Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Vav · Halachá 5
בְּרָכוֹת

Vinho e parperet antes e depois da refeição, o pão que vem como kisnin, e a garizmata que não desobriga o mingau

Perek Vav, Halachá 5 — quinta halachá do capítulo "Ketzad Mevarchin"

A nova Mishná desta halachá trata de quatro casos de bênção sobre vinho e sobre a parperet — petiscos ou aperitivos — antes e depois da refeição: a bênção do vinho de antes cobre o de depois; a da parperet de antes cobre a de depois; a bênção sobre o pão cobre a parperet, mas a da parperet não cobre o pão; e a Casa de Shamai acrescenta que ela também não cobre o "feito de panela" (comida cozida). A halachá restringe a primeira cláusula ao vinho bebido antes da refeição por seu próprio valor, discute o pão que vem como kisnin (uma espécie de bolo ou pastel) depois da refeição e sua necessidade de bênção própria, narra o episódio das tâmaras enviadas pelo Patriarca a Rabi Chanina bar Sisai e o costume de Rav Huna de comer tâmaras com o próprio pão, e fecha com o ensinamento de Marinos sobre a garizmata (sobremesa) que, mesmo abençoada ao final, não desobriga o mingau de cereal comido junto — o que leva a uma nova definição do alcance da própria Mishná e à pergunta final de Rabi Abba sobre quem come cereal com a intenção de comer pão depois.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

בֵּירַךְ עַל הַיַּיִן שֶׁלִּפְנֵי הַמָּזוֹן פָּטַר אֶת הַיַּיִן שֶׁלְּאַחַר הַמָּזוֹן. בֵּירַךְ עַל הַפַּרְפֶּרֶת שֶׁלִּפְנֵי הַמָּזוֹן פָּטַר אֶת הַפַּרְפֶּרֶת שֶׁלְּאַחַר הַמָּזוֹן. בֵּירַךְ עַל הַפַּת פָּטַר אֶת הַפַּרְפֶּרֶת. בֵּירַךְ עַל הַפַּרְפֶּרֶת לֹא פָּטַר אֶת הַפַּת. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים אַף לֹא מַעֲשֵׂה קְדֵירָה.

Se recitou a bênção sobre o vinho de antes da refeição, desobrigou o vinho de depois da refeição. Se recitou a bênção sobre a parperet (petisco servido à parte, antes ou depois da refeição principal) de antes da refeição, desobrigou a parperet de depois da refeição. Se recitou a bênção sobre o pão, desobrigou a parperet; se recitou a bênção sobre a parperet, não desobrigou o pão. A Casa de Shamai diz: também não desobrigou o "feito de panela" (alimento cozido servido à mesa).

A Halachá · הֲלָכָה ה

01Rav Chisda restringe a Mishná: o vinho de valor próprio, e a versão babilônica
Yerushalmi · Berachot 6:5
אָמַר רַב חִסְדָּא לֹא תַנִּינָן אֶלָּא בֵּירַךְ עַל הַיַּיִן שֶׁלִּפְנֵי הַמָּזוֹן פָּטַר אֶת הַיַּיִן שֶׁלְּאַחַר הַמָּזוֹן. אֲבָל אִם בֵּירַךְ עַל הַיַּיִן שֶׁבְּתוֹךְ הַמָּזוֹן לֹא פָטַר אֶת הַיַּיִן שֶׁלְּאַחַר הַמָּזוֹן. תַּמָּן אָמְרִין אֲפִילוּ בֵּירַךְ עַל הַיַּיִן שֶׁלִּפְנֵי הַמָּזוֹן לֹא פָטַר אֶת הַיַּיִן שֶׁלְּאַחַר הַמָּזוֹן. וְהָא תַנִּינָן בֵּירַךְ עַל הַיַּיִן שֶׁלִּפְנֵי הַמָּזוֹן פָּטַר אֶת הַיַּיִן שֶׁלְּאַחַר הַמָּזוֹן. רַב הוּנָא וְרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי. חַד אֲמַר בְּהָדֵין דְּשָׁתִי קוֹנְדִּיטוֹן. וְחָרָנָה אֲמַר בְּהָדֵין דְּשָׁתִי חֲמָר בָּתַר בַּילְנֵי.

