Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Heh · Halachá 3
דְּמַאי

Quem compra pão do padeiro: dízimo do quente sobre o frio, e a disputa sobre até que ponto os pães contam como do mesmo tipo

Perek Heh, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Demai

Nova Mishná: quem compra pão do padeiro pode separar dízimo do pão quente sobre o frio e do frio sobre o quente, mesmo de muitos formatos (moldes ou fornadas diferentes), segundo Rabi Meir; Rabi Yehuda proíbe, dizendo que o trigo de ontem pode ter vindo de uma fonte e o de hoje de outra (uma dizimada, a outra não); Rabi Shimon proíbe quanto à teruma do dízimo e permite quanto à challá. A guemará traz, em nome dos alunos de Rabi Chiya, citando Rabi Yehoshua ben Levi, o limite de trinta dias para que pães de compras sucessivas ainda contem como do mesmo tipo, com o caso de quem compra no início, no meio e no fim desse período; depois retoma a opinião de Rabi Shimon e pergunta se, por consequência, também Rabi Yehuda proíbe quanto à challá; discute se a challá já se torna obrigatória na casa do padeiro independentemente da origem da farinha, levanta a hipótese de tomar emprestado fermento impuro ou pão impuro de outro padeiro para completar a massa ou o forno, e resolve a contradição entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon através das posições de Rabi Yochanan, Rabi Elazar e Rabi Yudan, pai de Rabi Matanya — concluindo com a diferença exata entre as duas opiniões quanto ao que pode, ou não, ser dizimado de uma fornada sobre outra.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַלּוֹקֵחַ מִן הַנַּחְתּוֹם מְעַשֵּׂר מִן הַחַמָּה עַל הַצּוֹנֶנֶת וּמִן הַצּוֹנֶנֶת עַל הַחַמָּה אֲפִילוּ מִטֻפּוֹסִים הַרְבֶּה דִּבְרֵי רִבִּי מֵאִיר. רִבִּי יְהוּדָה אוֹסֵר שֶׁאֲנִי אוֹמֵר חִטִּים שֶׁל אֶמֶשׁ הָיוּ מִשֶּׁל אֶחָד וְשֶׁל הַיּוֹם הָיוּ מִשֶּׁל אַחֵר. רִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹסֵר בִּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַתִּיר בְּחַלָּה.

Mishná: Quem compra pão do padeiro pode separar o dízimo do pão quente sobre o frio e do frio sobre o quente (isto é, do pão de hoje sobre o de ontem e do de ontem sobre o de hoje), mesmo que sejam de muitos formatos (moldes, fornadas ou tipos diferentes) — palavras de Rabi Meir. Rabi Yehuda proíbe, pois eu digo que o trigo de ontem à noite era de um lote, e o de hoje era de outro (um pode ter sido dizimado corretamente e o outro não, de modo que não se pode presumir que sejam do mesmo tratamento). Rabi Shimon proíbe quanto à teruma do dízimo e permite quanto à challá.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01Até quando os pães contam como do mesmo tipo? Trinta dias, segundo os alunos de Rabi Chiya em nome de Rabi Yehoshua ben Levi
Yerushalmi · Demai 5:3
עַד הֵיכַן תַּלְמִידוֹי שֶׁל רִבִּי חִיָיא בְשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי עַד שְׁלֹשִׁים יוֹם. הֵיךְ עֲבִידָא לָקַח מִמֶּנּוּ בִּתְחִילַּת שְׁלֹשִׁים וּבְאֶמְצַע שְׁלֹשִׁים וּבְסוֹף שְׁלֹשִׁים. רִאשׁוֹן עַל גַּבֵּי שֵׁנִי מִין אֶחָד הוּא רִאשׁוֹן עַל גַּבֵּי שְׁלִישִי שְׁנֵי מִינִין הֵן.

Até quando vale a permissão de Rabi Meir de dizimar um pão sobre o outro? Os alunos de Rabi Chiya, em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: até trinta dias (sem incluir o trigésimo dia; depois desse prazo, presume-se que a fonte do trigo tenha mudado). Como se dá o caso concreto? Se alguém comprou dele pão no início dos trinta dias, no meio dos trinta, e no fim dos trinta dias — o primeiro lote pode ser dizimado sobre o segundo, pois ainda são um único tipo (estão dentro do mesmo período de trinta dias); o primeiro sobre o terceiro já não pode, pois são dois tipos (o intervalo entre o primeiro e o terceiro excede os trinta dias, ainda que cada par sucessivo, tomado isoladamente, caiba dentro do prazo).

02Se Rabi Shimon proíbe quanto à teruma do dízimo e permite quanto à challá, também Rabi Yehuda proíbe quanto à challá?
Yerushalmi · Demai 5:3
רִבִּי שִׁמְעוֹן אֹסֵר בִּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַתִּיר בְּחַלָּה. וְרִבִּי יוּדָה אוֹסֵר בְּחַלָּה.

