Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Vav · Halachá 4
בְּרָכוֹת

Muitas espécies diante de alguém: a intenção de comer pão, a garizmata do lúpulo, e a ordem das Sete Espécies

Perek Vav, Halachá 4 — quarta halachá do capítulo "Ketzad Mevarchin"

A Mishná desta halachá traz um novo caso: havendo muitas espécies de frutos diante de alguém, Rabi Yehudá diz que, se entre elas houver uma das Sete Espécies pelas quais a Terra de Israel é louvada, é sobre ela que se recita a bênção; os sábios dizem que se pode abençoar sobre qualquer uma que se queira. A halachá esclarece que essa disputa só existe quando a pessoa pretende, depois, comer pão — pois aí a bênção sobre as Sete Espécies evita menosprezá-las diante do pão; se não pretende comer pão, todos concordam com Rabi Yehudá. Discute-se ainda se cabe bênção final sobre o petisco quando vem seguido de refeição de pão, a identidade e a lei da garizmata (uma sobremesa) e do lúpulo, o episódio de Rabán Gamliel, o gêmeo, questionando o costume da casa de Rabi Yanai, e finalmente a ordem de precedência entre as próprias Sete Espécies quando todas estão à mesa, extraída da ordem em que aparecem no versículo de Devarim.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

הָיוּ לְפָנָיו מִינִין הַרְבֵּה. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר אִם יֵשׁ בֵּינֵיהֶן מִמִּין שִׁבְעָה עָלָיו הוּא מְבָרֵךְ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים עַל אֵי זֶה מֵהֶן שֶׁיִּרְצֶה.

Se havia diante dele muitas espécies de frutos, e ele quer comer de todas, cumprindo a todas com uma única bênção, Rabi Yehudá diz: se entre elas há uma das Sete Espécies pelas quais a Terra de Israel é louvada, é sobre ela que se recita a bênção. Mas os sábios dizem: sobre qualquer uma delas que se queira.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01O ponto real da disputa: a intenção de comer pão depois
Yerushalmi · Berachot 6:4
רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי אָמַר מַה פְּלִיגִן רִבִּי יוּדָה וְרַבָּנָן. כְּשֶׁהָיָה בְדַעְתּוֹ לֶאֱכֹל פַּת. אֲבָל אֵין בְּדַעְתּוֹ לֶאֱכֹל פַּת כָּל עַמָּא מוֹדוֹיי שֶׁאִם יֵשׁ בֵּינֵיהֶן מִמִּין שִׁבְעָה עָלָיו הוּא מְבָרֵךְ. אָמַר רִבִּי אַבָּא צָרִיךְ לְבָרֵךְ בְּסוֹף. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי הֲדָא דְּרִבִּי בָּא פְּלִיגָא עַל דְּרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי דְּרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי אָמַר מַה פְּלִיגִין רִבִּי יוּדָה וְרַבָּנָן בְּשֶׁהָיָה בְדַעְתּוֹ לֶאֱכֹל פַּת אֲבָל אִם אֵין בְּדַעְתּוֹ לֶאֱכֹל פַּת כָּל עַמָּא מוֹדֵיי שֶׁאִם יֵשׁ בֵּינֵיהֶן מִמִּין שִׁבְעָה עָלָיו הוּא מְבָרֵךְ. וָמַר רִבִּי בָּא וְצָרִיךְ לְבָרֵךְ בְּסוֹף לֹא בֵּירַךְ נַעֲשָׂה טְפֵילָה. דְּתַנִּינָן תַּמָּן כָּל שֶׁהוּא עִיקָּר וְעִמּוֹ טְפֵילָה מְבָרֵךְ עַל הָעִיקָּר וּפוֹטֵר אֶת הַטְּפֵילָה.