Rav Chisdá disse: só ensinamos que, se recitou a bênção sobre o vinho de antes da refeição, desobrigou o vinho de depois da refeição, quando esse vinho de antes é bebido por seu próprio valor. Mas se recitou a bênção sobre o vinho bebido durante a refeição, servindo apenas para acompanhar a comida, não desobrigou o vinho de depois da refeição. Lá (na Babilônia) dizem: mesmo que tenha recitado a bênção sobre o vinho de antes da refeição, não desobrigou o vinho de depois da refeição. Mas não ensinamos que, se recitou a bênção sobre o vinho de antes da refeição, desobrigou o vinho de depois da refeição? Rav Huna e Rabi Yehoshua ben Levi resolveram a contradição: um disse que isso vale quando bebeu conditum (vinho especiado, que por sua natureza especial não se compara ao vinho comum e por isso ainda exige bênção própria); e o outro disse que vale quando bebeu vinho depois do banho (bebido logo ao sair do banho por razão medicinal, e por isso não coberto pela bênção do vinho tomado como alimento).

02O pão que vem como kisnin depois da refeição: precisa de bênção própria?
Yerushalmi · Berachot 6:5
רִבִּי חֶלְבּוֹ רַב הוּנָא רַב בְּשֵׁם רִבִּי חִיָיא רוּבָּא פַּת הַבָּאָה כִּיסְנִין אַחַר הַמָּזוֹן טְעוּנָה בְרָכָה לְפָנֶיהָ וּלְאַחֲרֶיהָ. אָמַר רִבִּי אַמִּי רִבִּי יוֹחָנָן פְּלִיג. אָמַר רִבִּי מָנָא לְרִבִּי חִזְקִיָּה בְּמַה הוּא פְלִיג. כְּשֶׁאָכַל מֵאוֹתוֹ הַמָּזוֹן בְּאֶמְצַע הַמָּזוֹן. אָמַר לֵיהּ אֲפִילוּ לֹא אָכַל מֵאוֹתוֹ הַמִּין בְּאֶמְצַע הַמָּזוֹן. אָתָא רַב חַגַּי בְּשֵׁם רִבִּי זְעִירָא אֲפִילוּ לֹא אָכַל מֵאוֹתוֹ הַמִּין בְּאֶמְצַע הַמָּזוֹן.

Rabi Chelbo, Rav Huna e Rav, em nome de Rabi Chiya Rubá (o Grande): o pão que vem como kisnin (uma espécie de bolo ou pastel assado, distinto do pão comum) depois da refeição precisa de bênção antes e depois dele — não é coberto pela bênção do pão recitada no início da refeição. Disse Rabi Ami: Rabi Yochanan discorda. Perguntou Rabi Maná a Rabi Chizquiá: em que ele discorda? Talvez apenas quando comeu daquele mesmo alimento durante a refeição principal, e por isso a bênção do pão já o cobriria. Disse-lhe: mesmo que não tenha comido daquela mesma espécie durante a refeição. Veio Rav Chagai, em nome de Rabi Zeirá: mesmo que não tenha comido daquela mesma espécie durante a refeição — ainda assim Rabi Yochanan sustenta que a bênção do pão já cobre o kisnin de depois.

