A segunda halachá do Perek Chet traz a segunda diferença de costume entre Beit Shamai e Beit Hilel: a ordem entre lavar as mãos e misturar o copo do kidush. Beit Shamai lava as mãos primeiro e só depois mistura o copo; Beit Hilel mistura o copo primeiro e só depois lava as mãos. A guemará explica que a disputa gira em torno da pureza ritual do lado externo do copo, relaciona as duas escolas a uma disputa tanaítica paralela sobre mãos puras e impuras, e a partir daí se estende, por associação temática, a uma longa sugia sobre as regras da lavagem das mãos: a distância que se deve percorrer em busca de água, a diferença entre a lavagem antes da refeição (facultativa) e depois dela (obrigatória), duas histórias trágicas que ilustram essa obrigação, o costume de comer com as mãos cobertas por um pano, até onde se lava (pulso ou juntas dos dedos), para que tipos de alimento se exige a lavagem, e se ela vale para o dia inteiro. A halachá fecha com o episódio de Rabi Zeira e Rabi Abahu em Cesareia sobre quem recita a bênção do pão e quem recita o Birkat Hamazon, e uma baraita sobre a ordem de precedência na lavagem das mãos conforme o número de comensais e o momento da refeição.
Beit Shamai diz: lavam-se as mãos e depois se mistura o copo (com água, conforme o costume de diluir o vinho). E Beit Hilel diz: mistura-se o copo primeiro e depois se lavam as mãos.
Qual é a razão de Beit Shamai? Que não se contaminem os líquidos que estão atrás do copo (na parte externa) pelas suas mãos (ainda não lavadas), e voltem a contaminar o copo (por dentro, através desses líquidos).
Qual é a razão de Beit Hilel? Que a parte de trás do copo é sempre impura (por decreto, quer se lave a mão antes quer depois, de modo que não há vantagem em lavar antes). Outra explicação: a lavagem das mãos só vale (deve ser feita) imediatamente antes da bênção.
Rabi Bivan em nome de Rabi Yochanan: resulta que Beit Shamai segue Rabi Yossei e Beit Hilel segue Rabi Meir. Pois ensinamos ali (numa outra Mishná): Rabi Meir diz: vale tanto para mãos impuras quanto puras. Disse Rabi Yossei: não o disseram senão para mãos puras somente.
Rabi Yossei em nome de Rabi Shabtai e Rabi Chiya em nome de Rabi Shimon ben Lakish: para separar a chalá (a porção da massa dada ao sacerdote, que exige mãos puras) e para a lavagem das mãos, uma pessoa caminha (deve caminhar em busca de água) até quatro mil. Rabi Abahu em nome de Rabi Yossei bei Rabi Chanina: isto que se disse é quanto ao caminho de ida, mas quanto ao de volta não se lhe impõe o incômodo.
Os guardas de jardins e de pomares (que trabalham longe da água), como os tratas? Como no caminho de ida ou como no de volta (equivalem à ida, sempre distantes, ou à volta, dispensados)? Ouçamos isto a partir disto (de uma Mishná de Chalá): a mulher senta-se e separa sua chalá nua, porque ela pode se cobrir a si mesma, mas não o homem. Ora, não é dentro de casa que essa mulher está sentada (presumivelmente ela tem roupas por perto), e ainda assim dizes que não se lhe impõe o incômodo de se vestir antes de abençoar? Também aqui, não se lhe impõe o incômodo (ao guarda, de sair em busca de água).
Foi ensinado: a água (para lavar as mãos) de antes da refeição é facultativa, e a de depois da refeição é obrigatória. Só que, quanto à primeira, toma-se a água e pode-se interromper (a lavagem, sem repeti-la); e quanto à segunda, toma-se a água e não se pode interromper. O que significa "toma-se e pode-se interromper"? Rabi Yaacov bar Acha disse: toma-se a água e repete-se (a lavagem de cada mão, caso se tenha interrompido). Rabi Shmuel bar Yitschac disse: perguntei eu mesmo: "toma-se e repete-se", e tu dizes que é apenas facultativa?
Disse Rabi Yaacov bar Idi: por causa da negligência com a primeira água, comeu-se carne de porco (um judeu que não lavou as mãos foi confundido com gentio e recebeu comida proibida). Por causa da negligência com a segunda, saiu uma mulher de sua casa (foi expulsa ou repudiada, por causa de um mal-entendido envolvendo as mãos não lavadas após a refeição). E há quem diga que três pessoas foram mortas por causa dela.
