Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Chet · Halachá 3
בְּרָכוֹת

A disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre onde pousar o pano de enxugar as mãos — a mesa ou a almofada —, as razões de pureza ritual de cada escola, e o paralelo com o óleo puro que goteja após a imersão

Perek Chet, Halachá 3 — terceira halachá do capítulo "Elu Devarim"

A terceira halachá do Perek Chet traz a terceira diferença de costume entre Beit Shamai e Beit Hilel numa refeição: depois de lavar as mãos, onde se pousa o pano usado para enxugá-las. Beit Shamai diz que se pousa sobre a mesa; Beit Hilel diz que se pousa sobre a almofada em que a pessoa está reclinada. A guemará explica primeiro que a Mishná trata de uma mesa de mármore ou de peças desmontáveis, que não recebe impureza, e então apresenta a razão de cada escola em termos de pureza ritual dos líquidos absorvidos no pano. A seguir levanta uma dificuldade contra Beit Shamai — que parece supor que as mãos têm impureza mesmo para alimento comum — e a resolve de duas formas, citando uma baraita de Rabi Shimon ben Elazar em nome de Rabi Meir e uma opinião de Rabi Elazar bei Rabi Tzadok. Fecha citando uma Mishná paralela sobre o óleo puro que goteja do corpo depois da imersão, na qual as posições de Beit Shamai e Beit Hilel parecem invertidas, e explica a diferença.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים מְקַנֵּחַ יָדָיו בְּמַפָּה וּמַנִּיחָהּ עַל הַשֻּׁלְחָן. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים עַל הַכֶּסֶת.

Beit Shamai diz: a pessoa enxuga as mãos com um pano e o pousa sobre a mesa. E Beit Hilel diz: sobre a almofada (em que está reclinado à mesa).

A Halachá · הֲלָכָה ג

01A Mishná trata de uma mesa de mármore ou de peças desmontáveis, que não recebe impureza; a razão de Beit Shamai: que os líquidos do pano não se contaminem pela almofada e voltem a contaminar as mãos
Yerushalmi · Berachot 8:3
מַתְנִיתָא בְּשׁוּלְחָן שֶׁל שַׁיִשׁ וְשֶׁל פְּרָקִים שֶׁאֵינוֹ מְקַבֵּל טוּמְאָה. מַה טַעַמוֹן דְּבֵית שַׁמַּאי שֶׁלֹּא יִטָּמֵאוּ מַשְׁקִין שֶׁבְּמַפָּה מִן הַכֶּסֶת וְיַחְזְרוּ וִיטַמְּאוּ אֶת יָדָיו.

A Mishná trata de uma mesa de mármore, ou de uma mesa de peças desmontáveis (que se separam sem ferramenta), que não recebe impureza (sendo assim, pousar o pano sobre ela não expõe os líquidos nele absorvidos a nenhuma fonte de contaminação). Qual é a razão de Beit Shamai? Que não se contaminem os líquidos que estão no pano pela almofada (que pode estar impura, por ter contato constante com o corpo das pessoas reclinadas), e voltem a contaminar as mãos (quando a pessoa tocar de novo no pano).

02A razão de Beit Hilel: em caso de dúvida, os líquidos quanto às mãos são sempre considerados puros; ou, segundo outra explicação, o conceito de "mãos" não se aplica a alimento comum
Yerushalmi · Berachot 8:3
וּמַה טַעַמוֹן דְּבֵית הִלֵּל לְעוֹלָם סָפֵק מַשְׁקִין לְיָדַיִם טָהוֹר. דָּבָר אַחֵר אֵין יָדַיִם לְחוּלִּין.

E qual é a razão de Beit Hilel? Que, em qualquer caso, havendo dúvida quanto à contaminação, os líquidos em relação às mãos são declarados puros (pois a impureza de segundo grau nas mãos, por decreto rabínico, é tratada com leniência em caso de dúvida, ao contrário da impureza bíblica). Outra explicação: não há o conceito de impureza de "mãos" para alimento comum (essa categoria de impureza foi instituída apenas em relação à terumá, não ao alimento comum, de modo que não há por que temer que os líquidos do pano contaminem as mãos de quem come alimento comum).

03Objeção: mas para Beit Shamai há impureza de "mãos" mesmo para alimento comum; resolve-se segundo Rabi Shimon ben Elazar em nome de Rabi Meir, ou segundo Rabi Elazar bei Rabi Tzadok
Yerushalmi · Berachot 8:3
וּכְבֵית שַׁמַּאי יֵשׁ יָדַיִם לְחוּלִּין. תִּיפְתָּר אוֹ כְּרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹ כְּרִבִּי אֶלְעָזָר בֵּי רִבִּי צָדוֹק. כְּרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר דְּתַנִּי רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר מִשּׁוּם רִבִּי מֵאִיר הַיָּדַיִם תְּחִילָּה לְחוּלִּין וּשְׁנִיּוֹת לִתְרוּמָה. אוֹ כְּרִבִּי אֶלְעָזָר בֵּי רִבִּי צָדוֹק דְּתַנִּינָן תַּמָּן חוּלִּין שֶׁנַּעֲשׂוּ עַל גַּבֵּי הַקּוֹדֶשׁ הֲרֵי אֵילוּ כְּחוּלִּין. רִבִּי אֶלְעָזָר בֵּי רִבִּי צָדוֹק אוֹמֵר הֲרֵי אֵילוּ כִתְרוּמָה לְטַמֵּא שְׁנַיִם וְלִפְסוֹל אֶחָד.

