A Mishná lista alimentos que não crescem diretamente da terra — o vinagre proveniente de vinho azedado, o gafanhoto e o fruto caído da árvore antes de amadurecer — sobre os quais se recita a fórmula genérica "shehakol" ("que tudo veio a ser por Sua palavra"), acrescentando que Rabi Yehudá isenta de bênção tudo o que é espécie de maldição. Esta halachá, breve e objetiva, não discute o fundamento dessas regras, mas acrescenta uma camada prática: cada um desses três casos carrega também um mau presságio, de modo que, ao avistá-lo, a pessoa recita primeiro "bendito o Juiz da verdade" — a bênção reservada às más notícias —, e só depois, ao efetivamente consumi-lo, recita "shehakol".
Sobre um alimento cujo crescimento não é diretamente da terra, recita-se "que tudo veio a ser por Sua palavra (shehakol)". Sobre o vinagre, sobre o gafanhoto e sobre os frutos caídos antes de amadurecer, recita-se "que tudo veio a ser por Sua palavra". Rabi Yehudá diz: tudo o que é espécie proveniente de uma maldição, não se abençoa sobre ele.
Se azedou seu vinho, recita "bendito és Tu, Eterno, o Juiz da verdade" (a fórmula recitada diante de más notícias). Quando vier a comê-lo, recita "que tudo veio a ser por Sua palavra". Se viu um gafanhoto (cuja aparição anuncia a praga que devasta as lavouras), recita "bendito o Juiz da verdade". Quando vier a comê-los, recita "que tudo veio a ser por Sua palavra". Se viu frutos caídos que se desprenderam da árvore antes de amadurecer, recita "bendito o Juiz da verdade". Quando vier a comê-los, recita "bendito, que tudo veio a ser por Sua palavra".
Esta terceira halachá do Perek Vav é a mais breve até aqui: não discute o fundamento das regras da Mishná, mas acrescenta uma camada prática a três dos itens que ali recebem a fórmula genérica "shehakol" — o vinho azedado, o gafanhoto e os frutos caídos antes de amadurecer. Os três, além de não crescerem "diretamente" da terra em sua forma final, carregam um sinal de mau agouro: o vinho que se estraga é uma perda, o gafanhoto anuncia a praga que devora as colheitas, e o fruto que cai verde da árvore é sinal de que algo interrompeu seu desenvolvimento natural. Por isso, ao simplesmente avistar qualquer um desses três, a pessoa recita primeiro "bendito o Juiz da verdade" — a mesma fórmula reservada a notícias tristes, como a morte de um parente —, reconhecendo o julgamento divino por trás do infortúnio. Só depois, no momento em que efetivamente consome o alimento, é que recita a bênção alimentar própria, "shehakol", conforme ensina a Mishná. A halachá não chega a discutir a opinião de Rabi Yehudá sobre isentar de bênção tudo o que é "espécie de maldição" — esse tema é retomado adiante.