Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Zayin · Halachá 1
בְּרָכוֹת

Três que comeram juntos: quem obriga ao zimún, dois que julgaram e o barro escorrido da suká

Perek Zayin, Halachá 1 — primeira halachá do capítulo "Shloshá Sheachlú"

Abre-se aqui o Perek Zayin, "Shloshá Sheachlú" ("Três que comeram"), dedicado às regras do zimún — o convite formal com que três ou mais comensais se reúnem para recitar juntos o Birkat Hamazon. A Mishná estabelece que três que comeram juntos são obrigados ao zimún, e lista quem conta para compor o trio mesmo em situações duvidosas — quem comeu demai, o primeiro dízimo já destacado, o segundo dízimo e o consagrado já resgatados, o servente que comeu ao menos um azeitona, e o samaritano — em contraste com quem não conta, por comer alimento proibido ou por comer menos do mínimo. A halachá discute a aparente contradição entre duas versões da mesma tradição (obrigação ou mera permissão), a resolve por dois momentos distintos da refeição, examina se a obrigação do zimún recai sobre três ou já sobre dois comensais, o caso de dois que atuaram como tribunal, três que comeram separadamente e depois se misturaram (com a analogia do hissopo e do barro escorrido usado para completar a parede da suká), a regra de quem deseja sair antes do fim da refeição, a extensa comparação entre a bênção da Torá e a do alimento a partir da guezerá shavá do termo "Nome" e do argumento a fortiori de Rabi Yochanan, a questão de Rabi Ze'ura sobre como tratar os três chamados de fora, e finalmente o esclarecimento sobre o samaritano da Mishná, ligado ao decreto sobre o demai e à disputa entre Rabi e Rabán Shimon ben Gamliel quanto ao seu estatuto.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

שְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ כְאֶחָד, חַיָּבִין לְזַמֵּן. אָכַל דְּמַאי, וּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן שֶׁנִּטְּלָה תְרוּמָתוֹ, וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְהֶקְדֵּשׁ שֶׁנִּפְדּוּ, וְהַשַּׁמָּשׁ שֶׁאָכַל כַּזַּיִת, וְהַכּוּתִי, מְזַמְּנִין עֲלֵיהֶם. אֲבָל אָכַל טֶבֶל, וּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן שֶׁלֹּא נִטְּלָה תְרוּמָתוֹ, וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְהֶקְדֵּשׁ שֶׁלֹּא נִפְדּוּ, וְהַשַּׁמָּשׁ שֶׁאָכַל פָּחוֹת מִכַּזַּיִת, וְהַנָּכְרִי, אֵין מְזַמְּנִין עֲלֵיהֶם.

Três que comeram juntos são obrigados a convidar-se para o zimún (a fórmula introdutória do Birkat Hamazon dita em conjunto). Se um deles comeu demai (produto duvidoso, sobre o qual paira a incerteza de ter sido dizimado), ou primeiro dízimo do qual já foi destacada sua teruma, ou segundo dízimo e alimento consagrado que já foram resgatados, ou o servente que comeu o volume de uma azeitona, ou o samaritano — com todos estes convidam-se para o zimún. Mas se um deles comeu tevel (produto não dizimado), ou primeiro dízimo do qual não foi destacada sua teruma, ou segundo dízimo e consagrado que não foram resgatados, ou o servente que comeu menos do volume de uma azeitona, ou o gentio — com estes não se convidam para o zimún.

A Halachá · הֲלָכָה א

01Contradição entre duas versões: "não têm permissão de se dividir" e "são obrigados a convidar-se"; Shmuel resolve por início e fim da refeição
Yerushalmi · Berachot 7:1
הָכָא אִיתְמַר אֵין רְשָׁאִין לְחַלֵּק. וָכָה אִיתְמַר חַיַָיבִין לְזַמֵּן. שְׁמוּאֵל אָמַר כַּאן בִּתְחִילָּה כַּאן בְּסוֹף. אֵי זֶהוּ בִּתְחִילָּה וְאֵי זֶהוּ בְּסוֹף. תְּרֵין אֲמוֹרָיִן חַד אָמַר נָתְנוּ דַּעַת לֶאֱכוֹל זֶהוּ בִּתְחִילָּה. אָכְלוּ כְזַיִת זֶהוּ בְּסוֹף. וְחָרָנָה אָמַר אָכְלוּ כְזַיִת זֶהוּ בִּתְחִילָּה. גָּמְרוּ אֲכִילָתָן זֶהוּ בְּסוֹף.