Rabi Yehoshua ben Levi disse: sobre o que Rabi Yehudá e os sábios discordam? Quando ele tinha em mente comer pão depois desses frutos, isto é, quando os frutos são um petisco antes da refeição principal. Mas se não tinha em mente comer pão, todos concordam que, se entre eles há uma das Sete Espécies, é sobre ela que se recita a bênção. Rabi Abba disse: é preciso recitar a bênção também ao final mesmo quando se comerá pão depois e se recitará o Birkat Hamazon. Rabi Yossei disse: essa afirmação de Rabi Abba discorda de Rabi Yehoshua ben Levi, pois Rabi Yehoshua ben Levi disse que Rabi Yehudá e os sábios discordam apenas quando ele tinha em mente comer pão, mas se não tinha em mente comer pão, todos concordam que, se entre eles há uma das Sete Espécies, é sobre ela que se recita a bênção; e Rabi Abba disse que é preciso recitar a bênção também ao final mesmo havendo pão depois. Se não recitou a bênção final, o petisco tornou-se acessório, pois ensinamos ali: tudo que é principal e tem junto de si um acessório, recita-se a bênção sobre o principal e isso desobriga o acessório.

02A garizmata: a sobremesa e o lúpulo, "não roubes o pobre"
Yerushalmi · Berachot 6:4
הֲדָא גָרִיזְמָתָה רִבִּי יִרְמְיָה בְּשֵׁם רִבִּי אַמִּי מְבָרֵךְ עַל תּוּרְמוּסָה. אָמַר רִבִּי לֵוִי עַל שֵׁם אַל תִּגְזוֹל דָּל כִּי דַל הוּא.

Quanto a essa garizmata (uma sobremesa servida ao final da refeição formal, que, por não ser parte da refeição comum, exige bênção própria): Rabi Irmiyá, em nome de Rabi Ami, disse que recita-se a bênção sobre o lúpulo mesmo sendo, entre os pratos servidos, provavelmente o mais humilde. Rabi Levi disse: por causa do que está escrito: "não roubes o pobre porque é pobre" — não se deve deixar de abençoar um alimento simples só por ser modesto.

03O episódio de Rabán Gamliel, o gêmeo, e a confirmação de Rabi Zeirá
Yerushalmi · Berachot 6:4
עַד כְּדוֹן בְּשֶׁיֵּשׁ בְּדַעְתּוֹ לֶאֱכֹל פַּת. לֹא הָיָה בְּדַעְתּוֹ לֶאֱכֹל פַּת לָא בְּדָה. רַבָּן גַּמְלִיאֵל זוּגָה סְלַק גַבֵּי אִילֵּין דְּבֵית רִבִּי יַנַּאי חַמַתְּהוּן נָסְבִין זֵיתָא וּמְבָרְכִין לְפָנָיו וּלְאַחֲרָיו. אֲמַר לוֹן וַעֲבְדִּין כְּדוֹן. רִבִּי זְעִירָא שָׁלַח שָׁאַל לְרִבִּי שְמוּאֵל בַּר נַחְמָן רִבִי כֲּהָנָא בְּשֵׁם רִבִּי אֲבִינָא כָּל עַמָּא מוֹדֵיי שֶׁאִם יֵשׁ בֵּינֵיהֶן מִמִּין שִׁבְעָה עָלָיו הוּא מְבָרֵךְ. אָמַר רִבִּי זְעִירָא וְיֵאוּת. מִן מַאן דַּאֲנָן חֲמִיָין רַבָּנָן סָלְקִין לְרֵישׁ יַרְחָא וְאָכְלִין עֲנָבִין וְלָא מְבָרְכִין בְּסוֹפָהּ. לֹא בְּשֶׁיֵּשׁ בְּדַעְתּוֹ לֶאֱכוֹל פַּת.

