Esta halachá abre uma nova Mishná, que aprofunda a condição de chaver (companheiro, observante rigoroso das leis de pureza e dízimo) além da simples confiabilidade quanto a dízimos tratada em 2:2. A Mishná ensina que aquele que aceita sobre si ser chaver não vende ao am ha'aretz produto úmido nem seco, não compra dele produto úmido, não se hospeda com ele e não o hospeda vestido com sua própria roupa; Rabi Yehudá acrescenta que ele também não deve criar gado miúdo, não deve ser leviano em votos nem em riso, não deve se contaminar por mortos e deve frequentar a casa de estudo — ao que os sábios replicam que estas últimas condições não fazem parte da categoria formal de chaverut. A guemará explica por que o produto seco é permitido, distingue a confiabilidade do am ha'aretz quanto à preparação e quanto à impureza, reconcilia a posição de Rabi Yehudá com as opiniões de Rabi Yona e Rabi Yossei sobre pureza e dízimo, traz a baraita sobre a aceitação pública das regras de chaverut — com exceção do sábio já assentado em academia —, o episódio de Reish Lakish na casa de Rabi Yanai, as regras sobre filhos e familiares, a ordem de ensino das disciplinas de pureza, e fecha com o caso do chaver que se torna cobrador de impostos e do que sai da Terra de Israel.
Mishná: Aquele que aceita sobre si ser chaver (companheiro, observante rigoroso de pureza e dízimo) não vende ao am ha'aretz (pessoa comum, não confiável quanto a essas leis) produto úmido nem seco (pois todo alimento vendido ao am ha'aretz certamente será por ele contaminado), e não compra dele produto úmido (porque as mãos não lavadas do am ha'aretz são presumidamente impuras, e a impureza se transmite com facilidade a um líquido ou a alimento úmido), e não se hospeda junto ao am ha'aretz, e não o hospeda em sua própria casa trajado com a roupa dele (pois certas impurezas do corpo — como as de fluxo — contaminam também as vestes de quem as tem; por isso só pode recebê-lo como hóspede se primeiro o purificar e o vestir com roupa própria e pura). Rabi Yehudá diz: além disso, ele não deve criar gado miúdo (ovinos e caprinos, cujo pastoreio costuma invadir terras alheias e causar dano), não deve ser leviano em votos nem em riso (por temor de não cumprir os votos à risca, e porque o riso é incompatível com o temor constante do Rei dos reis), não deve se contaminar por causa dos mortos (indo além do que a maioria consideraria um dever sagrado de enterrar os mortos, por zelo extra de pureza), e deve ser assíduo na casa de estudo. Disseram-lhe os sábios, em réplica: estas condições adicionais não entraram na categoria (dos requisitos formais que definem a aceitação da chaverut).
Halachá: A Mishná ensinou: "não compra dele produto úmido" — logo, o seco é permitido, pois os amei ha'aretz são confiáveis quanto à preparação (isto é, quanto a dizer se o produto entrou ou não em contato com líquido, o que o tornaria suscetível a impureza). E assim foi ensinado: o am ha'aretz é confiável para dizer "estes frutos não foram preparados" (ainda não tocaram líquido, logo não podem ter recebido impureza); mas não é confiável para dizer "foram preparados, mas não receberam a impureza" (pois, uma vez que o produto tocou líquido e passou pelas mãos presumidamente impuras do am ha'aretz, presume-se que ficou impuro, e sua palavra não basta para afastar essa presunção).
Eis que, por dedução, ao aceitar as restrições de não se hospedar e não hospedar, ele (Rabi Yehudá) concorda com as primeiras cláusulas da Mishná (embora em 2:2 tenha discordado apenas quanto ao caso específico do hóspede que se dizima a si mesmo). Isso não contradiz Rabi Yona, pois Rabi Yona disse: os chaverim não são suspeitos nem de comer nem de dar de comer produto não corrigido — mesmo assim, o chaver não deve ir e contaminar seu próprio corpo (hospedando-se na casa de um am ha'aretz, cujos móveis presume-se estarem contaminados), e vir depois a contaminar as purezas (de sua própria casa, ao retornar ainda impuro). E mesmo com Rabi Yossei isso não contradiz: pois Rabi Yossei disse: os chaverim são suspeitos de comer produto não corrigido, mas não são suspeitos de dar de comer a outros — ali (a afirmação de Rabi Yossei) se refere às purezas, mas aqui (nesta Mishná) se refere aos dízimos (são categorias distintas: a suspeita quanto à pureza ritual do corpo é diferente da suspeita quanto à correção do produto para fins de dízimo). Aquele que é confiável quanto às purezas é confiável quanto aos dízimos.