Aqui (numa Mishná adiante) foi ensinado: "não têm permissão de se dividir" (uma vez reunidos para comer, não podem separar-se em grupos menores); e ali (nesta Mishná) foi ensinado: "são obrigados a convidar-se para o zimún". Shmuel disse: aqui trata-se do início da refeição, ali trata-se do fim. Qual é o início e qual é o fim? Dois amoraítas divergem: um disse: "puseram a intenção de comer" — isto é o início; "comeram o volume de uma azeitona" — isto é o fim. E o outro disse: "comeram o volume de uma azeitona" — isto é o início; "terminaram sua refeição" — isto é o fim.

02Rabi Abba e Rabi Ze'ira em nome de Abba bar Yirmeya: três é obrigação, dois é faculdade; dois que julgaram — tribunal insolente ou julgamento inválido
Yerushalmi · Berachot 7:1
רִבִּי אַבָּא בְּשֵׁם רַב חוּנָא רִבִּי זְעִירָא בְּשֵׁם אַבָּא בַּר יִרְמְיָה שְׁלֹשָׁה חוֹבָה שְׁנַיִם רְשׁוּת. אָמְרָהּ רִבִּי זְעִירָא קוֹמֵי רִבִּי יָסָא. אָמַר לֵיהּ אֲנִי אֵין לִי אֶלָּא מִשְׁנָה שְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ כְּאַחַת חַיָיבִין לְזַמֵּן. רַבָּנָן דְּהָכָא כְּדַעְתּוֹן. וְרַבָּנָן דְּהָתָם כְּדַעְתּוֹן. שְׁמוּאֵל אָמַר שְׁנַיִם שֶׁדָּנוּ דִּינָן דִּין אֶלָּא שֶׁהוּא נִקְרָא בֵּית דִּין חָצוּף. רִבִּי יוֹחָנָן וְרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ תְּרַוֵּיהוֹן אָמְרִין אֲפִילוּ שְׁנַיִם שֶׁדָּנוּ אֵין דִּינָן דִּין.

Rabi Abba, em nome de Rav Huna; Rabi Ze'ira, em nome de Abba bar Yirmeya: com três é obrigação, com dois é faculdade. Rabi Ze'ira disse isto diante de Rabi Yassa. Ele lhe disse: eu não tenho senão a Mishná: "três que comeram juntos são obrigados a convidar-se para o zimún" — e nada sobre dois. Os sábios daqui seguem sua opinião (a de que dois é faculdade), e os sábios de lá seguem sua opinião (a de que a Mishná não fala de dois). Shmuel disse: dois que julgaram, seu julgamento é válido, só que ele se chama "tribunal insolente" (por terem se atrevido a julgar sem o mínimo de três). Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish, ambos disseram: mesmo dois que julgaram, seu julgamento não é válido.

