veio ter relação ilícita com a escrava de Rabi. Ela lhe disse: se minha senhora não se imerge antes disso, eu não me imergirei. Ele lhe disse: acaso não és como um animal (que não precisa dessa purificação)? Ela lhe disse: e não ouviste que aquele que se deita com um animal é apedrejado, como está dito: "todo aquele que se deitar com um animal certamente morrerá" (Êxodo 22:18 — se até o animal é tratado com tal gravidade na lei, ela recusava ser tratada como um).

09A imersão foi instituída por causa do estudo
Yerushalmi · Berachot 3:4
אָמַר רִבִּי חִיָיא בַּר וָוה כָּל עַצְמָן לֹא הִתְקִינוּ אֶת הַטְּבִילָה הַזֹּאת אֶלָּא מִפְּנֵי תַלְמוּד. שֶׁאִם אַתָּה אוֹמֵר לוֹ שֶׁהוּא מוּתָּר אַף הוּא אוֹמֵר אַף אֲנִי אֵלֵךְ וְאֶעֱשֵׂה צָרְכִי וּבָא וְשׁוֹנֶה כָל צוֹרְכוֹ וּמִתּוֹךְ שֶׁאַתָּה אוֹמֵר אָסוּר הוּא בָא וְשׁוֹנֶה כָל צוֹרְכוֹ. תַּמָּן אָמְרִין אֲפִילוּ לִשְׁמוֹעַ דִּבְרֵי תוֹרָה אָסוּר.

Disse Rabi Chiyá bar Vavá: eles não instituíram essa imersão senão por causa do estudo. Pois, se lhe disseres que estudar sem imergir-se é permitido, ele também dirá: também eu irei e satisfarei minha necessidade (conjugal), e depois virei e estudarei tudo o que preciso (deixando o estudo sempre para depois e nunca cumprindo-o a tempo); mas, visto que dizes que é proibido estudar sem antes se imergir, ele vem e estuda tudo o que precisa antes. Ali (na Babilônia) dizem: até mesmo ouvir palavras de Torá sem antes se imergir é proibido.

10A fonte no Sinai: "não vos aproximeis de mulher"
Yerushalmi · Berachot 3:4
אָמַר רִבִּי יוּדָה בַּר טִיטֻס רִבִּי אָחָא בְשֵׁם רִבִּי אֶלְעָזָר כַּתְּחִילָּה וְהָיוּ נְכוֹנִים לַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי אַל תִּגְּשׁוּ אֶל אִשָּׁה.

Disse Rabi Yehudá bar Titus, e também Rabi Achá em nome de Rabi Elazar: como desde o início (na entrega da Torá no Sinai): "e estejam prontos para o terceiro dia... não vos aproximeis de mulher" (Êxodo 19:11,15 — a exigência de pureza para receber a Torá remonta à própria revelação no Sinai).

11A baraita sobre zavim, zavot, menstruadas e parturientes que estudam, e o baal keri que está proibido
Yerushalmi · Berachot 3:4
תַּנִּי זָבִין וְזָבוֹת נִדּוֹת וְיוֹלְדוֹת קוֹרִין בַּתּוֹרָה וְשוֹנִין מִדְרַשׁ וַהֲלָכוֹת וְהַגָּדוֹת. וּבַעַל קֶרִי אָסוּר בְּכוּלָּן. רִבִּי אַבָּא בַּר אָחָא בְשֵׁם רִבִּי שׁוֹנֶה הֲלָכוֹת וְאֵינוֹ שׁוֹנֶה הַגָּדוֹת. תַּנִּי בְשֵׁם רִבִּי יוֹסֵי שׁוֹנֶה הִילְכוֹת רְגִילִיּוֹת וּבִלְּבַד שֶׁלֹּא יַצִּיעַ אֶת הַמִּשְׁנָה. אִית דְּבָעֵי מֵימָר וּבִלְּבַד שֶׁלֹּא יַזְכִּיר אַזְכָּרוֹת. רִבִּי זְעִירָא בָּעֵי קוֹמוֹי רִבִּי יָסָא לֵית רִבִּי פָּשַׁט בֵּי עִם רִבִּי בִּין פִּירְקֵיהּ בַּלַּיְלִיָּא. אֲמַר לֵיהּ אִין. רִבִּי חִיָיא בַּר אַבָּא פָּשַׁט עִם רִבִּי נְחֶמְיָה בְרֵיהּ פִּירְקֵיהּ בַּלַּיְלִיָּא. בְּהַהִיא צַפְרָא הֲוָה מַר מַה דְאִית לֵיהּ עֲבִידָא יֵיזִיל עֲבֵיד.

