Esta é a primeira halachá do Perek Chet, "Elu Devarim" ("Estas são as coisas"), dedicado às diferenças de costume numa refeição entre a Beit Shamai e a Beit Hilel. A Mishná traz a primeira delas: na ordem do kidush, Beit Shamai abençoa primeiro a santidade do dia e depois o vinho, enquanto Beit Hilel abençoa primeiro o vinho e depois o dia. A halachá expõe o raciocínio de cada escola, discute se o mesmo raciocínio vale para a ordem entre vinho e havdalá — chegando a conclusões opostas conforme quem pergunta —, traz a opinião de Rabi Zeira de que se pode fazer havdalá sem vinho mas não kidush sem vinho, e por fim enfrenta dois casos práticos difíceis: uma refeição que começa antes do Shabat e termina depois dele, e outra que começa em Shabat e termina depois de seu término, quando há apenas um único copo de vinho disponível para todas as bênçãos.
Estas são as coisas (em que há diferença) entre Beit Shamai e Beit Hilel na refeição: Beit Shamai diz: abençoa-se sobre o dia e depois abençoa-se sobre o vinho. E Beit Hilel diz: abençoa-se sobre o vinho e depois abençoa-se sobre o dia.
Qual é a razão de Beit Shamai? Que a santidade do dia causou que o vinho viesse (o vinho é trazido por causa do kidush, e não o contrário), e já se ficou obrigado na santidade do dia antes de o vinho vir. Qual é a razão de Beit Hilel? Que o vinho causa que a santidade do dia seja dita (sem o copo de vinho não há kidush). Outra explicação: o vinho é frequente (comum em toda refeição), e a santidade não é frequente (ocorre só em dias especiais) — e o que é frequente precede o que não é frequente.
Disse Rabi Yossei: das palavras de ambas as escolas segue-se que, entre vinho e havdalá, o vinho precede. Não é a razão de Beit Shamai senão que a santidade do dia causou que o vinho viesse? Pois bem, aqui, visto que não é a havdalá que causa que o vinho venha (a havdalá não depende do vinho para existir, ao contrário do kidush), o vinho precede. Não é a razão de Beit Hilel senão que o vinho é frequente e a santidade não é frequente? Pois bem, do mesmo modo, visto que o vinho é frequente e a havdalá não é frequente, o vinho precede.
Disse Rabi Mana: das palavras de ambas as escolas segue-se que, entre vinho e havdalá, a havdalá precede. Não é a razão de Beit Shamai senão que já se ficou obrigado na santidade do dia antes de o vinho vir? Pois bem, aqui, visto que se ficou obrigado na havdalá antes de o vinho vir, a havdalá precede. Não é a razão de Beit Hilel senão que o vinho causa que a santidade do dia seja dita? Pois bem, aqui, visto que o vinho não causa que a havdalá seja dita (pois a havdalá pode ser dita sem vinho), a havdalá precede.
Disse Rabi Zeira: das palavras de ambas as escolas segue-se que se faz havdalá sem vinho, mas não se faz kidush sem vinho. Esta é a própria opinião de Rabi Zeira, pois Rabi Zeira disse: faz-se havdalá sobre cerveja (na ausência de vinho), e vão de um lugar a outro (para buscar vinho, quando possível) por causa da santidade (do kidush, que exige vinho e não se contenta com cerveja).
Disse Rabi Yossei beRabi: costumavam ali (nessa localidade): no lugar onde não há vinho, o enviado da congregação passa diante da arca e diz uma única bênção que resume as sete (do kidush da noite de Shabat na Amidá), e conclui: "Que santifica Israel e o dia do Shabat".
E há uma dificuldade contra Beit Shamai em noite de Shabat: como se procede? Suponha que alguém estava sentado comendo na véspera de Shabat, e escureceu (chegou) a noite de Shabat, e não há ali senão aquele único copo — dirás que o deixa de lado até depois do Birkat Hamazon e encadeia todas as bênçãos sobre ele. Seja como for que se decida: se abençoar sobre o dia, o Birkat Hamazon precede indevidamente, contra a razão de Beit Shamai; se abençoar sobre o Birkat Hamazon, o vinho precede indevidamente; se abençoar sobre o vinho, o dia precede corretamente, mas então o Birkat Hamazon fica sem vinho algum, o que também é problemático. Ouçamos a resposta disto: na Mishná de 6:5, no caso de vinho que veio a eles depois da refeição e não há ali senão aquele único copo (a bênção do vinho precede a do Birkat Hamazon, embora o vinho tenha chegado depois). Disse Rabi Ba: ali a razão é que, como a bênção sobre o vinho é uma bênção pequena (breve), para que não se esqueça e beba sem abençoar antes de recitar o Birkat Hamazon. Mas aqui, uma vez que se encadeia a bênção do vinho junto com o copo (no mesmo ato de erguer o copo para o Birkat Hamazon), não se esquece. Como devem proceder segundo as palavras de Beit Shamai? Abençoa-se primeiro sobre o Birkat Hamazon, e depois abençoa-se sobre o dia, e depois sobre o vinho.