03Rav Chuna: três que comeram separados e se misturaram convidam-se para o zimún; a analogia do hissopo mergulhado separadamente e do barro escorrido que completa a suká
Yerushalmi · Berachot 7:1
רַב חוּנָא אָמַר שְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ זֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְזֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְזֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְנִתְעָרְבוּ מְזַמְּנִין. רַב חִסְדָּא אָמַר וְהֵן שֶׁבָּאוּ מִשָּׁלֹשׁ חֲבוּרוֹת. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי זֵירָא וַחֲבוּרָתֵיהּ וְהֵן שֶׁאָכְלוּ שְׁלֹשָׁה כְּאַחַת. רִבִּי יוֹנָה עַל הֲדָא דְּרַב חוּנָא הִטְבִּיל שְׁלֹשָׁה אֵיזוֹבוֹת זֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְזֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְזֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְנִתְעָרְבוּ מַזֶּה בָהֶן. רַב חִסְדָּא אָמַר וְהֵן שֶׁבָּאוּ מִשָּׁלֹשׁ חֲבִילוֹת. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי זְעִירָא וַחֲבוּרָתֵהּ וְהוּא שֶׁהִטְבִּיל שְׁלָשְׁתָּן כְּאַחַת. אִין תֵּימַר אֵין לְמֵידִין אֵזוֹב מִבְּרָכָה. וַאֲנָן חֲזִינָן רַבָּנָן קַיָימִין בְּסוּכָּה וְיַלְפִין מִטִּיט הַנָּרוּק. כְּיַי דְתַנִּינָן תַּמָּן הִרְחִיק אֶת הַסִּיכּוּךְ מִן הַדְּפָנוֹת שְׁלֹשָׁה טְפָחִים פְּסוּלָה. הָא פָּחוֹת מִיכַּן כְּשֵׁירָה. מַהוּ לִישָׁן תַּחְתָּיו. הָתִיב רִבִּי יִצְחָק בֶּן אֶלְיָשִׁיב הֲרֵי טִיט הַנָּרוּק מַשְׁלִים בְּמִקְוֶה וְאֵין מַטְבִּילִין בּוֹ. אַף הָכָא מַשְׁלִים בְּסוּכָּה וְאֵין יְשֵׁינִין תַּחְתָּיו.

Rav Chuna disse: três que comeram, este por si, este por si e este por si, e depois se misturaram, convidam-se para o zimún. Rav Chisdá disse: e isto só se aplica a eles terem vindo de três grupos diferentes. Na opinião de Rabi Zeirá e seu grupo, é necessário que os três tenham comido juntos (não basta a mistura posterior). Rabi Yoná, sobre este dito de Rav Chuna: se alguém mergulhou três feixes de hissopo, este por si, este por si e este por si, e depois se misturaram, aspergem-se com eles. Rav Chisdá disse: e isto só se aplica a eles terem vindo de três molhos diferentes. Na opinião de Rabi Ze'ira e seu grupo, é necessário que ele tenha mergulhado os três juntos. Poder-se-ia dizer: não se aprende a regra do hissopo a partir da regra da bênção (são assuntos diferentes demais para uma inferência). Mas nós vemos os sábios firmarem-se sobre este princípio até mesmo na halachá da suká, e derivarem a solução do barro escorrido (usado para vedar frestas). Como ensinamos ali: se alguém afastou a cobertura das paredes três palmos, a suká é inválida; logo, menos do que isso, é válida. Mas então, pode-se dormir debaixo dela (dessa parte da cobertura mais próxima da parede, cuja validade é apenas indireta)? Objetou Rabi Yitzchak ben Elyashiv: eis que o barro escorrido completa a medida de água no mikvê, mas não se imerge nele diretamente, por não ser água própria; também aqui, ele completa a suká, mas não se dorme debaixo dele.