Foi ensinado: os zavim e as zavot (homens e mulheres com fluxo anormal), as menstruadas e as parturientes leem a Torá e estudam midrash, halachot e agadot; mas o baal keri está proibido em todas elas. Rabi Abba bar Achá, em nome de Rabi: o baal keri pode estudar halachot, mas não estudar agadot. Foi ensinado em nome de Rabi Yossei: ele pode estudar as halachot já conhecidas (por repetição), contanto que não organize novos raciocínios sobre a Mishná. Há quem queira dizer: contanto que não mencione os Nomes divinos. Rabi Zeirá perguntou diante de Rabi Yassa: acaso não preparava Rabi (Yehudá HaNassi) sua lição com Rabi Avun à noite (mesmo estando, presumivelmente, impuro por keri)? Ele lhe disse: sim. Rabi Chiyá bar Abba preparava com seu filho Rabi Nechemiá sua lição à noite. Naquela manhã, ele costumava dizer: quem tiver essa necessidade (de imergir-se), que vá e a cumpra (mostrando que à noite, quando a imersão era arriscada ou impraticável, permitia-se o estudo, deixando a purificação para o dia seguinte).

12O episódio de Nisibis: as palavras de Torá não recebem impureza
Yerushalmi · Berachot 3:4
מַעֲשֶׂה בְּאֵחָד שֶׁעָמַד לִקְרוֹת בַּתּוֹרָה בִּנְצִיבִין כֵּיוָן שֶׁהִגִּיעַ לְהַזְכָּרָה הִתְחִיל מְגַמְגֵּם בָּהּ. אָמַר לוֹ רִבִּי יְהוּדָה בֶּן בְּתֵירָה פְּתַח פִּיךָ וְיָאִירוּ דְבָרֶיךָ שֶׁאֵין דִּבְרֵי תוֹרָה מְקַבְּלִין טוּמְאָה. אֲמַר רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא וּנְהִגִין תַּמָּן כְּרִבִּי אִלָּעְאִי בְּרֵאשִׁית הַגֵּז וּכְרִבִּי יֹאשִׁיָּה בְּכִלְאֵי הַכֶּרֶם וּכְרִבִי יְהוּדָה בֶּן בְּתֵירָה בְּבַעֲלֵי קֶרִיִין. כְּרִבִּי אִלָּעְאִי בְּרֵאשִׁית הַגֵּז דְּתַנָּא רִבִּי אִלָּעְאִי אָמַר אֵין רֵאשִׁית הַגֵּז אֶלָּא בָאָרֶץ. כְּרִבִּי יֹאשִׁיָּה בְּכִלְאַיִם דְּתַנִּי רִבִּי יֹאשִׁיָּה אוֹמֵר לְעוֹלָם אֵינוֹ חַיָיב עַד שֶׁיִּזְרַע חִטָּה וּשְׂעוֹרָה וְחַרְצָן בְּמַפָּלַת יָד. כְּרִבִּי יְהוּדָה בֶּן בְּתֵירָה בְּבַעֲלֵי קֶרִיִין דְּתַנִּי רִבִּי יְהוּדָה בֶּן בְּתֵירָה אוֹמֵר אֵין דִּבְרֵי תוֹרָה מְקַבְּלִין טוּמְאָה.

Aconteceu com um homem que se levantou para ler a Torá em Nezivin: quando chegou à menção do Nome divino, começou a gaguejar nela. Disse-lhe Rabi Yehudá ben Beteirá: abre tua boca e que tuas palavras iluminem, pois as palavras de Torá não recebem impureza. Disse Rabi Yaacov bar Achá: e ali (na Babilônia) costumam seguir Rabi Ilai quanto à primeira tosquia, e Rabi Yoshiá quanto às misturas proibidas na vinha, e Rabi Yehudá ben Beteirá quanto aos baalei keri. Seguem Rabi Ilai quanto à primeira tosquia, pois foi ensinado que Rabi Ilai disse: a primeira tosquia só é obrigatória na Terra (de Israel). Seguem Rabi Yoshiá quanto às misturas, pois foi ensinado que Rabi Yoshiá diz: nunca se é culpado por misturas na vinha a menos que se semeie trigo, cevada e caroço de uva com um só lançar da mão. Seguem Rabi Yehudá ben Beteirá quanto aos baalei keri, pois foi ensinado que Rabi Yehudá ben Beteirá diz: as palavras de Torá não recebem impureza.

