Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Vav · Halachá 2
בְּרָכוֹת

Quem troca as fórmulas entre os frutos da árvore e da terra: a bênção genérica "shehakol" como cobertura universal, e a fórmula própria de cada um

Perek Vav, Halachá 2 — segunda halachá do capítulo "Ketzad Mevarchin"

A Mishná desta halachá trata do caso de quem confunde as duas fórmulas básicas ensinadas na Mishná anterior: abençoar os frutos da árvore com a fórmula da terra, ou os frutos da terra com a fórmula da árvore. Na primeira direção, a bênção cumpre a obrigação, pois a terra é a origem de tudo; na segunda, não cumpre, pois a árvore não brota da própria terra do mesmo modo genérico. Mas sobre todos eles, se a pessoa disse a fórmula genérica "shehakol" ("que tudo veio a ser por Sua palavra"), cumpriu sua obrigação. A halachá, breve, explica o fundamento de Rabi Yehudá para essa regra, mostra que frutos da árvore estão incluídos na categoria de frutos da terra mas não o inverso, e depois passa a um segundo tema: a disputa tanaítica sobre quem troca a fórmula fixada pelos sábios por palavras próprias, ilustrada pelo episódio do persa que abençoou seu pedaço de pão com uma fórmula inventada diante de Rav.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

בֵּירַךְ עַל פֵּירוֹת הָאִילָן בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה יָצָא. עַל פֵּירוֹת הָאֲדָמָה בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ לֹא יָצָא. וְעַל כּוּלָּם אִם אָמַר שֶׁהַכֹּל יָצָא.

Se alguém abençoou sobre os frutos da árvore com a fórmula "que cria o fruto da terra", cumpriu sua obrigação. Se abençoou sobre os frutos da terra com a fórmula "que cria o fruto da árvore", não cumpriu sua obrigação. E sobre todos eles, se disse "que tudo veio a ser por Sua palavra (shehakol)", cumpriu sua obrigação.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01O fundamento de Rabi Yehudá: por que os frutos da árvore estão incluídos nos frutos da terra, mas não o inverso
Yerushalmi · Berachot 6:2
רִבִּי חִזְקִיָּה בְשֵׁם רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא דְּרִבִּי יוּדָה הִיא דְּרִבִּי יוּדָא עֲבִיד אֶת הָאִילָנוֹת כְּקַשִּׁים. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא פֵּירוֹת הָאִילָן בִּכְלַל פֵּירוֹת הָאֲדָמָה. וְאֵין פֵּירוֹת הָאֲדָמָה בִּכְלַל פֵּירוֹת הָעֵץ. רַב הוּנָא אָמַר חוּץ מִן הַיַּיִן וּמִן הַפַּת. מַתְנִיתָא אָמְרָה כֵן חוּץ מִן הַיַּיִן שֶׁעַל הַיַּיִן הוּא אוֹמֵר בּוֹרֵא פְרִי הַגֶּפֶן. חוּץ מִן הַפַּת שֶׁעַל הַפַּת הוּא אוֹמֵר הַמּוֹצִיא לֶחֶם מִן הָאָרֶץ.

Disse Rabi Chizquiá, em nome de Rabi Yaacov bar Achá: isso é segundo a opinião de Rabi Yehudá, pois Rabi Yehudá trata as árvores como meras hastes (considera a madeira da árvore como algo secundário e sem valor próprio, de modo que seu fruto é visto como fruto da terra que a sustenta). Disse Rabi Yossei: isto, porém, é opinião de todos: os frutos da árvore estão incluídos na categoria dos frutos da terra, mas os frutos da terra não estão incluídos na categoria dos frutos da árvore. Rav Huna disse: isso vale exceto quanto ao vinho e ao pão (que têm fórmulas próprias e não se enquadram nessa regra geral). Uma baraita ensina isso mesmo: "exceto o vinho, que sobre o vinho diz-se: 'que cria o fruto da videira'; exceto o pão, que sobre o pão diz-se: 'que faz brotar o pão da terra'."

02A disputa tanaítica sobre quem troca a fórmula fixada pelos sábios, e a opinião extrema de Rabi Meir
Yerushalmi · Berachot 6:2
תַּנִּי רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר כָּל הַמְּשַׁנֶּה עַל הַמַּטְבֵּעַ שֶׁטָּבְעוּ חַכָמִים לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ. רִבִּי יוּדָה אוֹמֵר כָּל שֶׁנִּשְׁתַּנֶּה מִבְּרִיָיתוֹ וְלֹא שִׁינָּה בִּרְכָתוֹ לֹא יָצָא. רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר אֲפִילוּ אָמַר בָּרוּךְ שֶׁבָּרָא הַחֵפֶץ הַזֶּה. מַה נָאֶה הוּא זֶה יָצָא. רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא בְּשֵׁם שְׁמוּאֵל הֲלָכָה כְּרִבִּי מֵאִיר. מִילְתֵיהּ דְּרַב אָמְרָה כֵן. חַד פַּרְסוֹי אָתָא לְגַבֵּי רַב בְּגִין דַּאֲנָא אֲכַל פִּיסָּתִי וְלָא אֲנָא חֲכִים מְבָרְכָא עָלֵיהּ וַאֲנָא אֲמַר בָּרוּךְ דְּבָרָא הָדֵין פִּסָּא נְפִיק אֲנָא יְדֵי חוֹבָתִי. אֲמַר לֵיהּ אִין.

Foi ensinado: Rabi Yossei diz: todo aquele que troca a moeda (a fórmula fixa) que os sábios cunharam não cumpriu sua obrigação. Rabi Yehudá diz: tudo o que teve seu estado transformado de sua forma original, e a pessoa não mudou a fórmula de sua bênção de acordo, não cumpriu sua obrigação. Rabi Meir diz: mesmo que tenha dito apenas: "bendito Aquele que criou este objeto, como ele é belo" — cumpriu sua obrigação. Rabi Yaacov bar Achá, em nome de Shmuel: a lei é conforme Rabi Meir. A própria palavra de Rav ensina isso mesmo: certo persa veio a Rav e disse-lhe: "eu comi meu pedaço de pão e não soube abençoar sobre ele, e eu disse: 'bendito Aquele que criou este pedaço' — cumpri eu minha obrigação?" Disse-lhe Rav: "sim".

Nota

Esta segunda halachá do Perek Vav, bem mais breve que a primeira, comenta a Mishná sobre quem troca as fórmulas de bênção entre os frutos da árvore e os frutos da terra: trocar a fórmula da árvore pela da terra não invalida a bênção, pois os frutos da árvore estão incluídos na categoria mais ampla dos frutos da terra; mas o inverso invalida, pois os frutos da terra não brotam de uma árvore. Sobre todos, porém, a fórmula genérica "shehakol" ("que tudo veio a ser por Sua palavra") sempre cumpre a obrigação, por não especificar categoria alguma. A halachá atribui essa regra à opinião de Rabi Yehudá, que trata a árvore como mera haste subordinada à terra, e cita uma baraita que confirma o princípio, ressalvando vinho e pão como exceções com fórmula própria. Em seguida, a sugia passa a um tema correlato: a disputa entre Rabi Yossei, Rabi Yehudá e Rabi Meir sobre até que ponto se pode desviar da fórmula fixa cunhada pelos sábios, culminando na posição mais permissiva de Rabi Meir — de que basta reconhecer e louvar a Deus como Criador, ainda que com palavras próprias — adotada como lei por Shmuel, e ilustrada pelo episódio do persa que, sem saber a fórmula correta, abençoou seu pão com suas próprias palavras diante de Rav, que o validou.