04Três que comeram juntos e um deseja sair: abençoa a primeira bênção e vai; qual é essa bênção — a do zimún ou "Hazan et Hakol"; a objeção de Rav Sheshet e a origem em Beitar
Yerushalmi · Berachot 7:1
שְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ כְּאַחַת וּבִיקֵּשׁ אֶחָד מֵהֶן לֵילֵךְ לוֹ דְּבֵית רַב אָמַרֵי יְבָרֵךְ בְּרָכָה רִאשׁוֹנָה וְיֵלֶךְ לוֹ. אֵי זוּ הִיא בְּרָכָה רִאשׁוֹנָה. דְּבֵית רַב אָמְרֵי זוּ בִּרְכַּת הַזִּימּוּן. רִבִּי זְעִירָא בְשֵׁם רַב יִרְמְיָה זוּ הַזָּן אֶת הַכֹּל. רִבִּי חֶלְבּוֹ [רַב] חָנָן בְּשֵׁם רַב זוּ הַזָּן אֶת הַכֹּל. הָתִיב רַב שֵׁשֶׁת וְהָא מַתְנִיתָא פְלִיגָא שְׁנַיִם שְׁלֹשָׁה חַיָיבִין בְּבִרְכַת הַזִּימּוּן. הָא אַרְבָּעָה לֹא. אִין תֵּימַר בִּרְכַּת זִימוּן רִאשׁוֹנָה נִיתְנֵי אַרְבָּעָה. אַשְׁכְּחָן תַּנִּי אַרְבָּעָה. אִין תֵּימַר זוּ הַזָּן אֶת הַכֹּל קַשְׁיָא. אִין תֵּימַר זוּ הַטּוֹב וְהַמֵּטִיב. לֵית אַתְּ יָכִיל. שַׁנְיָיא הִיא דְּאָמַר רַב חוּנָא מִשֶּׁנִּיתְּנוּ הֲרוּגֵי בֵיתָר לִקְבוּרָה נִקְבְּעָה הַטּוֹב וְהַמֵּטִיב. הַטּוֹב שֶׁלֹּא נִסְרְחוּ וְהַמֵּטִיב שֶׁנִּיתְּנוּ לִקְבוּרָה. אָמַר רַב הוּנָה תִּיפְתָּר כְּרִבִּי יִשְׁמָעְאֵל דְּרִבִּי יִשְׁמָעֵאל אָמַר הַטּוֹב וְהַמֵּטִיב דְּבַר תּוֹרָה דִּכְתִיב וְאָכַלְתָּ וְשָׂבָעְתָּ וּבֵרַכְתָּ זוּ בִּרְכַּת הַזִּימּוּן. אֶת יי אֱלֹהֶיךָ זוּ הַזָּן אֶת הַכֹּל. עַל הָאָרֶץ זוּ בִּרְכַּת הָאָרֶץ. הַטּוֹבָה זוּ בִּרְכַּת בּוֹנֵה יְרוּשָׁלַםִ. וְכֵן הוּא אוֹמֵר הָהָר הַטּוֹב הַזֶּה וְהַלְּבָנוֹן. אֲשֶׁר נָתַן לָךְ זֶה הַטּוֹב וְהַמֵּטִיב.

Três que comeram juntos, e um deles quis ir embora — os sábios da casa de Rav dizem: abençoe a primeira bênção e vá embora. Qual é a primeira bênção? Os sábios da casa de Rav dizem: é a bênção do zimún. Rabi Ze'ira, em nome de Rav Yirmeya: é a bênção de "que alimenta a todos". Rabi Chelbo e Rav Chanan, em nome de Rav: é a bênção de "que alimenta a todos". Objetou Rav Sheshet: mas eis que uma baraita discorda: "dois ou três são obrigados na bênção do zimún" — logo quatro não seriam obrigados a essa bênção introdutória, o que sugere que ela é exclusiva a grupos de até três. Mas se assim for, e se dissermos que essa é a primeira bênção do zimún, que se ensine também "quatro" na baraita! De fato, encontramos uma versão que ensina "quatro" também. Mas então, se dissermos que essa primeira bênção é "que alimenta a todos", a baraita permanece difícil de explicar. Se dissermos que essa primeira bênção é "o Bom e o Benfazejo" — não podes sustentar isso, pois essa bênção não é antiga o bastante. A isso se responde: é diferente, pois disse Rav Chuna: desde que os mortos de Beitar foram entregues para sepultamento, foi instituída a bênção de "o Bom e o Benfazejo" — "o Bom", porque não apodreceram; "e o Benfazejo", porque foram entregues para sepultamento. Disse Rav Huna: explica-se isto segundo Rabi Yishmael, pois Rabi Yishmael disse: "o Bom e o Benfazejo" é determinado pela Torá, como está escrito: "e comerás, e te fartarás, e abençoarás" (Devarim 8:10) — isto é a bênção do zimún; "ao Eterno teu Deus" — isto é a bênção de "que alimenta a todos"; "pela terra" — isto é a bênção da terra; "a boa" — isto é a bênção "que edifica Jerusalém"; e assim ele diz: "esta boa montanha, e o Líbano" (Devarim 3:25)uma referência a Jerusalém e ao Templo; "que Ele te deu" — isto é a bênção de "o Bom e o Benfazejo".