13O episódio de Rabi Yossei bar Chalafta e o condutor de burros
Yerushalmi · Berachot 3:4
רִבִּי יוֹסֵי בַּר חֲלַפְתָּא הֲוָה אָתֵי בְאִיסְמְטָא בַלַּיְלִיָּא וַהֲוָה חַמָּרָא מְהַלֵּךְ בַּתְרֵיהּ עַל חַד בֵּית שִׁיחַ. אֲמַר לֵיהּ הַהוּא גַבְרָא בָּעֵי מִסְחֵי. אֲמַר לֵיהּ לָא תַסְכֵּן נַפְשָׁךְ. אֲמַר לֵיהּ מִן נִדָּה וּמִן אֵשֶׁת אִישׁ הַהוּא גַבְרָא בָּעֵי לְמִיסְחֵי. אֲפִילוּ כֵן אֲמַר לֵיהּ לֹא תַסְכֵּן בְּנַפְשָׁךְ. כֵּיוָן דְּלֹא שָׁמַע לֵיהּ אֲמַר לֵיהּ יֵיחוֹת הַהוּא גַבְרָא וְלָא יְסוֹק. וְכֵן הֲוָות לֵיהּ.

Rabi Yossei bar Chalafta vinha por um caminho estreito, à noite, e um condutor de burros caminhava atrás dele junto a um poço. Este homem lhe disse: preciso lavar-me. Ele lhe disse: não ponhas tua vida em risco. Ele lhe disse: este homem precisa lavar-se por causa de relação com uma menstruada e por causa de relação com a mulher de um homem (casada). Ainda assim, ele lhe disse: não ponhas tua vida em risco. Como ele não o ouviu, Rabi Yossei disse: que este homem desça e não suba de volta. E assim lhe aconteceu.

14O episódio de Rabi Yossei ben Yossei no navio
Yerushalmi · Berachot 3:4
רִבִּי יוֹסֵי בֶּן יוֹסֵי הֲוָה אָתֵי בְאִילְפָא חֲמָא חַד קָטַר גַרְמֵיהּ בְּחַבְלָא מֵיחוֹת וּמִיסְחֵי. אֲמַר לֵיהּ לָא תַסְכֵּן בְּנַפְשָׁךְ. אֲמַר לֵיהּ הַהוּא מֵיכַל בָּעֵינָא. אֲמַר לֵיהּ אֲכֵיל. הַהוּא גַבְרָא בָּעֵי מִישְׁתָא. אֲמַר לֵיהּ שְׁתֵי. כֵּיוָן דְּמָטוּן לְלִמֵינָה. אֲמַר לֵיהּ תַּמָּן לָא שָׁרִי לָךְ אֶלָּא בְגִין סְכַנְתָּא דְנַפְשָׁא בְּרַם הָכָא אָסוּר לְהַהוּא גַבְרָא לְמִיטְעַם כְּלוּם עַד שַׁעְתָּא דְיַסְחֵי.

Rabi Yossei ben Yossei vinha em um navio; viu um homem que amarrava a si mesmo com uma corda para descer ao mar e lavar-se. Ele lhe disse: não ponhas tua vida em risco. Ele lhe disse: este homem precisa comer e por isso quer se purificar antes. Ele lhe disse: come sem te lavar. Este homem precisa beber. Ele lhe disse: bebe. Quando chegaram ao porto, ele lhe disse: ali (no alto mar) eu só permiti por causa do risco à tua vida; mas aqui é proibido a este homem provar de qualquer coisa até a hora em que se lavar.