E há uma dificuldade contra as palavras de Beit Hilel em saída de Shabat: como se procede? Suponha que alguém estava sentado comendo em Shabat, e escureceu (chegou) a saída de Shabat, e não há ali senão aquele único copo — dirás que o deixa de lado até depois do Birkat Hamazon e encadeia todas as bênçãos sobre ele. Seja como for que se decida: se abençoar sobre o vinho, o Birkat Hamazon precede indevidamente, contra a razão de Beit Hilel; se abençoar sobre o Birkat Hamazon, a vela precede indevidamente; se abençoar sobre a vela, a havdalá precede corretamente, mas então fica sem ordem certa quanto ao resto. Ouçamos a resposta disto: disse Rabi Yehudá: não discordaram Beit Shamai e Beit Hilel quanto ao Birkat Hamazon, que vem no início, nem quanto à havdalá, que vem no fim. Sobre o que discordaram? Sobre a vela e as especiarias: que Beit Shamai diz: especiarias e depois vela; e Beit Hilel diz: luz e depois especiarias. Rava e Rav Yehudá decidiram: a lei é como quem diz especiarias e depois vela. Como se deve proceder segundo as palavras de Beit Hilel? Abençoa-se primeiro sobre o Birkat Hamazon, e depois abençoa-se sobre o vinho, e depois sobre a vela.
Caso de Yom Tov que ocorre em saída de Shabat (quando se combinam kidush de Yom Tov e havdalá de Shabat, e é preciso saber a ordem das bênçãos): Rabi Yochanan disse o mnemônico: Yak"nah — vinho, kidush, vela, havdalá. Chanin bar Ba disse em nome de Rav: vinho, kidush, vela, havdalá, suká e tempo (a bênção de Sheecheyanu, quando aplicável). Rabi Chanina disse o mnemônico: Nahik" — ordem que se harmoniza com a de Shmuel. Isto é como aquilo de Rabi Chanina, pois disse Rabi Acha em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: quando um rei sai e um governador entra, acompanha-se o rei que sai e depois se recebe o governador que entra (assim primeiro se despede o Shabat com havdalá, e só depois se recebe o Yom Tov com kidush). Levi disse o mnemônico: Yanha"k. É razoável que Levi tenha dito uma ordem que participa de ambas as opiniões. Rabi Zeira perguntou diante de Rabi Yossei: como se procede na prática? Disse-lhe: como Rav e como Rabi Yochanan. E assim se procedeu na prática, como Rav e como Rabi Yochanan.
Rabi Abahu: quando ia ao Sul, procedia como Rabi Chanina; e quando descia a Tiberíades, procedia como Rabi Yochanan — pois não se discorda de uma pessoa (da autoridade local) em seu próprio lugar.
Segundo a opinião de Rabi Chanina, está bem. Mas há uma dificuldade contra Rabi Yochanan: se fosse nos demais dias do ano, não se abençoaria sobre a vela por medo de que se apague (antes de terminar a bênção) — e aqui ele manda abençoar sobre a vela por medo de que se apague? O que Rabi Yochanan lhe fez (como resolveu isso)? Visto que já tem vinho (o copo aceso ou próximo), sua vela não se apaga (há tempo suficiente). E que se abençoe sobre a vela por último, para não desarraigar o momento dos Shabatot que vêm (para manter a santidade do Shabat vigente o máximo possível antes de encerrá-la).
Esta primeira halachá do Perek Chet abre o capítulo "Elu Devarim", dedicado às diferenças de costume entre Beit Shamai e Beit Hilel numa refeição. A Mishná traz a disputa sobre a ordem, no kidush, entre a bênção da santidade do dia e a bênção do vinho — Beit Shamai antepõe o dia, Beit Hilel antepõe o vinho. A guemará expõe a razão de cada escola e depois testa se a mesma lógica se aplicaria à ordem entre vinho e havdalá: Rabi Yossei conclui que, por ambas as razões, o vinho deveria preceder a havdalá; Rabi Mana, ao contrário, conclui que a havdalá deveria preceder o vinho — duas leituras opostas do mesmo raciocínio. Rabi Zeira extrai uma terceira conclusão, de que se pode fazer havdalá sem vinho (inclusive sobre cerveja) mas não kidush sem vinho, e Rabi Yossei beRabi descreve o costume, na falta de vinho, de o enviado da congregação recitar uma bênção resumida na Amidá. A halachá então enfrenta dois casos práticos: uma refeição que atravessa a entrada do Shabat, com um único copo disponível — testando e refutando cada ordem possível para as palavras de Beit Shamai, até concluir que se abençoa primeiro o Birkat Hamazon, depois o dia, depois o vinho; e uma refeição que atravessa a saída do Shabat, resolvida, com a ajuda do esclarecimento de Rabi Yehudá sobre o verdadeiro objeto da disputa (vela e especiarias, não o Birkat Hamazon nem a havdalá), concluindo que se abençoa primeiro o Birkat Hamazon, depois o vinho, depois a vela, segundo Beit Hilel. Fecha com o caso mais complexo de Yom Tov que ocorre em saída de Shabat, trazendo as fórmulas mnemônicas de Rabi Yochanan, de Rav (via Chanin bar Ba), de Rabi Chanina e de Levi, a decisão prática de Rabi Yossei a Rabi Zeira em favor de Rav e Rabi Yochanan, o costume de Rabi Abahu de seguir a autoridade local de cada região, e a explicação final de Rabi Yochanan sobre por que se pode abençoar a vela por último nesse caso sem risco de que se apague.