05A guezerá shavá entre a bênção da Torá e a do alimento a partir do termo "Nome"; o argumento a fortiori de Rabi Yochanan em nome de Rabi Yishmael; Rabi Yitzchak, Rabi Natan e Rebbi sobre o momento de abençoar
Yerushalmi · Berachot 7:1
כָּתוּב בַּתּוֹרָה בְּרָכָה לְפָנֶיהָ וְאֵין כָּתוּב בַּתּוֹרָה בְּרָכָה לְאַחֲרֶיהָ. מַה כָּתוּב בָּהּ לְפָנֶיהָ כִּי שֵׁם יי אֶקְרָא הָבוּ גּוֹדֶל לֶאלֹהֵינוּ. כְּתִיב בְּמָזוֹן בְּרָכָה לְאַחֲרֶיהָ וְאֵין כָּתוּב לְפָנָיו. מַה כְּתִיב לְאַחֲרָיו וְאָכַלְתָּ וְשָׂבָעְתָּ וּבֵרַכְתָּ. וּמְנַיִין לִיתֵּן אֶת הָאָמוּר בְּזֶה בְזֶה וְאֶת הָאָמוּר בְּזֶה בְזֶה. רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי בְּשֵׁם רִבִּי יוֹנָתָן אַתְיָא שֵׁם שֵׁם לִגְזֵרָה שָׁוָה. מַה שֵׁם שֶׁנֶּאֱמַר בַּתּוֹרָה בְּרָכָה לְפָנָיו אַף שֵׁם שֶׁנֶּאֱמַר בְּמָזוֹן בְּרָכָה לְפָנָיו. וּמַה שֵׁם שֶׁנֶּאֱמַר בְּמָזוֹן בְּרָכָה לְאַחֲרָיו. אַף שֵׁם שֶׁנֶּאֱמַר בַּתּוֹרָה לְאַחֲרֶיהָ. עַד כְּדוֹן כְּרִבִּי עֲקִיבָה כְּרִבִּי יִשְׁמָעְאֵל. רִבִּי יוֹחָנָן בְּשֵׁם רִבִּי יִשְׁמָעְאֵל קַל וָחוֹמֶר. מַה אִם מָזוֹן שֶׁאֵין טָעוּן בְּרָכָה לְפָנָיו טָעוּן בְּרָכָה לְאַחֲרָיו תּוֹרָה שֶׁהִיא טְעוּנָה בְּרָכָה לְפָנֶיהָ. אֵינוֹ דִין שֶׁתְּהֵא טְעוּנָה בְרָכָה לְאַחֲרֶיהָ. עַד כְּדוֹן תּוֹרָה. מָזוֹן מַה. אִם תּוֹרָה שֶׁאֵינָהּ טְעוּנָה בְרָכָה לְאַחֲרֶיהָ טָעוּנָה בְּרָכָה לְפָנֶיהָ. מָזוֹן שֶׁטָּעוּן בְּרָכָה לְאַחֲרָיו. אֵינוֹ דִין שֶׁטָּעוּן בְרָכָה לְפָנָיו. רִבִּי יִצְחָק וְרִבִּי נָתָן. [רִבִּי יִצְחָק] אָמַר כִּי הוּא יְבָרֵךְ הַזֶּבַח וְאַחַר כָּךְ יֹאכְלוּ הַקְּרוּאִים. רִבִּי נָתָן אוֹמֵר וַעֲבַדְתֶּם אֶת יי אֱלֹהֵיכֶם וּבֵרַךְ אֶת לַחְמְךָ וְאֶת מֵימֶיךָ. אֵימָתַי הוּא קָרוּי לַחְמְךָ וְאֶת מֵימֶיךָ. עַד שֶׁלֹּא אָכַלְתָּ. רִבִּי אוֹמֵר מַה אִם בְּשָׁעָה שֶׁאָכַל וְשָׂבֵעַ צָרִיךְ לְבָרֵךְ בְּשָׁעָה שֶׁהוּא תָאֵב לֶאֱכוֹל לֹא כָּל שְׁכֵּן. עַד כְּדוֹן מָזוֹן. תּוֹרָה מַה. אִם מָזוֹן שֶׁאֵינוֹ אֵלָּא חַיֵּי שָׁעָה טָעוּן בְּרָכָה לְפָנָיו וּלְאַחֲרָיו. תּוֹרָה שֶׁהִיא חַיֵּי עַד לֹא כָּל שֶׁכֵּן.