Repete-se a fórmula da Mishná: "Rabi Shimon proíbe quanto à teruma do dízimo e permite quanto à challá." Se assim é para Rabi Shimon, segue-se que também Rabi Yehuda proíbe quanto à challá (pois, se a Mishná menciona Rabi Shimon como discordando de Rabi Yehuda especificamente quanto à challá, é porque Rabi Yehuda, ao calar-se sobre a challá, na verdade também a proíbe, sendo Rabi Shimon o mais brando dos dois nesse ponto).

03Mas a challá não se torna obrigatória já na casa do padeiro, independentemente da origem da farinha? A hipótese do fermento emprestado de am haaretz
Yerushalmi · Demai 5:3
וְלֹא אֶצְלוֹ הִיא נִטְבֶּלֶת אֶלָּא בְּשׁוֹאֵל שְׂאוֹר טָמֵא לַעֲשׂוֹת עִיסָּתוֹ.

Mas não é em sua própria casa, a do padeiro, que a massa se torna sujeita a tevel (obrigada à separação de challá — pois a obrigação de challá começa quando o padeiro amassa sua própria massa, e não depende de onde ele comprou a farinha, sendo portanto irrelevante se o trigo de ontem e o de hoje vieram de fontes diferentes)? A resposta é: a não ser que ele tome emprestado fermento impuro (de um am haaretz, isto é, comprado de alguém que não se preocupa com a pureza ritual de seu alimento, embora não seja literalmente impuro no sentido cerimonial, mas que também não leva a sério a separação da teruma do dízimo) para fazer sua massa (nesse caso, uma parte do fermento usado veio de uma fonte já dizimada e outra parte não, o que reintroduz o problema levantado por Rabi Yehuda mesmo dentro da própria casa do padeiro).

04Mesmo assim, não se torna tevel em sua casa? A hipótese do pão impuro emprestado para completar o forno
Yerushalmi · Demai 5:3
אֲפִילוּ כֵן לֹא אֶצְלוֹ הִיא נִטְבֶּלֶת. אֶלָּא בְשׁוֹאֵל כִּכָּר טָמֵא לְמַלְאוֹת תַּנּוּר.

Mesmo assim (mesmo no caso do fermento emprestado), não é em sua própria casa que a challá se torna sujeita a tevel (pois a distinção quanto à origem, embora relevante para a teruma do dízimo, é irrelevante para a challá, que depende apenas do ato de amassar). A resposta é: a não ser que ele tome emprestado um pão impuro (de outro padeiro, am haaretz) para completar o forno (preenchendo o espaço vazio com pães já assados alheios, misturando-os fisicamente com os seus próprios antes de retirá-los).

05Se assim, não seria necessário dizimar cada pão individualmente? A questão é atribuída a Rabi Yochanan
Yerushalmi · Demai 5:3
וְאִם בְּשׁוֹאֵל כִּכָּר טָמֵא לְמַלְאוֹת תַּנּוּרוֹ. מְעַשֵּׂר מִכָּל כִּכָּר וְכִכָּר.

E se o caso é o de quem toma emprestado um pão impuro para completar seu forno (misturando pães de fontes diferentes, indistinguíveis entre si depois de assados), não seria necessário então que ele separasse o dízimo de cada pão individualmente (já que o outro padeiro pode já ter separado challá de sua própria massa, e depois de assado não há mais como distinguir um pão do outro; não se pode separar challá — que é uma forma de teruma — de um pão já pronto e "em ordem", restando apenas a solução de tratar cada pão isoladamente, como demai, sem confiar num único ato para todos)?

06A contradição entre Rabi Yochanan e Rabi Elazar sobre pureza e impureza, e a resolução de Rabi Yudan, pai de Rabi Matanya
Yerushalmi · Demai 5:3
אֶלָּא כְּרִבִּי יוֹחָנָן דְּרִבִּי יוֹחָנָן אָמַר כַּאן בְּעוֹשֶׂה בְטָהֳרָה כַּאן בְּעוֹשֶׂה בְטוּמְאָה. אֶלָּא כְרִבִּי אֶלְעָזָר דְּרִבִּי אֶלְעָזָר אָמַר כַּאן וְכַאן בְּעוֹשֶׂה בְטָהֳרָה. אָמַר רִבִּי יוּדָן אָבוֹי דְּרִבִּי מַתַּנְיָה בְּעוֹשֶׂה בְטוּמְאָה קַיְימִינָן וְאֶצְלוֹ הִיא נִטְבֶּלֶת. אוֹף רִבִּי יוּדָה מוֹדֶה בָהּ.