03As tâmaras enviadas pelo Patriarca, o costume de Rav Huna, e a baraita decidida contra Rabi Yossei HaGelili
Yerushalmi · Berachot 6:5
אָמַר רִבִּי חֲנִינָא בַּר סִיסַיי הֲוּן אִילֵּין דִּנְשִׂיָיא מְשַׁלְּחִין לֵיהּ נִיקָלַוְוסִין וַהֲוָה שְׁבַק לוֹן בָּתָר מְזוֹנֵיהּ וּמְבָרֵךְ עֲלֵיהֶן תְּחִילָּה וְסוֹף. רַב חוּנָה אָכַל תְּמָרִין עִם פִּיסָּתֵיהּ. אָמַר לֵיהּ רַב חִיָיא בַּר אַשִּׁי פְּלִיג אַתּ עַל רַבָּךְ שׁוֹבְקִין בָּתָר מְזוֹנָךְ וְאַתְּ מְבָרֵךְ עֲלֵיהֶן תְּחִילָּה וְסוֹף. אֲמַר לֵיהּ אִינִּין אִנִּין עִיקָּר נְגִיסָּתִי. רִבִּי יוֹנָה וְרִבִּי יוֹסֵי סָלְקוּן לְמִישְׁתִּיתֵיהּ דְּרִבִּי חֲנִינָא עֵנְתָּנָיָיה אַפִּיק קוֹמֵיהוֹן פַּת הַבָּאָה בְכִיסְנִין לְאַחַר הַמָּזוֹן. אָמְרִין נִישְׁבּוֹק אוּלְפָּנָה וְנֵיתֵי לָן לְמַתְנִיתָא. דְּתַנִּי רִבִּי מָנָא אָמַר מִשּׁוּם רִבִּי יוּדָה שֶׁאָמַר מִשּׁוּם רִבִּי יוֹסֵי הַגָּלִילִי פַּת הַבָּאָה כִּיסְנִין לְאַחַר הַמָּזוֹן טְעוּנָה בְרָכָה לְפָנֶיהָ וּלְאַחֲרֶיהָ. אָמְרֵי מִכֵּיוָן דְּהֵן יְחִידָיֵי וְרַבָּנָן פְּלִיגִין עֲלוֹי נַעֲבִיד כְּרַבָּנָן.

Disse Rabi Chanina bar Sisai: aqueles da casa do Patriarca costumavam lhe enviar tâmaras nicolaus (uma variedade grande e nobre de tâmaras sírias), e ele as deixava para depois de sua refeição e recitava sobre elas a bênção do início e do fim. Rav Huna comia tâmaras junto com seu pedaço de pão. Disse-lhe Rav Chiya bar Ashi: discordas de teu mestre? Ele deixa-as para depois de sua refeição e recita sobre elas a bênção do início e do fim, e tu as comes junto com o pão? Disse-lhe: elas são o principal a que meus dentes chegam (pois seus dentes já não suportam o pão duro, e as tâmaras são o alimento efetivo que mastiga). Rabi Yoná e Rabi Yossei subiram para o banquete de núpcias de Rabi Chanina Entanaia; trouxeram diante deles pão que vem como kisnin depois da refeição. Disseram: deixemos nosso estudo e tragamos à baila uma baraita sobre o assunto. Pois ensinou Rabi Maná, dizendo em nome de Rabi Yudá, que disse em nome de Rabi Yossei HaGelili: o pão que vem como kisnin depois da refeição precisa de bênção antes e depois dele. Disseram: já que ele é opinião isolada e os sábios discordam dele, façamos conforme os sábios — e a bênção do pão já cobre o kisnin de depois.

04A garizmata de Marinos: a sobremesa que não desobriga o mingau de cereal
Yerushalmi · Berachot 6:5
אֲמַר מָרִינוֹס בֵּי רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ אֲהֵן אֲכַל גָּרִיזְמִי וְסֻלִית אַף עַל גַּב דְּהוּא מְבָרֵךְ עַל גָּרִיזְמָתָה בְּסוֹפָהּ לֹא פָטַר סוּלְתָא. מַה כְּבֵית שַׁמַּאי דְּבֵית שַׁמַּאי אוֹמֵר אַף לֹא מַעֲשֵׂה קְדֵרָה. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא. בֵּירַךְ עַל הַפַּת פָּטַר אֶת הַפַּרְפֶּרֶת וְאֶת מַעֲשֵׂה קְדֵירָה. כְּדִבְרֵי בֵּית הִלֵּל. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים לֹא פָטַר אֶת מַעֲשֵׂה קְדֵירָה. אֲבָל אִם בֵּירַךְ עַל הַפַּרְפֶּרֶת תְּחִילָּה כָּל עַמָּא מוֹדוֹי דְּלֹא פָטַר אֶת הַפַּת וְלֹא מַעֲשֵׂה קְדֵירָה. רִבִּי אַבָּא בְּרֵיהּ דְּרִבִּי פַּפַּי בְּעִי. אֲהֵן דְּאָכַל סוֹלֶת וּבְדַעְתֵּיהּ מֵיכוֹל פִּיתָּא מַהוּ מְבָרְכָה עַל סוּלְתָא בְּסוֹפָהּ. רַבָּנָן דְּקֵיסַרִין פַּשְׁטִין לָהּ צָרִיךְ לְבָרֵךְ בְּסוֹף.