Está escrito, sobre a Torá, a exigência de bênção antes dela, e não está escrito, sobre a Torá, a exigência de bênção depois dela. O que está escrito, sobre ela, antes? "Pois proclamarei o Nome do Eterno, dai grandeza ao nosso Deus" (Devarim 32:3). Está escrito, sobre o alimento, a exigência de bênção depois dele, e não está escrito a exigência de bênção antes dele. O que está escrito, depois dele? "E comerás, e te fartarás, e abençoarás" (Devarim 8:10). E de onde se aprende a aplicar o que foi dito num caso ao outro, e o que foi dito no outro a este? Rabi Shemuel bar Nachmani, em nome de Rabi Yonatan: deriva-se a regra pela ligação verbal de "Nome" e "Nome", por guezerá shavá. Assim como "Nome", dito a respeito da Torá, exige bênção antes dela, também "Nome", dito a respeito do alimento, exige bênção antes dele. E assim como "Nome", dito a respeito do alimento, exige bênção depois dele, também "Nome", dito a respeito da Torá, exige bênção depois dela. Até aqui, isto está segundo Rabi Akiva e segundo Rabi Yishmael (que ambos aceitam a guezerá shavá). Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yishmael, propõe em vez disso um argumento a fortiori: se o alimento, que não requer bênção antes dele, requer bênção depois dele; a Torá, que requer bênção antes dela, não é justo que requeira bênção depois dela? Até aqui, quanto à Torá. E quanto ao alimento, como se prova? Se a Torá, que não requer bênção depois dela, requer bênção antes dela; o alimento, que requer bênção depois dele, não é justo que requeira bênção antes dele? Rabi Yitzchak e Rabi Natan discutem o tema por outra via. Rabi Yitzchak disse: "pois ele abençoará o sacrifício, e depois comerão os convidados" (Shmuel I 9:13) — prova de que se abençoa antes de comer. Rabi Natan diz: "e servireis ao Eterno vosso Deus, e Ele abençoará teu pão e tua água" (Shemot 23:25) — quando o pão e a água ainda se chamam "teu pão e tua água"? Antes que tenhas comido — logo a bênção é anterior ao consumo. Rebbi diz: se no momento em que já comeu e se fartou é preciso abençoar, no momento em que ainda deseja comer, não é ainda mais evidente que deve abençoar? Até aqui, quanto ao alimento. E quanto à Torá, como se prova? Se o alimento, que não é senão vida temporária, requer bênção antes e depois dele; a Torá, que é vida eterna, não é ainda mais evidente que a requer?

06Rabi Ze'ura pergunta sobre os três chamados de fora; Rabi Shemuel bar Avdima: só se aprendeu a bênção da Torá em público; Rabi Abba Mari: Rabi Yossei a equiparou às demais mitsvot
Yerushalmi · Berachot 7:1
רִבִּי זְעוּרָא בְּעִי אִילֵּין שְׁלֹשָׁה קְרוּיוֹת מַה אַתְּ עֲבִיד לוֹן. כִּשְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ כְּאַחַת. אוֹ כִשְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ זֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְזֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְזֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ. אִין תַּעַבְדִּינוּן כִּשְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ כְּאַחַת. הָרִאשׁוֹן מְבָרֵךְ בְּרָכָה רִאשׁוֹנָה. וְהָאַחֲרוֹן בְּרָכָה אַחֲרוֹנָה. וְהָאֶמְצָעִי אֵינוֹ מְבָרֵךְ כָּל עִיקָּר. אִין תַּעַבְדִּינוּן כִּשְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ זֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְזֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ וְזֶה בִּפְנֵי עַצְמוֹ. אֲפִילוּ הָאֶמְצָעִי מְבָרֵךְ לְפָנָיו וּלְאַחֲרָיו. אָמַר רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר אֶבְדַּימִא לֹא לָמְדוּ בִּרְכַּת הַתּוֹרָה מִבִּרְכַּת [הַמָּזוֹן] אֶלָּא לְרַבִּים. וְאִם לְרַבִּים אֲפִילוּ בֵינוֹ לְבֵין עַצְמוֹ לֹא יְבָרֵךְ. אָמַר רִבִּי אַבָּ מָרִי אַחֲוֵי דְּרִבִּי יוֹסֵי עֲשָׂאוּהָ כִּשְׁאָר כָּל מִצְוֹתֶיהָ שֶׁל תּוֹרָה. מַה שְׁאָר כָּל הַמִּצְוֹת טְעוּנוֹת בְּרָכָה. אַף זוּ טְעוּנָה בְרָכָה.