Esta conclusão está de acordo com Rabi Yochanan, pois Rabi Yochanan disse a respeito de outra Mishná (5:4): aqui trata-se de quem trabalha em pureza (e ali cada pão precisa ser tratado por si), e aqui (no nosso caso), trata-se de quem trabalha em impureza (e por isso o pão emprestado pode ser misturado sem distinção). Mas como isso se sustenta de acordo com Rabi Elazar, pois Rabi Elazar disse que, tanto aqui quanto ali, trata-se de quem trabalha em pureza (caso em que a distinção entre os dois casos, que Rabi Yochanan propôs, não se sustentaria)? Disse Rabi Yudan, pai de Rabi Matanya: estamos lidando aqui com quem trabalha em impureza, e é em sua própria casa que a massa se torna sujeita a tevel (pois quem não se importa com pureza também não se importa em separar corretamente o dízimo, e por isso o problema levantado por Rabi Yehuda permanece mesmo aqui); também Rabi Yehuda concorda com isso.

07A baraita confirma: Rabi Yehuda e Rabi Shimon proíbem quanto à teruma do dízimo e permitem quanto à challá — mas então, qual é a diferença entre eles?
Yerushalmi · Demai 5:3
וְתַנִּי כֵן רִבִּי יוּדָה וְרִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹסְרִין בִּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַתִּירִין בְּחַלָּה. הָא רִבִּי יוֹדָה אוֹסֵר בִּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַתִּיר בְּחַלָּה. רִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹסֵר בִּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַתִּיר בְּחַלָּה. מַה בֵּינֵיהוֹן.

E foi assim ensinado numa baraita: "Rabi Yehuda e Rabi Shimon proíbem quanto à teruma do dízimo e permitem quanto à challá." Isso mostra que, afinal, Rabi Yehuda proíbe quanto à teruma do dízimo e permite quanto à challá; Rabi Shimon proíbe quanto à teruma do dízimo e permite quanto à challá (a mesma posição, aparentemente, para os dois — contradizendo a leitura anterior, que via Rabi Yehuda como mais restritivo quanto à challá). Se assim é, qual é a diferença entre eles (já que a Mishná os apresenta como discordantes)?

08A resposta final: Rabi Yehuda permite dizimar de um forno sobre outro forno do mesmo dia; Rabi Shimon proíbe até isso
Yerushalmi · Demai 5:3
עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי יוּדָה אֵינוֹ מַפְרִישׁ לֹא מִשֶּׁל הַיּוֹם עַל שֶׁל אֶמֶשׁ וְלֹא מִשֶּׁל אֶמֶשׁ עַל שֶׁל יוֹם מַפְרִישׁ מִן הַתַּנּוּר עַל הַתַּנּוּר. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן אֲפִילוּ מִן הַתַּנּוּר עַל הַתַּנּוּר אֵינוֹ מַפְרִישׁ.

Na opinião de Rabi Yehuda, não se separa o dízimo nem do pão de hoje sobre o de ontem à noite, nem do de ontem à noite sobre o de hoje (quanto à teruma do dízimo, por causa da possível diferença de fonte entre um dia e outro); mas separa-se o dízimo de um forno sobre outro forno (quando ambas as fornadas são do mesmo dia, pois nesse caso presume-se a mesma fonte de trigo, e a separação entre uma fornada e outra do mesmo dia é permitida). Na opinião de Rabi Shimon, nem sequer de um forno sobre outro forno se separa (pois ele é mais restritivo, e não confia nem mesmo em fornadas do mesmo dia como sendo necessariamente da mesma fonte de trigo, quanto à teruma do dízimo).

Nota

Esta terceira halachá do Perek Heh traz uma nova Mishná sobre quem compra pão do padeiro: segundo Rabi Meir, pode-se separar o dízimo do pão quente sobre o frio e vice-versa, mesmo entre formatos diferentes; Rabi Yehuda proíbe, temendo que o trigo de dias diferentes venha de fontes distintas, uma dizimada e outra não; Rabi Shimon distingue, proibindo quanto à teruma do dízimo mas permitindo quanto à challá. A guemará fixa em trinta dias o limite dentro do qual pães de compras sucessivas ainda contam como do mesmo tipo, segundo os alunos de Rabi Chiya em nome de Rabi Yehoshua ben Levi, com o exemplo de quem compra no início, no meio e no fim desse período.

A guemará então examina se, por paralelismo com Rabi Shimon, também Rabi Yehuda proibiria quanto à challá, levantando a objeção de que a obrigação de challá nasce já na casa do padeiro, independente da origem da farinha — a menos que ele tome emprestado fermento ou pão impuro de um am haaretz para completar sua massa ou seu forno, misturando fisicamente produtos de fontes distintas. Essa linha de raciocínio é reconciliada com a posição de Rabi Yochanan sobre pureza e impureza, contra a objeção de Rabi Elazar, através da resolução de Rabi Yudan, pai de Rabi Matanya. Por fim, uma baraita citada mostra que tanto Rabi Yehuda quanto Rabi Shimon proíbem quanto à teruma do dízimo e permitem quanto à challá, o que levanta a pergunta final sobre a real diferença entre eles: Rabi Yehuda permite dizimar de um forno sobre outro forno do mesmo dia, enquanto Rabi Shimon proíbe até isso.