Até agora, tudo isso é quando ele tem em mente comer pão. Se não tem em mente comer pão, isso não se aplica. Rabán Gamliel, o gêmeo, subiu à casa daqueles da família de Rabi Yanai. Viu-os tomar uma azeitona como petisco antes da refeição e recitar a bênção antes e depois dela. Disse-lhes: "Assim é que se faz?" Rabi Zeirá mandou perguntar a Rabi Shmuel bar Nachman. Rabi Cahana, em nome de Rabi Avina, respondeu: todos concordam que, se entre eles há uma das Sete Espécies, é sobre ela que se recita a bênção. Disse Rabi Zeirá: e está certo. Pois vemos os sábios subirem para a proclamação da lua nova e comerem uvas, sem recitar a bênção final sobre elas — e isso não é porque tenham em mente comer pão depois.

04Havendo as Sete Espécies diante de alguém: a ordem de precedência do versículo
Yerushalmi · Berachot 6:4
הָיוּ לְפָנָיו מִינִין שִׁבְעָה עַל אֵי זֶה מֵהֶן הוּא מְבָרֵךְ. תַּמָּן אָמְרִין כָּל הַקּוֹדֵם לְמִקְרָא קוֹדֵם לִבְרָכָה וְכָל הַסָּמוּךְ לָאָרֶץ קוֹדֵם לַכֹּל.

Se havia diante dele as Sete Espécies, sobre qual delas recita-se a bênção? Lá (na Babilônia) dizem: tudo que precede no versículo precede na bênção, e tudo que está próximo à palavra "a terra" precede a todas (conforme Devarim 8:8: "terra de trigo e cevada, videira, figo e romã; terra de azeite de oliva e mel", de modo que trigo, cevada, uva, figo e romã seguem essa ordem, enquanto azeite de oliva e tâmara, ambos ligados à palavra "terra" em sua própria cláusula, precedem a todas).

Nota

Esta quarta halachá do Perek Vav é uma das mais densas do capítulo até aqui. Ela parte de uma nova Mishná — o caso de muitas espécies de frutos diante de alguém — e revela que a disputa entre Rabi Yehudá e os sábios só existe quando a pessoa planeja, depois desses frutos, comer pão como refeição principal: nesse caso, segundo Rabi Yehudá, deve-se abençoar sobre uma das Sete Espécies (trigo, cevada, uva, figo, romã, azeite de oliva e tâmara — os frutos pelos quais a Terra de Israel é louvada em Devarim 8:8), para não as menosprezar diante da bênção do pão que virá. Se não há intenção de comer pão depois, todos concordam com essa preferência. A halachá em seguida registra uma disputa lateral entre Rabi Abba e Rabi Yehoshua ben Levi sobre se cabe bênção final também quando o petisco é seguido de refeição de pão — e, segundo a opinião de que ela é necessária, o petisco não abençoado ao final torna-se mero acessório da refeição de pão, absorvido pela bênção do Birkat Hamazon. A seguir, discute-se a garizmata — palavra de etimologia incerta, que designa uma sobremesa formal, e cujo caso concreto discutido é a bênção sobre o lúpulo, defendida ainda que este seja o prato mais humilde da mesa, com apoio no versículo "não roubes o pobre porque é pobre" (Provérbios 22:22), aplicado aqui ao próprio alimento simples que não deve ser privado de sua bênção. O episódio de Rabán Gamliel, o gêmeo — que estranhou o costume da casa de Rabi Yanai de abençoar antes e depois de uma simples azeitona tomada como petisco — é resolvido pela mesma regra: trata-se de uma das Sete Espécies, e por isso a bênção final se aplica normalmente, mesmo com refeição de pão à vista, o que Rabi Zeirá confirma com o costume observado dos sábios que comem uvas na proclamação da lua nova sem abençoar ao final, precisamente porque ali têm em mente a refeição de pão que segue. A halachá fecha com uma nova pergunta, ligada à segunda cláusula da própria Mishná: havendo as Sete Espécies simultaneamente à mesa, qual delas recebe a bênção primeiro? A resposta, atribuída aos sábios da Babilônia (compare Bavli Berachot 41a, ainda não traduzido nesta trilha), estabelece que a ordem segue a sequência do versículo de Devarim 8:8, com precedência adicional para as espécies gramaticalmente mais próximas da palavra "terra" — azeite de oliva e tâmara — sobre as demais.