Rabi Ze'ura perguntou: estes três chamados a subir à leitura da Torá, um após o outro, como os tratas quanto à bênção? Como três que comeram juntos, de modo que só o primeiro e o último abençoam, ou como três que comeram, este por si, este por si e este por si, de modo que todos abençoam? Se os tratares como três que comeram juntos, o primeiro abençoa a primeira bênção, e o último a última bênção, e o do meio não abençoa de forma alguma. Se os tratares como três que comeram, este por si, este por si e este por si, até o do meio abençoa antes e depois de sua leitura. Disse Rabi Shemuel bar Avdima: não se aprendeu a bênção da Torá a partir da bênção do alimento senão para a leitura feita em público; e quanto à leitura em público, nem sequer se cogitaria dizer que mesmo sozinho ele não deveria abençoar — a bênção pública não substitui a individual. Disse Rabi Abba Mari, irmão de Rabi Yossei: os sábios a trataram (a leitura da Torá) como as demais mitsvot da Torá: assim como as demais mitsvot requerem bênção, também esta requer bênção.

07O samaritano da Mishná explicado pelo decreto sobre o demai; a disputa entre Rebbi e Rabán Shimon ben Gamliel sobre seu estatuto
Yerushalmi · Berachot 7:1
אָכַל דְּמַאי. הֲדָא אָמְרָה אָכַל פֵּירוֹת סָפֵק נִיתַקְּנוּ סָפֵק לֹא נִיתַקְּנוּ מְזַמְּנִין. אָמַר רִבִּי שִׁמְעוֹן אַחֲוֵי דְּרִבִּי בְּרֶכְיָה. בְּשָׁעָה שֶׁגָּזְרוּ עַל הַדְּמַאי רוֹב עַמֵּי הָאָרֶץ הָיוּ מַכְנִיסִין לְבָתֵּיהֶן. וַיי דָא אָמְרָה דָא כּוּתִי מְזַמְּנִין עָלָיו. וְאָהֵן כּוּתִי לָאו סָפֵק הוּא. אָמַר רִבִּי אַבָּא תִּיפְתָּר כְּמַן דָּמַר כּוּתִי כְגוֹי דִּבְרֵי רִבִּי. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר כּוּתִי כְיִשְׂרָאֵל לְכָל דָּבָר.

A Mishná diz: "comeu demai" — e conta para o zimún. Isto ensina que, mesmo tendo comido frutos sobre os quais paira a dúvida de terem sido corrigidos (dizimados) ou de não terem sido corrigidos, convidam-se para o zimún. Disse Rabi Shimon, irmão de Rabi Berechyá: no momento em que decretaram sobre o demai, a maioria da gente comum (am haaretz) já trazia seus produtos para dentro de suas casas (livres da obrigação plena de dízimo, o que tornou o demai apenas uma dúvida leve e não um verdadeiro tevel). Mas eis que isto (a razão do demai) contradiz aquilo (o caso do samaritano): "com o samaritano convidam-se para o zimún" — mas este samaritano não é um caso de mera dúvida, e sim de estatuto pessoal incerto! Disse Rabi Abba: explica-se isto segundo quem diz que o samaritano tem o estatuto de um gentio — palavras de Rebbi. Rabán Shimon ben Gamliel diz: o samaritano tem o estatuto de um israelita para todo efeito — e por isso conta plenamente para o zimún, sem depender de dúvida alguma.