Shmuel subiu (foi) à casa de Rav. Viu-o comendo com a mão coberta por um pano. Disse-lhe: o que é isso? Disse-lhe: sou istenis (de saúde delicada; não posso tocar diretamente no alimento). Quando Rabi Zeira subiu para cá (imigrou à Terra de Israel), viu sacerdotes comendo com a mão coberta por um pano. Disse-lhes: eis que já se foi (já não se sustenta) aquela explicação de Rav e Shmuel (vocês não podem alegar todos ser istenis). Veio Rabi Yossei bar bar Cahana e disse em nome de Shmuel: a lavagem das mãos é exigida para alimento comum, sim (mas não é o mesmo tipo de exigência); a lavagem das mãos é exigida para terumá (e para esta os sacerdotes cobrem a mão em vez de lavar). Rabi Yossei diz: é exigida igualmente para terumá e para alimento comum.
Rabi Yossei em nome de Rabi Chiya bar Abba, e Rabi Yoná, e Rav Chiya bar Ashi em nome de Rav: a lavagem das mãos para terumá vai até o pulso; e para alimento comum, até as juntas dos dedos. Maisha, neto de Rabi Yehoshua ben Levi, disse: quem quisesse comer com meu avô e não tivesse enxaguado as mãos até o pulso, não comia com ele.
Rav Huna disse: a lavagem das mãos não é exigida senão para pão somente. Ensinou Rabi Hoshaya: é exigida para qualquer coisa que tenha nela sujeira de líquido. Rabi Zeira disse: mesmo ao cortar tremoços (que soltam pouco líquido) ele costumava lavar as mãos.
Rav disse: quem lavou as mãos pela manhã não se lhe impõe o incômodo de lavar de novo ao entardecer. Rabi Avina ordenava aos seus condutores de burros: quando encontrardes água suficiente, tomai e lavai as vossas mãos, e condicionai-as para o dia inteiro (fazendo a intenção de que a lavagem valha até a noite).
Rabi Zeira subiu à casa de Rabi Abahu, em Cesareia. Ao encontrá-lo, este disse: vem comer. Deu-lhe um pão redondo para partir e abençoar. Disse-lhe: toma tu mesmo e abençoa. Disse-lhe Rabi Zeira: o dono da casa conhece melhor a qualidade do seu pão. Depois que comeram, disse-lhe: toma tu e abençoa o Birkat Hamazon. Disse-lhe: o mestre (Rabi Abahu) conhece Rav Huna, um grande homem, e ele costumava dizer: quem abre a refeição, abençoando o pão, é quem fecha (deve recitar também o Birkat Hamazon). Uma baraita discorda de Rav Huna, pois foi ensinado: a ordem da lavagem das mãos é a seguinte: até cinco pessoas, começa-se pelo maior (o mais importante); mais que isso, começa-se pelo menor. No meio da refeição, começa-se pelo maior. Depois da refeição, começa-se por quem vai abençoar o Birkat Hamazon. Não é isso dizer que ele já se prepara para a bênção (ou seja, quem lava por último é quem abençoa, contra a regra de Rav Huna, segundo a qual quem abriu com a bênção do pão também fecha)? Se disseres que quem abre é quem fecha, ele (o dono da casa, que já abriu com a bênção do pão) já está preparado e não precisaria lavar por último! Disse Rabi Yitschac: explica-se a baraita quanto àqueles que chegaram separadamente (cada um por si, não convidados juntos por um anfitrião fixo) e não sabem quem vai abençoar.
Esta segunda halachá do Perek Chet traz a segunda diferença de costume entre Beit Shamai e Beit Hilel numa refeição: a ordem entre lavar as mãos e misturar o copo do kidush. A guemará explica a razão de cada escola em termos de pureza ritual da parte externa do copo, e Rabi Bivan, em nome de Rabi Yochanan, associa cada escola a uma posição tanaítica paralela — Beit Shamai como Rabi Yossei, Beit Hilel como Rabi Meir. A partir da menção da lavagem das mãos, a halachá se estende, por associação temática, a uma extensa sugia independente sobre as regras de netilat yadaim: a distância de até quatro mil que se deve percorrer em busca de água, o caso especial dos guardas de jardins e pomares, a diferença entre a água facultativa de antes da refeição e a obrigatória de depois, as duas histórias trágicas de Rabi Yaacov bar Idi sobre as consequências de negligenciá-las, o episódio de Shmuel e Rav sobre comer com as mãos cobertas por um pano e sua repercussão com os sacerdotes vistos por Rabi Zeira, a distinção entre lavar até o pulso (para terumá) e até as juntas dos dedos (para alimento comum), o alcance da própria obrigação — segundo Rav Huna restrita ao pão, segundo Rabi Hoshaya estendida a qualquer alimento úmido —, e a validade da lavagem matinal para o dia inteiro. Fecha com o episódio de Rabi Zeira hóspede de Rabi Abahu em Cesareia, sobre quem deve recitar a bênção do pão e quem deve recitar o Birkat Hamazon, e a baraita, aparentemente discordante de Rav Huna, sobre a ordem de precedência na lavagem das mãos conforme o número de comensais e o momento da refeição, harmonizada por Rabi Yitschac como referente a comensais reunidos por acaso, sem anfitrião fixo.