15O ensinamento final de Rabi Yanai: os leves e os rigorosos
Yerushalmi · Berachot 3:4
אָמַר רִבִּי יַנַּאי שָׁמַעְתִּי שֶׁמְּקִילִין וּמַחְמִירִין בָּהּ. וְכָל הַמַּחְמִיר בָּהּ מַאֲרִיךְ יָמִים בְּטוֹבָה. מִקִיל בָּהּ לִרְחוֹץ בְּמַיִם שְׁאוּבִין מַחְמִירִין בָּהּ לִטְבּוֹל בְּמַיִם חַיִּים.

Disse Rabi Yanai: ouvi que há os que são leves e os que são rigorosos quanto a ela (a essa imersão). E todo aquele que é rigoroso quanto a ela prolonga seus dias com bem. Alguns são leves quanto a ela, lavando-se com água extraída (de um recipiente); outros são rigorosos quanto a ela, imergindo-se em água viva (de fonte corrente ou mar).

Nota

Esta é a quarta halachá do Perek Guimel do Talmud Yerushalmi, Massechet Berachot, e comenta uma nova Mishná — distinta da anterior — sobre o baal keri, o homem que teve emissão seminal, que pensa as bênçãos do Shemá em seu coração sem as pronunciar, mas, quanto ao Birkat Hamazon, abençoa depois de comer, ainda que não abençoe antes; e traz a opinião de Rabi Yehudá, que o obriga a abençoar antes e depois em ambos os casos. A halachá abre perguntando o significado de "pensar as bênçãos" e conclui que a Mishná trata do caso de um lugar sem água disponível, seguindo a opinião de Rabi Meir na Tosefta, em contraste com a posição mais permissiva dos sábios. Segue a baraita sobre o doente com keri e o puro que recebem água derramada sobre o corpo em quantidade reduzida — suficiente para purificar-se a si mesmo, mas não para desobrigar o público, que continua a exigir a imersão completa de quarenta seá. A halachá então investiga a definição precisa de keri — se decorre apenas da relação conjugal ou também de sonhos — e sua relação com o Yom Kipur, trazendo o episódio de Rabi Yossei ben Chalafta como prova de que o keri pode ocorrer por outras vias. Desenvolve-se então uma extensa sequência sobre a origem e o propósito da imersão instituída pelos sábios: a preocupação de que os judeus não fossem "como os galos" no ato conjugal; o episódio de Rabi Chanina orientando os que se atrasavam ao amanhecer; a questão de pensar em Torá no banheiro; a tentativa histórica de abolir a imersão por causa do sofrimento das mulheres da Galileia com o frio, rejeitada por Rabi Yehoshua ben Levi com os episódios do vigia de vinhas e da escrava de Rabi, que recusou desobrigar-se do preceito enquanto sua senhora não o fizesse; e o ensinamento de que a imersão foi instituída, na prática, por causa do estudo da Torá, com o costume babilônico ainda mais rigoroso de proibir até ouvir palavras de Torá sem antes se purificar. A halachá recua então à entrega da Torá no Sinai como fonte da exigência de pureza para o estudo, traz a baraita que distingue o baal keri — proibido de ler e estudar — dos zavim, zavot, menstruadas e parturientes, que podem fazê-lo, com as gradações de Rabi Abba bar Achá e Rabi Yossei sobre o que exatamente é permitido estudar, e o episódio de Rabi Chiyá bar Abba que preparava sua lição à noite antes de imergir-se pela manhã. Traz o episódio de Nisibis, no qual Rabi Yehudá ben Beteirá afirma que as palavras de Torá não recebem impureza, e a lista de três costumes seguidos na Babilônia. Fecha com dois episódios paralelos — Rabi Yossei bar Chalafta e o condutor de burros, Rabi Yossei ben Yossei e o viajante no navio — que ilustram o princípio de que o risco à vida sempre prevalece sobre a exigência da purificação, e com o ensinamento final de Rabi Yanai sobre os que são leves, lavando-se com água extraída, e os que são rigorosos, imergindo-se em água viva. O tema desta halachá corresponde, no Talmud Bavli, à mesma Mishná Berachot 3:4 e à sua discussão em Berachot 20b–26b; a porção já publicada nesta biblioteca (até 22a) traz a mesma sugya sobre a tevilá de Ezra para o baal keri, incluindo o ensinamento paralelo de Rabi Yanai sobre os leves e os rigorosos.