Disse Marinos, da casa de Rabi Yehoshua: quem come garizmata (sobremesa formal de final de refeição) e mingau de cereal — ainda que recite a bênção sobre a garizmata ao final, não desobrigou o mingau de cereal (pois este exige a "bênção que imita as três" do Birkat Hamazon, mais longa do que a bênção curta da sobremesa). Perguntam: é ele como a Casa de Shamai, que diz que também não desobriga o "feito de panela"? Disse Rabi Yossei: é opinião de todos. Explica-se a própria Mishná: se recitou a bênção sobre o pão, desobrigou a parperet e o "feito de panela" — conforme as palavras da Casa de Hilel; a Casa de Shamai diz: não desobrigou o "feito de panela". Mas se recitou a bênção sobre a parperet primeiro, todos concordam que não desobrigou nem o pão nem o "feito de panela". Rabi Abba, filho de Rabi Papai, perguntou: quem come mingau de cereal com a intenção de comer pão depois, o que é a lei? Deve recitar a bênção sobre o cereal ao final? Os sábios de Cesareia decidiram claramente: é preciso recitar a bênção ao final.

Nota

Esta quinta halachá do Perek Vav parte de uma nova Mishná sobre a relação entre bênçãos consecutivas na mesma refeição: a do vinho e a da parperet — petiscos servidos antes e depois do prato principal — obedecem à regra de que a bênção de antes cobre a de depois, mas apenas a bênção sobre o pão em si tem o poder de cobrir tanto a parperet quanto o "feito de panela" (comida cozida), sendo que o inverso nunca ocorre, e a Casa de Shamai restringe ainda mais esse poder de cobertura. A halachá abre qualificando a primeira cláusula: Rav Chisdá explica que ela vale apenas para o vinho bebido por seu próprio valor social antes da refeição, não para o vinho tomado apenas para acompanhar a comida durante ela; e uma tradição atribuída à Babilônia nega a regra por completo, sendo depois harmonizada por Rav Huna e Rabi Yehoshua ben Levi como referindo-se a casos especiais — vinho especiado ou vinho bebido por razão medicinal após o banho — que sempre exigem bênção própria. Discute-se então o pão que vem como kisnin (um bolo ou pastel assado, distinto do pão de refeição) ao final da refeição: seria ele coberto pela bênção do pão recitada no início, ou exigiria bênção própria por não ser parte da refeição comum? A disputa entre Rabi Chiya Rubá e Rabi Yochanan é ilustrada por dois episódios — as tâmaras nobres que a família do Patriarca enviava a Rabi Chanina bar Sisai, guardadas para depois da refeição e abençoadas à parte, em contraste com o costume de Rav Huna de comê-las junto com o próprio pão, por serem o alimento que seus dentes ainda mastigavam — e resolvida por uma baraita que rejeita a opinião isolada de Rabi Yossei HaGelili, decidindo que a bênção do pão cobre normalmente o kisnin de depois. A halachá fecha com o ensinamento de Marinos, da casa de Rabi Yehoshua, sobre a garizmata (a mesma sobremesa mencionada na halachá anterior): mesmo abençoada ao final, ela não desobriga o mingau de cereal comido junto, porque este exige a bênção mais longa do Birkat Hamazon abreviado, e não a bênção curta cabível à sobremesa — o que aproxima essa posição, segundo Rabi Yossei, da própria opinião da Casa de Shamai na Mishná, e leva à releitura completa das suas cláusulas. A halachá termina com a pergunta de Rabi Abba, filho de Rabi Papai — se quem come cereal já pretendendo comer pão depois ainda precisa abençoar o cereal ao final —, resolvida pelos sábios de Cesareia em sentido afirmativo, ecoando o mesmo princípio da halachá anterior, de que a intenção de comer pão depois não dispensa a bênção própria sobre o que já foi consumido antes.