Mas, segundo Beit Shamai, há o conceito de impureza de "mãos" mesmo para alimento comum (pois sua razão, no segmento anterior, pressupõe que essa impureza tenha peso mesmo fora da terumá — o que contradiz a segunda explicação de Beit Hilel). Explica-se a posição de Beit Shamai ou segundo Rabi Shimon ben Elazar, ou segundo Rabi Elazar bei Rabi Tzadok. Segundo Rabi Shimon ben Elazar, pois foi ensinado: Rabi Shimon ben Elazar diz em nome de Rabi Meir: as mãos são de impureza de primeiro grau para alimento comum, e de segundo grau para terumá (de modo que as mãos não lavadas contaminam também o alimento comum, embora em grau mais leve do que contaminam a terumá — de acordo, portanto, com a razão de Beit Shamai). Ou segundo Rabi Elazar bei Rabi Tzadok, pois ensinamos ali (noutra Mishná): o alimento comum que foi preparado conforme as regras de pureza das oferendas sagradas do Templo é considerado como alimento comum (quanto ao seu grau de contaminação). Rabi Elazar bei Rabi Tzadok diz: eis que este é como a terumá, contaminando em dois graus e desqualificando num terceiro (ou seja, também para esse alimento comum tratado com o rigor das oferendas há impureza de mãos, tal como para a terumá — apoiando, também por este caminho, a razão de Beit Shamai).

04A Mishná de Eduyot sobre o óleo puro que goteja depois da imersão: as posições de Beit Shamai e Beit Hilel parecem invertidas em relação às desta halachá; explicação da diferença
Yerushalmi · Berachot 8:3
תַּמָּן תַּנִּינָן הַסָּךְ שֶׁמֶן טָהוֹר נִטְמָא וְיָרַד וְטָבַל. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים אַף עַל פִּי מְנַטֵּף טָהוֹר. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים טָמֵא. וְאִם הָיָה שֶׁמֶן טָמֵא מִתְּחִילָּתָן בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים כְּדֵי סִיכַת אֵבֶר קָטָן. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים מַשְׁקֶה טוֹפֵחַ. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מִשּׁוּם בֵּית הִלֵּל טוֹפֵחַ וּמַטְפִּיחַ. מוּחְלֶפֶת שִׁיטָּתְהוֹן דְּבֵית הִלֵּל תַּמָּן אָמְרִין טָמֵא וְהָכָא אָמְרִין טָהוֹר. תַּמָּן בְּעֵינוֹ הוּא. וְהָכָא בָּלוּעַ בְּמַפָּה הוּא.

Ensinamos ali (na Mishná de Eduyot): quem se untou com óleo puro e depois se tornou impuro, desceu e imergiu-se (no mikvê, para purificar-se). Beit Shamai diz: o óleo permanece puro, mesmo que ainda goteje de seu corpo. E Beit Hilel diz: impuro. E se o óleo já era impuro desde o início, Beit Shamai diz: a imersão só o purifica quanto à quantidade suficiente para untar um membro pequeno (o de um recém-nascido, a menor medida capaz de se purificar junto com o corpo). E Beit Hilel diz: quanto à quantidade que ainda goteja como líquido úmido. Rabi Yehudá diz em nome de Beit Hilel: quanto à quantidade que fica úmida e umedece outra coisa ao toque. Eis que aqui a posição de Beit Hilel parece invertida: ali (na Mishná de Eduyot) dizem impuro, e aqui (nesta halachá, quanto ao pano sobre a almofada) dizem puro. A resposta é que ali o óleo está a descoberto (visível sobre a pele, sujeito a nova contaminação direta), e aqui o líquido está absorvido no pano (e por isso tratado com mais leniência).

Nota

Esta terceira halachá do Perek Chet traz a terceira diferença de costume entre Beit Shamai e Beit Hilel numa refeição: onde pousar o pano usado para enxugar as mãos depois de lavá-las — Beit Shamai diz que sobre a mesa, Beit Hilel diz que sobre a almofada. A guemará esclarece primeiro que a Mishná pressupõe uma mesa que, por ser de mármore ou de peças desmontáveis, não pode receber impureza — condição necessária para que a posição de Beit Shamai faça sentido. Explica então a razão de cada escola em termos de pureza ritual dos líquidos absorvidos no pano, mas nota uma dificuldade: a razão dada para Beit Shamai pressupõe que exista impureza de "mãos" mesmo para alimento comum, o que a segunda explicação de Beit Hilel nega. A dificuldade é resolvida citando a posição de Rabi Shimon ben Elazar em nome de Rabi Meir, segundo a qual as mãos contaminam o alimento comum em primeiro grau e a terumá em segundo grau, ou a de Rabi Elazar bei Rabi Tzadok, sobre o alimento comum preparado com o rigor das oferendas sagradas. A halachá fecha citando a Mishná de Eduyot sobre o óleo puro que goteja do corpo depois da imersão no mikvê, onde a posição de Beit Hilel parece invertida em relação à desta halachá, e explica a diferença: ali o óleo está exposto sobre a pele, aqui o líquido está absorvido dentro do pano.