Nota

Esta primeira halachá do Perek Zayin abre o capítulo "Shloshá Sheachlú", dedicado ao zimún — o convite formal com que três ou mais comensais reunidos numa mesma refeição se chamam mutuamente para recitar juntos o Birkat Hamazon. A Mishná estabelece a obrigação básica e lista, de um lado, quem conta para compor o trio mesmo tendo comido algo de estatuto duvidoso ou parcial — o demai, os dízimos e o consagrado já regularizados, o servente que comeu ao menos uma azeitona, e o samaritano —, e de outro, quem não conta, por ter comido alimento proibido (tevel, dízimos não regularizados) ou por ter comido menos do mínimo. A halachá abre resolvendo, por meio de Shmuel, a aparente contradição entre uma Mishná que veda a divisão de um grupo já reunido e esta que obriga ao zimún — tratando-se de dois momentos diferentes da refeição, o início e o fim, com divergência entre dois amoraítas sobre onde exatamente cada um começa. Segue-se a discussão sobre se a obrigação nasce já com dois comensais ou apenas com três, ilustrada pela imagem de dois que atuaram como tribunal — cujo julgamento é válido, mas "insolente", segundo Shmuel, ou de plano inválido, segundo Rabi Yochanan e Reish Lakish. Rav Chuna ensina que três que comeram separadamente e depois se misturaram também se convidam para o zimún, regra ilustrada por duas analogias buscadas fora do campo das bênçãos: o hissopo mergulhado em partes e depois misturado, ainda válido para aspersão, e o barro escorrido que completa a medida de água do mikvê ou a cobertura da suká sem, contudo, poder ser usado diretamente para imersão ou como teto sob o qual se dorme — mostrando que uma soma de partes pode servir para completar uma medida sem que cada parte, isoladamente, tenha o mesmo estatuto pleno do conjunto. A halachá trata então de quem deseja deixar a mesa antes do fim da refeição, com a divergência sobre qual seria a "primeira bênção" que ele deve recitar antes de partir — o zimún, segundo a casa de Rav, ou "que alimenta a todos", segundo Rabi Ze'ira em nome de Rav Yirmeya — e a longa sugia sobre a origem e a data da quarta bênção do Birkat Hamazon, "o Bom e o Benfazejo", instituída, segundo Rav Chuna, após o sepultamento dos mortos de Beitar, e vinculada por Rabi Yishmael às quatro cláusulas do versículo "e comerás, e te fartarás, e abençoarás... ao Eterno teu Deus, pela terra boa que Ele te deu" (Devarim 8:10). A halachá em seguida desenvolve, com base numa guezerá shavá do termo "Nome" comum a Devarim 32:3 e 8:10, o paralelo entre a bênção antes e depois do estudo da Torá e a bênção antes e depois do alimento — paralelo estabelecido por Rabi Shemuel bar Nachmani em nome de Rabi Yonatan segundo Rabi Akiva e Rabi Yishmael, e reformulado por Rabi Yochanan como um duplo argumento a fortiori; a esse debate somam-se as provas escriturísticas de Rabi Yitzchak, Rabi Natan e Rebbi sobre o momento exato de abençoar o alimento. Por fim, Rabi Ze'ura pergunta como tratar, quanto à bênção, os três chamados sucessivamente à leitura pública da Torá, com a distinção entre a bênção pública (que exige apenas do primeiro e do último) e a exigência de Rabi Shemuel bar Avdima de que mesmo o leitor solitário abençoe, na linha do princípio de Rabi Yossei, citado por seu irmão Rabi Abba Mari, de que o estudo da Torá é uma mitsvá como qualquer outra e por isso sempre requer bênção; e a halachá se encerra explicando o caso do samaritano na Mishná — ligado ao decreto histórico sobre o demai, segundo o qual a maioria do povo já trazia seus produtos sem dízimo pleno para casa — e à disputa entre Rebbi, que trata o samaritano como um gentio, e Rabán Shimon ben Gamliel, que o trata como um israelita para todo efeito.