Foi ensinado: todo aquele que se apresenta (candidato à chaverut) precisa aceitar sobre si as regras, mesmo que já seja chaver, mesmo que seja discípulo dos sábios; mas o sábio que já assentou em academia (isto é, já integra o tribunal rabínico) não precisa aceitar sobre si, pois já aceitou desde a hora em que assentou. Disse Rabi La: e isso é assim apenas se ele aceitou desde a primeira hora (em que ingressou na academia). Rabi Yossei perguntou: se a condição é que tenha aceitado desde a primeira hora, para que preciso eu de mencionar "chaver" — mesmo um am ha'aretz que assim aceitasse desde o início se qualificaria? A posição de Rabi La segue a de Rabi Shimon ben Lakish (Reish Lakish). Pois Rabi Shimon ben Lakish subiu para visitar aqueles da casa de Rabi Yanai (a academia, após a morte deste), e as mulheres o viram e se afastaram dele (para que ele não tocasse suas roupas e se contaminasse). Disse-lhes: eu mesmo entrarei em vossa casa (isto é, não há por que temer) — sou como um am ha'aretz quanto às purezas (mesmo sendo um sábio de segunda posição na academia de seu tempo, ele próprio não se considerava chaver no sentido pleno da Mishná).
Foi ensinado: ele (o chefe da casa) responde e presta contas à chavurá (a confraria de chaverim), e seus filhos e os membros de sua casa respondem a ele (isto é, aceitam a chaverut por meio dele, sem necessidade de comparecer pessoalmente perante a chavurá). Há tanaítas que ensinam: ele, seus filhos e os membros de sua casa respondem à chavurá (todos comparecem pessoalmente). E não há contradição: aqui (a primeira versão) trata-se de quando eles dependem de seu pai (ainda sustentados por ele), e aqui (a segunda versão) trata-se de quando não dependem de seu pai (já independentes, devendo aceitar por si mesmos). Ensinou Rabi Chalafta ben Shaul: os adultos respondem à chavurá, os menores respondem a ele (ao pai — distinção por idade, e não por dependência econômica).
Foi ensinado: primeiro aproximam o aspirante pelas regras das "asas" (termo que designa as mãos, que o candidato deve prometer lavar antes de comer), e depois lhe ensinam as purezas. Disse Rabi Yitzchak ben Elazar: a ordem completa do ensino é: asas, depois as leis de madafot ("odores" de impureza — as impurezas transmitidas por aquilo que está sobre o impuro, sem contato direto), depois as leis de hasatot (objetos empurrados ou deslocados pelo impuro, que também se tornam impuros), depois as demais leis de purezas (o restante do tratado de Taharot), e por fim as leis de dízimos.
No início diziam: o chaver que se torna cobrador de impostos (gabai — função presumida de envolver desonestidade, pois o cobrador precisava recuperar do povo mais do que pagara ao governo), afastam-no de sua chavurá (permanentemente, mesmo depois de deixar o cargo). Voltaram a dizer: só enquanto ele é cobrador o afastam de sua chavurá; uma vez que ele saiu de sua função de cobrador, eis que ele volta a ser como um chaver (a exclusão deixou de ser permanente e passou a durar apenas o tempo do cargo, pois em muitos casos o governo forçava a pessoa a assumir a cobrança contra sua vontade).
Chiya bar Rabi Bun em nome de Rabi Yochanan: o chaver que saiu para fora da Terra de Israel (terra presumidamente impura) não o afastam de sua chavurá (pois essa impureza não é da Torá, e se remove com facilidade ao retornar — por isso viajar para fora da Terra não era malvisto, exceto para sacerdotes). E eis que o menor não precisa de aproximação (não precisa passar pelo processo gradual de instrução nas "asas" e nas purezas, pois assume a chaverut automaticamente por meio da aceitação de seu pai).
Esta terceira halachá do Perek Bet de Massechet Demai abre uma nova Mishná que aprofunda a condição de chaver além da simples confiabilidade quanto a dízimos. O chaver não vende ao am ha'aretz produto úmido nem seco, não compra dele produto úmido, não se hospeda com ele nem o hospeda com sua própria roupa; Rabi Yehudá acrescenta restrições sobre gado miúdo, votos, riso, impureza por mortos e frequência à casa de estudo, que os sábios rejeitam como parte da categoria formal de chaverut.
A guemará explica que o produto seco é permitido porque os amei ha'aretz são confiáveis quanto à preparação, ainda que não quanto a afirmar que não receberam impureza; mostra que a posição de Rabi Yehudá não contradiz nem Rabi Yona nem Rabi Yossei, pois um fala de pureza e o outro de dízimo; traz a baraita sobre a aceitação pública das regras, com exceção do sábio já assentado em academia, a disputa entre Rabi La e Rabi Yossei sobre desde quando essa aceitação vale, e o episódio de Rabi Shimon ben Lakish junto às mulheres da casa de Rabi Yanai.
Fecha com as regras sobre filhos e familiares respondendo pelo chefe da casa ou pela chavurá conforme dependência ou idade, a ordem de ensino das disciplinas — das "asas" até os dízimos —, e dois casos de afastamento da chavurá: o chaver que se torna cobrador de impostos, afastado apenas enquanto exerce o cargo, e o que sai da Terra de Israel, que não é afastado.